Há os que vivem em um mar de certezas, por mais turbulentos
e imprevisíveis que sejam os tempos em que vivemos. Em qualquer situação, estão
certos do que está ocorrendo e do que vai acontecer. E, se não acontece, não
foi ele que errou, mas a culpa é de variáveis imponderáveis que surgiram. A
convicção da certeza persiste.
Aos que, desta natureza, se apoiam em pesquisas de opinião,
mantêm a mesma postura. Nunca erram. O que ele falou se refere a um momento que
passou. A culpa é deste e não de suas opiniões, sempre certas. Em último caso,
o erro é do eleitor que mudou de opinião na hora em que se viu em frente à urna
e com a consciência acima.
Prefiro pensar que tudo pode acontecer
nessas eleições. O presidente pode ser qualquer um dos que ocupam os dois
primeiros lugares. O Senado e a Câmara tendem a manter a maioria conservadora
dos partidos do Centrão. Porém, não se sabe em que proporção, dentre estes,
será da extrema-direita, esses conservadores que não têm compromisso com as
regras democráticas. Nos estados, a situação é mais plural e complexa, diversa.
Quanto mais perto da vida cotidiana das pessoas, menos valor têm as ideologias.
Por isso mesmo, famílias de forte tradição na vida partidária têm membros em
todos (ou quase todos) os partidos relevantes no local.
Há indícios de vitória de um e de outro lado no caso das
eleições presidenciais, que são aquelas que galvanizam a opinião pública, a
grande mídia e as mídias sociais. O Estadão, este paladino do
tradicional conservadorismo brasileiro, em seus editoriais demarcou uma
distância clara da família Bolsonaro ou da “família de milicianos”, como
sugeriu. Já a Globo, aos poucos, foi se parecendo cada vez mais com
aquela que editou o debate Collor x Lula, a favor do primeiro, influindo no
resultado eleitoral de 1989. O debate na quinta-feira tem algo difícil de ser
explicado convincentemente: a ausência de um nome (Renan) e a presença de outro
(Zema), este com menor percentual de intenção de votos. A Globo preferiu
utilizar outro critério que não este. O critico à Bolsonaro foi preterido em
favor de um crítico à Lula. Diante do fato de ter que debater com quatro adversários,
Lula tomou a decisão de ausentar-se; quatro a um é demais. As consequências
desta decisão nas eleições não são conhecidas.
O movimento de grandes grupos empresariais no campo da
informação nunca se faz de maneira gratuita. Seriam as posições citadas: uma,
de medo de um perseguidor da grande imprensa, e outra, de aproximação deste
mesmo perseguidor para se manter viva?
O empate entre Bolsonaro e Lula provavelmente vai ser
resolvido entre sábado e domingo: pelos indecisos, pelo voto útil ou pelos
dois. O voto útil favorece Bolsonaro; os indecisos, por sua vez, podem ser
movidos pelo medo da insegurança do novo ou pelo toque das últimas medidas
adotadas em seu favor, particularmente as mulheres, por parte do governo. Este
sentimento será maior do que o provocado pela carestia ao longo do ano?
O sentimento nas respectivas hostes políticas também conta.
Aparentemente, o sentimento de “já ganhou” é maior entre os
apoiadores de Bolsonaro. Em parte, pela resiliência demonstrada, sobrevivendo
ao escândalo do banco e seu envolvimento e às medidas tomadas recentemente pelo
governo. Em parte, pela recente ascensão, reduzindo sua distância do primeiro
lugar. O sentimento é de crescimento e de vitória, com a expectativa do
movimento do voto útil por parte dos eleitores dos outros candidatos
conservadores.
Por sua vez, a ascensão de Bolsonaro e o empate técnico
deixam as hostes lulistas inseguras por não verem resultados de crescimento com
as medidas populares adotadas, ou, em alguns casos, “desesperadas”. Impera um
sentimento de que a margem de crescimento se esgotou. E a derrota, que antes
era impensável, agora é uma possibilidade ou, para os mais pessimistas, uma
probabilidade.
Qualquer dos dois resultados não será bom para o País, sendo
a vitória de Bolsonaro muito pior. Pior para os pobres, que voltarão ao mapa da
fome; para os trabalhadores de salário mínimo, que não terão reajustes acima da
inflação; para os ativistas democráticos, que serão ameaçados e presos; para os
negros, com o crescimento do discurso da supremacia branca; para as mulheres,
que terão portas fechadas em sua luta pela igualdade de direitos; ruim para os
nacionalistas, que verão o controle americano sobre as terras raras, último
baluarte de riqueza mineral. E pior ainda será para os indígenas, com ameaças
sobre suas terras e o estímulo governamental ao agronegócio e à mineração
degradadora do meio ambiente. Este sofrerá como nunca, e os dois anos de
redução do desmatamento desaparecerão com o aumento da derrubada das florestas.
Enfim, o risco de ingressarmos em um regime autoritário, sem respeito pela
imprensa nem pelos opositores, é real. Aos poucos, porque hoje não se derruba a
democracia com canhões, mas assiste-se ao sufocamento e a submissão dos poderes
constitucionais (Legislativo e Judiciário) ao Executivo, assim como, o
cerceamento da oposição.
No caso da vitória de Lula, a democracia não estará
imediatamente ameaçada, mas o déficit público vai obrigar a adoção de medidas
pouco populares; as tensões políticas, com um Congresso opositor, vão
dificultar a governabilidade; a polarização será mantida, com repercussões
sobre a paz social; a criminalidade deverá crescer, e a aprovação do governo
será suficientemente baixa para alimentar movimentos de impeachment e
contestação. As instituições democráticas poderão estar ainda mais desgastadas
ao final de seu governo, alimentando o discurso dos neorreacionários.
Por enquanto, a incerteza é a rainha do pedaço. Sinal de
democracia, como diria Przeworski. Hoje, contudo, o risco de sua destruição
gradativa é real. Aqui e acolá, no Brasil e no mundo ocidental. Domingo será um
dia relevante nesta luta.
*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II
da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento
Sustentável/UnB (2007/2011).
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