Em menos de um mês, PM paulista mata terceira pessoa em
aparente surto psicótico
É assustador que cúpula da polícia não consiga fazer
agentes seguirem protocolo
Às vezes eu me pergunto se o governador Tarcísio
de Freitas e a cúpula da segurança pública de São Paulo são
apenas incompetentes ou se têm também maldade no coração. Só neste mês, que mal
passou da metade, já se registraram três
casos de cidadãos em aparente surto psicótico mortos pela PM. Em dois
deles, os policiais dispararam
mais de 20 vezes contra as vítimas.
Falei em incompetência porque as
circunstâncias desses óbitos estão em total desacordo com o protocolo da PM
para a abordagem de suspeitos, notadamente daqueles que se imagina estarem sob
estresse psíquico. A primeira providência deveria ter sido acionar o Samu. A
tentativa de usar armamentos menos letais antes dos tiros também teria sido
obrigatória. Mesmo que os suspeitos representassem ameaça real à vida dos
policiais ou de terceiros, os agentes falharam. O método
Giraldi, adotado em SP, jamais autoriza descarregar a arma contra o
suspeito. Será que os comandantes não conseguem treinar seu pessoal para seguir
a regra que a própria instituição desenhou?
Falei em maldade porque ninguém fora do espectro do sadismo
ou da psicopatia pode considerar aceitável que pessoas morram porque a polícia
não consegue comportar-se como ela mesma acha que deveria.
Se fossem casos isolados, até daria para deixar passar. Mas o que não falta são
histórias escabrosas recentes envolvendo a PM que ainda ocorrem num contexto de
persistente aumento nos óbitos por intervenção policial.
Para piorar o quadro, a psicologia moral sugere que o ser humano já vem de
fábrica com mecanismos que inibem sua disposição de infligir danos em seus
semelhantes. Não se trata, por óbvio, de uma trava absoluta, mas cérebros
saudáveis sentem repulsa emocional em provocar dor em terceiros. Uma das formas
de reverter essas inibições é submeter a tropa a uma cultura que valorize o
policial matador. Que os PMs estejam mergulhados nela é compreensível, embora
lamentável. Que o governador e outras autoridades chancelem essa cultura de
morte é imperdoável.

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