No segundo turno, o Brasil reencontrou o vigor, a alegria
e o engajamento de jovens estudantes, que andavam sumidos das ruas
A campanha presidencial que amanheceu morna, anoitece
fervendo. O pleito de 2026 já está na História como o mais disputado,
sobressaltado, imprevisível e arriscado para o regime instituído pela
Constituição de 1988. Amanhã, o Brasil escolhe entre democracia e
autoritarismo, diversidade e supremacismo, avanço e retrocesso, soberania e
subordinação, enfrentamento às desigualdades e salve-se quem puder. Não há
meio-termo.
Depois de um primeiro turno tragado pela
crise fratricida no Supremo Tribunal Federal (STF),
as três semanas até o resultado final deixaram lampejos tanto sobre os projetos
políticos em disputa quanto sobre os caminhos de mobilização e resistência pela
sociedade civil. A totalização dos votos nas urnas não retirará do campo
progressista o repertório amealhado de última hora, mas de vida útil duradoura.
É dele que me ocupo nesta véspera do 25 de outubro, Dia da Democracia no
Brasil. A efeméride foi instituída em honra e memória do jornalista Vladimir
Herzog, torturado e assassinado por agentes da ditadura, em 1975.
Foi no segundo turno da eleição presidencial de 2026 que o
Brasil reencontrou o vigor, a alegria e o engajamento de jovens estudantes, que
andavam sumidos das praças, ruas, avenidas. A vitória de Flávio
Bolsonaro sobre Lula,
por 2 pontos percentuais, no primeiro turno não ativou apenas o modo
sobrevivência de nomes do Centrão, que se bandearam para o lado do candidato do
PL, e do presidente do Senado, Davi
Alcolumbre, que ficou com o petista.
Na noite da segunda-feira 5 de outubro, alunos da
Universidade Federal Fluminense marcharam por Niterói (RJ), num chamado
democrático que ecoou Brasil afora. Voltaram às mesmas ruas no dia seguinte. Na
quarta-feira, o centro da capital foi tomado por dezenas de milhares de
estudantes que atenderam à convocação da União Nacional dos Estudantes (UNE) e
de outras entidades.
A partir dali, nas capitais, em cidades médias e pequenas
localidades, os jovens não saíram mais das ruas. E foram acompanhados de
trabalhadores, aposentados, idosos, famílias, que se apresentaram para defender
educação pública inclusiva e de qualidade, trabalho digno e bem remunerado,
poder de compra, cultura e, claro, democracia. As manifestações numerosas e
volumosas, mesmo sem a presença do candidato, mais que um trunfo da campanha de
Lula, ressuscitaram na esquerda um meio de mobilização que, havia década,
parecia exclusiva da direita.
Também na sequência à derrota no primeiro turno, comunidades
de fãs de estrelas internacionais da música ofereceram perfis nas plataformas
digitais à campanha petista. Foram tão relevantes para o impressionante ato
pró-Lula na Avenida
Paulista, em São Paulo, no domingo 11 de outubro, que o candidato não só
compareceu, como agradeceu publicamente aos fandoms. Lula tornou-se
político de um tempo em que manifestação política era obra de sindicatos e
partidos.
A campanha pouco empolgante, algo embolorada, do PT no
primeiro turno abriu espaço às incursões digitais de jovens parlamentares
recém-eleitos, caso dos deputados Ana Elisa (PT-MG) e Guilherme Cortez
(PSOL-SP); para aliados vitoriosos no Nordeste, aí incluídos o governador
reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, e o senador Camilo Santana, coordenador da
campanha local no Ceará, Rui Costa e Jerônimo
Rodrigues, senador e governador reeleito da Bahia, respectivamente. Podem
vir dali os sinais de renovação de uma legenda refém das deliberações de seu
maior líder.
Fica também a herança da mais bem-sucedida experiência
digital da campanha de 2026, o “Exército do Lula”, obra do deputado André
Janones (Rede-MG). A convocação, que bateu a marca de 10 milhões de “soldados”,
horas antes do debate derradeiro entre Lula e Flávio, organizou como nunca
antes o eleitorado petista e simpatizantes. Janones aglutinou, orientou e
entusiasmou pessoas, num espelho à esquerda do que sempre fora monopólio, em
participar, da extrema direita. O engajamento foi capaz de aturdir algoritmos e
perturbar calejados influencers do campo conservador. Imprimiu aos integrantes
os sensos de propósito, pertencimento, importância. Prova disso foi o aumento
da relevância digital da campanha de Lula, atestado por indicador da Quaest. De
tão incômodo, o canal quase foi censurado pelo Tribunal Superior Eleitoral
(TSE).
Seja quem for o próximo presidente, o campo progressista
chega ao fim deste segundo turno com votos, régua e compasso. Para reivindicar.
Para resistir.

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