sábado, 24 de outubro de 2026

MOBILIZAÇÃO PROGRESSISTA SOBREVIVERÁ À ELEIÇÃO

Flávia Oliveira, O Globo

No segundo turno, o Brasil reencontrou o vigor, a alegria e o engajamento de jovens estudantes, que andavam sumidos das ruas

A campanha presidencial que amanheceu morna, anoitece fervendo. O pleito de 2026 já está na História como o mais disputado, sobressaltado, imprevisível e arriscado para o regime instituído pela Constituição de 1988. Amanhã, o Brasil escolhe entre democracia e autoritarismo, diversidade e supremacismo, avanço e retrocesso, soberania e subordinação, enfrentamento às desigualdades e salve-se quem puder. Não há meio-termo.

Depois de um primeiro turno tragado pela crise fratricida no Supremo Tribunal Federal (STF), as três semanas até o resultado final deixaram lampejos tanto sobre os projetos políticos em disputa quanto sobre os caminhos de mobilização e resistência pela sociedade civil. A totalização dos votos nas urnas não retirará do campo progressista o repertório amealhado de última hora, mas de vida útil duradoura. É dele que me ocupo nesta véspera do 25 de outubro, Dia da Democracia no Brasil. A efeméride foi instituída em honra e memória do jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado por agentes da ditadura, em 1975.

Foi no segundo turno da eleição presidencial de 2026 que o Brasil reencontrou o vigor, a alegria e o engajamento de jovens estudantes, que andavam sumidos das praças, ruas, avenidas. A vitória de Flávio Bolsonaro sobre Lula, por 2 pontos percentuais, no primeiro turno não ativou apenas o modo sobrevivência de nomes do Centrão, que se bandearam para o lado do candidato do PL, e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que ficou com o petista.

Na noite da segunda-feira 5 de outubro, alunos da Universidade Federal Fluminense marcharam por Niterói (RJ), num chamado democrático que ecoou Brasil afora. Voltaram às mesmas ruas no dia seguinte. Na quarta-feira, o centro da capital foi tomado por dezenas de milhares de estudantes que atenderam à convocação da União Nacional dos Estudantes (UNE) e de outras entidades.

A partir dali, nas capitais, em cidades médias e pequenas localidades, os jovens não saíram mais das ruas. E foram acompanhados de trabalhadores, aposentados, idosos, famílias, que se apresentaram para defender educação pública inclusiva e de qualidade, trabalho digno e bem remunerado, poder de compra, cultura e, claro, democracia. As manifestações numerosas e volumosas, mesmo sem a presença do candidato, mais que um trunfo da campanha de Lula, ressuscitaram na esquerda um meio de mobilização que, havia década, parecia exclusiva da direita.

Também na sequência à derrota no primeiro turno, comunidades de fãs de estrelas internacionais da música ofereceram perfis nas plataformas digitais à campanha petista. Foram tão relevantes para o impressionante ato pró-Lula na Avenida Paulista, em São Paulo, no domingo 11 de outubro, que o candidato não só compareceu, como agradeceu publicamente aos fandoms. Lula tornou-se político de um tempo em que manifestação política era obra de sindicatos e partidos.

A campanha pouco empolgante, algo embolorada, do PT no primeiro turno abriu espaço às incursões digitais de jovens parlamentares recém-eleitos, caso dos deputados Ana Elisa (PT-MG) e Guilherme Cortez (PSOL-SP); para aliados vitoriosos no Nordeste, aí incluídos o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, e o senador Camilo Santana, coordenador da campanha local no Ceará, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues, senador e governador reeleito da Bahia, respectivamente. Podem vir dali os sinais de renovação de uma legenda refém das deliberações de seu maior líder.

Fica também a herança da mais bem-sucedida experiência digital da campanha de 2026, o “Exército do Lula”, obra do deputado André Janones (Rede-MG). A convocação, que bateu a marca de 10 milhões de “soldados”, horas antes do debate derradeiro entre Lula e Flávio, organizou como nunca antes o eleitorado petista e simpatizantes. Janones aglutinou, orientou e entusiasmou pessoas, num espelho à esquerda do que sempre fora monopólio, em participar, da extrema direita. O engajamento foi capaz de aturdir algoritmos e perturbar calejados influencers do campo conservador. Imprimiu aos integrantes os sensos de propósito, pertencimento, importância. Prova disso foi o aumento da relevância digital da campanha de Lula, atestado por indicador da Quaest. De tão incômodo, o canal quase foi censurado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Seja quem for o próximo presidente, o campo progressista chega ao fim deste segundo turno com votos, régua e compasso. Para reivindicar. Para resistir.

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