Esquerda se institucionalizou e deixou campo da rebeldia
livre para a ultradireita
Distanciamento afetivo dos horrores do totalitarismo
reduz defesas contra a radicalização
Uma das possíveis explicações para o mau desempenho de Lula (PT) no primeiro
turno é que ele perdeu apoio entre os eleitores
mais jovens. Pesquisas mostraram que o petista, que antes mantinha
confortável vantagem sobre Flávio
Bolsonaro (PL)
nas faixas de 16 a 34 anos, viu sua dianteira estreitar-se mais perto do
pleito. Numa disputa acirrada, esses votos fizeram diferença.
Não é só no Brasil. Jovens, notadamente
homens, abraçando
posições da direita radical foram um fator relevante para as eleições de Javier Milei
na Argentina
e de José
Antonio Kast no Chile.
Não é só na América
Latina. Jovens também passaram a engrossar as fileiras da ultradireita nos
EUA, França, Alemanha, Espanha etc. Até duas décadas atrás, jovens eram, no
Ocidente, um público quase cativo da esquerda. O que aconteceu?
Há várias hipóteses, que vão de uma
frustração com o "statu quo" econômico (eles já não querem as vagas
de emprego tradicionais) até o advento das redes sociais (influenciadores de
direita parecem ser mais eficazes que os de esquerda). Haveria inclusive uma
dimensão estética, já que a esquerda, até por ter emplacado várias de suas
bandeiras, se fossilizou, deixando para a direita o papel de movimento de
contestação à ordem, que casa tão bem com os instintos de rebeldia da
juventude.
Outro elemento relevante é que a mais poderosa das vacinas
contra a radicalização, que é a memória, tem prazo de validade. Os horrores do
nazifascismo e das tiranias comunistas estão todos nos livros de história. Mas
isso não basta. Para atuar como imunizantes, essas memórias precisam vir com
uma carga afetiva que vai se apagando com a passagem do tempo. Eu ainda lembro
das histórias de meus avós sobre as perseguições a judeus na Europa e me
recordo bem dos amigos de meus pais que foram torturados e de um que foi
assassinado na ditadura. Meus filhos conhecem esses casos, mas só de forma
abstrata e muito menos vívida.
Talvez a humanidade precise mesmo de crises periódicas para
atualizar as bússolas morais das pessoas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário