A política deixou de ser a arte de construir consensos
para se tornar a fonte de impasses sem resultados
O jeito de escapar da armadilha é a retomada da
obediência a regras e papéis legalmente estabelecidos
O
Brasil vai às urnas neste domingo (4) refém da armadilha criada pela
batalha de aversões e afeições em que se transformou a política, que deixou de
ser a arte da construção de consensos a partir de dissensos para se tornar a
própria fonte da discórdia.
A lógica é a do conflito pelo conflito produtor de impasses
sem o alcance de resultados. Falar da polarização e atribuir a ela o
aprisionamento do país a duas correntes surdas ao contraditório é chover no
molhado dos chavões.
O lugar-comum simplifica a cena, mas não
lança luz sobre a rota de fuga nem explica a razão pela qual caímos na arapuca.
Igualmente irrelevante para a elaboração de um pensamento que nos leve adiante
é se apegar ao marco inicial da dinâmica do atrito.
Seja o "nós contra eles" ou o "eles contra
nós", o mal está feito. Interessa saber agora como se escapa da sinuca.
Dos favoritos na disputa de rejeições só o que se viu foi estímulo à
contaminação do ambiente, cuja infecção tomou conta dos tribunais, assim
chamados de superiores.
Não há, para qualquer lado que se olhe, compromisso com as
consequências. O Congresso ocupa-se dos negócios orçamentários, a cúpula do Judiciário
entrega-se a rivalidades militantes, a chefia do governo é objeto de cobiça
de grupos voltados aos próprios projetos, e o país fica nas mãos do que der e
vier.
Só há um jeito de se escapar dessa cilada: é refazer o
caminho da obediência às regras e aos papéis legalmente estabelecidos.
Contribuiria também a disposição geral em arejar o ambiente de modo a que se
ouçam outras vozes sem desqualificá-las por se recusarem a entrar na briga do
dedo no olho e golpes ao baixo-ventre.
Ao Legislativo caberia voltar a exercer suas funções de
representação popular; ao Judiciário, a retomada do papel de defesa da
legalidade e ao Executivo cumpriria a tarefa de governar para todos, trafegando
nas divergências com respeito ao adversário para, assim, liderar o
indispensável e urgente processo de reorganização institucional.
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