É preciso distinguir a polarização política e ideológica
da afetiva, que contempla convivência cívica e até mesmo amor
A máquina de ódio religiosa transfunde polarização
afetiva na política: campanhas se orientam pelo escândalo do outro
Diante do show de horrores com esqueleto fora do armário
oferecido pelo STF,
vale perguntar se alguma parte cabe à polarização social. Não é exclusividade
nossa, acadêmicos norte-americanos já se inquietam com esse fenômeno nas
universidades. É preciso, entretanto, distinguir polarização política da
afetiva. A primeira contempla posições ideológicas, com maiores ressonâncias
onde se exacerbe a divisão entre conservadores e progressistas. A segunda,
convivência cívica e, mesmo, amor. Mas as duas podem se superpor.
Entre nós, a superposição é estimulada pela
identificação do campo antiprogressista ao bolsonarismo. Embora este termo já
se distancie de um nome próprio à extrema direita, o fantasma do capitão
assombra a memória democrática como objeto malsoante. Não apenas por seu
espírito golpista, muito pelo legado negativo da grosseria de linguagem,
indiferença à vida humana, ataques à educação. Matéria-prima da náusea.
Só que o cotidiano visto pelas lentes de uma sociologia do
imediato mostra outra face da polarização. Um caso ilustrativo: alguém com
fortes convicções direitistas, mas em quem se reconhecem algumas virtudes
pessoais, repercute em conversa uma suposta declaração
do imunologista Anthony Fauci de que ivermectina
e hidroxicloroquina poderiam ter salvado vidas. Fauci não disse nada disso,
calou-se na audiência do Senado americano (29/6/2026). O interlocutor, porém, é
categórico: "O capitão estava certo".
Esse adepto não pode, entretanto, ser definido como réplica
antropológica de seu ícone. Anestesiado, ele simplesmente não absorve fatos
reais, é um Pedro Bó (o personagem crédulo de Chico Anísio) do afeto. Contra a corrupção
política, recita o mensalão, o petrolão ou
despesas de cartão do presidente da República. Personaliza tudo no epíteto
"ladrão". Apenas esquece a voracidade financeira do clã predador da
democracia, da ganância imobiliária, da associação com a criminalidade
miliciana. E mesmo sabendo da quinta-coluna entreguista, anuncia, pimpão:
"vamos libertar o país". Ingênuo parceiro do golpismo permanente.
Um caso singular, certo. Mas inteligível como holograma do
laço social estruturado pelo vaivém entre desafecção e afecção. O indivíduo se
dessensibiliza quanto a fatos sórdidos (pregação de extermínio físico, elogio
da tortura), na vertigem do fascínio libidinal por um espectro, sobre o qual
projeta instintos silenciados. Zero cognição: uma cabeça, uma estrutura de
ressentimento internalizada.
Isso pode coexistir com civilidade ou com violência, como
entre 2018-22, período de inédito antagonismo afetivo, teoricamente sonhado
pelo politólogo Carl Schmitt: o inimigo funda a política. A máquina de ódio
religiosa transfunde polarização afetiva na política: campanhas eleitorais se
orientam pelo escândalo do outro. Nem santas católicas escapam de ataques
misóginos e racistas, contaminando ministros do STF "terrivelmente"
qualquer coisa. Em sangria institucional desatada, trocam a liturgia interna
pela hemorragia do cargo.
Questão intrigante é que polarização nenhuma explica o
desejo repulsivo de ver o país transformado em modelo de narcoestado, como o Rio de
Janeiro em 8 anos de bolsonarismo. Na exaustão dessa violência continuada,
há vislumbres de socorro: fora da dinâmica fascista ou patológica, o corpo
social não vota na aberração miliciana
*Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre
outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”
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