Eram três irmãos — Edmond, José e Moise — que criaram a
empresa com o sobrenome da família. Triunfaram, brigaram (ao seu estilo),
viram-se metidos num crime
Está nas livrarias “Os Safras — Uma história”, do repórter
Robson Viturino. Conta a trajetória do banco Safra. Tremenda história. Eram
três irmãos — Edmond, José e Moise — que criaram um banco com o sobrenome da
família. Triunfaram, brigaram (ao seu estilo), viram-se metidos num crime, no
qual morreu Edmond.
Em 2015, José Safra era o banqueiro mais rico do mundo.
Batia os Rothschild, Warburg, Morgan, Goldman, Rockefeller, Setúbal e Moreira
Salles. Tudo isso com um jeito simples e discreto, em pouco mais de 50 anos.
José morreu em 2020 sempre apagando suas
pegadas, salvo na filantropia. Seu banco financiou tucanos e petistas, ajudou a
criar o Cebrap, que em 1969 acolheu professores demitidos da USP (ouvindo o
ministro Delfim Netto). Reservados, os Safra eram banqueiros ao velho estilo,
em um mundo que não existe mais, o de contas numeradas na Suíça.
Viturino foi aos segredos dos Safra, não a todos, mas aos
que fazem de seu livro um trabalho revelador. No coração dos mistérios está a
morte de Edmond, em dezembro de 1999, em Mônaco. Minado pelo Mal de Parkinson,
ele estava na sua cobertura quando temeu ser sequestrado e trancou-se com uma
enfermeira num banheiro. Um enfermeiro ateou fogo a um cesto de lixo e os dois
morreram asfixiados pela fumaça.
Viturino não decifra o mistério, mas mostra a moldura. Uma
amostra:
“Muito se falaria do momento em que José e Moise apareceram
na sinagoga Hekhal Haness e cadeiras tiveram de ser levadas a eles — através da
sinagoga, já que seus nomes não constavam da lista de convidados —, tudo sob o
olhar gélido de reprovação da viúva. (...) No enterro de Edmond no cemitério de
Veyrier, José e Moise tiveram que abrir caminho às cotoveladas no cortejo para
poder carregar o caixão do irmão.”
Isso. Os dois irmãos davam-se mal, muito mal, com Lily
Safra. Ela viria a se tornar a mulher mais rica do mundo. Em 2008, Lily
negociou a Villa Leopolda, onde dava festas com Edmond, por 530 milhões de
dólares, o maior valor de um imóvel desde a Idade da Pedra.
José afastou-se dos negócios de Edmond antes de sua morte.
Depois, José e Moise separaram-se. Hoje os dois bancos, Safra e J. Safra, estão
nas duas calçadas da Avenida Paulista, esquina com Rua Augusta.
Moise morreu em 2014 e José, em 2020, aos 82 anos. A briga
propagou-se na geração seguinte, até que uma paz foi selada em 2014. Mas o
mundo dos bancos era outro. O Safra havia sido multado em 10 milhões de dólares
e reconheceu seus malfeitos. José passava mais tempo no exterior, temendo ser
preso. Mas os bancos continuam de pé.
A volta de ‘Je suis brésilien’
A vulgaridade e o nouveaurichisme das farofas de Daniel
Vorcaro com hierarcas da República mostram que o tempo passa e os vícios
persistem, com menos talento. Na segunda metade da década de 1860, a ópera bufa
“La vie parisienne”, do compositor francês Jacques Offenbach, fez enorme
sucesso na Europa. Nela havia uma ária que prenunciava os farofeiros do século
XXI, chamava-se “Je suis brésilien“.
Ele cantava:
“Eu sou brasileiro, tenho ouro
E venho do
Rio de Janeiro
Mais rico hoje do que antes.
Paris, retorno para você.
Duas vezes,
eu já vim
Tinha ouro na minha mala
Diamantes na minha camisa
Quanto tudo isso durou?
O tempo de ter duzentos amigos
E de amar quatro ou cinco amantes
Seis meses de galantes bebedeiras
E mais nada,
ô Paris, Paris!
Em seis meses, você me tirou
Tudo.
(...)
E venho, para que você me roube
Tudo que roubei lá embaixo”
Em 1867, estava na plateia o boêmio Juca Paranhos, filho do
Visconde do Rio Branco e pai do futuro Barão.
O “Brasileiro” de Offenbach pode estar na origem do termo
“rastaquera”.
O tesouro de Vorcaro
Depois de meses de tratativas, a colaboração de Daniel
Vorcaro continua na estaca zero. Apesar disso, o conteúdo armazenado em seus
celulares prova, à saciedade, a extensão de suas conexões.
O cunhado do finório, Fabiano Zettel, revelou que em outubro
de 2025 foi ao exterior e escondeu um ervanário. Nas suas palavras:
“O Banco Central deu três semanas para o Daniel reformular o
banco, senão ele vai ser liquidado. Eu fui lá (no exterior), escondi um
dinheiro, porque se der tudo errado e der uma merda danada e tudo meu for
bloqueado, eu tenho que ter um dinheiro pra poder continuar vivendo e mantendo
as coisas. Agora, eu estou no Brasil e confio em falar isso pra você. Lá eu não
podia falar isso por telefone”.
Seriam bilhões de reais, talvez 20. Com calma, o Ministério
da Justiça e a Polícia Federal têm como achar esse tesouro.
Itamaraty em perigo
De todas as propostas de Flávio Bolsonaro, a mais tóxica
veio na semana passada. Ele já anunciou que seu irmão Eduardo será o chanceler
de seu governo e que ele fará “uma faxina” nos quadros da diplomacia...
Pindorama já provou esse veneno. Em 2019, seu pai nomeou o
diplomata Ernesto Araújo para o cargo. Sua gestão foi desastrosa mesmo para os
padrões do ex-capitão, e ele teve que substituí-lo em 2021. Para o lugar foi o
embaixador Carlos França que restabeleceu o estilo da Casa.
Veio a eleição, Bolsonaro foi derrotado, e a tradição
prevaleceu. França foi mandado para a embaixada no Canadá, onde exerce sua
função como um profissional correto. O canibalismo é estranho à vida do
Itamaraty.
Em 1964, deposto João Goulart, seu chanceler, Araújo Castro,
foi mandado para Atenas. Em 1985, terminada a ditadura, o chanceler Ramiro
Guerreiro foi nomeado pelo presidente José Sarney para negociar a dívida
externa.
O Brasil tem uma diplomacia respeitada porque não tem lugar
para canibais. O Barão do Rio Branco dava-se mal com o Visconde de Cabo Frio,
diretor-geral do Ministério. Esperou que morresse, o que se deu em 1907.
Os Bolsonaro deveriam ler “O mundo em que vivi”, as memórias
do embaixador Pio Corrêa (1918-2013), um verdadeiro e destemido conservador.
O Judiciário na semana da Criação
Se o Judiciário brasileiro estivesse presente na Semana da
Criação, ele obrigaria o Pai Eterno a:
1º dia: Deus criaria a luz, mas manteria nas trevas os
processos envolvendo magistrados.
2º dia: Deus criaria o firmamento, separando uma área para
os gabinetes e casas dos magistrados.
3º dia: Deus criaria as plantas e os pomares dos magistrados
que teriam safras contínuas.
4º dia: Deus criaria os astros, com prioridade para
familiares de magistrados e tribunais superiores e seus familiares.
5º dia: Deus encheria os mares com peixes e as águas dos
magistrados com salmões.
6º dia: Deus criaria os animais e o ser humano, com
imortalidade e juventude eterna para os magistrados.
7º dia: Deus descansaria, com direito a férias retroativas.
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