terça-feira, 3 de novembro de 2026

COM QUEM SERÁ ?

Merval Pereira, O Globo

Lula precisa terminar uma vida política brilhante com um governo que ele pretende será “o melhor governo” que já fez.

A definição do quarto governo Lula sairá da escolha do próximo ministro da Fazenda, assim como a escolha de Antonio Palocci no primeiro mandato foi essencial para a manutenção do sistema econômico montado no governo de Fernando Henrique Cardoso, baseado no tripé câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário. Colocar Henrique Meirelles, deputado federal eleito pelo PSDB de Goiás, na presidência do Banco Central foi outra medida surpreendente que deu o rumo do governo. Tudo isso aconteceu porque Palocci, antigo prefeito de Ribeirão Preto, fundador do PT, tinha o respeito da máquina partidária do partido.

Nenhum dos coordenadores econômicos do PT, como Guido Mantega ou Aloizio Mercadante, foi cogitado neste primeiro momento. Somente quando Palocci teve que sair do governo, devido a acusações de corrupção, foi substituído por Mantega, que permaneceu no governo Dilma Rousseff, quando colocou em prática o que chamou de “nova matriz econômica”, perdendo o controle do equilíbrio fiscal e levando o país à maior crise financeira já ocorrida e ao impeachment do presidente Dilma Rousseff. Mantega terminou no staff do banqueiro bandido Daniel Vorcaro.

No segundo mandato de Dilma, diante da catástrofe econômica, a presidente foi obrigada a convidar para o ministério da Fazenda o economista Joaquim Levy, ligado à linha econômica que vigorava no governo Fernando Henrique Cardoso, para tentar recolocar o país na trilha do equilíbrio fiscal. Não durou um ano, boicotado pela máquina burocrática petista, que colocou em seu lugar o economista Nelson Barbosa. Esse rápido histórico demonstra que somente quando o ministro da Fazenda faz parte da máquina petista é possível fazer uma gestão que não seja boicotada internamente.

O ministro da Fazenda Fernando Haddad é um exemplo disso. Recebeu forte oposição interna, mas manteve-se no comando das ações com o apoio do próprio presidente Lula e de uma ala do partido. Tido como seu possível sucessor, Haddad sempre teve o respaldo do presidente, que o escolheu para representá-lo na eleição perdida em 2018 e, na recente eleição, aceitou ir para o sacrifício candidatar-se ao governo de São Paulo apenas para dar um palanque forte para a campanha da reeleição de Lula, sabendo que poderia, como aconteceu, perder já no primeiro turno para o governador Tarcisio de Freitas.

A escolha de Dario Durigan para continuar no cargo de ministro da Fazenda, que assumiu como segundo de Haddad, seria uma reafirmação da força daquele, e desencadearia uma forte reação interna a essa confirmação de Lula de que Haddad é o escolhido para seu sucessor. Ainda mais se Lula colocá-lo, como se especula, como Chefe do Gabinete Civil. Perguntado por jornalistas, Palocci, que ainda conhece bem o PT por dentro, acha que Durigan deveria ser mantido como ministro da Fazenda no quarto mandato de Lula.

Outro forte candidato, o governador eleito do Piauí, o petista Rafael Fonteles ganhou corpo dentro da estrutura petista ao se tornar o coordenador da campanha presidencial no segundo turno. Considerado um político eficiente e moderado, Fonteles vem dando vivas ao equilíbrio fiscal, tem bons resultados em sua gestão, tendo sido reeleito no primeiro turno. Aos 41 anos, faz parte da nova geração do PT que chega no momento em que Lula começa seu último mandato como presidente da República, o único eleito diretamente por quatro vezes. O partido precisa de renovação, e Lula precisa terminar uma vida política brilhante com um governo que ele pretende será “o melhor governo” que já fez.

Para tanto, não pode arriscar perder o controle da situação econômica. A ideia de colocar o vice-presidente Geraldo Alckmin no ministério da Fazenda é outra saída em direção ao centro político e ao equilíbrio fiscal. Por todos esses aspectos, também pela necessidade de montar uma aliança formal com o Centrão para tentar superar pela política a supremacia oposicionista no Congresso, a escolha será decisiva para o futuro do Lula 4.

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