Os baixíssimos impostos melhoravam os resultados das
empresas, porém já não garantem que o dinheiro destinado à folha de pagamento
estará disponível na manhã seguinte
A crise do Ueno Bank e a derrocada de Santiago Peña desfizeram uma ilusão
vendida a empresários brasileiros de que bastaria atravessar a fronteira para
encontrar impostos baixos, energia barata e segurança permanente para investir.
Peña apresentou sua renúncia nesta quinta-feira, enquanto avançava na Câmara a
acusação para seu impeachment. O desmoronamento de seu governo já expõe a
fragilidade do paraíso anunciado.
A miragem não estava na existência de vantagens competitivas paraguaias. Estava
na promessa de que elas dispensariam instituições sólidas, fiscalização
independente e proteção efetiva da poupança. Os baixíssimos impostos melhoravam
os resultados das empresas, porém já não garantem que o dinheiro destinado à
folha de pagamento estará disponível na manhã seguinte. Quando o aplicativo do
banco já não funciona e os depósitos são bloqueados, o oásis da simplicidade
tributária vira uma miragem sem encantamento.
A presença brasileira na economia paraguaia mostra que essa aposta era alta e
ultrapassou o comércio de fronteira. Alcançou indústrias, fornecedores de
grandes redes e pequenos empreendedores que transferiram negócios e economias.
Para muitos, o Paraguai representava uma alternativa aos custos e à burocracia
brasileiros. A crise trouxe uma conta que não estava nas planilhas de custos: o
risco institucional. A vantagem fiscal se esvanece quando há perda de confiança
no sistema financeiro.
O Ueno tornou esse problema concreto. É o Banco Master deles, sem o arcabouço
institucional de um sistema financeiro robusto. A instituição cresceu
rapidamente, recebeu recursos públicos e chegou a quase três milhões de
clientes. Sua intervenção atingiu poupadores e comprometeu o acesso a dinheiro
ligado à previdência. O episódio também colocou sob escrutínio as relações
entre o banco, o governo e os responsáveis pela supervisão financeira. O
colapso de uma instituição alcançou, assim, a própria Presidência.
Não se pode decretar a falência da economia paraguaia nem subestimar a
capacidade instalada do sistema produtivo, do qual grandes empresas brasileiras
fazem parte. Entretanto, estabilidade macroeconômica e segurança jurídica não
são sinônimos. Inflação comportada e incentivos duradouros são vulneráveis
quando faltam barreiras entre interesses privados, recursos públicos e poder
político.
Para o Brasil, conter a crise paraguaia é muito importante. Empresas com
dinheiro bloqueado atrasam salários, pagamentos a fornecedores e encomendas.
Uma retração do consumo paraguaio afeta o comércio regional; dificuldades de
crédito podem alcançar cadeias produtivas integradas ao comércio mundial. A
dimensão desses efeitos dependerá da recuperação dos depósitos e da capacidade
de conter a desconfiança. Não há contágio bancário no Brasil, mas há razões
para acompanhar de perto essa crise.
Energia da Itaipu
A questão mais estratégica está em Itaipu. Um governo enfraquecido, pressionado
a recuperar investimentos e credibilidade, pode negociar em condições piores o
uso de seu principal ativo econômico. A crise amplia o poder de barganha de
grupos capazes de oferecer bilhões de dólares e promessas de modernização a um
país em crise. É nesse terreno que a expansão da infraestrutura de inteligência
artificial merece atenção.
Em outubro, a norte-americana Crusoe anunciou uma parceria com a paraguaia
Araico para desenvolver infraestrutura de computação alimentada pela energia de
Itaipu. O anúncio teve respaldo diplomático dos Estados Unidos. A imprensa
paraguaia também levantou dúvidas sobre a transparência das condições de
fornecimento pela administração elétrica nacional. São iniciativas anteriores à
queda de Peña; a crise pode aumentar a pressão para apresentá-las como salvação
econômica.
A “colonização” da economia paraguaia pelas big techs é um
risco político, não ainda um fato consumado. O conceito faz sentido quando um
país fornece eletricidade, território e benefícios fiscais, enquanto o controle
tecnológico, os serviços de maior valor e as decisões permanecem no exterior.
Centros de dados podem, sim, trazer desenvolvimento. Mais que obras e consumo
de energia: formação profissional, precisam deixar fornecedores locais,
arrecadação e capacidade tecnológica. Sem contrapartidas, a abundância
energética pode sustentar uma nova dependência.
O Brasil arca com as consequências dessa escolha. O Tratado de Itaipu divide a
energia igualmente e reconhece a cada país o direito de adquirir a parcela não
utilizada pelo outro. Se o consumo paraguaio crescer, o excedente disponível ao
Brasil poderá diminuir. Isso exige planejamento, sem negar ao vizinho seu
direito ao desenvolvimento. Não há transparência nos compromissos assumidos e
seus efeitos sobre a operação binacional.
O governo brasileiro tem a responsabilidade de combinar assistência aos
brasileiros atingidos, diálogo institucional e defesa de transparência em
Itaipu. Uma crise no Paraguai, mesmo que derrube um governo de direita
adversário, não é motivo para comemoração. Trata-se de uma vulnerabilidade numa
fronteira decisiva. O fracasso da promessa de um paraíso sem riscos não deve
dar origem a uma saída que comprometa a energia barata por décadas, sem
benefícios proporcionais para a sociedade. A miragem fiscal teria apenas mudado
de aparência.

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