sábado, 7 de novembro de 2026

PODER DE VETO DE TRUMP LIMITARÁ REGULAÇÃO DE PLATAFORMAS DIGITAIS

Editorial O Globo

Iniciativas com maior chance de prosperar virão não do Congresso democrata, mas de governos estaduais

:A retomada do controle democrata sobre o Congresso americano foi vista como oportunidade para reverter políticas de Donald Trump, em particular os obstáculos impostos à regulação das plataformas digitais e da inteligência artificial (IA). Os papéis de empresas ligadas a tecnologia ou IA desabaram em Wall Street depois da eleição de terça-feira. Mas as iniciativas com maior chance de prosperar não deverão vir do Capitólio, e sim de governos estaduais democratas, como já ocorre na Califórnia. A onda azul tomou ao menos cinco governos antes em mãos republicanas — ou sete, a depender do resultado da eleição no Kansas e no Alasca—, e os democratas governarão até 30 dos 50 estados americanos a partir de janeiro.

Em Washington, mesmo com Câmara e Senado solidamente sob controle democrata, será difícil que qualquer projeto avance sem a anuência de Trump, cujo poder de veto é quase absoluto. Ele já deixou clara sua estratégia. Publicou uma foto em que usa um boné com a palavra “veto” e afirmou ao New York Post: “Acho que vou me tornar o Sr. Veto”. A Constituição americana exige maioria de dois terços em cada uma das Casas para derrubar um veto presidencial (290 dos 435 deputados e 67 dos cem senadores). Mesmo com a ampliação de cadeiras nas últimas eleições, os democratas sozinhos não atingiram tal patamar. E historicamente não tem sido fácil derrubar vetos presidenciais. De 1789 a 2026, apenas 7,3% caíram.

Ainda que estejam sujeitos aos humores do “Sr. Veto”, os congressistas americanos não estão de mãos atadas. Parlamentares poderão exercer fiscalização, solicitar documentos ou instalar comissões de inquérito. Foi o que já fizeram no passado, por vezes expondo próceres do Vale do Silício a situações constrangedoras diante das câmeras.

Independentemente disso, a expressiva vitória democrata nos estados gera expectativa de mudança na regulação. Temas como inteligência artificial, data centers, combate a monopólios, proteção de crianças e adolescentes ou remuneração de produtores de conteúdos tendem a ganhar visibilidade. Um exemplo está na Califórnia, onde leis sensatas entraram em vigor há pouco tempo, a despeito da pressão de todas as empresas do Vale do Silício lá sediadas.

Desde antes da eleição presidencial, o Vale do Silício se aproximou do trumpismo, numa tentativa de afastar as iniciativas de regulamentação que partiam da gestão Joe Biden. Mas os bilhões investidos na campanha eleitoral não foram suficientes para impedir o repúdio a Trump. Reeleito senador na Geórgia, Jon Ossoff usou o discurso da vitória para cutucar o setor. A governadora eleita do Texas, Gina Hinojosa, defendeu moratória para data centers, fim de incentivos fiscais e a exigência de que empresas banquem seus custos de energia. De um jeito ou de outro, o tema haverá de se impor. E qualquer decisão tomada nos Estados Unidos, país onde as gigantes digitais estão sediadas, terá impacto no mundo todo.

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