Fraudes do banco Ueno expõem compadrio com autoridades e
levam ao impeachment do presidente Santiago Peña
Incertezas ameaçam período de expansão econômica acima da
média da região; escândalo carrega similitudes com o caso do Banco Master, no
Brasil
O Paraguai
vivencia há uma semana os desfechos calamitosos do compadrio entre o poder
público e o Ueno, banco quebrado ao final de cinco anos de operação. Santiago Peña
tentou renunciar à Presidência, ao serem conhecidas as fraudes da instituição
financeira e as gentilezas a ela oferecidas por seu governo, mas acabou
sofrendo impeachment
e teve
prisão determinada nesta sexta (6).
Dois dias antes, Carlos Carvallo deixara o comando do Banco
Central após o anúncio da intervenção tardia no Ueno —que, desde o início de
junho, exibia indicadores de insolvência. Ambas as autoridades são suspeitas,
ou mais que isso, de manter conexões de longa data com o banco, presidido por
Carvallo até 2023.
Quinta instituição financeira do país, o
Ueno é investigado pelo Banco Central e pelo Ministério Público paraguaio
por fraudes. Ainda não estão claros os níveis de contaminação da classe
política e do sistema financeiro pelo escândalo, que carrega similitudes com o
famigerado caso do Banco Master,
no Brasil.
As investigações geram incertezas sobre as condições de
governabilidade do país e, no limite, especulações sobre uma eventual
antecipação das eleições presidenciais, marcadas para 2028.
Prestes a assumir o Palácio de López, o vice-presidente
Pedro Alliana figura como alvo do inquérito, ao lado de Peña, de Carvallo e do
ministro da Economia,
Óscar Lovera. No poder há quase oito décadas, salvo na curta gestão do
socialista Fernando Lugo, o Partido Colorado moveu-se rapidamente para
isolar-se das rebarbas do escândalo.
A legenda abandonou Peña, em cuja gestão o país obteve o
grau de investimento e exibiu crescimento econômico superior à média
latino-americana, impediu a aprovação de sua renúncia pelo Congresso e apoiou a
continuidade do processo de impeachment. Mesmo sob os riscos trazidos pelas
investigações, consolidou a ascensão de Alliana à Presidência.
A sociedade paraguaia será, decerto, a principal vítima
deste conluio entre autoridades e um grupo empresarial que se prova
fraudulento. Cerca de 2,9 milhões de clientes do Ueno —60% da população adulta
e mais de 500 mil empresas— estão em busca de acesso aos recursos de suas
contas, investimentos e pensões.
Não há certeza se o chamado "milagre paraguaio",
evidenciado nos três anos de crescimento estável e de ingresso de investimentos
estrangeiros, será abalado irremediavelmente pela crise. Sua irradiação, porém,
já se faz sentir na desvalorização do guarani e na elevação do risco-país.

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