terça-feira, 21 de agosto de 2018

MORRE OTAVIO FRIAS FILHO

Da Folha de S.Paulo
SÃO PAULO Morreu nesta terça-feira aos 61 anos Otavio Frias Filho, diretor de Redação da Folha. Mentor do Projeto Folha, que modernizou o jornalismo brasileiro na década de 1980, ele foi vítima de um câncer originado no pâncreas.
À frente do jornal por 34 anos, Otavio foi diagnosticado com a doença em setembro de 2017. Morreu às 3h20 desta terça-feira no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. O velório ocorrerá a partir das 11h30, e a cerimônia de cremação, às 13h30, ambos no cemitério Horto da Paz, em Itapecerica da Serra.
Deixa Fernanda Diamant, editora da revista literária Quatro Cinco Um, com quem teve as filhas Miranda e Emilia, e os irmãos Maria Helena, médica, Luiz, presidente do Grupo Folha, e Maria Cristina, editora da coluna Mercado Aberto.
Sob a direção de Otavio, a Folha se tornou o maior e mais influente jornal do Brasil, líder em circulação e em audiência, posições que veio mantendo desde então. O veículo consolidou-se como uma referência no jornalismo apartidário, pluralista, crítico e independente.
Esses princípios foram recentemente atualizados na versão de 2018 do “Manual da Redação”, cuja confecção Otavio liderou. Em texto de 25 de fevereiro último, intitulado “Jornalismo, um mal necessário”, na coluna mensal que mantinha na Ilustríssima, escreveu:
“O jornalismo, apesar de suas severas limitações, é uma forma legítima de conhecimento sobre o nível mais imediato da realidade. Para afirmar sua autonomia, precisa cultivar valores, métodos e regras próprios”.
Antes mesmo de assumir o principal cargo do jornal, o que aconteceria em maio de 1984, Otavio participou de momentos cruciais no processo que desaguaria no Projeto Editorial da Folha.
Em sua última versão, de 2017, o texto preconiza o jornalismo profissional como antídoto para a notícia falsa e a intolerância. “Caberá ao conjunto dos veículos semelhantes à Folha enfatizar sua condição de praça pública, em que se contrapõem os pontos de vista mais variados e onde o diálogo em torno das diferenças é permanente.”
Em 1974, aos 17 anos, sob a gestão de seu pai, Octavio Frias de Oliveira (1912-2007), depois publisher da Folha, participou da decisão de abrir as páginas do jornal para diferentes correntes de opinião, incluindo os opositores da ditadura militar.
Essa vocação para a abertura viria a se cristalizar na campanha pelas Diretas Já, em 1983, da qual o jornal foi protagonista na imprensa brasileira. Em artigo do último dia 17 de junho para a mesma coluna da Ilustríssima, reafirmou seu otimismo em relação à democracia no Brasil.
“Foi na trabalhosa maturação dessa ‘abertura’ que se consolidou, nas camadas politizadas, a profunda consciência democrática, expressa num pacto não escrito de não violência, hoje posta sob desafio”, escreveu então, a propósito de clamores, da parte de grupos radicais, por uma nova intervenção militar.
“Há um momento em que a trama das relações econômicas e sociais se torna complexa demais para caber na lógica simplória da caserna, há um ponto em que a democracia passa a ser o único sistema capaz de regular uma sociedade atravessada por incontáveis interesses contraditórios.”
Nascido em São Paulo em 7 de junho de 1957, primogênito do casal Octavio e Dagmar Frias de Oliveira (1925-2008), Otavio Frias Filho bacharelou-se em direito na USP, onde também cursou pós-graduação em ciências sociais. Lançou os livros de ensaio “De Ponta Cabeça” (2000), “Queda Livre” (2003) e “Seleção Natural” (2009), entre outros.
Como dramaturgo, teve peças encenadas em São Paulo, entre elas “Típico Romântico”, “Rancor” e “Don Juan”. Uma versão teatral de “O Terceiro Sinal”, texto em que narra sua experiência como ator, esteve em cartaz no Teatro Oficina até maio, com a atriz Bete Coelho.
Nos últimos 11 meses, Otavio reduziu sua rotina de pautar e aprovar os editoriais diariamente e de participar de reuniões semanais com o comando da Redação, onde tomava as principais decisões.
Otavio deixa pronto um livro infantil, “A Vida é Sonho e Outras Histórias para Pensar”, e uma coletânea de artigos publicados nos últimos anos. Otavio deixa inacabado um livro em que pretendia traçar um quadro, entre ensaístico e biográfico, dos tempos e da vida de seu pai, entremeando-os com suas próprias experiências atuais.
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MARINA RASGA OS MANUAIS

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo
Marina encarnou aquele que Alckmin gosta de evocar como seu padrinho: Mário Covas
Sempre mencionada como alguém frágil física e politicamente, alvo de uma campanha de desconstrução inédita por parte do PT em 2014 e questionada constantemente por “sumir" em momentos cruciais da vida nacional, Marina Silva precisou dar dois passos à frente no centro de um tablado para se agigantar e vencer o debate da Rede TV! na última sexta-feira.
Ninguém mais esperava nada de um confronto até então marcado por uma estética de programa de auditório e candidatos na retranca evitando os grandes temas nacionais. Tinha tudo para acabar no zero a zero de performances e no 7 a 1 da falta de ideias, como havia sido no debate da Band.
Foi quando, chamada ao ringue por Jair Bolsonaro, Marina vislumbrou uma chance de fazer um embate direto, duro, sem volteios e nem meias palavras, com o líder nas pesquisas. Confrontou o adversário naquele que é seu principal calcanhar de aquiles: a desconfiança que as pesquisas mostram haver em relação a ele por parte do eleitorado feminino.
Conseguiu de forma clara, altiva e dura encaixar um golpe no capitão, que ficou visivelmente desconcertado e não soube como reagir pela primeira vez em confrontos televisivos recentes.
Fez o que os manuais do clichê marquetológico mandam não fazer. Agiu como os senhores ali presentes, Ciro Gomes (que tratou o adversário a quem já chamou de psicopata com uma reverência e um risinho entre cínico e reverente nos dois debates), Henrique Meirelles (que até ensaiou abordar o tema das mulheres, mas se atrapalhou por completo) e Geraldo Alckmin (que se acovardou completamente nos dois debates, fugindo de esgrimir com aquele de quem precisa tirar votos se quiser ir ao segundo turno) não tiveram coragem de agir.
Quem sabe se revirem o vídeo do debate os marqueteiros tenham uma lição de que é bobagem essa história de que debate não muda percepção de eleitor, de que não se deve confrontar os adversários nesse tipo de evento, de que isso e aquilo. Como se houvesse fórmula clara numa eleição em que a política foi virada do avesso pela Lava Jato e está com as tripas expostas diante de um eleitorado que está de saco na Lua.
Falei sobre isso no rádio horas antes do debate: a história está repleta de casos em que debates francos produziram, sim, ecos nas pesquisas e nas urnas. Se não for para apresentarem confrontos entre os candidatos que de fato têm chance de ocupar a Presidência da República no momento mais grave da vida nacional, de que servem esses encontros?
De que vale Geraldo Alckmin juntar 44% do tempo de TV da propaganda eleitoral, um arsenal de deputados e senadores, se quando colocado diante do eleitor ao vivo se comporta como um candidato a prefeito de Pindamonhangaba, enfileirando siglas, falando de matas ciliares, chamando sparrings para fazer pergunta porque não tem coragem de ficar tête-à-tête com aquele que lidera a eleição no Estado em que ele governou quatro vezes?
Por que ele acha que esse discurso mole, em tom monocórdio e sem mostrar qual seu projeto de País, sem fixar uma miserável ideia-guia que seja, vai fazê-lo crescer?
Marina foi a candidata a encarnar aquele que Alckmin gosta de evocar como seu padrinho político: Mário Covas. Muitas vezes cobri campanhas em que o tucano turrão, sem paciência alguma com marqueteiros, falava nos debates o que lhe dava na telha, ia para cima de Paulo Maluf mesmo sob ameaças de que o outro teria “pastas" em cima da bancada para constrangê-lo. Não tinha. E Covas venceu Maluf duas vezes.
Ao rasgar os manuais e se lançar no debate de fato, Marina ensinou que pode haver um caminho para se discutir ideias, desconstruir mitos e mostrar propostas nesta eleição até aqui sem balizas. Fez de graça o trabalho dos marqueteiros.
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TUCANO CONDENADO

Do Paraná Portal, UOL
O Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR) confirmou, nesta terça-feira (7), a condenação do ex-governador Paraná e candidato ao Senado Beto Richa (PSDB) e sua esposa, Fernanda Richa, no processo que julgava a restituição de verbas públicas utilizadas em uma viagem e estadia em Paris. O pleno da 4ª Câmara do TJPR condenou o tucano por 3 votos a 2. Antes da decisão, o julgamento foi adiado por quatro vezes.
A relatora do caso, desembargadora Astrid Maranhão, votou pela manutenção integral da sentença do juiz Roger Vinicius Pires de Camargo Oliveira, da 3ª Vara da Fazenda Pública, quando o julgamento foi iniciado. Ela foi acompanhada pelo desembargador Abraham Lincoln Calixto e pela desembargadora Maria Aparecida Blanco de Lima que seguiram o entendimento pela condenação de Richa.
A presidente da 4ª Câmara do Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR), desembargadora Regina Helena Afonso de Oliveira Portes, e o juiz substituto Hamilton Rafael Marins Schwartz votaram pela absolvição do ex-governador. No entendimento de ambos, a hotel em que Richa, a esposa e parte da equipe do governo ficaram hospedados não tinha alto padrão e por tanto não houve crime ao patrimônio público.
Os desembargadores que votaram pela condenação tiveram um entendimento contrário e afirmaram que o ex-governador feriu o principio da moralidade pública ao se hospedar em dos lugares mais caros de Paris.
“Acreditamos que o objetivo principal da ação foi atingido, uma vez que a gente pleiteava a devolução dos valores gastos decorrentes dessa viagem, do hotel cinco estrelas, passagens e que ocorreram com o dinheiro público para uma finalidade privada”, destaca Ramon Bentivenha, um dos advogados que representa a ação popular.
A petição inicial da ação popular que motivou a condenação cita que a comitiva passou o fim de semana em um hotel cinco estrelas em Paris, às custas do estado. Quatro pessoas, incluindo o governador e a esposa dele, Fernanda Richa, que era secretária de Desenvolvimento Social na época, ficaram no Hotel Napoléon, em uma das regiões mais luxuosas de Paris, onde a diária custaria cerca de 250 euros por pessoa — por volta de R$ 1.000.
Na ocasião, não havia agenda oficial em Paris. Segundo o Portal da Transparência, o custo foi de R$ 38 mil por pessoa, incluindo passagens, hospedagem e alimentação para todos os dias. Em nota oficial, o governo afirma que a comitiva fez uma parada técnica em Paris, em função da disponibilidade de voos e conexões para Xangai.
Outro lado
Em nota, a defesa do ex-governador Beto Richa afirma que a decisão é equivocada, que deve recorrer e que a viagem buscava novos investimentos no Paraná.
“A defesa do ex-governador Beto Richa reforça que entende que a decisão é equivocada e que entrará com o recurso após a publicação do acórdão, para que seja reestabelecida a justiça neste caso. Reafirma também seu posicionamento em função de o ex-governador ter restituído voluntariamente as sobras de diárias ao final da missão internacional, que teve como objetivo a busca de novos investimentos e oportunidades de empregos para o Paraná. Reitera ainda que os valores ressarcidos foram superiores aos utilizados na parada em Paris. A devolução de diárias por parte do ex-governador Beto Richa sempre foi uma prática comum durante a sua gestão”, diz a nota na íntegra.
Lei de Ficha Limpa
Durante o voto, a desembargadora Maria Aparecida Blanco de Lima destacou que houve ocorrência de dolo, uma vez que teria existido intenção de lesar o erário, e isso pode gerar um reflexo eleitoral previsto pela Lei de Ficha Limpa. O caso deve ser analisado pelo Ministério Público do Paraná (MPPR) e, em paralelo, partidos e candidatos podem buscar brechas para dificultar a candidatura de Richa ao Senado.
De acordo com a advogada especialista em Direito Eleitoral Carla Karpstein, para ficar inelegível um candidato precisa ser condenado em segunda instância por ato doloso de improbidade, dano ao erário e ressarcimento aos cofres públicos.
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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

A ELEIÇÃO DAS MULHERES

Da ISTOÉ
Integrante do Parlamento Inglês e liberal empedernido, John Stuart Mill tornou-se o primeiro político a defender, no longínquo ano de 1860, o direito da mulher ao voto. Mas à época, por razões sobejamente conhecidas hoje, não conseguiu superar uma maioria resistente: uma petição de sua autoria foi derrotada por 194 a 73 — um massacre. O principal argumento contrário ao voto de mulheres era de que as casadas não expressariam uma voz diferente da de seus maridos, o que geraria duplicidade de voto. Hoje, dois séculos depois do debate suscitado por Mill e 72 anos após a Constituição brasileira garantir a obrigatoriedade plena do voto para as mulheres nos mesmos termos exigidos aos homens, o cenário é diametralmente oposto: são elas que exercem influência direta sobre as escolhas dos maridos e da família. Daí o poder das mulheres nas eleições deste ano. Não por acaso, dos 13 aspirantes ao Planalto, cinco escolheram mulheres como vices na chapa. O objetivo não é outro senão tornar o candidato à Presidência mais palatável ao eleitorado feminino, hoje majoritário — 52,5% do total de eleitores. Dos 147,3 milhões de cidadãos aptos a votar nas próximas eleições, 77,3 milhões são mulheres.
O voto da mulher embute uma característica bem particular. É cristalizado na reta final da campanha, portanto é mais cuidadoso e dotado de cores mais racionais, que fazem com que uma gama variada de aspectos envolvendo os candidatos seja minuciosamente ponderada. “Historicamente, as mulheres aguardam que o quadro de informações das campanhas esteja mais completo, e só se interessam mais fortemente pelas eleições quando o horário eleitoral gratuito começa e os debates entre os candidatos são realizados. Mais ainda, as eleitoras ficam na expectativa de algo que afete diretamente a vida da população, como propostas para a saúde, educação, desemprego e segurança”, afirma Fátima Pacheco Jordão, socióloga e autora de um amplo estudo sobre o poder do voto feminino. A atriz Thays Beltrami, 26 anos, encaixa-se neste perfil. “Só votaria em alguém que assinasse um documento se comprometendo com suas promessas.”
Os números são eloqüentes. Nada menos que 80% das mulheres ainda não se definiram (54% estão indecisas e 26% declararam voto branco ou nulo), de acordo com as pesquisas. Entre os homens, o índice é de 58%. Ou seja, a mais imponderável disputa eleitoral desde a redemocratização terá seu desfecho quando as mulheres escolherem em qual candidato depositarão suas esperanças para comandar o País. A porcentagem nunca foi tão elevada. Em agosto de 2014, as indecisas somavam 72%. Em 2006, 49%. Os dados são de pesquisa do Instituto Datafolha feita em junho. Na quarta-feira 15, a divulgação do levantamento da Paraná Pesquisas confirmou a diferença de intenção de votos entre a população feminina e masculina. Em pesquisa estimulada sem o ex-presidente Lula na disputa, 27% das mulheres não tinham candidato, contra 18,8% entre os homens. Os números configuram um cenário novo. “É a primeira vez que se dá a medida do peso do eleitorado feminino no País”, afirma a historiadora Teresa Cristina Marques, da Universidade de Brasília e autora do livro “O voto feminino no Brasil”, lançado em março.
Mais cautelosas
As razões que explicam uma discrepância tão grande têm origem em circunstâncias históricas e guardam relação com o contexto atual do País. O voto feminino no Brasil só foi assegurado sem qualquer tipo de restrição pela Constituição de 1946, dezoito anos depois de a potiguar Celina Viana se transformar na primeira brasileira a ter direito de votar graças à uma lei estadual de autoria do então governador do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine. Entre o voto de Celina e o direito pleno de sufragar sucederam-se legislações que permitiam a ida das mulheres às urnas, mas dentro de várias condições. Em 1932, por exemplo, o Código Eleitoral previa o direito de escolher somente às mulheres casadas, com autorização dos maridos, e às solteiras e viúvas com renda própria.
As oportunidades desiguais no acesso às urnas ajudam a explicar o fato de as mulheres, ao longo do tempo, serem mais cautelosas na escolha. O momento atual do País, imerso em uma crise política, ética e econômica, também influencia as diferenças na percepção do que desejam homens e mulheres. É consenso entre ambos os gêneros: a corrupção é um dos maiores problemas do Brasil. Não seria diferente após quatro anos de Operação Lava Jato e suas evidências dos prejuízos impostos ao País. Mas enquanto para eles a moralização da administração pública deve ser prioridade, segundo pesquisa do Ibope e Confederação Nacional da Indústria, para elas os alvos devem estar associados à solução de problemas do dia a dia. De acordo com o Datafolha, por exemplo, 46% das entrevistadas afirmaram que o presidente deve priorizar a saúde e 18%, a educação. “Elas lidam com demandas mais difíceis de a administração pública responder com eficácia”, afirma Fátima Jordão.
A crise financeira tornou a necessidade de atendimento pelo Estado mais aguda, com a urgência de tratamento em hospitais públicos ou de mais vagas em creches e escolas. “As mulheres foram as mais prejudicadas com os cortes”, afirma a cientista política Hannah Maruci, do Grupo de Estudos de Gênero e Política da Universidade de São Paulo. Outra demanda própria do público feminino é o combate à violência, especialmente a doméstica. “Só votaria em um candidato com pautas concretas nas áreas básicas necessárias para viver com dignidade, como segurança para a mulher”, diz Júlia do Nascimento, 20 anos, estudante e operadora de telemarketing. Sem atender a anseios como esses, os candidatos vão falar ao vento. “Não há mais espaço para políticas generalistas”, diz Hannah.
Reconhecer o protagonismo da mulher na eleição significa conseguir os votos não apenas delas, mas deles também. E aqui está uma virada histórica no comportamento das sociedades. “O eleitorado feminino inicia tendências que são acompanhadas pelos homens”, atesta Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha. A maioria dos candidatos já percebeu isso ao escolher mulheres como suas vices, o que tornou estas eleições a com maior número de postulantes ao cargo. Em 2014, foram três candidatas a vice para 11 candidatos. Todas de nomes de menor importância na disputa. E uma concorrente à Presidência, que acabou reeleita: Dilma Rousseff, do PT. Agora, dos 13 candidatos ao cargo, quatro têm mulheres como vice: Ana Amélia (PP), vice de Geraldo Alckmin (PSDB); Kátia Abreu (PDT), vice de Ciro Gomes (PDT); Sônia Guajajara (PSOL), vice de Guilherme Boulos (PSOL); e Suelene Balduino (Patriota), vice do Cabo Daciolo (Patriota). E uma quinta mulher, Manuela D’Ávila (PCdoB), será a vice de Fernando Haddad (PT) assim que o TSE indeferir o registro da candidatura do ex-presidente Lula. Além deles, disputam a Presidência Marina Silva, da Rede, e Vera Lúcia, do PSTU.
Se em 2014 30% dos cargos de vices foram destinados às mulheres, agora são 40%. No caso de Geraldo Alckmin, a opção pela jornalista e senadora gaúcha Ana Amélia teve um triplo objetivo: ganhar espaço entre as mulheres, entre os gaúchos e entre os produtores rurais, com os quais a senadora tem uma forte base de diálogo.
Vices estratégicas
Ao perder os apoios que buscava entre os partidos de esquerda, Ciro Gomes, do PDT, optou por uma vice de perfil bem parecido com o de Ana Amélia. Sua companheira de chapa, a senadora Kátia Abreu, é também ligada ao agronegócio. Ela não era o nome preferido dos coordenadores da campanha de Ciro. Foi a escolhida porque o candidato precisa tirar votos de Alckmin para chegar ao segundo turno. Sem o apoio dos partidos de esquerda, necessita ampliar suas chances junto ao empresariado. E Kátia ainda pode ter a função de ajudar a estabelecer pontes de Ciro com o PT. Ela foi ministra da Agricultura da ex-presidente Dilma e se tornou sua amiga. Saiu do MDB e foi para o PDT justamente porque foi contra o impeachment.
Parte do complexo tripé criado pelo PT para disputar as eleições, Manuela D’Ávila está destacada para fazer o perfil de “esquerda raiz” na chapa, contrapondo o estilo de Fernando Haddad, um tipo mais acadêmico para o qual muitos petistas torcem o nariz. Egressa do movimento estudantil, levará para a campanha temas relacionados à causa feminina, como a legalização do aborto.
Marina Silva, da Rede, apontará pontos destinados a atingir o alvo feminino. Ela promete ampliar a participação das mulheres nos principais cargos de tomada de decisão do País. Para combater o alto índice de desemprego, defende uma especial atenção às mulheres chefes de família que hoje estão sem trabalho. Seu programa de governo também abordará as demandas femininas na área de educação, propondo, entre outras medidas, a ampliação do número de creches.
Titular de uma chapa masculina, que tem como vice o ex-governador do Rio Grande do Sul Germano Rigotto, Henrique Meirelles, do MDB, considera que seu perfil mais técnico se adapta ao gosto das mulheres. Na campanha, apresentará um programa para o público feminino que ele batizou de “Pró-Criança”. Semelhante ao Pro-Uni, que concede crédito para os estudantes conseguirem vagas em universidades particulares, o Pró-Criança promete oferecer o mesmo às mães de baixa renda para que coloquem seus filhos em creches, maternais e escolas de primeiro grau privadas. Jair Bolsonaro, do PSL, não incluiu uma mulher em sua chapa, mas bem que fez força para isso. Bateu na trave a jurista Janaína Paschoal, que alegou razões familiares para não seguir adiante. Sobrou como vice o general Hamilton Mourão. Mesmo assim, Bolsonaro se esforça como nunca para seduzi-las depois de ter dito, entre outros absurdos, que, depois de gerar quatro filhos, “fraquejou” e teve uma mulher. Nas eleições das mulheres, repetir ofensas como essas, mesmo que em tom de brincadeira, como alega o candidato, é mais do que uma heresia. Pode significar a perda da eleição.
Reportagem de Cilene Pereira  e Paula Diniz. Colaboraram Rudolfo Lago e Wilson Lima, de Brasília
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domingo, 19 de agosto de 2018

BRECHA NA FORTALEZA DE BOLSONARO

Com candidatos sem punch e com medo de correr risco, o debate realizado pela RedeTV, o segundo das eleições 2018, parecia caminhar para se tornar um um mar de monotonia. Candidatos faziam dobradinhas, se chamavam de amigos e pareciam muito mais preocupados em não falar bobagens do que em tentar se destacar. Mas, no terceiro bloco, Marina Silva retomou uma resposta ruim de Jair Bolsonaro sobre direitos de mulheres dada a Henrique Meirelles para fazer uma forte fala sobre as dificuldades das mulheres.
Irritado com o tom de Marina, Bolsonaro tentou partir para o ataque dizendo que a adversária era evangélica mas defendia plebiscito para legalização das drogas e liberação do aborto. Marina chegou a tentar interromper Bolsonaro antes da hora, mas acabou fazendo um discurso forte condenando a violência que seria pregada pelo adversário em sua campanha.
Marina pode ter encontrado um pulo do gato nessa intervenção. Se comunicou com o eleitorado feminino, que é maioria no País, e pode ter descoberto uma brecha na poderosa fortaleza de Bolsonaro, que lidera as pesquisas nos cenários que não incluem Lula.
Com candidatos sem punch e com medo de correr risco, o debate realizado pela RedeTV, o segundo das eleições 2018, parecia caminhar para se tornar um um mar de monotonia. Candidatos faziam dobradinhas, se chamavam de amigos e pareciam muito mais preocupados em não falar bobagens do que em tentar se destacar. Mas, no terceiro bloco, Marina Silva retomou uma resposta ruim de Jair Bolsonaro sobre direitos de mulheres dada a Henrique Meirelles para fazer uma forte fala sobre as dificuldades das mulheres.
Irritado com o tom de Marina, Bolsonaro tentou partir para o ataque dizendo que a adversária era evangélica mas defendia plebiscito para legalização das drogas e liberação do aborto. Marina chegou a tentar interromper Bolsonaro antes da hora, mas acabou fazendo um discurso forte condenando a violência que seria pregada pelo adversário em sua campanha.
Marina pode ter encontrado um pulo do gato nessa intervenção. Se comunicou com o eleitorado feminino, que é maioria no País, e pode ter descoberto uma brecha na poderosa fortaleza de Bolsonaro, que lidera as pesquisas nos cenários que não incluem Lula.
Do Estadão, via MSN
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sábado, 18 de agosto de 2018

MORRE KOFI ANNAN

Kofi Annan, mediador da paz em alguns dos conflitos mais importantes da virada deste século e o primeiro africano negro a ser secretário-geral da Organização das Nações Unidas, morreu na madrugada deste sábado (18). Ele tinha 80 anos.

A morte foi confirmada pela fundação que leva o nome do prêmio do Nobel da Paz de 2001. Segundo o anúncio, ele morreu em um hospital de Berna, Suíça, após uma curta doença não especificada.

“Onde quer que houvesse sofrimento ou necessidade, ele estendeu a mão e tocou muitas pessoas com sua profunda compaixão e empatia”, declarou a fundação.

Kofi Atta Annan, nasceu em  8 de abril de 1938, em uma família de elite em Kumasi (Gana), filho de um governador da província e neto de dois chefes tribais. Fluente em inglês, francês e várias línguas africanas, passou quase toda a carreira nas Nações Unidas, onde ingressou em 1962 como funcionário do departamento de orçamento da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Sua trajetória na ONU inclui passagens por postos na África e na Europa e em quase todas as áreas da organização, da administração do orçamento à manutenção da paz. Como secretário-geral, cumpriu dois mandatos, máximo permitido, de 1º de janeiro de 1997 a 31 de dezembro de 2006.

Annan era casado com a sueca Nane, sobrinha de Raoul Wallenberg, o diplomata que salvou milhares de judeus dos nazistas na Segunda Guerra Mundial (1939-45). Deixa os filhos Ama e Kojo do primeiro casamento, com a nigeriana Titi Alakija, e Nina.

Kojo, consultor de uma empresa suíça que atuava no programa Petróleo por Comida no Iraque sob sanções, foi o pivô de uma investigação de tráfico de influência e corrupção em 2005 envolvendo o pai.

Embora Kofi Annan tenha sido exonerado em inquérito independente, o episódio mancharia seu legado e municiaria pedidos de renúncia. Em 2005, ele aceitou a crítica e admitiu falhas.

Mas o secretário-geral que tentou reformar a ONU e tornou o organismo fundado em 1945 mais proeminente também recebeu reconhecimento em vida. Em 2001, ele e a instituição que comandava receberam o Nobel da Paz.

Seu mandato cobriu um período turbulento nas relações internacionais, que incluiu fracassos, escândalos e guerras cuja saída ele buscou mediar, nem sempre com sucesso.

Acho que meu momento mais sombrio foi a guerra do Iraque [2003] e o fato de não termos podido impedi-la”, disse em fevereiro de 2013 à revista Time, quando publicado seu livro “Intervenções: uma vida em guerra e paz”, lembrando que a decisão dos EUA e de seus aliados de invadir o país de Saddam Hussein atropelou a instituição.

“Eu trabalhei duro. Estava conversando com líderes de todo o mundo. Os EUA não tiveram apoio no Conselho de Segurança”, disse. “Então eles decidiram ir sem o conselho. Você imagina se a ONU endossasse a Guerra no Iraque, como seria nossa reputação?”

O temperamento de diplomata nunca inibiu Annan de ser franco, qualidade rara em seu posto. Grande parte de seu segundo mandato foi gasta na tentativa de reformar o organismo e convencer os EUA, o maior contribuinte da ONU, a quitar quase US$ 2 bilhões (cerca de R$ 7,8 bilhões) em pagamentos atrasados.

Em seu livro, Annan trata do ônus do principal cargo do sistema multilateral global.​

Pouco antes de se tornar secretário-geral, ele serviu como chefe das forças de manutenção da paz da ONU. Foi nesse  período que as operações enfrentaram dois fracassos: o genocídio de Ruanda, em 1994, e o massacre na cidade bósnia de Srebrenica, em 1995.

Em ambos os casos, a ONU enviara tropas sob o comando de Annan, mas elas não impediram os massacres; no caso de Ruanda, ele admitiu depois que houve demora em agir.

Se atraiu críticas pela limitação nas ações pela paz, Annan também fez da ONU um ator político mais proeminente. Foi na sua gestão que a entidade lançou os Objetivos do Milênio, conjunto de medidas de desenvolvimento ousado para reduzir a desigualdade global, uma das iniciativas mais importantes do organismo em seus 73 anos.

O ganense continuou envolvido em atividades de mediação da paz e promoção do desenvolvimento após deixar o cargo, criando a fundação que leva seu nome, em 2007, instalada em Genebra.

No ano passado, os maiores projetos de sua fundação incluíram a promoção de eleições justas e pacíficas, o trabalho com Mianmar no conflituosos estado de Rakhine, e a luta contra o extremismo e o recrutamento de jovens.

Ele também se manteve atuante diante de problemas como a crise dos refugiados, além de promover a boa governança, medidas anticorrupção e agricultura sustentável na África. Outra de suas frentes de trabalho inclui esforços na luta contra o tráfico de drogas.

Durante esse período, Annan manteve conexões com muitas organizações internacionais. Ele foi chanceler da Universidade de Gana, membro da Universidade de Columbia, em Nova York, e professor da Escola de Políticas Públicas Lee Kuan Yew, em Cingapura.

REUTERS , AFP e ASSOCIATED PRESS, via Folha de S.Paulo
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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

UM VOTO IRRACIONAL

Editorial, O Estado de S.Paulo
Uma parte da elite empresarial do País começa a declarar publicamente sua intenção de voto em Jair Bolsonaro (PSL) para a Presidência da República. O que antes era um apoio silencioso e um tanto envergonhado vai ganhando porta-vozes desinibidos. A unir esses empresários está não o liberalismo postiço de Bolsonaro, inventado somente para tornar menos difícil declarar voto em quem é tão identificado com o estatismo, o nacionalismo e a repressão que marcaram a ditadura militar, mas a presunção de que o ex-capitão, por ser quem é, será capaz de implodir o atual sistema político.
Para os empresários que se dizem bolsonaristas, é preciso acabar com o presidencialismo de coalizão, em que o presidente precisa fazer acordos muitas vezes fisiológicos com diversos partidos para conseguir votos. Fosse o candidato do PSL capaz desta proeza, mereceria o apoio dos brasileiros de boa-fé.
Que o deplorável presidencialismo de coalizão é o sintoma mais evidente da submissão da política a interesses paroquiais não se discute. A distribuição de verbas e cargos para angariar apoio no Congresso torna praticamente impossível que o Executivo forme um Ministério com os melhores nomes possíveis, devido ao loteamento entre os apaniguados de partidos aliados. Ademais, a governabilidade fica sempre na dependência da habilidade do presidente de manter a capacidade de barganha.
Não admira que esse sistema, levado a extremos nos governos do PT, cujos escândalos do mensalão e do petrolão foram seu corolário, tenha causado tanta revolta - especialmente entre os que trabalham e pagam impostos. O processo que levou ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, embora baseado nas criminosas “pedaladas fiscais”, foi politicamente impulsionado pela sensação, compartilhada por milhões de brasileiros que foram às ruas protestar, de que o País estava sendo tomado de assalto por uma quadrilha política.
O afastamento da petista acendeu a esperança de que o sistema fosse afinal se regenerar, mas, para uma parte considerável da opinião pública - na qual se encontram os empresários bolsonaristas -, os desdobramentos foram frustrantes. Generalizou-se a sensação de que todos os políticos são corruptos, entre outros fatores, pela imprudência de alguns dos integrantes da Operação Lava Jato, que trataram tênues suspeitas como provas cabais, e pela lamentável atuação da Procuradoria-Geral da República especialmente no caso das denúncias ineptas, porém escandalosas, contra o presidente Michel Temer.
Diante da percepção de que o sistema é de difícil regeneração - pois exige uma ampla reforma política que, entra ano, sai ano, ninguém consegue fazer -, gente como Bolsonaro passou a ser vista a sério como opção, por ser identificado como alguém avesso a fazer os conchavos políticos que a maioria da população não compreende e repudia. Sua candidatura desligada dos grandes partidos e relacionada a uma nostalgia da ditadura - idealizada como um tempo de “ordem” garantida por militares incorruptíveis - ganhou ares de alternativa viável para os que consideram que o sistema é irremediavelmente corrupto e indiferente ao destino do País.
O trágico é que alguns desses empresários que declaram voto em Bolsonaro admitem que o ex-capitão não tem mesmo capacidade para ser presidente da República. Mas, para eles, isso não é importante. O importante é que a eventual vitória de Bolsonaro representaria a ruptura com “o modelo que está aí”, nas palavras de um dos empresários desse movimento, cuja crescente mobilização foi noticiada pelo Estado.
Até onde se tem conhecimento, nenhum desses empresários parece saber ao certo o que virá depois dessa projetada ruptura. Mas não é difícil imaginar. Sem partido, com um discurso desagregador e antidemocrático, adepto de soluções que privilegiam a violência e - o que ele mesmo admite - um rematado ignorante dos principais problemas econômicos do País, Bolsonaro criaria tal confusão e tensão que o ambiente de negócios, já muito difícil, se tornaria totalmente hostil. Donde se conclui que esse movimento de empresários em favor de tal ruptura carece absolutamente de racionalidade. Pois Bolsonaro não tem como fazer a reforma política e muito menos como sanear as finanças públicas e reativar a economia.
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terça-feira, 14 de agosto de 2018

ELEGER OU DERRUBAR

Artigo de Fernando Gabeira
Em plena campanha, não sei se estamos realmente escolhendo um presidente ou cavando uma crise para que ele se afunde, como afundaram seus antecessores. O Congresso votou uma bomba fiscal e o STF, um aumento que vai repercutir nas contas públicas. No calor da luta política, os candidatos falam em investir. Mas como, se as despesas da máquina do governo vão aumentar?
Tive de explicar a alguns amigos por que tenho uma relação cordial com Bolsonaro. Não sabiam que o conheço há duas décadas, e convivemos no Congresso durante 16 anos e inúmeras viagens Rio-Brasília. Foram 16 anos de divergência no campo dos costumes sem que se tenha perdido o diálogo.
Da mesma forma, conheço quase todos os outros candidatos. Admiro sua coragem. Nunca estive com o Cabo Daciolo, por exemplo, mas o considero uma versão light do russo Iorudivi, um louco de Deus.
Ele não usa correntes amarradas no corpo, mas tem as mesmas visões de cura. Daciolo afirmou que soube por Deus que a deputada Mara Gabrilli iria andar em breve.
São homens e mulheres que se dedicam a uma tarefa muito difícil. É possível que alguns não saibam o quanto. E que alguns tenham até má intenções.
Considero fundamental que todos possam apresentar suas ideias. Na última eleição entrevistei os que estavam fora do debate, porque não pontuaram o suficiente nas pesquisas.
Certamente o farei de novo, com a tática de sempre: nem cúmplice nem algoz. Tudo o que posso fazer é estender uma corda para que escalem a montanha ou se enforquem.
Quanto mais transparência, pelo menos teoricamente, chega-se mais facilmente a uma boa escolha. É possível dizer que nem sempre foi assim, e nem sempre será. Mas não há outra lógica melhor.
Nunca fui tao moderado, reconheço. Mas uma leitura cautelosa destas eleições mostra esquerda fragmentada, direita em ascensão, crise econômica. Para quem conheceu outros momentos históricos, essa combinação é perigosa.
O sistema político-partidário, do qual participei ao longo de alguns anos, está em frangalhos e só se sustenta movido a muito dinheiro público. Terminou um período de redemocratização que deixa grande número de descrentes na importância da própria democracia.
A primeira preocupação é não jogar fora o bebê com a água de banho. O processo democrático precisa se aprofundar, mas em novas bases.
De um modo geral, somos muito atentos aos golpes de Estado, mas subestimamos as outras formas que ameaçam a democracia através de sua erosão cotidiana. A melhor maneira que me ocorre é buscar algum consenso na análise de conjuntura. A esquerda comprometeu sua influência cultural em vários momentos. O mais grave deles foi a corrupção que atingiu sua credibilidade.
Mas, no meu entender, teve peso também aplicar políticas estatais que mexem com o cotidiano, sem um consenso majoritário, apenas por ter vencido as eleições. Essa suposição de que a minoria iluminada precisa conduzir o país em alguns temas da vida produz muitos ressentimentos.
O próprio Supremo, ao discutir a questão do aborto, corre o risco de decidir pelo Congresso, algo que não acontece em muitos países em que o Parlamento funciona. O argumento contrario é de que as coisas demoram a acontecer sem uma intervenção da vanguarda. No entanto, escolhas feitas por uma elite acumulam resistências que contribuem para movimentos contrários com resultados imprevisíveis.
Não tenho a pretensão de ter o segredo para repactuar o diálogo político no país. A única formula que conheço é tentar suprimir ofensas e se concentrar na troca de ideias.
As ofensas acabam reforçando emocionalmente soluções simples para problemas complexos. Ideias geram dúvidas, suscitam revisões — enfim, são o melhor veículo para sair dessa maré.
Os debates entre candidatos começaram. Ainda há pouco de linguagem egocêntrica, cada um repisando suas teses, sem levar em conta a pergunta. A tarefa agora é levá-los à maior clareza possível não só sobre o que vão fazer, mas como vão fazer e com que dinheiro, nesse pântano fiscal em que nos metemos.
Precisamos escolher alguém para eleger, e não para derrubar no ano seguinte.
Artigo publicado no Globo em 13/08/2018
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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

MORRE CLÁUDIO ABRAMO

Da Folha de S.Paulo
SÃO PAULO Um dos maiores especialistas em combate à corrupção do país, o jornalista paulistano Cláudio Weber Abramo morreu na noite deste domingo (12) aos 72 anos em São Paulo.
Internado no Hospital Samaritano, ele não resistiu a complicações do tratamento de um câncer no intestino.
Formado em matemática pela USP, mestre em lógica e filosofia da ciência pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Abramo cofundou em 2000 e comandou por quase 15 anos a Transparência Brasil.
Entre os projetos da Transparência, o Excelências, banco de dados sobre o histórico da vida pública de parlamentares, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo em 2006.
Abramo foi pioneiro no jornalismo de dados com o projeto Às Claras, plataforma que organizava e disponibilizava gastos das eleições.
Sua atuação foi fundamental para a aprovação da Lei de Acesso à Informação, com a pressão feita pela Transparência Brasil e a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) para que o projeto fosse sancionado.
Com espírito crítico e questionador, instigava jornalistas a perseguirem a informação sem se conformarem com as burocracias impostas pelo poder público.
Mesmo tratando o câncer, Abramo​ se manteve em atividade. Em artigo publicado pela Folha no dia 20 de julho, tratou dos riscos de a lei de proteção de dados pessoais dificultar o acesso à informação e ampliar arbitrariedades.
Abramo foi editor de economia da Folha (1987) e secretário-executivo de Redação da Gazeta Mercantil (1987-88). Contribuiu com outras publicações como o jornal Valor Econômico.
Em 2017, cofundou a Dados.Org, organização dedicada à coleta, organização e disseminação de informações provenientes do poder público.
Abramo era filho de Cláudio Abramo, um dos mais importantes jornalistas de sua geração, que dirigiu a Folha e o Estado de S.Paulo.
Sua mãe,  Hilde Weber, foi a primeira chargista mulher da imprensa brasileira, cuja obra o filho vinha trabalhando para organizar em um acervo com acesso do público.
Abramo deixa quatro filhos, Luis Raul e João Baptista, do casamento com Sílvia Pompeia, Lucas e Caio, do casamento com Maria Augusta Fonseca, e a enteada Isabel, do casamento com Cristina Penz.
Tinha seis netos, Tomás Antônio, João Pedro, Guilherme, Manuela, Maria Luísa e Mariana.
Abramo será velado na Funeral House, na rua São Carlos do Pinhal, 376, e cremado nesta segunda-feira (13) no crematório da Vila Alpina, a partir das 14h30.
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RECORDANDO MIGUEL ARRAES

Miguel Arraes de Alencar era cearense de nascimento, mas construiu sua carreira política em Pernambuco e se tornou um dos maiores expoentes da esquerda brasileira.

Foi deputado estadual, federal e governador de Pernambuco por três vezes. Arraes nasceu no dia 15 de dezembro de 1916, em Araripe, Ceará, onde frequentou os primeiros anos de escola. Em 1932, concluiu o curso secundário no Colégio Diocesano, no Crato, também no Ceará, e em seguida mudou-se para a capital pernambucana. No Recife, foi aprovado num concurso público para o hoje extinto IAA (Instituto do Açúcar e do Álcool).
Foi no IAA que Arraes conheceu Barbosa Lima Sobrinho, seu ex-presidente, e que o levou para a vida pública.
Em 1948, Miguel Arraes aceitou convite do então governador de Pernambuco, Barbosa Lima Sobrinho, para ocupar o cargo de secretário estadual da Fazenda. Dois anos depois, disputou sua primeira eleição para deputado estadual e ficou na suplência, vindo depois a ocupar a cadeira. Em 1958,  conquistou uma vaga de titular na Assembleia Legislativa de Pernambuco.
No governo de Cid Sampaio, em 1959, voltou à Secretaria da Fazenda como titular. Nesse mesmo ano, foi convocado pelas forças progressistas para ser candidato a prefeito do Recife e se elegeu para seu primeiro mandato executivo.
Em 1962, depois de uma administração aprovada pela população da capital, Miguel Arraes foi eleito pela primeira vez para governar Pernambuco.
No seu governo (que não chegou a concluir), Miguel Arraes implantou programas de destaque na área de educação e no setor rural. O Acordo do Campo, assinado em seu gabinete, teve como princípio a implantação da justiça na relação trabalhista dos canavieiros com os donos de usinas.
No dia primeiro de abril de 1964, Arraes foi deposto pelo Golpe que instituiu a ditadura militar  no Brasil. Depois de ficar preso em quartéis do Recife e da Ilha de Fernando de Noronha, seguiu em 1965 para o Rio de Janeiro onde pediu asilo na Embaixada da Argélia. Ao lado da família, passou 14 anos exilado na capital argelina. Retornou ao Brasil em 1979, quando foi decretada a anistia pelos militares golpistas que estavam sendo pressionados por vários setores da população brasileira.
De volta ao Recife, Arraes retomou sua trajetória política, se filiando ao PMDB ( Partido do Movimento Democrático Brasileiro). Foi eleito deputado federal em 1982.
Em 1986, ainda pelo PMDB, Miguel Arraes foi eleito pela segunda vez para governar Pernambuco. Em 1990, já filiado ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), do qual presidente nacional, Arraes foi eleito, novamente, deputado federal, com a maior votação proporcional do país.
Em 1994, foi eleito pela terceira vez governador de Pernambuco. Quatro anos depois de perder a reeleição para o quarto mandato de governador, Arraes elegeu-se mais uma vez elege-se deputado federal.
Morreu aos 88 anos, no dia 13 de agosto de 2005, no exercício do mandato, depois de passar quase dois meses internado no Hospital Esperança, no bairro da Ilha do leite, na área central do Recife.
Informações do Instituto Miguel Arraes
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QUATRO ANOS DEPOIS

Hoje completa quatro anos que Eduardo Campos morria num trágico acidente aéreo, em Santos (SP). O ex-governador de Pernambuco, então candidato a presidente da República Eduardo Campos e mais seis pessoas morreram na queda do avião.
Lembrando um ano da morte de Campos, foi lançado Viva Eduardo Campos, o site mostra uma linha do tempo com a trajetória de vida e política de Eduardo Campos.
“Não vamos desistir do Brasil” – Eduardo Campos.
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domingo, 12 de agosto de 2018

UMA CANDIDATA TRANS

Do Estadão Conteúdo
BELO HORIZONTE - A professora Duda Salabert, de 36 anos, se apresenta como a primeira mulher trans a se candidatar ao cargo de senadora no Brasil. Filiada ao PSOL de Minas Gerais, ela tem como bandeira, mais do que a luta pela igualdade de gênero, a educação. “Antes de militar como mulher trans, eu milito pela educação há mais de vinte anos“, afirma Salabert. Uma das propostas é o perdão da dívida do FIES (Fundo de Financiamento Estudantil).
Salabert é presidente da Transvest, uma ONG que oferece cursos pré-vestibular e de idiomas gratuitos para travestis e transexuais. De acordo com ela, os cursos da organização recebem mais de 100 pessoas por ano. No futuro, a ONG pretende abrir um curso preparatório para profissionais do sexo, ambulantes e camelôs da região central de Belo Horizonte.
PSOL
Duda Salabert é presidente da Transvest, ONG que oferece cursos pré-vestibular e de idiomas gratuitos para travestis e transexuais. Foto: Lucas Ávila/PSOL
Apesar de disputar a primeira eleição, a professora disse que recebeu convites para se candidatar a outros cargos no PSOL, mas preferiu o Senado como forma de “provocação”. “Eu aceitei pelo caráter simbólico. Senado, na sua etimologia significa 'senhores'. Se é um espaço feito para senhores, uma mulher travesti, disputando esse espaço, é extremamente provocativo”.
Além de Salabert, Minas Gerais terá outras três candidatas trans nestas eleições, duas do PSOL e uma do PCB, partidos que estão na mesma coligação no Estado. Em março deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou o uso do nome social pelas candidaturas de pessoas trans.
“Estamos em um país que as pessoas transexuais não são consideradas humanas. É uma desvantagem. Até nos movimentos sociais reproduzem a transfobia”, afirmou a candidata. "Mas faço do veneno, o remédio”.
A professora afirmou que tem sido alvo de ataques nas redes sociais. “Se a violência ficar só no moral eu suporto, mas eu tenho muito receio de isso passar para o físico”.
Em 2017, a Associação Nacional de Travestis (ANTRA) contabilizou 179 assassinatos de pessoas transexuais, o que daria um assassinato a cada 48 horas. Além disso, a expectativa de um travesti no Brasil é de 35 anos, segundo a organização.
Dilma. Na corrida as duas vagas para o Senado em Minas, Duda Salabert enfrentará a presidente cassada Dilma Rousseff (PT). Apesar de criticar o governo da petista, a professora afirma que a candidatura de Dilma também pode alavancar a dela. “A Dilma é o principal nome ao Senado. Não só por ser uma candidatura de mulher, mas porque ela trazer para o Senado, votos à esquerda. Possivelmente, duas pessoas da esquerda vão ser eleitas esse ano”.
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sábado, 11 de agosto de 2018

O CURRAL DO CORONEL

Da ISTOÉ
Durante a eleição municipal de 2016, o horário de funcionamento da prefeitura de Sobral, segundo maior município do Ceará com 205 mil habitantes, foi alterado a pretexto de economizar energia. Na realidade, a portaria instituída pelo então prefeito Clodoveu Arruda (PT) teve outro propósito: o de mobilizar funcionários públicos para trabalhar na campanha do irmão caçula do candidato do PDT à Presidência, Ciro Gomes, Ivo Ferreira Gomes, candidato a administrar a cidade. Um verdadeiro exército de professores, agentes de saúde e secretários municipais cumpriu a missão a contento. Trajados de amarelo, os servidores da prefeitura bateram de porta em porta em favor da candidatura do irmão de Ciro. Durante o corpo-a-corpo eleitoral, houve até quem trocasse votos por água encanada. A agricultora Maria do Livramento Paiva, da fazenda Campo Grande, distrito de Taperuaba, confessou à ISTOÉ que, para receber água potável em sua residência, teve de “jurar fidelidade aos Gomes”, que consistia em cabalar o maior número de votos possíveis no seio da própria família. “Por essa água eu me despedacei arrumando voto de todo jeito”, afirmou. O resultado não poderia ter sido diferente: Ivo foi eleito com 57,9 mil votos – 51,4% do total. No primeiro ano de mandato, durante encontro para definir o Plano Plurianual da cidade, Ivo Gomes discursou: “Quem tem o poder sou eu e quem não rezar na minha cartilha vai sair. Experimentem me desafiar”, ameaçou. Os episódios são ilustrativos da influência exercida pelos Ferreira Gomes em Sobral. Mais do que berço político de Ciro, o município se transformou numa espécie de curral eleitoral da família. Ali, impera a lei do mais forte, na acepção do termo.
Não foi sempre assim. Além de primogênito, Ciro Gomes era o filho predileto de José Euclides Ferreira Gomes, o “advogado dos pobres”, como os defensores públicos eram chamados na década de 60, em Sobral. O garoto sempre foi considerado um virtuose. Lia muito e gostava de recitar Camões – chegou a ganhar um concurso para viajar a Portugal. Mas o começo da vida não foi fácil para o candidato do PST ao Planalto. Estudou em escola pública – Colégio Dom José –, pois os pais não tinham dinheiro. Conseguiu ingressar no Colégio Sobralense, privado, faltando apenas três anos para o vestibular. Ciro era resiliente. Para concluir o curso de Direito em Fortaleza, onde foi aprovado em 1º lugar, teve que morar num mosteiro de franciscanos. Motivo: o aluguel era mais barato. A situação mudou da água para o vinho em 1976 com a eleição do pai para a prefeitura de Sobral. Eleito, José Euclides fez um bom mandato e se vinculou ao coronel Cesar Cals, que virou ministro das Minas e Energia do governo João Figueiredo. A partir de então passou a mandar e desmandar na cidade, catapultando a carreira política do filho. O município foi a plataforma que lançou o aspirante ao Planalto a vôos mais altos, destaques para as eleições a prefeito de Fortaleza, governo do Ceará e para a nomeação a ministro da Fazenda do governo Itamar Franco.
Hoje, em Sobral, a família é detentora de 50% do eleitorado. Outros 20% votariam neles por medo, segundo revelou Luiz Melo Torquato, 77, ex-presidente do Guarany de Sobral. Torquato, que acompanha a vida política do clã Ferreira Gomes desde suas raízes, lembra que, ao todo, a cidade já teve seis prefeitos da família.  “Ciro gosta de falar o que o povo gosta de ouvir”, disse o empresário, emendando na sequência uma ponta de mágoa e frustração. Ele conta que eles eram muito amigos, mas que Ciro “se contaminou” ao se cercar “de gente grande e poderosa”. “Ciro era muito inteligente e honesto, mas virou uma máquina mortífera com quem passou a se opor a ele. Basta ver a rasteira que deu no ex-governador do Ceará Tasso Jereissati e Lúcio Alcântara, homens que investiram nele sem medir esforços e o colocou em cargos importantes que o projetou no cenário nacional e depois foram traídos”, lamenta.  Torquato não é voz isolada. Professor de português no colégio Sobralense, hoje extinto, o padre Osvaldo Carneiro Chaves, aos 94 anos, enrijece os músculos do rosto e pede para mudar de assunto quando indagado sobre seu ex-aluno Ciro Gomes: “Tem tanta gente no mundo, vamos falar de outras pessoas”, suplicou ele. Perguntado com insistência se Ciro ao menos era um aluno aplicado, Chaves respondeu com rispidez: “Era uma estrela, mas um aluno aplicado não se julga pelas notas e sim pela sua capacidade de trabalho e pelo respeito ao próximo”. Contemporâneo de Ciro no Colégio Marista Cearense, na década de 70, o engenheiro Hermenegildo Souza Neto atesta a fama de “geniozinho de temperamento forte” do hoje aspirante à Presidência. Conta que o presidenciável se destacava, ajudava amigos de sala e não precisava estudar muito para tirar boas notas. “Nos dias de provas todos queriam sentar perto dele para pescar as questões”, afirma. Mas lamenta que Ciro “engrossou o pescoço depois que entrou na política”: “Ele se acha melhor que todo mundo”.
Agricultora disse que, para receber água potável em sua residência, teve de “jurar fidelidade aos Gomes”. Ou seja, votar e pedir votos para eles
Embora, nas recentes sabatinas, tente exibir um semblante mais sereno, Ciro mudou pouco, garantem moradores de Sobral. O jeitão explosivo pode até permanecer em stand by durante alguns momentos, mas segue latente, pronto para aflorar a qualquer hora. Como em setembro de 2016, quando, segundo testemunhas, Ciro percorria o distrito de Taperuaba, distante 65 quilômetros de Sobral, fazendo visitas e pedindo votos para o irmão Ivo. Incomodado com uma moto que o seguia, o candidato do PDT ao Planalto desceu do carro embebido em fúria, xingou o rapaz e tentou agredi-lo. Qual não foi sua surpresa: o motoqueiro conhecido por Júnior era dono de um certeiro cruzado de direita. Ciro acabou nocauteado com um único soco no rosto e precisou ser amparado por seus seguranças. O caso foi abafado.
Em novembro do ano passado, a família de Ciro sofreu o que seria o seu maior revés na cidade. A justiça eleitoral cassou o diploma de Ivo Ferreira Gomes, por compra de votos. Na ocasião, o Ministério Público Federal também foi favorável à cassação, mas o poder da oligarquia falou mais alto e o quadro foi revertido no TRE, em Fortaleza. Na última semana, o MDB e o Ministério Público Eleitoral impetraram um embargo de declaração e o processo seguiu para o TSE. Ivo atribui as recentes desventuras à oposição. O momento para os Ferreira Gomes não mesmo é favorável em seu berço político. Além da pendenga eleitoral, Sobral vive uma escalada de violência, com aumento do número de homicídios e bairros inteiros dominados por facções criminosas. De tantos mandos, o reduto dos Ferreira Gomes no interior do Ceará virou um desmando.
“ (Ciro) Era uma estrela, mas um aluno aplicado não se julga pelas notas e sim pela sua capacidade de trabalho e pelo respeito ao próximo” Osvaldo Carneiro Chaves, professor de Ciro no colégio Sobralense
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BOLSONARO, O CANDIDATO FAKE

Da ISTOÉ
No início dos anos 2000, a historiadora norte-americana Deborah Lipstadt, foi processada por um pesquisador, o britânico David Irving, após ela tecer fortes críticas ao seu trabalho. Poderia parecer mais uma querela profissional ou disputa de egos entre colegas, se por trás do processo não houvesse a perigosa tentativa de Irving de reescrever a história, justamente numa das suas passagens mais absurdas e dolorosas. O livro de Irving, “Denying the Holocaust: The Growing Assault on Truth and Memory” (Negando o Holocausto – Assaltando a verdade e a memória) minimiza o massacre de mais de 6 milhões de judeus pelas mãos dos nazistas comandados por Adolf Hitler na Segunda Guerra Mundial. Deborah contestou-o, acusando-o de ser “um dos mais perigosos porta-vozes da negação do Holocausto”. Irving criava uma versão que era conveniente a grupos preconceituosos, conservadores e racistas. Ao final do processo, Deborah Lipstadt saiu vitoriosa e Irving foi classificado nos autos como “anti-semita e racista”.
Quase duas décadas depois, o Brasil vai para uma eleição presidencial em que um dos candidatos tende a trilhar pelo mesmo caminho de Irving: o da negação da verdade, valendo-se de fatos distorcidos para criar uma história própria, conveniente a uma onda de extrema-direita que se instalou no País e em partes do mundo. Trata-se do candidato do PSL ao Planalto, Jair Bolsonaro. Quanto mais o ex-capitão do Exército se expõe, mais ele se revela um engodo. Falseia a história brasileira, minimizando o drama da escravidão, ao tentar atribuir aos próprios africanos o comércio de escravos, relativiza também a ditadura militar, o uso da tortura e de outros expedientes bárbaros do regime, apostando na curta memória do seu eleitorado majoritariamente jovem, que não testemunhou o período e, sim, mente sobre si próprio, suas convicções, declarações e comportamentos pretéritos, a fim de se tornar mais palatável a setores do eleitorado ainda refratários a ele.
Assim, a candidatura de Bolsonaro vem se consolidado não pela apresentação de propostas para a saúde, educação, moradia ou para acabar com o desemprego. Mas pela propagação e disseminação de informações falsas, distorções de fatos históricos ou de ações sem qualquer comprovação técnica ou científica. Nas últimas semanas, quando as opiniões do aspirante ao Planalto foram mais expostas a partir de entrevistas, debates e aparições públicas, essa maneira de agir, que já virou um procedimento, ficou escancarada. Seus apoiadores fazem coro e, no mesmo sentido, se associam na disseminação de informações falsas. Na lista de perfis que o Facebook tirou do ar no final de julho, após a constatação de que eram propagadores de fake news, estão pelo menos três que são claramente ligados a Bolsonaro: “Bolsonaro, o Mito”; “Bolsonaro Presidente” e “Vamos falar de Jair Bolsonaro?”.
O clã Bolsonaro
A própria forma como Bolsonaro se apresenta ultimamente ao eleitor difere da realidade e de seu comportamento em 27 anos como deputado federal. Ele posa de outsider quando, na verdade, já está em seu sétimo mandato como deputado federal. Nesse período, passou pelos mesmos partidos questionados por envolvimentos nos principais casos de corrupção do País, seja o mensalão ou as investigações da Operação Lava Jato: foi filiado ao PP e ao PTB. Da mesma forma como os Collor, os Barbalho e os Calheiros, criou um clã: seus filhos também são políticos. Afirma que o economista Paulo Guedes é seu guru, o “Posto Ipiranga” que vai resolver todos os problemas na economia. Na verdade, Guedes é mais do que o “Posto Ipiranga” de Bolsonaro. É sua Carta ao Povo Brasileiro. É o elo com o establishment do candidato que se vende como anti-establishment. Em suma, o Brasil está diante de um candidato anti-sistema originário do sistema e que usa as mesmas armas do sistema para comandar o sistema – e provavelmente, se chegar lá, dançar conforme a música do sistema. Portanto, há muito pouco ou quase nada de autêntico no candidato que faz da pretensa autenticidade um trampolim para alcançar o poder.
Ao contrário do escolhido para conduzir a economia, um liberal, Bolsonaro é um nacional-desenvolvimentista, ligado às alas militares que defendem a criação de estatais e que, no passado, adotaram políticas protecionistas como a reserva de mercado de informática. Analisando a trajetória parlamentar de Bolsonaro, percebe-se uma profunda diferença entre suas atitudes e o pensamento de Paulo Guedes. No governo Fernando Henrique Cardoso, ele votou contra o Plano Real, que garantiu o fim da hiperinflação e a volta da estabilidade econômica. Foi contra a quebra do monopólio das telecomunicações e sempre declarou-se contra o fim do cartel do petróleo – com uma única exceção, na entrevista à GloboNews há duas semanas, quando admitiu a possibilidade caso não se conseguisse encontrar uma solução para os preços dos combustíveis. Também se posicionou de modo contrário a reforma da Previdência, evidenciando que a embalagem liberal de Bolsonaro não corresponde ao conteúdo.
Nos costumes, Bolsonaro também abraçou a estratégia da negação daquilo que ele sempre foi. O candidato declara não ser homofóbico, mas a reportagem de ISTOÉ localizou diversas declarações em que Bolsonaro revela forte preconceito de gênero. Afirma não ser racista, mas somente sua revisão da participação branca e portuguesa na escravidão já mostraria o contrário. Há também afirmações diversas que apontam para isso. Bolsonaro ainda declara-se uma “laranja boa entre tantas podres” ao se referir a seus pares na Câmara. Mas se aproveita igualmente das mesmas benesses desfrutadas por seus colegas. Ele e seu filho, o também deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), recebem aproximadamente R$ 6,1 mil mensais de auxílio moradia, mesmo tendo imóveis em Brasília. Até o momento, os dois já embolsaram aproximadamente R$ 900 mil com este benefício. Não é ilegal, porque tecnicamente a Câmara permite a concessão do benefício. Mas certamente não é a prática que se espera de alguém que se declara como “o novo” na política.
Bolsonaro parece mesmo talhado como um produto de marketing. Nisso, lembra Fernando Collor em 1989. Ou mesmo Lula, um líder de massas que admitia não ser “socialista, mas torneiro mecânico”, adotado pelos intelectuais de esquerda, que viram nele a oportunidade e o meio mais fácil de alcançar o poder. Ao longo do tempo, as declarações polêmicas de Bolsonaro fizeram efeito sobre uma parcela da população mais conservadora, que mantinha seu posicionamento escondido, latente. Quando esse conservadorismo aflorou, enxergou-se em Bolsonaro a chance desse grupo chegar ao poder. Desde que ele fosse lapidado para deixar de ser mero personagem folclórico e restrito a grupos mais radicais. Nos seus primeiros anos como deputado, Bolsonaro focava mais suas ações na defesa dos interesses corporativos militares. Seu discurso passou a atacar minorias de gênero mais tarde, por volta de 2010, na carona de outros deputados conservadores, como Marco Feliciano (PSC-SP). A estratégia garantiu-lhe voto e apoio entre os mais conservadores. Agora, para tentar ampliar seu eleitorado, Bolsonaro recua.
A utilização e a disseminação de informações falsas estão longe de ser fruto de ingenuidade ou desinformação. É adotada de forma deliberada. Foi decisiva nas últimas eleições nos EUA. Como o presidente Donald Trump, Bolsonaro usa vacinas semelhantes: vale-se de fake news e, quando é pego, afirma que as denúncias contra ele é que são fake. Provavelmente, utilizará do mesmo expediente ao se referir à reportagem de ISTOÉ. O filme é conhecido. E de enredo óbvio. Para o cientista político da Universidade de Brasília, Waldir Pucci, tal prática é extremamente nociva para a democracia. “A democracia se baseia em um discurso de verdade, ou em uma comunicação real entre o eleitor e o candidato. No momento em que o candidato começa a utilizar recursos falsos para criar empatia, ele acaba prejudicando a democracia”, avalia o professor. A diretora da Agência Lupa e autora do livro “A arte do descaso”, Cristina Tardáguila, lamenta. “Vamos enfrentar um processo eleitoral, à semelhança do que aconteceu em outros países, em que as crenças, os gostos e os desejos certamente terão mais valor do que os dados e os fatos”. Eis, finalmente, algo em que Bolsonaro – tão criticado por não saber de nada – é especialista.
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PARA ONDE CORREM OS DEPUTADOS

Artigo de Fernando Gabeira
Tive a oportunidade de conhecer as posições de alguns candidatos à Presidência ao participar de uma sabatina. Tentarei um projeto, como realizei nas eleições passadas, de entrevistar todos os outros, independentemente da pontuação em pesquisa. De um ponto de vista jornalístico, é interessante saber o que se passa na cabeça de alguém que decide ser candidato num momento tão complicado no País. Mais do que ninguém, tenho dúvidas sobre o futuro do próximo presidente, sobretudo a partir de uma quase certeza de que a renovação do Congresso será modesta.
Minha visão da conjuntura recomenda algo que chamo, brincando, de catastrofismo emancipatório, expressão que o sociólogo Ulrich Beck usa diante das mudanças climáticas. Isso significa deixar de apenas falar do desastre, mas encarar a situação com a clareza de que o dilema é cooperar ou morrer.
Creio que a esquerda também conta com uma grande crise adiante. Mas ela se fragmentou e parece ter se resignado a perder as eleições e ressurgir adiante como alternativa. Se for isso mesmo, é um equívoco. Não creio que uma próxima crise possa ser vista como um movimento de gangorra que alterne forças esgotadas do sistema político-partidário. Um período PSDB, outro período PT, como se a sucessão no poder fosse natural como o ritmo das estações de ano.
Para mim, vivemos uma ofensiva das forças tradicionais semelhante, em muitos aspectos, à que houve nos EUA. No Brasil, esse movimento vem de longe. A esquerda cultural sempre foi dominante. Mas, quando ela passa a ser também a cultura do governo, a contestação de suas ideias ganhou muito mais força. Isso porque a maioria no Brasil – acho eu com minha experiência de lutas minoritárias – é conservadora. Nem sempre o aval que ela dá para dirigir o País se estende a questões de comportamento. É um pouco como política externa. Você faz a política do país, e não a do partido vencedor.
Isso não significa conformar-se a uma situação estática. É possível em debates pacíficos encontrar soluções razoáveis.
Toco neste tema cultural por duas razões. A primeira, porque não é o mais importante quando se constata que a democracia brasileira está em risco. Em seguida, porque no fundo sou muito cético a respeito do poder da política sobre estes temas diante do impacto do avanço do capitalismo, da interconexão do mundo, do avanço tecnológico.
Um ponto central em que a política importa muito é na escolha do sistema educacional. Nesse campo, questionei Bolsonaro sobre seu projeto de escolas militarizadas. E certamente questionarei a esquerda sobre o método Paulo Freire. Mas isso é apenas um aspecto que pode evoluir para uma discussão mais ampla e, quem sabe, um quase consenso para seguir adiante.
É um lugar comum responder educação quando se pergunta por um grande problema no Brasil. E os candidatos respondem também com a mesma ênfase. No entanto, ela ainda não foi discutida com muita clareza e o tempo é muito curto.
Por que essa necessidade enfatizar programas diante de uma previsível crise que pode congelar as melhores expectativas? Porque programa é uma destas coisas que podem sobreviver à crise, como um elemento da nova fase.
O problema da segurança pública é outro que merece um esforço de cooperação. O próximo presidente tem de saber o que fazer, pelo menos um pouco mais que os anteriores, que subestimaram o tema.
Mas tudo isso se faz à sombra de uma dificuldade maior: as relações do eleito com o Congresso, algum tipo de reforma política.
É difícil de reformar uma estrutura entrincheirada, na qual a maioria quer manter os velhos vínculos franciscanos do toma cá, dá lá. Às vezes penso que uma solução francesa poderia ajudar. Consiste em separar as eleições presidenciais das parlamentares. Depois de eleger um presidente, a maioria teria a chance de dotá-lo de uma grande bancada de apoio.
Uma solução mais audaciosa seria escolher de uma vez o parlamentarismo. Traria a vantagem de resolver mais rápido as inevitáveis crises, e talvez por meio de sucessivas quedas de gabinetes pudesse surgir um senso de responsabilidade inexistente hoje.
Tenho apenas intuições. Mas é um problema que marcará a próxima Presidência. Os partidos conseguiram, por meio do dinheiro público, um passaporte para manter seu velho jogo. Naturalmente, vão clamar pela legitimidade do voto conseguido em circunstâncias desiguais.
Mais influenciável que o governo, o Congresso pode ser controlado também por pressão popular. Alguns desastres foram evitados assim. Nem todos. Em alguns momentos, decidem enfrentar a opinião pública, sobretudo quando seus interesses diretos estão em jogo.
A única possibilidade no horizonte seria uma pressão conjugada do eleito e da opinião pública. Ainda assim, isso demandaria uma grande sensibilidade para avançar sem romper.
Todo este cenário é envolvido numa situação econômica grave, com demandas sociais crescentes.
É com este olhar preocupado que sigo os candidatos à Presidência. Qualquer um deles vai enfrentar o problema. Quem achar que pode ir tocando o barco sem mudanças pode desembocar numa crise mais grave.
E quem achar que tira proveito dela para voltar ao poder vai se perder mais no caminho.
Talvez marcado pelas próprias experiências, um quadro de profunda crise, esquerda fragmentada e direita em ascensão me parece complicado demais para leituras equivocadas.
A viagem à Rússia reforçou em mim a ideia de que outras variáveis, às vezes, conseguem neutralizar nas pessoas os anseios por democracia. As pesquisas na América Latina já indicam um crescimento dos que a dispensariam na vida política de seu país.
É um momento distinto da alegria das Diretas Já. O processo político-partidário se degradou, afastou-se da sociedade. O segredo é não jogar fora o bebê com a água do banho. E, se possível, reanimá-lo.
Artigo publicado no Estadão em 10/08/2018
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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

RECORDANDO FREI TITO

Há exatos 44 anos, prestes a completar 29 anos, morria o homem que foi o símbolo da luta pelos direitos humanos na ditadura militar: Tito de Alencar Lima, conhecido como Frei Tito.
Enforcou-se na zona rural do convento de L’Arbresle, nos arredores de Lyon, França, já enlouquecido pelo trauma de ter passado 14 meses nos porões da ditadura militar.
A tragédia que tirou a vida do frei acontecera na noite do dia dez de agosto de 1974, quando a repressão da qual ele foi vítima ainda continuava a prender, torturar e assassinar no Brasil.
Pensei em iniciar este resumo com os nomes dos seus torturadores conhecidos, porém a náusea não me permitiu.
Desde muito novo Tito concluíra que só a vida religiosa daria sentido luminoso aos seus passos e que só na Igreja – consoante visões febris de Isaias – viria fazer justiça aos pobres da terra. Para ele, a Igreja não é templo dos ricos; ao contrário, é ainda a fraternidade subversiva das catacumbas romanas, sem profanações do dinheiro, e para sempre incumbida da construção de um futuro de justiça e liberdade, do futuro sem peias, quando Deus mesmo estará com seu povo.
Em 1969, Tito cursava Filosofia na Universidade de São Paulo e já tinha em seu currículo um histórico de militância: fora dirigente regional e nacional da Juventude Estudantil Católica, um dos movimentos de vanguarda da militância cristã da época.
Na madrugada do dia 3 para o dia 4 de novembro, Tito foi preso junto com outros dominicanos no convento em que morava pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, seu primeiro torturador. Nesse dia, a sua igreja lhe faltou.
Entre os presos estava Frei Betto, suspeito de participar de um esquema comandado pelo líder da Aliança Libertadora Nacional (ALN), Carlos Marighella, grande vulto brasileiro que pregava a luta armada. Começava, assim, o martírio de Frei Tito e dos seus irmãos. Como instrumento de intriga, os agentes da repressão espalharam a história que os dominicanos traíram os participantes da ALN, sendo este mal entendido esclarecido apenas em 1982, com a publicação do formidável Batismo de Sangue, livro do frei Betto.
Foram vários meses de horrores e vilanias. “Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia”, disse-lhe um torturador. O frade dominicano passou pelo pau-de-arara, sentou na cadeira do dragão e recebeu choques elétricos na cabeça, nos ouvidos e nos tendões do pé.
Deram-lhe pauladas nas costas, no peito e nas pernas, incharam suas mãos com palmatória, revestiram-no de paramentos e o fizeram abrir a boca "para receber a hóstia sagrada" - descargas elétricas na boca. Queimaram pontas de cigarro em seu corpo e fizeram-no passar pelo "corredor polonês". Apesar da intensa tortura que sofrera, Frei Tito nunca falou. “É preferível morrer do que perder a vida”, anotou em sua Bíblia, depois que um de seus torturadores avisou que, se não falasse, seria quebrado por dentro.
Em janeiro de 1971, foi banido do país; voou para o Chile e, depois, para Roma, Paris e Lyon. Mas o sonho da morte o habitava. A tortura que sofrera no Brasil havia rebentado seu espírito e continuava atormentando-o sem parar. “Longe vem o retirante... vem dizer que nos esquecemos de amar”, ele disse nos poemas. Tito sentia “um silêncio de Deus”. Certa vez, escreveu: “Não busco o céu, mas talvez a terra, um paraíso perdido”. Mas, o paraíso na terra estava perdido para sempre: em agosto de 1974 Frei Tito livra-se da tortura e morre, na certeza de poder viver depois da morte.
Na cruz que lhe coube entre os bosques de L’Arbresle, está gravado: "Frei da Província do Brasil. Encarcerado, torturado, banido, atormentado até a morte, por ter proclamado o Evangelho, lutando pela libertação de seus irmãos. Tito descansa nesta terra estrangeira".
A inscrição termina com estas palavras cortantes de Lucas: “Digo-vos que, se os discípulos se calarem, as próprias pedras clamarão”.
Em 1970, sob custódia da “Operação Bandeirantes”, frei Tito escreveu sobre a sua tortura num documento que rodou o mundo, tornando-se um dos símbolos da luta pelos direitos humanos na ditadura. Quando foi solto, em dezembro do mesmo ano, pediu exílio no Chile, de onde seguiu para Itália e França.
As feridas de seu corpo cicatrizaram, mas as torturas deixaram marcas incuráveis em sua alma. Era constantemente atormentado pelos fantasmas do passado, via Fleury em todos os lugares, ouvia suas ameaças. Fez terapia, mas de nada adiantou: seus traumas eram demasiadamente profundos. Enlouquecido, sozinho, atormentado, Tito morreu sob a copa de um álamo. “Se minha alma está morta, quem a ressuscitará?”, escrevera ele pouco antes de morrer. Esse discípulo não se calou. Afirmou seus princípios no paraíso da meninice, nos longos dias de combate e no inferno que finalmente o consumiu.
Quando, só em 25 de março de 1983, o corpo de Frei Tito chegou ao Brasil, foi realizada em São Paulo uma missa de corpo presente acompanhada por mais de 4 mil pessoas.
Fontes: jornais e Grupo Tortura Nunca Mais.
Conteúdo do blog Ainda Espantado
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AMADO, JORGE AMADO

Jorge Amado nasceu a 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, no distrito de Ferradas, município de Itabuna, sul do Estado da Bahia. Filho do fazendeiro de cacau João Amado de Faria e de Eulália Leal Amado.
Com um ano de idade, foi para Ilhéus, onde passou a infância. Fez os estudos secundários no Colégio Antônio Vieira e no Ginásio Ipiranga, em Salvador. Neste período, começou a trabalhar em jornais e a participar da vida literária, sendo um dos fundadores da Academia dos Rebeldes.
Publicou seu primeiro romance, O país do carnaval, em 1931. Casou-se em 1933, com Matilde Garcia Rosa, com quem teve uma filha, Lila. Nesse ano publicou seu segundo romance, Cacau.
Formou-se pela Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, em 1935. Militante comunista, foi obrigado a exilar-se na Argentina e no Uruguai entre 1941 e 1942, período em que fez longa viagem pela América Latina. Ao voltar, em 1944, separou-se de Matilde Garcia Rosa.
Em 1945, foi eleito membro da Assembléia Nacional Constituinte, na legenda do Partido Comunista Brasileiro (PCB), tendo sido o deputado federal mais votado do Estado de São Paulo. Jorge Amado foi o autor da lei, ainda hoje em vigor, que assegura o direito à liberdade de culto religioso. Nesse mesmo ano, casou-se com Zélia Gattai.
Em 1947, ano do nascimento de João Jorge, primeiro filho do casal, o PCB foi declarado ilegal e seus membros perseguidos e presos. Jorge Amado teve que se exilar com a família na França, onde ficou até 1950, quando foi expulso. Em 1949, morreu no Rio de Janeiro sua filha Lila. Entre 1950 e 1952, viveu em Praga, onde nasceu sua filha Paloma.
De volta ao Brasil, Jorge Amado afastou-se, em 1955, da militância política, sem, no entanto, deixar os quadros do Partido Comunista.
Dedicou-se, a partir de então, inteiramente à literatura. Foi eleito, em 6 de abril de 1961, para a cadeira de número 23, da Academia Brasileira de Letras, que tem por patrono José de Alencar e por primeiro ocupante Machado de Assis.
A obra literária de Jorge Amado conheceu inúmeras adaptações para cinema, teatro e televisão, além de ter sido tema de escolas de samba em várias partes do Brasil. Seus livros foram traduzidos para 49 idiomas, existindo também exemplares em braile e em formato de audiolivro.
Jorge Amado morreu em Salvador, no dia 6 de agosto de 2001. Foi cremado conforme seu desejo, e suas cinzas foram enterradas no jardim de sua residência na Rua Alagoinhas, no dia em que completaria 89 anos.
A obra de Jorge Amado mereceu diversos prêmios nacionais e internacionais, entre os quais destacam-se: Stalin da Paz (União Soviética, 1951), Latinidade (França, 1971), Nonino (Itália, 1982), Dimitrov (Bulgária, 1989), Pablo Neruda (Rússia, 1989), Etruria de Literatura (Itália, 1989), Cino Del Duca (França, 1990), Mediterrâneo (Itália, 1990), Vitaliano Brancatti (Itália, 1995), Luis de Camões (Brasil, Portugal, 1995), Jabuti (Brasil, 1959, 1995) e Ministério da Cultura (Brasil, 1997).
Recebeu títulos de Comendador e de Grande Oficial, nas ordens da Venezuela, França, Espanha, Portugal, Chile e Argentina; além de ter sido feito Doutor Honoris Causa em 10 universidades, no Brasil, na Itália, na França, em Portugal e em Israel. O título de Doutor pela Sorbonne, na França, foi o último que recebeu pessoalmente, em 1998, em sua última viagem a Paris, quando já estava doente.
Jorge Amado orgulhava-se do título de Obá, posto civil que exercia no Ilê Axé Opô Afonjá, na Bahia.
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