segunda-feira, 22 de abril de 2024

A PROXIMIDADE DE UMA GUERRA ABSURDA

Artigo de Fernando Gabeira

A tensão entre Israel e Irã nos mantém alertas não apenas sobre a possibilidade de um conflito regional, mas de algo muito mais amplo, que envolva toda a humanidade.

Neste momento, considero muito interessante a reflexão do escritor Amin Maalouf no livro recém-lançado no Brasil “O labirinto dos desgarrados, o Ocidente e seus adversários” (Editora Vestígio, 332 páginas). Ele não é cientista político nem estrategista. É um escritor que não só tem coragem de afirmar o absurdo da guerra, como de devolver as qualificações de romântico ou ingênuo atribuídas aos que a consideram inevitável.

Creio que Maalouf, nascido no Líbano e vivendo na França, tem muitas razões para refletir bem sobre o Ocidente. Ele escreveu um livro sobre as Cruzadas mostrando como, nas Cruzadas, os europeus comiam crianças muçulmanas no espeto. Ele conhece também todos os horrores da colonização europeia na África, Ásia e em todos os outros lugares por onde ela se instalou. Mas seu conhecimento da História mostra também que o ódio sistemático ao Ocidente acaba desviando para a barbárie e para a autopunição.

Na comparação entre as duas guerras frias, a que terminou com o fim do Império Soviético e a atual, Maalouf compreende bem que países como Rússia e China, que, de certa forma, encarnavam a revolução no passado, representam hoje o campo do conservadorismo político, social e intelectual. Essa constatação parece não ter chegado à esquerda brasileira, mas isso é apenas um detalhe.

Uma das importantes conclusões do livro é que nem os ocidentais nem seus aliados são capazes de conduzir a humanidade para fora do labirinto em que ela se perdeu. Isso é verdade, pois nenhuma nação detém todas as virtudes e todas as respostas, muito menos o direito de dominar as outras.

Ele pensa que estaríamos realmente perdidos se acreditássemos que a humanidade precisa de uma nação hegemônica para liderá-la. Estaríamos condenados a torcer pelo que nos maltrata menos, tipo de opção que alguns países como o nosso são forçados a adotar no plano da política interna.

A estupidez de uma guerra mundial pode nos destruir. Mas é uma pena, pois temos grandes problemas comuns, como o combate à emergência climática, e grandes possibilidades de progresso por meio da evolução da medicina genética e mesmo da inteligência artificial, se conseguirmos controlar suas consequências. Apesar de parecer ingênuo, é necessário apostar na paz. Claro que, num confronto mundial, o Brasil, com suas raízes históricas e culturais, é um país do Ocidente e deve ficar ao seu lado.

Mas antes de tudo é necessário investir não só na paz regional no Oriente Médio, como em todos os lugares onde houver conflito. Os fundamentos de nossa política externa nos permitem isso. Há, porém, uma brecha entre os fundamentos e a prática, marcada até agora por frases infelizes e uma visão nostálgica da primeira Guerra Fria. A ideia de que existe democracia relativa na Venezuela ou democracia efetiva na China é apenas resultado de uma visão que não encontra nenhuma base no mundo real.

Na verdade, a democracia não é a única forma de governo. Não se pode universalizá-la com adjetivos, muito menos tentar levá-la a outros países na ponta da baioneta como os Estados Unidos fizeram em muitas ocasiões. O grande esforço intelectual do momento é dissecar todos os elementos de conflito no mundo e neutralizá-los.

Maalouf destaca um deles que contribui enormemente para envenenar o clima político. É o vínculo que estabelece entre religião e identidade, sobretudo nos países de tradição monoteísta. Os conflitos identitários que se baseiam em referências divinas acabam envenenando a História humana. Nesse ponto, há um reconhecimento da longevidade de Confúcio: para ele, o que importava era o comportamento do cidadão na cidade, e não suas preferências metafísicas.

Artigo publicado no jornal O Globo em 22/04/2024

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domingo, 21 de abril de 2024

PARABÉNS, BRASÍLIA !

Brasília completa hoje, 64 anos. Inaugurada em 21 de abril de 1960, pelo então presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, Brasília é a terceira capital do Brasil, após Salvador e Rio de Janeiro.

A transferência dos principais órgãos da administração federal para a nova capital foi progressiva, com a mudança das sedes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário federais.
O plano urbanístico da capital, conhecido como "Plano Piloto", foi elaborado pelo urbanista Lúcio Costa, que, aproveitando o relevo da região, o adequou ao projeto do lago Paranoá. O lago armazena 600 milhões de metros cúbicos de água.
Sob as linhas retas e curvas do arquiteto Oscar Niemeyer, nasce Brasília. Um grande desafio; a cidade foi construída na velocidade de um mandato, e Niemeyer teve de planejar uma série de edifícios em poucos meses para configurá-la.
O blog Sou Chocolate e Não Desisto indica dois livros biográficos sobre Juscelino Kubitschek: JK – O artista do impossível, do jornalista Cláudio Bojunga e Juscelino Kubitschek – O presidente bossa-nova, da jornalista Marleine Cohen com prefácio de Maria Adelaide Amaral.
Além dessas biografias, uma ótima opção é o filme Bela Noite Para Voar, de Zelito Viana, lançado em 2005, baseado no livro de Pedro Rogério Moreira que tem como pano de fundo duas conspirações contra o governo "50 anos em 5", de Juscelino Kubitschek.
Se preferir uma obra mais extensa, a minissérie JK, de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira com cinco discos (DVD), aproximadamente 230 minutos em 47 episódios; é uma excelente opção para quem gosta de história e política.
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RELEMBRANDO TANCREDO NEVES

Memória - Tancredo de Almeida Neves, nasceu em 4 de março de 1910, em São João Del Rei, Minas Gerais. Faleceu em 21 de abril de 1985. Tancredo era advogado, empresário e político; foi casado com Risoleta Guimarães Tolentino, com quem teve três filhos.

Em 1985 foi realizada a primeira eleição (indireta, via Colégio eleitoral) para presidente desde o golpe militar de 1964.
Tancredo Neves foi indicado por uma coligação de partidos, com apoio de Ulysses Guimarães (a figura mais importante no período de redemocratização do país).
Tendo como candidato a vice na mesma chapa José Sarney, venceu o pleito em 15 de janeiro de 1985, por 480 votos contra 180 de Paulo Maluf.
A articulação que elegeu a dupla Tancredo e Sarney é tida ainda hoje como uma das mais complexas e bem-sucedidas na história política do país.
Tancredo temia que os militares mais rigorosos se recusassem a passar o poder ao vice-presidente. Porém não resistiu, e na véspera da posse (14 de março de 1985), foi internado em Brasília com dores abdominais.
José Sarney assumiu a presidência aguardando o restabelecimento de Tancredo, que a partir de então, já em São Paulo, sofreu sete cirurgias. No entanto, em 21 de abril (mesma data da morte do mártir nacional Tiradentes), Tancredo faleceu vítima de infecção generalizada, aos 75 anos.
Vinte anos após, o corpo médico revelou que não divulgou o laudo correto da doença, que não teria sido diverticulite, porém um tumor. Embora benigno o anúncio de um tumor poderia ser interpretado como câncer, causando efeitos imprevisíveis no andamento político no momento.
Em seu lugar, assumiu a presidência da República o vice José Sarney, encerrando o período de governos militares chamado de Anos de chumbo iniciado com o Golpe de 1964.
Vale a pena ler –  O blog Sou Chocolate e Não Desisto recomenda três obras sobre a trajetória de Tancredo Neves: o livro Tancredo Neves - A travessia midiática; uma organização de textos de vários autores sobre a vida desse político feita por Nair Prata e Wanir Campelo, o documentário Tancredo – a travessia, de Silvio Tendler e a recente biografia Tancredo Neves, O Príncipe Civil, do jornalista Plínio Fraga.
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LIBERDADE, LIBERDADE

Em 21 de abril de 1792, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes era enforcado. Lutou pela Independência do Brasil. Foi traído e não traiu jamais. A Inconfidência de Minas Gerais.

Os versos do samba enredo da escola de samba Império Serrano, campeã de 1949, fez um enorme sucesso em todo o Brasil e, desde então, vem servindo para ajudar a contar um dos capítulos mais importantes da nossa história.

A Inconfidência Mineira foi um movimento político que tinha como objetivo conquistar a independência do Brasil em relação a Portugal, alimentado pelos altos impostos cobrados da mineração em Minas Gerais e também pelos ideais propostos pela Revolução Francesa.

Ao longo do tempo a execução de Tiradentes, um dos participantes desse movimento foi transformada em seu símbolo, mesmo sendo objeto de muitas controvérsias em relação ao seu papel e mesmo sobre a imagem que foi criada e divulgada para retratar os acontecimentos.

Controvérsias a parte, a possibilidade de contarmos essa história através de sambas e de feriados mostra que essa é uma história importante e consolidada na cultura brasileira.

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sábado, 20 de abril de 2024

A RETÓRICA DA REAÇÃO

Oscar Vilhena Vieira, Folha de S. Paulo

Ações afirmativas têm transformado o país, e por isso há vozes contrárias

À medida que se aproxima o prazo para a revisão da lei de cotas no serviço público ressurgem os ataques às políticas de ação afirmativa. Em "Retórica da Intransigência", com enorme perspicácia e fina ironia, o economista Albert Hirschman descreveu três tipos de argumentos comumente formulados pelo pensamento conservador contra as sucessivas ondas progressistas de expansão dos direitos.

Como é difícil negar validade a determinadas reivindicações de liberdade, igualdade e justiça, muitos dos beneficiários de privilégios e das estruturas de subordinação social empenham-se em desqualificar políticas progressistas, sob argumento de que, embora louváveis, são invariavelmente perversas, fúteis e/ou ameaçadoras de outros valores, produzindo resultados inversos aos pretendidos. Logo, melhor deixar que as mudanças sociais sigam o curso natural da história. Afinal, de boas intenções o inferno está cheio.

As ações afirmativas, especialmente as cotas raciais, seriam um exemplo típico de políticas "perversas". Formuladas para enfrentar o racismo e a desigualdade, por meio inclusão de pobres e negros nas esferas de conhecimento e poder, essas políticas tenderiam a reforçar o racismo contra os negros, na medida em que romperiam cordialidade inter-racial, podendo inclusive gerar um sentimento de inferioridade entre os negros, que passariam a se sentir incapazes de ascender socialmente sem as ações afirmativas.

Para os críticos mais moderados das ações afirmativas, que chegam a reconhecer as boas intenções dessas políticas, os esforços seriam absolutamente "inúteis", pois não afetariam as raízes do problema, que se encontra na má qualidade da educação universal básica. Políticas afirmativas consistiriam em formas ineficientes de enxugar gelo.

Há, por fim, aqueles que argumentam que as políticas de ação afirmativa constituem uma verdadeira ameaça a princípios e valores da ordem liberal democrática, como a igualdade perante a lei, a excelência e a meritocracia. A equiparação das bancas de heteroidentificação aos tribunais é a expressão mais constrangedora dessa tese. As críticas mais comuns são redução da excelência acadêmica ou da eficiência dos serviços públicos.

O fato é que as profundas e persistentes desigualdades raciais, econômicas e sociais, que se entrelaçam e se reforçam mutuamente, não foram abaladas pelas políticas chamadas universais nos primeiros cem anos de nossa República. Destaque-se que até 1990 apenas 40% da população havia concluído os primeiros quatro anos do ensino fundamental. A porcentagem de negros no ensino universitário não ultrapassava um dígito, especialmente em cursos como medicina, direito ou engenharia.

Da mesma forma, as posições de comando, nas esferas pública ou privada, foram monopolizadas por pessoas brancas. Aos negros foram destinadas as funções subordinadas e a violência, para que não tivessem dúvida sobre o seu devido lugar.

O fato é que as ações afirmativas de natureza racial têm provocado uma autêntica transformação do tecido social brasileiro, que ficou reprimida por mais de um século após a Abolição. Essas mudanças, marcadas pela chegada da população negra a espaços que antes eram reservados apenas aos brancos, como sempre lembra Cida Bento, gera muito temor entre os brancos, mas também aponta a existência de fissuras no pacto da branquitude, no dizer de Adilson Moreira.

As ações afirmativas estão mudando essa realidade de privilégios e discriminação. Seus resultados devem ser testados e seus processos corrigidos e aperfeiçoados.

Só não podemos nos deixar iludir pela retórica da reação, que se empenha em deixar tudo como está.

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sexta-feira, 19 de abril de 2024

ATACAR CRIME ORGANIZADO É ESTRATÉGICO

Fernando Abrucio*, Valor Econômico

A profissionalização e a adoção de modelos de gestão consistentes, como em boa medida ocorreu no SUS, são fundamentais para que a cooperação federativa na segurança pública não seja mero discurso

A relação do crime organizado com o Estado brasileiro se tornou um tema estratégico para o presente e o futuro do país. A prisão dos mandantes da morte de Marielle, a fuga de dois membros do Comando Vermelho de presídio federal de segurança máxima e a investigação sobre os tentáculos do PCC na administração pública em São Paulo revelam que as facções criminosas só são fortes porque seu negócio, o crime, está cada vez mais interligado com ação ou inação do aparelho estatal. Essa deveria ser a agenda prioritária da segurança pública do país, em vez de projetos aporofóbicos e sem embasamento em evidências, como a “Lei da Saidinha” e a PEC sobre as drogas.

É estarrecedor como os políticos e parcela da sociedade compraram um modelo demagógico para combater a criminalidade e a sensação crescente de insegurança. Há uma miopia enorme que gera decisões que, ao fim e ao cabo, somente vão fortalecer o crime organizado. Fim da “saidinha” e criminalização da posse e porte de drogas em qualquer quantidade terão como principal resultado o crescimento da população prisional, especialmente de pessoas pobres e negras. Isso só fortalece ainda mais as facções criminosas, que precisam de um exército de gente sem direitos nem esperança, produzindo assim uma máquina do crime cada vez mais poderosa.

O foco não deveria ser leis penais mais rígidas desenhadas para atingir basicamente os mais pobres. Da classe média para cima ninguém será preso por porte de drogas. Basta visitar as festas de jovens abastados ou da alta sociedade paulistana, carioca ou brasiliense para saber como o ilícito usado por seus participantes é invisível para as forças policiais. Assim, a descriminalização mais importante a ser discutida no país é a da pobreza.

Tampouco o endurecimento da ação policial resolverá a questão da criminalidade. A polícia paulista matou a torto e a direito a população vulnerável da Baixada Santista, e o PCC continua exportando suas drogas pelo porto de Santos. A política do “bandido bom é bandido morto” defendida pelo secretário Derrite não reduziu os crimes contra o patrimônio que ocorrem em São Paulo, que cresceram até no icônico bairro de Higienópolis. Há clamores morais em prol do punitivismo e da mão forte - muitas vezes ilegal - das polícias. Mas, ao final, produz-se incompetência em acabar com as raízes da criminalidade e imoralidade de ampliar o fosso da desigualdade.

Estrategicamente, só há uma saída para reduzir o peso da criminalidade sobre a sociedade brasileira: criar um projeto estrutural e de longo prazo para combater o crime organizado, que é capaz de afetar negativamente, e de forma ampla, o exercício da cidadania, a qualidade da democracia e o desenvolvimento econômico sustentável do país. Tudo isso acontece porque o Estado foi atingido em cheio por esse fenômeno.

Há duas formas de intromissão do crime organizado na atividade estatal: enfraquecendo as políticas públicas e gerando um relacionamento promíscuo com a política. Atuando nos dois campos, as facções criminosas reduzem a capacidade governamental de enfrentá-las. De um lado, amedrontando ou aliciando pessoas para servir ou comprar serviços de suas organizações e, de outro, corrompendo policiais e políticos para garantir salvo-conduto na prática diária de seus crimes.

Mais especificamente, o crime organizado afeta as políticas públicas de quatro modos. O primeiro é interferindo na provisão de serviços básicos à população, como fazem as milícias no Rio de Janeiro, prática que está se expandindo para várias partes do país. Em determinados territórios, o Estado e/ou concessionárias estão perdendo a batalha para as facções. Esses grupos mafiosos amedrontam a população para que ela seja obrigada a gastar boa parte de sua renda para pagar fornecedores ilegais de internet, água, gás, energia elétrica e tudo o que for possível de extorquir dos mais pobres. Cidadãos de áreas periféricas têm seus direitos vilipendiados sem que nenhuma força republicana consiga estancar essa enorme violência.

O segundo modo realiza-se pelo fortalecimento de atividades econômicas ilícitas para alavancar mais riqueza e, sobretudo, lavar dinheiro. O crime organizado é uma máquina de fazer negócios ilegais travestidos de legalidade. Mais uma vez as políticas públicas estão perdendo a batalha. Neste caso, estão sendo ineficazes para garantir e estimular o crescimento das empresas e do empreendedorismo sobre bases concorrenciais justas. O quanto o crime organizado está infiltrado do pequeno ao grande negócio no Brasil? Ninguém sabe o tamanho exato, mas quando facções dominam empresas de ônibus que ganham bilhões de subsídios da Prefeitura de São Paulo ou então se expandem em diversas atividades econômicas do mundo virtual, o sinal é assustador para o capitalismo brasileiro.

As políticas públicas têm um terceiro front de fragilidade frente ao crime organizado: a questão socioambiental. O Brasil tem nesse tema um dos seus ativos econômicos e geopolíticos mais importantes. Porém, atividades ilícitas extremamente violentas, como o tráfico de drogas, o garimpo ilegal e o desmatamento, são um empecilho gigantesco, se não o maior, a uma boa política ambiental. Mas não é só a natureza que sofre aqui. A população desses locais degradados por facções criminosas é refém de uma lógica equivocada de desenvolvimento, e enquanto o crime organizado dominar o pedaço, dificilmente haverá apoio a modelos mais sustentáveis.

O ciclo de impactos do crime organizado nas políticas públicas completa-se com um quarto elemento, o mais diretamente ligado a esse processo. As facções são o principal veículo da violência e insegurança que assolam o Brasil. Há crimes individualizados ou cometidos por pequenos grupos autônomos, mas isso é bem residual no conjunto do fenômeno. Obviamente que a organização cada vez mais efetiva dessas máfias, sua capacidade em adquirir armas e usá-las, a força que têm nas prisões, além dos negócios cada vez mais rentáveis, são aspectos que ampliam o seu poder.

Esse poderio, no entanto, só foi consolidado porque parcela das forças policiais foi conquistada pela corrupção. Assim, é cada vez mais difícil, em certos territórios, saber quem é polícia e quem é bandido, para lembrar da dicotomia básica que aprendi na rua quando cresci na periferia de São Paulo. Vale reforçar que policiais não só são comprados, como também estabelecem “tributos” para pagamento dos criminosos - o “arrego” no Rio de Janeiro e a “recolha” em São Paulo.

O impacto sobre as políticas públicas ampliou-se demais nos últimos anos por uma razão mais perversa: a entrada do crime organizado na política brasileira. Os recentes episódios envolvendo a morte de Marielle e as prisões de empresários e políticos envolvidos com o PCC mostram que essa temática poderá ter nos próximos anos o mesmo lugar central na agenda pública que teve a Operação Lava-Jato na década passada. Mesmo tendo cometido uma série de erros e ilegalidades, todas para favorecer politicamente agentes do sistema de Justiça, a Lava-Jato teve como maior legado a mudança na forma de financiamento eleitoral baseada nas trocas de dinheiro privado por benefícios públicos.

Há um novo cenário hoje: o crime organizado, junto com o golpismo de lideranças bolsonaristas, constitui um grande risco à democracia brasileira. No início, esse fenômeno se circunscrevia a algumas elites políticas locais e estaduais, especialmente no Rio de Janeiro, onde políticos apoiaram as milícias em nome da ordem - gente do bolsonarismo faz parte dessa história. A capacidade de se infiltrar na política cresceu vertiginosamente nos últimos anos, inclusive substituindo com dinheiro ilícito parte do financiamento privado que a classe política detinha no passado.

Vencer o crime organizado vai exigir um grande esforço nacional, um dos maiores de nossa história. Tal como ocorreu na maior frente ampla da política brasileira, que há 40 anos, completados nesta semana, organizou a campanha das Diretas Já para acabar com a ditadura militar. Líderes sociais, empresariais, religiosos e políticos vão ter de atuar conjuntamente e publicamente gritar contra o crime organizado. Para tanto, será necessário mudar estruturalmente a política de segurança pública, o que só será possível implementando efetivamente, e não com medidas fragmentadas e esporádicas, o Sistema Único de Segurança Pública, o SUSP, um modelo que pode integrar o governo federal aos estados por meio de pactos institucionalizados e de longo prazo.

Como lembra Renato Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a profissionalização e a adoção de modelos de gestão consistentes, como em boa medida ocorreu no SUS, são fundamentais para que a cooperação federativa na segurança pública não seja mero discurso. Por essa linha, abandona-se o discurso demagógico que tem alimentado a discussão no Congresso Nacional. A saída para combater o crime organizado não é acabar com a “saidinha”, mas sim, um pacto amplo em torno de um SUSP efetivo. A pergunta incômoda é saber se a sociedade, policiais e políticos estão preparados para assumir essa bandeira. O medo maior é que parte do problema esteja no fato de que haja mais gente importante ligada às facções criminosas do que imaginaríamos nos nossos piores sonhos.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

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TROCANDO EM MIÚDOS: SEIS VEZES CHICO

Trocando em miúdos, biografia meticulosamente elaborada por Tom Cardoso, celebra os 80 anos de um ícone musical, político e literário: Chico Buarque, um dos maiores nomes da cultura brasileira.

Dono do eu lírico feminino mais aclamado do Brasil, contestador irredutível da ditadura civil-militar e vencedor do prêmio Jabuti por três vezes, Chico Buarque tornou-se um símbolo nacional, que diz: não é possível fazer cultura sem pensar a política.

Nascido em meio à efervescência cultural do Rio de Janeiro, o compositor e cantor emergiu como um polímata, cuja atuação transcendeu os limites da música para abraçar também o teatro, a literatura e o ativismo político. Filho do ilustre historiador Sérgio Buarque de Holanda e da intelectual Maria Amélia Buarque de Holanda, Chico encontrou na palavra o seu elemento basilar, dando vida a composições, livros e manifestações que ecoam os anseios e as contradições da alma brasileira.

A narrativa habilmente tecida por Tom Cardoso nos leva a explorar os meandros das experiências de Chico, desde os embates com a censura durante os anos sombrios da ditadura militar até os aspectos mais íntimos de seus processos criativos. Passamos por seis temas extremamente caros à vida pública e particular do cantor e compositor: a política, a literatura, a fama, as polêmicas, a censura (assim como a autocensura) e o futebol. O autor reúne depoimentos, entrevistas e uma extensa pesquisa bibliográfica para apresentar ao leitor o retrato múltiplo de um dos maiores artistas vivos da cultura popular brasileira.  

Na orelha deste livro, Maria Ribeiro assim caracteriza o trabalho narrativo de Tom Cardoso: “Eu amo as biografias do Tom. Por causa dele, me apaixonei pelo Tarso de Castro, virei torcedora retroativa do Sócrates, e coloquei a capa da Nara ao lado da foto do meu pai. Isso sem falar no Caetano, que tenho a sorte de amar em vida. Os brasileiros do Tom são uma espécie de bandeira ideal – e um jeito espertíssimo de conhecer nossa história.”

Via Amazon

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AGENTES ESTRANGEIROS INFILTRADOS NA DEMOCRACIA BRASILEIRA

José de Souza Martins*, Valor Econômico

A ação antidemocrática nos indica um consistente ativismo para desmobilizar a vigilância crítica dos que se recusam a ser tratados como tolos e politicamente imaturos

Não passa um dia sem que a agitação extremista antidemocrática deixe de comparecer à pauta da nossa paciência, como entrelinha invasora das informações e debates sobre os acontecimentos significativos da vida cotidiana das pessoas comuns. Os resíduos do golpe de Estado de 1964 ainda conspiram contra a democracia e os direitos sociais. Indicam-no evidências, como as de 8 de janeiro de 2023, de tratamento do povo brasileiro como um povo carneiril.

De tanto repetir-se, a agitação subversiva contra as instituições se naturaliza pela teimosia de sua reiteração. A sociedade brasileira vai ficando sem alternativas para situar o que de fato é relevante e o que é irrelevante na vida do país. Sobretudo o que é intencionalmente produzido para deturpar e minimizar o nosso penoso retorno à ordem.

Os mais desprovidos de discernimento e mais vulneráveis à manipulação ideológica e autoritária vão sendo induzidos a aceitar a banalização de nossa identidade de povo que a duras penas se formou numa história social de adversidades e desafios.

A ação antidemocrática basicamente nos indica um consistente ativismo para desmobilizar a vigilância crítica dos partidários da democracia e dos que se recusam a ser tratados como tolos e politicamente imaturos.

Agitadores e suspeitos de autoria e promoção da baderna, no entanto, têm sido contidos pela vitalidade das instituições e do protagonismo cívico dos defensores da Constituição e das leis. Os cansativos atores do circo da ilegalidade querem convencer os expectadores, no entanto, de que são vítimas de uma ditadura de esquerda.

A temida democracia que, ao enquadrá-los na lei, estaria se opondo ao anarcoliberalismo e à liberdade de alguns de tramarem contra o direito de todos. Associaram-se a agitadores internacionais que defendem como legitimamente democrática a difusão de valores negativos e princípios reacionários, antissociais e nazistas, caso da proclamação do direito ao ódio.

Estão em peregrinação por diferentes cantos do mundo para denunciar o governo brasileiro como uma ditadura de esquerda que lhes tolhe o direito de expressar, defender e praticar sua opção supostamente conservadora pelo ódio, pela tirania, pelo autoritarismo e pela morte, como se viu no modo criminoso e irresponsável de lidar com a pandemia.

Na verdade, nem os bolsonaristas, nem os seus simpatizantes e cúmplices, civis, religiosos e militares, são conservadores. Eles não têm o menor conhecimento do que é isso. São reacionários de forte inclinação fascista, despistados, vítimas não das instituições, mas de si mesmos e dos seus mentores e manipuladores.

O Brasil já conheceu, no Império, a grande tradição conservadora, no equilibrado balanço de gestão política alternativa do país pelos conservadores e liberais. Os liberais propondo inovações políticas e sociais e os conservadores realizando-as no marco do consenso negociado, como observou Euclides da Cunha na aguda compreensão que desenvolveu a respeito da realidade brasileira.

Entre nós esse balanço se expressou na ação política e econômica de grandes figuras como a de Antonio da Silva Prado, de família de grandes empresários originada no século XVIII. Ele foi o grande arquiteto da abolição da escravatura, cujo humanismo convergia com o de Joaquim Nabuco, quem melhor viu a extensão dos danos antissociais da escravidão relacionados com seus danos econômicos. Os fundamentos do atraso brasileiro, que residualmente persistem em anomalias como a onda autoritária do presente e o anticapitalismo da direita.

Um dos episódios desse delírio foi o da manifestação de bilionário sul-africano, empresário, dono de conhecida rede social, que, contrariado na sua insólita economia da manipulação das necessidades ideológicas dos toscos e irresponsáveis, prometeu desobedecer as ações e normas emanadas do TSE e do ministro Alexandre de Moraes. Com o reforço do presidente argentino, que, na falta de problemas em seu país, dispôs-se a colaborar com o empresário sul-africano no “conflito” com o STF.

O embaralhamento de temas irrelevantes com temas fundamentais da cidadania tem permitido aqui sobrerrepresentação de agitadores no Congresso. Base política de ações contra a ordem convencionada na Constituição de 1988. Como a dos que foram, sem êxito, à Câmara dos Deputados dos EUA pleitear medidas contra o Brasil por ser o nosso país suposta ditadura de esquerda. À custa do dinheiro público, esses grupos estão na Europa pleiteando o seu reconhecimento como vítimas dessa ditadura.

Atuam como agentes estrangeiros infiltrados na democracia brasileira, para defender um liberalismo superficial e interesseiro, contrário ao nosso direito de povo livre e soberano.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge, e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Academia Paulista de Letras. É autor de, entre outros livros, “Capitalismo e escravidão na sociedade pós-escravista” (Editora Unesp, São Paulo, 2023).

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quinta-feira, 18 de abril de 2024

PREFEITA DE SC JOGA LIVROS NO LIXO

Catarina Scortecci, Folha de S.Paulo

Prefeita de SC joga livros no lixo e cita 'valores da família'

Filiada a partido de Bolsonaro, Juliana Maciel atacou PT e afirmou que obras são 'uma porcaria'

CURITIBA A prefeita de Canoinhas (SC), Juliana Maciel (PL), divulgou um vídeo em uma rede social nesta quarta-feira (17) em que aparece jogando livros no lixo. Segundo ela, as obras estão vinculadas a um programa do governo federal e não seriam adequadas para crianças e adolescentes.

"Eu jamais jogaria um livro no lixo, mas porcaria, numa biblioteca aqui do nosso município, não vai ter mais não", diz ela, que se elegeu pelo PSDB e, no final do ano passado, se filiou ao PL do ex-presidente Jair Bolsonaro.

No vídeo, Maciel afirma ainda que o governo do PT "induz a coisa que não é dos valores que a gente acredita" e cita "valores da família".

"Mais uma vez o governo do PT faz este tipo de coisa. Não é o que realmente uma criança ou até um adolescente precisa ler numa biblioteca. Então, aqui em Canoinhas, a gente jogou esse tipo de porcaria no lixo", afirma ela.

Ao final, Maciel ainda propõe que outros prefeitos façam uma varredura nas bibliotecas municipais. "Façam um pente fino nesses livros para ver se vocês também não estão sendo enganados mais uma vez por essa política do que a gente não acredita, que não prega valores para nossas crianças e nossos adolescentes", sugere ela.

A prefeita não fala quais livros está jogando fora nem detalha o conteúdo deles. A reportagem não conseguiu contato com a prefeitura, nesta quinta-feira (18). Procurado, o governo federal também não respondeu.

No mês passado, o livro "O Avesso da Pele", do escritor Jeferson Tenório, foi alvo de ataques. Uma diretora de uma escola em Santa Cruz do Sul (RS) pediu pela censura do livro, alegando que a obra era inadequada aos estudantes do ensino médio.

Em seguida, o governo do Paraná mandou recolher o livro das escolas estaduais do ensino médio no estado. Recentemente, a secretaria de Educação paranaense determinou que a obra fosse destinada apenas às escolas com EJA (Educação de Jovens e Adultos), voltada a estudantes com mais de 18 anos.

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SÃO TANTAS HISTÓRIAS

Hoje, 18 de abril,  dia que se comemora o Dia do Livro Infantil, (a data é uma homenagem ao aniversário do escritor, Monteiro Lobato), fez-me lembrar de uma história da escritora cearense, Rachel de Queiroz, relatada em sua autobiografia Tantos Anos, escrita por Rachel e sua irmã caçula, Maria Luiza de Queiroz, em 1998.

Rachel de Queiroz, a pioneira cearense – primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras, 1977 – conhecida pelas belas histórias contadas em suas obras, o carinho que tinha pelas palavras, seja nas crônicas, nas peças de teatro ou nos romances, ela era uma mulher à frente do seu tempo. Até na politica Rachel de Queiroz enveredou e teve uma vida intensa.
A consagrada carreira de escritora e jornalista, parte dos brasileiros já conhece, mas, na política é desconhecida pela maioria da população brasileira. Rachel se tornou membro do Partido Comunista ao lado de amigos de sua geração, uma turma politizada e ‘comunizada”, como relatou ela na autobiografia Tantos Anos, de 1998. Foi presa duas vezes.
Em 1931, após passar dois meses no Rio de Janeiro – tinha ido receber o Prêmio Graça Aranha, dado a O Quinze – Rachel volta ao Ceará, com credenciais do Partido Comunista, já politizada e com a missão de promover e reorganizar o Bloco Operário e Camponês, movimento político o qual ela tinha participado.
Rachel passou a fazer parte do Partido Comunista, mesmo sem ter feito uma ficha, assinado alguma ata. Aliás, não se podia deixar nenhum rastro de papéis, livros ou qualquer tipo de documento, a polícia era brutal e se pegasse algum vestígio, levava todos para a cadeia: às pessoas e os papéis. Com a chegada de Getúlio Vargas ao Rio, a polícia ficou mais feroz.
Em 1937, com a decretação do Estado Novo de Getúlio Vargas, os livros de Rachel de Queiroz foram proibidos e, num fato marcante, várias de suas obras acabaram queimadas em praça pública em Salvador (BA), junto a livros de Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, todos classificados de subversivos.
O desligamento do Partido Comunista aconteceu após ela ver censurado pelo próprio Partido o romance João Miguel. No romance João Miguel, ‘campesino’ bêbado, matava outro ‘campesino’. O aviso: só permitiria a publicação da obra, se Rachel fizesse as modificações apontadas pelo presidente do Partido Comunista. Segundo o Partido, a trama era carregada de preconceitos contra a classe operária.
Jamais se curvou as imposições feitas a sua obra, Rachel de Queiroz não aceitou as tais modificações exigidas pelo Partido Comunista, pegou o original que tinha datilografado e saiu em disparada, como relatado por ela no capítulo O Rompimento, da autobiografia Tantos Anos.
Em sua obra Caminho de Pedras (1937), Rachel trata desse momento político que viveu no Partido Comunista, porque fazer política na década de 20, ser comunista era muito perigoso. A ideia de comunismo era distorcida e alguém que ousasse se apresentar como comunista pagaria um preço alto, até com a própria vida.
Rachel de Queiroz faleceu dormindo em sua rede, em sua casa no Rio de Janeiro, em 4 de novembro de 2003.
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OS DRONES DE LIRA CONTRA LULA

Malu Gaspar, O Globo

Lira abre fogo contra governo Lula na tentativa de manter seu café quente até 2025

A notícia dos ataques que Arthur Lira (PP-AL) fez a Alexandre Padilha (Relações Institucionais) começou a circular nos celulares dos deputados na quinta-feira passada, no momento em que líderes do governo no Congresso se reuniam para discutir a votação das emendas orçamentárias prevista para esta semana.

Lira chamou Padilha de “desafeto pessoal” e incompetente, depois de vários veículos de imprensa publicarem que ele atuou nos bastidores para que os deputados votassem pela soltura de Chiquinho Brazão (sem partido-RJ), preso por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) sob a acusação de ser um dos mandantes do assassinato de Marielle Franco (PSOL).

A reação dos lulistas foi de ironia. “O café dele já esfriou mesmo, hein?”, disse um deles, já emendando: “Quem fez fama atropelando o governo vai se assustar ao ser atropelado”. O presidente da Câmara dos Deputados provavelmente não soube da piada governista, mas certamente percebeu que muita gente em Brasília interpretou um ataque tão frontal como sinal de desespero e fraqueza política.

Lira, claro, não gostou de aparecer na mídia trabalhando por Brazão. Mas o que ele detestou mesmo foi a sugestão de que teria feito isso para manter o cacife com bolsonaristas e deputados do Centrão para ter o poder de fazer o sucessor no início de 2025. Tal versão complicou sua vida. Se não se empenhou por Brazão, Lira vacilou com um público que costuma lhe ser fiel. Se empenhou-se, saiu derrotado.

As jogadas recentes — sugerir que liberará o andamento de projetos e pautas da oposição e autorizará a criação de CPIs para atrapalhar governo e Supremo — não passam de uma ofensiva para mostrar que não está morto ou fora de combate. E não está mesmo.

A simples ameaça de abrir fogo contra o Planalto obrigou a tropa governista a recuar e pedir ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), para adiar a votação sobre o veto de Lula a R$ 5,6 bilhões, dos R$ 16,6 bi previstos para emendas parlamentares de comissão no Orçamento deste ano.

Se é verdade que o presidente da Câmara ainda pode provocar bastante estrago, também é fato que Lula já não é mais o mesmo do início do governo, quando não teve alternativa a não ser engolir a reeleição de Lira sem sequer cogitar lançar candidato.

No último ano, o presidente da República fez alianças estratégicas no Senado, com Rodrigo Pacheco e Davi Alcolumbre (União-AP), e no Supremo Tribunal Federal, cujos ministros vivem num embate com o Parlamento.

Diante dos últimos ataques, fez como Israel, que acionou americanos e ingleses para ajudar a abater os drones iranianos antes de lançarem suas bombas.

Um dia depois de Pacheco adiar a votação das emendas, o ministro Alexandre de Moraes baixou de surpresa no Congresso e se reuniu com o próprio Lira a portas fechadas. Não se imagina que o assunto tenha sido outro que não a iniciativa de recomeçar do zero o desenho da regulamentação das plataformas digitais. Ou então a ideia de abrir uma CPI para apurar abuso de autoridade por parte do tribunal. Circulou nos bastidores que foi uma conversa dura.

Não foi coincidência que, pouco depois, falando com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, Lira tenha dito que nunca cogitou uma vingança, imagina, muito pelo contrário. Mas tinha de atacar Padilha e o Supremo para atender a uma demanda de sua base. Brazão, aliás, já é o segundo parlamentar preso pelo STF sob sua gestão. E o fato de Lira não ter conseguido conter nenhuma das duas prisões não pega bem para a direita mais radical que sempre o apoiou.

Embora não admita em público, nos bastidores o presidente da Câmara não esconde o incômodo com a antecipação da disputa por sua sucessão, aberta desde o início do mandato pelos próprios aliados. Em julho passado, apenas cinco meses depois de ter sido reeleito, Lira disse, no Roda Viva: “A sucessão não está aberta. Eu já disse que quem botar a unha de fora, esquece, vai arrumar um problema comigo”.

De lá para cá, a coisa só ficou mais escancarada. Aliados como Elmar Nascimento (União-BA) e Marcos Pereira (Republicanos-SP) viajam pelo Brasil para almoços, jantares e eventos de campanha, à vista de todos e sob olhares divertidos dos governistas. Conter esse avanço para manter o café quente custará cada vez mais caro a Lira — e, conforme o estrago que ele for capaz de provocar, poderá sair caro também para o governo Lula.

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VINGANÇA É O NOME DO JOGO

Merval Pereira, O Globo

Vivemos um momento delicado, em que os três Poderes brigam entre si e, às vezes, também internamente, alimentando incertezas

Vingança é a palavra de ordem vigorando. Vivemos um momento delicado, em que os três Poderes brigam entre si e, às vezes, também internamente, alimentando incertezas. O Supremo Tribunal Federal (STF) está em choque com o Legislativo, e os próprios ministros se batem, ainda em decorrência da Operação Lava-Jato.

Há claramente uma ação articulada no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para tentar punir juízes e desembargadores que trabalharam na Lava-Jato, com claro cheiro de vingança no ar. No Congresso, os parlamentares se organizam, na Câmara e no Senado, para se vingar do STF, que prendeu o deputado federal Chiquinho Brazão.

Mas não apenas por isso. Também contra o que consideram a “fúria legiferante” da mais alta Corte do país. O Executivo, por sua vez, briga com o Legislativo, onde não tem maioria, e se escuda no Supremo, que já esteve mais forte do que hoje e também precisa de apoio político. As CPIs são a arma parlamentar com que o Congresso ameaça o governo.

O presidente da Câmara, deputado Arthur Lira, está no centro dessas disputas. Quer garantir que um aliado assuma seu lugar, para não acontecer com ele o que vários ex-presidentes da Câmara já sofreram: isolamento, desprestígio. Para tanto, exibe aos seus uma força que vai se extinguindo à medida que a hora da sucessão se aproxima.

Precisa do apoio dos bolsonaristas e se dispõe a colocar em pauta temas que o governo gostaria de segurar, todos ligados a valores caros à classe média, como garantias contra invasão de terras ou o controle total do consumo de drogas. O próximo embate será justamente esse, pois a tendência, a não ser que se chegue a um acordo, é o Supremo considerar inconstitucional a emenda aprovada sobre a repressão ao consumo e porte de drogas.

A disputa no Judiciário, principalmente no STF, a favor e contra a Lava- Jato está explícita há muito tempo. O corregedor do CNJ, Luis Felipe Salomão, tem claras afinidades com ministros antilavajatistas como Alexandre de Moraes e principalmente Gilmar Mendes. Concordo com o ministro Luís Roberto Barroso, em divergência dura da decisão do corregedor, porque afirmar que a juíza Gabriela Hardt cometeu peculato ao autorizar a abertura da conta para a formação de um fundo privado que aplicaria o dinheiro devolvido da roubalheira na Petrobras é presumir que a conta seria aberta com intenções criminosas — como o ministro Gilmar Mendes diz a toda hora —, chamando o senador e ex-juiz Sergio Moro e o ex-procurador de Curitiba Deltan Dallagnol de ladrões de galinha que roubavam juntos.

Não seria um simples roubo de galinha, se fosse verdade que os milhões de reais devolvidos seriam desviados. O corregedor assumiu claramente um lado, sem base técnica nenhuma para acusar a juíza desse tipo de crime. No mínimo estariam fazendo com Moro e os demais que atuaram em Curitiba o mesmo que acusam de ter sido feito com Lula: denunciar sem provas. No caso em pauta no CNJ, há presunção de culpabilidade, não de inocência.

Lira tentou chegar a um acordo com o ministro Moraes, talvez o principal alvo de parlamentares. Disse-lhe que não precisava mais manter o comportamento radical, pois já é reconhecido como quem salvou a democracia brasileira. Moraes reclamou muito dos ataques que ele e, principalmente, sua família vêm sofrendo. Não deu nenhuma indicação de que refreará seu comportamento.

O receio dos deputados e senadores é ficarem à mercê de Moraes num combate interminável, por isso preparam uma série de medidas para reduzir os poderes do STF, especialmente em relação à prisão de parlamentares. São medidas claramente corporativistas, que não terão respaldo da opinião pública, mas terão apoio parlamentar. Em tempo de eleição, precisarão avaliar bem o custo-benefício de tal embate. Por enquanto, estão convencidos de que enfraquecer o STF é o caminho político adequado, escancarando o apoio majoritário dos conservadores a essa tese.

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O ELEFANTE BRANQUINHO

Hoje, 18 de abril,  dia que se comemora o Dia do Livro Infantil, (a data é uma homenagem ao aniversário do escritor, Monteiro Lobato), O blog Sou Chocolate e Não Desisto destaca o livro infantil "O Elefante Branquinho", escrito pela co-autora deste blog, a jornalista e escritora Lindy Lima. A obra é o quarto livro de Lindy.

Lindy Lima na mídia

 Do Jornal Cotia Agora

A escritora Lindy Lima, moradora de Cotia, lança seu quarto livro, desta vez uma história infantil chamada O Elefante Branquinho.

O livro trata da trajetória de um casal de jovens elefantes que, em busca de aceitação, atravessa o continente africano e chega até o Brasil, onde vive grandes aventuras e descobertas.

O Elefante Branquinho era rejeitado por ter nascido branco, enquanto que a sua parceira Bolinha tinha toda a simpatia dos animais da savana, justamente por ser gordinha e muito sagaz.

O livro traz como pano de fundo o respeito às diferenças, o peso da desigualdade, o respeito aos mais velhos e a importância do conhecimento para a auto aceitação.

A obra tem supervisão pedagógica da psicopedagoga Ivani Alamino e ilustração de Júlia Navarra. A autora optou por não comercializar a obra que será doada em escolas públicas de Cotia mediante palestras, por ser um projeto executado através do incentivo cultural da Lei Aldir Blanc.

Sobre a autora

Nascida em 1975, numa família de lavradores na cidade de Gavião, região sisaleira da Bahia. Segunda filha entre os 6 irmãos, começou a trabalhar no cultivo do sisal aos 7 anos e foi analfabeta até os 10. Mesmo assim, conseguiu concluir o antigo colegial aos 18 anos, no mesmo ano em que se mudou para São Paulo, onde trabalhou como balconista de padaria, empregada doméstica e manicure, de onde tirou inspiração para o seu primeiro livro, No Divã com a Manicure, lançado na Bienal Internacional do Rio de Janeiro. Lindy, como é conhecida, sempre foi apaixonada pelos livros e por história. Fez jornalismo e desde 2006 é editora do blog Mundo de Lindy Lima e Coeditora do Blog político Sou Chocolate e Não Desisto. Também é autora dos livro A Casa do Morro – 2020, e figura entre os 100 poetas modernos brasileiros da atualidade, titulo outorgado através da Antologia de Poesia Brasileira Contemporânea Além da Terra, Além do Céu – 2018.

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ATRÁS DAS GRADES

Jade AbreuCarlos CaroneMirelle Pinheiro, METRÓPOLES

Pastor que abusou sexualmente de menina é preso escondido em fazenda

A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) prendeu o pastor de igreja pentecostal Davi Rocha, condenado por abusar de uma adolescente de 13 anos. Ele estava foragido e escondido em um rancho em Cristalina, Goiás. A captura foi feita em operação nesta quarta-feira (17/4). Veja o momento do crime:

O crime ocorreu em 2020, quando a família da vítima procurou o pastor para ajudar a menina, que estava com “comportamento depressivo”. O religioso teria informado à família que a adolescente precisava de “libertação e de cura”.

Com o discurso de que descobriria o que estava acontecendo com a jovem, o pastor foi à casa da família da garota para levá-la a um passeio.

Ele teria levado a menina para um lugar ermo às margens da BR-040, em Santa Maria, quando passou as mãos nas pernas da adolescente e tentou beijá-la. Em seguida, ele teria passado a mão nos seios da jovem.

A menina pediu para ir embora e no dia seguinte contou a uma prima e a uma professora na escola, que avisou a mãe da criança.

Em 11 de abril, a a Vara de Execuções Penais do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) expediu o mandado prisão do homem. Ele deve cumprir pena de 12 anos em regime fechado.

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quarta-feira, 17 de abril de 2024

O MAGO DAS NOVELAS

O mago das novelas – Benedito Ruy Barbosa, 93 anos

Hoje é dia de parabenizar o mago das novelas, Benedito Ruy Barbosa, que completa 93 anos. Benedito Ruy Barbosa nasceu em 17 de abril de 1931, em Gália, interior de São Paulo. Filho de imigrantes italianos, começou a carreira como jornalista e publicitário.

Benedito chegou à dramaturgia com a peça Fogo Frio. A estreia como autor de telenovelas se deu com Somos todos irmãos (TV Tupi, 1966), uma livre adaptação de A Vingança do Judeu.

Com conhecimento de causa, Benedito Ruy Barbosa sabe como ninguém prender a atenção do telespectador com sua abordagem da vida rural, interiorana e cultura dos caboclos e a imigração italiana no Brasil.

Por onde passa, o mago das novelas é sucesso de audiência e crítica, foi assim quando escreveu Os Imigrantes, na TV Bandeirantes (1981) e o grande sucesso Pantanal, na TV Manchete (1990).

Benedito só escrevia novelas para o horário das seis na Globo quando apresentou sinopses para o outro horário a emissora dos Marinho não acreditou e Benedito mudou de emissora e para surpresa da TV Globo, o que tinha sido recusado se tornaria sucesso nas concorrentes e viram a audiência da Vênus Platinada despencar vertiginosamente.

Após o grande sucesso de Pantanal – que, por várias vezes bateu a Globo em audiência, Benedito volta para a Globo e escreve sua primeira novela no horário das 8, Renascer, que abordava a crendice popular – que também esteve presente em Paraíso, de 1982 – e a cultura do cacau na Bahia de todos os santos.

Depois do estrondoso sucesso de audiência em Renascer (1993), Benedito nos brinda com mais uma obra impecável, O Rei do Gado (1996), Terra Nostra (1999) e Esperança em 2002. Esses últimos três trabalhos, o majestoso Benedito abordou a imigração italiana no Brasil.

Atualmente, Benedito tem se dedicado mais a supervisão de seus trabalhos que tem virado remake como aconteceu com Cabocla, Sinhá Moça e Paraíso, foram adaptados por suas duas filhas Edmara e Edilene Barbosa.  A adaptação de Meu Pedacinho de Chão, Benedito disse que não se tratava de um remake.

Uma das peculiaridades desse colossal dramaturgo é que, diferentemente dos outros grandes autores de novelas brasileiras que escrevem suas tramas com co-autores, Benedito Ruy Barbosa escreve suas novelas sozinho, aceita apenas a consultoria de textos e pesquisas das filhas Edmara e Edilene Barbosa.

O último trabalho de Benedito Ruy Barbosa foi a novela “Velho Chico”, que teve como cenário, o Rio São Francisco, carinhosamente chamado de “Velho Chico”.

Sinônimo de sucesso, as novelas de Benedito Ruy Barbosa voltaram à tela da Globo no "Vale a pena ver de novo" e, para alegria dos noveleiros, duas novelas dele tiveram remakes, foram adaptadas pelo neto do autor, Bruno Luperi, que deixou o avô Benedito cheio de orgulho da releitura de sua obra.

Luperi reescreveu o rameke de Pantanal, em 2022, sucesso retumbante. Acrescentou ingredientes novos, aproximando telespectador para os dias atuais, mas sem perder a essência do folhetim original. Não teve erro, foi sucesso do início ao fim !

O segundo remake adaptado por Bruno Luperi  está no ar, é o da novela Renascer. Com bons indíces de audiência (crava todo dia mais 30 pontos). A história de José Leôncio e seus quatro filhos e as fazendas de cacau vai até setembro, quando autor deverá encerrar a trama com chave de ouro. Equanto isso, o avô Benedito assiste tudo direto da sua fazenda em Sorocaba, interior de São Paulo.

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RELEMBRANDO ROBERTO CAMPOS

Se vivo estivesse, Roberto Campos, completaria 107 anos. Roberto Campos nasceu em 17 de abril de 1917, em Cuiabá (MT). Campos faleceu em 9 de outubro de 2001, no Rio de Janeiro.

Economista por formação, Roberto Campos foi diplomata, ocupou os cargos de deputado federal, senador e ministro do Planejamento no governo Castello Branco.

Biografia

Filho de um professor e de uma costureira, ficou órfão de pai aos dois anos de idade. Seguindo o desejo da mãe, mudou-se para Minas Gerais, na cidade de Guaxupé, onde foi estudar Filosofia e Teologia num seminário católico. Deixou o seminário em 1937, às vésperas de sua ordenação.

Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde, inicialmente, prestou concurso para escriturário do serviço público, neste concurso foi reprovado por não saber datilografar. Também tentou o concurso para inspetor de ensino, mas novamente teve de desistir - desta vez porque os diplomas do seminário não foram reconhecidos.

Ingressou no serviço diplomático em 1939, trabalhando como diplomata nos EUA. Fez pós-graduação em Economia pela Universidade George Washington, e iniciou uma tese de doutorado (Ph.D) na Universidade de Columbia de Nova York, a qual não chegou a concluir.

Participou, com o decano dos economistas brasileiros Eugênio Gudin, da Conferência de Bretton Woods, responsável pela criação do Banco Mundial e do FMI.

Trabalhou no segundo governo de Getúlio Vargas quando foi um dos criadores do atual Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do qual foi posteriormente presidente, de agosto de 1958 a julho de 1959 e participou da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos, que estudou os problemas econômicos brasileiros. Rompeu com Getúlio Vargas e foi designado para trabalhar no consulado brasileiro em Los Angeles, onde aproveitou para conhecer profundamente o cinema de Hollywood.

No governo de Juscelino Kubitschek, teve participação importante no Plano de Metas, sendo um dos coordenadores dos grupos de trabalhos desse plano. Roberto Campos havia sugerido que se chamasse "Programa de Metas", sugestão que Juscelino não acatou. Roberto Campos sugeriu também que se fizesse um plano mais amplo visando combater o déficit público e equilibrar as contas externas através de uma reforma cambial.

Exerceu os cargos de Embaixador do Brasil em Washington no governo João Goulart e Londres no governo Ernesto Geisel. Quando embaixador em Londres, Roberto Campos participou da banca de doutoramento em York do futuro presidente de Portugal, o professor Aníbal Cavaco Silva.

Apoiou, em 1964, o golpe militar no Brasil, e tornou-se ministro do Planejamento no governo Castelo Branco. Como ministro, juntamente com o colega Octávio Gouveia de Bulhões do Ministério da Fazenda, modernizou a economia e o estado brasileiro através de diversas reformas e controlou a inflação.

No Governo Castelo Branco, Roberto Campos participou do grupo que criou: o Banco Nacional da Habitação (BNH), o salário-educação, o cruzeiro novo, a indexação de preços na economia brasileira através da correção monetária pelas ORTNs, Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional. Elaborou e executou uma reforma fiscal através do novo Código Tributário Nacional, Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966. Liberalizou a lei de remessas de lucros, Lei nº 4.390, de 29 de agosto de 1964.

Criou, em conjunto com outros, o Banco Central do Brasil, o FGTS e o Estatuto da Terra. Foi o autor dos artigos econômicos da Constituição de 1967, a qual foi, nas palavras dele, "a constituição menos inflacionista do mundo", a qual, entre outros dispositivos anti-inflacionários, não permitia que o Congresso Nacional fizesse emendas ao orçamento que aumentassem os gastos públicos da união.

O gosto pelo cinema, desenvolvido no período diplomático passado na Califórnia, fez com que garantisse as condições para a criação do Instituto Nacional do Cinema (INC), em 1966. Seu cunhado, o cineasta Flávio Tambellini, foi o primeiro presidente do INC.

Como ministro foi combatido por governadores, entre eles Adhemar de Barros e Carlos Lacerda, que eram contra o corte de gastos públicos que Roberto Campos determinou para combater a inflação.

Roberto Campos teve grande influência na formulação da política externa do Brasil do governo Castelo Branco através da sua teoria dos círculos concêntricos.

Posteriormente, Campos tornou-se crítico dos rumos tomados por duas de suas criações: a correção monetária e o Banco Central do Brasil.

Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões, e mais Eugênio Gudin em 1954, foram os únicos economistas liberais a chegarem aos cargos de ministros da área econômica desde Joaquim Murtinho que foi ministro da fazenda de Campos Salles.

Foi senador, por Mato Grosso, pelo PDS, por oito anos (1983-1991), e deputado federal pelo Rio de Janeiro por duas legislaturas (1991-1999). Fez um discurso antológico na sua estreia no Senado Federal, que foi respondido pelo senador Severo Gomes, surgindo, então, uma rivalidade que marcaria época no Senado Federal.

Votou em Paulo Maluf na eleição indireta para presidente da República em 15 de janeiro de 1985, argumentando ser adepto da fidelidade partidária ao candidato do PDS e alegando que o referido candidato adotaria uma política econômica alinhada aos princípios liberais e privatizantes que defendia, linha programática que, em sua visão, não corresponderia à administração do candidato da oposição, Tancredo de Almeida Neves (PMDB), o vencedor do pleito.

No auge do Plano Cruzado durante o Governo José Sarney, Roberto Campos foi uma das poucas vozes a criticá-lo.

Sentia-se como sendo o único parlamentar na Assembleia Nacional Constituinte de 1988 a defender a economia de mercado. Não teve nenhuma de suas ideias aprovadas quando deputado e senador. Apresentou 15 projetos de leis no Senado, todos rejeitados, entre os quais, estão projetos propondo:

Livre negociação salarial no setor privado e estabelece medidas de flexibilização do mercado de trabalho para evitar o desemprego.

Extinguir, como empresas estatais, as que forem deficitárias, privatizando-as ou liquidando-as.

Estabelecer a livre negociação salarial.

Criar contratos de trabalho simplificados para facilitar novos empregos.

Terminou o mandato de senador constituinte reclamando da solidão do liberal no Brasil.

Ao lado de José Guilherme Merquior foi um dos ideólogos do Governo Collor, chegando a ser fortemente cogitado para ocupar o cargo de Ministro das Relações Exteriores no início de 1992, acerto que não se concretizou devido a desacertos políticos entre o PDS e o governo federal. Porém votou pela sua cassação, quando deixou o hospital onde estava internado com septicemia e compareceu de cadeira de rodas no Congresso Nacional, seu voto foi muito aplaudido.

Candidatou-se, à reeleição ao Senado Federal, pelo Rio de Janeiro, em 1998, perdendo por uma diferença de 5%, para Roberto Saturnino Braga.

Foi criticado por dar mais importância à Macroeconomia do que à Microeconomia.

Criou o Banco União Comercial, o qual presidiu e que foi à falência, em 1974. Este fato teria causado grande prejuízo ao Brasil, pois o governo federal assumiu o passivo do Banco União Comercial, o qual era estimado em milhões de dólares, provenientes de empréstimos contraídos, pelo banco, no exterior. O Banco Central do Brasil ficou com a dívida do banco, junto aos credores internos.

No governo federal chegou a Ministro do Planejamento. Seus críticos afirmam que seu papel na criação do BNDES, Banco Central e do BNH, foi apenas de coadjuvante. Estes afirmam que o Banco Central do Brasil teve origem em um projeto de lei, apresentado em 1954, pelo deputado federal Ulysses Guimarães, e que o BNH foi idealizado, exclusivamente, por Sandra Cavalcanti, seu primeiro presidente.

Seus críticos dizem que foi ausente nas suas atribuições no cargo de embaixador do governo João Goulart nos Estados Unidos.

Os opositores do liberalismo o criticam por ter sido um dos maiores defensores do liberalismo econômico no Brasil.

Durante o início de sua carreira, Roberto Campos defendeu a intervenção estatal na economia desde que ligada ao desenvolvimento conjunto do setor privado capitalista e sem preconceito contra o capital estrangeiro, o que lhe rendeu a reputação de entreguista e a apelido (codinome) "Bobby Fields" dado por adversários que o viam como um americanista.

Fez este tipo de intervenção na economia, quando ministro do planejamento e no Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, onde não se criaram muitas empresas estatais.

Roberto Campos cunhou as expressões monetarismo e estruturalismo na década de 1950 para identificar as duas principais visões que os economistas tinham sobre inflação. Foi crítico da Cepal e dos economistas da Unicamp. Era crítico também da Reforma Agrária.

Após o governo Castelo Branco, com o progresso do gigantismo estatal e da burocratização no Brasil durante os governos subsequentes da ditadura militar, muito especialmente nos governos de Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, intensificou sua posição aberta de doutrinário liberal defendendo a tese de que um país só pode ter liberdade política com liberdade econômica. Criticou fortemente as estatizações de empresas e a criação de novas empresas estatais pelos seus sucessores no Ministério do Planejamento.

Convenceu-se de que o estatismo é trágico e empobrecedor quando foi embaixador em Londres, nas décadas de 1970 e 1980, quando acompanhou de perto o programa de privatização da economia inglesa feito pela primeira ministra da Grã-Bretanha Margaret Thatcher. Nesse período participou da banca de doutoramento em economia na Universidade de York do atual presidente de Portugal Dr. Aníbal Cavaco Silva.

O triunfo do neoliberalismo, termo que ele dizia ser inexato, na década de 1990, deu-lhe a oportunidade de dizer, no seu livro de memórias:

Ao morrer, com 84 anos, deixou a fama, entre seus admiradores, de sempre ter razão de remar contra a maré e ser um liberal solitário no Brasil.

Combateu, sem o menor apoio e êxito, o monopólio da Petrobras, que Roberto Campos chamava de Pretrossauro, repetindo a frase do Presidente Castelo Branco que dizia: "Se é eficiente não precisa do monopólio, se precisa, não o merece". Sobre Petróleo, Roberto Campos dizia que "Petróleo é apenas um hidrocarboneto e não ideologia".

Previu em 1982, que a Lei de informática aprovada naquele ano pelo Congresso Nacional e que era de iniciativa do governo João Figueiredo, iria condenar o Brasil ao atraso na área de informática, forçando o país a importar hardwares de países asiáticos.

Ex-keynesiano, mais tarde discípulo do economista austríaco Friedrich August von Hayek, e lamentava ter perdido tempo com outros autores. Roberto Campos postulava como Hayek que o Estado deveria ter o tamanho mínimo possível para o cidadão não se tornar servo dele. Schumpeter também foi um economista que Roberto Campos admirou já na juventude. Sua tese não concluída de doutorado teria Schumpeter como "tutor").

Em 1994 diria que sua defesa do dirigismo estatal havia sido um erro de juventude, "como a gonorreia" - um exemplo da ironia corrosiva pela qual se tornou conhecido. Sua inteligência nunca deixou de ser reconhecida até pelos inimigos políticos.

Seus adversários jamais cessaram de dizer que o seu apoio entusiástico, no início, ao Golpe de 1964, não era consistente com suas defesas da liberdade política, a não ser que por "liberdade" se entendesse a liberdade econômica e o fato do país não cair nas mãos do comunismo. Seus defensores, por outro lado, dizem que Roberto Campos fazia parte do "grupo castelista" e que, portanto, apoiou só o Governos Castelo Branco e Geisel, que, segundo seus defensores, foram governos mais liberais. Porém Roberto Campos foi contra as estatizações e criações de empresas feitas por Geisel, do qual ele mesmo foi o seu embaixador em Londres.

Sobre o socialismo e capitalismo, ele acreditava que:

" - O princípio axiológico do capitalismo é que o homem é dono de seu corpo e do produto de suas faculdades e só pode ser privado do produto dessas faculdades por consenso, contrato, ou pela aceitação de tributos sujeitos ao crivo da representação democrática. Já o socialismo parte do princípio de que o homem é proprietário de seu corpo, mas não é proprietário do uso de suas faculdades. Esse produto pode — e deve — ser redistribuído segundo determinados critérios ideológicos e políticos para alcançar algo definido como justiça social… O resultado é que não se otimiza o esforço produtivo. Toda a tragédia do socialismo é, no fundo, a sub-otimização do esforço produtivo". (trecho retirado do livro "Conversas com Economistas Brasileiros").

Com informações da Wikipédia

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terça-feira, 16 de abril de 2024

O NOVO ANFITRIÃO DO PODER E DONO DA BOLA

Andrea Jubé, Valor Econômico

Senado abriu uma nova trincheira para investigar o futebol brasileiro

Em um Congresso já tensionado, o Senado abriu uma nova trincheira para investigar o futebol brasileiro. Nesta quarta-feira (17), a comissão parlamentar de inquérito (CPI) das Apostas Esportivas votará cerca de 20 requerimentos, entre eles, o convite ao empresário americano John Textor, dono do Botafogo.

Nos últimos dias, Textor acusou - ainda sem provas - o Palmeiras, campeão do Brasileirão em 2022 e 2023, de ter sido favorecido com a suposta manipulação de resultados. Ele citou dois confrontos, um com o Fortaleza (4 a 0) em 2022, e outro com o São Paulo (5 a 0) em 2023, em que o adversário teria entregado os resultados ao alviverde. CEO do grupo Eagle Football Holdings LLC, Textor também controla o Crystal Palace, da Premier League, o Lyon, o RWD Molenbeek e o FC Florida.

A CPI fará os holofotes se voltarem para um parlamentar conhecido pelas declarações polêmicas e postura inflexível, mas que nos bastidores, consolidou-se como um festejado anfitrião em Brasília: o senador Jorge Kajuru (PSB-GO), presidente do colegiado.

Kajuru, que é vice-líder do governo, abre as portas do apartamento funcional na Asa Sul, às terças e quartas-feiras à noite, para oferecer aos colegas dois pratos principais: uma tradicional galinhada, típica da culinária goiana, e uma opção de frutos do mar. Os convidados levam os vinhos.

Diante da polarização bolsonaristas x lulistas, Kajuru recebe a oposição às terças-feiras, e os governistas às quartas-feiras. O hábito de receber os colegas remonta ao início do mandato, em 2019, mas nos últimos meses as reuniões das quartas-feiras ficaram mais concorridas, com a presença de ministros e líderes do governo.

Já prestigiaram a galinhada de Kajuru os ministros das Relações Institucionais, Alexandre Padilha (PT), da Educação, Camilo Santana (PT), do Planejamento, Simone Tebet (MDB), e o líder do governo, senador Jaques Wagner (PT-BA), entre outros. O ministro do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, gosta de cozinhar. Ex-governador do Amapá, ele prepara pessoalmente um prato típico da região, o filhote ao tacacá.

Pelo lado da oposição, frequentam os jantares os senadores Romário (PL-RJ), Hamilton Mourão (Republicanos-RS), acompanhado da esposa, Soraya Thronicke (Podemos-MS), entre outros. Kajuru não quer briga com nenhum dos lados. “Eu não vivo de ódio, vivo de amor”. Ele entretém os convidados com histórias do arco da velha de seus 40 anos de cobertura do esporte brasileiro no rádio, televisão e jornais.

Na CPI, Kajuru fará dobradinha com Romário, relator da investigação. Eles levam para o parlamento uma amizade de mais de 30 anos, que começou na Olimpíada de Seul em 1988, quando ele cobriu os jogos pelo SBT, e o atacante atuou na Seleção Brasileira, que foi medalha de prata. “Não faço nada sem combinar com o Romário, é como se fôssemos irmãos”.

Embora dirigentes de clubes e autoridades do futebol coloquem em dúvida as acusações de Textor, Kajuru afirma que Romário tem mantido contato com o empresário, e acredita que ele tenha bala na agulha. “Ele só entregou [à polícia e ao MP] 10% do que tem, o Romário acha que um empresário do tamanho dele não iria mentir”.

Kajuru rechaça que a CPI das Apostas terá o mesmo fim melancólico que as tentativas anteriores do Congresso de investigar o futebol que acabaram frustradas. Em 2000, a CPI da Câmara dos Deputados para investigar o contrato da Confederação Brasileira de Futebol (CPI) com a Nike terminou sem o relatório aprovado.

Em 2016, a CPI do Futebol, que tinha Romário como relator, acabou sem conclusão, com dois relatórios divergentes e nenhum indiciamento. Criada para investigar contratos e negociações da CBF, teve como segundo relator o senador Romero Jucá (MDB-RR), que segundo Kajuru, entrou em campo naquela ocasião para ajudar a blindar a CBF. “A bancada da bola era fortíssima, não tinha com o Romário vencer sozinho”, diz Kajuru. “Agora não tem Jucá”, acrescentou.

O senador goiano não vê danos ao futebol brasileiro, maior paixão nacional, com a CPI. “A alegria do brasileiro não aceita corrupção. A melhor solução é uma CPI séria, independente, com uma apuração limpa para mostrar o submundo do futebol”, alegou.

Como anfitrião, Kajuru entrou para uma seleta galeria de políticos que reúne desde o ex-deputado federal Paulo Maluf até o presidente do Solidariedade, deputado federal Paulinho da Força (SP), famoso pelo porco ao rolete, e o ex-deputado Fábio Ramalho, que promovia fartos banquetes de comidas mineiras, inclusive no gabinete da vice-presidência da Câmara.

A boa gastronomia sempre andou ao lado da política em Brasília, colocando a informação à mesa e arejando os espíritos. Nos tempos da Constituinte, ao fim do expediente, Ulysses Guimarães reunia seu grupo para beber o “poire”, o mítico licor de pera, no saudoso Piantella.

Em 2012, com os governistas tensos com a CPI do Cachoeira, Paulo Maluf juntou uma multidão de políticos em uma edição de sua famosa feijoada, incluindo o vice-presidente Michel Temer (MDB). Na ocasião, declarou à revista “Veja”: “Sou um homem bem informado porque conheço muita gente velha; minha feijoada reuniu mais de 100 deputados, senadores, ministros.”

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O AMBIENTE EXIGE RESPEITO

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Como exigir civilidade ao cidadão se as autoridades atuam com agressividade reativa?

O exemplo vem de cima, reza o lugar-comum. E quando o comum é que o presidente se pronuncie sem freios, generalizam-se na República as declarações desenfreadas. São aceitas com naturalidade, mas bastaria observá-las com algum rigor para vê-las como um atroz desrespeito à etiqueta institucional.

Como exigir da população que amenize o trato no embate entre contrários se no âmbito dos três Poderes, nas respectivas cúpulas, o que vale é a agressividade reativa? Num desenho breve, temos um pedaço do quadro de distorções em pouco espaço de tempo.

Um magistrado do Supremo Tribunal Federal reage de modo intempestivo à busca de holofotes do dono do X, descendo ao patamar dos interesses do bilionário; dois ministros de Estado fritam o presidente da Petrobras; o presidente da Câmara desanca em público o articulador político do governo por suspeita de ter sido desancado por ele aos ouvidos de jornalistas.

O ambiente da barulheira se sobrepõe à razão. De autoridades ditas republicanas seria esperado que prestassem reverência civilizada à racionalidade.

Feito o estrago, recorrem-se a remendos que em nada remediam a profusão de comportamentos inadequados do ponto de vista da institucionalidade. O presidente da República alega "teimosia" para dar sustento funcional ao articulador. Sinal de aposta dobrada no atrito com o deputado Arthur Lira.

Lula não dirime com clareza a disputa pela presidência da Petrobras, enquanto no STF o colegiado dá apoio oficial, mas não compactua integralmente com as decisões de Alexandre de Moraes. Alguns ministros pensam de maneira diversa ao que diz a nota formal de respaldo, mas se reservam ao silêncio.

O que podemos depreender do todo é a utilidade da lição de Billy Blanco em seu "Estatuto" de uma gafieira bem mais organizada que a no momento tão desorganizada República brasileira: o ambiente exige respeito.

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