Para entender a perda de poder do Estado é preciso mais
talento humanista do que habilidade política. De maneira geral, governos usam
sua força como oficina de testes para usufruir ou confrontar fatos dos quais
com frequência são os causadores. Mas para entender como a sociedade está
reagindo a tais iniciativas experimentais melhor mesmo é ampliar o ponto de
observação e evitar a depressão e revolta que é viver sob governos ingênuos.
O mundo é da riqueza, das hierarquias e dos criadores. E o
povo, ora, o povo nunca esteve tão fora de moda como agora. Estão aí três
sistemas sociais poderosos que explicam o rápido processo de mudança a partir
da atual revolução tecnológica e da crise do sistema financeiro. Chips &
Pounds, dois impérios virtuais em guerra que vão se chocar e tirar do Estado a
capacidade de vigiar e imprimir dinheiro.
A tecnologia acelera em ritmo cada vez maior e vem
pervertendo tanto nosso sistema de reflexos que sua velocidade já é uma doença.
O sistema financeiro, por sua vez, gigantesco e socialmente infértil, será
engolido pela criptomoeda como o Uber comeu o táxi.
A tecnologia deu aos bancos um suporte material e um saber
extraordinário sobre a angústia dos clientes, mas não lhes deu nenhuma
sensibilidade sobre a experiência de salvá-los pela vida produtiva. Se o
concentrado sistema bancário não enfrentar sua riqueza enganadora, usando de
forma virtuosa a memória que armazena dos seus clientes, será tragado pela
degenerescência do dinheiro virtual provocando um Alzheimer na riqueza.
Tecnologia e Moeda são impérios virtuais que se aproveitam
do sono dos Parlamentos, anestesiados pelo narcisismo dos selfies e
prisioneiros de qualquer Big Data que se ofereça. Notícias não compensam a
falta de ideias. A maquinação digital é uma armadilha que consiste em
transferir a legalidade de todas as coisas para os que armazenam os meios
eletrônicos, fazendo o controle da verdade pertencer ao manipulador de dados.
O mundo está inundado de dinheiro fraco e caro. Dinheiro que
se converteu em entorpecente provocando necessidade de antidepressivos. Os
bancos não conhecem analogia e acham que nada tem que ver com eles o fato de
que nos EUA e na Europa são cobradas taxas para o uso de drogas recreativas em
cafés ou oferecidas drogas medicinais em dispensários para usuários. Nada
repressivo, totalmente liberal. Se não criarmos abrigos para inadimplentes, ou
alguma moeda social não contributiva, o dinheiro não circulará pela massa de
excluídos e a mercadoria não mais será comprada pela maioria.
A exclusão social deve ser considerada uma droga e se os
bancos não mudarem sua relação doentia com o tráfico de dinheiro, a moeda deve
passar a ser tratado pelos sistemas de saúde, e não pelo sistema financeiro. A
OMS sabe mais do mundo do que o FMI.
A política, e seu medo estúpido da economia e da tecnologia,
infantilizou o papel da luta política, prisioneira do obsoleto estatuto do
poder. Tipo de política que não usa nenhuma brecha para propor uma linha de
fuga que possa reverter sua impotência diante da violência dos processos
tecnológicos e financeiros.
Recomeçou o ciclo do grande endividamento.
A riqueza bancária e a informatização usam as facilidades da
política, de direita ou esquerda, para penetrar sem lei nos países que não
atravessaram nenhum grande acontecimento da História mundial. Com a
concentração, a segurança econômica pressupõe subordinação bancária e não
significa liberdade. O crédito imposto, o endividamento, virou um mecanismo de
conformidade violento. A Pátria cobriu-se de juros, o nome do dinheiro caro.
A bravura dos que trabalham e produzem a riqueza perdeu
aliados para disputas políticas ideologizadas, sem nenhuma ligação com a dor e
o prazer trazidos pelo progresso. A alta tecnologia escondeu-se em paraísos
fiscais, alimenta hackers, cria empresas virtuais, manipula e desorganiza
governos a seu favor.
Enquanto a política não acorda para o problema real que
aflige a pessoa comum, que é o novo mundo do trabalho e sua relação com a
insegurança pessoal, a boemia bancária, indiferente à revolução tecnológica no
mercado de mão de obra, adoece o crédito com o assédio ao necessitado.
A revolução digital e sua interferência na lógica dos
empregos e dos negócios mudaram as exigências da vida. O desemprego dos
capazes, surpreendidos por habilidades presas ao passado, aumentou a
subordinação das pessoas a bancos e a remédios. E é essa prisão sem amigos, a
ausência de decisões novas que façam a riqueza circular de forma ampla, mas
fruto de algum compromisso coletivo da economia com o trabalho, que contamina a
esperança na política. As hierarquias que dominam os interesses políticos não
sabem escrever protocolos para que a criação e a circulação da riqueza existam
na perspectiva de todos.
A política perdeu a noção de como os bens são produzidos. A
convivência com este estado de coisas – veloz, deseducado, atrativo, desconhecido
e sugado por juros – domina o dia dos governos. Um mecanismo que desregulamenta
nosso futuro, com a perda da esperança no consenso produtivo e na criatividade
do trabalho.
Nas crises de sociedades sem comando, as recompensas que ela
acaba proporcionando são desproporcionais e descabidas ao extremo. Cresce
demais para uns, desaparece para outros. O cerne do desequilíbrio é a
predominância de um tipo novo de vitoriosos ousados na arquitetura do poder. A
riqueza se concentra nas mãos de alguns grandes criadores de dinheiro “sem
fábrica”, aliados aos hipercompetitivos personagens dos negócios midiáticos,
políticos e financeiros.
Assim o mundo corre veloz com sua economia oca. Uma energia
desagregadora fazendo e desfazendo valores. Sem monitoramento estatal sábio que
possa unir riqueza, hierarquias e criadores, adeus, bem-estar social. O custo
desse erro tem sido assustador.
*Sociólogo.

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