Nesta terça-feira (1º), numa tentativa de elevar sua estatura
como estadista, o presidente Bolsonaro subiu numa cadeira e discursou para
um grupo de garimpeiros na entrada do Palácio do Planalto. Segundo ele, a
campanha estrangeira em defesa da floresta amazônica não quer saber da
preservação ambiental ou da proteção aos índios. E, de acordo com sua ideia do
nível de sofisticação de sua plateia, declarou: "O interesse na Amazônia
não é no índio, nem na porra da árvore. É no minério!".
A maneira de Bolsonaro se referir à árvore é injusta. A
árvore não é uma porra. É verdade que contém uma seiva que, à visão desarmada,
pode ser confundida com o esperma --ambos são espessos, aderentes e viscosos.
Mas a semelhança acaba aí, e Bolsonaro, matuto de origem, sabe disso. Seu uso
de "porra", portanto, só pode ter se dado na forma chula,
significando, segundo o Aurélio, "enfado, impaciência, desagrado". É
o que as árvores lhe provocam, donde estar dedicando seu mandato a transformar
o Brasil num pasto ou
numa Serra Pelada sem volta. Deve isso aos patronos da sua candidatura.
O jovem Bolsonaro certamente se aplicava em chutar árvores,
desfolhar galhos ou urinar em canteiros. Mas, se cursou a escola fundamental,
talvez tenha aprendido que o Brasil nasceu de uma árvore: o pau-brasil, cujo
ciclo econômico durou pouco, pela exploração irresponsável que o levou à quase
extinção. Bolsonaro não gosta dos índios, mas sua mentalidade tem algo em comum
com a deles --também é extrativista.
Quanto à porra, expressão que usou para desmerecer a árvore,
é bom lembrar que, na origem, Bolsonaro também já foi uma. Pelo menos, foi
chapinhando nela que se cruzaram os genes que o formaram. Em respeito ao
leitor, vou me abster de entrar em detalhes.
Basta dizer que, embora talvez Bolsonaro não acredite, o
processo de sua fecundação foi o mesmo que gerou o cacique Raoni.
Ruy Castro
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen
Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

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