O contraste de imagens na terça (1º) não poderia ser mais
eloquente. Enquanto em Hong Kong um manifestante
pró-democracia agonizava baleado no peito, em Pequim a ditadura
fazia uma inaudita celebração nacionalista e militarista.
Os episódios ocorreram no dia em que foram comemorados 70
anos do moderno Estado chinês. Inicialmente inspirada pela experiência
comunista soviética, a China reergueu-se aos poucos de seu passado de títere de
atores estrangeiros e da devastação de guerras.
A partir de 1978, sob a liderança de Deng Xiaoping, tomou o
rumo que conhecemos hoje, mesclando o centralismo socialista com a exploração
capitalista extrema de suas enormes potencialidades.
O resultado é notório. Segunda maior economia do mundo, vanguarda
tecnológica em diversas áreas, expansão do PIB de astronômicos 3.500% em
quatro décadas e centenas de milhões de pessoas tiradas da pobreza.
Os números brilham como os neons de cidades ultramodernas,
mas escamoteiam problemas.
O regime é uma catedral opressiva construída sobre
brutalidades como o Grande Salto Adiante, a Revolução Cultural, a anexação do
Tibete, o massacre da Praça da Paz Celestial. A contagem de mortos chega
às dezenas de milhões.
Ele lida também com questões estruturais associadas ao
progresso, como ociosidade da infraestrutura monumental, a pobreza das áreas
rurais e as dores do parto de uma sociedade de renda mais alta —e seus
impactos, de demandas políticas a pressões ambientais.
Entretanto a contradição fulcral é a exposta nas ruas
da antiga
colônia britânica, onde até 2047 o poder total do Partido Comunista deverá
compartilhar a paisagem com elementos da democracia liberal.
O híbrido é útil a Pequim, que explora a condição de Hong
Kong como posto comercial avançado, mas o entrechoque entre desejo por
liberdade e controle estatal sugere o germe de uma queixa mais ampla.
Nesse contexto opera Xi Jinping, o líder que a partir de
2017 imprimiu à ditadura um personalismo inexistente desde os tempos do
fundador da nação, Mao Tsé-Tung. Ele vê uma China como superpotência que
precisa ter expressão política compatível com a econômica.
O corolário de tal pretensão é o avanço bélico. Os chineses
gastaram com defesa US$ 168 bilhões (R$ 687 bilhões) em 2018, montante só
inferior ao desembolsado pelos americanos (quase o quádruplo), e o desfile de
70 anos foi um mostruário de armas destinadas a impressionar Washington.
Resta saber como Xi e os EUA irão se equilibrar
entre acomodação e disputa, inclusive comercial.

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