Fosse a Caixa Econômica Federal uma empresa privada,
os critérios
que ora adota para abrigar ou patrocinar produções culturais demonstrariam
apenas ignorância, sectarismo e preconceito.
Tratando-se de instituição pública, o que se tem é um
inaceitável aparelhamento ideológico do Estado —algo de que sempre se acusou os
governos de esquerda e se manifesta, agora, sob a inspiração de um direitismo
retrógrado.
Conforme noticiou esta Folha, instituiu-se sob o governo de
Jair Bolsonaro (PSL) um novo protocolo a ser seguido por funcionários
encarregados de selecionar peças, debates e exposições para os espaços do banco
estatal.
O processo de aprovação dos eventos inclui agora os tópicos
“possíveis pontos de polêmica de imagem para a Caixa” e histórico de artistas e
produtores na internet e nas redes sociais.
Não é difícil intuir que se procura detectar —e filtrar, no
vernáculo do Planalto— temas que despertam a aversão do governo e seus
militantes fundamentalistas.
Nesse rol podem estar de críticas à ditadura militar à mera
menção a questões de gênero ou sexualidade. Mesmo que não haja orientação
explícita e formal, é evidente a intenção censória.
Nesse terreno, afinal, proliferam exemplos das preferências
da administração Bolsonaro. Eles datam, aliás, de antes das eleições, quando
campanhas contra artistas ganharam projeção em nome da religião, dos bons
costumes e de uma fantasiosa ameaça comunista.
Para ficar nos últimos dois meses, pelo
menos seis produções culturais sob o guarda-chuva de empresas estatais
e do Ministério da Cidadania foram canceladas, numa demonstração de que agentes
do setor público observam orientação discriminatória em suas decisões.
Apenas na semana passada cancelaram-se três eventos que
tinham em comum assuntos repelidos por simpatizantes do governo, como
diversidade sexual e críticas ao regime instaurado em 1964. No Rio, por
exemplo, a Caixa Cultural suspendeu o patrocínio a dois projetos previamente
aprovados em edital —como a mostra da cineasta Dorothy Arzner, com temas do
universo feminista e homossexual.
Também um ciclo de palestras sobre democracia, história,
ciência e ambiente deixou de ser realizado sob a pífia justificativa de que os
organizadores mudaram títulos de palestras sem aviso prévio.
As conferências, para jovens estudantes, chegariam à sua
terceira edição, com abertura do professor de filosofia e presidente do Cebrap,
Marcos Nobre.
Não é novidade que governos tendam a instrumentalizar a
máquina pública em favor de seus aliados e apoiadores. Por isso mesmo, e com especial
vigor nesses tempos de polarização extremada, é preciso alertar para os riscos
da censura e da caça às bruxas.

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