Toda quinta-feira eu entro no Instagram e
estranho: tanto a Beyoncé quanto
o Vitão, meu primo de Jundiaí, parecem mais jovens. Ao contrário das fotos, que
parecem meio velhas. E este Escort XR3 conversível vermelho, tão bem
conservado, despontando detrás da calça semi-bag do Vitão?
Em algum momento entre o vermelho do carro e o amarelo da
foto me dou conta de que é #TBT e tá todo mundo postando imagem antiga —para o
bem do Vitão, que não caminha mais por Jundiaí metido em calças semibag.
Eu gosto de #TBT. Gosto do sorriso fácil que a nostalgia
traz, as lembranças adocicadas pelo filtro caramelo do Instagram
mnemônico. “Olha só como o Thiago era cabeludo!”. “Olha as meninas, que
bronzeadas!”. “Nossa, Réveillon de 1994, 11 em cada quarto, acabou a luz, a
gente tomava Kaiser quente e era feliz!”.
Sei que a nostalgia não goza de boa reputação. Ela é
vista como uma espécie de novela das seis dos sentimentos. Cheia de artifícios
baixos para edulcorar a realidade. No #TBT da memória, uma época conturbada que
vivemos como a “Cavalgada das Valquírias”, do Wagner, hoje soa como “Borbulhas
de Amor”, do Fagner.
Diametralmente opostos à nostalgia estão o divã do analista,
o filme “Festa de Família”, o festival É Tudo Verdade. Longe de mim desdenhar
das profundezas da psicanálise, do cinema nórdico, da busca documental pela
essência dos objetos e dos sujeitos, mas às vezes a gente precisa é cantarolar
“Quem dera ser um peixe/Para em teu límpido aquário mergulhar/Fazer borbulhas
de amor pra te encantar/Passar a noite em claro/Dentro de ti”.
Outro dia, parado no trânsito, me peguei cantarolando umas
memórias de infância. Lembrei que antigamente, quando eu era pequeno, os carros
quebravam. A toda hora. Morriam e “afogavam” no meio da Rebouças. O motorista
saía empurrando com uma mão na janela e outra no volante. Tinha sempre um
cidadão solidário que, dez metros atrás, em outra pista, ligava o pisca-alerta,
puxava o freio de mão e vinha correndo ajudar. Um pipoqueiro se juntava,
empurrando, “Engata a segunda, liga na segunda!”. Ninguém buzinava na
Rebouças da minha memória.
Às vezes, porém, o carro não pegava no tranco. Era preciso
encostá-lo na calçada ou no acostamento. Abria-se o capô e uma confraria de
palpiteiros logo se formava, como na pintura “Lição de anatomia”, do Rembrandt:
todos observando com curiosidade mórbida as entranhas do automóvel. Nunca vi
alguém chegar perto de um diagnóstico durante aquelas anamneses coletivas,
mas todos se irmanavam palpitando sobre “a correia”, “a ventoinha” ou “a pipeta
do carburador”. Um carro quebrado era uma mesa de bar, um bar era uma
instituição e as instituições eram respeitadas. Mentira. #TBT fofo da memória.
O mundo provavelmente era pior do que é hoje e pra piorar os carros
quebravam e tomávamos Kaiser quente.
Kaiser quente? Que que eu tô falando? Era para eu escrever
sobre armas. Nesta segunda-feira o governo baixou o oitavo (!) decreto
facilitando o acesso de projéteis metálicos ao corpo humano, sendo que em
nenhum lugar do mundo, como no Brasil, os projéteis metálicos entram mais
frequentemente
no corpo humano.
no corpo humano.
Curiosamente, esses decretos que, segundo qualquer estudo
sério, farão com que mais corpos humanos sejam atravessados por projéteis
metálicos são tratados pelo governo como “a pauta da segurança”.
Era pra eu escrever sobre armas, mas eu precisava de um
respiro. Tem dias em que lembrar de qualquer motor fundido em 1987 é melhor do
que abrir o capô da nossa timeline. É a correia? A ventoinha? A pipeta do
carburador? O que deu tão errado? “Canta, coração/Que esta alma necessita de
ilusão/Sonha, coração/ Não te enchas de amargura”.
Antonio Prata
Escritor e roteirista, autor de “Nu, de Botas”.

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