Economia fraca se deve em parte a insegurança gerada por
Bolsonaro, diz Maia
RIO – O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia
(DEM-RJ), afirmou ter convicção de que o fraco desempenho da economia
brasileira neste ano se deve, em parte, à insegurança gerada pelo governo do
presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Maia criticou o governo mais de uma
vez durante gravação do podcast “Ao ponto”, do Jornal O Globo, hoje no Rio de
Janeiro.
“Tenho convicção que o crescimento [da economia] projetado
no final do ano passado, de 2,5%, caiu para 1% muito em função dessa
insegurança que o governo gerou nos primeiros seis, sete ou oito meses de
governo”, disse Maia.
Segundo o deputado, parte da equipe do governo, inclusive da
área econômica, “mistura liberdade com libertinagem” e “trabalha sempre com a
tese de tirar o Estado completamente da vida das pessoas”.
“A gente sabe que não é isso. O que a sociedade quer é outro
Estado, um Estado regulador que fiscalize e garanta serviços de qualidade, mas
aí se mistura isso com uma certa libertinagem.”
Ele citou o projeto da liberdade econômica enviado pelo
governo ao Congresso. “Se fosse aprovar tudo que eles queriam, não ia ter mais
fiscalização para nada no Brasil. Nesse extremo também não dá”, disse.
A caminho da planície, Maia reforça pregação reformista
Questionado sobre os atritos entre os membros do PSL, antigo partido de Bolsonaro, Maia disse se tratar de uma briga por poder. “É uma briga pelo tempo de TV e pelo fundo partidário. Uma briga que acontece em todos os partidos, mas, como eles são o partido das redes sociais, é uma briga explícita, bem explícita mesmo. Todo mundo nu e se matando.”
Questionado sobre os atritos entre os membros do PSL, antigo partido de Bolsonaro, Maia disse se tratar de uma briga por poder. “É uma briga pelo tempo de TV e pelo fundo partidário. Uma briga que acontece em todos os partidos, mas, como eles são o partido das redes sociais, é uma briga explícita, bem explícita mesmo. Todo mundo nu e se matando.”
Sem citar nomes, ele disse que novos eleitos chegam a
Brasília com uma expectativa da política sempre muito negativa e equivocada. “A
pessoa vai para lá, acha que ninguém trabalha, que ninguém tem preparo, que
você passa três dias lá à toa e depois vem pra cá na quinta-feira e fica na
praia. Quando chegam lá, veem que não é isso. [A política] é a representação da
sociedade. Tem gente boa, gente ruim, mas um ambiente de muito trabalho”,
afirmou.
Para o deputado, as propostas polêmicas do governo atendem
nichos de opiniões mais radicais. Esses nichos foram a base da vitória de
Bolsonaro nas eleições. Assim, na prática, o presidente “defende o que ele
representa da forma que ele acha correta”. Essa forma, disse, é “trabalhar com
o micro”, respondendo de forma objetiva ao anseio de determinados setores.
Nesse sentido, ele citou caminhoneiros, trabalhadores
rurais, motociclistas e garimpeiros como os alvos de ação do presidente, ao
responder esses anseios. “Quando a gente vai falar de caminhoneiro, vai dizer
que o caminhoneiro precisa de infraestrutura, de um marco [regulatório] de
trabalho correto e que a economia cresça para contratar frete. O presidente
Bolsonaro pensa diferente. O ‘tratar o caminhoneiro’ dele é reduzir o preço do
óleo diesel e aumentar a pontuação da carteira de motorista. Ele vai nos pontos
objetivos e a gente fica no abstrato. E é por isso que ele mantém popularidade
junto a um terço da população.”
De forma análoga, Maia disse que a solução de Bolsonaro para
os agricultores passa por armá-los para evitar invasões e, para motociclistas,
acabar com o seguro DPVAT. “Se acaba o DPVAT e não coloca nada no lugar, quem é
que vai pagar por acidentes contra terceiros, que acontecem todo dia? Mas o
cara que tem a moto olha e acha que é bom. Esse formato dele trabalhar em
termos micro dá resultado. Não sei se a médio e longo prazo, mas no curto
prazo, dá resultado”, analisou.
Reforma administrativa
O presidente da Câmara afirmou ainda ao participar das gravações do podcast que vai entregar uma proposta de reforma administrativa independente da proposta do governo – e disse esperar “tramitação fácil” da reforma tributária em 2020.
O presidente da Câmara afirmou ainda ao participar das gravações do podcast que vai entregar uma proposta de reforma administrativa independente da proposta do governo – e disse esperar “tramitação fácil” da reforma tributária em 2020.
“Independente da proposta do governo, a gente vai ter a
nossa, para enxugar isso [carreiras do funcionalismo], construir novas
carreiras com o salário inicial mais baixo para chegar ao teto ao longo de 20
ou 25 anos. Porque não dá mais para isso acontecer da noite para o dia como é
hoje nos três poderes”.
Segundo Maia, uma consultoria contratada, a Falcone,
entregará, na semana que vem, relatório com a análise das carreiras do poder
Legislativo.
Maia disse que só não entregou a proposta ainda porque está
discutindo a legalidade de legislar sobre a estrutura do Executivo e
Judiciário. “Tenho conversado com a ministra Cármen Lúcia [do Supremo Tribunal
Federal] porque tem uma dúvida constitucional, no caso de tratar da carreira de
outro poder, se posso usar uma emenda constitucional de parlamentar. Uma parte
dos ministros diz que não posso e a outra [parte], até por casos já julgados,
diz que posso. Independente do governo eu acho que a gente pode avançar nesse
tema”, disse.
Ele ponderou, no entanto, que o melhor seria harmonizar a
reforma entre os três poderes, que apoiariam as mudanças conjuntamente. Nesse
sentido, convocou o governo a encaminhar seu pacote e o Judiciário a “vir
junto”.
“A reforma administrativa reduz a desigualdade porque, hoje,
os recursos estão concentrados na atividade meio e não há recursos para
investimento. Em 1993, o Brasil tinha uma capacidade de investimento de 30% do
orçamento. Nossa capacidade de investir hoje é de 2% [do orçamento], mas, na
verdade, é negativa porque você tem déficit”, afirmou.
Na visão do deputado, fala-se muito na possibilidade de
protestos de rua, como os que têm acontecido no Chile. Para ele, o meio de
evitar que o Brasil caminhe para isso é, justamente, reorganizando o orçamento
para reduzir desigualdades. Para tanto, disse, um primeiro passo já foi dado
com a reforma da Previdência – e seguirá, agora, com a reforma administrativa.
“Na Câmara existem 4 mil funções, até para colocar o broche tem uma pessoa”,
reclamou.
Ao falar sobre reformas, o deputado afirmou ainda que a
tributária tem um “apelo muito forte” dentro da Câmara como uma proposta da
Casa. “A origem é nossa, o trabalho foi feito junto com os quadros técnicos na
área tributária e acho que ela vai caminhar com muita facilidade. Esse é o meu
sentimento”, disse.

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