A agenda oficial não tinha nenhum compromisso
extraordinário. Não apareceu nem mesmo um corte de cabelo emergencial, como o
que impediu seu encontro com o chanceler da França, em julho.
Jair Bolsonaro passou boa parte da manhã e o início da tarde
desta terça (10) em reuniões corriqueiras, mas não foi à posse do novo governo
argentino, que acontecia naquele horário. Mandou apenas o vice Hamilton Mourão
e protagonizou mais um episódio de pirraça presidencial.
O episódio mostra que Bolsonaro não consegue resistir à
tentação de uma implicância ideológica, mesmo que isso possa causar prejuízos
ao país. Quando Alberto Fernández e Cristina Kirchner já eram mais do que
favoritos na eleição do país vizinho, o brasileiro fez questão de dizer que
torcia contra a vitória da dupla.
Num evento no Rio Grande do Sul, em agosto, ele disse ao
público que, se “essa esquerdalha” voltasse ao poder na Argentina, haveria o
nascimento de uma nova Venezuela, com pobreza e migração em massa.
O presidente criou constrangimento com o principal parceiro
do Brasil na região só para satisfazer sua cruzada política. O objetivo era
evidente: manter vivos os fantasmas do retorno da esquerda e mobilizar sua
própria base eleitoral, às custas das relações diplomáticas do país.
A autossabotagem continuou mesmo depois da eleição da chapa
kirchnerista. O fato já estava consumado, mas Bolsonaro disse publicamente que
lamentava o resultado e que os vizinhos haviam escolhido mal. Depois, afirmou
que não queria se indispor com o novo governo, mas que não cumprimentaria o
eleito.
Para completar, o presidente avisou que não iria à posse e
escalou para a função o ministro da Cidadania. Depois, mudou de ideia e disse
que não mandaria ninguém. Só no fim, foi convencido a enviar Mourão.
Bolsonaro demorou a sorrir amarelo e adotar o pragmatismo
necessário em situações como essa. O comportamento errático deve inaugurar uma
relação de desconfiança com o novo governo vizinho.

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