Ao contrário dos números de pesquisas exploratórias e
comentários de alguns analistas políticos – todos eles, respeitáveis – não me
parece que as eleições de 2022 estejam caminhando a passos largos para uma
polarização entre Bolsonaro e um candidato do campo petista.
É muito cedo para se tirar conclusões que afirmem essa
direção, as forças políticas ainda estão começando a se movimentar com mais
nitidez, a avaliação de um ano de governo Bolsonaro não é boa quando comparada
com presidentes da República anteriores e o PT, mesmo com Lula fora da prisão,
não dá nenhuma demonstração maior de recuperação de seu fôlego eleitoral.
A polarização da política no Brasil em sua história recente,
por mais paradoxal que seja, foi quebrada exatamente pela eleição de Bolsonaro.
O modelo de disputa frontal iniciado em 1994, com PSDB e PT brandindo suas
espadas ideológicas tortas, -não dá mais mostra que possa ser retomado,
felizmente. Com a tragédia bolsonariana legitimada pelas urnas os espaços
políticos se abriram e, se houver competência, poderão ser preenchidos por
propostas vitoriosas mais consentâneas com a nossa história democrática e a
nossa realidade.
Se voltarmos às eleições de 2018, os números indicam que
naquela ocasião a polarização não ocorreu, no primeiro turno. Se Bolsonaro saiu
com 46% dos votos e Haddad com 29%, houve um volume de 25% dos votos que
ficaram divididos em outras alternativas, como a representada por Ciro Gomes.
Como sabemos que a opção por Bolsonaro deu-se muito em função do antipetismo,
podemos concluir que há uma grande massa de votos que pode fugir ao esquema
pobre da polarização.
Do lado do PT, o partido não ousou, prendeu-se à estratégia
de sobrevivência particular do Lula Livre, virando as costas à construção de
novas alianças progressistas no país e empurrando possíveis aliados para a
linha de fundo. Dificilmente terá energia para superar patamares históricos
conquistados, principalmente junto à classe média e aos eleitores do
centro-sul.
A situação de Bolsonaro também não é das melhores. Se toma
algumas decisões para manter mobilizados algumas de suas bases – polícia,
produtores rurais, extrema direita e propagadores de ideias medíocres -, no
outro polo vão se acumulando insatisfações fortes junto ao mundo da cultura,
aos negros, mulheres, etnias, pequenos empresários, estudantes e aos segmentos
globalizados, empresariais ou não.
Ao mesmo tempo, a sua aposta tupiniquim em ser homem de
Trump e fiel seguidor da sua política, demonstra ser absolutamente equivocada,
pois o nacionalismo e reacionarismo do líder americano não comportam amigos nem
aliados e isso deixa o governo brasileiro sem protagonismo internacional. Não
se torna amigo de um presidente internacionalmente forte apenas pondo um boné
com o nome dele na cabeça.
Com a sua desastrada política ambiental e ações equivocadas
em política internacional, a economia tende a não deslanchar de forma efetiva e
esse fato logo trará reflexos internos junto aos eleitores. A sanha privatista
de Guedes, com a diabolização do Estado, embora possa acertar em alguns
aspectos, não é porto seguro para os empresários e para o mercado.
Bolsonaro, ao dar amparo às teses ideológicas de ultra
direita e anunciar um partido para ampará-las, distancia-se do grande campo
democrático brasileiro. Muitos dos votos que lhe foram dados poderão migrar
para outras alternativas que não seja o PT.
É um equívoco clamar por um centro estéril em detrimento das
opções hoje colocadas, à extrema direita e à extrema esquerda. Há, sim, um
enorme espaço para ser ocupado por uma proposta que saiba tirar do liberalismo
a sua força para produzir riquezas com um poder público capaz de atuar numa
perspectiva democrática, com políticas públicas de inclusão e da promoção da
justiça social. Que mire o combate à corrupção como política permanente e que
remova entulhos legais e eleitorais, permitindo que lideranças novas em idade e
pensamento possam ter espaço para se apresentar à sociedade, e serem
vitoriosas.
Os partidos, tal como eram concebidos, perderam a sua
energia vital. Só terão protagonismo se abrirem e respeitarem os movimentos
sociais, na verdade fábricas de realidades e sonhos.
Das bandas de Bolsonaro e do PT não há nada de novo e ambos
mantém o Brasil fora da contemporaneidade ficando ainda como se permanentes
fossem as contradições da sociedade industrial do século XX , sendo que o
primeiro remete o Brasil ao século XIX e o PT à sociedade industrial do século
XX. O Brasil pede uma solução para o século XXI da inteligência artificial – e
ela virá.
*Roberto Freire é presidente do Cidadania e ex-deputado
federal

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