Divulgados em semanas diferentes, os dados do PISA e do IDH,
elaborados pela OCDE e pela ONU, conversam entre si e nos informam o quanto o
Brasil precisa se apressar na agenda social. Os números permitem um olhar pelo
espelho retrovisor porque são dados de administrações passadas. O problema é
saber que no presente o governo está totalmente alheio ao que é essencial na
luta por uma educação de qualidade e pela defesa dos direitos humanos.
O presidente Jair Bolsonaro está bravo porque diz que perdeu
a “alma” do projeto de flexibilizar leis de trânsito. Nele, havia originalmente
mais chance de os motoristas cometerem infrações sem perder a carteira. Foi derrotada,
no Congresso, também a sua proposta de desobrigar o uso de cadeirinhas para a
proteção de criança pequena.
Os reais problemas do país são bem outros. A desigualdade
faz com que o Brasil despenque no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Não é
problema de agora, vem de muito tempo. O cientista político Átila Roque, da
Fundação Ford, diz que o país tem um poder enorme de reinventar de maneira
diferente a fórmula para continuar sendo sempre muito desigual:
— A permanência da desigualdade ao longo dos séculos, mesmo
no período da democracia, é muito reveladora de uma certa vocação da sociedade
brasileira para a desigualdade. Ela é muito complexa e só se realiza porque tem
uma série de políticas e forças trabalhando para a sua manutenção.
Átila Roque alerta que não é apenas um problema de renda,
mas sim de distribuição desigual dos direitos e de persistência do racismo, que
ele define como “uma escola de desigualdade”, onde o brasileiro aprende a
tratar as pessoas de forma diferente:
— Alguns dados são chocantes, como o de que 78% das vítimas
de homicídios são negros, ou pretas e pardas como diz o IBGE. E entre os
jovens, esse percentual chega a quase 90%. O que estamos produzindo como país?
A população está envelhecendo e nós estamos matando os jovens, nosso capital
humano.
Priscila Cruz, presidente do Todos pela Educação, acha que
há correlação direta entre educação, cujo retrato do nosso fraco desempenho
saiu no Pisa, e todas as questões que são avaliadas no IDH, no qual o Brasil
caiu uma posição na medição de 2018, divulgado dias atrás.
— Educação, renda, saúde, violência, os fatores todos se
relacionam de uma forma muito forte. A gente estagnou no resultado do Pisa
quando começou a ter queda da renda das famílias, aumento da desigualdade, da
violência e do estresse tóxico da criança a caminho da escola com medo de
tiroteio — diz Priscila.
Se os dados do passado são desanimadores, as perspectivas do
futuro imediato não dão esperança. Priscila Cruz lembra que o MEC sempre teve
um protagonismo grande na definição das políticas educacionais dos outros
níveis da federação. No atual governo, o MEC teve uma perda brutal de
liderança, a tal ponto que deixou de fazer parte do debate nacional sobre
educação:
— E o MEC perdeu porque o propósito dele, hoje, e essa é a
pior notícia, não é de melhorar as políticas, mas servir de plataforma para
reverberar ideias muitas delas preconceituosas que não vão levar o Brasil a
melhorar o resultado no Pisa.
Átila Roque acha que não é por acaso que estão surgindo
tantos casos de racismo:
— Está havendo uma autorização mais explícita, de quem tem
poder de influência sobre a opinião pública, para liberar os instintos mais
primitivos. Estamos vendo isso em relação à população negra, mas também em
relação à população LGBTI, e também em relação às mulheres. Quando se abre a
caixa de Pandora você libera e valoriza a violência.
Há muito a fazer em todas as áreas. Na educação, por
exemplo, falta uma política de valorização do professor, lembra Priscila. No
ano que vem, será preciso definir o novo Fundeb, o mais rapidamente possível,
porque ele tem que estar no Orçamento. O atual Fundeb acaba em primeiro de
janeiro de 2021. Ele é parte fundamental do financiamento da educação
brasileira. Será um caos não ter o Fundeb.
Neste ano o governo desperdiçou a maior parte do tempo com
miudezas sem sentido, ou com passos largos na direção errada.
Problemas reais não são com quantos pontos se perde a
carteira de motorista e sim com quantos erros se perde o futuro do país.

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