A Covid-19 é chamada de uma doença zoonótica porque, assim
como outras, ela tem sua origem em vírus de animais não humanos, até então
desconhecidos, que passam para nós, humanos. Uma das razões pelas quais elas
são tão devastadoras é justamente a nossa ignorância sobre elas: nós não temos
vacinas, não temos tratamentos para estas doenças. Existem muitos exemplos de
doenças que têm sua origem na vida selvagem das florestas, como zika,
chicungunha, dengue, ebola e o HIV. Todos estes vírus estavam inicialmente
contidos em ambientes florestais num ciclo zoonótico muito limitado. Eles
viveram ali, sem serem notados, ao longo de milhões anos, sem causar qualquer
mal aos seus hospedeiros. Até que, de repente, passam para a espécie humana.
Esse processo não é novo. Começou há milhares de anos quando
a humanidade resolveu derrubar florestas para fazer campos agrícolas e a
domesticar animais selvagens para seu consumo: das vacas recebemos o sarampo e
a tuberculose; dos porcos, a coqueluche; dos patos, a gripe. Mais recentemente,
durante a expansão europeia sobre o planeta, a construção de cidades e vias
férreas pelos colonos belgas no Congo possibilitou a passagem de um vírus dos
macacos para os humanos, o que deu origem ao HIV. Em Bangladesh, a destruição
de uma imensa zona úmida pelos britânicos para o cultivo de arroz nos brindou
com a cólera. Já no final dos anos 1990, na Indonésia, as queimadas forçaram
uma população de morcegos frugívoros a voar para outros locais em busca de
alimento, levando consigo o vírus Nipah e uma doença mortal.
As doenças infecciosas foram a principal causa de
mortalidade até o início do século mas, com o aparecimento dos antibióticos,
das vacinas e do saneamento, elas diminuíram seu grau de letalidade. Mas, a
partir de 1980, essas doenças voltaram a preocupar. Segundo pesquisa
apresentada no Fórum Econômico Mundial, em Davos, 31% dos 12.012 surtos
epidêmicos entre 1980 a 2013 estão ligados a ambientes que foram degradados. E
aqui chegamos ao Brasil e à Amazônia. Não é improvável que a próxima pandemia
surja na Amazônia, afirmam cientistas. Nela encontramos a maior concentração de
biodiversidade do planeta, com milhões de vírus e bactérias que viveram, até
agora, em harmonia com seus hospedeiros naturais. Mas, como vimos, a degradação
ambiental está diretamente ligada ao surto dessas epidemias, pois a
fragmentação das florestas une pessoas e espécies animais que normalmente não
estariam interagindo.
A malária é um exemplo bem conhecido do que a destruição da
floresta por aqui é capaz. Apesar dos esforços para controlar a doença terem
reduzido de 6 milhões de casos por ano na década de 1940 para apenas 50 mil na
década de 1960, o desmatamento da Amazônia a partir de 1970 elevou para mais de
600 mil casos por ano na virada do século. A retirada de partes da mata para
construção de estradas, garimpo, pastos e grilagem de terras cria um habitat
ideal nas bordas da floresta para a proliferação do Anopheles darlingi — o mais
importante transmissor de malária na Amazônia. Diante da crescente degradação do
bioma amazônico, devemos nos perguntar que futuro queremos para nós?
Na Amazônia, o ano de 2019 — com a fiscalização do Ibama
sendo desautorizada pelo governo federal e a edição da Medida Provisória 910,
em tramitação na Câmara, que estimula e premia a invasão e o desmatamento de
terras públicas — teve o maior
índice de desmatamento e queimadas dos últimos sete anos.
Agora em 2020, mesmo antes da temporada seca, o desmatamento já é o dobro do
ano passado para o mesmo período. Algo inadmissível. É hora do Brasil e dos
brasileiros tomarem uma posição firme e definitiva contra o desmatamento. Não
podemos continuar virando as costas para esse problema que coloca em risco a
nossa vida, a dos nossos filhos e netos.
A perda da Floresta Amazônica comprometerá nossa identidade,
nossa biodiversidade, nossa economia, nosso abastecimento de água, nossa
agricultura, nossa cultura e, não menos importante, nossa saúde.
Estevão Ciavatta é autor e diretor de cinema

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