Enquanto a inflação corrói o orçamento das famílias, Lula
quer incentivar o consumo
A escalada inflacionária está comprometendo quase 80% do
orçamento das famílias das classes D e E com o custeio de itens essenciais. O
levantamento feito pela consultoria Tendências e publicado
pelo Estadão confirma a máxima de que a inflação recai de forma mais
intensa sobre os mais pobres, corroendo drasticamente o poder de compra e
elevando a insegurança financeira.
A consultoria utilizou o padrão de renda abaixo de R$ 3,4
mil mensais para identificar as famílias das classes D e E, para as quais as
despesas básicas consomem 79,4% do orçamento; a classe C, com renda entre R$
3,4 mil e R$ 8,1 mil, compromete 71,7% do orçamento; a classe B, entre R$ 8,1
mil e R$ 25,2 mil, 61,6%; e a classe A, acima de R$ 25,2 mil, 48,5%. Na média,
o comprometimento da renda familiar brasileira com gastos básicos foi de 58,1%
em dezembro de 2024.
Como itens essenciais, além da alimentação no domicílio,
foram incluídas despesas com transporte, educação, saúde e cuidados pessoais.
Essa lista de preços teve alta de 5,8% no fim de 2024, enquanto o IPCA
acumulado no ano foi de 4,83%. Mais um sintoma de que a inflação está atingindo
o consumo na veia, nos produtos e serviços dos quais o consumidor não pode
abrir mão.
Não à toa o custo de vida é uma das principais causas da
perda de popularidade do governo Lula da Silva. O comportamento dos preços no
ano passado mostrou o deslocamento da inflação dos alimentos (alta de 7,69%) em
relação ao IPCA geral, de acordo com o IBGE. Nas gôndolas dos supermercados a
população sente com maior vigor a carestia, que é tanto maior quanto mais
trivial a lista de compras. Basta conferir a alta de dois dígitos da cesta
básica em 2024, calculada pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras):
14,22%.
Diante desse cenário, soa como fantasia a promessa de Lula,
na campanha de 2022, de que sua vitória faria o povo comer picanha e tomar
cerveja de novo. A bravata já não serve nem como licença poética, já que todos
os cortes de carne, e não apenas a picanha, ficaram mais caros – a cerveja
também encareceu, em torno de 4,5%, em 2024. Recente pesquisa divulgada pela
Quaest mostrou que 8 em cada 10 brasileiros sentem a alta no preço dos
alimentos.
O Índice de Confiança do Consumidor, calculado pelo
FGV-Ibre, também tem captado o pessimismo generalizado. Em janeiro, a queda de
5,1 pontos puxou o índice ao menor patamar desde fevereiro do ano passado, mas
são as médias móveis trimestrais que mostram a persistência do sentimento
negativo, com recuo de 2,2 pontos, resultado não apenas da deterioração da
situação atual, mas também das perspectivas futuras.
Enquanto as famílias brasileiras tentam fazer caber no
orçamento os gastos do dia a dia, Lula da Silva acena com mais incentivo ao
crédito, num discurso politiqueiro de que “dinheiro bom é na mão do povo”.
Parece desconhecer que o povo tenta se livrar de um endividamento que, em
novembro do ano passado, atingiu 77% das famílias, de acordo com a Confederação
Nacional do Comércio (CNC). Faria melhor se colaborasse no controle da inflação
ao invés de jogar mais crédito na fogueira da inflação.

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