Corte de juro do BC vira ninharia diante do arrocho da
guerra de Trump
Copom diminui Selic de 15% para 14,75%, mas problema
agora está em outra parte
Guerra e petróleo, além de risco político, ameaçam ano
que até começara mais animado
O Banco Central baixou
a Selic de
15% ao ano para 14,75% nesta quarta (18), como esperado. No texto em
que comunicou a decisão, o BC não escreveu novidade notável. Todo mundo sabe da
incerteza da guerra. O resto do diagnóstico é o lido em comunicados anteriores:
expectativa de inflação alta,
desaceleração lenta, mercado de trabalho quente, risco fiscal etc.
Corte de 0,25 já é nada. No meio do tumulto de guerra, menos
do que nada. O problema está noutra parte, ora em Hormuz, amanhã na política. O
arrocho financeiro aumenta, não importa o que faça o BC.
As pessoas que se ocupam dessas coisas,
política monetária, ainda quererão saber o que o BC dirá na exposição de
motivos da decisão de cortar 0,25, que vai publicar na semana que vem
("Ata do Copom").
A não ser que o pessoal venha a afirmar enormidades, o que não é atitude de BC,
meio tanto faz o que vai dizer a ata.
Um disparate qualquer de Donald Trump,
cada vez mais um perverso incongruente e loucamente balbuciante, um míssil de
Israel ou um drone do Irã que acerte uma refinaria do Golfo vão ter mais
importância do que o fraseado monetário.
Apesar do tamanho da encrenca, o BC cortou. Se cortou agora,
em qual contexto deixaria de cortar de novo na próxima reunião, em 29 de abril?
Vai ter como aumentar o ritmo de cortes nas demais reuniões? Em 17 de junho e 5
de agosto? Na reunião seguinte, 16 de setembro, a duas semanas do primeiro
turno da eleição, faria pausa por cautela maior com a incerteza política?
Para resumir, a "janela de cortes" ficou mais
estreita: ficou mais difícil cortar em ritmo rápido o bastante para levar a
Selic a 12% no final do ano, como se esperava em fevereiro. No Brasil, jamais
dá para ter atitude relaxada com choque de oferta, ainda mais com
"expectativas desancoradas" de inflação, eleição com diferença
pequena e dívida pública de tamanho enorme.
No atacadão do mercado de dinheiro, as taxas de juros para
quase todos os prazos ainda estão desembestadas. É nesse mercado que se
negociam as taxas que definem, por exemplo, o custo que o governo paga para
financiar seus déficits e rolar sua dívida (e, assim, são como um piso para o
custo do dinheiro na economia inteira).
Depois do pânico de sexta (13), o
Tesouro Nacional comprou títulos no valor de R$ 49 bilhões, de segunda (16)
até esta quarta. Interveio a fim de estabilizar preços, de evitar acidentes e
reorganizar o mercado, disfuncional por causa da reviravolta nas taxas de juros
(se esperavam baixas, houve altas por causa da guerra, muita gente perdeu dinheiro
etc.).
Mas quem disse que se tratou apenas rebuliço da reviravolta?
O custo do dinheiro vai ficar salgado por um tempo, tanto mais quanto mais
durar a guerra e suas destruições no setor de energia, mas não só por isso.
"No cenário atual, caracterizado por forte aumento da
incerteza, o Comitê [direção do BC] reafirma serenidade e cautela na condução
da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração
da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a
clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio...",
se lê no comunicado.
Em resumo, o BC depende de Trump e cia. Além de guerra e o
risco de impacto econômico maior, vem um resto de ano político que será
empesteado pela nojeira do Master, pela roubança do INSS e pela corrupção com
emendas, o que torna mais incerta uma eleição já apertada.

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