Decisões que antes pertenciam ao espaço da política e da
deliberação pública são substituídas por mecanismos opacos de modulação
algorítmica
Sistemas algorítmicos exercem cada vez mais influência em
decisões judiciais, políticas públicas, campanhas eleitorais, rotinas
administrativas e no próprio funcionamento da esfera pública em geral. Mas não
parecem alterar o contraste entre os pavores e os entusiasmos relativos à
inteligência artificial (IA).
Segundo alguns conceituados analistas, sistemas de IA tendem
a destruir instituições cívicas capitais. Corroer a expertise, prejudicar
decisões e isolar as pessoas umas das outras. Contra os desejáveis níveis de
transparência, cooperação e responsabilidade, há quem garanta que a IA é um
“câncer”.
Numa economia baseada em intensa extração
de dados comportamentais, a IA não apenas organiza informações, mas antecipa,
direciona e molda condutas humanas. Decisões que antes pertenciam ao espaço da
política e da deliberação pública são substituídas por mecanismos opacos de
modulação algorítmica, concentrados nas mãos de gigantescas plataformas
privadas.
Além disto, é uma infraestrutura pesada, dependente de
recursos naturais, trabalho humano precarizado e escolhas políticas. Na qual os
algoritmos reproduzem e ampliam desigualdades — raciais, socioeconômicas e
geopolíticas —, além de introduzir novas assimetrias de poder.
No extremo oposto, não falta quem veja na IA uma
oportunidade decisiva de fortalecimento institucional. Enfatizando que ela
aumentará substancialmente a capacidade produtiva e administrativa de Estados e
organizações.
Para eles, o problema não estaria na tecnologia em si, mas
na forma como seus ganhos são distribuídos. Instituições bem desenhadas
poderiam usar sistemas inteligentes para melhorar políticas públicas, ampliar o
acesso a serviços e liberar servidores humanos de tarefas repetitivas.
Mas também há quem prefira rejeitar a alternativa. Pois a IA
seria uma tecnologia “plástica”, com efeitos que dependem dos incentivos
econômicos, das regras institucionais e do grau de controle democrático. Sem
regulação, tende a concentrar poder e renda, mas, com adequada gestão, pode
favorecer participação, transparência e inovação institucional.
A ideia-chave desta espécie de “caminho do meio” é que os
impactos da IA não estarão predeterminados por linhas de código. Mas, sim,
pelas decisões coletivas que definirem quem controla os sistemas, com quais
objetivos e sob quais mecanismos de responsabilização.
Não é outra a postura que mais pode estimular o pragmatismo:
botar tamanha controvérsia em banho-maria de fogo baixíssimo, para melhor
investigar as dinâmicas evolutivas de empresas que já façam uso dos sistemas
algorítmicos.
Foi o que fez um time de 14 profissionais dedicados a este
tipo de prática, cujas principais conclusões podem ser sintetizadas em meia
dúzia de afirmações.
Isolada, a IA tende a gerar ganhos pontuais de eficiência.
Mas, se incorporada a uma boa estratégia, pode redefinir o papel das empresas
na economia e na sociedade. Ela só funciona bem se integrada a uma visão mais
ampla de sustentabilidade, propósito e regeneração.
O comportamento empresarial contemporâneo precisa superar a
lógica extrativista. Em um contexto de crise climática, desigualdade social e
instabilidade econômica, modelos regenerativos — capazes de restaurar recursos
naturais, fortalecer comunidades e criar valor de longo prazo — deixam de ser
periféricos e passam a ser centrais.
Nesta perspectiva, a IA funciona como catalisadora: ao
ampliar a capacidade analítica e preditiva das organizações, permite decisões
mais informadas, responsáveis e voltadas a objetivos socioambientais.
Muitas empresas aplicam soluções de IA dissociadas da
cultura organizacional, da governança e da diversidade, o que limita os seus
melhores efeitos. Não terão êxito sem integração entre tecnologia, pessoas e
valores, além de lideranças capazes de traduzir dados em boas decisões
econômica e sociais.
No fundo, a IA tende a dar um novo sentido ao termo
“estratégia”. Em vez de planos rígidos e lineares, as organizações precisam
operar com aprendizagem contínua, adaptação e visão de longo prazo. E há
empresas de diferentes setores usando inteligência artificial para inovar,
reduzir riscos e reposicionar os seus negócios em direção a uma economia mais
sustentável.
Em suma, não se trata apenas de usar inteligência
artificial, mas de convertê-la em “inteligência estratégica”, colocando a
tecnologia a serviço de um modelo de desenvolvimento menos vulnerável,
versátil, ético e regenerativo.
São justificativas bem circunstanciadas destes seis
entendimentos que constituem a riqueza reflexiva do livro “Inteligência
Estratégica — Como IA e Regeneração Transformam os Negócios” (Exame/Saint
Paul).
Quase todo o conteúdo é de produção coletiva, apresentado em
capítulos em coautoria com a organizadora Regina Magalhães. Consultora em
inovação e sustentabilidade, Regina é doutora em ciência ambiental
(Procam-USP), teve formações executivas no MIT e Stanford e ocupou posições de
liderança na Microsoft, Johnson Controls, Schneider Electric e IFC.
*José Eli da Veiga é professor sênior do Instituto
de Estudos Avançados da USP.

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