Paulo Hartung, O Estado de S. Paulo
Relevante é um olhar à estratégia em que se conjuguem o
desejar e o agir, posto que um sem outro pode redundar em mera perda de tempo
Um mestre do planejamento no Brasil acaba de lançar um livro
de referência sobre o tema. Em A Prática da Estratégia, Claudio Porto reúne
conceitos fundamentais, dicas e um passo a passo para implementação de
iniciativas e estudos de caso – nacionais e internacionais –, a partir de sua
experiência de mais de meio século como estudioso e consultor nessa área. Na
apresentação, o autor assinala que “o livro foi escrito para pessoas que
protagonizam a construção do futuro de algo de interesse comum”. Esses “agentes
podem se organizar como entes privados, públicos ou híbridos, formais ou
informais”, tendo um “futuro desejado em comum e não efêmero”. Nesse contexto,
a estratégia “é o produto ou o instrumento dos agentes para orientar e fazer a
construção do futuro que eles desejam”.
Já de começo, ao conjugar numa mesma frase
verbos aparentemente tão distintos como construir e desejar – um, afeito à ação
racional e o outro, vocação para a inspiração, a criatividade e a inventividade
–, bem se percebe a sabedoria em forma de texto, amalgamando razão e
sensibilidade. Como um convite à leitura, compartilho mais alguns trechos que
ilustram a clareza e o saber que só os mestres podem alcançar. Acerca do
conceito de estratégia que, nestes tempos de especialistas da internet, se
multiplica tão grosseiramente quanto velozmente, Claudio Porto ensina com
lucidez e perspicácia.
“Estratégia é uma tríade que articula antecipação, escolha e
ação por parte de um agente intencional, inserido em um contexto mutante, para
um horizonte de longo prazo e sempre sob condições de incerteza. Essa tríade,
quando integrada por um esforço de gestão deliberado e conduzido por uma
liderança inspiradora, focada e agregadora, tem maiores chances de produzir e
entregar, por parte do agente, um desempenho superior e sustentável no longo
prazo.” E ainda: “Estratégia é um instrumento humano, empregada por agentes
intencionais – empresas, governos, organizações sem fins lucrativos, líderes,
comunidade, partidos políticos e/ou grupos de pessoas – para influenciar a
construção do futuro desejado em um determinado campo de interesse. Toda
estratégia envolve um conjunto de agentes e seus contextos (ou ambientes),
externo e interno, e deve ser constituída por dois ingredientes essenciais:
visão de futuro e intencionalidade.”
Tenho a honra de participar do livro, generosidade que
agradeço ao admirável Claudio Porto, em dois momentos. No capítulo sobre
“Escolha”, o autor relata o caso “Espírito Santo: da submissão ao crime
organizado a estado mais pujante do Sudeste”. Aqui, Porto conta a virada
histórica que, a partir das eleições de 2002, com intensa mobilização da
sociedade civil, pudemos liderar no sentido de livrar as terras capixabas dos
grilhões da criminalidade que sombreava os poderes e ainda criar um ambiente de
estabilidade político-institucional que fomentou um novo tempo de
desenvolvimento socioeconômico na trajetória capixaba.
Também participamos no capítulo sobre “Gestão”, fator
crucial no planejamento: “Sincronizar e coordenar a antecipação, a escolha e a
ação – na substância e na alocação de responsabilidades (sempre especificando
quem faz o quê) – em tempo hábil (determinando claramente os prazos),
dedicar-se à execução da trajetória originalmente planejada, ajustá-la quando
necessário e, necessariamente, manter o rumo é o que possibilitará entregar os
resultados almejados”.
No caso narrado – “Paulo Hartung: Gestão de sinais e
pragmatismo” –, Claudio Porto fala do nosso primeiro encontro, no início do
primeiro dos meus três mandatos à frente do Executivo estadual (2003-2010 e
20152018). E considera o que se seguiu: “Uma história de sucesso construída com
muito trabalho, entusiasmo, energia, foco e método”, e que “ganhou impulso e
visão de futuro de longo prazo com a elaboração do Plano de Desenvolvimento
Espírito Santo 2025”. Mas, com seu olhar estratégico, Porto alerta: “Nos últimos
tempos, porém, o ímpeto do Espírito Santo arrefeceu. (...) O ímpeto e a agenda
predominante estão presos ao século 20. Creio que um novo impulso no Espírito
Santo só deverá ocorrer com uma mudança de geração e do mindset de suas
lideranças. A conferir”.
A Prática da Estratégia já nasce verdadeiramente com um
clássico – na definição de Italo Calvino –, aquele livro “que persiste como
rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível”. Incompatível aqui é
a temporalidade do instantaneísmo e que, por isso mesmo, refuta o futuro como
horizonte passível de formulação e conquista.
Como o futuro é uma dimensão concreta da existência e que
resiste às decretações de seu fim, diante do imperativo inclemente do agora, o
planejamento estratégico mantém-se como “ruído” mais que relevante, inclusive
pelo desprezo e irresponsabilidade com que esta nossa sociabilidade prisioneira
do instante o trata.
Especialmente relevante é um olhar sobre a estratégia em que
se conjuguem o desejar e o agir, posto que um sem outro pode redundar em mera
perda de tempo e tudo o mais de prejuízo que tal desperdício enseja. Em tempos
de liquidez desnorteante e inconsequência política atordoante, Claudio Porto
ensina com maestria o caminho para se vislumbrar, projetar e conquistar
horizontes desejados.

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