A guerra não obedeceu a nenhuma das previsões feitas pelo
Sr. Trump nesse jogo de faz-e-desfaz, e ele teve de desmentir-se, aplicar sua
técnica de negociação TACO — Trump Always Chicken Out, isto é, sempre se
acovarda e desiste — e lutar desesperadamente por um acordo de paz
O presidente dos Estados Unidos tem estarrecido o mundo com
suas exóticas colocações, que, no mínimo e no máximo, representam um jogo de
faz-e-esconde, o que tem mantido as nações em suspense sem saber por onde ele
quer ir e para onde vai. Parece os versos do grande poeta português José Régio:
"Se ao que busco saber nenhum de vós responde, / Por que me repetis: 'vem
por aqui'? / Prefiro escorregar nos becos lamacentos, / Redemoinhar aos ventos,
/ Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, / A ir por aí… […] Ninguém me
diga: 'Vem por aqui'! / A minha vida é um vendaval que se soltou. / É uma onda
que se alevantou. / É um átomo a mais que se animou… / Não sei por onde vou, /
Não sei para onde vou / — Sei que não vou por aí!"
Esse é o caso de todos no mundo inteiro:
não sabemos por onde vamos, não sabemos para onde vamos, mas sabemos que não
vamos atrás do Trump.
A última dele foi a de que iria destruir uma civilização,
isto é, a milenar civilização persa, como se isso fosse possível. Em seguida,
afirmou que o Irã seria consumido pelo fogo, numa tragédia igual àquela de
Sodoma e Gomorra. Mas no dia seguinte, já na quarta-feira, pensando melhor,
Trump voltou atrás e, numa boa volta, resolveu parar com essa coisa
escatológica de fim do mundo e negociou uma trégua em troca da abertura do
Estreito de Hormuz.
Essa guerra com o Irã sempre foi difícil de ser entendida ou
de se aceitar a razão, a sem-razão, de sua fúria, nem as alegadas
justificativas. O fato que é difícil de explicar é, depois de destruída —
obliterada — a capacidade iraniana de enriquecimento do urânio, como esse país
produziria uma bomba atômica que pudesse ameaçar Estados Unidos e/ou Israel.
Israel e Irã sempre pregaram a mútua destruição, mas os ataques sempre partiram
de Israel.
O que ficou evidente é que, enquanto os Estados Unidos
negociavam um acordo com o Irã, os israelenses descobriram onde as lideranças
iranianas iriam se reunir para discutir os termos desse acordo e,
imediatamente, Netanyahu convenceu Donald Trump de que deviam aproveitar essa
reunião para eliminar todas as lideranças iranianas. Com o assassinato desses
líderes, cairiam o governo iraniano e o regime teocrático, assegurando uma
vitória total com menor custo do que o de uma guerra. Daí a afirmação inicial de
Trump de que em quatro dias a guerra estaria acabada.
Isso bastou para convencer Trump a entrar em uma guerra sem
uma análise mais aprofundada de que, com o componente religioso e dogmático que
leva ao fanatismo do povo, liquidados os seus líderes, outros apareceriam
imediatamente em substituição àqueles, sem solução de continuidade. Talvez os
estudos tenham sido feitos, mas se sabe que Trump não lê nem ouve nada que não
esteja na televisão — e, por isso, logo demitiu o chefe da Inteligência
americana que disse ter avisado que o Irã não era uma ameaça. Não previu as
consequências que adviriam ao comércio mundial com o comprometimento das
exportações do Golfo Pérsico, nem tomou providências para proteger as bases
americanas na região. Ignorou que pelo Estreito de Hormuz transitavam 20% de
todo o consumo mundial de petróleo.
O fracasso dessa ausência de qualquer plano estratégico
imediatamente aflorou, e o resultado é que a economia mundial entrou em crise,
com impactos considerados mais graves que os da crise de 1972, quando houve o
famoso choque do petróleo. A guerra não obedeceu a nenhuma das previsões feitas
pelo Sr. Trump nesse jogo de faz-e-desfaz, e ele teve de desmentir-se, aplicar
sua técnica de negociação TACO — Trump Always Chicken Out, isto é, sempre se
acovarda e desiste — e lutar desesperadamente por um acordo de paz.
Trump não acredita na revolta da opinião pública dos Estados
Unidos, que hoje está sendo divulgada: 60% da população é contra sua decisão de
fazer essa guerra levado pelo israelense Netanyahu — que aproveitou o momento
para mais uma vez destruir o Líbano, várias vezes massacrado pelo vizinho mais
forte.
Se soube agora que, no ano passado, o Pentágono chamou o
Núncio Apostólico para dizer que, se o papa não aderisse ao trumpismo, os
americanos fariam um novo papado paralelo — como o de Avignon. O papa, que está
com Deus e não com o diabo, sabe por onde vai e não se abalou, continuou
dizendo que as orações de quem faz a guerra não são ouvidas por Deus.
Temos que, com o papa, rezar para que o cessar-fogo, mesmo
com intermitência, acabe com os crimes contra os civis e dure até poder surgir
um espaço para a paz.
A paz é o que o povo americano e o resto do mundo querem.
*José Sarney, ex-presidente da República,
escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

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