Pesquisa abre necessariamente um momento de reflexão
sobre a viabilidade da candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência
A pesquisa Genial/Quaest divulgada ontem abre
necessariamente um momento de reflexão no bolsonarismo e no próprio PL sobre a
viabilidade da candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da
República. A pesquisa, amplamente favorável ao presidente Lula, tem sinais
claros de queda acentuada nas preferências por Flávio, mesmo entre os
evangélicos. O que facilita a permanência da candidatura do filho do
ex-presidente é que nenhum candidato da direita se beneficiou da queda,
restando ainda a esperança de que o aumento dos indecisos possa ser revertido
ao longo da campanha. Lula abriu vantagem fora da margem de erro, e a queda da
inflação, junto com o crescimento da economia — pequeno, mas persistente — leva
uma situação de estabilidade à sua campanha.
O eleitor de direita que não é bolsonarista
raiz não tem para onde correr, e poderia voltar no segundo turno. O fato de
estar isolado como o único candidato que pode ser competitivo diante do
presidente Lula dificulta a definição sobre uma eventual substituição, e mantém
o senador do Rio como a escolha possível para a direita. No entanto, são
grandes as chances de Flávio aparecer envolvido em novas confusões nas
investigações tanto do Banco Master quanto do crime organizado que dominava a
política do Rio até a intervenção branca do presidente do Tribunal de Justiça
do estado, desembargador Ricardo Couto.
Ontem foi divulgada uma foto dele ao lado do Sicário,
apontado pela Polícia Federal como responsável por planejar ataques contra
adversários de Daniel Vorcaro. O gestual dos dois demonstra intimidade, sendo
que Sicário, que morreu na cadeia, faz o gesto da “arminha” com as mãos, num
apoio declarado ao bolsonarismo. A esperança de Gilberto Kassab de que o
candidato de seu partido, o ex-governador Ronaldo Caiado, crescesse à medida
que Flávio caísse nas pesquisas não se confirmou, por enquanto.
Ter Michelle Bolsonaro como companheira de chapa do PSD
seria uma saída para a crise da direita, mas enquanto Flávio continuar
confirmando que é o que tem mais votos, mesmo caindo, dificulta uma negociação,
até mesmo por falta de outro candidato competitivo. O governador de São Paulo,
Tarcísio de Freitas, a esta altura deve estar apreciando de longe a derrocada
da família Bolsonaro, pois, pelo andar da campanha, ele deve se reeleger, até
mesmo no primeiro turno, e Flávio deve perder. Com isso, cairá no colo dele a
liderança da direita para a eleição de 2030, ficando os Bolsonaros confinados a
um núcleo extremista que não terá peso na decisão final.
A direita poderá então assumir seu papel divergente em
relação ao PT sem se perder nas provocações dos extremistas, e ampliando seu
eleitorado para o centro, que é o que está fazendo o presidente Lula mais uma
vez, para derrotar o bolsonarismo. A pesquisa Quaest mostra que num eventual
segundo turno, todos os candidatos da direita perdem para Lula na mesma
proporção, tirando de Flávio a vantagem teórica de ser o único que empatava
tecnicamente com Lula. O eleitor que permanece na direita dá o mesmo peso para
Caiado, Zema, Renan Santos ou Flávio, o que pode fazer com que, em próximas
pesquisas, um desses apareça como a alternativa ao senador, se ele continuar a
cair.
Os independentes, que se tornaram indecisos diante dos
permanentes escândalos envolvendo Flávio, podem ir para qualquer desses
candidatos da direita, mudando o perfil da eleição. Nada indica, porém, até o
momento, que isso vá acontecer, pois até agora tentaram diversas maneiras de
reagir a Flávio sem dar certo. Caiado tentou mostrar-se equilibrado, evitando
criticar o bolsonarismo. Zema foi agressivo contra Flávio. Renan Santos vende
uma imagem de direita, um misto de Milei e Bukele, que assusta e atrai muitos
eleitores.
Nenhuma estratégia dessas deu certo, e Flávio permanece como
a alternativa, mas cada vez menos competitivo. Mesmo se não acontecer mais nada
daqui para frente, sua fragilidade como candidato é evidente, e é possível
prever que não será páreo para Lula nos debates, como seu pai foi.

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