É preciso agir com sensatez para reduzir os estragos que
um político em dificuldades eleitorais é capaz de produzir
Coordenador em São Paulo da ainda incerta campanha
presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o governador Tarcísio de
Freitas (Republicanos) tem procurado manter distância adequada da disputa pelo
Palácio do Planalto. Carioca que mal sabia seu local de votação em 2022, quando
foi eleito para o cargo, Tarcísio, como informou o Estadão, tenta evitar que
sua imagem seja turvada pelas crises que assombram Flávio Bolsonaro.
Nisso o governador paulista está certo. Aproximar-se
demasiadamente do filho do expresidente da República, atualmente cumprindo pena
em prisão domiciliar, pode prejudicar a pretensão política de Tarcísio,
candidato à reeleição. Presunçoso, arrogante e apontado como envolvido em
nebulosas transações financeiras com o dono do extinto Banco Master, Flávio
Bolsonaro parece não se cansar, por palavras e atos por ele mesmo decididos, de
demonstrar como é extenso seu despreparo e como é incontrolável seu desejo de
bajular Donald Trump.
Sua vexaminosa e reveladora participação –
ao lado de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, cassado pela Câmara dos
Deputados, condenado por coação a autoridades do Supremo Tribunal Federal (STF)
e refugiado nos Estados Unidos – em audiência realizada na semana passada em
Washington pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR)
é apenas o exemplo mais recente. Houve muitos outros e decerto muitos haverá.
Em julho do ano passado, os dois irmãos Bolsonaro
comemoraram a decisão de Trump de impor inicialmente uma sobretaxa de 50% sobre
os produtos brasileiros, o que dificultaria de maneira aguda a presença de bens
nacionais no mercado norte-americano. Na semana passada, o précandidato
presidencial pelo PL tentou tardia e parcialmente consertar o desserviço que
havia prestado à economia brasileira há um ano, quando agradeceu a Trump pela
imposição da sobretaxa. Na audiência da USTR, Flávio Bolsonaro disse que esse
seria “o pior momento possível para agir” e pediu o adiamento da imposição de
novas sobretaxas a produtos brasileiros.
O senador não o fez para defender interesses brasileiros.
Fê-lo por interesse eleitoral. No seu entender, haveria desgastes à sua
campanha, pela inevitável associação das tarifas de Trump ao papel que ele e
seu irmão tiveram anteriormente na decisão da Casa Branca.
Estragos econômicos associados à desastrada atuação dos dois
irmãos em Washington desde o início do governo Trump, porém, já são
registrados. Pesquisa divulgada pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil
(Amcham) mostra que, em razão da sobretaxa trumpista, a participação dos
Estados Unidos no comércio exterior brasileiro, embora ainda expressiva, desceu
ao seu menor nível em dez anos.
Em média, desde 1997, a participação norte-americana nas
exportações brasileiras no primeiro semestre tem ficado acima de 10%, o que
mantém os Estados Unidos como o segundo maior parceiro comercial do Brasil. No
período, a maior fatia absorvida pelo mercado norte-americano foi a de 13,7% do
total das exportações brasileiras, registrada em 2019. No primeiro semestre de
2026, a participação caiu para 9,4%. No primeiro semestre de 2025, antes da
vigência das sobretaxas trumpistas, tinha sido de 12,1%.
Relatório da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério
do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostra que as exportações
para os Estados Unidos diminuíram 13,0% entre o primeiro semestre de 2025 e
igual período deste ano. O presidente da Amcham, Abrão Neto, diz que o comércio
bilateral “atravessa um período de forte pressão”, o que reforça a necessidade
de negociações entre os dois países, para se evitar a aplicação de novas
tarifas decorrentes de investigações com base na Seção 301 da lei de comércio
de 1974. Trata-se de uma medida criada pelo Congresso norte-americano para
permitir a investigação de países cujas práticas comerciais sejam consideradas
prejudiciais ao comércio ou a empresas dos Estados Unidos.
Neste caso, ao contrário das encenações eleitorais de Flávio
Bolsonaro, trata-se de coisa séria. O prazo para a conclusão das investigações
da Seção 301 termina amanhã. Reuniões técnicas entre representantes dos
governos brasileiro e norte-americano sucederam-se nos últimos dias. Mas, como
ressalvou há dias o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e
Serviços, Márcio Elias Rosas, questões políticas foram evitadas nas
negociações.
É preciso agir com sensatez para reduzir os estragos que um
político em dificuldades eleitorais é capaz de produzir. Como bem observou o
Estadão em editorial (Flávio Bolsonaro desserve o Brasil, 9/7, A3), “Flávio
Bolsonaro envergonhou os brasileiros” ao usar os poucos minutos que tinha (na
audiência da USTR) para atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e para
sugerir que os Estados Unidos esperem a eleição para negociar com o novo
presidente, que seria ele próprio. A vergonha não pode converter-se em prejuízo
econômico para o País.

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