O número elevado de indecisos nas pesquisas espontâneas
revela que a maioria da sociedade ainda não transformou simpatia ou rejeição em
decisão eleitoral
Nos dicionários, astúcia é o mesmo que artimanha, esperteza,
malícia e sagacidade. Na política, quase sempre tem um significado negativo,
porque é uma das características dos políticos para enganar o eleitor.
Entretanto, há uma grande diferença entre a astúcia do povo e astúcia dos
políticos. A primeira se baseia no bom senso. Já a segunda recorre ao senso
comum para atingir objetivos a qualquer preço, muitas vezes obscuros. Não
existe momento em que esses atributos sejam mais utilizados do que as eleições.
O folclorista capixaba Hermógenes Lima Fonseca, advogado,
contador e pesquisador da cultura, viveu até 1996, quando morreu aos 80 anos em
Vila Velha (ES), aos pés do Convento da Penha, um dos mais antigos no Brasil.
Ele sofreu influências de baianos e mineiros, além da forte atração dos
cariocas, que consagraram Roberto Carlos, Nara Leão, Sérgio Sampaio e Rubem
Braga. Hermógenes dizia que “o povo astucia as coisas”.
Esse vem sendo o fator mais imponderável
das eleições brasileiras desde a redemocratização. Ao que tudo indica, neste
ano não será diferente. O dado mais importante das pesquisas eleitorais
recentes talvez não esteja na distância entre Luiz Inácio Lula da Silva e
Flávio Bolsonaro, mas na revelação da pesquisa espontânea de que a maioria dos
eleitores ainda não sabe em quem votar.
Na mais recente Genial/Quaest, Lula aparece com 38% no
primeiro turno, contra 31% de Flávio, enquanto Caiado e Renan Santos têm 4%,
Zema 2% e Augusto Cury 2%. No segundo turno, Lula marca 43% contra 40% de
Flávio: empate técnico, considerando a margem de erro de dois pontos
percentuais. Os institutos, porém, apresentam diferenças importantes. A CNT/MDA
registra Lula com 42,4% e Flávio com 28,7% no primeiro turno e 48% a 39,1% no
segundo. BTG/Nexus aponta 40% a 35% no primeiro e 47% a 44% no segundo.
Não se sabe a verdadeira dimensão do favoritismo de Lula.
Nossa história recente está cheia de viradas eleitorais. O número elevado de
indecisos nas pesquisas espontâneas revela que uma parcela considerável da
sociedade ainda não transformou simpatia, rejeição ou preferência ideológica em
decisão eleitoral. Nesse cenário, a experiência recomenda prudência ao projetar
o comportamento observado na pesquisa estimulada.
O exemplo clássico é 1994. Lula começou aquele ciclo
eleitoral como favorito, mas o Plano Real, lançado durante o governo Itamar
Franco, alterou radicalmente o ambiente econômico e social. A estabilização da
moeda transformou Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda identificado
com o Real, no candidato da estabilidade. FHC ultrapassou Lula e venceu no
primeiro turno.
Pesquisa não é profecia
Em 2002, Ciro Gomes chegou a ameaçar José Serra na disputa
pela vaga no segundo turno. A campanha eleitoral, porém, expôs suas
fragilidades, Serra recuperou terreno e terminou enfrentando Lula, que venceu a
eleição. Em 2006, Lula parecia ameaçado pelo escândalo do mensalão e Geraldo
Alckmin conseguiu levá-lo ao segundo turno. O desfecho foi surpreendente:
Alckmin recebeu menos votos no segundo turno do que no primeiro, Lula foi
reeleito.
A maior volatilidade ocorreu em 2014. Após a morte de
Eduardo Campos, Marina Silva assumiu a candidatura do PSB e disparou. No fim de
agosto, o Datafolha mostrava Marina com 50% contra 40% de Dilma Rousseff no
segundo turno. Poucas semanas depois, o cenário havia mudado.
Em setembro, Dilma tinha 36%, Marina 33% e Aécio Neves
apenas 15% no primeiro turno. Na espontânea, expressivos 29% estavam indecisos.
Aécio ultrapassou Marina, chegou ao segundo turno empatado com Dilma, com 51%
contra 49% dos votos válidos de Dilma, que virou novamente e foi reeleita.
Houve três eleições dentro de uma.
A mais surpreendente foi a eleição de 2018, o atentado
contra Jair Bolsonaro alterou sua dinâmica e reduziu sua participação
presencial. Fernando Haddad havia assumido a candidatura petista com a
inelegibilidade e prisão de Lula. Em poucas semanas, mudou tudo. O “azarão”
Bolsonaro foi eleito. Mesmo em 2022, quando a polarização Lula-Bolsonaro já
estava consolidada, a eleição foi decidida no segundo turno por apenas 1,8
ponto percentual: Lula obteve 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de
Bolsonaro.
A campanha eleitoral de 2026 começa oficialmente neste
domingo. Há incertezas na economia, na qual inflação, emprego, renda, juros e
percepção sobre o custo de vida podem modificar a avaliação do governo. Nos
escândalos políticos que atinjam candidatos, familiares ou aliados. Na
interferência de Donald Trump e das tarifas norte-americanas. No desempenho dos
candidatos no horário eleitoral e nos debates. O mais imponderável, porém, como
diria o “Mestre Armojo”, é a astúcia do povo, graças às urnas eletrônicas, que
garantem o voto direto, secreto e universal e o princípio da alternância de
poder, pilares da democracia brasileira.

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