Apoio de Hugo Motta e retomada de conversas com
Alcolumbre mostram que caciques do Congresso enxergam chance maior de reeleição
do petista
Às vésperas de voltar ao cenário onde tudo começou, na Vila
Euclides, em São Bernardo, Lula passou a semana costurando em Brasília, com
resultados que passam longe da vista do eleitor, mas podem ter efeitos
importantes para o desenrolar da campanha. Num intervalo de poucos dias, obteve
o apoio público do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), à sua
reeleição e conseguiu conduzir uma reunião menos truncada e tensa com o
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
A adesão de Motta, com quem o Planalto viveu uma relação de
altos e baixos desde fevereiro do ano passado, quando ele assumiu a Câmara, se
explica por fatores da conjuntura política local, é verdade. Mas tem mais do
que isso: um apoio explícito, logo na largada da campanha, por parte de um
político que chegou a gravitar em torno do bolsonarismo demonstra aposta clara
na reeleição do petista.
Essa não é uma avaliação restrita ao
deputado da Paraíba. É algo que se espraia pelo Centrão como um todo e esteve
no cerne do fracasso de Flávio Bolsonaro em fechar qualquer aliança que não o
deixasse, como ficou, restrito ao PL, com menor tempo de TV que Lula.
O presidente foi discreto nas conversas, feitas por ele
próprio ou muitas vezes por emissários diretos, com algumas lideranças-chave
desse agrupamento de partidos que, no fim das contas, decidiu rumar solteiro
para as urnas e fazer as costumeiras alianças locais à esquerda ou à direita.
Ciro Nogueira, que foi ministro da Casa Civil de Bolsonaro e
um dos mais ferrenhos defensores, ao menos em público, de que o PP deixasse o
governo, mudou da água para o vinho depois da eclosão de escândalos como Master
e Refit. Passou a atuar para impedir a adesão da federação de que seu partido
faz parte a Flávio. Chegou a mandar vários recados na direção do Planalto, e a
receber outros como resposta.
Motta foi além da lógica da província ao trabalhar junto à
cúpula do Republicanos por uma saída na mesma linha: neutralidade formal na
disputa presidencial.
A conversa ao pé de ouvido de Lula com lideranças do Centrão
também deixou o filho de Bolsonaro sem palanque em Pernambuco e também é
responsável pelo fato de outro antigo aliado dos Bolsonaros, o ex-presidente da
Câmara Arthur Lira (PP-AL), estar adiando ao máximo declarar apoio ao senador
do PL, a ponto de ter se reunido com ele evitando a imprensa nesta semana.
De novo nesse caso, uma confusa lógica local pode jogar Lira
para lá ou para cá, a depender de como ficar o quadro de candidaturas para o
governo ou para o Senado. Não está claro se existe a participação de Lula na
decisão do ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas, o JHC, de se candidatar
ao Senado, e não ao governo, como esperava o grupo de Lira. Mesmo assim, o
ex-todo-poderoso da Câmara ainda hesita em declarar apoio ao adversário do
petista, pois sabe que, em seu estado, Lula deve prevalecer nas urnas.
Todos esses arranjos não visam só a ganhar a eleição, mas a
estabelecer os novos pilares da governabilidade futura. Motta e Alcolumbre,
sobretudo, se articulam para ser reconduzidos ao comando das duas Casas. Se
voltam a se aproximar de Lula, é porque, na análise de pessoas próximas a
ambos, vislumbram nele a maior chance de vitória em outubro.
A consequência mais imediata para o petista, além de
atrapalhar a montagem dos palanques e da chapa de Flávio, é destravar projetos
no Congresso que podem ajudar a fechar as contas ou a montar o discurso da
campanha. No primeiro caso se encaixa o projeto que criou gatilhos para
despesas a partir do ano que vem. No segundo, o fim da escala 6x1, que pode
finalmente ser votado agora que a guerra fria com Alcolumbre parece ter sido
encerrada por um breve armistício.
Foi uma semana em que Lula saiu do corner dos escândalos
envolvendo Lulinha e Marcola e, se não conseguiu reativar a química com Donald
Trump, colheu avanços no front doméstico.

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