Estratégia de isolar partidos da direita radical pode
estar com os dias contados
Forças democráticas precisam buscar meios de reduzir
virulência dessas legendas
Até aqui, a estratégia dos partidos mainstream europeus de
isolar a direita radical para impedir que ela chegue ao poder tem experimentado
sucesso relativo. Exemplos desse mecanismo de "cordon sanitaire"
incluem a eleição presidencial portuguesa de fevereiro, quando o ultradireitista
André Ventura, do Chega, foi derrotado, e as duas vezes, 2017 e 2022, em
que sua congênere francesa, Marine Le Pen,
perdeu o segundo turno do pleito para Emmanuel
Macron.
O "Brandmauer" (porta
corta-fogo), que é a versão alemã do cordão sanitário, poderá funcionar agora e
evitar que o partido
extremista AfD (Alternativa para a Alemanha)
comande o estado da Saxônia-Anhalt, apesar
de ter obtido 44% dos votos e ter ficado a três cadeiras da maioria
que lhe permitiria governar sem depender de ninguém.
O ponto é que essa estratégia não funcionará para sempre. Le
Pen já figura como favorita para o pleito presidencial francês de 2027, e a AfD
tem crescido rapidamente na preferência dos alemães. Se o "cordon
sanitaire" tem a virtude de evitar que representantes de uma ideologia
perigosa assumam postos de comando do Estado, também carrega o ônus de conceder
a esses partidos o duplo benefício de poderem posar de vítimas do sistema, o
que tem apelo eleitoral, e de poupá-los do desgaste do poder, que tem sido
inclemente com governantes.
Se a direita radical continuar crescendo, não restará outro caminho às forças
democráticas que não o abandonar a estratégia do isolamento e tentar
reduzir a virulência dessas legendas, mesmo que ao preço de negociar com
elas. Não é impossível. Marine Le Pen já ficou menos radical que seu pai, o
fundador do movimento. A italiana Giorgia Meloni, eleita por um partido com
origens fascistas, faz um governo institucionalmente bem-comportado. Até se
afastou de Vladimir
Putin para estreitar a ligação com a UE (o sistema).
O avanço da ultradireita é um pouco como a mudança
climática. Precisamos tentar agir tanto sobre as causas (mitigação) como
sobre os efeitos (adaptação).

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