Apesar das diferenças, prevaleceu a noção de que a
política externa deveria servir aos interesses permanentes do Brasil. Hoje,
essa política está sendo posta em xeque
A política externa brasileira não nasceu com a
Independência, cujos 204 anos comemoramos ontem, com o tradicional desfile
do Sete de Setembro, desta vez em meio a uma campanha
eleitoral e radicalizada polarização política. Sua gênese antecede a criação do
Estado nacional e remonta às negociações que definiram o próprio território.
Antes de o Brasil se tornar soberano, nossa diplomacia já começara a
construí-lo, como destaca o embaixador Rubens Ricupero, no seu livro A
diplomacia na construção do Brasil: 1750-2016 (Versal).
Houve, sim, uma Guerra da Independência na
Bahia, que somente terminou em 1824, porém, o mito fundador do Exército
Brasileiro também é anterior à independência: surge na Batalha de Guararapes
(1648-1649), que expulsou do Nordeste os holandeses. Henrique Dias, líder dos
negros libertos e escravizados alforriados; Filipe Camarão, cacique da tribo
Potiguara que comandou os contingentes indígenas; André Vidal de Negreiros,
mestre de campo e líder militar que organizou as tropas luso-brasileiras,
ocupam o panteão de primeiros heróis da pátria, representando "o povo em
armas", muito antes do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes,
o mártir da Inconfidência Mineira (1788 e 1789).
Mas também houve, na Independência, um acordo envolvendo a
família real, os senhores de escravos e a elite política nacionalista da época
para que o Brasil se tornasse um país soberano sem renunciar à monarquia e à
escravidão. O projeto subliminar era a reunificação da Coroa portuguesa sob a
liderança de D. Pedro I, o que deu origem ao surgimento do Partido dos
Brasileiros e do Partido dos Portugueses, a muitas de nossas peculiaridades
políticas e à nossa secular iniquidade social. Entretanto, a diplomacia veio
antes e foi fundamental para a nossa integridade territorial. Seu primeiro
paradigma é o Tratado de Madri, de 1750, cujo artífice foi o santista Alexandre
de Gusmão, conselheiro da Coroa portuguesa, decisivo na negociação com a
Espanha. O princípio do "uti possidetis" reconheceu a ocupação
efetiva das terras e redesenhou os limites de Tordesilhas.
Quando o Brasil se tornou independente, grande parte do
território já fora conquistada pela ocupação e legitimada pela diplomacia. A
monarquia preservou a unidade territorial e a centralização política, enquanto
a republicana América espanhola se fragmentava. Argentina, em 9 de novembro de
1822, e os Estados Unidos, em 1824, sob a Doutrina Monroe, foram os primeiros a
reconhecer nossa independência. Portugal somente o fez em 1825, após a mediação
da Inglaterra e o pagamento de indenização.
Não à toa, o "americanismo" ganharia força
política com a República. A Constituição de 1891 adotou o federalismo, o
presidencialismo, o bicameralismo e a separação entre Igreja e Estado, sob
forte inspiração norte-americana. O país passou a chamar-se,
significativamente, Estados Unidos do Brasil. Joaquim Nabuco via a relação com
Washington como estratégica. Rio Branco se aproximou dos EUA, mas o fez para
ampliar a autonomia brasileira. Consolidou fronteiras, solucionou controvérsias
e, no Tratado de Petrópolis, de 1903, incorporou o Acre por meio de negociação,
compensações e concessões. A soberania foi exercida pela diplomacia, e não
apenas pelas armas. Não era submissão.
Alinhamento
Essa estratégia foi consolidada em Haia, em 1907, quando Rui
Barbosa defendeu a igualdade jurídica dos Estados contra os privilégios das
grandes potências. Nasceu ali a nossa tradição de defesa do multilateralismo,
no direito internacional e da solução pacífica das controvérsias. A política
externa criava condições para que o Brasil fosse uma nação capaz de formular
posições próprias, mesmo diante dos países mais poderosos. Isso não evitou,
porém, momentos críticos.
Na Segunda Guerra, o Estado Novo oscilou entre os EUA e a
Alemanha. Havia correntes germanófilas no governo, nas Forças Armadas e na
sociedade. O embaixador Sérgio Corrêa da Costa revelou, em Crônica de
uma guerra secreta (Record), a infiltração nazista na América do Sul e
as articulações irradiadas da Argentina. "Muita coisa se passava, tanto na
superfície como nos bastidores", escreveu o diplomata, que investigou essa
rede em Buenos Aires.
O alinhamento de Vargas aos Aliados foi uma escolha de
segurança nacional, mas envolveu contrapartidas. O Brasil cedeu bases no
Nordeste, declarou guerra ao Eixo e enviou a Força Expedicionária Brasileira
(FEB) à Itália. Em troca, obteve apoio para a Companhia Siderúrgica Nacional
(CSN). A aliança serviu à industrialização e não se reduziu a uma declaração de
fidelidade.
A política externa Independente de Jânio Quadros e João
Goulart representou a busca de autonomia em plena Guerra Fria. Não se pretendia
trocar Washington por Moscou, mas impedir que as superpotências decidissem pelo
Brasil. Mesmo com o apoio decisivo dos EUA ao golpe de 1964, durante o regime
militar, o governo de Ernesto Geisel adotou o chamado "pragmatismo
responsável": reconheceu Angola, fez negócios com os países socialistas e
denunciou o acordo militar com os Estados Unidos para viabilizar o acordo nuclear com a
então Alemanha Ocidental.
Na redemocratização, José Sarney e Raúl Alfonsín
transformaram Brasil e Argentina de rivais estratégicos em parceiros, como o
foram na Independência. Dessa aproximação nasceu o Mercosul. Com Fernando
Henrique Cardoso, prevaleceu a "autonomia pela participação". Com
Lula, a "autonomia pela diversificação", a cooperação Sul-Sul e o
Brics. Apesar das diferenças, prevaleceu a noção de que a política externa
deveria servir aos interesses permanentes do Estado brasileiro. Hoje, essa
política está sendo posta em xeque nas eleições, em razão dos interesses dos
EUA e dos negócios com a China. Dependendo do resultado, haverá uma ruptura na
tradição diplomática.

Nenhum comentário:
Postar um comentário