A melhor defesa da democracia seria um pacto nacional
para transformar o Brasil
No segundo turno, 60 milhões de pessoas optaram por ter
Flávio Bolsonaro como presidente, apesar da divulgação pelas redes sociais
acerca de quem ele era. Felizmente, parcela significativa percebeu, então, o
risco à democracia ao elevá-lo à condição de primeiro mandatário, pois seu
passado revelava fortes ligações com a milícia do Rio de Janeiro, elogios à
ditadura e má conduta na pandemia. A sociedade se mobilizou: tanto redes quanto
cidades foram ocupadas pelo chamado “exército do Lula” e derrotou-se Flávio por
4 milhões de votos.
Se a maioria afastou o País do precipício, houve, contudo,
porcentual elevado que pagou para ver, sufragando um playboy na Presidência,
não só por antipetismo, mas por crença no super-herói, ungido pelo pai, a
proclamar vazias promessas de fazer isto e aquilo se presidente viesse a ser.
Surpreende a resiliência do bolsonarismo,
pois muitos adeptos remanescem fiéis, mesmo depois de a arrogância ter se
transformado em covardia com a fuga empreendida sob o pretexto de possível
prisão que jamais ocorreria, em razão de sua condição de senador (Constituição
federal art. 53 § 2.º). Boa parcela dos eleitores de Flávio nem sabe justificar
sua escolha. Pessoas de variados estratos sociais, algumas até de maravilhosa
índole, com as quais conversei, votaram em Flávio por acreditarem na mudança
salvadora a advir com a eleição do filho do mito. É o mistério da fé.
Em face desse quadro, o desafio do novo governo Lula será o
de responder satisfatoriamente aos membros da sociedade que cerraram fileiras
para o eleger. Mas, igualmente, à tropa “bolsonarista”, vitimada pelo vírus do
mito que desfaz o bom senso e acolhe mistificações sebastianistas e resta
mobilizada à espera de um salvador.
Um amigo presenciou diálogo de dois ricos rapazes de seus 20
anos, desconsolados com mais quatro anos de Lula, desejando que Trump invadisse
o Brasil para coroar Flávio, “presidente eleito”, como nosso governante, pouca
importância dando à nossa soberania. A este fanatismo se deve responder com o
envolvimento da sociedade em torno de propósitos, para tentar catalisar forças
e conseguir trazer de volta a razão.
Não se trata de mero acerto com partidos políticos para
obtenção de maioria parlamentar, conquistando apoio no Congresso Nacional como
contrapartida à participação em ministérios ou outros cargos da administração.
É preciso mais. É necessário um arco largo que abrigue os mais diversos setores
da sociedade em esforço comum para alcançar determinados objetivos definidos
pela Presidência, em vista do que é almejado pelas mulheres, homens, jovens e
velhos que tanto se mobilizaram.
Zeca Martins, coordenador do Grupo Derrubando os Muros (DM)
– coletivo de pessoas preocupadas com o País –, propõe ser este o momento para
constituição de frente ampla. A melhor defesa da democracia seria um pacto
nacional para transformar o Brasil.
O presidente tem de deixar de ter por interlocutora apenas a
elite política sediada em Brasília. Deve abrir-se a um diálogo constante com a
sociedade que saiu às ruas e conta em participar do processo de governo. Com
função coordenadora, a Presidência da República deve comprometer a todos na
consecução de alguns objetivos, que sugiro por hipótese: a recuperação dos
espaços ocupados pelo crime organizado; desenvolvimento de educação integral,
com ampliação do projeto Pé-de-Meia; valorização e reciclagem dos professores;
e criação de escolas técnicas, inclusive para capacitação de autônomos e
empreendedores, em tarefa conjunta com Estados e municípios.
A reocupação de espaços se faz com trabalho de inteligência,
repressão à lavagem de dinheiro e criação de meios de sociabilidade nas
periferias das grandes cidades: benéfica atuação social nos bairros pobres para
viabilizar justiça próxima, fruição de bens culturais, quadras de esporte com
organização de campeonatos, saneamento básico, etc.
Até mesmo a educação no trânsito muda o astral de uma cidade
e atua pedagogicamente para apontar para o respeito ao outro. São grandes
propósitos a serem enfrentados com o empenho de entidades estatais de todos os
níveis e o apoio da sociedade, a mostrar ser o Brasil um país bom para se
viver. Sem segurança não se usufruem outros direitos, sem educação não se
progride, o que justifica a sugestão desses propósitos.
Logicamente, o ajuste fiscal não é “babaquice” e, como
sugerem alguns economistas, é possível promover a redução dos gastos sem
prejuízo dos programas sociais, vindo, entre outras medidas, de eliminar a
desonerações e os benefícios setoriais.
Só por via de uma concertação nacional será possível
enfrentar um Congresso repleto de parlamentares bolsonaristas, alguns
marinheiros de primeira viagem, eleitos no rastro da votação gigantesca de
“influencers” que trouxe à Câmara, pelo sistema proporcional, pessoas sem
lastro político.
Lula não deve ser apenas o dirigente do PT no poder, mas
sim, como disse em discurso logo após a apuração, o presidente dos vitoriosos e
dos derrotados, assim se iniciando tratamento (que será longo) para afastar o
vírus da adoração de mitos e reinstalar o bom senso.

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