segunda-feira, 6 de outubro de 2025

LULA E O PASSE LIVRE

Diogo Schelp, O Estado de S. Paulo

Presidente já ganha ao lançar discussão, enquanto a oposição corre atrás da própria cauda

Em junho de 2013, o aumento das tarifas do transporte público na cidade de São Paulo, então governada por Fernando Haddad, motivou protestos convocados por um movimento por passe livre que logo catalisaram uma vasta gama de insatisfações populares. As manifestações inauguraram um ciclo de contestação política que, três anos depois, contribuiu para o impeachment de Dilma Rousseff.

Por óbvio, ela não perdeu a presidência por causa do custo das passagens de ônibus e metrô, mas essa foi a fagulha que incendiou as ruas ao longo do seu governo.

Doze anos depois, Lula quer incluir a tarifa zero universal no transporte público em seu pacote de bondades.

A um ano das eleições, o petista aproveita a perda de rumo da oposição, empacada na agenda da anistia ou da redução de penas para golpistas, e investe em projetos com apelo popular.

Após a Câmara dos Deputados aprovar a ampliação da isenção de Imposto de Renda, o governo agora quer avançar com a proposta de reduzir a jornada semanal de trabalho e estuda implantar transporte público gratuito em todo o País.

Segundo artigo publicado por Marcelo Miterhof, economista do BNDES, 127 cidades brasileiras já oferecem gratuidade total em ônibus (os dados são de maio). O número sobe para 138 quando se incluem outros modelos de passe livre (Teresina, no Piauí, por exemplo, tem apenas metrô de graça). São Paulo não entra na lista pois tem ônibus gratuito só aos domingos. Juiz de Fora (MG) discute um projeto que pode torná-la a terceira cidade mais populosa do mundo com tarifa zero universal nos transportes.

Há dois caminhos para um programa nacional de tarifa zero. No primeiro, o benefício seria integralmente financiado pelo governo federal, tirando os recursos de uma tributação sobre combustíveis. No segundo, haveria uma parceria com estados e municípios.

De um jeito ou de outro, o desafio é bancar o subsídio integral sem arrebentar ainda mais as contas públicas. Alguns defensores da medida dizem que ela custaria R$ 100 bilhões por ano.

Mas o número está subestimado, pois vem de um estudo de 2023 com dados de 2020, e prevê um aumento modesto no número de viagens. Experiências recentes mostram que a gratuidade pode até triplicar o uso dos ônibus urbanos.

Viabilizar essa ideia é o de menos agora. Lula já ganha só de iniciar a discussão. Basta incluir a promessa em sua campanha de reeleição. Enquanto isso, a oposição corre atrás da própria cauda. •

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domingo, 5 de outubro de 2025

MARCEU VIEIRA NO MEIO DO CAMINHO DE DRUMMOND

Flávia Oliveira, O Globo

Coube a Pedro Bial a fiel definição sobre a existência tão breve e, ao mesmo tempo, notável de Marceu Vieira, que morreu aos 63 anos, na última segunda-feira. Deixou na terra uma legião de viúvos, viúvas e órfãos. Presença amorosa, companhia serena, preciso na escrita, gigante no talento, Marceu foi, para os contemporâneos, referência; para os jovens, inspiração. O apresentador da TV Globo, com quem trabalhou nos últimos anos de uma vida encurtada pelo câncer, escreveu que o amigo viveu em estado de poesia. Morto, virou poema.

Pois, no fim da tarde seguinte à morte do meu amigo, a poesia foi consolo. A convite de Afonso Borges, grande organizador de eventos literários do país, participei de mesa do projeto Palavra Acesa, no Museu do Amanhã. Neste mundo, neste Brasil, neste Rio de Janeiro, uma dupla e um mediador, todo mês, se reúnem para debater poemas consagrados. Em agosto, o próprio Afonso conduziu o diálogo entre a ministra Cármen Lúcia e Chico César, cantor e compositor, sobre o “Que país é este?”, de Affonso Romano de Sant’Anna. Os versos Uma coisa é um país, outra um fingimento. Uma coisa é um país, outra um monumento. Uma coisa é um país, outra o aviltamento foram parar no voto da única mulher do STF, integrante da Primeira Turma, no julgamento dos integrantes do núcleo crucial da trama golpista, entre os quais o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Improvável coincidência, a mesa que partilhei com José Miguel Wisnik (professor, escritor e compositor) e Sérgio Abranches (cientista político e escritor) foi dedicada a “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), poeta favorito de Marceu, soube depois. Quem leu o poema foi Pedro Drummond, neto do autor. Publicada originalmente na “Revista de Antropofagia” (1928) e, na sequência, em “Alguma poesia” (1930), livro de estreia de Drummond, a obra foi recebida como escândalo literário. No total de dez versos, a sentença “tinha uma pedra” aparece sete vezes; “no meio do caminho”, seis.

Eu tinha lido o poema para tarefas escolares na infância e na adolescência. Revisitei-o ocasionalmente na juventude, nunca depois dos 50 anos. A leitura na maturidade conduziu-me para as “retinas tão fatigadas” de um poeta, à época, com 25 anos. Em 1927, ele e a mulher, Dolores, tinham perdido o primogênito, Carlos Flávio, que viveu apenas meia hora. É possível estar velho e cansado aos 25; e tomado de vitalidade aos 80 — aí estão Chico, Caetano, Gil, Paulinho, Ivan... Idade cronológica não é precisa; Tempo, orixá. Foi ele quem me guiou na (re)travessia atlântica para uma interpretação afrocentrada ou, como definiu meu amigo Abranches, decolonial da peça drummondiana. A professora-doutora Helena Theodoro me ensinara que, na tradição afro-brasileira, o Universo é compreendido como mundo visível, que vemos, tocamos, racionalizamos, e também invisível, que sentimos, intuímos.

Por essa lente, encarei Drummond. Na “Enciclopédia brasileira da diáspora africana” (2004), Nei Lopes, compositor, cantor, pesquisador, dicionarista, ensina que camiño, em Cuba, é o mesmo que odu. Designa destino. É ele que determina a personalidade, a ocupação e a sorte de cada indivíduo. Em “Kitábu” (2005), explica que Exu e Bará são os donos dos caminhos e dos destinos, mensageiros de Olorum, o Deus maior, e dos demais orixás. Na mitologia iorubá — cabe lembrar que mito não é rito, embora fundamente religiosidade —, Ogum é a divindade do ferro, da tecnologia. É o orixá que nos acompanha nas estradas, veredas. Drummond tem obra farta em trilhos, trens e minério extraído das Minas Gerais. No meio, a pedra, evocação a Xangô, orixá do fogo, dos trovões, das pedreiras. No candomblé, otá é a pedra onde se assenta a força mística, o axé. Em tupi, ita é pedra. Itabira, município mineiro onde nasceu o poeta significa pedra que brilha, reluz.

De tão controversa, a obra mereceu, segundo Wisnik, um livro inteiro de Drummond, “No meio do caminho: biografia de um poema” (1967), com a coleção de críticas, textos, charges e ilustrações que motivou. Foi examinada pela forma, pela redundância, pela modernidade, pelo significado. Quase centenária, carrega atualíssimas interpretações política (a ameaça autoritária no curso da democracia) e ambiental, como destacou o professor, ao rememorar a oposição firme do poeta à mineração, que acabou por dizimar o Pico do Cauê, na cidade natal.

“No meio do caminho” trata de trajetória e obstáculo, repetição e fadiga. Pelos mitos de África, desvela destino, proteção, acolhimento, fé, confirmação. Num coração enlutado, saudade. E conforto.

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EM DEFESA DO SUPREMO

Oscar Vilhena Vieira, Folha de S. Paulo

Em tempos bicudos, precisamos de tribunais fortes

É hora de aprofundar as reformas iniciadas por Rosa Weber e Luís Roberto Barroso

Passada a borrasca, em que o Supremo Tribunal Federal desempenhou um papel crucial na defesa da ordem constitucional, é chegada a hora de a corte aprofundar uma série de importantes reformas colocadas em marcha pelos ministros Rosa Weber e Luís Roberto Barroso. O objetivo é qualificar o processo deliberativo e reforçar o sistema de precedentes, assim como os mecanismos voltados a assegurar maior transparência e imparcialidade no STF.

A chegada do ministro Edson Fachin à presidência do STF, que coincide com a de Luiz Philipe Vieira de Mello Filho à presidência do TST, assim como com as gestões de Herman Benjamin, no STJ, e Maria Elizabeth Rocha, no STM, abre inúmeras oportunidade para enfrentar os desafios do sistema de Justiça brasileiro. Esse alinhamento de astros na cúpula dos tribunais superiores é auspicioso e não pode ser desperdiçado.

No âmbito do Supremo, alvo dos mais contundentes ataques dos inimigos da Constituição, muitos são os desafios. Isso levou um conjunto de juristas e cientistas sociais, sob os auspícios da Fundação Fernando Henrique Cardoso, a apresentar aos ministros do Supremo e à sociedade brasileira um conjunto de sugestões voltadas a qualificar nossa jurisdição constitucional e reforçar a sua autoridade.

A autoridade do Supremo decorre da Constituição. O seu exercício legítimo depende, no entanto, da capacidade do tribunal de desempenhar suas atribuições de forma objetiva, consistente e imparcial.

Essa não é uma tarefa fácil, tendo em vista a amplitude da Constituição que cumpre ao Supremo guardar, a intensidade das violações à Constituição, bem como a ampliação do acesso ao tribunal, que tem sido sistematicamente demandado a responder questões de enorme repercussão política, econômica e social. Nos últimos 35 anos não houve questão relevante à sociedade brasileira que não tenha sido levada ao Supremo.

Para lidar com essa sobrecarga, ainda mais num contexto de forte polarização política, é essencial que o Supremo consiga mitigar suas vulnerabilidades ao menos em três frentes.

A primeira delas está associada à necessidade de aperfeiçoamento do processo deliberativo do tribunal, com ênfase no fortalecimento da colegialidade em detrimento do protagonismo individual dos gabinetes.

As decisões colegiadas são uma ferramenta indispensável para minimizar erros, vieses e propensões inerentes a qualquer processo decisório. Por isso, a colegialidade constitui um mecanismo indispensável para quem tem a responsabilidade por dar a última palavra.

O STF, por outro lado, tem a função de coordenar o trabalho de mais de 18 mil juízes e 81 tribunais. A ferramenta fundamental para que o direito seja aplicado de forma isonômica e coerente por todas essas instâncias, promovendo a segurança jurídica e a confiança nas relações econômicas e sociais, é o fortalecimento do sistema de precedentes. Quando o STF decide um caso, o que está em jogo não é apenas a solução da questão colocada à sua frente, mas também o estabelecimento dos parâmetros para que todas as demais juízas e juízes do país possam decidir coerentemente em casos semelhante.

Por fim, a autoridade do Supremo está associada à percepção de seus comportamentos por parte de suas diversas audiências. Nesse sentido, não basta que o tribunal decida de forma colegiada, objetiva, coerente e imparcial. É necessário que ele seja capaz de transmitir à sociedade todas essas virtudes. Para que esse objetivo seja alcançado, além de transparência, precisam estar claras as regras que determinam a conduta dos membros do tribunal.

Em tempos bicudos, precisamos de tribunais fortes.

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37 ANOS DA CONSTITUIÇÃO CIDADÃ

Editorial O POVO

Marco essencial no Brasil por representar a pedra fundamental da redemocratização do País, a Constituição atualmente vigente foi promulgada no dia 5 de outubro de 1988. Há 37 anos, portanto. Chamada de "Constituição Cidadã", passou a vigorar após 21 anos de regime militar, de 1964 a 1985. É crucial, principalmente nos dias de hoje, destacar o papel da Constituição na consolidação da democracia brasileira e na garantia dos direitos fundamentais.

Nesta conjuntura, faz-se essencial assegurar os direitos e os deveres previstos na carta cidadã, garantindo que os princípios constitucionais sejam respeitados e cumpridos. Símbolo de direitos civis, políticos e sociais, o documento inaugura um momento histórico para o País, pois, diferentemente das seis constituições anteriores, o diferencial desta foi incluir a participação do povo.

Para que isso se efetivasse, em cinco meses, cidadãos e entidades representativas enviaram suas sugestões para a nova Constituição. Foram distribuídos nas agências dos Correios cinco milhões de formulários e foram coletadas mais de 72 mil sugestões de cidadãos do Brasil todo, além de outras 12 mil sugestões dos constituintes e de entidades representativas.

Apesar de todo o progresso promovido pelos princípios constitucionais, que marcou a história da democracia do País, incluindo a dignidade humana como um de seus princípios fundamentais, ainda há um esforço a fim de que a democracia continue sendo preservada e fortalecida. Lembrar os 37 anos da Carta Magna de 1988 é um convite à sociedade para que se mantenha o compromisso contínuo de defender o Estado de Direito, os direitos sociais e, sobretudo, a democracia.

Isso inclui o fortalecimento da participação popular e do papel das instituições na defesa da democracia, da cidadania e da justiça social. Também da valorização da educação pública e da liberdade sindical e da defesa da universalização da saúde por meio do SUS, por exemplo.

O direito ao voto universal, direto, secreto e igual para todos, é garantido pelo texto de 1988, assim como a
liberdade de expressão e o pluralismo político.

É certo também que é preciso avançar mais em alguns pontos que ainda exigem atenção por parte dos poderes e da sociedade. A ampliação do acesso à justiça e à educação é pauta urgente e sempre oportuna assim como o fortalecimento da cultura de direitos humanos, também sempre necessário.

A construção de uma sociedade solidária e justa depende do compromisso contínuo de todos. Isso significa o protagonismo do povo e a resposta dos agentes às demandas sociais. Um dos princípios fundamentais da Constituição assegura que todas as pessoas e todas as instituições (aqui incluem-se o presidente da República e o Supremo Tribunal Federal - STF, guardião da Constituição) estão sujeitas à observância da lei e da Constituição. Assim, ninguém está acima da lei.

Que os 37 anos da Carta Magna sejam um chamamento para que se preservem os direitos conquistados na história política e social brasileira. 

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sábado, 4 de outubro de 2025

PROMESSA A SÃO FRANCISCO

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É OBRIGATÓRIO CHORAR OS MORTOS NA INTERNET

Eduardo Affonso, O Globo

Morreu alguém relevante, torna-se quase mandatório exibir algum vínculo com o famoso que nunca soube da nossa existência

Uma das melhores coisas de usar apenas socialmente as redes sociais — além de dar uma folga aos haters, claro — é não ter de fazer o obituário de cada celebridade que “nos deixa”.

Essa é uma das leis não escritas da internet: morreu alguém relevante, torna-se quase mandatório exibir algum vínculo com o famoso que nunca soube da nossa existência — mas, depois do último suspiro, é como se fosse o padrinho que nos pegou no colo, a tia de consideração que todo Natal mandava meias de presente.

Em cada um que morre, morremos um pouco. Vai com o morto parte da nossa história, da nossa memória afetiva. Estivemos vivos juntos — nós aqui, em Coxiporé do Norte, ele lá em Los Angeles ou no Leblon. Sob o mesmo sol — nós, na canícula; ele sob um ombrelone — e respirando o mesmo ar — vá lá, a atmosfera do mesmo planeta: a nossa com o monóxido de carbono da Avenida Brasil, a dele com a lavanda da Provença. Mas a morte nos irmana.

Claudia Cardinale, no auge da beleza, apareceu em inúmeros tributos on-line, inclusive na página de quem nem imaginava que ainda estivesse viva. Seu memorial virtual terá vindo poucas postagens depois do pesar pelo passamento de Robert Redford, inesquecível como Butch Cassidy (ou seria o Sundance Kid?), que os mais jovens só conhecem como o barbudo que acena, num meme. Pouco antes, no pesar por Terence Stamp, ora a foto do General Zod de “Superman”, ora a de Bernadette, em “Priscilla, a rainha do deserto”, quase nunca a do visitante sem nome de “Teorema”. Não nos iludamos: cada um de nós enterra um morto diferente, ainda que sob o mesmo nome.

Lamentar que Hermeto ou Arlindo Cruz “se foram” (dá-lhe eufemismo nessa hora!) supre o fato de nunca termos tido um único disco deles. Que o último filme do Gene Hackman que vimos tenha sido “Os imperdoáveis” ou “Operação França” (era ele, não?) é o de menos. Seu trágico fim é a chance de que precisamos para nos redimir de tê-lo esquecido esse tempo todo.

Por menos que se conheça a obra de alguém, a rede social impelirá a um panegírico post mortem, em sinal de pertencimento à tribo. Fará parte do luto, real ou performático, uma breve citação ao amor, meu grande amor, por Angela Ro Ro, ao insensato coração de Nana Caymmi ou, entregando a idade, um verso descontextualizado de “Rock’n’roll lullaby” por Francisco Cuoco.

Morremos muitos (você, eu, Ed Mort, Dora Avante, a velhinha, o analista, as cobras, as palavras) com o Veríssimo. Morre um tanto do que eu sei, mas não devia, e da implosão da verdade, com Marina Colasanti e Affonso Romano. No Facebook e no Instagram, com usuários cada vez mais velhos, lamentamos na dos outros nossa morte antecipada. É por nós que os sinos virtuais dobrariam, caso existissem; é a nós que todos os obituários se referem.

Se Françoise Hardy, Alain Delon e Rita Lee morreram, então é provável que ninguém escape da iniludível. E, cada vez mais solitários, será com a plateia amorfa e anônima das redes que compartilharemos a angústia de perceber que os da nossa idade não precisam mais dos artifícios de acidentes ou de overdoses para ir estudar a geologia dos campos santos.

Larguei de mão as redes sociais porque não me faz bem ser odiado e prefiro não odiar ninguém. Mas ando com uma paradoxal síndrome de abstinência desse velório virtual promovido cada vez que morremos um pouco. E como temos morrido ultimamente!

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ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO

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sexta-feira, 3 de outubro de 2025

O BRASIL TEM IDO EM FRENTE RETORNANDO PARA TRÁS

José de Souza Martins, Valor Econômico

A política brasileira não é a da polarização ideológica senão pelo fato de que os grupos políticos retrógrados resolveram dar-se um nome e se reconheceram como de “direita”

Desde o golpe de Estado de 1964, quando a repressão e a censura encolheram nas páginas dos jornais o noticiário sobre a política brasileira, procuro nos informativos de entrelinhas o subjacente das notícias. Cheguei a assinar, durante anos, o Diário do Congresso Nacional, cujos maçudos exemplares entulharam cômodos de minha casa.

As transcrições taquigráficas do inteiro teor dos discursos e debates de deputados e senadores revelavam um parlamento que, apesar do golpe, continuava o mesmo.

Entre um e outro notório corrupto, a ditadura cassara alguns dos melhores membros das duas casas, os que de fato representavam as parcelas mais lúcidas do povo brasileiro, os que tinham consciência crítica da realidade e dos bloqueios que a travavam para as inovações sociais e políticas necessárias.

Os militares definiram dois elencos de políticos adversos que deveriam ter seus mandatos e seus direitos políticos cassados: os corruptos e os subversivos. Para eles, alienados da realidade brasileira, como mostraram, eram equivalentes.

Mas deram prioridade, nas cassações, aos que definiam como subversivos, preservando os corruptos, como Adhemar de Barros, governador de São Paulo, cujos seguidores assim cinicamente o definiam: “Ele rouba, mas faz”. O país devia-lhe o favor de roubar em troca da competência para disseminar obras públicas.

Os corruptos eram vulneráveis e, por isso, dóceis. No Congresso “funcionando”, dariam a aparência à ditadura de ser, apesar do regime, um país democrático. O golpe teria sido para “democratizar” o Brasil.

Os discursos publicados no Diário Oficial revelavam um Congresso fisiológico não só em relação ao Poder Executivo, como o fora desde antes do golpe, mas também entre as diferentes facções regionais, independentemente de orientação ideológica.

As designações de “esquerda” e “direita” apenas se esboçavam. Deputado de esquerda votava em favor de projeto da direita em troca do voto da direita a favor de seu projeto. Era a velha política da troca de favores. Por trás, mesmo, existia o partido municipal oculto. Como desde o Império, era o latifúndio e o poder local que definiam, como até hoje, o verdadeiro poder político do Brasil.

A “briga” mesmo, da ditadura militar, não era só contra as esquerdas. Era também contra as oligarquias rurais. O regime transformou o latifúndio em empresa e criou o capitalismo rentista, lucrativo sem custos de desenvolvimento social. Atualizou os grupos de interesse que são hoje o Centrão, o dos políticos de coisa nenhuma e de si mesmos.

Na rebarba da mixórdia, a cabeça da esquerda foi entregue à Salomé do mundo para saciar a geopolítica do Império.

E esquerda era sobretudo o nacional-desenvolvimento que abrangia a própria burguesia modernizadora e industrialista, que não sabia que era de esquerda nem sabia que era nacionalista. Nem mesmo que era burguesia. Eram empresários.

Tive clareza sobre isso, tempos depois do golpe, numa pesquisa nacional sobre a formação dos grupos econômicos multibilionários, da Universidade do Brasil. Fui com um colega entrevistar Luís Dumont Villares.

Ele nos contou que, em conversas com lideranças do seu operariado, que o queriam nacionalista, mostrou-lhes que a tese de um desenvolvimento capitalista nacional e autônomo era economicamente irracional.

Por “apenas” 1% do faturamento de sua empresa poderia ter equipamentos e assistência técnica permanente da Siemens. Muito menos do que os investimentos necessários para a produção própria do saber e das técnicas de que carecia.

A maioria dos marxistas daqui não tinha lido o que quer que fosse da obra de Karl Marx. Quando muito lera precários manuais de vulgarização do suposto pensamento de Marx e Engels, um capitalista da indústria têxtil de Manchester, na Inglaterra, financiador da sobrevivência material da família de Karl Marx.

Além do que, na época do golpe, as chamadas esquerdas já estavam fragmentadas em vários grupos ideológicos, que na ditadura chegariam a mais de duas dezenas.

Obviamente, muita coisa mudou desde então. A política brasileira não é a da polarização ideológica senão pelo fato de que os grupos políticos retrógrados resolveram dar-se um nome e se reconheceram como de “direita”. Em boa parte continuaram sendo os capiaus do radicalismo de extremo centro, cuja mais tradicional expressão é o Centrão. Fisiológicos, gostam mesmo é de poder, que os faz sócios políticos e econômicos do Estado. O resto, sob a alcunha de bolsonaristas, é apenas o resto, escorado em outros restos como os da bancada da Bíblia e os da bala. O Brasil tem ido em frente retornando para trás. Só que, desta vez, o afã de democracia bloqueou o caminho.

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ADRIANA CALCANHOTO, 60 ANOS

Do Blog do Mauro Ferreira, g1

Adriana Calcanhotto desfolha bandeira dos 60 anos como a legítima discípula modernista da canção pop brasileira

♫ ANÁLISE

♬ Adriana Calcanhotto desfolha hoje a bandeira dos 60 anos. Nascida em 3 de outubro de 1965, em Porto Alegre (RS), a gaúcha mais cosmopolita e tropicalista da música brasileira se torna sexagenária com a aura de modernidade que caracteriza o som e a imagem da cantora, compositora e violonista.

Houve um ou outro disco errante no caminho que deu no mar do Rio de Janeiro (RJ) em fins dos anos 1980, sobretudo o inicial Enguiço (1990), mas o saldo da obra é positivo, gigante.

Sob o manto modernista, Calcanhotto foi capaz de abrigar tanto um trip hop ancorado na Bahia preta (Ogunté, música lançada em 2019 no álbum Margem) como uma canção tristonha de Leno & Lilian, dupla da Jovem Guarda da qual a cantora se apropriou da balada Devolva-me (1966) em disco ao vivo editado no ano 2000.

Calcanhotto sempre andou pelo mundo prestando atenção no que toca na rádios e playlists, na última novidade apontada pela imprensa musical cult e na produção dos poetas. Tudo é matéria-prima que pode ser liquidificada no caldeirão pop pós-tropicalista da artista.

Em cena desde 1986, ano em que pôs em cena na Porto Alegre (RS) natal o show Sei que estou errada, Adriana Calcanhotto se aproxima dos 40 anos de carreira sem perda do prestigio. Por se escorar no romantismo da canção nacional, madeira de lei que nenhum modismo corrói, a mulher do Pau Brasil construiu discografia sólida em que sobressaem os álbuns Senhas (1992), A fábrica do poema (1994) e Maritmo (1998), trilogia matricial e autoral que ancora e norteia tudo o que foi feito depois pela artista.

Por destilar a sofrência com elegância, sem resvalar no melodrama inapropriado para a voz fina de tonalidade suave, Calcanhotto ofereceu abordagem depurada do amargurado cancioneiro do compositor conterrâneo Lupicínio Rodrigues (1914 – 1974) no álbum ao vivo e DVD Loucura (2015), decorrentes de show apresentado pela cantora para celebrar o centenário de nascimento de Lupi.

A artista sempre transitou com sofisticação entre a vanguarda – mote de álbuns como Cantada (2002), no qual ela se juntou para sempre à geração de músicos como Domenico Lancelotti e Moreno Veloso – e a canção popular.

Sem fronteiras estéticas, Calcanhotto se deixou pegar pelo micróbio do samba, entrou na roda infantil – sob o heterônimo Adriana Partimpim e, como tal, sairá em turnê pelo Brasil a partir deste mês de outubro de 2025 com o show O quarto no palco – e se tornou nome recorrente na ficha técnica dos discos de Maria Bethânia desde Âmbar (1996).

Enfim, Calcanhotto parece entrar na casa dos 60 anos com tudo aceso nela, tudo plugado, conectando a música brasileira de A a Z como legítima discípula, herdeira e estilista modernista da geleia geral da canção nacional. A artista parece pronta para as novas manhãs tropicais que iniciam a partir de hoje, dia dos 60 anos da mulher do Pau Brasil.

Se a tristeza da canção é sempre um porto seguro, como provam exitosas baladas autorais como Mentiras (1992) e Metade (1994) a alegria do samba é a prova dos nove que tempera os banquetes de signos e biscoitos finos servidos pela já sexagenária Adriana Calcanhotto às massas em quase 40 anos de carreira. Como diria o apresentador Chacrinha (1917 – 1988), tropicalista de primeira hora nos programas de auditório, palmas para ela que ela merece!

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quinta-feira, 2 de outubro de 2025

TARCÍSIO VIVE DILEMA DE SE CANDIDATAR

Julia Duailibi, O Globo

O fator Lula é hoje a variável que importa, para além de outros fatores com peso menor, como os ataques de Eduardo Bolsonaro

O que quer Tarcísio de Freitas? A resposta é óbvia. Ser presidente da República. Daí vem outra pergunta: quando Tarcísio se lançará à Presidência? Apesar da especulação na praça, a verdade é que hoje não existe resposta a essa pergunta. Caciques do Centrão, mercado financeiro, pessoal dos palácios do Planalto e dos Bandeirantes... ninguém sabe.

Nem Tarcísio tem a resposta. Hoje é impossível cravar se o governador de São Paulo será candidato a presidente em 2026 — ou se esperará 2030. Esse é o fato. O resto é torcida, chute ou especulação da Faria Lima, com muito banco comprado (apostando) em Tarcísio 2026 — ou tudo junto e misturado.

Pela conjuntura atual, para Tarcísio é mais negócio aguardar 2030. Há alguns meses a conjuntura para uma candidatura presidencial era favorável, mas a maré mudou. Lula recuperou popularidade, ainda que discretamente. Saiu das cordas, resgatado pelo debate “ricos versus pobres” e pelo discurso da soberania — presente de Eduardo Bolsonaro. Pode enfrentar nova crise de popularidade até outubro do ano que vem e se tornar um candidato mais frágil, é verdade. Mas, a preços de hoje, é forte competidor. Além disso, tem experiência em eleições e detém o fator mais determinante numa disputa: a caneta do mandatário. Os gastos tendem a aumentar no ano que vem em razão da eleição — receita usada por Dilma em 2014, por Bolsonaro em 2022 e por qualquer um que dispute a reeleição.

O fator Lula é hoje a variável que importa, para além de outros fatores com peso menor, como os ataques de Eduardo Bolsonaro, as outras candidaturas na direita e o timing de Bolsonaro para anunciar que não disputará a eleição, o que deve ocorrer até abril — mas o ex-presidente, para evitar seu esvaziamento político, segurará quanto puder. Como ficou claro no encontro entre o governador e o ex-presidente nesta segunda-feira, a agenda de Bolsonaro é anistia, não eleição.

Portanto, de um lado, um cenário incerto. De outro, uma reeleição pavimentada em São Paulo, com a máquina nas mãos. A aposta de quem advoga por esperar até 2030 passa pela máxima do “quanto pior, melhor”. Segundo essa leitura, comum no entorno de Tarcísio, haverá uma crise fiscal na próxima gestão. A economia patinará, e o clima será de Dilma 2. Para essa turma, seria uma oportunidade para ele emergir como líder da oposição, com apoio do PIB, se posicionando numa disputa mais fácil sem o veterano Lula. O problema aqui, no entanto, é que tudo tem de correr conforme esse script, e é claro que a conjuntura daqui a cinco anos é imprevisível. Há ainda o risco de o cavalo encilhado não passar outra vez. Até lá, outra liderança, com apelo no eleitorado bolsonarista e de centro-direita, poderá surgir.

A despeito da ansiedade do Centrão, que não quer nenhum dos Bolsonaros como candidato, e do mercado financeiro, que roda modelos comprovando as chances de eleição de Tarcísio em 2026, numa espécie de “vai que dá”, o dilema está posto, e a pergunta sobre quando ele será candidato segue sem resposta. Se alguém disser a você hoje que é capaz de respondê-la, pode comprar. Mas pelo valor de uma pataca.

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TARCÍSIO COZIDO EM BANHO-MARIA

Merval Pereira, O Globo

Bolsonaro cava sua derrota ao não permitir que a direita se una em torno de um candidato competitivo

Cresce a percepção entre os políticos de que o ex-presidente Bolsonaro cozinha em banho-maria o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, para que ele não tenha condições práticas de se candidatar à Presidência da República. Está cozinhando o galo, como se diz popularmente. Como Tarcísio tem de se desincompatibilizar do cargo a partir de abril, sua escolha como candidato bolsonarista teria de ser definida ainda neste ano, para que houvesse tempo de organizar a campanha presidencial.

Se Bolsonaro fizer como Lula, que só indicou Fernando Haddad como seu substituto poucos dias antes da eleição — exatos 29 dias, no derradeiro prazo dado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para o PT mudar de candidato, diante da derrota do último recurso possível para que a candidatura de Lula fosse aceita, mesmo ele estando na cadeia —, a eleição estará perdida.

A decisão petista demorou tanto porque o partido recusava-se a aceitar que Lula não participaria da eleição. Também Bolsonaro, a despeito de não ter a mínima chance de disputar, por ter sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e pelo TSE, tenta uma saída até o último momento — que, aliás, já passou. O PT fez essa manobra porque não tem candidato capaz de substituir Lula e quis tentar aproveitar sua imagem até a última gota.

Com Bolsonaro é diferente. A direita tem grandes chances de ter em Tarcísio um candidato competitivo, desde que ele venha a contar com a indicação de Bolsonaro. Mas tudo mostra que Bolsonaro prefere perder com um dos seus a ganhar com Tarcísio. O Centrão está empenhado em convencer o PL a aceitar um vice-presidente que não tenha o sobrenome Bolsonaro, prevendo que são grandes as chances de vencer a eleição com uma chapa puro-sangue da direita reunindo Tarcísio e um dos seus líderes políticos, como o senador Ciro Nogueira ou a senadora Tereza Cristina.

Sem Tarcísio na disputa, todos os demais governadores de direita são iguais, não há nenhum que se destaque na busca do voto. Seria mais fácil para os Bolsonaros disputar uma eleição para perder de Lula, mas impondo-se como verdadeira liderança da direita em nível nacional. Essa estratégia de longo prazo também encontra dificuldades, pois Lula acaba de vetar a parte da mudança na Lei da Ficha Limpa que alterava a contagem da penalidade prevista na legislação para o crime pelo qual Bolsonaro foi condenado no TSE. Desse modo, a ala bolsonarista terá de se dedicar, além de à tentativa de anistia irrestrita que dificilmente passará no Senado, a derrubar o veto de Lula.

A oposição tem voto suficiente para obstruir a aprovação de pontos importantes para o governo, como mostrou ontem mesmo, impondo perda eventual de R$ 25 bilhões ao governo caso a Medida Provisória que taxa o mercado financeiro e alguns setores para compensar a cobrança do IOF não seja aprovada na reunião marcada para um dia antes de seu vencimento. O próprio Bolsonaro, porém, cava sua derrota ao não permitir que a direita se una em torno de um candidato competitivo.

Claro que qualquer candidato que vá para o segundo turno contra Lula terá apoio de todo o espectro da direita, mas é provável que o grupo do centro, que costuma decidir eleições muito equilibradas, tenha menos incentivo para ir à direita se a chapa oposicionista for extremista. Os ventos sopram para a reeleição de Lula, como já sopraram para a vitória do bolsonarismo. No ano que falta para as eleições, os dois grupos, igualmente liderados por personalidades populistas, enfrentarão altos e baixos e podem abrir caminho a um candidato fora dessa polarização.

Além de todos os problemas de calendário, Tarcísio enfrenta a questão da instabilidade dos Bolsonaros. Foi assim na disputa da Prefeitura de São Paulo, quando o ex-presidente quase apoiou Pablo Marçal, no momento em que ele parecia ter encontrado o caminho da vitória. Não há segurança de que Bolsonaro apoiará o candidato da direita até o final da campanha, a não ser que seja de sua famiglia.

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quarta-feira, 1 de outubro de 2025

CLAUDETTE SOARES, 90 ANOS

Do Blog do Mauro Ferreira, g1

Aos 90 anos, Claudette Soares finaliza álbum com músicas inéditas em que canta Marcos Valle e Tim Bernardes

Repertório também inclui composições de Joaquim, Roberto Menescal, Nando Reis e Zé Renato.

♫ NOTÍCIA

♪ Claudette Soares inicia este mês de outubro de 2025 às voltas com as comemorações dos 90 anos de idade. Nascida em 31 de outubro de 1935, e não em 1937, como afirmam equivocadamente algumas fontes na internet, a cantora carioca chega aos 90 anos com a pele do futuro. Claudette finaliza álbum com músicas inéditas arquitetado por Marcus Preto em 2023.

Falta somente a cantora pôr voz em três músicas para concluir o disco produzido por Preto em parceria com Thiago Big Rabello.

Inédito, o repertório do álbum inclui Batuque bom (primeira parceria de Marcos Valle com Tim Bernardes), Esse escurinho é você (música que abre outra parceria, a de Roberto Menescal com Joaquim), Feliz (Zé Manoel e Ronaldo Bastos), Natural (Zé Renato e Nando Reis) e Viva (Marcos Valle e Arnaldo Antunes).

Em vez da nostalgia da modernidade, da idealização romântica da juventude e do lamento pelo que já passou, Claudette Soares propõe afirmar o tempo atual como território de prazer com este álbum em que celebra os 90 anos da vida.

Durante o processo inicial de gravação do disco, em 2024, a cantora lançou single com música inédita de Guilherme Arantes nessa mesma linha de afirmação dos dias de hoje, O prazer de viver para mim é você, gravada com o compositor.

Enquanto o álbum não fica pronto, Claudette Soares celebra os 90 anos com show na casa paulistana Bona, agendado para 31 de outubro, dia em que a cantora se torna nonagenária. Amiga de Claudette, Alaíde Costa – cantora que fará 90 anos em dezembro – integra o time de convidados da festiva apresentação.

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MORRE JANE GOODALL

Do g1

Jane Goodall, defensora do meio ambiente e 'amiga dos chimpanzés', morre aos 91 anos

Pioneira em primatologia, ambientalista revelou semelhanças entre humanos e primatas na década de 1960. Ao longo da carreira, aproximou o público do meio ambiente e virou referência mundial.

A cientista e ativista global Jane Goodall morreu nesta quarta-feira (1º), aos 91 anos, informou o Instituto Jane Goodall. Segundo a entidade, a causa da morte foi natural. Ela estava na Califórnia, em meio a uma turnê de palestras nos Estados Unidos.

Reconhecida por transformar a paixão de infância pelos animais em uma vida dedicada à ciência e à proteção ambiental, Jane revolucionou a primatologia e inspirou gerações. Ela ficou mundialmente conhecida como "amiga dos chimpanzés".

"As descobertas da Dra. Goodall como etóloga revolucionaram a ciência, e ela foi uma incansável defensora da proteção e da restauração do nosso mundo natural", diz o comunicado.

Nascida em Londres em 1934, cresceu em Bournemouth, no sul da Inglaterra, alimentando desde cedo o sonho de viver entre animais selvagens. Trabalhou como secretária até viajar para o Quênia em 1957, onde conheceu o antropólogo Louis Leakey, que a orientou na pesquisa com chimpanzés.

Nos anos 1960, em Gombe, na Tanzânia, ela foi a primeira a mostrar que chimpanzés tinham comportamentos semelhantes aos humanos: eram capazes de usar ferramentas, caçar em grupo, manter laços familiares e demonstrar emoções. Ao dar nomes em vez de números aos animais e registrar suas personalidades, quebrou padrões da ciência da época.

Ao longo da carreira, ampliou a atuação para a defesa do clima e do meio ambiente, após presenciar a devastação de habitats. Fundou em 1977 o Instituto Jane Goodall, que mantém centros de pesquisa e programas de conservação pelo mundo, além do projeto Roots & Shoots, voltado à educação ambiental de crianças e jovens.

No Congo, um dos santuários apoiados por Jane ficou marcado pela história de Wounda, uma chimpanzé fêmea resgatada do tráfico de animais. Ela chegou ao local ainda filhote, ferida pelo mesmo tiro que matou a mãe. Foi tratada e reabilitada até poder voltar à natureza já adulta. A despedida entre Jane e Wounda emocionou o mundo.

Suas descobertas mudaram a compreensão sobre os primatas e a relação dos humanos com o mundo natural. “Não existe uma linha rígida separando os humanos do restante do reino animal”, afirmou em uma palestra em 2002.

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Goodall se tornou referência mundial também por seu engajamento político. Em 2003, recebeu o título de Dama do Império Britânico, e neste ano foi agraciada com a Medalha Presidencial da Liberdade nos Estados Unidos.

Nos últimos anos, Jane viajava em média 300 dias por ano, reunindo-se com líderes locais, escolas e comunidades para defender ações urgentes contra as mudanças climáticas. Mesmo na casa dos 90 anos, seguia em atividade.

Em 2023, Jane fez sua primeira imersão na floresta amazônica. A viagem foi acompanhada pelo Fantástico.

Jane publicou mais de 30 livros com seus estudos, entre eles o best-seller Reason for Hope: A Spiritual Journey (1999), além de uma dúzia de títulos voltados para crianças.

Ela sempre afirmou acreditar na resiliência do planeta e na capacidade humana de enfrentar os desafios ambientais.

“Sim, há esperança… Está em nossas mãos, nas minhas e nas suas, e nas de nossos filhos. Cabe realmente a nós”, disse.

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O ULTIMATO DOS GENOCIDAS

Do IHU

O ultimato dos genocidas. Entrevista de Jeffrey D. Sachs

Por que o “acordo” proposto por Trump e Netanyahu para Gaza é um ultraje. O que ele revela sobre a pequenez moral do presidente dos EUA, a crise interna de Israel e a necessidade de superar a “ordem” internacional comandada pelo Ocidente.

A entrevista é de Andrew Napolitano, publicado por Outras Palavras, 30-09-2025. A tradução é de Antonio Martins.

Poucas cenas expressam o declínio político e ético do Ocidente quanto o “acordo” de paz proposto ontem por Donald Trump ao primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu. Apresentada ontem (29/9) em meio ao genocídio contra a população de Gaza, a proposta surgiu sem qualquer consulta à liderança palestina. Foi lançada na forma de um ultimato. Ou o Hamas, que dirige o enclave, a aceita, ou Tel aviv terá carta branca para tornar ainda mais brutal a carnificina, anunciou Trump a um sorridente Netanyahu.

Os termos, esboçados num plano de vinte pontos, ignoram as resoluções da ONU e o apoio internacional cada vez mais amplo a um Estado palestino. Ao invés disso, propõem a formação de um “governo tecnocrático” em Gaza. Seria comandado por ninguém menos que o próprio Trump – com assessoria do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, um dos grandes responsáveis pela invasão do Iraque, que matou mais de 1 milhão de pessoas, e ignorou igualmente a comunidade internacional, mas terminou num fracasso humilhante para os EUA.

Estudioso atento da geopolítica internacional, o economista norte-americano Jeffrey Sachs analisou ainda ontem, em entrevista a Andrew Napolitano, a proposta. Expôs seu contexto caótico. Israel vive há três anos – desde que iniciou o genocídio contra Gaza – em crise econômica. Parte relevante da população emigrou, um fenômeno especialmente forte entre a juventude e as camadas com formação tecnológica. O isolamento internacional se agudiza. No entanto, num mundo em crise, este declínio não é capaz de deter a máquina de guerra. Ao contrário: Sachs adverte o Irã sobre a inconveniência de lançar apelos à paz. Eles serão interpretados por Telaviv e Washington como sinal de fraqueza e convite a novos ataques mortíferos.

A entrevista, traduzida por Outras Palavras e editada para eliminar repetições típicas da oralidade (foi feita originalmente em vídeo) convida a refletir sobre a necessidade de uma nova ordem internacional. A que foi comandada pelo Ocidente no pós-II Guerra – e em especial após a vitória norte-americana na Guerra Fria – está caduca. E dá mostras seguidas de que conduzirá a humanidade ao desastre (A.M.)

Eis a entrevista.

Professor Sachs, bem-vindo. Vamos direto ao noticiário do momento, que é o anúncio, feito pelo presidente Donald Trump, ao lado do primeiro-ministro israelense Benyamin Netanyahu, de um “acordo” para pôr fim à guerra em Gaza. Que fique claro: é umacerto entre os Estados Unidos e Israel; não entre Israel e seus adversários… Um plano para dizera ao Hamas que ele não tem escolha, a não ser concordar. Se não o fizer, o presidente Trump apoiará totalmente os esforços de Netanyahu para destruir tudo o que for vivo na Faixa de Gaza. Para onde isso vai levar?

É um em um típico ato de confusionismo trumpiano. O que poderia produzir a paz está claro. É um Estado da Palestina criado lado a lado com o Estado de Israel: o fim da negação do Estado palestino, junto com o fim do Hamas como força militar. Haveria um desfecho político, e um desfecho de segurança ligado a ele. Ao vincular o político e a segurança, você obteria o aceite de todos os países da região.

O que Trump está oferecendo não faz isso. O presidente diz que o movimento deve se render por completo, libertar os reféns e então… veremos! Israel se retiraria militarmente de Gaza passo a passo, mas teria arranjos de segurança gerais no enclave. O que está sendo oferecido — infelizmente, porque os EUA são um mediador desonesto, um apoiador do sionismo – é que o Hamas acabe com sua resistência, e o que virá politicamente… vamos ver!

Observe o contexto. O primeiro-ministro Netanyahu disse na semana passada, na ONU que, sob nenhuma circunstância, haverá um Estado da Palestina. A posição israelense é: nós sabemos o que vem, nada. O Hamas deve se desarmar. Israel deve manter o controle sobre Gaza. Talvez haja até algum tipo de retirada em etapas, mas nunca espere um Estado palestino. Isso foi reiterado ainda em 29/9, numa reunião do Conselho de Segurança, pelo embaixador de Israel na ONU.

Nesse arranjo, Gaza seria presidida por ninguém menos que o presidente Trump, supostamente apoiado pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.

Também está claro, e foi dito, que o Hamas não foi de forma alguma parte deste chamado “acordo” entre os EUA e Israel. Não houve nenhuma negociação. Há poucos dias, ao contrário, Israel tentou matar os negociadores do Hamas que estavam no Catar, considerando os termos para um cessar-fogo. É um arranjo típico de como as coisas funcionam atualmente. Tudo é deixado ambíguo, porque Trump politicamente não está interessado, ou não é capaz de clareza em quase nada o que faz. Isso exigiria acompanhamento, consistência, diplomacia. Ele não opera dessa forma. Temos, por isso, um acordo mal-elaborado que pode significar nenhum acordo. Pode ser simplesmente rejeitado por Netanyahu quando ele entrar no avião, ou aterrissar em Israel, ou alegar que o Hamas discorda de certo ponto.

Israel reservou-se o direito de não cumprir nada. Muito provavelmente, os combates continuarão. Se eles terminassem, o que seria maravilhoso, a verdadeira questão seria que a comunidade internacional, fora Israel e os Estados Unidos, reconhece esmagadoramente que precisa haver um Estado da Palestina. Não sei se fui claro.

Certamente. É um absurdo chamar isso de acordo de paz. É apenas um acordo entre o primeiro-ministro de Israel e o presidente dos Estados Unidos. Foi, aliás, condenados pelos dois principais membros de ultradireita no govrno de Netanyahu: Bezael Smotrich e Itamar Ben-Gvir. E Tony Blair atuaria em que papel? Fiador colonial?

Tony Blair, lembrem-se, foi o grande defensor da guerra no Iraque. É o grande reflexo do pensamento imperial britânico, que se mantém até hoje apesar do declínio. Quando você ouve Donald Trump, Tony Blair e o Banco Mundial, é, basicamente, a continuação de cem anos de tentativa britânico-americana de governar o mundo e permitir que Israel domine o povo palestino.

O pior é que tudo isso se dá num contexto de assassinato em massa, de massacre. Todos queremos que haja um cessar-fogo, urgente. Isso deveria ocorrer em negociações políticas, de acordo com a justiça internacional, o direito, os padrões, a honestidade. Mas o que acaba de ser anunciado é, na melhor das hipóteses, confusionismo. O presidente está pedindo ao mundo: “Confiem em mim, eu sou Donald J. Trump.”

Não há detalhes, nem especificidades. Eles saem da entrevista coletiva em meio a névoa, numa situação tão opaca que parece bizarra. Eles têm a manchete que queriam. Netanyahu está dizendo: “Eu apoio o plano do presidente.” Mas todo o resto é uma névoa completa.

Quão ruim está a situação em Israel, depois do que Netanyahu fez o país passar nos últimos dois anos e meio?

Israel está em situação hemorrágica. Está perdendo talento: os jovens não querem morar lá. E Centenas de milhares de pessoas estão deixando o país. O turismo, é claro, entrou em colapso.

Cada vez mais países vão simplesmente interromper as relações econômicas com Israel. Já temos mais de três quartos dos países reconhecendo o Estado da Palestina, ao qual Israel jurou opor-se. Por isso, quase não importa o que aconteça nos próximos dias com este suposto plano de paz. Seja ele qual for, haverá sentimentos muito agressivos, e um isolamento de Israel.

E só podemos imaginar, em qualquer circunstância, a tragédia que virá. Um oficial com quem falei esta tarde previu que a guerra não só continuará, como se estenderá à Cisjordânia. Israel fará o que puder para acabar com a Autoridade Palestina. Já começou uma campanha de propaganda para dizer que a região é o viveiro do terrorismo e de armamentos, e muita propaganda que parece claramente voltada a acabar com qualquer esperança de um Estado palestino.

Voltando à sua pergunta sobre a economia, Israel ficará cada vez mais isolado e cada vez mais pessoas que vão sair. As consequências são muito más, olhando para qualquer tipo de futuro previsível, até que haja uma paz real e um Estado da Palestina. Esta é a única maneira de promover a paz: um fim à dominação, ao assassinato e ao regime de apartheid de Israel sobre o povo palestino. Infelizmente, nada disso ocorrerá, segundo o que ouvimos esta tarde. E é possível traçar um veredito muito negativo para a economia israelense.

O que eles têm agora? Têm espionagem. São muito bons nisso, em assassinatos e em sistemas de armas. Mas a maior parte do resto da economia, o setor de serviços, o do turismo… O que se pode dizer sobre um lugar que está em guerra perpétua?

Qual é a sua opinião sobre o presidente Masoud Pezeshkian, do Irã, que promete em não construir uma arma nuclear? Qual sua sinceridade e o significado, no governo e na sociedade iraniana, dafatwa contra armas atômicas?

Existe um fatwa, um decreto religioso lançado há muito tempo, segundo o qual o Irã não deve construir uma arma nuclear. Eles têm seguido isso.

O fato, é claro, foi interpretado como uma fraqueza por Israel e pelos EUA; portanto, como um convite para atacar o Irã repetidamente, incluindo assassinatos de cientistas, líderes políticos e militares iranianos.

Não tenho dúvidas de que Israel tentará assassinar mais líderes iranianos. Infelizmente para o Irã, estas declarações de paz, que são feitas repetidamente e já duram há bem mais de uma década, são um recado para Telaviv. Quando o Irã diz querer paz, Israel reflete: “Ótimo, agora vamos matá-los. Isso mostra que são fracos.” É o que me preocupa.

Acontece que o presidente do Irã é também um médico que leva muito, muito a sério sua responsabilidade ética. Ouvi-o falar longamente sobre isso: quando se tem um paciente sobre mesa e se deve operá-lo, não importa quem ele seja — é seu dever salvar essa pessoa.

Ele discorreu longamente há poucos dias, e fez uma declaração muito pessoal a esse respeito. Mas tenho medo de que a CIA e o Mossad digam: Que ótimo. Vamos simplesmente eliminá-los.” Acho que, sem dúvida, é o que está sendo planejado neste momento.

Netanyahu corre o risco de perder seu governo e seu cargo? Podemos especular sobre o que vai acontecer com ele nessas condições. Em outras palavras, Ben-Gvir e Smotrich e seus colegas vão deixar o governo?

Netanyahu não vai deixar isso acontecer. Ele não é uma pessoa de paz. É um homem com sangue nas mãos e não tem absolutamente nenhuma intenção de perder o seu cargo. Vai encontrar uma maneira fácil de dizer que, bem, o Hamas não pontuou o i ou não cruzou o t, ou espirrou no momento errado, e isso foi um sinal para mais terrorismo…

Ele vai inventar o que quiser para não perder sua coalizão extremista e assassina, que está dedicada acima de tudo ao controle completo de Israel sobre Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

Em outras palavras, não há a partir deste “acordo” nenhuma possibilidade de um Estado palestino. E se há alguma dúvida sobre isso, é só ouvir de novo. Eu sugiro a qualquer um: ouça novamente o discurso do Netanyahu na ONU, porque ele foi o mais claro possível: sob nenhuma condição … nunca haverá um Estado palestino.

E Netanyahu não permitirá qualquer distanciamento de seus colegas extremistas, porque ele é igualmente extremo. E o que foi dito hoje não importará amanhã, nesse aspecto. Qualquer coisa que ponha em risco esta coalizão será bloqueada por Netanyahu. E ele está se preparando para a sua próxima campanha eleitoral, em algum momento.

Vai apresentar-se como a pessoa que tornou o Estado palestino impossível para sempre. Seja matando todos os palestinos ou fazendo o que fizer, é nisso que ele vai basear a campanha. E pode ter certeza de que o que for acordado agora entre Israel e os Estados Unidos terá isso como um subtexto.

Que vergonha esse homem é. “Deixe o meu povo ir,” diz o homem que está escravizando, aprisionando e assassinando milhões de palestinos. Refere-se aos 20 ou mais reféns, não aos milhões de pessoas que estão morrendo de fome, brutalizadas, trancadas num gigantesco campo de concentração, expropriadas por ele.

É uma perversidade tão grande, mas é o que temos. E sim, ele ri satisfeito com a capacidade da Mossad de infiltrar os telefones dos libaneses. Continua com o deleite infantil diante dos pagers com armadilhas, que mutilaram e mataram muitas pessoas inocentes no Líbano há meses, num ataque para tentar assassinar os líderes do Hezbollah. Fez isso assassinando também mulheres e crianças, em lojas e mercados ou andando pela rua. Eles são muito orgulhosos desta tecnologia da morte.

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BOLSONARO NÃO CONTROLA O FILHO NEM O BOLSONARISMO

Thaís Oyama, O Globo

Filho Zero Três do ex-presidente convenceu-se de que é preferível a direita perder a eleição para Lula a vencer com Tarcísio

Eduardo Bolsonaro não é apenas o filho incontrolável de Jair Bolsonaro. O deputado do PL é também um dos líderes da gigantesca blogosfera bolsonarista que um recente estudo do Cebrap chamou de “Partido Digital Bolsonarista” — uma organização que se aproveita do abrigo de um partido institucional, o PL, para disputar o poder a partir de um feixe de influenciadores unidos em torno da figura de Jair Bolsonaro.

Eduardo busca agora pôr essa engrenagem digital — uma usina de replicação de mensagens que opera sem trégua, dispara ataques coordenados e convoca multidões num estalar de dedos — a serviço de um projeto que encanta o governo. O filho Zero Três do ex-presidente convenceu-se de que é preferível a direita perder a eleição para Lula a vencer com Tarcísio de Freitas.

O raciocínio dele, exposto a mais de um interlocutor, é que, caso Tarcísio se candidate a presidente e vença a eleição, o “bolsonarismo raiz” — de que Eduardo se vê como representante dinástico — será alijado da nova administração, tal e qual ocorreu em São Paulo. Lá, Tarcísio, indicado candidato ao Palácio dos Bandeirantes por Bolsonaro, tão logo venceu a disputa, tratou de varrer os bolsonaristas do pedaço, afirma o deputado. Sendo assim, ele fará uma grande jogada se torpedear a hipótese Tarcísio 2026 colocando a si próprio como opção à Presidência, como ameaçou. Desse modo, contando com uma derrota da direita, se manterá na oposição nos próximos anos e se tornará o “grande agregador” desse campo em 2030, quando sonha em, de fato, disputar a eleição presidencial.

O racha da direita, com o surgimento de uma dissidência incorporada por Eduardo ou por ele chancelada, sempre foi o grande receio de Tarcísio. Foi a confirmação desse medo, alimentado pelas ameaças em elevados decibéis disparadas por Eduardo, a principal razão das recentes reafirmações de que não será candidato à Presidência. Ao longo da semana passada, Tarcísio chegou a trocar telefonemas com um chefe do Centrão em Brasília para avaliar o eventual apoio à candidatura ao Planalto do governador do Paraná, Ratinho Junior, do PSD.

Se o projeto Tarcísio sempre poderá voltar aos trilhos, o de Eduardo 2026 já surge descarrilado. Além dos prováveis impedimentos pela via da Justiça, uma cassação de mandato por quebra de decoro também pode torná-lo inelegível. A “neutralização eleitoral” de Eduardo, porém, será insuficiente para que a direita, que ele ora atormenta, respire aliviada. No cerne do Partido Digital Bolsonarista — ao lado das hashtags família, tradição e ataques ao STF — , está a ideia da guerra contra o establishment, representado pelo STF, pela imprensa e pela velha elite política (a mesma de que o mito fundador do bolsonarismo se socorreu em situação de aperto no passado e a que continua se agarrando agora, mas isso a blogosfera prefere não lembrar).

É o ethos do bolsonarismo raiz — o confronto institucional —, somado ao clima de pé de guerra criado por Eduardo, que reduz as chances de o bolsonarismo digital digerir qualquer candidato escolhido pelo “sistema”. Tal constatação faz palpitar no coração do Centrão o medo de que, com ou sem Tarcísio, o Partido Digital Bolsonarista continue a atormentar a direita com o fantasma da divisão — seja pela invenção de outro nome que não Eduardo, seja pela criação de uma campanha pelo voto nulo, um voto “antissistema”.

Bolsonaro, livre, já deu mostra de não controlar o bolsonarismo quando, nas eleições municipais de São Paulo, apoiou o candidato do Centrão e a blogosfera preferiu Pablo Marçal. Agora, da caverna escura da sua prisão domiciliar, menos ainda pode fazer para conter o que já provou ter vida própria — sem falar na incapacidade de segurar o filho que, como estrategista da direita, vem se mostrando um ótimo cabo eleitoral de Lula.

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BOLSONARISMO EDUARDISTA QUER O CONTROLE DA DIREITA BRASILEIRA

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Filho considera o pai como refém, não reconhece Tarcísio e nem mesmo a eleição de 2026 sem o sobrenome de Jair nas urnas

Eduardo Bolsonaro desenvolve o seu pós-Bolsonaro – pós-Jair, para não haver dúvida. Pós-pai. A superação político-eleitoral do pai. A constituição desse movimento está explícita. Eduardo propõe uma dissidência bolsonarista, que se organiza em função do monopólio (desafiado?) do acesso à Casa Branca e da imposição do que se tornaria a pauta única da direita brasileira: a anistia, tão difícil de alcançar quanto eficaz em interditar a ascensão de liderança que não da família.

Não tem negócio. Jair Bolsonaro inelegível, incontornavelmente inelegível, todo mundo se organizando em função dessa inelegibilidade – e o bolsonarismo eduardista sustentando a agenda, a da anistia “ampla, geral e irrestrita”, que engessa a direita e lhe garante poder e centralidade sobre o espólio de Jair. Tem método.

“Em 2026 será Bolsonaro” – escreveu Paulo Figueiredo, a inteligência influente que formula e pauta Eduardo. Em 2026 será Bolsonaro. Não necessariamente Jair – interpreta o cronista.

O bolsonarismo eduardista considera Jair Bolsonaro um “refém”, donde impossibilitado de avaliar o cenário. Um frágil; manipulado, chantageado mesmo, para chancelar o “pacto republicano” em função de Tarcísio, encarnação da “direita permitida”. O ex-presidente seria um incapaz – é o que se comunica. Daí a proposta eduardista de superação a Jair em defesa de Jair – em proteção a Jair. O filho que, pelo pai, não obedecerá (mais) ao pai. Está dito. Todo mundo quer encostar Jair – um ex-presidente passivo, a reboque, seja do bolsonarismo eduardista, seja do bolsonarismo de oportunidades de Ciro Nogueira.

Jair Bolsonaro seria refém sobretudo do bolsonarismo de oportunidades – assim denuncia o bolsonarismo eduardista. Refém de Valdemar e turma. O ex-presidente – este é o pressuposto – estaria sequestrado, homem doente, inepto para decidir. Inepto para liderar. Inepto para orientar. Qualquer pesquisa nas redes bolsonaristas ligadas a Eduardo empilhará qualificações dessa natureza para o velho Jair, o verdadeiro coagido, em cuja goela querem – os aliados traidores – enfiar o acordão.

A opção Tarcísio por futuro de um Jair livre representaria jogada para “exterminar a direita” – direita aqui entendida sob o modo totalitário bolsonarista. Eduardo pretende ser candidato a presidente com ou sem o apoio do pai; e reagiu dessa maneira, em entrevista ao Metrópoles, à possibilidade de também ele não poder concorrer. Apoiaria Tarcísio? “Se eu estiver inelegível porque fui condenado pela minha atividade nos EUA, eu acho provável que os EUA não reconheçam a eleição do Brasil.”

Eduardo nos informa diariamente que o bolsonarismo eduardista, mais do que não reconhecer Tarcísio, não reconhecerá a legitimidade da eleição, a Magnitsky estacionada sobre o Brasil. Eduardo estará inelegível. Mais do que projetar candidatura, projeta a inevitabilidade da dissidência, projetada também a impossibilidade de controlá-la.

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FACHIN MOSTROU A QUE VEIO

Elio Gaspari, O Globo

O ministro cortou a festa e condenou os espetáculos

O ministro Edson Fachin assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal ao seu estilo, com um discurso longo, tedioso e até descuidado. Misturou num mesmo parágrafo seu compromisso com a liberdade de imprensa e com o “bem-estar dos servidores”. Ainda assim, disse a que veio, com boas notícias. Por exemplo:

— A prestação jurisdicional não é espetáculo. Exige contenção.

Ou:

— Assumo aqui compromisso de uma gestão austera no uso dos recursos públicos pelo Judiciário. A diretriz será a austeridade.

Fora do mundo das palavras e promessas, Fachin resgatou a tradição de Rosa Weber e cancelou a pajelança com que lobistas festejam posses. Há registro de eventos com a presença de magistrados para provar uísques, na Europa, com patrocínio de um banco mambembe.

O Judiciário brasileiro alterna momentos de brilho com maus hábitos de vilegiaturas, mordomias e penduricalhos. Se Fachin persistir no exemplo, influenciando a bancada da charanga, todo mundo terá a ganhar. Nem todos os ministros do STF formam essa bancada, mas são eles que acabam passando a impressão de que o tribunal é uma festa móvel, fazendo de cada feriadão um pretexto para excursões. Ministros do Supremo fazem-se acompanhar por seguranças e, num caso, chegaram a reclamar porque o consulado do Brasil em Nova York descuidou de contratar escolta.

Os magistrados austeros levam uma desvantagem quando são comparados aos juízes espetaculares. Numa corporação de 18 mil juízes, tem-se de tudo, mas o magistrado que evita os refletores acaba vítima da própria virtude. Sucede com os juízes algo que envenena parte da corporação militar. Ninguém ouve quem só fala nos autos, e ouve-se quem fala de tudo, a qualquer hora. Magistrados como Rosa Weber podem até ser a norma, mas não chamam a atenção.

Mesmo tendo uma sucessão presidencial durante seu período na presidência do tribunal, pode-se estimar que Fachin terá um biênio tranquilo, sem o vandalismo do 8 de Janeiro e sem as tensões que acompanham o processo da trama golpista.

Se o novo presidente do Supremo Tribunal Federal viajar em avião de carreira, sem capangas, terá dado um bom exemplo. Não passa pela cabeça de um juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos viajar com escolta para eventos empresariais. O que o Supremo Tribunal precisa é do exemplo de austeridade, e Fachin sempre se manteve ao largo das farofas. Esse magistrado de 67 anos chegou ao tribunal durante o governo de Dilma Rousseff e completou dez anos na cadeira sem as marcas do deslumbramento que viraram a cabeça de alguns de seus pares.

Fachin vem de uma cepa de colonos gaúchos que ajudaram a construir o Paraná. Foi estudar na cidade grande, levando consigo apenas a passagem de ida. Pouco a ver com carreiras de magistrados de salão.

Em seu discurso de posse, Fachin falou de quase tudo, alternando platitudes e promessas. Se ao fim de dois anos ele tiver deixado a marca da austeridade, terá continuado a obra de Rosa Weber, uma presidente do tribunal que não aparecia em farofas e pouco falava.

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