quinta-feira, 3 de setembro de 2026

LIMA BARRETO, A CONSTITUIÇÃO DE BRUZUNDANGA E A CRISE NO SUPREMO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Supremo se reuniu, mas não tratou do assunto. Havia muita tensão no ar. O presidente do STF, Edson Fachin, reconheceu a gravidade da situação

Descendente de escravizados, Lima Barreto (1881-1922) foi um ponto fora da curva na literatura brasileira. Negro, pobre e vítima de preconceito, conheceu por experiência própria os mecanismos de exclusão da República recém-instalada. O autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909) e Triste fim de Policarpo Quaresma (1015) denunciou o o racismo, o bacharelismo, o arrivismo político e a distância entre as instituições e a sociedade.

Em Os Bruzundangas (1922), sua obra mais política, Lima Barreto construiu uma sátira devastadora dos primórdios da República, que permanece atual um século depois. Imaginou um país cuja Constituição proclamava direitos universais, mas continha uma cláusula destinada a proteger os poderosos da “situação”. A Justiça de Bruzundanga era chamada de “Chicana”.

Sua Suprema Corte não começava pelo exame da lei, mas pela identidade das pessoas que poderiam ser atingidas. “Havia artigos muito bons, como por exemplo o que determinava a não acumulação de cargos remunerados e aquele que estabelecia a liberdade de profissão; mas, logo, surgiu um deputado prudente que estabeleceu o seguinte artigo nas disposições gerais: ‘Toda a vez que um artigo desta Constituição ferir os interesses de parentes de pessoas da “situação” ou de membros dela, fica subentendido que ele não tem aplicação no caso’.”

A analogia com a crise do Supremo Tribunal Federal (STF) é pertinente, embora não possa ser levada ao extremo de negar a existência das garantias constitucionais ou de antecipar a culpa dos envolvidos. A sátira ilumina o dilema central da Corte no caso Master: saber se as leis serão aplicadas com o mesmo rigor quando as suspeitas alcançam integrantes das instituições encarregadas de aplicá-las.

O ministro André Mendonça tornou público relatório da Polícia Federal (PF) que reúne mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, que teria enviado comunicações a Alexandre de Moraes no período mais crítico das investigações. “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”, perguntou. Em outra mensagem, quis saber se “com Andrei dá pra segurar”. Pouco antes de ser preso, questionou: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.

 

A PF interpreta que “Paulo” seria o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e “Andrei”, o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues. As mensagens revelam o que Vorcaro pretendia, porém, as respostas atribuídas a Moraes não foram recuperadas. Essa ausência não elimina a necessidade de esclarecimentos. O caso se tornou mais grave com a revelação de que Moraes participou da análise da minuta do contrato entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, dirigido por sua mulher, Viviane Barci de Moraes. O contrato previa pagamentos milionários.

Paradoxos

O escritório sustenta que o ministro foi consultado apenas para verificar possíveis impedimentos legais. Mas isso não encerra a questão ética. É necessário esclarecer a extensão da participação do magistrado, os serviços efetivamente prestados e a existência de eventual conflito de interesses. O conjunto de mensagens, encontros e relações contratuais é incompatível com o silêncio.

A reação da PGR aprofundou o impasse. Gonet pediu a anulação das provas que citam Moraes, sob o argumento de que Mendonça não teria competência para determinar investigações contra outro ministro e de que cabe ao Ministério Público conduzir a persecução penal. Provas obtidas fora das regras de competência de fato podem ser anuladas. Mas o fato de o próprio procurador-geral aparecer nas mensagens torna insuficiente a resposta limitada à nulidade.

Surge o paradoxo da Bruzundanga: se Mendonça não pode conduzir a apuração e se a PGR, atingida pelas referências, pretende invalidá-la, quem investigará os fatos com independência? A proteção das prerrogativas processuais não pode impossibilitar a investigação dos fatos. Caso isso ocorra, é aquela “elasticidade extraordinária” denunciada por Lima Barreto.

Ontem, surgiu a informação de que Mendonça teve um encontro com Vorcaro antes de tornar-se relator do caso e, recentemente, colheu depoimento do banqueiro, que denunciou supostas ameaças e intimidações da PF. E o plenário do Supremo se reuniu, mas não tratou do assunto. Havia muita tensão no ar. O presidente do STF, Edson Fachin, antes da reunião, reconheceu a gravidade da situação e advertiu que a Corte impõe “deveres, limites e responsabilidades”.

Fachin pode assegurar um exame colegiado do caso. O Plenário pode reorganizar a investigação. Moraes deveria prestar esclarecimentos, entregar documentos e se afastar dos processos relacionados ao Master. Se a apuração for sufocada ou conduzida como guerra interna, com vazamentos e retaliações, o Supremo mergulhará numa crise ainda mais destrutiva.

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NA CRISE INSTITUCIONAL, A RÉGUA TEM QUE SER A MESMA PARA TODOS

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Em ano eleitoral, os riscos associados a quadro de descrédito para a democracia e a economia se multiplicam

André Mendonça tem obrigação de adotar os mesmos procedimentos para todos e deveria derrubar o sigilo de 'Dark Horse'

A crise institucional pela qual passa o Brasil é tão grave que a sociedade perdeu totalmente o parâmetro de confiança nos principais atores da cúpula da República.

Em ano eleitoral, os riscos associados a esse quadro de descrédito para a democracia e a economia se multiplicam.

No Supremo, são os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli envolvidos diretamente com Daniel Vorcaro sem dar explicações.

No Congresso, lideranças das duas Casas, da oposição e do governo, ligadas aos escândalos do Master e do INSS.

Na oposição, os milhões pedidos pelo presidenciável Flávio Bolsonaro ao "irmão" Vorcaro para o filme "Dark Horse", sem a prestação de contas até agora e com suspeitas de lavagem de dinheiro a fim de financiar as atividades de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

No Executivo, as investigações da PF apontam que Marcola, ex-chefe do gabinete pessoal do presidente Lula, recebeu vantagens financeiras indevidas de uma lobista. O filho do presidente, o Lulinha, investigado pela PF.

Nos governos estaduais, os ex-governadores Ibaneis Rocha (DF) e Cláudio Castro (RJ) no círculo das fraudes do Master.

Na PGR, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi citado em mensagens do celular de Vorcaro em que há pedidos para conter investigações.

É pertinente cobrar do ministro do STF André Mendonça, da PGR e dos diversos grupos de investigadores da PF que apliquem a mesma régua e os mesmos procedimentos para todos.

A cobrança sobre Mendonça tem que ser maior, já que é o relator dos casos Master e INSS. O ministro omitiu que se encontrou com Vorcaro. Não pode se achar o Messias, o salvador da pátria. Deveria derrubar o sigilo da investigação do filme para mostrar coerência e afastar a desconfiança de interferência nas eleições.

A sociedade está sem referências de onde possa depositar confiança e esperança. Os empresários pedem a volta da estabilidade institucional. A população está cansada dessa pancadaria.

Não é à toa que um nome sem nenhuma expressão política, Augusto Cury, atinge 11% das intenções de voto.

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STF EM PONTO DE NÃO RETORNO

Eloísa Machado de Almeida, Folha de S. Paulo

Mendonça rejeita solução a portas fechadas ao retirar seletivamente sigilo de relatório da PF

Vazamentos calculados e seletivos também fizeram desconfiança se alastrar pelo tribunal

Os desdobramentos do caso Master fizeram o STF (Supremo Tribunal Federal) entrar na maior crise de sua história. Isso porque, na esteira das investigações sobre fraudes contábeis e financeiras bilionárias, tem sido revelada uma rede de influência que abrangeria deputados, senadores, servidores do Banco Central e membros da corte.

Nas conversas oriundas do telefone apreendido de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e em documentos da investigação, ministros do Supremo figuram realizando negócios com o banco, recebendo mimos e viagens, debatendo casos de interesse de Vorcaro em reuniões privadas, além de terem seus familiares contratados pelo banco.

Os ministros Kassio Nunes Marques, Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, além do próprio André Mendonça e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, aparecem nessa ampla rede de influência.

A primeira reação do Supremo diante desses fatos foi tratar do assunto como uma impropriedade e fazer reuniões a portas fechadas, adotando medidas que confundiram preservação pessoal de ministros com defesa institucional do tribunal. A mudança da relatoria do caso, de Dias Toffoli para André Mendonça, foi uma tentativa de conter a crise com um acordo à margem do procedimento. Em vão.

Com vazamentos calculados e seletivos, a crise e a desconfiança foram se alastrando pelo tribunal. Com a retirada, igualmente seletiva, do sigilo de uma das investigações, parte da rede de influência do caso Master foi exposta e, com ela, conversas que envolveriam o ministro Alexandre de Moraes, nas quais Vorcaro explicitamente teria solicitado a interferência em investigações em curso.

Com todas essas revelações, a crise parece ter atingido um ponto de não retorno. Ao retirar o sigilo e solicitar aval do plenário para investigar Alexandre de Moraes e quiçá Paulo Gonet, o ministro André Mendonça rejeita uma solução a portas fechadas.

O presidente do Supremo, Edson Fachin, a quem competirá pautar uma sessão plenária para analisar a decisão de Mendonça, disse em nota que "concluída a análise necessária dos fatos e observados os procedimentos institucionais pertinentes", anunciará as medidas para tratar do caso, tanto quanto aos questionamentos sobre a forma como Mendonça conduz a investigação, como sobre os fatos que revelariam envolvimento de Moraes.

Duas decisões importantes deverão ser tomadas pelo plenário: se a conduta de Mendonça traz nulidade para a investigação, e se Moraes e outros ministros deveriam ser formalmente investigados. E, como diz o ditado, dois errados não fazem um certo.

Qualquer que seja o deslinde dessas questões em plenário, o dano decorrente precisará ser enfrentado pelo tribunal, seja ao assumir que seus membros usam ações penais como armas políticas, seja ao avalizar uma investigação sobre um dos seus. Não há precedentes para esse momento. O que se sabe é que, historicamente, a confusão entre fraquezas pessoais e ataques institucionais tem impedido o tribunal de tomar decisões que poderiam debelar a crise e preservar a sua institucionalidade.

É preciso que a saída da crise seja transparente e institucional, que o tribunal supere os erros que o tornam refém de suas más decisões.

A resistência dos ministros em submeterem-se ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça), em assumirem-se suspeitos e impedidos em casos nos quais seus familiares advogam, em comedir a presença em eventos jurídicos por onde circulam poderosos com interesses no tribunal, em transformar grandes casos criminais em plataformas políticas, criou o ambiente no qual a crise do Master eclodiu.

Se não for capaz de reformar suas práticas deletérias, com ou sem Código de Ética, o tribunal será incapaz de cumprir a sua missão constitucional, por perda de credibilidade, legitimidade e de autoridade.

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ELE, MALUF

Paulo Maluf completa hoje, 95 anos de vida. Na vida pública desde 1969, Maluf é certamente uma das figuras políticas mais notórias, polêmicas e controversas.

Em sua biografia Ele,Maluf, trajetória da audácia, lançada em 2008, o define com estilo voluntarioso e frequentemente arrogante. Se diz orgulhoso de tudo aquilo que realizou.

Amado por alguns e rejeitados por outros, ele angariou uma enorme antipatia nesses anos de politica. Acusações de malversação de recursos públicos lhe são feitas com frequência.

Com uma extensa carreira política, Maluf é colecionador de frases polêmicas, entre elas: “O que fazer com um camarada que estuprou uma moça e matou. Tá bom, está com vontade sexual, estupra, mas não mata”.

Clique aqui e escolha a frase mais polêmica dos 95 anos de Maluf. Leia mais sobre a trajetória de Paulo Maluf.

Foto de Paulo Maluf aos 94 anos

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GONET TOMA DECISÃO QUE BENEFICIA A SI PRÓPRIO

Julia Duailibi, O Globo

O procurador-geral não deveria ter pedido a nulidade de um caso que trata dele mesmo

O procurador-geral da República tomou uma decisão que beneficia a si próprio. No relatório em que a Polícia Federal (PF) aponta as conversas entre Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de MoraesPaulo Gonet aparece como uma das autoridades na teia do ex-banqueiro, seguindo à risca o roteiro já manjado de viagens, degustações e pedidos de favores. O procurador-geral da República, no entanto, não veio a público se explicar. Pelo contrário. Disse que as revelações da PF deveriam ser anuladas.

Gonet se manifestou sobre o caso em resposta ao ministro André Mendonça, que havia determinado à PF a identificação da figura misteriosa com quem Vorcaro mantinha diálogos. Quando a resposta chegou, Mendonça pediu à Procuradoria-Geral da República (PGR) que se manifestasse. Gonet não só defendeu a nulidade, como disse que Mendonça agiu irregularmente por investigar Moraes sem autorização do STF. Por essa lógica, se Mendonça investigou Moraes, também investigou o próprio Gonet. Portanto, ele não deveria pedir a nulidade de um caso que trata dele mesmo. Deveria ter se declarado suspeito.

Segundo o relatório da PF, há, entre 2024 e 2025, época em que a reputação de Vorcaro já era conhecida na República, ligações entre Gonet e Vorcaro, mensagens e pedido de viagem para o filho, tudo por meio de um advogado. “Já estou com saudades de você!” e “Oba!!! Tomara que tenha charuto e Macallan!” são alguns dos textos encaminhados para Vorcaro a pedido de Gonet. Pode ser que não tenha ocorrido nenhum favorecimento, mas isso só será possível de confirmar se o relatório não for considerado nulo e se houver investigações.

Gonet também diz que Mendonça já sabia que era Moraes a figura que conversava com Vorcaro. Não precisaria, portanto, ter mandado a PF fazer o relatório. Gonet reclama ainda que é papel do Ministério Público fazer esse tipo de intervenção, não do juiz. Mas desde março, a colunista do GLOBO Malu Gaspar revelou a questão e não se teve notícia de atitude tomada por ele. O que fez foi pedir agora a nulidade do caso.

A decisão de Gonet torna questionáveis os atos da PGR no caso. E o órgão presidido por ele tem a competência de denunciar Vorcaro e de investigar ministros, se o STF autorizar. Também foram os procuradores sob Gonet que se sentaram às mesas de negociação com o ex-banqueiro para discutir por duas vezes um acordo delação premiada. Todas as propostas foram descartadas pela PGR. Com o surgimento do nome do procurador-geral no relatório da PF, torna-se ainda mais obrigatória a divulgação das razões por que os procuradores não quiseram saber o que Vorcaro tinha a dizer sobre os poderosos da República.

Em toda essa discussão, Gonet tem um ponto. Mendonça deveria acionado o presidente do STF, Edson Fachin, logo que as conversas entre Moraes e Vorcaro foram parar no noticiário, mesmo que corresse o risco de o caso não dar em nada. É função do juiz fazer a coisa certa, e não necessariamente garantir que um dos casos sob sua relatoria tenha determinado desfecho. A maneira como conduziu a questão deu margem para que as revelações sejam, de fato, anuladas.

Gonet, porém, é conhecedor das regras. Acusa Mendonça de as ter ignorado, mas acabou por fazer o mesmo.

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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

MORRE GRACINDO JÚNIOR

Marco Antônio Canosa, TV Globo, g1

Gracindo Jr., ator e diretor que participou da inauguração da TV Globo, morre no Rio aos 83 anos

Ele atuou em novelas e programas que fizeram história na emissora e era filho de outro ator consagrado, Paulo Gracindo.

O ator e diretor Gracindo Jr. morreu na noite desta terça-feira (1º) em casa, no Rio de Janeiro. Ele tinha 83 anos, dos quais mais de 50 anos foram dedicados à arte no teatro, rádio e cinema — e participou da inauguração da Globo, em 1965.

A informação do falecimento foi confirmada por Pedro Gracindo, filho do artista. A morte ocorreu por causas naturais.

O velório, aberto ao público, está previsto para esta quinta-feira (3), no Crematório e Cemitério da Penitência, a partir das 12h10. A cremação foi marcada para as 14h10.

Ele deixa 5 filhos7 netos e a esposa, Daisy Poli, com quem estava havia mais de 50 anos.

Filho de Paulo Gracindo

Epaminondas Xavier Gracindo nasceu no Rio de Janeiro, em 21 de maio de 1943, filho de outro ator consagrado, Paulo Gracindo (1911-1995).

Embora tenha cursado Psicologia, nunca exerceu a profissão, optando por se dedicar integralmente à arte.

Em 1959, aos 15 anos, Gracindo Jr. fez um teste para trabalhar na Rádio Nacional, onde o pai já fazia sucesso como galã de radionovelas e apresentador de programas de auditório.

O filho foi aprovado e foi ator, redator e disc-jóquei na emissora.

Em 1961, em paralelo às funções na rádio, estreou no teatro na peça “A Escada”, de Oswald de Andrade.

Pioneiro da Globo

Em 1965, foi inaugurada a TV Globo. Em entrevista ao Memória Globo, o ator disse: “Eu entrei no início da TV Globo. Ela estreia em abril de 1965, em dezembro de 1964 eu já estava contratado”.

Gracindo Jr. integrou o 1º elenco da emissora e participou de várias novelas dessa fase inicial, como “Rosinha do Sobrado” (1965), “Padre Tião” (1966), “A Rainha Louca” (1967), “A Próxima Atração” (1970) e “Os Ossos do Barão” (1973) — quando contracenou com Paulo Gracindo.

Pai e filho voltaram a dividir o set em “O Bem Amado” (1973), de Dias Gomes, e em “O Casarão” (1976), de Lauro César Muniz, quando interpretaram as versões jovem e idosa de João Maciel, protagonista da trama — o 1º grande papel de Gracindo Jr.

“O que eu mais aprendi com o meu pai foi responsabilidade no meu trabalho, estima pelo meu trabalho, saber que meu trabalho é uma coisa muito importante”, declarou.

“Meu pai trabalhou por 65 anos, e nunca me lembro dele não tendo feito sucesso, em qualquer área de comunicação. Foi um homem que passou em rádio, em circo, em televisão, em cinema, em tudo ele foi sucesso”, prosseguiu.

“A lembrança que eu tenho dele é dessa pessoa delicada, dessa pessoa amiga, solidária e que seu maior amor era o seu trabalho. Se o trabalho dele estivesse bem-feito, ele estava feliz na vida.”

Com o término de O Casarão, Gracindo Jr. passou uma temporada em Portugal. Em 1978, assumiu a supervisão do núcleo de novelas das 18h da Globo. A “estreia” na função foi na novela “A Sucessora”, de Manoel Carlos, onde acompanhou a montagem, a edição, a sonorização e o desempenho dos atores.

Em 1979, Gracindo Jr. deu prosseguimento à atividade atrás das câmeras dirigindo as novelas “Memórias de Amor”, de Wilson Aguiar Filho, e “Marron-Glacé”, de Cassiano Gabus Mendes.

Em 1980, atuou na peça “Paulo Gracindo, Meu Pai”, que escreveu para homenagear os 50 anos de carreira do patriarca.

Em 1982, participou como ator da novela “Jogo da Vida”, de Silvio de Abreu, e da minissérie “Quem Ama Não Mata”, de Euclydes Marinho.

No ano seguinte, integrou o elenco da minissérie “Bandidos da Falange”, de Aguinaldo Silva. Ainda em 1983, assumiu a direção de “Os Trapalhões”.

Nessa década, foi um dos diretores e o apresentador dos primeiros clipes musicais produzidos e exibidos pelo Fantástico.

Em 1984, mudou-se para TV Manchete, onde fez “A Marquesa” e “Dona Beija”, outro sucesso.

De volta à Globo, Gracindo Jr. participou da minissérie “Tenda dos Milagres”, de Aguinaldo Silva, e dirigiu alguns episódios do “Sítio do Picapau Amarelo”.

Em 1987, Gracindo Jr. foi Creonte, um dos vilões de “Mandala”, de Dias Gomes e Marcílio Moraes.

Em 1989, encarnou Ricardo Ribeiro, marido da professora Clotilde (Maitê Proença) e rival de Sassá Mutema (Lima Duarte) na novela “O Salvador da Pátria”.

Em 1990, se dividiu entre participações na minissérie “A, E, I, O… Urca”, de Doc Comparato e Antônio Calmon; e nas novelas “Araponga”, de Dias Gomes, Lauro César Muniz e Ferreira Gullar; “Rainha da Sucata”, escrita por Silvio de Abreu; e “Gente Fina”, de Luiz Carlos Fusco e Marilu Saldanha.

Gracindo Jr. também passou por “Deus nos Acuda” (1992), “Explode Coração” (1995) — quando foi ator e diretor —, “Anjo de Mim” (1996), “Esplendor” (2000) e “Celebridade” (2003).

A partir de 2006, atuou em novelas da Record, como “Cidadão Brasileiro” e “Poder Paralelo” (2009), e na minissérie “Rei Davi” (2012).

Teatro e cinema

Gracindo Jr. participou de mais de 20 peças como ator, produtor ou diretor.

No cinema, o ator passou pelos seguintes filmes: “Os Homens que eu Tive” (1973), de Tereza Trautman; “As Moças Daquela Hora” (1973), de Paulo Porto; “O Dia Marcado” (1977), de Iberê Cavalcante; “Os Trapalhões na Serra Pelada” (1982), de J.B Tanko; “Tensão no Rio”, de Gustavo Dahl; “O Trapalhão na Arca de Noé”(1983), de Del Rangel; “Floresta das Esmeraldas” (1985), de John Boorman; “Buena Sorte” (1986), de Tânia Lamarca; “Desterro” (1991), de Eduardo Paredes; “A Hora Marcada” (2000), de Marcelo Taranto; “Bufo e Spalanzani” (2001), de Flávio Tambellini; “A Selva” (2004), de Ferreira de Castro; “Primo Basílio” (2006), de Daniel Filho; e “Segurança Nacional” (2010), de Roberto Carminati.

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terça-feira, 1 de setembro de 2026

O ENIGMA DAS TERRAS RARAS

Artigo de Fernando Gabeira

Afinal, o que são essas terras-raras que os americanos querem, os chineses refinam, e os brasileiros veem como recurso para a economia futura?

Para começar, não são tão raras assim. Existem em abundância na China e no Brasil. Nem são propriamente terras. Esse nome era dado, nos séculos XVIII e XIX, a qualquer óxido metálico insolúvel em água.

Foram chamadas de raras quando descobertas num mineral em Ytterby, na Suécia. Elas ocorriam em minerais incomuns e eram consideradas raras porque era difícil a separação dos 17 elementos químicos que compõem o grupo. O nome desses elementos é meio curioso: cério, neodímio, disprósio, praseodímio, európio e por aí vai.

Servem para muitas coisas no mundo moderno. Quando apareceram para os químicos no Brasil, na década de 1940, estavam na areia monazítica, retirada das praias do Espírito Santo e da Bahia. Acontece que a monazita continha urânio e tório. Os americanos estavam de olho no urânio. Químicos alemães e poloneses fugidos do nazismo retiravam o urânio e o tório da areia monazítica. A primeira indústria nuclear nasceu da competência desses químicos. Um de seus donos, coisas do Brasil, era um poeta: Augusto Frederico Schmidt.

Houve muita resistência nacionalista à exportação do urânio, e o governo acabou encampando a Orquima — esse era o nome da empresa. Por falta de investimento e burocracia, a empresa estatal acabou perdendo o bonde da história.

Em 1962, o químico Pawel Krumholz, um dos que fugiram de Hitler, conseguiu produzir 10 g de óxido de lutécio, um dos 17 elementos químicos das terras-raras. O que se conseguiu no Brasil, segundo artigo publicado no Journal of the Brazilian Chemical Society, tinha aplicação em laser, fibra óptica, material luminescente e cerâmica. Mas tudo ficou na promessa. Os chineses, na mesma época, começavam a investir pesadamente, e hoje não só têm, como dominam a técnica de refino das terras-raras.

Estamos acordando de um longo sono histórico. As terras-raras são exploradas hoje em Goiás e Minas. O presidente Lula defende que sejam refinadas no Brasil, e não exportadas como matéria-prima. Teremos encrenca. A empresa que opera em Minaçu (GO) foi vendida para a americana USA Rare Earth, com investimento do governo americano, por meio do Departamento de Guerra. Formaram a USA Rare Earth, uma das maiores empresas do mundo em terras-raras, e exportarão tudo para os Estados Unidos. A mesma história das areias monazíticas do passado.

Em Minas Gerais, os australianos que se preparam para explorar terras-raras encontram resistência popular. As jazidas estão em Poços de Caldas, região já assustada porque uma unidade das Indústrias Nucleares do Brasil tem um depósito com 11,3 mil toneladas de material radioativo e equipamentos que processaram urânio.

Minas não suporta desastres como Mariana e Brumadinho. A própria população conduz os questionamentos. Em Goiás, as terras-raras são exploradas perto do Rio Tocantins e da Represa da Serra da Mesa, que tem 160 quilômetros de extensão e 13 de largura máxima.

Um dos problemas é que a Agência Nacional de Mineração não tem recursos para fiscalizar. As terras-raras são uma promessa para o Brasil, desde que se invista na tecnologia e haja rigor no respeito ao meio ambiente.

Artigo publicado no jornal O Globo em 01 / 09 / 2026

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PERFIS DE FOFOCA TURBINAM CRESCIMENTO DE AUGUSTO CURY

Bernardo Mello Franco, O Globo

Páginas de humor e entretenimento passaram a veicular mensagens favoráveis a candidato, que fala em 'movimento incontrolável'

Não foram só os chamados influenciadores que turbinaram o crescimento de Augusto Cury nas redes sociais.

Na última semana, perfis especializados em fofocas também passaram a difundir mensagens favoráveis ao candidato do Avante.

Páginas como Tricotei (4,2 milhões de seguidores no Instagram) e Futrikei (2,5 milhões de seguidores) transformaram Cury em tema de debate.

Esse tipo de perfil costuma ser usado por empresas de marketing digital para gerar engajamento em torno dos anunciantes.

A tática é usar linguagem de humor e entretenimento para divulgar marcas e produtos, de forma que as mensagens publicitárias pareçam ser espontâneas.

Embora a campanha do Avante negue o uso desses instrumentos, é difícil não detectar o tom de propaganda nas aparições de Cury em perfis de fofoca.

"Augusto Cury ganha destaque e passa a conquistar admiradores de diferentes lados após debate presidencial", escreveu na quarta passada a página Futrikei.

"Augusto Cury foi o candidato à Presidência mais pesquisado nos últimos dias e o que mais cresceu nas redes sociais", publicou na quinta o perfil Tricotei.

Antes que duas pesquisas apontassem a subida de Cury, o perfil Gina Indelicada (12,3 milhões de seguidores) publicou uma fotomontagem em que o candidato aparece entre Lula e Flávio Bolsonaro.

A legenda perguntava, em caixa alta: "ALGUÉM COGITA VOTAR NELE?". O perfil do candidato respondeu na caixa de comentários com o slogan da campanha e o número de urna.

Nesta segunda, Cury negou à revista Veja ter comprado seguidores ou contratado influenciadores para aumentar seu engajamento nas redes.

"Eu tenho o que os políticos sempre sonharam em ter. Isso é um absurdo. Na verdade, foi um movimento incontrolável", disse.

Curiosamente, o candidato incluiu o marketing digital em seu plano de governo. Uma de suas propostas mais inusitadas é empregar influenciadores nas embaixadas.

Segundo o próprio Cury, o objetivo seria "vender o Brasil lá fora", o que os diplomatas profissionais não seriam aptos a fazer.

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SINTOMA E DIAGNÓSTICO

Merval Pereira, O Globo

Cury diz ser de direita na cabeça, mas de esquerda no coração e tira no momento votos de vários candidatos, um pouco de Lula e Renan, a maior parte de Flávio.

O sonho de Ronaldo Caiado, o candidato a presidente da República do PSD, era chegar a esta altura da campanha com dois dígitos nas pesquisas de opinião. Achava que, a partir daí, subiria para enfrentar Lula no segundo turno. Quem chegou lá, pelo menos pelas pesquisas digitais e telefônicas de opinião, foi o escritor Augusto Cury, candidato do Avante, um azarão verdadeiro — não confundir com o filme “Dark Horse”. Pelo menos até agora, não há indicação de que Cury tenha alguma ligação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, mas, como ele acaba de entrar no jogo, sua vida será revirada pelo avesso.

A subida inesperada do autor best-seller de livros de autoajuda reflete, num primeiro momento, a fuga para a frente de eleitores que buscam alternativa à polarização entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro. Esse lugar já foi de Renan Santos, do Missão, mas ele parece ser muito agressivo para o gosto médio do eleitorado. O Cury candidato parece ter se encontrado com o Cury escritor em meio à campanha. Começou a ser identificado por muitos dos milhões de leitores que já procuraram sua ajuda na leitura. Outros tantos já o haviam rejeitado como candidato a presidente. Não se sabe o que decantará dessa arrancada nas sondagens, que precisam ser comprovadas nesta semana pelas pesquisas do Datafolha e da Quaest, os dois principais institutos de pesquisa atuando no país.

Alguma coisa certamente se mexeu na disputa presidencial, e — como Cury diz ser de direita na cabeça, mas de esquerda no coração — ele tira no momento votos de vários candidatos, um pouco de Lula e Renan, a maior parte de Flávio. Não é à toa que tanto a campanha de Lula quanto a de Flávio apoiam Renan contra a punição determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, que suspendeu verbas e o proibiu de participar de debates e fazer campanhas nas redes sociais.

A saída de Renan, e a aparição de Cury, muda o panorama da disputa, embora não haja indicação ainda de que o escritor poderá disputar com Flávio a ida ao segundo turno. Renan, com sua bomba atômica e seus banhos de sangue, parece já ter chegado ao limite e não assusta seus adversários, só os eleitores. Cury é a incógnita chegando a bordo de drones, embaixadores influencers, uma vida digital que se parece muito com uma promessa de futuro empoderado, embora não saiba explicar como chegaremos lá.

Tanto pode cair lá de cima, quanto acelerar para o alto, diante do desalento do eleitorado em busca de uma alternativa melhor que os dois líderes nas pesquisas. No momento, a questão é mais saber se ele terá fôlego para continuar a escalada na opinião pública ou se é mais um cavalo paraguaio que se cansa em meio à arrancada final. Seu partido, Avante, tem garantida a presença em debates nos meios de comunicação, mas tempo mínimo de propaganda no rádio e televisão. Sua campanha digital, no entanto, tem se mostrado eficiente, provavelmente pelo apoio do influenciador Pablo Marçal, que quase obteve sucesso na recente disputa pela Prefeitura de São Paulo.

O fato de Cury ser psiquiatra ajuda a alavancar seu prestígio entre o eleitorado, mas leva à piada pronta que o compara a Simão Bacamarte, o médico que encarcera toda a população de Itaguaí num manicômio e acaba, ele mesmo, lá dentro, em “O alienista”, de Machado de Assis. O Brasil seria um manicômio que necessita de um psiquiatra para curá-lo. A escolha do slogan “Cury para curar o Brasil” mostra que, para o candidato, o país está doente, e ele se apresenta como o salvador. Saberemos daqui para frente se o diagnóstico do doutor Cury coincide com a percepção da maioria dos eleitores brasileiros e os tirará da letargia em que se encontram. Ou se seu crescimento nas pesquisas é apenas mais um sintoma da doença de nossa República.

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O PROBLEMA DA DÍVIDA PÚBLICA

Míriam Leitão, O Globo

O cenário de incerteza é menos pelo tamanho da dívida e mais pela falta de sinalização de um ajuste fiscal do presidente e do principal concorrente

A dívida pública brasileira não caminha para bater no muro. Mas parece, pelos números da dívida bruta e pela intensidade do debate em torno do tema. O Tesouro tem como rolar sua dívida, apesar de o total ter chegado a 82,5% do PIB em julho, o maior nível desde abril de 2021. Há erros técnicos que podem ser corrigidos tornando mais barata a rolagem dos títulos. E é fundamental dar ao investidor alguma perspectiva de que o próximo governo fará um ajuste nas contas públicas.

O que gera este cenário de incerteza no mercado é menos o tamanho da dívida ou sua trajetória recente, e mais a percepção de que nada será feito para conter a continuidade da alta. O atual presidente não se compromete com um ajuste, nem seu principal concorrente. A boa notícia é que não é um problema impossível de ser resolvido, porém, é preciso passar um sinal na direção correta.

O governo tem feito gestos. Eles são insuficientes. Ontem mesmo divulgou o primeiro orçamento com superávit desde 2015. É um pequeno azul de R$ 18 bilhões, ou 0,1% do PIB, no meio de um mar vermelho que é o endividamento público.

Uma das razões da alta dos juros cobrados nos títulos mais longos, como NTN-B, é que a demanda caiu. Ela não caiu apenas pelo nervosismo da conjuntura eleitoral. A grande demanda pelos papéis mais longos vinha dos fundos de previdência, tipo VGBL, mas o governo colocou um IOF de entrada de 5%. Isso piorou a atratividade do investimento, os fundos reduziram a compra de NTN-B e com menos demanda, os compradores exigiram juros maiores.

Outro erro foi o IOF sobre o câmbio que levanta um espectro de controle de capitais. O governo não pensa em fazer controle de capitais, só que em época de nervosismo e com os custos de rolagem da dívida crescendo, não se deveria mexer com ativos dessa forma.

Uma medida impopular, mas necessária, é a desvinculação das despesas previdenciárias do salário mínimo. O governo passado não deu aumento algum ao salário mínimo, mas não teve coragem de desvincular. O candidato Flávio Bolsonaro enrola quando perguntado se fará isso. E nas conversas no mercado financeiro, ele terceiriza a função de dizer que enfrentará esse dilema.

O governo Lula restaurou a política de aumentos reais de salário mínimo. Faz sentido elevar os ganhos de trabalhadores da ativa e que estão na base de renda. O problema é que ao não fazer a desvinculação, as despesas previdenciárias cresceram em termos reais. E esses gastos já têm uma tendência de alta natural, por razões demográficas.

A atual administração tomou decisões difíceis e acertadas na área econômica ao longo deste terceiro mandato do presidente Lula. A Reforma Tributária que estava rodando no vazio há 30 anos foi aprovada. Mas a força dos lobbies reduziu seu ganho e criou novas distorções. De qualquer maneira precisa coragem para colocar seu capital político numa reforma que mexe com os impostos para simplificar e reduzir custos dos contribuintes apenas no futuro. Outra boa decisão foi cobrar imposto sobre os fundos fechados e os fundos offshore. Caminhava na direção correta ao propor o fim da isenção dos títulos incentivados, como a LCI e a LCA. Mas foi barrado pelo Congresso. Também foi um acerto reverter o calote nos precatórios dado no governo anterior e pagar essas dívidas judiciais.

Mais do que fazer promessas de cortes de gastos e de mudanças de parâmetros no meio de uma eleição disputada e tensa, o governo deveria preparar uma correção de rotas após o período eleitoral, caso saia vencedor. O ministro Dario Durigan tem garantido que o ajuste ocorrerá, e que será de dois pontos percentuais do PIB, mas será preciso ouvir isso do próprio presidente.

O cenário do país nessa eleição é de imbróglio institucional entre Executivo, Supremo e Congresso. A dívida é apresentada como prova de um descontrole fiscal que não houve. Ela cresceu e piorou o perfil, apesar de o governo ter reduzido o déficit primário. A emenda Kamikaze de Bolsonaro furou o teto de gastos e o desmoralizou. A PEC da Transição de Lula foi necessária para corrigir a bomba armada deixada por Bolsonaro, mas ao ser maior do que o necessário, acabou agravando o problema deixado pelo governo anterior. A dívida não vai explodir, mas inspira cuidados. O governo pode não querer dizer agora o que fará, mas, se for eleito, é melhor que tenha um plano para enfrentar o problema.

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MANHÃS DE SETEMBRO

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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A MAIOR DE TODAS AS PRAGAS

Hélio Schwartsman, Folha de S.Paulo

Livro mostra que desigualdade econômica preocupa filósofos desde Platão

Outros autores discutidos são Jesus, Hobbes, Rousseau, Adam Smith, Mill e Marx

Gostei de "The Greatest of All Plagues", de David Lay Williams, em que o autor procura mostrar que a preocupação com a desigualdade econômica se faz presente no cânone filosófico do Ocidente há mais tempo e de forma mais fundamental do que muitos poderiam supor.

Para tentar provar sua tese, Williams resgata passagens francamente igualitárias de um pool bem ecumênico de filósofos. São eles PlatãoJesus CristoThomas Hobbes, Jean-Jacques Rousseau, Adam Smith, John Stuart Mill e Karl Marx. Ok, Cristo entra um pouco de contrabando, já que não é propriamente um filósofo e não deixou obra escrita, mas não vejo maiores problemas nisso.

Williams é generoso ao nos fornecer o contexto histórico em que cada um desses autores desenvolveu suas ideias e as expõe com didatismo. Creio, porém, que, ao tentar enquadrar todos esses filósofos em sua tese, ele acabe incorrendo em pecadilhos historiográficos. Tomemos o caso de Platão. Para vendê-lo como um campeão da igualdade, Williams rebaixa um pouco o estatuto de "A República" para valorizar "As Leis". É desse texto, aliás, que ele tira o título do livro "a maior de todas as pragas".

Ocorre que uma das questões mais difíceis nos estudos de Platão é justamente a de como classificar "As Leis". O texto é tão pouco platônico e diverge tanto do restante da obra que, no século 19, filólogos sugeriram que se tratava de um escrito apócrifo. Não é, mas qual Platão representa Platão?

Algo parecido vale para os demais. Em Rousseau e Marx, a igualdade ocupa lugar central, mas será que podemos dizer o mesmo de Hobbes, que defendia poder quase total para o soberano?

Meu ponto é que é legal mostrar os trechos quase esquecidos em que alguns dos mais importantes filósofos do Ocidente criticaram a desigualdade econômica, mas não dá para ignorar os consensos dos comentadores. Se vários desses filósofos não se celebrizaram como igualitários radicais, isso talvez se deva ao fato de que a questão não teve tanto peso assim na economia geral de suas obras.

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GOIÁS, O ESTADO QUE MAIS REFINA COCAÍNA NO PAÍS

Cecília Olliveira, The Intercept

Caiado quer levar ao Brasil o modelo em segurança de Goiás, o estado que mais refina cocaína no país

Estado lidera o refino da droga no país e integra rota controlada pelo PCC enquanto Ronaldo Caiado, do PSD, vende sua gestão como modelo de segurança pública.

“Um paciente foi atropelado por um ônibus. Quais são os pontos que você vai priorizar? Poxa, cara, eu nem examinei o doente. Calma”. Foi essa a resposta de Ronaldo Caiado quando César Tralli e Renata Vasconcellos, na sabatina do Jornal Nacional desta terça-feira, pediram detalhes sobre o que faria na Previdência.

Foi também a estratégia que ele repetiu ao longo de toda a entrevista: reclamou dos jornalistas dizendo que “não estamos aqui em uma mesa examinadora”, interrompeu, fugiu das perguntas objetivas e delegou os detalhes a “melhores cabeças do Brasil” que ainda não nomeou.

A ironia é que o candidato do PSD à Presidência da República se apresenta há meses como alguém que já examinou o doente e traz o remédio pronto. O nome do remédio é Goiás.

E Goiás é o estado que mais concentra laboratórios de cocaína no Brasil. São 81 estruturas identificadas entre janeiro de 2019 e julho de 2025, mais do que o dobro do segundo colocado, o Amazonas, com 39.

O dado é do relatório Floresta em Pó, publicado em outubro de 2025 pelo Instituto Fogo Cruzado em parceria com outras organizações. O estudo mapeou 550 laboratórios no país e mostra uma virada: o Brasil deixou de ser apenas rota de passagem da cocaína para se tornar um dos principais lugares onde a droga é refinada, movimentando cerca de US$ 6 bilhões por ano.

Goiás está no centro dessa nova geografia. O estado concentra 44 laboratórios de alta capacidade produtiva e integra a chamada Rota Caipira, sob domínio do PCC, que controla as fronteiras com o Paraguai e a Bolívia.

‘Modelo que deu certo’

Nada disso apareceu na sabatina. Nada disso aparece nas convenções em que Caiado repete que “Goiás é o modelo que deu certo”, que “Goiás, hoje, é o estado que tem a maior segurança pública do Brasil” e que “bandido não se cria em Goiás”.

O plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, ratifica a mesma narrativa em linguagem institucional: “a experiência de Goiás mostra que esse cenário pode ser modificado”. O que a experiência de Goiás mostra, se examinarmos o doente, quer dizer, os dados, é outra coisa.

Um estado que ocupa esse lugar na cadeia internacional do tráfico não é modelo de segurança pública. É um hub logístico do narcotráfico.

E ninguém está fazendo  a pergunta que ele deveria  responder: se sua gestão foi tão bem-sucedida contra o crime organizado, por que Goiás lidera o refino de cocaína no país durante exatamente os seis anos em que ele governou?

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O plano de governo, tanto quanto a entrevista de terça, não oferece resposta. Oferece um catálogo de propostas que repete o repertório de sempre, que vai de redução da maioridade penal a uso das Forças Armadas contra facções.

Ele fala sobre enquadrar grupos armados como terroristas, incluindo milícias, mas não resolveu a  famosa “confraria da morte”, conjunto de policiais de Anápolis que assassinou um desafeto do governador e outras sete pessoas como queima de arquivo. A milícia se enquadraria na tal proposta?

Hub goiano do refino

Dentre as propostas no plano do candidato, nenhuma toca no elo que sustenta o hub goiano do refino: a arquitetura financeira que lava o dinheiro da cocaína, as rotas rodoviárias que atravessam o estado sem fiscalização efetiva, a infraestrutura rural que abriga os laboratórios.

Segurança pública contra o crime organizado se faz com inteligência financeira, controle integrado de fronteiras, cooperação internacional efetiva, desarticulação patrimonial das lideranças e políticas de redução de danos que retirem o mercado consumidor das mãos das facções. Nada disso está no centro da proposta de Caiado.

O centro da proposta é uma lei de terrorismo doméstico com regime prisional próprio para facções, enquanto o mesmo candidato promete anistia “ampla, geral e irrestrita” aos condenados pelo 8 de Janeiro. Rigor máximo para uns crimes, perdão total para outros. Que combate ao crime é esse?

Quando questionado, Caiado responde que não examinou o doente. Quando não é questionado, apresenta o remédio. E o remédio é o estado que virou plataforma de exportação de cocaína durante os seis anos em que ele foi médico responsável.

Esse é o exemplo que Caiado quer levar ao Brasil.
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MORRE CARLOS MONFORTE

Do g1 DF

Jornalista Carlos Monforte morre aos 77 anos

Monforte começou na Globo como repórter local, e passou por telejornais como Jornal da Globo e Bom Dia São Paulo, além da GloboNews.

O jornalista Carlos Monforte morreu, nesta segunda-feira (31), aos 77 anos. A informação foi confirmada à TV Globo pela família do jornalista, que fazia tratamento contra um câncer. O velório acontece nesta terça-feira (1º) em Brasília.

Formado pela Faculdade de Comunicação de Santos em 1972, Carlos Américo Aguiar Monforte passou pelos jornais A Tribuna, de Santos, e Estado de São Paulo.

O jornalista começou a trabalhar na Globo em 1978. Foi contratado como repórter local, mas logo começou a produzir reportagens para o Jornal Nacional e para o Fantástico.

Na época, participou de coberturas importantes como as greves de metalúrgicos no ABC Paulista. Em 1982, ele assumiu a editoria de política do Jornal da Globo. No mesmo ano, virou editor e apresentador do Bom Dia São Paulo.

Com a criação do Bom Dia Brasil, em janeiro de 1983, Carlos Monforte assumiu o cargo de editor-chefe e apresentador do programa. Monforte esteve à frente do telejornal por nove anos.

Em 1998, Monforte atuou no Espaço Aberto, da GloboNews. No final de 2000, assumiu o cargo de coordenador da GloboNews em Brasília e foi apresentador do Jornal das Dez da capital federal.

O jornalista deixou a Globo em 2016.

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DIVERSIDADE PERDE FORÇA NO MUNDO CORPORATIVO

Preto Zezé, O Globo

Empresa não existe para fazer justiça, mas para dar lucro, e convicção moral é terreno que nunca foi dela

A ideia de diversidade dos defensores da causa entrou numa encruzilhada. Empresa não existe para fazer justiça, mas para dar lucro, e convicção moral é terreno que nunca foi dela. Não é acusação, é constatação. Nos conselhos de empresas e marcas de que participo, sempre busquei outro caminho: diversidade na prateleira do investimento. E, se render, parte do lucro volta para reinvestir.

Em 2025, 53% das companhias do S&P 100, as cem maiores da Bolsa americana, mudaram a forma de registrar a diversidade nos relatórios. Poucas encerraram as ações. Levaram a supervisão para a governança e baixaram a visibilidade quando virou custo político. Ninguém tira do relatório o que dá lucro.

A Parada do Orgulho de São Paulo foi de 11 patrocinadores em 2025 para quatro na edição de 30 anos. A Marcha do Orgulho Trans não aconteceu, por falta de patrocínio. O primeiro corte caiu sobre quem tem menos poder de barganha.

Sempre achei frágil o discurso da diversidade e fui mal compreendido por isso. Ou talvez atrapalhasse a venda da narrativa. A palavra virou pacote: mulher, pessoa preta, pessoa com deficiência, pessoa LGBTQIA+, periferia, como se fosse uma experiência só. Não é. Cada trajetória tem demanda, obstáculo e solução próprios. Empacotar não é ofensa, é reflexo da imprecisão. Na vida social das causas, isso é fácil de administrar. Numa empresa, imprecisão na gestão custa caro.

No setor público e no privado, causa não pode virar departamento. Este serve para pontuar: a nota da empresa, a posição na Bolsa, o mercado internacional. No público, a boa foto para o gestor e o cargo no conselho para o representante. A causa se perde em representatividade sem força política, decorativa e sazonal, sem perenidade na cultura corporativa nem continuidade no ambiente estatal. Nada obriga o processo a chegar a salário, promoção, orçamento, contrato e sociedade.

Se é para funcionar na lógica do negócio, que entremos no plano de negócio. Se dou audiência, quero parte da receita. Da mesma forma, se aumento o consumo e se atraio investimento, quero parte da receita. Se elejo mandato, quero poder político e caneta com orçamento. Quero ser contratado como serviço e contabilizado como investimento. E, se o discurso político que cita nossas causas for sério, que apareça na divisão dos fundos eleitorais e nos cargos de gestão. Se garanto receita, quero parte do lucro para reinvestir. Repito: não sou gasto. Sou investimento.

A marca faz campanha com corpo preto e da favela, mas contrata a produtora de sempre e paga ao criador menos que ao influenciador de bairro nobre de mesmo alcance. A favela é locação, não fornecedora. Coadjuvante da própria história.

O valor é gerado num lugar e realizado noutro. Na economia criativa, setor que mais vende a própria pluralidade, pessoas negras são 42% da força de trabalho, ante 55% do mercado nacional, e ali homem branco ganha R$ 7,1 mil, mulher preta R$ 2,2 mil. A renda não acompanhou o trabalho.

O máximo que ocorre é uma onda George Floyd, e todo mundo vira antirracista até ela passar ou até a próxima tragédia. Talvez seja hora de dizer bye bye. Não para a diversidade, fato da vida brasileira, mas para a palavra que junta gente diferente numa caixa só e para a caixa que só serve de nota em planilha. Fica o que muda quem decide, quem fornece, quem lucra, quem governa e quem reinveste. A diversidade não precisa estar na moda, e sim no plano de negócio e no orçamento.

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AJUSTE EXIGE RECONSTRUIR ARQUITETURA FISCAL DO PAÍS

Sergio Lamucci, Valor Econômico

O problema já não é apenas produzir um resultado primário melhor, mas limitar o crescimento automático do gasto, reduzir os estímulos parafiscais, baixar o prêmio de risco e devolver eficácia à política monetária

A situação das contas públicas do Brasil exige uma mudança significativa na política fiscal a partir de 2027, num ambiente econômico e político extremamente complexo. Há resistência a novos aumentos de impostos, o cenário externo é mais adverso, com juros globais mais altos, e as taxas internas na casa de 10% acima da inflação elevam os gastos financeiros do setor público e prejudicam famílias e empresas endividadas. O ajuste precisa ser amplo, focado nos gastos e liderado pelo Executivo, mas tem de contar com o Congresso e com o Judiciário. Visto de hoje, porém, parece improvável que uma agenda fiscal ambiciosa seja adotada pelo próximo presidente.

“O problema brasileiro já não é apenas produzir um resultado primário melhor, mas sim reconstruir uma arquitetura fiscal capaz de limitar o crescimento automático do gasto, reduzir os estímulos parafiscais [que não passam pelo Orçamento], baixar o prêmio de risco e devolver eficácia à política monetária”, resume estudo da ARX Investimentos, elaborado pelo economista-chefe da gestora, Gabriel Leal de Barros, com Cléo Olimpio, Matheus Caliano e Eric Fernandes. O resultado primário não inclui gastos com juros.

“A carga tributária foi recomposta em aproximadamente 2 pontos do PIB, a dívida bruta se aproxima de 85% do PIB, o déficit nominal [que inclui gastos com juros] é de dois dígitos e o juro global é estruturalmente mais alto”, dizem eles. “A estratégia de ajuste apoiada em receita chegou perto de seu limite econômico e político.”

A sustentabilidade das contas públicas, observam os economistas da ARX, “é gravemente afetada pela mecânica dos juros nominais sobre o estoque da dívida pública”. Nos 12 meses até junho, os gastos com juros do setor público alcançaram R$ 1,160 trilhão, ou 8,8% do PIB. A fotografia fiscal, segundo o estudo, não é nada bonita, por combinar estoque, fluxo e preço desfavoráveis.

“Em junho de 2026, a dívida bruta alcançou 81,9% do PIB, o déficit primário acumulado em 12 meses ficou em 1,2% do PIB, a despesa nominal de juros atingiu 8,8% do PIB e o déficit nominal chegou a 10% do PIB. Nossas projeções apontam para uma dívida de 83,5% do PIB no fim deste ano. A dificuldade não está em um único indicador, mas na combinação de déficit primário, juro elevado e dívida crescente.”

A composição do ajuste é essencial. “Medidas de receita melhoram o caixa rapidamente e podem ajudar na transição, mas seu efeito sobre o juro estrutural é limitado quando o mercado entende que o gasto obrigatório continuará crescendo acima do PIB potencial”, advertem eles. “Reformas fiscais que tratam de indexação, elegibilidade e progressões funcionais produzem economia mais lenta, porém mudam a inclinação da despesa. É essa alteração de trajetória, e não apenas o número do primeiro ano, que interessa à parte longa da curva de juros”, diz o estudo.

Na visão de Barros, o ideal seria um ajuste de 4 pontos percentuais do PIB do resultado primário até o fim do próximo mandato, passando de um déficit hoje na casa de 1% do PIB no acumulado em 12 meses para um superávit de 3% do PIB em 2030. “O ajuste integral é o único caminho de mudança de regime”, avalia ele, o que requer reforma administrativa, desindexar benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo, desatrelar gastos de saúde e educação da receita, integrar benefícios sociais, rever incentivos fiscais e retirar estímulos parafiscais, como a expansão do crédito por bancos públicos e a utilização de fundos estatais. “O custo inicial é atividade mais fraca; o benefício é reduzir simultaneamente o primário necessário [para estabilizar e reduzir a dívida], o juro real e o risco de inflação. Apenas nesse cenário, fiscal e monetário operam em harmonia”, afirma o estudo.

O relatório vê como possíveis outros quatro cenários: o ajuste precário, o insuficiente, o quadro sem consolidação e o de ruptura. “O cenário-base é o ajuste insuficiente; o melhor caso plausível é o ajuste precário”, avaliam os economistas da ARX. “A política tende a produzir medidas graduais, negociadas e permeadas por exceções. Reformas de gasto obrigatório enfrentam grupos organizados e exigem convicção e capital político elevado”, diz o estudo. “Já medidas de receita ou contenções temporárias de gasto oferecem resultado imediato e menor conflito distributivo aparente. Essa assimetria política explica por que o cenário economicamente desejável não é o mais provável.” No caso do ajuste precário, a melhora do resultado primário seria de 2 a 2,5 pontos do PIB; no insuficiente, de 0,8 a 1,5 ponto do PIB.

Ex-diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), Barros diz que o ajuste integral é improvável pelas condições da economia política corrente. “Além do desarranjo econômico, é imperativo resgatar a efetiva harmonia entre os Poderes e o fim de privilégios, o que legitimaria a adoção de medidas duras junto à sociedade; e, adicionalmente, há a imoralidade que muitas situações representam, notadamente o descumprimento constitucional do teto remuneratório do serviço público”, afirma Barros.

“Sem o enfrentamento rigoroso dos gastos obrigatórios e a contenção dos mecanismos parafiscais, o país corre o risco de ingressar na dominância fiscal, reduzindo significativamente a capacidade da taxa Selic de conter a inflação”, nota o estudo, referindo-se à situação em que o agravamento do desequilíbrio fiscal leva a um ponto em que elevar os juros faz os índices de preços subirem, em vez de caírem. Altas da Selic deterioram a situação fiscal, aumentando a aversão ao risco e pressionando o câmbio, o que alimenta a inflação. É um risco que pode ser evitado, mas requer uma resposta fiscal firme.

Para os economistas da ARX, há uma diferença entre dominância fiscal fraca e plena. “Na forma fraca, o BC mantém a taxa de juro necessária, mas enfrenta custo crescente e desinflação mais lenta. Na forma plena, a trajetória da dívida condiciona diretamente a decisão monetária: cortes ocorrem antes da reancoragem [das expectativas], medidas regulatórias tentam conter o custo financeiro e o ajuste migra para câmbio e inflação.” Mesmo a forma mais fraca, por óbvio, é altamente indesejável.

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QUANDO A ELEIÇÃO VAI ENGRENAR ?

Bruno Carazza, Valor Econômico

Só uma notícia bombástica ou a possibilidade de vitória em primeiro turno de um dos candidatos podem despertar o eleitor da apatia desta campanha

No sábado (29) começou o horário eleitoral gratuito no rádio e na TV dos candidatos à Presidência da República. Numa campanha que parece ter começado há meses, mas que ao mesmo tempo não engrenou, a propaganda eleitoral é o ato que faltava para sentirmos o clima de eleição. Será?

Além de atingir dezenas de milhões de pessoas que assistem à TV aberta e ouvem rádio, o horário eleitoral também serve para gerar conteúdo para as redes sociais dos candidatos. Mas, pelo visto, a repercussão continua limitada.

No dia da estreia, a equipe de Lula publicou no Instagram um corte anunciando a sua primeira inserção. Quase 24 horas depois, a postagem tinha alcançado apenas 8.500 encaminhamentos e 12.200 comentários. Publicada pouco tempo depois na mesma rede, uma foto de Flávio Bolsonaro segurando uma imagem do pai com a faixa presidencial tinha atingido 12,1 mil compartilhamentos e 7,4 mil manifestações escritas no post. São números baixos de interação para o total de seguidores desses políticos: 14,9 milhões do petista e 11,4 milhões no perfil do candidato do PL.

Em 30 de julho, Lula compareceu ao videocast Inteligência Ltda. para uma entrevista de duas horas. Até o momento, a publicação contabiliza 1,2 milhão de visualizações no YouTube. Uma semana depois, em 7 de agosto, Flávio Bolsonaro foi o convidado de outro programa de sucesso na rede, o Market Makers. Com o mesmo tempo de duração, a conversa registra 239 mil views.

Há quatro anos, Lula e Jair Bolsonaro protagonizaram uma intensa disputa nas redes sociais com alternância de recordes de políticos nesse tipo de programa. Segundo notícias da época, em dezembro de 2021 (bem antes, portanto, do início do pleito) Lula atingiu 292 mil acessos simultâneos ao aparecer no Podpah. Bolsonaro deu o troco no Flow, em 8 de agosto de 2022, nas vésperas do início oficial da corrida eleitoral: 550 mil pessoas acompanharam ao vivo uma entrevista que durou mais de cinco horas. No intervalo de 48 horas, quase dez milhões de interessados haviam acessado a íntegra da conversa no YouTube.

No auge do segundo turno e com a batalha dos videocasts instaurada, em 18 de outubro de 2022 o petista atraiu mais de um milhão de pessoas conectadas ao vivo no mesmo programa. Dois dias depois, Jair Bolsonaro mobilizou um público de 1,75 milhão de espectadores simultâneos na sua entrevista ao vivo no Inteligência Ltda.

A explicação para o aparente desinteresse na campanha eleitoral deste ano pode estar na cristalização dos polos lulista e bolsonarista entre os eleitores brasileiros. Está é a terceira ocasião em que Lula e Bolsonaro se encontram direta ou indiretamente nas urnas, e desta vez não há nenhuma opção à esquerda e aparentemente ninguém no pelotão de nanicos à direita tem chances de decolar.

De acordo com a última pesquisa Quaest, a intenção de voto em Lula no primeiro turno está no mesmo patamar de dezembro passado (39%). Ao longo de todo o ano, Lula oscilou entre um mínimo de 36% e um máximo de 40%.

Enquanto isso, Flávio Bolsonaro subiu de 23% em dezembro de 2025 para 30% atualmente; nesse percurso, o máximo que atingiu foi 33%. Os demais concorrentes, por sua vez, somaram entre 17% (dez/25) e 13% em agosto. Como as principais alternativas a Lula e Bolsonaro são de direita, as candidaturas anti-Lula contam com um teto que variou entre 40% e 46% das intenções de voto.

Entre os dois lados, os determinados a anular, votar em branco ou se abster caíram de 16% para 8% desde o fim de 2025. Já os indecisos subiram de 5% para 10%.

Há, portanto, uma parcela significativa de 18% do eleitorado que pode ser mobilizada para, inclusive, decidir a disputa no primeiro turno - e os dois lados têm chances de liquidar a fatura em 4 de outubro, como vêm alertando, há algum tempo, Cila Schulman e Maurício Moura do instituto de pesquisas Ideia.

A briga pelo “50% mais um” dos votos válidos que daria vitória a Lula ou a Flávio Bolsonaro já no primeiro turno depende i) da taxa de comparecimento às urnas, ii) da rejeição e medos que cada um desses nomes provoca no eleitor pendular e, finalmente, iii) da força do movimento a favor do voto útil, principalmente no campo da direita.

Logo, a campanha deste ano só vai esquentar à medida que a possibilidade de resolução da eleição em primeiro turno se tornar mais concreta. Mas isso dificilmente ocorrerá antes dos dias que antecederem a votação.

Até lá, seguiremos em compasso de espera. De um lado, Lula se esquiva de participar de debates para não virar o alvo único dos ataques do pelotão de adversários de direita. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro também não quer se expor e ficar frente a frente com concorrentes que podem lhe roubar votos preciosos no seu próprio eleitorado.

A política brasileira, porém, sempre reserva fortes emoções para a reta final da votação. Neste ano em particular, com as investigações sobre o Banco Master de Daniel Vorcaro e a fraude do Careca do INSS correndo em paralelo, conteúdos explosivos ainda podem fazer esta campanha finalmente despertar o interesse dos brasileiros.

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SOCOS E CANIVETES EM SALA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

A maioria dos professores brasileiros já sofreu violência física ou verbal no ambiente escolar

'Nós cuidamos de quase o Brasil inteiro, mas quem cuida de nós?', pergunta uma das agredidas

Se quisermos fazer uma ideia do que espera o Brasil no futuro, basta perguntar aos professores do ensino público e particular. Ninguém como eles tem tantas informações de primeira mão —não raro, na forma de uma arma portada por aquela mão ou de um punho assestado contra o seu rosto. Eis alguns relatos recentes.

Em Planaltina (DF), um professor pediu a dois alunos de 17 anos que entregassem os celulares durante a aula. Os garotos se negaram e tiveram seus aparelhos recolhidos. Terminada a aula, seguiram o professor até o ponto de ônibus e o espancaram. Em Cuiabá, um professor idoso levou rasteiras e pescoções de dois alunos que se negavam a se sentar em seus lugares. Em João Pessoa, um professor foi agredido por um aluno com um martelo por ter-lhe dado nota baixa em um exame.

Em Curitiba, uma aluna investiu a palavrões, socos e pontapés contra uma pedagoga, provocando-lhe inchaços e cortes no rosto. A estudante foi contida e sua mãe se recusou a ir à escola para saber do ato da filha. Em Araçatuba (SP), um estudante com canivete tentou avançar sobre seus colegas. Foi desarmado pela segurança e suspenso por três dias. No dia seguinte, sua mãe foi ao colégio para forçar a diretora a aceitá-lo em sala. Como esta não cedesse, agarrou e bateu a cabeça da diretora contra uma janela.

Segundo pesquisa, 65,6% dos professores só do estado de São Paulo já sofreram violência física ou verbal no ambiente escolar. E no resto do país? Mesmo quem ainda não foi vítima fica tenso —sabe que pode ser o próximo. Professores de cidades pequenas têm medo de sair à rua e encontrar seus alunos.

Uma professora de São José dos Campos (SP) resumiu o terror da situação. Depois de sobreviver a anos de balbúrdia, desrespeito e xingamentos, um dia pediu água a um deles. O garoto lhe levou a água num copo contendo vidro quebrado. "Ninguém merece passar por isso", ela disse, chorando. "Nós cuidamos de quase o Brasil inteiro, mas quem cuida da gente? Quem cuida de quem cuida de nossas crianças?".

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A IMPORTÂNCIA DO VOTO

Artigo de Rachel de Queiroz

O artigo "Votar" de Rachel de Queiroz foi publicado na revista O Cruzeiro, em 11 de Janeiro de 1947, com o objetivo de alertar os eleitores de então, quanto a importância do voto, continua contemporâneo.

Não sei se vocês têm meditado como devem no funcionamento do complexo maquinismo político que se chama governo democrático, ou governo do povo. Em política a gente se desabitua de tomar as palavras no seu sentido imediato. No entanto, talvez não exista, mais do que esta, expressão nenhuma nas línguas vivas que deva ser tomada no seu sentido mais literal: governo do povo. Porque, numa democracia, o ato de votar representa o ato de FAZER O GOVERNO.

Pelo voto não se serve a um amigo, não se combate um inimigo, não se presta ato de obediência a um chefe, não se satisfaz uma simpatia. Pelo voto a gente escolhe, de maneira definitiva e irrecorrível, o indivíduo ou grupo de indivíduos que nos vão governar por determinado prazo de tempo.

Escolhem-se pelo voto aqueles que vão modificar as leis velhas e fazer leis novas - e quão profundamente nos interessa essa manufatura de leis! A lei nos pode dar e nos pode tirar tudo, até o ar que se respira e a luz que nos alumia, até os sete palmos de terra da derradeira moradia.

Escolhemos igualmente pelo voto aqueles que nos vão cobrar impostos e, pior ainda, aqueles que irão estipular a quantidade desses impostos. Vejam como é grave a escolha desses "cobradores". Uma vez lá em cima podem nos arrastar à penúria, nos chupar a última gota de sangue do corpo, nos arrancar o último vintém do bolso.

E, por falar em dinheiro, pelo voto escolhem-se não só aqueles que vão receber, guardar e gerir a fazenda pública, mas também se escolhem aqueles que vão "fabricar" o dinheiro. Esta é uma das missões mais delicadas que os votantes confiam aos seus escolhidos.

Pois, se a função emissora cai em mãos desonestas, é o mesmo que ficar o país entregue a uma quadrilha de falsários. Eles desandam a emitir sem conta nem limite, o dinheiro se multiplica tanto que vira papel sujo, e o que ontem valia mil, hoje não vale mais zero.

Não preciso explicar muito este capítulo, já que nós ainda nadamos em plena inflação e sabemos à custa da nossa fome o que é ter moedeiros falsos no poder.

Escolhem-se nas eleições aqueles que têm direito de demitir e nomear funcionários, e presidir a existência de todo o organismo burocrático. E, circunstância mais grave e digna de todo o interesse: dá-se aos representantes do povo que exercem o poder executivo o comando de todas as fôrças armadas: o exército, a marinha, a aviação, as polícias.

E assim, amigos, quando vocês forem levianamente levar um voto para o Sr. Fulaninho que lhes fez um favor, ou para o Sr. Sicrano que tem tanta vontade de ser governador, coitadinho, ou para Beltrano que é tão amável, parou o automóvel, lhes deu uma carona e depois solicitou o seu sufrágio - lembrem-se de que não vão proporcionar a esses sujeitos um simples emprego bem remunerado.

Vão lhes entregar um poder enorme e temeroso, vão fazê-los reis; vão lhes dar soldados para eles comandarem - e soldados são homens cuja principal virtude é a cega obediência às ordens dos chefes que lhe dá o povo. Votando, fazemos dos votados nossos representantes legítimos, passando-lhes procuração para agirem em nosso lugar, como se nós próprios fossem.

Entregamos a esses homens tanques, metralhadoras, canhões, granadas, aviões, submarinos, navios de guerra - e a flor da nossa mocidade, a eles presa por um juramento de fidelidade. E tudo isso pode se virar contra nós e nos destruir, como o monstro Frankenstein se virou contra o seu amo e criador.

Votem, irmãos, votem. Mas pensem bem antes. Votar não é assunto indiferente, é questão pessoal, e quanto! Escolham com calma, pesem e meçam os candidatos, com muito mais paciência e desconfiança do que se estivessem escolhendo uma noiva.

Porque, afinal, a mulher quando é ruim, dá-se uma surra, devolve-se ao pai, pede-se desquite. E o governo, quando é ruim, ele é que nos dá a surra, ele é que nos põe na rua, tira o último pedaço de pão da boca dos nossos filhos e nos faz apodrecer na cadeia. E quando a gente não se conforma, nos intitula de revoltoso e dá cabo de nós a ferro e fogo.

E agora um conselho final, que pode parecer um mau conselho, mas no fundo é muito honesto. Meu amigo e leitor, se você estiver comprometido a votar com alguém, se sofrer pressão de algum poderoso para sufragar este ou aquele candidato, não se preocupe. Não se prenda infantilmente a uma promessa arrancada à sua pobreza, à sua dependência ou à sua timidez. Lembre-se de que o voto é secreto.

Se o obrigam a prometer, prometa. Se tem medo de dizer não, diga sim. O crime não é seu, mas de quem tenta violar a sua livre escolha. Se, do lado de fora da seção eleitoral, você depende e tem medo, não se esqueça de que DENTRO DA CABINE INDEVASSÁVEL VOCÊ É UM HOMEM LIVRE. Falte com a palavra dada à fôrça, e escute apenas a sua consciência. Palavras o vento leva, mas a consciência não muda nunca, acompanha a gente até o inferno".

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