sábado, 31 de janeiro de 2026

MÃO AMIGA

André Barrocal, CartaCapital

O governador Ibaneis Rocha é figura central na investigação sobre o Banco Master

Daniel Vorcaro, dono do finado Banco ­Master, esteve com o presidente Lula no Palácio do Planalto no fim de 2024, levado por Guido Mantega, ministro da Fazenda no segundo mandato do petista e, à época da reunião, consultor da instituição financeira. Buscava apresentar ao governo federal sua versão sobre o que considerava uma perseguição de rivais poderosos no sistema financeiro. Em vão. Sob a batuta de ­Gabriel ­Galípolo, indicado por Lula, o Banco Central fechou o Master em novembro passado. Ricardo Lewandowski também havia se tornado consultor de Vorcaro­ depois de deixar o Supremo Tribunal Federal em 2023. O presidente sabia do contrato ao nomeá-lo ministro da Justiça. Se o banqueiro esperava ter no ex-juiz um defensor no governo, equivocou-se. Com Lewandowski na Justiça, o mineiro foi preso pela Polícia Federal em novembro, durante a Operação Compliance ­Zero, que investiga o banco. Tanto Mantega quanto Lewandowski tornaram-se consultores do Master por sugestão do líder de Lula no Senado, Jaques Wagner, do PT da Bahia, amigo de um conterrâneo e ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima.

Essas informações têm recheado o noticiário. Para quem acompanha o escândalo, parece até que o governo Lula é o “vilão” do enredo, tamanho o destaque dado ao lobby, malsucedido, tudo indica, de Vorcaro. Seria uma forma de desviar o foco dos verdadeiros “amigos” do banqueiro encastelados no Centrão e no bolsonarismo? O antecessor de Galípolo no BC, Roberto Campos Neto, foi levado ao cargo por Jair Bolsonaro. Durante seu mandato, a autoridade monetária autorizou o Master a funcionar, em 2019, como parte de um plano de incentivar o surgimento de instituições menores que enfrentassem os tubarões. Ao longo da gestão de Campos Neto no BC, o Master começou a ter problemas de caixa e a levantar desconfianças na Faria Lima quanto à sua solidez. O banqueiro central, protegido pela mídia e pelos pares do setor financeiro, não tomou providências, exceto por um mal explicado ultimato de dezembro de 2024, dias antes de passar o leme a Galípolo. Preferiu apostar na “mão invisível do mercado”. A omissão, ou a demora, do BC à época levou o Ministério Público a requerer ao Tribunal de Contas da União que investigasse o caso e para uma tentativa de convocação de Campos Neto à CPI do INSS.

Por conta da relação com Vorcaro, o emedebista virou alvo de dois pedidos de impeachment no Distrito Federal

Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro pelo PL de Bolsonaro, é outra figura em cena. O fundo de pensão dos servidores e aposentados fluminenses, o ­Rioprevidência, investiu 1 bilhão de reais no Master quando a sobrevivência do banco era incerta. Não à toa, a PF saiu às ruas há alguns dias para vasculhar o fundo de pensão. O comprometimento dos proventos dos servidores é uma pedra no caminho das pretensões eleitorais de Castro.

Ninguém, no entanto, simboliza melhor a mão amiga – e visível – da oposição a Vorcaro do que o emedebista Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal. O BRB, banco público de Brasília, levou um prejuízo de quase 5 bilhões de reais na compra de carteiras de crédito questionáveis do Master nos últimos dois anos. E ainda quis adquirir 58% do capital total da instituição privada, por 2 bilhões de reais, no momento em que ninguém no setor financeiro punha fé no conglomerado. Em março de 2025, havia uma oferta simbólica de 1 real pelo Master, da lavra do BTG de André Esteves, cujas divergências com Vorcaro são notórias.

A situação do governador piorou após a divulgação do depoimento do banqueiro mineiro à PF. Vorcaro tinha sido ouvido em 30 de dezembro, no inquérito em curso no Supremo que apura os negócios entre o Master e o BRB. No dia do interrogatório, a delegada Janaína Palazzo­ ouviu ainda Paulo Henrique Costa, presidente do BRB afastado do cargo pela Justiça em novembro, e Ailton de Aquino Santos, diretor de Fiscalização do BC. No depoimento, Santos estimou em quase 5 bilhões o buraco no BRB decorrente das transações com o Master. A delegada perguntou a Vorcaro se ele havia falado com Rocha a respeito da venda de parte do banco ao BRB. Resposta: “Conversei em algumas poucas oportunidades, sim”. Diálogos que teriam ocorrido nas casas de ambos, segundo o depoente.

O governador admitiu ter encontrado o banqueiro ao menos uma vez, em um almoço na residência de Vorcaro, em Brasília. Teria, porém, “entrado mudo e saído calado”. Seus adversários não acreditam na versão e montaram uma ofensiva para tirá-lo do cargo. Há dois pedidos de impeachment, ambos por crime de responsabilidade, propostos por PSOL, PSB e Cidadania. E dois para que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, abra um inquérito. Um de autoria do PSOL, ancorado na Lei do Colarinho Branco, e outro coletivo de PT, PDT, PCdoB, PV e Rede, baseado em crime comum e de improbidade. “Presidentes falam com banqueiros, como o Lula falou com o Vorcaro. O diferente no caso do Ibaneis é que a conversa teve desdobramento. O governador atuou como lobista do Master. Isso não é só questionável, é crime”, diz Fábio Félix, deputado psolista na Assembleia Legislativa de Brasília.

O “desdobramento” provocou “prejuízos bilionários” ao Distrito Federal e ao BRB, como ressaltam o pedido de ­impeachment de PSB e Cidadania e a representação de PT, PDT, PV, PCdoB e Rede. É o resultado de um arranjo que juntou a fome com a vontade de comer, além de farta camaradagem. Governador desde 2019, o bolsonarista resolveu turbinar o BRB, dar-lhe musculatura para voos nacionais. A instituição patrocinou a Fórmula 1 e o Flamengo. Sem dar a mesma publicidade, foi generosa com alguns ricaços, incluído o próprio Rocha, que declarou patrimônio de 79 milhões de reais na última eleição. O emedebista comprou no ano passado uma fazenda obtida pelo banco na esteira da execução da dívida de um cliente. Pagou 60% do valor da propriedade, em um leilão. Em 2024, tinha adquirido uma suíte de 2 milhões de reai­s em São Paulo com dinheiro emprestado pelo BRB com juro de pai para filho.

O senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio, tirou proveito do juro de camarada, ao comprar uma casa de 6 milhões de reais em Brasília. Rocha fez de tudo para que a atual morada do pai de Flávio não fosse o presídio da Papuda. Seus subordinados quiseram convencer o Supremo de que na capital do País não havia estabelecimento prisional apropriado para o “frágil” Jair Bolsonaro cumprir a pena de 27 anos por tentativa de golpe. O governador, aliás, escapou por, digamos, um golpe de sorte de engrossar o banco dos réus após o quebra-quebra de 8 de janeiro de 2023 na cidade. Chegou a ser afastado do cargo por quase dois meses pelo STF. Seu secretário de Segurança Pública da época, Anderson Torres, foi condenado juntamente com Bolsonaro. A então cúpula da PM de Brasília também, em um julgamento a ser concluído em fevereiro.

O governador vislumbrava, na associação com o Master, a expansão nacional do BRB

De volta ao imbróglio atual. Ao mesmo tempo que Rocha sonhava com um BRB nacional, o Master aventurava-se por trilhas que o levariam à beira do precipício. Na fase expansionista após o aval do BC de Campos Neto, a instituição havia vendido títulos com a promessa de pagar remuneração acima da média do mercado. O dinheiro captado foi aplicado em negócios de retorno baixo ou incerto, em empresas em dificuldades. Quando chegou a hora de resgatar os papéis e pagar os investidores, não havia recursos suficientes. A enrascada ficou clara em 2024, conforme um relatório do BC que aponta a combinação de crise de liquidez e reputação. O Master recorreu à venda da carteira de crédito. Receberia de imediato dinheiro que entraria no cofre mais adiante. O BRB foi magnânimo. Topou adquirir os títulos.

De novembro de 2024 em diante, o banco de Vorcaro passou a vender ao BRB carteiras que não eram suas originalmente, mas de uma empresa criada por aqueles dias, a Tirreno. Uma firma de fachada para dar aparência de normalidade às transações. Dizia ter carteira de crédito consignado e vendeu-a ao Master, que por sua vez a repassou ao BRB. Detalhe: um ex-funcionário do banco mineiro assumiu o controle da Tirreno sete meses depois do nascimento da empresa. O BC examinou 30 contratos de empréstimo consignado da companhia e não comprovou sua veracidade. Na análise seguinte, de cem contratos, naquela altura contabilizados no BRB, identificou duplicidade. Era como se o Master tivesse negociado com a instituição pública a mesma mercadoria duas vezes. Tudo somado, o BRB injetou 12 bilhões de reais em troca de uma ficção.

Por ocasião da tentativa de aquisição de metade do Master pelo banco público, o governador jactou-se em uma entrevista. “Vamos falar a realidade”, comemorou. “Tiramos o BRB da Polícia Federal, como estava no governo anterior, e levamos para a Faria Lima (…) Pensaram que eu estava vendendo o BRB e estamos comprando o Banco Master.” Era o contrário. A aquisição, anunciada no mês anterior, tinha, diz o BC, a intenção de acobertar trambiques. Quando a autoridade monetária proibiu a operação, Rocha ficou inconformado: “Mais uma vez, PT e PSB agiram contra o DF”. Era uma referência aos partidos de Lula e Geraldo ­Alckmin, vice-presidente. “Tudo indica que o BRB estava internalizando as fraudes do Master”, acusa Ricardo Cappelli, ex-interventor na Segurança Pública do DF e pré-candidato pelo PSB ao governo distrital. “O Paulo Henrique Costa (ex-presidente do BRB) não faria isso sozinho, sem o aval do governador.” No depoimento à PF, em dezembro, Costa admitiu ter falado com Rocha a respeito da aquisição.

O ex-presidente do BRB é próximo do senador Ciro Nogueira, presidente do PP e conterrâneo piauiense de Rocha. Quando o emedebista resolveu concorrer ao governo distrital em 2018, Nogueira foi o primeiro a ser consultado. A vice-governadora, Celina Leão, é do PP e deseja concorrer à sucessão em outubro. Na eleição passada, o PP tinha apoiado Flávia Arruda, hoje Flávia Peres, para o Senado. Peres (ex-Arruda) é do PL de Bolsonaro e foi colega de Nogueira no governo do capitão, ambos os ministros no Palácio do Planalto. Derrotada em 2022, a candidata foi trabalhar no Master como diretora de Relações Institucionais, cuja função era fazer contatos políticos. Casou-se posteriormente com Augusto Lima, o baiano amigo de Wagner e sócio do Master até 2024. Nogueira, recorde-se, tentou dar uma forcinha ao banco de Vorcaro ao propor no Congresso uma mudança na Constituição para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, que ressarce até certo limite o dinheiro de aplicadores em instituições com problemas de liquidez.

O atual presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, é paulista, mas fez carreira no setor bancário no Piauí. É ligado a Nogueira. Tem quebrado a cabeça em busca de uma solução que cubra o rombo da instituição sem afetar os cofres do Distrito Federal. Caso verba pública seja injetada no banco, Rocha ficará em situação mais delicada. Haverá uma cifra para resumir o prejuízo causado por sua gestão ao Erário. Souza convidou para almoços em fevereiro, em São Paulo, influenciadores digitais. Tradução: garotos-propaganda remunerados. O executivo pretende apresentar-lhes suas ideias e topa financiá-los para que falem bem do BRB na web. Quando caiu em desgraça, no fim do ano passado, o Master arquitetou uma operação inversa, para ­influencers falarem mal do BC. Os intermediários da engrenagem abordaram influenciadores com o seguinte argumento: “Caso de repercussão nacional. Gente grande. Esquerda e Centrão envolvidos”. Autorizada por Dias Toffoli, do Supremo, a PF abriu um inquérito para investigar a formação da milícia digital.

Segundo Cappelli, aproxima-se o ‘dia D’ para o BRB. Seria 15 de fevereiro, data da publicação obrigatória do balanço anual. Nesse momento se tornará público o tamanho do rombo apurado pelo próprio banco e o que será feito para tapá-lo. As demonstrações contábeis do terceiro trimestre de 2025 não saíram até hoje. Questionado por CartaCapital sobre o motivo da não publicação e se há relação com o caso Master, o BRB não respondeu. Está em curso, afirma a instituição, uma auditoria independente sobre a situação interna, levada adiante pelo escritório de advocacia Machado Meyer, especializado em compliance e investigações, com suporte da Kroll, uma multinacional da área de riscos de mau histórico no Brasil. O trabalho deve ser concluído nas próximas semanas.

O governador também não respondeu às perguntas da revista. Rocha conta com ampla maioria na Assembleia Legislativa e dificilmente prosperarão os pedidos de impeachment ou a abertura de uma CPI. O início do processo de cassação depende em primeiro lugar do presidente da casa, o deputado distrital Wellington Luiz, comandante do MDB em Brasília. A esperança da oposição reside no eventual aparecimento de fatos novos e no acirramento do jogo eleitoral deste ano. Vorcaro deve depor em 5 de fevereiro na CPI do INSS. Incriminará Rocha? O escândalo vai influenciar o voto do eleitor brasiliense? Em caso afirmativo, aumentam os riscos para o governador, inclinado a disputar uma vaga no Senado, o que o obrigaria a deixar o comando do DF em abril. O plano continua de pé? Largar o governo lhe custaria o foro privilegiado e o poder de influência do cargo.

Há a possibilidade de a eleição rachar o bolsonarismo em Brasília e complicar as pretensões de Rocha. O emedebista imaginou candidatar-se ao Senado em dobradinha com Michelle Bolsonaro (estão em disputa duas vagas por estado). A deputada federal bolsonarista Bia Kicis, do PL, também cobiça uma indicação e pode movimentar-se politicamente para inviabilizar o governador e ser a parceira de Michelle nas urnas. A temporada de punhaladas está aberta. 

Bode na sala

Até quando o ministro Dias Toffoli tocará o inquérito?

O bode na sala no escândalo do Banco Master sairá do aposento? Sobram motivos para crer que o ministro José Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, não sobreviverá no papel de juiz supervisor da investigação policial sobre a fraude bancária. A dúvida é se deixará o recinto por vontade própria ou na marra.

Toffoli foi jogado às feras pelo presidente da Corte, Edson Fachin, e pelo Palácio do Planalto. Enrolado em despachos extravagantes sobre o caso e em um resort a respeito do qual faz cara de paisagem, é defendido por poucos. Basicamente, dois colegas: Gilmar Mendes, que age nos bastidores e em público, e Alexandre de Moraes, que prefere o primeiro método.

O Supremo reabre em 1º de fevereiro, mas Fachin antecipou o fim das férias para sondar os integrantes do tribunal sobre a situação de Toffoli. Após as consultas, deu várias entrevistas e, em uma delas, afirmou: “Há uma suscitação de que não há razão desse processo estar no STF”.

As investigações estão lá graças a Toffoli. Em dezembro, o juiz concentrou na Corte apurações em curso em varas de Brasília e São Paulo. Era um pedido da defesa de um ex-diretor do Master. O advogado havia viajado de avião com Toffoli ao Peru dias antes. Baseou a solicitação em um contrato imobiliá­rio achado pela Polícia Federal na casa do dono do Master, Daniel Vorcaro. O acordo era com um deputado do PL da Bahia, João Carlos Bacelar, razão do foro privilegiado.

Há um roteiro capaz de servir de saída honrosa a Toffoli. O magistrado pode concluir que Bacelar nada tem a ver com o caso. O passo seguinte seria devolver os processos às instâncias inferiores. O próprio ministro abriu um precedente em relação ao empresário Nelson Tanure, apontado como sócio oculto do Master.

O script geral depende do fim das investigações da PF, em março, e da posição do procurador-geral da República, Paulo Gonet. Se ninguém incriminar Bacelar, Toffoli manda os processos de volta à primeira instância.

Existe um cenário alternativo, pior para o ministro. Toffoli seria derrotado no voto por colegas, na hipótese de alguma autoridade (Gonet, por exemplo) cobrar do STF que o caso desça à primeira instância por ausência de foro privilegiado envolvido. O requerimento iria a julgamento na turma da qual Toffoli faz parte. Dos demais quatro integrantes, ele conta apenas com o apoio de Mendes, tutor do colega a partir do governo Dilma Rousseff. Parece sentir-se alvejado pela cruzada de Fachin por um código de conduta no STF, assunto de uma reunião marcada para
12 de fevereiro no tribunal. Mendes está por trás do IDP, faculdade patrocinadora de evento com figurões em Portugal.

E Moraes? É colega de faculdade de Toffoli, formaram-se juntos em 1990. Além disso, sua esposa é uma advogada que esteve a serviço do Master. E Lula? Responsável por indicar o ex-advogado-geral da União para uma vaga no tribunal em 2009, tem criticado o juiz a portas fechadas, conforme uma operação montada no Planalto para afastar o presidente da investigação. O petista quer punição, doa a quem doer.

Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital, em 04 de fevereiro de 2026.

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PROIBIÇÃO DE COTAS EM SANTA CATARINA É RASCISMO

Flávia Oliveira, O Globo

Ataque às políticas de inclusão de pessoas negras, invariavelmente, emerge como tática política às vésperas de período eleitoral

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou, em votação simbólica, em dezembro, legislação que proíbe a aplicação de cotas raciais para ingresso em universidades estaduais e entidades de ensino que recebam recursos do governo catarinense. A casa, formada por 40 deputados, não indicou no painel do plenário quantos deputados votaram a favor, contra ou não se posicionaram sobre o projeto de um parlamentar do PL, posteriormente sancionado pelo governador. Pelo que declararam os próprios deputados, sete integrantes da Casa foram contrários ao texto que, ora judicializado no próprio estado e no Supremo Tribunal Federal (STF), suprime a reserva de vagas para pretos e pardos, mas a mantém para alunos oriundos de escolas públicas, de baixa renda e portadores de deficiência.

O ataque às políticas de inclusão de pessoas negras, invariavelmente, emerge como tática política às vésperas de período eleitoral. Trata-se de tema exaustivamente debatido no Brasil — na sociedade, no mundo político e no Judiciário — nos primeiros anos deste século, quando a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) acenou afirmativamente à entrada da gente preta e periférica em escalas nas salas de aula. Há quase 14 anos, o Supremo, arguido pelo DEM, ex-PFL, hoje União Brasil, decidiu por unanimidade que as cotas são forma legitima de política pública para corrigir desigualdades históricas. Tratar desigualmente os desiguais para construir equidade é iniciativa 100% alinhada à Constituição de 1988. Mais tarde, em 2014, o mesmo STF estendeu o entendimento aos concursos federais.

As leis federais de cotas para ensino e empregos públicos foram prorrogadas em 2023 e 2025, respectivamente, após sua eficácia ser confirmada em estudos acadêmicos. As evidências foram todas favoráveis: alunos pretos, pardos, indígenas, antes raros, tornaram-se visíveis no ensino superior; a qualidade das universidades não caiu; o rendimento dos cotistas é equivalente ao de quem se matriculou pela ampla concorrência; o horizonte de pesquisas se ampliou. Em decorrência da escolaridade ampliada, cresceu também a participação de pessoas negras nos mundos corporativo, jurídico, artístico, literário, midiático. A diversidade provou-se tão democrática quanto rentável. Significa dizer que não apenas os estudantes negros e suas famílias se beneficiaram. Ganharam também as empresas, as instituições, a sociedade, enfim.

A gente preta descobriu que é tão capaz quanto as pessoas brancas, a quem eram reservadas as melhores posições nos bancos escolares e no mercado de trabalho. A supremacia branca não se deu por merecimento, mas pela depreciação e pela exclusão das massas, com pitadas de exceção para disfarçar. O debate amplo sobre o racismo à brasileira nos fez enxergar. Negros somos bonitos como os brancos. E feios. Como os brancos, inteligentes e estúpidos. Sensíveis e indiferentes. Geniais e abomináveis.

Renunciamos à desumanidade que nos foi imposta ao longo da História. E ora nos ameaça. A razão implícita nos argumentos contrários às cotas raciais na versão 20.26 é a mesmíssima de antes: racismo. É preciso honestidade e coragem para admitir. No Brasil, o supremacismo branco reemerge com eufemismos. Defender cotas raciais — aplicadas, vale lembrar, proporcionalmente à demografia local, após os critérios de ensino público e renda — não é blindagem. É, sim, política pública de combate à discriminação testada e aprovada. Abolir o ingresso à universidade por critério étnico-racial não é medida para restituir mérito. Os pretos aprendemos que mérito não é atributo inerente à pele branca, mas argumento para reivindicar privilégio tomado como direito adquirido.

O fim das cotas premiaria a mediocridade, por aniquilar a diversidade. A experiência de ser preto e pobre não é a mesma de ser branco e pobre. Hoje, se observamos uma floresta de eucalipto, sabemos que se trata de um deserto verde, pobre. Riqueza é a biodiversidade da Mata Atlântica, do Pampa, do Cerrado, da Amazônia. A valiosa paisagem humana brasileira é preta, parda, indígena, branca, amarela; inclui mulheres, homens, LGBTQIA+, pessoas com deficiência. O movimento contra cotas é político. Busca atrair, pelo ódio racial, porções inconformadas do eleitorado. Em Santa Catarina, como argumenta uma das ações apresentadas ao STF, mostra-se tão antinegros que admite os demais critérios de reserva de vagas (escola pública, de baixa renda, deficiência). Alinha-se ao supremacismo, à xenofobia, ao racismo, à intolerância que se espalham no Brasil e mundo afora.

Não há riqueza em debater retrocesso, quando há tanto a avançar no enfrentamento à exclusão e na criação de oportunidade a quem não teve. Em frente.

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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

BANCO MASTER NAS ELEIÇÕES

Artigo de Fernando Gabeira

O ano eleitoral começa com um escândalo. Deve avançar nos próximos meses, mas não creio que possa influenciar a escolha presidencial. Mas isso não significa que é irrelevante. O escândalo atinge, de certa forma, o Supremo Tribunal Federal (STF). Na verdade, em termos populares, tanto o contrato da mulher de Alexandre de Moraes como a controvertida relatoria de Dias Toffoli são temas muito discutidos. As notas de Edson Fachin, alguns posts de Gilmar Mendes e a própria posição do procurador-geral indicam que Toffoli está blindado. A tendência, portanto, é de crescer a desconfiança em relação aos ministros, na medida em que avança o caso do Banco Master.

Desde o ano passado, a direita definia como uma das prioridades conquistar o Senado. No seu projeto, conquistar o Senado lhe daria poder para votar o impeachment de ministros do Supremo. Sua motivação era puramente partidária: vingar as sentenças que condenaram os vândalos de 8 de janeiro, Bolsonaro e militares de alta patente que participaram da tentativa de golpe. Apesar de seus objetivos estreitos, a posição de alguns de seus candidatos era bem razoável, tanto que Lula mobilizou a esquerda para que articulasse uma grande campanha e evitasse perder terreno num espaço vital para seu governo. Como as ligações conhecidas do Master se situam no Centrão e o processo, ao que tudo indica, não tem exclusividade ideológica, é difícil fazer simplificações.

Ao blindar seus ministros, o Supremo expõe um front que pode dar à direita um novo impulso para seus planos de ganhar o Senado. São situações difíceis de manejar, uma vez que o STF está muito fechado para aceitar críticas.

O próprio ministro Fachin enumerou uma série de razões pelas quais o Supremo é criticado. Mas no seu arrazoado só aparecem qualidades. Não há defeitos. O Supremo é uma força desarmada, o Supremo cuida das minorias, supervisiona os demais Poderes. A leitura do texto, inevitavelmente, nos leva a defender o Supremo, desde que esqueçamos as razões pelas quais é criticado. Uma delas é a ganância. A derrubada do artigo que proibia parentes de advogarem no Supremo abriu uma extraordinária fonte de renda que o próprio Master revela. O contrato com Viviane Barci de Moraes é milionário. Ela recebia R$ 3,6 milhões por mês. O escritório de Lewandowski, gerido pelos filhos, recebia R$ 250 mil por mês. Apesar de essas notícias circularem pelos jornais e outros meios, não houve ainda uma relação de causas, ganhas ou mesmo perdidas, que justificasse todo esse dinheiro.

O caso de Toffoli é ainda mais difícil, pois há notícias de negócios de seu resort com o cunhado do dono do Master. E de relações de seu resort, registrado em nome da família, com um advogado da J&F, a mesma empresa cuja multa de R$ 10,3 bilhões o ministro anulou. Tanto Toffoli quanto Moraes não vieram a público se defender. Certamente têm suas versões, mas não as apresentaram.

Além do reflexo nas eleições já analisado, existe também a possibilidade de um desencanto geral. Aliás, o desencanto já é turbinado pelo comportamento dos parlamentares, que dificilmente votam projetos populares e ainda abocanharam grande parte do Orçamento nacional.

Um quadro desses, sem uma dinâmica favorável que pode ainda surgir ao longo do ano, arrisca a produzir uma apatia geral, sacudida parcialmente por propostas aventureiras.

Ao advertir para essas possibilidades, como tenho feito, corro sempre o risco de mal-entendidos. Prever o avanço de uma força política diante de um quadro negativo não significa apoio a essa força política, apenas uma advertência e um apelo para mudanças. Diante do maniqueísmo da política nacional, qualquer nuance é um perigo. Da mesma forma, criticar a cúpula do STF por blindar um relator contestado não significa criticar o papel do STF numa democracia.

Infelizmente, as notas que foram lançadas, até agora, vão sempre na direção de caracterizar os críticos como adversários do Estado de Direito. Não é bem assim. Não é correto vestir o figurino de salvador da democracia e considerar que o exercício do jornalismo, por exemplo, é um ato antidemocrático. Na verdade, uma reação desse tipo revela a semente do autoritarismo. Assim como em muitos países o jornalismo é considerado uma traição nacional ou então um pecado imperdoável, em governos religiosos.

No momento, as autoridades máximas da Justiça, com seu discurso de negação das críticas, podem estar nos empurrando para dias difíceis, exatamente um quadro oposto à democracia que afirmam defender. Precisamos de abertura para críticas e transparência. Sem isso, o País pode afundar. Ainda é hora de buscar outro caminho.

É preciso que as eleições ocorram com eleitores interessados, base política de grandes mandatos presidenciais. E é preciso que uma alta dose de confiança nas instituições para mobilizar o País em torno de um programa.

Artigo publicado no jornal Estadão em 30 / 01 / 2026

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A REALIDADE DE UM MUNDO PÓS-RUPTURA

Martin Wolf, Valor Econômico

A Europa tem um papel fundamental na construção de um sucessor para a ordem global liderada pelos EUA

Na reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, na semana passada, ouvimos Donald Trump proferir um discurso desconexo, permeado por sua já conhecida mistura de ressentimento e megalomania. Também ouvimos Mark Carney, ex-banqueiro central e agora primeiro-ministro do Canadá, fazer um discurso brilhante sobre o fim da velha ordem e as opções para as chamadas “potências intermediárias”. Este último foi o acontecimento mais importante.

Carney começou citando um ensaio de Václav Havel, escritor, dissidente e o primeiro presidente da Checoslováquia pós-comunista. No texto, Havel sustentava que o comunismo se mantinha, nas palavras de Carney, “por meio da participação de pessoas comuns em rituais que, no fundo, elas sabiam ser falsos”. De modo parecido, argumentou Carney, “em grande medida evitamos apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade” daquilo que chamávamos de “ordem internacional baseada em regras”.

Mas, no mundo atual da interdependência instrumentalizada, “não se pode viver da mentira do benefício mútuo por meio da integração quando a integração passa a ser a fonte da sua subordinação”. O momento atual, disse ele, marca “uma ruptura, e não uma transição”. Ele está certo.

Carney insistiu que a velha ordem não só não vai voltar, como “não deveríamos lamentá-la. A nostalgia não é uma estratégia”. A frase seguinte (“Acreditamos que, a partir da ruptura, podemos construir algo melhor, mais forte, mais justo”) é uma esperança, mas também não é uma estratégia. Um analista sóbrio precisa se perguntar se, e até que ponto, ela pode vir a se tornar uma.

Se quisermos transformar esperança em realidade, é preciso reconhecer que o paralelo que ele traçou entre as mentiras que sustentaram o comunismo e aquelas que legitimavam o antigo regime global é enganoso. As primeiras, eram mentiras descaradas: os antigos regimes do Leste Europeu fracassaram em todas as dimensões em relação à Europa Ocidental. As segundas, porém, eram melhores até do que meias-verdades.

A resolução de disputas no âmbito do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (Gatt) e da Organização Mundial do Comércio (OMC), por exemplo, era frequentemente eficaz, mesmo contra os Estados Unidos. Como o próprio Carney observa: “A hegemonia americana, em particular, ajudou a prover bens públicos: rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a estruturas para a resolução de disputas”. A ordem liberal estava longe de ser uma mera ficção.

Muito mais importante ainda, o período pós-Segunda Guerra Mundial foi, em termos gerais, um sucesso enorme e sem precedentes. Desde a Guerra da Coreia, no início dos anos 50, não houve guerra direta entre grandes potências. A disseminação da prosperidade e as melhorias na saúde em grande parte do mundo também não têm precedentes. A abertura da economia mundial ao comércio e aos investimentos deu uma contribuição vital para isso: qualquer chinês ou indiano sensato concordaria.

Quanto às dificuldades de ajuste em alguns países, sobretudo nos EUA, elas decorrem de escolhas políticas feitas pelos mais prósperos. O resultado tem sido o protecionismo caótico de Trump. Mas ele não conseguirá amparar as pessoas que afirma querer ajudar: trata-se de uma fraude.

Resumindo, a integração foi fonte tanto de prosperidade quanto de vulnerabilidade. O sistema esteve longe de ser uma mentira, mas acabou se transformando em uma, à medida que o mercantilismo de uma China em ascensão se combinou com o protecionismo de um EUA em declínio. O resultado foi forçar os países a se protegerem por meio de estratégias de mitigação de riscos. Mas, não se engane, essa postura defensiva terá um custo elevado.

A abertura da economia mundial ao comércio e aos investimentos contribuiu para a disseminação de uma grande prosperidade no pós-guerra. Mas essa integração também gerou vulnerabilidades, que resultaram no protecionismo caótico dos EUA de Trump

Então, para onde devemos ir a partir daqui se quisermos minimizar as perdas causadas pela ruptura? A recomendação da Carney é que haja acordos entre as “potências intermediárias” como uma alternativa a um “mundo de fortalezas”. Sua abordagem se baseia no que Alexander Stubb, presidente da Finlândia, chama de “realismo baseado em valores”: o Canadá será “guiado por princípios em seu compromisso com valores fundamentais”, ao mesmo tempo em que irá “se engajar de forma ampla e estratégica, com os olhos bem abertos”.

Suponhamos que todas as potências intermediárias sigam uma direção semelhante; onde isso funcionaria melhor, onde funcionaria pior e o que mais seria necessário para que os problemas fossem resolvidos?

Comércio e investimento são as áreas mais fáceis de sustentar. O colapso das velhas regras cria uma incerteza custosa, especialmente em relação ao comércio com os EUA. Ainda assim, estes responderam por apenas 17% das importações mundiais de bens em 2024. É um mercado grande, mas não é o único.

Dinheiro e finanças são mais complicados. As potências intermediarias permanecerão vulneráveis à coerção dos EUA por meio do uso do dólar e da dependência do sistema financeiro americano, a menos que haja alguma reforma radical. O uso do yuan não é uma solução: apenas cria outra vulnerabilidade.

A segurança é um desafio ainda mais difícil. O mundo conta com três superpotências nucleares claras e duas potências militares plenas. Há um limite para a capacidade da maioria das potências intermediárias de prover segurança para si mesmas e para seus parceiros. Diante de algumas ameaças - como a pirataria, por exemplo -, elas podem ser eficazes. Mas contra outras, isso se mostrará bem mais complicado.

Ainda mais difícil será garantir certos bens públicos globais, sobretudo ações contra as mudanças climáticas, se uma ou mais superpotências se opuserem ferozmente. Nesse caso, será necessária uma cooperação global - e talvez até sanções contra os EUA.

Quanto mais se examina o que está por vir, mais importante a União Europeia se torna - aos olhos de Trump, o maior inimigo -, como argumenta meu colega Martin Sandbu. A cada dia que passa, mais responsabilidades e poder são impostos à União Europeia, em todos os domínios. Felizmente, ela não está desarmada. Como observa Robert Shapiro, subsecretário do Comércio no governo de Bill Clinton, a alavancagem financeira da Europa sobre os EUA é substancial. Ela precisa usá-la.

Em seu livro, escrito no exílio, Stefan Zweig (escritor austríaco judeu que se suicidou no Brasil em 1942), descreveu o mundo perdido da Europa anterior à Primeira Guerra Mundial. Nós também estamos perdendo um mundo. Ele também era imperfeito, embora muito melhor do que aquele. Desta vez, a Europa precisa ser uma salvadora, não uma destruidora. O Reino Unido também terá de se juntar às lutas que se avizinham. (Tradução de Mário Zamarian).

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O CASO MASTER, FACHIN E A TRANSIÇÃO JURÍDICA INACABADA DO SUPREMO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O presidente do Supremo tem insistido na necessidade de limites institucionais claros e na preservação da autoridade da Corte por meio da autocontenção

Durante a Lava Jato, havia duas linhas de atuação no Supremo Tribunal Federal (STF), a ponto de uma das Turmas ser chamada pelos advogados de Jardim do Éden e a outra, de Câmara de Gás. Em algum momento essa divisão entre garantistas e punitivistas, digamos assim, foi ultrapassada pela necessidade de defender a democracia e o devido processo legal, ameaçados pelo então presidente Jair Bolsonaro. Tanto que essas ameaças se consumaram na tentativa de golpe de 8 de janeiro.

Desde então, o Supremo vem sendo um grande protagonista da política nacional, quando se sabe que a Corte só atua sob demanda. Seus ministros alargaram seus poderes em todas as direções, não apenas em relação à excepcionalidade do processo das fake news, a cargo do ministro Alexandre de Moraes, que virou guarda-chuva para julgar e condenar os golpistas, entre os quais Bolsonaro. Volta e meia, em casos de grande repercussão, um ministro dá um drible a mais sem ser o Garrincha.

No caso do Master, a Corte está sendo submetida a um forte desgaste junto à opinião pública, e seu presidente, ministro Edson Fachin, apresenta uma proposta de Código de Conduta para a atuação dos seus pares com amplo apoio na sociedade e, à vera mesmo, quase nenhum dos colegas. Tanto que a discussão da proposta já foi adiada para depois das eleições, ou seja, pode ficar para as calendas. Na prática, o que acontece na Corte que mais desgasta sua imagem pode ser resumido na frase “advogado não é parente”.

O Judiciário não é eleito. Sua legitimidade não decorre do voto, mas do ingresso por concurso ou da indicação constitucional seguida de sabatina, no caso dos tribunais superiores. Essa é a chamada legitimidade de entrada. Contudo, ela não se sustenta sozinha ao longo do tempo. Há uma segunda dimensão, mais exigente e permanente: a “legitimidade da caminhada”, construída por decisões fundamentadas, jurisprudência estável, previsibilidade e conduta compatível com a função constitucional de julgar.

É nessa dimensão que se concentra o desgaste recente do STF, agravado por casos de grande impacto político e econômico, como o do Master. O problema não está apenas no conteúdo das decisões. Cresce a percepção de que o Supremo passou a atuar como gestor de crises, e não apenas como guardião da Constituição.

Segundo Fachin, o Judiciário costuma ser alvo de ataques por três razões principais: o seu papel de controle sobre os demais Poderes, o que inevitavelmente incomoda governantes e maiorias com pretensões hegemônicas; o fato de ser um Poder sem força material própria, que não dispõe de armas nem de meios coercitivos diretos, dependendo da aceitação social e da cooperação institucional, porém vulnerável a campanhas de deslegitimação; e o papel assumido no pós-guerra, especialmente no constitucionalismo contemporâneo, de proteger direitos fundamentais e minorias, o que provoca reações de setores contrários a essa agenda.

Liderança moral

O presidente do STF tem insistido na necessidade de limites institucionais claros e na preservação da autoridade da Corte por meio da autocontenção. Em uma de suas manifestações mais diretas, afirmou que “o Supremo Tribunal Federal não é poder moderador, nem substituto da política”, advertindo que a Corte não pode ocupar o espaço próprio do Executivo e do Legislativo. Em outra ocasião, ressaltou que “a legitimidade do Judiciário não se constrói pela força, mas pela fundamentação das decisões e pela fidelidade à Constituição”.

Para Fachin, a autoridade do Judiciário depende da coerência jurisprudencial, do respeito ao devido processo legal e da previsibilidade. Como sintetizou, “juiz não decide conforme a vontade do momento, decide conforme o direito”. Trata-se de uma defesa da estabilidade institucional sob pressão política e judicialização excessiva.

Esse desgaste do Supremo, porém, precisa ser compreendido à luz de uma transição inacabada do direito germânico-romano para o modelo anglo-saxão. Tradicionalmente, o Brasil se filiou ao primeiro, baseado na centralidade da lei escrita e na exegese restritiva. Nesse modelo, o juiz aplica a lei; não a cria. Contudo, a partir da Constituição de 1988, o Supremo incorporou elementos típicos do common law: precedentes vinculantes, repercussão geral, súmulas vinculantes e uma interpretação constitucional cada vez mais principiológica.

O texto normativo deixou de ser um limite rígido para se tornar ponto de partida, sem um pacto institucional claro sobre seus limites. O resultado é um Judiciário poderoso, mas politicamente exposto; necessário à defesa da Constituição, mas frequentemente ativista. A advertência de Fachin se insere nesse ponto sensível ao lembrar que “a Constituição não autoriza soluções de exceção permanentes”.

A Corte é chamada a arbitrar conflitos políticos, econômicos e institucionais de forma recorrente, tornou-se, muitas vezes, a primeira arena de disputa. O caso Master expõe as fragilidades de um arranjo institucional em que a transição incompleta entre dois modelos jurídicos amplia o espaço de interpretação judicial sem consolidar, na mesma medida, os freios e contrapesos necessários.

Como alertou Fachin, “a confiança pública no Judiciário é construída todos os dias, decisão após decisão”. Ocorre que as decisões judiciais se tornam cada vez mais heterodoxas. O custo disso é o desgaste da liderança moral do Supremo na sociedade, mesmo que sua autoridade ainda seja a palavra final, como deve ser, aliás, numa ordem democrática.

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MASTER PAUTA ARTICULAÇÕES ENTRE PODERES NO RECESSO

Fernando Exman, Valor Econômico

Às vésperas do fim do recesso, o Senado, a quem cabe em última instância julgar a conduta dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e da cúpula do Banco Central (BC) em caso de pedidos de impeachment ou exoneração, prepara-se para entrar no caso Master. Quer tomar parte nas investigações. E como fez no ano passado ao dar um empurrão para o BC limitar as chamadas contas-bolsão que dificultavam a identificação de movimentações financeiras realizadas por facções criminosas, pretende contribuir no aprimoramento da regulação dos fundos exclusivos de investimento.

Neste momento, na cúpula do Senado não se fala de um eventual impeachment do ministro Dias Toffoli, que tem mantido a relatoria dos processos envolvendo o Banco Master no Supremo, a despeito de críticas e questionamentos sobre as ligações de sua família no caso. Nem de outros ministros do STF.

A intenção de senadores da base é aguardar eventuais desdobramentos do caso e, enquanto isso, estender a mão a Toffoli. Recentemente, por exemplo, foi enviada mensagem ao ministro dizendo que ele teria apoio na Casa, desde que, sem a necessidade de ser provocado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pela Polícia Federal (PF), saísse da defensiva e assumisse a postura esperada de um ministro do Supremo. Ter o apoio dos próprios pares seria um primeiro passo.

Tais parlamentares não ficaram surpresos, portanto, quando foi divulgada na semana passada uma extensa nota oficial pelo presidente do Supremo, Edson Fachin. Articulado também por outros integrantes da Corte, o comunicado deu apoio à atuação do ministro Dias Toffoli - ainda que com a sinalização de revisão de eventuais “vícios ou irregularidades” pelo colegiado nos termos regimentais e processuais.

No governo federal, aliás, existe a convicção de que Toffoli tem colocado os demais colegas em uma situação delicada. Mas, pondera-se, a sua ruína poderia abrir caminho para outros processos de impeachment contra ministros do Supremo. É uma porteira que muitos temem ver aberta, sobretudo em ano eleitoral.

Para esses interlocutores no Executivo, portanto, uma barreira de contenção poderia ser justificável neste momento. Além disso, existe uma avaliação de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria manter distância do caso: foi só ele criticar publicamente o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, que já surgiu a informação de que recebera o banqueiro em dezembro de 2024.

Ou seja, se o assunto é tóxico, a estratégia do PT será relacionar o escândalo a brechas no sistema que não foram devidamente vedadas durante a gestão anterior do BC, afastando-o tanto do Palácio do Planalto quanto da atual administração do Banco Central. Mas ainda há dúvidas se o próprio presidente Lula não se arriscará novamente nesse polêmico terreno, sob a justificativa de que atacar Vorcaro faria sentido em uma estratégia de roubar a bandeira “antissistema” da extrema direita.

Com este pano de fundo, articula-se a ida ao Senado do presidente do BC, Gabriel Galípolo.

É bem possível que na ocasião surjam questionamentos se a autoridade monetária poderia ter sido mais rápida ao decidir se liquidava ou não o Banco Master. Em sua defesa, contudo, haverá quem diga que está provado que esse tipo de processo precisa ser feito com toda diligência possível, pois há exemplos recentes de outras liquidações que foram parar na Justiça e, além de gerar constrangimentos ao BC, podem produzir prejuízos bilionários ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

A intenção é que Galípolo apresente sugestões ao Senado do que os parlamentares poderiam aprovar para, por exemplo, fortalecer o BC, órgãos reguladores e de fiscalização. A palavra de ordem é aumentar a regulamentação de fundos de cota única. Segundo a Receita Federal, por exemplo, muitos desses fundos são utilizados pelo crime organizado como estruturas para ocultação de patrimônio.

Existe, por fim, a frente investigativa. Há discussões sobre a criação de uma comissão parlamentar de inquérito para investigar as supostas fraudes cometidas pelo Master e os tentáculos do banco entre os poderosos, assim como a disposição de envolver a CPI do Crime Organizado nesta missão. A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE), presidida por Renan Calheiros (MDB-AL), também criou um grupo de trabalho para acompanhar o assunto.

Mas um outro plano em gestação pode alterar a correlação de forças nessa seara: reunir sob a presidência de Renan Calheiros os comandos da CAE e da Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI), cuja chefia é alternada entre as duas Casas do Congresso a cada ano e em 2026 retorna para a área de influência do Senado.

Este colegiado pode, por exemplo, requisitar relatórios sigilosos da Polícia Federal (PF), Receita Federal e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A ideia é do líder do MDB no Senado, Eduardo Braga (AM), e será colocada em discussão com o presidente Davi Alcolumbre (União-AP) quando o ano legislativo finalmente começar.

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SUPERVISÃO DOS MERCADOS ESTÁ DEFASADA

Lu Aiko Otta, Valor Econômico

Para equipe econômica, Há um número crescente de lacunas, onde fermentam escândalos como Master e Americanas

A partir deste mês, a Receita Federal será informada por administradoras de fundos de investimentos sobre os CPFs de seus cotistas. Ou seja, saberá quem são as pessoas físicas donas do dinheiro. Hoje não sabe, porque um fundo pode ter como cotista outro fundo, formando uma teia que dificulta identificar a origem do dinheiro.

As informações estarão numa declaração chamada Formulário Digital de Beneficiários Finais (e-BEF). Segundo a Receita, os objetivos desse documento são: “dificultar o uso do sistema financeiro por organizações criminosas”, “aumentar a transparência nas relações econômicas e financeiras”, “reforçar o combate à lavagem de dinheiro, à corrupção e à sonegação de impostos”.

O órgão diz também que com as novas informações alinhará o Brasil às recomendações internacionais do Grupo de Ação Financeira Internacional (Gafi) e da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), além de facilitar a análise de riscos e a fiscalização pela própria Receita.

A medida não atinge só os fundos de investimento. Mas esses estão no centro das preocupações da equipe econômica.

Como mostrou este jornal, fundos administrados pela distribuidora de títulos e valores mobiliários Reag estão sob investigação por suspeita de movimentarem recursos do crime organizado, como apontou a operação Carbono Oculto. Num outro recorte mostrado no Valor, um fundo administrado por ela injetou dinheiro em outro fundo, que por sua vez comprou ações do BRB, quando esse negociava a compra do Master, ou parte dele. Por fim, o Banco Central liquidou a CBSF, novo nome da Reag, por irregularidades associadas ao banco Master.

Parece que, nesses casos, os fundos se moveram por brechas que não foram alcançadas pela supervisão governamental. A Receita, com a e-BEF, lança uma lupa sobre um aspecto, que é a origem dos recursos.

Por sua vez, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defendeu publicamente que os fundos passem a ser supervisionados pelo Banco Central, e não mais pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A fala ocorreu dias depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicar Otto Lobo para a presidência da autarquia, uma decisão que contrariou a opinião da Fazenda.

É polêmica a mudança defendida pelo ministro. Mas é difícil discutir a necessidade de aperfeiçoar a vigilância sobre os fundos.

O modelo regulatório dos mercados financeiro e de capital está defasado, na visão da equipe econômica. Há um número crescente de lacunas, onde fermentam escândalos como Master e Americanas.

A Fazenda elaborou uma proposta de modernização inspirada num modelo chamado “twin peaks”, utilizado no Reino Unido. Os mercados financeiro, de capitais e de seguros, hoje sob o olhar do Banco Central, da CVM e da Superintendência de Seguros Privados (Susep), passariam a ser tratados de duas formas: um órgão trataria da regulação e outro, da supervisão de conduta. Esse segundo “pico”, em tese, impediria o avanço de irregularidades que resultaram nos casos Americanas e Master.

A proposta nem foi enviada ao Congresso Nacional. Travou no governo, misturada com o debate sobre autonomia do Banco Central.

Um arcabouço regulatório desatualizado, porém, pode agravar problemas. Um risco que está no radar da Fazenda é o de fundos de investimento passarem a exercer funções “quase bancárias” sem estar sob a supervisão do Banco Central. Seria um risco à regulação prudencial.

Esse debate não avançou, assim como outras propostas legislativas que ajudariam na prevenção e combate aos crimes no sistema financeiro. Caso da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, que tem como ponto central a atuação conjunta de órgãos de segurança. Chegou ao Congresso em abril de 2025 e recebeu parecer em dezembro.

Desde 2019, tramita na Câmara um projeto de lei que moderniza os instrumentos de resolução bancária. Permite, por exemplo, que instituições problemáticas sem impacto no sistema financeiro sejam retiradas do mercado de forma mais rápida do que ocorre hoje.

São debates que avançam com muita dificuldade. Uma vitória do governo nessa frente, a tipificação do devedor contumaz - que servirá para conter a legalização de recursos por meio de empresas formais que não pagam impostos - é exemplo dessa dificuldade. Só foi votado no Senado, depois de oito anos de espera, na esteira da Carbono Oculto. Remetido à Câmara, dormitou mais três meses até ser votado sob impacto de outra operação, a Poço de Lobato.

O que compõe essa resistência é algo ainda a ser revelado. A disputa entre o governo federal e o de São Paulo pela paternidade pela Carbono Oculto aponta para a disputa eleitoral. Já a demora na votação do projeto do devedor contumaz era atribuída, nos bastidores, à infiltração de interesses do crime organizado no Parlamento.

No vetor oposto, existem as investigações de operações como Carbono Oculto, Poço de Lobato e Compliance Zero. Estão só no início. Como essas engrenagens vão se mover é algo a se observar com atenção.

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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

DO BREGA AO CLÁSSICO

Irlam Rocha Lima, Correio Braziliense

O filme O agente secreto, de Kleber Mendonça Filho, tem a trama embalada por uma diversificada trilha sonora

As conquistas de O agente secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, em diversas mostras de cinema ao redor do mundo, como o tradicional Festival de Cannes, na França, e, claro, o prestigioso Globo de Ouro, nos Estados Unidos, têm a trama embalada por uma diversificada trilha sonora.

No decorrer do filme, ouve-se desde If you leave me now, clássico da banda norte-americana Chicago, a Eu não sou cachorro não, sucesso brega do saudoso cantor e compositor baiano Waldick Soriano, que abre o repertório.

São canções que, de alguma forma, ajudaram a narrativa da película, concorrente ao Oscar nas categorias Melhor filme, Melhor filme internacional, Melhor seleção de elenco e Melhor ator — o protagonista Wagner Moura.

Boa parte da trilha é original, composta e tocada pelos irmãos recifenses Matheus e Tomaz Alves de Souza. De acordo com Kleber, O agente secreto é um filme sobre a memória, a falta dela. Ele deixou claro, em entrevista recente, que a intenção era ter uma trilha sonora que ajudasse a criar "expectativas magníficas" ao mostrar o passado através de um filme contemporâneo.

Não por acaso, incluiu no set list, por exemplo, Não há mais tempo, na interpretação de Ângela Maria, eterna rainha do rádio; Samba do Arpege (Waldir Calmon e Luiz Bandeira); Love to love, com Donna Summer; e o clássico Guerra e pace, do italiano Ennio Morricone. A elas se juntam, entre outras, Esquenta mulher (Orquestra Maestro Nelson Ferreira) e Briga de cachorro com a onça (Banda de Pífanos de Caruaru).

Kleber Mendonça, produtor, roteirista e programador, desenvolve uma carreira marcada por elogios da crítica sobre filmes marcados pelas tensões sociais urbanas e históricas do Brasil, com foco, particularmente, em Recife, sua cidade natal.

Som ao redor foi o primeiro longa-metragem de ficção autoral de Mendonça, lançado em 2012. Aquarius, o segundo, estrelado por Sônia Braga, competiu pela Palma de Ouro, representando o Brasil no Festival de Cannes de 2016.

Na sequência veio Bacurau, codirigido por Juliano Dornelles, filme dos gêneros dama, neo-western, terror, fantasia e ficção. Curiosamente, o título da obra tem a ver com o apelido do último ônibus da madrugada, que trafega pelas ruas da capital pernambucana.

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CÚPULA DO STF CONTRA O POVO

Artigo de Fernando Gabeira

Pensei em escrever um artigo sobre o discurso do primeiro-ministro do Canadá em Davos. Mark Carney acha que vivemos um momento de ruptura, e não de transição. A ordem internacional, que já não era grande coisa, se rompeu para dar lugar claramente à lei do mais forte. Nesse contexto, é preciso se preparar, pois quem não estiver na mesa estará no menu. Tema importante para o Brasil, mas posso voltar a ele, algumas vezes, antes das eleições.

Neste momento, tenho de escrever sobre o escândalo do Banco Master. Não esperava, a esta altura da vida, aos 40 minutos do segundo tempo, encontrar nosso país nesta condição patética. A nota do ministro Edson Fachin, as manifestações do procurador-geral e o post de Gilmar Mendes confirmam a ideia de uma cúpula judiciária unida para se blindar. Usando a máscara de salvadores da democracia, querem impor uma situação marcada, como diz um jornal alemão, pela ganância que afunda o STF.

No fundo, consideram ameaça à democracia questionar o contrato milionário de Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, com o Banco Master. Ou criticar o inacreditável ministro Dias Toffoli por artificialmente levar o processo do Master para o Supremo e sentar em cima dele com uma decisão de sigilo rigoroso.

Logo Toffoli, que vendeu parte de seu resort para a empresa ligada ao cunhado do dono do Master. Logo Toffoli, que anulou uma multa de R$ 10 bilhões da J&F e recebeu em seu resort um advogado da empresa como sócio no mesmo resort. A imprensa diz que o resort é da família do Toffoli. A esta altura, não escrevo sobre formalidade. Os donos são um irmão que é padre, outro que vive numa casa modesta, e sua própria mulher desconhece a empresa dona do resort.

Pessoalmente, a convite do deputado Capitão Augusto, conheci o projeto da região, Angra Doce, e naveguei na Represa Chavantes. Ouvi algumas pessoas mencionando o resort de Toffoli. Nos últimos dias, apareceu um vídeo onde o ministro lá recebe um banqueiro e um empresario. Jornalistas que se hospedaram no resort de Toffoli encontraram um pequeno cassino em seu interior.

Apoiar toda essa degradação é defender a democracia? O Senado poderia fazer algo. Mas não faz por medo. Alguns senadores têm questões no STF, outros temem a possibilidade de ter. Os mais à esquerda estão presos à miopia da corrente política. Acham que, apesar de tudo, os ministros são importantes para conter o adversário.

Não percebem que um Supremo corrompido pela ganância é exatamente o combustível que impulsiona seus adversários? Não percebem que esse estado patético das instituições fortalece o apoio popular a quem pode destruí-las?Não percebem que a juventude está encontrando uma causa para sua rebeldia? Fazemos leitura diferente da História, não só no Brasil, mas em outros lugares do mundo. Consideram que tudo isso é secundário porque Lula é imbatível nas eleições. É provável que estejam certos nesse cálculo. Mas que tipo de país o vencedor herdará?

O deputado Nikolas Ferreira iniciou solitariamente uma marcha e chegou a Brasília com milhares de pessoas, grande parte jovens como ele. Gritavam: “Acorda, Brasil”. Nesse nível de abstração, é algo que deveria valer para todos.

Artigo publicado no jornal O Globo em 27 / 01 / 2026

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

SIGNOS SEM SIGNIFICADOS

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Os analfabetos veem um texto como uma sequência de símbolos cuja ordem não lhes diz nada

O momento em que se aprende a ler talvez seja, mais que um segundo parto, o real ingresso no mundo

Alguém me falou de um anúncio institucional que a Unesco publicou há tempos para uma campanha pela alfabetização. Consistia de uma frase escrita de trás para a frente —ideia talvez tirada de "Alice Através do Espelho" (1871), o livro de Lewis Carroll em que, por estar "do lado de lá" do espelho, Alice vê tudo ao contrário, inclusive um poema num livro sobre a mesa. É como um analfabeto vê um texto —uma sequência de símbolos cuja ordem não lhe quer dizer nada. Alice resolve o problema botando o poema diante de um espelho. O mundo, no entanto, exige mais: a alfabetização em massa.

No Brasil, 5,2% da população ainda continuam analfabetos. Parece pouco, mas são mais de 10 milhões de pessoas, o equivalente à população de São Paulo. Some a isto os 29%, entre 15 e 64 anos, que são analfabetos funcionais (leem, mas não entendem uma notícia de jornal ou uma bula de remédio), e veja como o Brasil continua longe do século 21. Por sorte, alguns desses analfabetos sabem de sua condição e não querem que se estenda a seus filhos.

Três pessoas que prestam serviços ao meu redor, incapazes de ler ou escrever, são inspiradores exemplos. Uma manicure fez de seus três filhos um advogado, uma psicóloga e uma assistente social. Um porteiro, homem humilde e boníssimo, fez da filha engenheira, e chorou de comoção na cerimônia de formatura dela. E um encanador, que não sabe dizer a chave do seu Pix (mostra um papelzinho com o número), também formou a filha em direito. Dois desses jovens se beneficiaram de bolsas integrais da PUC.

Como pessoas que não sabem ler conseguem viver numa grande cidade, com sua desordem de cartazes, placas, luminosos, indicações, itinerários e manchetes? É um mundo de signos ocos, para elas sem significado. Que códigos não terão de criar para saber qual ônibus tomar? Como lidar com dinheiro ou cartão? Como receber uma mensagem por celular?

Sempre achei que o momento em que se aprende a ler representa mais que um segundo parto. Talvez seja o verdadeiro ingresso no mundo.

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domingo, 25 de janeiro de 2026

PARABÉNS, SÃO PAULO !

O lampião de gás de Inezita Barroso não existe mais, porém, a dura poesia concreta ainda acontece na Ipiranga com a São João, como viu Caetano Veloso.

Seja nos versos da Saudosa Maloca ou no Trem das Onze de Adoniran Barbosa, São Paulo ainda é a Pauliceia Desvairada de Mário de Andrade, a terra das oportunidades, da garoa que acolhe tudo e todos.

Nessa cidade que tem dimensão de um país, não é mais possível subir na Rua Augusta à 120 por hora, mas ainda é possível fazer uma Ronda pela cidade como disse Paulo Vanzolini.

À todos os Operários de Tarsila do Amaral que contribuíram e continuam dando o melhor de si para a construção dessa cidade dia a dia, desejamos mais sucesso e progresso. Parabéns, São Paulo, 472 anos!

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VARRE, VARRE, VASSOURINHA...

O aniversariante do dia é Jânio da Silva Quadros que nasceu em Campo Grande, 25 de janeiro de 1917. Jânio faleceu em São Paulo, 16 de fevereiro de 1992.  Internado com grave crise respiratória e circulatória, o ex-presidente ficou 13 dias no Hospital Albert Einstein. O corpo de Jânio foi velado na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Jânio Quadros, foi presidente da República do Brasil por apenas sete meses em 1961, governador do Estado de São Paulo e duas vezes prefeito da capital paulista, era um político populista com forte estilo pessoal.

Jânio costumava aparecer em público com os sapatos trocados. Nos palanques das campanhas eleitorais levava uma vassoura, com a qual iria "varrer" a corrupção do país. Esse símbolo o acompanhou durante toda sua carreira política.

Entre os discursos de campanha, comia sanduíches de mortadela e pão com banana, numa tentativa de identificar sua imagem com o eleitorado mais pobre.

Jânio procurou sempre se diferenciar dos outros políticos. Vestia roupas surradas, usava cabelos compridos, deixava a barba por fazer, os ombros cheios de caspa e exibia caretas ao fotógrafos.

Sua sintaxe era um caso à parte. Em seus discursos, procurou sempre utilizar um vocabulário apurado, recheado por frases de efeito. É um enigma saber como conseguia se comunicar de forma eficiente com seus eleitores, a maioria sem instrução escolar.

Chefe do Executivo, fosse municipal, estadual ou federal, o autoritarismo e o carisma foram seus traços característicos. Seus bilhetinhos, com ordens a subordinados, se tornaram célebres.

Jânio chegou à presidência da República de forma muito veloz. Em São Paulo, exerceu sucessivamente os cargos de vereador, deputado, prefeito da capital e governador do estado.

Tinha um estilo político exibicionista, dramático e demagógico. Conquistou grande parte do eleitorado prometendo combater a corrupção e usando uma expressão por ele criada : varrer toda a sujeira da administração pública. Por isso o seu símbolo de campanha era uma vassoura.

Foi eleito presidente em 3 de outubro de 1960, pela coligação PTN-PDC-UDN-PR-PL, para o mandato de 1961 a 1965, com 5,6 milhões de votos - a maior votação até então obtida no Brasil - vencendo o marechal Henrique Lott de forma arrasadora, por mais de dois milhões de votos.

Porém não conseguiu eleger o candidato a vice-presidente de sua chapa, Milton Campos (naquela época votava-se separadamente para presidente e vice). Quem se elegeu para vice-presidente foi João Goulart, do Partido Trabalhista Brasileiro. Os eleitos formaram a chapa conhecida como chapa Jan-Jan.

No dia 21 de agosto de 1961 Jânio Quadros assinou uma resolução que anulava as autorizações ilegais outorgadas a favor da empresa Hanna e restituía as jazidas de ferro de Minas Gerais à reserva nacional. Quatro dias depois, os ministros militares pressionaram a Quadros a renunciar: “Forças terríveis se levantaram contra mim…”, dizia o texto da renuncia.

No ano seguinte à renúncia Jânio foi candidato a governador de São Paulo sendo derrotado por seu velho desafeto Ademar de Barros. Com a eclosão do Regime Militar de 1964 foi um dos três ex-presidentes a ter seus direitos políticos cassados ao lado de João Goulart e Juscelino Kubitschek.

Após fazer declarações à imprensa em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, em julho de 1968, o ex-presidente foi detido pelo Exército Brasileiro, por ordem do então Ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva.

Recuperou os direitos políticos em 1974, mas manteve-se afastado das urnas inclusive nas eleições legislativas de 1978, ano em que seus simpatizantes (agrupados sob o denominado "Movimento Popular Jânio Quadros") o levaram a visitar o bairro paulistano de Vila Maria, tradicional reduto "janista".

Em novembro do ano seguinte manifestou a intenção de concorrer à sucessão de Paulo Maluf ao governo do estado de São Paulo filiando-se ao Partido Trabalhista Brasileiro (agora uma agremiação conservadora de direita, tendo pouca relação com a antiga legenda de Getúlio e Jango) tão logo foi efetivada a reforma partidária.

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sábado, 24 de janeiro de 2026

TRUMP E A ESTRATÉGIA DO HOMEM LOUCO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Presidente adota comportamento errático para tornar eventuais blefes mais críveis

Cientistas políticos são céticos em relação à eficácia dessa tática em relações internacionais

Com suas investidas e recuos, Donald Trump se consagra como usuário da estratégia do homem louco na teoria dos jogos.

Mesmo que o Agente Laranja não esteja muito familiarizado com Von Neumann e Morgenstern nem com os formuladores contemporâneos desse ramo da matemática aplicada, ele já jogou pôquer e é razoavelmente parecido. A ideia por trás dessa estratégia é que, se você de vez em quando se comportar como louco nas interações com outros "players", mais fácil será fazer com que seus blefes sejam aceitos. Você conseguirá arrancar mais concessões com menos esforço.

Mas será que essa estratégia funciona? Cientistas políticos tendem a ser céticos quanto à sua eficácia nas relações internacionais. Ela seria até meio perigosa, ampliando o risco de escaladas. A lista de líderes ilustres que a utilizaram inclui Richard Nixon, Nikita Kruschev, Saddam Hussein, Muammar Gaddafi, além de Trump, Putin e Kim Jong-un.

Ainda é cedo para falar dos três últimos, mas os anteriores não terminaram bem. A atitude errática não ampliou consideravelmente seu poder de dissuasão, e a mensagem que julgavam transmitir nem sempre era a captada pelos oponentes.

Meu filho, que é fã de teoria dos jogos expressa em longas equações, diz que, se analisada em contextos mais específicos, nos quais o objetivo do governante esteja claramente definido, a estratégia pode valer a pena. E o problema de Trump e de outros líderes de potências é que eles operam com vários objetivos ao mesmo tempo. Há a geopolítica, a disputa por território, acesso a matérias-primas, relações comerciais etc. Há ainda a questão dos prazos (quatro anos ou quatro décadas) e de quanto os interesses do dirigente se aproximam ou se afastam dos do país.

A minha impressão é que Trump, a fim de enaltecer a própria biografia, sacrifica os interesses mais permanentes dos EUA. Ele já afastou aliados, destruiu a ordem global sob a qual o país prosperou, reduziu a capacidade das universidades de atrair cientistas, entre outras loucuras.

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UM PAÍS À MARGEM DA LEI

Oscar Vilhena Vieira, Folha de S. Paulo

Brasil parece incapaz de abraçar um código de conduta

Que Eunices e Sebastianas nos deem forças para buscarmos uma nação melhor

"O Agente Secreto" e "Ainda Estou Aqui" expressam a força do cinema brasileiro. E isso merece muita, mas muita comemoração. Ambos os filmes retratam, no entanto, um país à margem da lei, como "Cidade de Deus" ou "Cabra Marcado para Morrer", também aclamados internacionalmente.

"Ainda Estou Aqui" retrata o arbítrio como política de Estado. A tortura, os desaparecimentos forçados e a perseguição de dissidentes foram transformadas em instrumentos de manutenção de poder. A Constituição foi suspensa por sucessivos atos institucionais, que transferiram o poder aos militares, restringiram direitos e retiraram as ações repressivas do controle judicial. Instituições foram criadas ou receberam expressa determinação para torturar e matar.

A partir da história real de Rubens Paiva, "Ainda Estou Aqui" descreve a face mais macabra do regime de exceção. Mas nos brinda, por outro lado, com a força moral dos que sobreviveram e resistiram. A família de Eunice nos comove, com sua coragem e disposição para buscar justiça e construir um país melhor.

"O Agente Secreto", que também se passa durante o regime militar, retrata uma outra dimensão do estado de exceção, que se enraíza no tecido social. Desde a primeira cena somos expostos à banalidade da vida. O corpo no chão não gera nenhuma reação do agente do Estado ou do cidadão. Como se a morte de uma pessoa não trouxesse nenhuma consequência moral ou jurídica. Numa terra sem lei, só os cachorros parecem se interessar por aquele corpo.

A trama nos transporta para a perseguição de um professor e sua família pelo simples fato de estarem determinados a levar suas vidas de forma honesta, não se curvando à ambição empresarial, entrelaçada e protegida pelo regime. Novamente somos expostos às entranhas, não mais do regime, mas dos matadores de aluguel que coabitam a marginalidade com os agentes da lei e os empreendedores de então. Em "O Agente Secreto" os perseguidos não são dissidentes políticos, mas pessoas comuns, que têm suas vidas reviradas simplesmente por agirem com retidão. Mais uma vez, o sopro de esperança e humanidade vem dos que resistem; de Dona Sebastiana, Armando e Flávia.

Impossível assistir a esses filmes sem pensar num Brasil que parece incapaz de superar um profundo mal-entendido com a lei. Mal-entendido que transcende os períodos autoritários. Que se encontra enraizado nas relações cotidianas e no modo como são operadas nossas instituições, por meio do "familismo", exposto por Oliveira Vianna, da perversa "cordialidade", descrita por Sérgio Buarque de Hollanda, do "patrimonialismo", de Raymundo Faoro, do "você sabe com quem está falando?", de Roberto da Matta, ou da "grande conciliação", de Michel Debrun. São espectros que não nos abandonam, escancarando uma indisposição de acatar a lei como regra geral.

É paradoxal que num país em que a imensa maioria da população acorda cedo para trabalhar e cumprir suas obrigações sobreviva uma cultura tão forte e arraigada de descumprimento da lei e desrespeito aos direitos mais elementares.

Da cornucópia do Banco Master, com seus tentáculos sobre a Faria Lima e os Poderes do Estado, incluindo a cúpula de tribunais, à explosão de feminicídios; da chacina comandada pelo governo do Rio de Janeiro, com amplo apoio popular, à tentativa de golpe do 8 de Janeiro, sob o comando do ex-presidente e seus generais; o país parece incapaz de respeitar da lei e suas autoridades, de abraçar um código de conduta.

Que as Eunices e Sebastianas nos deem forças para continuar lutando por justiça e por um país melhor.

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ADEUS, MARÍA CORINA

Eduardo Affonso, O Globo

A mais recente aquisição para a minha lista de desencantos é a brava oposicionista venezuelana

Se arrependimento matasse, o planeta não estaria com problema de superpopulação. “Non, je ne regrette rien” talvez valha para Édith Piaf como forma de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, sem reconhecer que errou rude nas coisas do coração. Nas questões ideológicas, atire o primeiro termo de ajustamento de conduta quem nunca teve de enfiar a viola no saco e se perguntar onde é que estava com a cabeça quando curtiu, gostou, apoiou ou ajudou a eleger uns e outros.

Há aqueles que nunca enganaram ninguém: Trump, Toffoli, Roberto Jefferson, Edir Macedo, Pablo Marçal, Paulo Maluf, Silas Malafaia. E nem precisa ser lombrosiano: o olhar cúpido, a mitomania, a fala melíflua, a egolatria, o cabelo gomalinado — há sempre algo que levanta a bandeirinha vermelha e avisa: perigo se aproxima.

Acreditei em Lula, quando, em 2003, ele contou:

— Depois que ganhei a eleição, uma televisão fez uma matéria em que aparecia um catador no Rio de Janeiro comendo um pedaço de melancia do lixo. Ele dizia: “Talvez esse seja o último pedaço de melancia do lixo que vou comer, porque o Lula, eleito presidente, vai ajudar a resolver esse problema”.

Lula chorou, e eu lacrimejei junto, feliz em ver um operário na Presidência — alguém que, tendo passado por tantas privações, faria da erradicação da miséria uma das prioridades de seu governo. Em vez disso, vieram o mensalão, o petrolão, o triplex, os pedalinhos, os aloprados.

Bolsonaro não tinha uma única boa referência, mas não era possível que fosse tão estúpido a ponto de... Pois ele foi. E foi com gosto. Às vésperas da eleição de 2018, mandei-lhe por aqui uma carta aberta:

— Conservadorismo não significa atraso, intolerância. (...) Desarme o espírito, aposente os gestos bélicos e contará também com os que não votam em você, mas cultivam essa estranha mania de ter fé no Brasil.

A fé dele era na cloroquina, no poder e na própria família. Errou tanto, e numa escala tão monumental, que o país, entre perder ou deixar de ganhar, deu outra chance ao PT.

Encurtando a história, sou bom em esperanças vãs. Como as que acalentei por Sergio Moro (e combinar camisa preta com gravata preta era um sinal tão claro...). Por Cármen Lúcia (foi do “cala a boca já morreu” à “situação excepcionalíssima” sem corar — e eu achando que ela seria daquelas de negar, quando é fácil ceder). Me encantei com Jordan Peterson e sua crítica ao autoritarismo da esquerda, aos excessos do politicamente correto — hoje olho e vejo um narcisista, igualmente autoritário.

A mais recente aquisição para minha lista de desencantos é a brava oposicionista venezuelana María Corina Machado. A bravura virou sabujice; a oposição, entreguismo; o amor à pátria, à liberdade e à democracia, algo que ainda carece de nome (nunca se tinha chegado tão baixo a ponto de precisar palavra para isso no dicionário).

Lá em casa, quando alguma coisa não tinha volta, minha mãe dizia “Adeus, Corina” —menção a um forró dos anos 60 (“Adeus, Corina, que eu vou embora/Quem parte leva saudade/e quem fica também chora”). Há os que pegam o bonde errado e vão até o ponto final (estão aí, até hoje, os stalinistas, os fascistas...). Eu digo adeus, Corina, Luiz, Jair, Jordan, Sergio, Cármen — e desço no próximo ponto.

Ainda bem que não sou influêncer de nada e não arrastei ninguém comigo nos meus enganos. Mas perdão foi feito pra gente pedir. Nem que seja só a nós mesmos.

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A DESONRA DE TOFFOLI

Thaís Oyama, O Globo

Se Toffoli resolver jantar num restaurante, arrisca ouvir adjetivos bem menos jurídicos que no passado

Dias Toffoli foi passar uns dias de descanso num resort de luxo na Argentina. Dado que as últimas notícias sobre o ministro do STF envolvem justamente um resort de luxo no Brasil, onde ele desfruta confortos de toda espécie, a escolha do magistrado pode ter sido motivada por duas razões: 1) ele gosta muito de resorts e se interessa também por conhecer estabelecimentos do gênero mundo afora; 2) ele buscou um refúgio fora do país para se proteger da vista de seus conterrâneos, dado que seu nome aparece no noticiário dia sim e outro também, cada vez sob luz pior.

O impulso da fuga seria compreensível. Diversos ministros do STF foram publicamente hostilizados ou passaram por constrangimentos nos momentos em que seus nomes estiveram em evidência. Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Cármen Lúcia foram alguns. O muro da casa de Cármen chegou a ser pichado, e Moraes foi ofendido num aeroporto de Roma aos gritos de “comunista” e “fraudador de eleições”. Mas em todos esses lamentáveis episódios, os agressores, ainda que de forma incivilizada, eram movidos pela crítica a posturas jurídicas dos magistrados — que eles, bem ou mal, podiam sustentar de cabeça erguida.

Hoje, no entanto, o STF tem dois ministros cujos nomes, incluindo Moraes, estão ligados a um dos maiores escândalos recentes — de natureza financeira. A Folha de S.Paulo já havia mostrado que dois irmãos de Toffoli constaram como sócios de um fundo de investimentos ligado ao Master no resort que ele frequenta — de modo tão assíduo a ponto de ser identificado por funcionários como o próprio dono do estabelecimento. Nesta semana, o Estado de S.Paulo revelou que a sede da empresa dos irmãos Toffoli é a casa bastante modesta de um deles, cuja mulher disse desconhecer que o marido teve um resort. A notícia espalhou um cheiro de laranja no ar, além da certeza de que, se Toffoli resolver jantar num restaurante, arrisca ouvir adjetivos bem menos jurídicos que no passado. Na prática, isso dificilmente acontecerá — a atual reputação dele, assim como a de Moraes, impossibilita que desfrute prazeres comezinhos como sair para comer uma pizza sábado à noite.

A possibilidade de frequentar espaços públicos sem constrangimentos sempre foi marcador da honra — conceito que Aristóteles trata como “bem externo”. Diferentemente da virtude — um “bem interno”, que alguém tem ou não tem —, a honra é um conceito atribuído, resultado da percepção social, fundamentada ou não, de que seu portador é dotado de excelência moral e intelectual.

Do mesmo modo, a desonra significa a perda dessa percepção. Para revertê-la, o atingido tem de erguer a voz para se defender com argumentos convincentes. Como nem Toffoli nem Moraes fizeram isso até agora, a desonra, como percepção pública, continuará a persegui-los à medida que avançarem as suspeitas sobre suas condutas. Mas, se Toffoli sempre terá um resort novo para se refugiar e Moraes pode continuar voando em jatos da FAB, o STF não tem onde se esconder.

Vai daí que merece condolências a nota divulgada pela Corte na quinta-feira, assinada por seu presidente, Edson Fachin. No texto, Fachin sugere que o STF defenderá a permanência de Toffoli na relatoria do inquérito do Master e sai culpando Deus, o mundo e os mensageiros pela situação deplorável em que se encontra a instituição — segundo o texto, alvo de “interesses escusos e projetos de poder”. Antes disso, Fachin afirma que o colegiado do STF passará a se debruçar sobre “eventuais vícios ou irregularidades” de seus membros, passado o recesso judiciário. Sendo esse o único trecho auspicioso da nota, deseja-se que seja também autêntico — e traduza a consciência de Fachin de que uma Corte forçada a andar de cabeça baixa, assim como um ministro caído em desgraça, arrisca desmoralizar muito mais que a si própria.

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