quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

MORRE JOTA MACEDO

A madrugada de quinta-feira (06.12) levou da vida o empresário José Dias de Macedo, conhecido até por quem não o conhecia como J. Macedo.
Ele tinha 99 anos e foi vítima de falência múltipla dos órgãos. Estava distante dos negócios e da vida pública há algum tempo e sua saúde era muito frágil em decorrência da idade.
Natural de Camocim, formado em Economia pela UFC (1945) ele foi um empreendedor nato, e sob sua batuta ergueu o grupo J.Macedo.
O EMPREENDEDOR
Ícone de uma geração empresarial no Ceará e no Nordeste, José Dias de Macedo fundou o primeiro moinho de trigo, o primeiro frigorífico industrial e a primeira cervejaria do Ceará. E a primeira fábrica de transformadores e de pneus da Região Nordeste.
A empresa começou como uma representação comercial em Fortaleza. O primeiro moinho, o Fortaleza, foi inaugurado em 1952. O Grupo J.Macedo é um gigante do mercado de moagem de trigo, o maior do ramo no país. Sua sede fica em Fortaleza, e mantém oito unidades industriais espalhadas pelo Brasil.
São três moinhos de trigo (Fortaleza, Salvador, e Londrina) quatro fábricas de massas (Pouso Alegre, Maceió, Salvador e São José dos Campos) duas fábricas de mistura para bolo (Salvador e S. Paulo), e uma fábrica de biscoitos (Simões Filho).
A fábrica de S. Paulo também produz sobremesas. O Grupo também tem Centros de Distribuição em Ananindeua (PA), Caucaia (CE), Simões Filho (BA), Recife (PE), Goiânia (GO), Rio de Janeiro (RJ), S. J. dos Campos (SP), Pouso Alegre (MG) e no município de Itajaí (SC).
A Farinha Dona Benta é uma das marcas mais conhecidas do Grupo J.Macedo, que também atua em ramos como o automotivo. José Dias Macedo se afastou do comando do Grupo em 1988. Os filhos, Amaurílio e Roberto assumiram desde então.
CARREIRA POLÍTICA
Foi Deputado Federal por três legislaturas (1959 a 1971) e Suplente de Senador (1971 a 1987). Assumiu a cadeira na última legislatura.
MOMENTOS IMPAGÁVEIS
Zé Dias Macedo sempre foi discreto, simples e atento para a política e causas sociais. O nome, J.Macedo sempre foi associado com riqueza e prosperidade no Ceará.
Lúcio Brasileiro, o colunista, era seu amigo e o entrevistou muitas vezes. Numa ocasião o inquiriu pela TV: "diga como é a vida de um rico"? E J.Macedo respondeu: "sou rico de saúde, de sorte, de trabalho, de dedicação e de Deus. Sem isso não sou nada".
O empresário deixa oito filhos e um legado de empregos e divisas, além da contribuição para o desenvolvimento do Ceará.
VELÓRIO E SEPULTAMENTO
A partir das 11 horas, na Igreja do Criso Rei, e o sepultamento às 16 horas, no Cemitério São João Batista. Com missa de corpo presente...
Cláudio Teran, via Facebook
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quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

O LUGAR DOS ÍNDIOS

Do Correio Braziliense
O novo governo em formação é uma espécie de “humanograma”, no qual os ministérios que estão sendo extintos são desmembrados e agregados a outras pastas de acordo com o perfil dos novos ministros. Até agora, não há uma reforma administrativa clara, focada na reestruturação do Estado, no enxugamento da área meio e no fortalecimento de atividades-fim. Os critérios ainda são corporativistas ou ideológicos. É o caso da subordinação da Funai ao Ministério da Agricultura, cuja titular é a ministra Teresa Cristina (DEM-MS), anunciada pelo futuro chefe da Casa Civil, Ônix Lorenzoni.
Mais tarde, diante da repercussão negativa, o próprio presidente Jair Bolsonaro disse que a questão não estava ainda decidida e o ministério poderia ir para a pasta da Cidadania, cujo titular ser[a o ministro Osmar Terra. Somente haveria duas explicações para o órgão criado sob a inspiração do Marechal Cândido Rondon não permanecer subordinado ao Ministério da Justiça: a sobrecarga de trabalho do futuro superministro Sérgio Moro ou o fato de a ministra ser de um estado onde há muitos conflitos entre fazendeiros e indígenas.
Desmembrado de Masto Grosso em 1977, pelo então presidente Ernesto Geisel, Mato Grosso do Sul tem 357,1 mil km², com uma população indígena estimada em 74 mil pessoas, das etnias Atikum, Guarani (Ñandeva), Guató, Kadiwéu, Kaiowá, Kamba, Kinikinau, Ofaié e Terena, dentre outras. A maioria vive em pequenas reservas criadas entre 1910 e 1920, como a de Dourados, na qual há uma população multiétnica de aproximadamente 14 mil pessoas em apenas 3.475 hectares. A questão fundiária remonta à colonização da região, intensificada após a guerra entre o Paraguai e a Tríplice Aliança (1864/1870), com a chegada dos “pioneiros” vindos de diversas regiões do país e do exterior.
Foi graças às alianças com os indígenas da região que Portugal estabeleceu sua hegemonia para além dos limites do Tratado de Tordesilhas, de 1494. Com a Independência, essa aliança se manteve, a ponto de os índios Guató, Kadiwéu e Terena terem um papel decisivo na Guerra do Paraguai, sem o qual o marechal Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, naquela região, não teria organizado uma cavalaria forte o suficiente para enfrentar os paraguaios que ocuparam a região entre 1864 e 1867. Esse apoio valeu a doação de terras na fronteira para os índios, pelo próprio Caxias, quando presidente do Conselho de Ministros do Império, parte das quais, hoje, estão arrendadas pelos próprios índios para produtores de soja.
Além de uma tragédia para os índios, a integração da Funai ao Ministério da Agricultura seria um presente de grego para Teresa Cristina, desviando o foco de sua atuação, ainda mais porque os conflitos com fazendeiros já resultaram em muitas mortes de líderes indígenas, entre as quais, as de Marcos Verona, Kaiowá, 72 anos (Juti, 13/01/2003); Genivaldo Verá, 21 anos, e Rolindo Verá, 23 anos, ambos Guarani (Paranhos, 31/10/2009); Oziel Gabriel, Terena, 35 anos (Sidrolândia, 30/05/2013); Nísio Gomes, Kaiowá, 69 anos (Aral Moreira, 18/11/2011); Marinalva Manoel, Kaiowá, 27 anos (Dourados, 01/11/2014); Simeão Fernandes Vilhalba, Kaiowá, 24 anos (Antônio João, 29/08/2015); Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, Kaiowá, 26 anos (Caarapó, 14/06/2016). Ou seja, quando nada, são crimes como esses que justificariam a permanência do órgão no Ministério da Justiça.
Adeus, Paulo Elisiário!
Faleceu ontem, em Belo Horizonte, o ex-presidente do PPS de Minas Gerais e militante histórico da legenda Paulo Elisiário, em decorrência de complicações de um câncer na próstata, contra o qual lutava havia cerca de cinco anos. Foi vice-presidente do Instituto de Previdência de Minas Gerais (IPSEMG) durante a gestão do ex-governador Antônio Anastasia (PSDB). Com 79 anos, estava internado no Hospital Felício Roxo havia cerca de 30 dias, e o quadro se agravou na última semana. Amigo querido e fiel leitor desta coluna, Paulo Elisiário era um ser humano excepcional, sereno e solidário, de grande sensibilidade política e retidão moral. Deixa viúva Geralda, sua companheira de todas as horas, e os filhos Mariana e Paulo.
Do Blog do Luiz Carlos Azedo,  Correio Braziliense
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MORRE TARCISO FLECHA NEGRA

Do ZERO HORA
A torcida gremista despediu-se nesta quarta-feira (5) de um dos seus maiores ídolos. José Tarciso de Sousa, mais conhecido como Tarciso Flecha Negra, morreu aos 67 anos, em Porto Alegre. Vereador da Capital desde 2008, ele estava internado no Hospital São Lucas da PUCRS com quadro de tumor ósseo.
— Foi inesperado. Ele voltou ontem (terça-feira, 4) para o hospital com um tumor ósseo. Ainda não temos mais detalhes — disse a filha do ex-jogador Gabriela Sousa.
Em comunicado via rede social, o perfil oficial do Grêmio informou que o velório do ex-jogador será na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, a partir das 8h desta quarta-feira. O sepultamento será no Cemitério Jardim da Paz, a partir das 18h. 
Histórico ponta-direita do Grêmio, o ex-atleta nasceu em São Geraldo, no interior de Minas Gerais, mas deu início a sua carreira no futebol no Rio de Janeiro, com a camisa do América, em 1970, ainda como centroavante. Três anos depois, transferiu-se para Porto Alegre, onde passou a atuar pelo lado do campo.
No Rio Grande do Sul, fez história. Tanto que ostenta um recorde invejável: foi o jogador que mais vestiu a camisa tricolor, com incríveis 721 jogos pelo clube, ao longo de 13 anos — de 1973 a 1985. Além disso, Tarciso marcou 226 gols e conquistou títulos marcantes, como o Campeonato Brasileiro de 1981, a Libertadores de 1983 e o Mundial daquele mesmo ano. Foram também cinco títulos gaúchos como jogador gremista.
Como o próprio apelido sugere, Flecha Negra era um atleta habilidoso e extremamente veloz. Mas ele sofreu quando chegou ao clube. Como lembrou em entrevista ao jornalista Leonardo Oliveira, de GaúchaZH, no ano passado, passou quatro temporadas na capital gaúcha apanhando de Elias Figueroa, zagueiro e ídolo colorado à época. Recordou, inclusive, de um clássico Gre-Nal em que o cotovelo do chileno acertou o seu nariz e, depois, levou outra pancada do ex-atleta colorado. Quando foi até o árbitro suplicar por um cartão ao adversário, ouviu apenas um: "Vai jogar!"
— Figueroa tinha muito moral com a imprensa. Com os árbitros, se impunha no grito. Nosso time, ao contrário, evitava polêmicas. Se nos deixassem quietos, já estava bom. Aquilo já fazia com que entrássemos inferiorizados nos clássicos — contou Tarciso na ocasião.
Diante de tantos títulos expressivos que conquistou com a camisa gremista, se pudesse destacar apenas um deles, seria o Gauchão de 1977. O Inter vinha de oito títulos estaduais consecutivos e, na final, era favorito a erguer a taça dentro do Estádio Olímpico. Quando a partida estava 0 a 0, o atacante teve a chance de colocar a equipe em vantagem em uma cobrança de pênalti, mas perdeu. Imaginou que a tragédia estava anunciada, mas ouviu do velho amigo André Catimba, centroavante do Grêmio naquela decisão: 
— Vamos ser campeões, e eu vou fazer o gol. 
Vinte minutos depois a profecia do seu companheiro de ataque se confirmou: Grêmio 1 a 0 e, enfim, campeão. Um título que ficou marcado na lembrança de Tarciso:
— Essa conquista mudou a vida do Grêmio. E também modificou a minha vida.
Vida essa que se mistura com o Tricolor até mesmo na data de nascimento. Se o Grêmio foi fundado em 15 de setembro de 1903, Tarciso nasceu 48 anos depois, no mesmo dia, para tornar-se um dos jogadores mais vitoriosos da história do Imortal Tricolor — que, agora, lembrará da flecha que por mais tempo honrou o manto azul, branco e preto.
Em 2017, Tarciso participou do programa Cardápio do Zé, com o jornalista José Alberto Andrade. Confira abaixo como foi o encontro:
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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

PT REJEITA FAZER AUTOCRÍTICA EM RESOLUÇÃO

Mesmo após ter sido derrotado em 15 Estados e no Distrito Federal no segundo turno da eleição deste ano, o PT se recusou oficialmente ontem, 1º, a fazer uma autocrítica sobre os motivos que levaram o partido a colher um dos piores resultados eleitorais de sua história e a mergulhar numa crise que consagrou o eleitorado “antipetista” como um fator decisivo politicamente no País.
Após dois dias de discussões, o diretório nacional do PT aprovou uma nova resolução para orientar seus rumos a partir de 2019. Diferentemente do que estava previsto na primeira versão do documento, o partido recuou de autocríticas feitas aos governos petistas e optou por dar ênfase à importância de Fernando Haddad, candidato derrotado nas eleições de 2018, como “nova liderança”.
A autocrítica no documento se resumiu apenas a um “equívoco” do partido em relação ao “republicanismo” com grupos e instituições que ajudaram a “derrubar” o PT. “O conjunto do partido parece ter incorrido em alguns equívocos durante os nossos governos. O primeiro foi o ‘Republicanismo’, fomos republicanos com quem não é e nunca foi republicano”, diz o documento, citando na sequência “a mídia monopolista, parte do Judiciário que sempre foi o reduto e o reflexo da elites mais atrasadas e antigas do escravismo nacional, os serviços de inteligência, as Forças Armadas e os aparatos de segurança, ainda sob controle dos que estavam no poder na época da ditadura de 1964-1985, corporações conservadoras e que se pautavam apenas por interesses próprios e pelas disputas de poder para seus agrupamentos, como parte do MP e grande parte da PF”.
A resolução traz também uma análise de como o partido confiou apenas nos resultados de suas políticas sociais para se manter próximo das “maiorias sociais”. “Não investimos na disputa de valores e da cultura como deveríamos fazer, na disputa de hegemonia. Essa disputa de hegemonia se dá pelos meios de comunicação, pela produção cultural, na educação e na organização dos movimentos sociais”, diz o texto.
“Não tem autocrítica no texto. O PT faz autocrítica na prática. O PT fez financiamento público de campanha, o PT está reorganizando as bases, o PT está com movimento social. Não faremos autocrítica para a mídia e não faremos autocrítica para a direita do País”, afirmou a presidente do partido, senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), implicada na Lava Jato.
Divergências
A elaboração da resolução expôs as divergências que tomaram conta do partido desde as eleições, quando o deputado do PSL Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República. Uma primeira versão do texto havia sido elaborada por uma comissão formada com integrantes de todas as correntes internas da sigla. O documento, porém, causou desconforto principalmente entre os membros do grupo majoritário, denominado Construindo Um Novo Brasil (CNB), e do grupo Movimento PT.
Com mais de 70 itens, o texto trazia críticas à política econômica da presidente cassada Dilma Rousseff – que tinha Joaquim Levy como ministro da Fazenda, hoje indicado para ser o novo presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na gestão de Bolsonaro. Também atacava setores da centro-esquerda que não deram apoio a Haddad no segundo turno da disputa presidencial, numa referência indireta ao PDT, de Ciro Gomes.
Após pressão da CNB, o partido retirou essas questões e focou no enaltecimento de Haddad. “É imprescindível ressaltar nesse balanço que o companheiro Fernando Haddad se projeta como uma nova liderança nacional do partido. Defendeu o legado do PT, ao mesmo tempo em que simbolizou aspectos de renovação política.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Via ISTOÉ
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AS TRÊS EXPERIÊNCIAS

Crônica de Clarice Lispector, Revista Prosa, Verso e Arte
Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os outros” é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
E nasci para escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por quê, foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.
Quanto a meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha. É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei cumprindo o destino de todas as mulheres.
Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é o meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.
Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.
Espero em Deus não viver do passado. Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório, ter algo no futuro.
O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna. E depois morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante: morrer será um dos atos mais importantes da minha vida. Eu tenho medo de morrer: não sei que nebulosas e vias lácteas me esperam. Quero morrer dando ênfase à vida e à morte.
Só peço uma coisa: na hora de morrer eu queria ter uma pessoa amada por mim ao meu lado para me segurar a mão. Então não terei medo, e estarei acompanhada quando atravessar a grande passagem. Eu queria que houvesse encarnação: que eu renascesse depois de morta e desse a minha alma viva para uma pessoa nova. Eu queria, no entanto, um aviso. Se é verdade que existe uma reencarnação, a vida que levo agora não é propriamente minha: uma alma me foi dada ao corpo. Eu quero renascer sempre. E na próxima encarnação vou ler meus livros como uma leitora comum e interessada, e não saberei que nesta encarnação fui eu que os escrevi.
Está-me faltando um aviso, um sinal. Virá como intuição? Virá ao abrir um livro? Virá esse sinal quando eu estiver ouvindo música?
Uma das coisas mais solitárias que eu conheço é não ter a premonição.
Texto extraído do livro “Aprendendo a viver”, Clarice Lispector. (Crônicas). Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.
Ouça abaixo Maria Bethânia lendo fragmentos da crônica “As três experiências”, de Clarice Lispector
Programa “Poesia e Prosa com Maria Bethânia” – Canal Arte 1 (2016)
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CLÁUSULA DE DESEMPENHO

Do Congresso em Foco
As diretorias do Partido Pátria Livre (PPL) e do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) reuniram-se neste domingo (2), em São Paulo, para definir como será a união das duas legendas. O PC do B oficializou a incorporação do PPL.
Os dois partidos estão entre os que não atingiram a cláusula de desempenho, ou cláusula de barreira. Com a união, as siglas conseguem acesso aos recursos do Fundo Partidário e diminuem as chances de serem extintas.
Dos 35 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 14 não atingiram a cláusula de desempenho. Além de perder, a partir do próximo ano, o direito de receber a verba do Fundo Partidário, as legendas também ficam impedidas de participar do horário gratuito de rádio e televisão.
A norma restringe esses benefícios aos partidos que obtiverem pelo menos 1,5% dos votos válidos nacionais ou a eleição de no mínimo nove deputados federais em pelo menos 9 das 27 unidades da federação.
Das siglas barradas pela cláusula, nove elegeram deputados federais, mas não conseguiram atingir o mínimo de votos ou de eleitos para a Câmara, em todo o território nacional, como é exigido pela Constituição. Foi o caso de PC do B e do PPL, mas também de Rede, Patri, PHS, DC, PCB, PCO, PMB, PMN, PRP, PRTB, PSTU e PTC.
Neste ano, o Fundo Partidário chegou a R$ 888,7 milhões. Em ano eleitoral, há ainda o Fundo Especial de Financiamento de Campanha, que em 2018 foi de R$ R$ 1,7 bilhão.
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AQUELE BEIJO

Da Folha de S.Paulo

O grafite feito por Yuri Sousa, 21, não durou 48 horas. A cena desenhada no dia 25 de novembro chamava a atenção: o presidente eleito, Jair Bolsonaro, dava um beijo na boca do presidente dos EUA, Donald Trump. Alguém parece não ter gostado e passou por cima uma tinta azul, apagando a obra do artista que demorou quase nove horas para ficar pronta.

"Desconfio quem possa ter sido, desconfio", disse Sousa, conhecido no meio dos artistas urbanos do Ceará como Bad Boy Preto. O muro escolhido para a arte ficava em uma alameda em que há outros grafites, na ligação entre duas ruas no bairro Jereissati 1 em Maracanaú, cidade da grande Fortaleza.
 prefeitura informou, por meio da assessoria de comunicação, que não teve nada a ver com o ocorrido. Quem apagou, acredita Sousa, fez porque não gostou do que viu e, claro, a desconfiança recai sobre apoiadores de Bolsonaro. Maracanaú tem 226 mil habitantes e é a quarta cidade mais populosa do Ceará. Foi também uma das que Bolsonaro teve melhor votação no Estado, com 39,3% dos votos válidos —o total no Ceará foi de 28,89% para Bolsonaro, que perdeu deFernando Haddad (PT) em todas as cidades.

"Eu vi uma vez um desenho do Putin [também beijando Trump, feito em 2016 pelo designer gráfico lituano Mindaugas Bonano]. Associei o Bolsonaro e o Trump, pensei o que eles falavam, algumas críticas ao homossexualismo, e veio a ideia. Foi uma maneira de criticar", contou Sousa.

Enquanto pintava, o artista lembra que uma pessoa passou filmando, questionando o motivo de fazer aquilo. Não há certeza se seria a culpada por apagar a obra, e não há câmeras na localidade que possam identificar o autor.

A imagem ficou eternizada em foto, ao menos. Yuri Sousa a publicou em sua página em uma rede social, mas começou a receber dezenas de mensagens críticas, algumas ameaças, e a surpresa: no início da tarde desta segunda (3) o Instagram bloqueou sua conta (segundo ele porque seu perfil recebeu várias denúncias de apoiadores do presidente eleito). Mas a imagem não morreu. Outras contas na internet a reproduziram e viralizou.

"Fiquei chateado porque nunca tive um grafite apagado e eu o desenhei em cima de um outro que havia feito no ano retrasado. Mas como teve um tema político sabia que podia mexer mais com as pessoas", afirmou.

Bolsonaro tem se alinhado a ideias apoiadas por Donald Trump e tentará aproximar os dois governos ao assumir em 1º de janeiro. Recentemente um dos filhos do presidente eleito, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, viajou aos EUA e apareceu em público com um boné onde se lia "Donald Trump 2020", já em alusão a uma possível campanha de reeleição do presidente norte-americano daqui a dois anos.

O beijo entre Bolsonaro e Trump do artista cearense remeteu também a um famoso desenho do russo Dmitri Vrubel, feito em 1990 no recém-derrubado Muro de Berlim, que retratava um beijo dado pelos líderes da União Soviética, Leonid Brejne, e da Alemanha Oriental, Erich Honecker, em 1979. Batizado de "Meu Deus, Ajuda-me a Sobreviver a Este Amor Mortal", foi um dos grafites mais conhecidos de todos pintados no muro que separava a Alemanha.
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UMA FACADA NO TRABALHADOR

Charge do Clayton, via O POVO
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

TANQUE CHEIO

Do The Intercept Brasil

ANTES DE SER o Posto Ipiranga de Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, em vias de se tornar o mais poderoso ministro à frente da economia brasileira desde o fim da ditadura militar, construiu sua carreira no universo financeiro, também como um posto Ipiranga. A partir dos anos 80, pessoas físicas, empresas e, principalmente, fundos que cuidam do dinheiro de outras pessoas e empresas confiaram na propalada sabedoria de Guedes para aplicar seus recursos.
Nos últimos cinco anos, o faro de Guedes esteve à serviço da Bozano Investimentos, uma gestora de recursos sediada no coração do bairro mais nobre do Rio de Janeiro, o Leblon. Três dias depois da vitória de Bolsonaro, o economista ainda era o presidente da Bozano – depois, se afastou da empresa e disse que venderá suas ações até 1º de janeiro. E a maneira como aplicou o dinheiro gerido pela companhia indica que, para serem rentáveis, esses investimentos dependem de privatizações nas áreas de saúde, educação e energia, além de reformas liberais no setor financeiro, no varejo e na construção civil.
Há também, sob gestão da Bozano, fundos que se concentram em investimentos em títulos públicos, mas é o posicionamento das fichas de Guedes na roleta do mercado de ações que revela a força da convergência entre as intenções declaradas por ele para a economia brasileira e as apostas feitas em praticamente todas as empresas investidas pela Bozano. Antes de assumir o ministério, Guedes posicionou muito bem seus cavalos no setor privado.
Se conseguir levar à frente no governo aquilo que promete – e Bolsonaro já indicou que ele terá carta branca –, os cotistas dos fundos da Bozano, seus antigos sócios e as empresas nas quais a gestora apostou se darão muito bem.
Intercept analisou as 23 empresas (entre as cerca de 350 que negociam ações na Bolsa brasileira) nas quais a Bozano apostava em julho deste com seu único fundo específico para investimento em ações, o Bozano Fundamental. Eram R$ 77 milhões em ações dessas 23 empresas em um momento em que Guedes ainda atuava como presidente da gestora de fundos, antes de se afastar para a campanha.
Não é possível saber a composição da carteira de investimentos do fundo nos últimos três meses, porque a Bozano pediu sigilo à CVM, a Comissão de Valores Mobiliários, entidade que regula esse mercado. De qualquer maneira, é possível verificar a quantidade de empresas nas quais o fundo aposta e o valor aplicado em cada papel. Em outubro, o fundo estava investindo em 27 companhias.
Bancos privados primeiro
No recorte de julho, ações do Bradesco e da B3 (antiga BM&F) eram os principais investimentos do fundo da Bozano. Guedes tem alinhamento natural com o setor bancário e com o mercado financeiro, privilegiados pela lógica ultraliberal defendida por ele. Enquanto o programa de governo de Fernando Haddad dizia querer taxar os bancos privados e fortalecer os bancos públicos para “superar a estrutura oligopolista que controla o sistema financeiro e bancário”, Guedes quer o contrário. Sua ideia é privilegiar o sistema privado, inclusive vendendo aos pedaços a Caixa e o Banco do Brasil.
Nesse contexto, a reforma da Previdência, considerada ideal por Guedes, é a primeira ponta de interesse dos bancos privados. Eles estão de olho no sistema de capitalização. Cada trabalhador contribuiria para a sua própria conta de aposentadoria, que poderia ser resgata mensalmente até o fim da vida a partir de determinada idade ou sacada na íntegra. Isso acabaria com o sistema atual de repartição, em que a sua contribuição serve também para pagar a aposentadoria de outros cidadãos.
Serão os bancos privados a gerenciar o dinheiro dessas futuras aposentadorias – sendo remunerados pelo serviço, claro. Hoje, apenas bancos públicos são beneficiados com esse dinheiro.
O Bradesco, no qual a Bozano investe, lucrou R$ 2,6 bilhões nos nove primeiros meses deste ano somente com o segmento “Vida e Previdência”. Isso foi 18% de todo o lucro do banco no mesmo período. O tamanho do mercado que se abre com o fim do monopólio do INSS na administração das aposentadorias da CLT é gigantesco.
Outro banco na lista de investimentos da Bozano é o Banco do Brasil. Nesse caso, são ações ordinárias – ou seja, que dão direito a voto e que permitem receber pelo menos 80% do valor pago ao controlador da empresa em caso de venda para outra companhia. Guedes já admitiu, após a eleição, que planeja uma fusão do BB com o Bank of America.
Energia
Paulo Guedes também está atento à área de energia, com a perspectiva de ampla privatização do setor, com a venda de ativos da Eletrobras. O terceiro maior investimento da Bozano é na Equatorial Energia, com atuação forte na região Norte e Nordeste. No fim de julho, a empresa arrematou em leilão a compra da Companhia Energética do Piauí. Em setembro, a Equatorial pegou também 49% da Integração Transmissora de Energia, da Eletrobras. A empresa – que tem entre seus acionistas a americana BlackRock, maior gestora de investimentos do mundo, e o Fundo Soberano de Cingapura – é uma das companhias mais bem posicionadas para aproveitar o saldão da Eletrobras. A Equatorial tem um histórico de sucesso na recuperação de empresas de energia que vinham dando prejuízo – caso dos ativos da Eletrobras.
Outro investimento da Bozano na área energética é a Transmissão Paulista, concessionária privada responsável pela transmissão de quase um terço de toda a energia do Brasil. A dona da maior parcela daqueles fios de alta tensão que você vê em estradas país afora ainda é a Eletrobras (por meio das controladas Furnas e Eletrosul, por exemplo). Mas com a privatização encaminhada, é possível que a Transmissão Paulista aumente a sua fatia de controle sobre a transmissão da energia elétrica consumida no Brasil.
Guedes Global
Há poucas indústrias no portfólio da Bozano. Das 23 empresas que apareciam no portfólio da Bozano em julho, apenas quatro produzem bens (Vale, Gerdau, Duratex e Alpargatas). Mas só as duas primeiras fabricam bens de capital – ou seja, produtos que são depois usados por outras indústrias, como aço.
A configuração é bem coerente com o discurso de Paulo Guedes de desprezo pela indústria nacional, vista por ele como atrasada e dependente de benesses tributárias do governo, a ponto de o setor ter perdido o ministério dedicado à área, criado no governo de Juscelino Kubitschek e extinto temporariamente apenas no mandato de Fernando Collor. Sob protesto da poderosa Confederação Nacional da Indústria, a CNI, os industriais terão, a partir de janeiro, que despachar diretamente com o futuro superministro da Economia, que é favorável à abertura do mercado brasileiro.
A Alpargatas, fabricante das Havaianas, dos tênis Mizuno e da grife Osklen, uma aposta da Bozano, tem muito a ganhar com uma maior abertura comercial e facilidade para exportar seus produtos para outros mercados.
A empresa não tem atuação apenas no Brasil. É uma marca globalizada, que se beneficia de importações e exportações liberalizadas. A companhia tem subsidiárias desde Hong Kong até os Estados Unidos, passando por França, Reino Unido e Alemanha, que comercializam nesses países sandálias importadas do Brasil. É uma empresa com forte perfil exportador e conta com o apoio do governo federal para isso. A Alpargatas tem incentivo fiscal da União pelo menos até 2021 e, em 2016, a companhia obteve um apoio de R$ 160 milhões do BNDES apenas para bancar a exportação de sandálias. No ano passado, 35% do faturamento da empresa estava associado às suas operações internacionais.
Como detalha o relatório da companhia referente a 2017, a empresa “possui importações em dólares de produtos acabados e matérias primas, referentes às unidades de negócio de Artigos Esportivos e Sandálias” e “compra parte de suas matérias-primas nacionais a um valor cujo preço sofre impacto indireto da variação da taxa cambial”. Ao mesmo tempo, “por outro lado, a companhia possui também exportações de sandálias que, em sua maioria, são vendidas em dólares”.
A confiança de Paulo Guedes no liberalismo econômico também transparece na aposta da Bozano em varejistas. Claro que o sucesso do varejo depende de poder de compra da população, mas essas empresas se beneficiam de menores tarifas de importação sobre bens de consumo – como o futuro ministro também pontuou que será uma prioridade da política econômica.
No listão da Bozano estão as lojas de departamento Renner, a rede de supermercados ‘atacarejo’ Atacadão, do grupo Carrefour, e as Lojas Americanas, que é dona da B2W Digital, responsável pelo e-commerce Submarino. No caso das Americanas, a Bozano aposta duplamente, tanto nas ações ordinárias como nas preferenciais (sem direito a voto). Importação mais barata é bom pra todo mundo nessa lista. No caso da Renner, por exemplo, 30% dos tecidos usados na confecção das roupas vendidas em suas lojas são importados. E a B2W tem uma empresa dedicada apenas à importação de eletroeletrônicos e outros itens oferecidos aos consumidores via e-commerce.
Varejo forte significa mais compras. Outras beneficiárias dessa onda são as grandes empresas de shoppings centers. Está na lista de investimentos da Bozano a Multiplan, dona de 18 shoppings no país – entre eles o BarraShopping, no Rio, o MorumbiShopping, em São Paulo, e o ParkShopping, em Brasília.
Minha Casa, Minha Grana
Há investimentos da Bozano também na área de construção civil. A aposta feita é nos papéis da Cyrela, incorporadora imobiliária que se consolidou no mercado com empreendimentos de alto padrão. Em outubro, no entanto, a construtora anunciou a criação de uma empresa filhote, a Vivaz Residencial, com foco no programa Minha Casa, Minha Vida. No mesmo mês, Bolsonaro disse que ampliaria o programa, que passaria a se chamar Casa Brasileira.
Quem também pega carona no programa e que recebeu investimentos da Bozano é a Duratex, que trabalha com louças (pias e vasos sanitários, por exemplo) e revestimentos para decoração.
Uma flexibilização nas exigências ambientais, como tanto prega Bolsonaro, também poderá vir a calhar para a Cyrela, Multiplan e Duratex. Com maior liberdade para construir, prédios, hotéis e shoppings poderão pleitear obras em áreas hoje restritas ambientalmente.
Saúde e educação para quem pode pagar
Mas os investimentos que mais chamam a atenção na Bozano dirigida por Paulo Guedes são aqueles nas áreas de saúde e educação privadas, onde Bolsonaro e seu futuro superministro defendem a adoção de uma política de vouchers. O governo daria uma espécie de vale que as famílias poderiam usar para matricular o filho em uma escola particular ou pagar por um atendimento em clínicas privadas.
Embora o Bozano Fundamental FIA tenha fichas posicionadas nas casas da Ser Educacional (que já recebe centenas de milhões de reais pelo Fies), da Hypera Pharma (antiga Hypermarcas, maior farmacêutica brasileira em receita líquida), do Hapvida (plano de saúde) e dos laboratórios Fleury, o grosso do dinheiro captado pela Bozano está investido como controladora de empresas na área da saúde, através de fundos de investimento em participações – também conhecidos como fundos de private equity, por serem investimentos em empresas de capital fechado (não negociadas na bolsa).
São dois grandes casos nessa linha: a Hospital Care S.A., holding dona de hospitais em Campinas e Ribeirão Preto, mas com metas de expansão mais ousadas, e a BR Health, uma rede de escolas de medicina criada em 2016 pela Bozano, apostando no aumento da demanda por profissionais da área. “Nossa aposta nesse mercado é porque os cursos de medicina vão continuar numa curva ascendente. A população está envelhecendo, há uma carência de médicos no país, além disso o valor das mensalidades é elevado, e a evasão é baixa”, avaliou Paulo Guedes em 2016.
Semanas após a vitória de Bolsonaro nas urnas, o governo de Cuba anunciou que repatriaria os médicos enviados ao Brasil para o programa Mais Médicos. O motivo: as declarações de Jair Bolsonaro como presidente eleito, que indicou que faria uma série de exigências para que os cubanos pudessem permanecer no país. Com o vácuo criado pela saída desses profissionais, a previsão de Guedes vai se concretizar. A demanda por médicos formados no Brasil vai se ampliar.
Investimentos secretos
A Bozano também investe em companhias iniciantes, ajudando na expansão delas para, com isso, obter retornos futuros, seja com dividendos ou venda de participação. Aqui o envolvimento não é via fundo de ações ou de participações, mas pela modalidade private equity. Esses investimentos não passam pelo controle da CVM, a xerife do mercado financeiro. Mas, usualmente, são informações públicas.
Eram assim na Bozano até a vitória de Bolsonaro. Depois de alguns dias, no entanto, o site foi alterado e todas as informações sobre os investimentos em private equity da empresa até ali comandada pelo futuro ministro da Economia desapareceram. Não foi acidental. O sigilo pedido na CVM é previsto na lei, mas limitado aos últimos três meses. No caso do site da Bozano, as informações podem ficar ocultas indefinidamente.
Mas a internet deixa vestígios. O Intercept recuperou as telas do site do dia 12 de agosto. Lá era possível ver a lista de empresas na área de private equity. Eram oito, sendo cinco na área de saúde e educação, como hospitais, cursos de medicina e a empresa Vita Participações, também da área da saúde. Entre as outras três empresas está a rede de estacionamentos Estapar, que se beneficia de novas clínicas e shoppings, por exemplo. Em todos esses casos, a Bozano Investimentos participa como pessoa jurídica diretamente, e não via fundo. Portanto, esses investimentos não aparecem nas bases de dados da CVM.
Guedes anunciou ao mercado, no dia 31 de outubro, sua saída do capital da Bozano. É o que a lei manda. Por óbvio, um ministro não pode ser gestor de uma empresa privada. Mas a legislação não impede que ele seja cotista de fundos, como pessoa física ou mesmo através de uma pessoa jurídica da qual seja sócio. Sobre isso, as informações são sigilosas. Não é possível saber se Paulo Guedes é cotista dos fundos como pessoa física ou através de uma pessoa jurídica. Também não dá para saber quanto tempo Guedes ficará no governo e se, depois de deixar o posto de ministro e cumprido o prazo de seis meses de quarentena, voltará para a posição que hoje está abandonando na Bozano.
Paulo Guedes, um mito
Se um dia Paulo Guedes teve toque de Midas, já há alguns anos não é bem assim. São 276 empresas que cuidam da gestão de fundos de investimento em ações (FIAs) no Brasil. A Bozano Investimentos, empresa da qual era sócio desde que uma gestora fundada por ele foi comprada pela concorrente, é apenas o 146º na lista dos patrimônios alocados em ações de empresas na Bolsa, segundo análise feita pelo Intercept em dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais.
A Bozano aposta na Bolsa de Valores brasileira um patrimônio de R$ 88,4 milhões (dados de outubro), uma quantia bem modesta considerando que a média de patrimônio gerido apenas em fundos de ações pelas 20 maiores do país é de R$ 9 bilhões.
Até o mês passado, a rentabilidade acumulada pelo Bozano Fundamental FIA no ano foi de 4,29% (antes de impostos). É pouco se comparado com a performance do índice de referência Bovespa no mesmo período (14,43%). O desempenho do fundo da Bozano foi quase semelhante ao do rendimento da caderneta de poupança, tratada como investimento ultraconservador. Em 2017, o fundo também fechou abaixo do índice de referência. No período, a cesta de ações da Bozano ainda tentou se popularizar, baixando de R$ 25 mil para R$ 5 mil o investimento mínimo exigido dos interessados em serem cotistas. Ao fim de outubro, 177 pessoas, empresas e outros fundos apostavam na bússola de Guedes e sua equipe.
Ainda assim, Paulo Guedes é considerado um grande nome do mercado financeiro e tratado por Bolsonaro como o mago que irá salvar a economia brasileira. Grande parte de sua reputação vem de sua formação como economista, lastreada pela pós-graduação em Chicago, berço da corrente de pensamento econômico conhecida como Escola de Chicago. Essa linha teórica, que tem o Nobel de economia Milton Friedman como grande líder, defende o liberalismo absoluto, com desregulamentação total da atividade econômica – o chamado Estado mínimo. Foi a base da política econômica adotada, por exemplo, no Chile de Augusto Pinochet e na Inglaterra de Margaret Thatcher.
Guedes tem desafetos entre economistas com experiência relevante na administração pública, elemento que ainda falta em seu currículo. Pérsio Arida, um dos idealizadores do Plano Real e ex-presidente do BNDES e do Banco Central, já chamou Guedes de “mitômano” e disse recentemente que o economista “não tem vocação acadêmica”. “Ele tem vocação empresarial e para polemista”, disse.
Antes mesmo de pegar as chaves do superministério da Economia que controlará a partir de janeiro, Guedes virou alvo de chacota nos corredores do Congresso ao ignorar, segundo relatos do presidente do Senado Eunício Oliveira, do MDB, o fato de que o Orçamento de um ano é sempre definido e aprovado no ano anterior. É como se alguém chamado para ser curador do Masp e enaltecido como grande entendedor do mundo das artes não soubesse o básico sobre conservação de obras de arte.
Geniais ou não, as apostas de investimento coordenadas por Guedes ganham relevância por serem uma manifestação objetiva da sua linha de pensamento sobre o que será a economia brasileira nos próximos meses e anos. Afinal, a meta do fundo Bozano Fundamental é obter “retorno em longo prazo”.
Como narrou a repórter Malu Gaspar em um longo perfil sobre Guedes na revista Piauí, o economista só está ao lado de Bolsonaro porque o presidente eleito gostou de um simplório artigo escrito por Guedes no jornal O Globo há um ano e dois meses. Antes disso, nunca tinham se visto ou conversado ao telefone. Uma amizade em tempos de internet.
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UTOPIA TROPICALISTA


Jerônimo Teixeira, Páginas Amarelas – VEJA
JÁ NO TÍTULO, este é um livro atípico para um economista: Trópicos Utópicos, que acaba de ser lançado pela Companhia das Letras e quase não apresenta números. É um ensaio que segue a tradição dos "intérpretes do Brasil", na qual despontam Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Fala de uma crise da civilização ocidental e da originalidade cultural que o Brasil teria nesse cenário. O autor mineiro Eduardo Giannetti, 59 anos, que já lecionou em Cambridge, na Inglaterra, na USP e no Insper, e participou da campanha presidencial de Marina Silva — não prega a heterodoxia econômica, mas acredita que o Brasil faria bem buscando modelos que se afastassem do consumismo do american way of life. Caetano Veloso, leitor de Giannetti desde Vicios Privados, Beneficios Públicos?, assina a contra-capa do livro. Não por acaso: como Giannetti diz nesta entrevista, sua nova obra busca aliar o tropicalismo ao rigor analitico.

 Por que lançar um livro sobre a originalidade do Brasil num momento em que o país vive uma crise econômica, política e ética tão grave?
Não podemos perder a dimensão do que é permanente na vida brasileira, e um momento de baixa confianca como este é até próprio para pensar o futuro do Brasil. A capacidade de sonho é o que mantém uma cultura viva. Não tenho a pretensão de fixar um sonho brasileiro, mas gostaria de provocar os lei tores a sonhar generosamente sobre nosso futuro comum.

Qual seria, afinal, o sonho brasileiro?
É manter uma vitalidade iorubá filtrada pela ternura portuguesa. É cuidar da providência sem perder a disposição tupi para a alegria e o folguedo. É juntar os contrários. Não é "tupi or not tupi" (alusão ao Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade), mas "tupi and not tupi". Podemos ser mais do que uma cópia empobrecida de um modelo que faliu.

O modelo ocidental faliu?
Faliu por três razões fundamentais. Primeiro, a ciência, que prometia elucidar a condição humana, só faz aumentar o tamanho da nossa insignificância e da nossa ignorancia. Segundo, a tecnologia, que prometia submeter a natureza à vontade humana, ameaça se descontrolar de maneira absurda, contra a vida e contra o próprio bem-estar humano. Terceiro, o crescimento econômico, que foi vendido durante muito tempo como uma fase transitória para que o ser humano alcançasse um padrão ético e de vida mais plena, na verdade é uma armadilha. A corrida armamentista do consumo nunca tem fim e promete uma felicidade que nunca acontece, como demonstram todas as pesquisas empiricas sobre felicidade subjetiva no mundo inteiro.

O senhor divide o pensamento sobre o Brasil em duas categorias, a mimética e a profética. O que caracteriza cada uma?
 Os miméticos acham que o Brasil não tem de inventar nada: se a gente copiar direitinho o que o mundo civilizado ocidental fez, está excelente. Fernando Henrique Cardoso, Eugênio Gudin e Rui Barbosa são ex-poentes dessa vertente, e a maioria dos meus colegas economistas é de miméticos. A outra vertente, que chamo de profética, sonha com uma civilização original, não uma cópia canhestra. A essa vertente pertencem Gilberto Freyre, Oswald de Andrade, Darcy Ribeiro, o tropicalismo. Não compro integralmente nenhuma das duas vertentes, mas, em Trópicos Utópicos, minha afinidade maior está com os proféticos. Gostaria de ver o Brasil tendo a ousadia de experimentar um modo diferente de organizar e hierarquizar valores da vida.

Essa tendência dos economistas à vertente mimética não seria prudente? Afinal, não dá para inventar soluções brasileiras para, por exemplo, a responsabilidade fiscal.
Sim mas, Keynes dizia que o economista deveria ser como o dentista: um especialista numa área restrita. O economista não deve definir valores e projetos para uma sociedade. A economia existe para libertar os homens do jugo da própria economia, e não para submetê-los cada vez mais a seus imperativos. Quando existe equilíbrio fiscal, quando a inflação está baixa, quando há prosperidade e igualdade de oportunidades, deveriamos estar liberados para levar a vida que consideramos a mais bela e plena. Mas o Ocidente não consegue fazer esse movimento.

Por que não?
Com o fim da Guerra Fria, o sonho americano ganhou unm capacidade de penetração maior, a ponto de George Steiner (crítico e ensaísta francês) dizer que a Europa está acabando. Que a cultura americana é mais democrática que a europeia, não há dúvida. Mas isso não significa que ela seja superior ou portadora dos valores universais.

Seria então o caso de falar em imperialismo cultural?
 Imperialismo é uma palavra muito emotiva. Mas há uma dominação sobre um sonho de realização humana. Os americanos têm essa ideia de que todos querem ser como eles são, mas não os alcançam. E o que é espantoso é a capacidade de persuasão do sonho americano, que é muito voltado para o sucesso econômico, para a métrica financeira, para a aquisição de bens de consumo.

Devemos então parar de nos preocupar comprodutividade?
Não, não precisamos ir para o tudo ou nada. Mas será que precisamos do padrão de vida e da renda per capita americana ou japonesa para ter a vida que almejamos? Um dado impressionante: a renda do americano mediano — aquele que estaria acima dos 50 % mais pobres do país e abaixo dos 50 % mais ricos — coloca-o entre os 5 % mais ricos da população mundial. No entanto, a percepção de que lhe faltam coisas é maior que a dos demais 95 % . Outro dado empírico: dos 7 bilhões de habitantes do planeta, o bilhão no topo da pirâmide econômica responde por metade das emissões de gás carbonico. Os 3 bilhões da classe média respondem por 45 % das emissões, e os 3 bilhões mais pobres res pondem por 5 % . E quem vai sofrer e já está sofrendo as consequências do aquecimento global são predominantemente os 3 bilhões da base.

Seu pensamento se afasta do libera lismo econômico, não?
Admiro muita coisa no liberalismo, assim como há coisas no marxismo que considero interessantes. Mas acho que essas correntes não levam a sério as áreas de não racionalidade da psicologia humana e têm um profundo e solene desprezo por culturas não ocidentais.

 Nós, brasileiros, não somos ocidentais?
Nós somos recalcitrantemente ocidentais. Existem elementos muito arraigados aqui, felizmente, de culturas não ocidentais amerindia e africana, que são a nossa promessa de originalidade, pelo modo como elas se integraram à vida brasileira e nos diferenciam. Fernando Henrique Cardos diz que o Brasil não pode ter, como índia teria, a pretensão de apresentar um modelo original. Discordo. Temo um entendimento mais lúdico e amável da vida, uma capacidade de viver intensamente o presente, um outro tipo de relação social e humana, e uma disponibilidade para a alegria. São traços que vieram da convivência brasileira, pela maneira como África e culturas ameríndias acabaram se misturando aqui, e também em parte pela confusão e pela anarquia que foi a colonização portuguesa. O jesuíta Manoel da Nóbrega, por exemplo, incorporou a maraca ao ritual católico. Não aconteceria nada assim no mundo evangélico americano.
Os problemas ambientais são parte central da sua crítica ao modelo ocidental. No entanto, o Brasil não é modelo nessa área...
Não, não é. Mas, por um acidente geográfico, temos um patrimônio ambiental que faz diferença para a humanidade — reservas florestais, água doce, incidência de luz solar. Temos uma responsabilidade planetária com esse patrimônio ambiental, e temos de fazer com ele algo que não seja um desastre. Nesse ponto, uma figura como Marina Silva e o que representa podem dar ao Brasil uma condição de liderança global em meio ambiente. Hoje, estamos em um caminho totalmente mimético. O projeto desastrado da Dilma era crescer a qualquer preço. E o mais grave é que não crescemos. Pior do que crescer muito e mal é crescer pouco e mal. Dilma conseguiu esse feito.

Outro elemento importante de sua utopia é a chamada democracia racial. Certa linha crítica considera a democracia racial uma farsa e diz que o Brasil é um país racista. Como o senhor responde a isso?
A democracia racial não é um fato, mas uma aspiração. Existe racismo no Brasil, sim, mas é diferente do racismo americano. Aqui o racismo nunca foi institucionalizado. Nos Estados Unidos,o casamento inter-racial foi proibido em dezesseis estados até a década de 60. Importar o modelo racialista americano é um equívoco desastrado de quem se preocupa legitimamente com a questão da desigualdade. O problema da desigualdade brasileira é muito mais social do que racial.

Trópicos Utópicosé um livro tropicalista?
Tem muita afinidade com o tropicalismo. Acho que dá um tratamento analítico mais estruturado a uma visão de mundo tropicalista, modernista, profética.

No atual panorama de polarização, o senhor espera que o livro seja considerado de esquerda ou de direita?
Se eu for bem-sucedido, nem uma coisa nem outra. Um dos piores cacoetes da vida intelectual brasileira é a tentativa de desqualificar pela rotulagem. É emburrecedor, é tribal, no pior sentido da palavra — ou é da minha tribo de esquerda ou da minha tribo de direita. A complexidade da vida politica não cabe no primarismo de uma polarização binária.
29/06/2016
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CUIDADO COM DEZEMBRO

Artigo de Fernando Gabeira
O indulto de Temer e Pezão na cadeia são dois temas já batidos nesta manhã de segunda. Vejo um elo entre esses dois fatos, próximo de uma teoria conspiratória, mas não há razão para ocultá-lo. Tanto Temer quanto Pezão já trabalham de alguma forma com a ideia de uma passagem pela cadeia. É como se ja estivessem pensando numa próxima eleição, xerife da cela, quem sabe.
Temer sabe muito bem que incluir corruptos no seu indulto de Natal vai abrir um abismo maior ainda entre ele e a sociedade, que condenou pelo voto as velhas práticas da política brasileira. Mas, por outro lado, vai aumentar seu crédito junto aos presos, não só os que participavam da aliança no governo, mas também os do seu próprio partido: ex-ministros, parceiros como Eduardo Cunha.
Pezão declarou que tinha saudades de Sérgio Cabral e gostaria de abraçá-lo na cadeia. Disse também que gostaria de encontrar Lula. Nunca se sabe para onde vão te levar após a prisão.
Não é correta, se essa ideia for verdadeira, a tese de que os políticos brasileiros não veem um palmo diante do nariz. Quando houver tempo, poderemos até investigar os reflexos da passagem de tantos dirigentes pelas cadeias que alguns até ignoravam como funcionam.
Por enquanto, ainda temos que lidar com os seus rastros em liberdade. O indulto é um deles. É possível indultar presos por corrupção? A maioria dos ministros disse sim, afirmando que não há restrições a esse crime. Tratam de um presidente abstrato. Temer é investigado, duas vezes a Câmara lhe forneceu uma blindagem. Ele vai libertar presos da Lava-Jato, a mesma operação que desmantelou toda a quadrilha da qual é um dos principais remanescentes em liberdade.
Nessas circunstâncias, só resta o protesto nas ruas. Mas, ainda assim, o tema nos colhe num mês ingrato para protestos. Há 50 anos, o regime militar lançou o AI-5, endurecendo sua política e realizando a censura nos jornais com a presença de seus agentes no interior das redações.
O aniversário de meio século do AI-5 será no dia 13. Uma das lembranças mais nítidas que tenho do período foi, precisamente, a dificuldade de protestar. Não nos prendiam por isso, mas era um período de Natal: o “blim blão” dos sinos, o farfalhar de papéis enrolando presentes, o panetone em promoção. Ninguém queria saber de AI-5. Ainda bem que dezembro de 68 está longe, tanto o país quanto o Natal devem ter mudado nesse período. De qualquer forma, cuidado com dezembro.
Mais próximo de minha memória está a aventura de ter feito política no Rio de Janeiro e tentar, de alguma, forma derrubar a máfia bilionária que acabou arruinando o estado.
Em 2010, por exemplo, Cabral já gastava fortuna com robôs na internet. Chegamos a reunir documentos para oferecer à imprensa. Os robôs não falavam inglês, mas tinham um forte sotaque, escreviam frases grosseiramente traduzidas. Ninguém se interessou. O tema era era muito abstrato naquela época. Era o mesmo que falar do rombo na camada de ozônio: ninguém o notava a olho nu.
Apesar de tudo, não restou ressentimento. Sobretudo no caso de Pezão. Em muitos desastres, o encontrei trabalhando. Sérgio Cabral não visitava os locais de tragédia. Como jornalista, entretanto, não pude deixar de comentar um tema, naquela época do escândalo dos guardanapos. O apartamento de Pezão tinha sido assaltado no Leblon e, segundo a notícia, foram levadas muitas joias. Soou estranho para mim que um homem aparentemente simples tivesse muitas joias em casa. O tempo passou, eles foram sendo presos aos poucos, hoje quase todo o governo está na cadeia, inclusive sua base parlamentar.
O Rio quebrou, foi preciso uma intervenção federal na segurança pública, o estado elegeu um homem desconhecido do grande publico até as vésperas da eleição. Às vezes tento esquecer todo esse período sinistro. Os principais atores estão presos. Isso conforta parcialmente a opinião pública. Mas o legado ainda vai nos assombrar durante muitos anos. Foi uma calamidade que passou em nossa vidas e algumas consciências se deixaram levar. Agora é juntar os cacos, abastecer o motor econômico do Rio com o petróleo que restou, e subir de novo a montanha. Pra cima, é preciso fôlego.
Pezão entrou, outros serão soltos por Temer, que um dia será preso tambem. Não é um caminho linear. Murilo Mendes tem um verso em que diz: “Ainda não estamos habituados com o mundo/ Nascer é muito comprido.”
No caso do Brasil, então, o parto é muito prolongado.
Artigo publicado no Jornal O Globo em 03/12/2018
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SEQUESTRO E MORTE

Do G1
A vereadora de Bom Jesus de Goiás Roseli Aparecida de Oliveira (DEM), de 55 anos, foi encontrada morta na manhã desta segunda-feira (3), dentro do carro dela, às margens da BR-452, no sul goiano. Segundo a Polícia Civil, a mulher foi sequestrada durante o roubo do veículo na casa dela e, na fuga, os criminosos bateram o automóvel. Em seguida, conforme a investigação, um deles atirou contra a vítima. Três suspeitos foram presos.
“Durante a fuga, eles alegam que a vítima teria tentado reagir, e o motorista perdeu o controle do veículo. Eles bateram numa árvore e efetuaram disparos contra ela”, relata o delegado responsável pelo caso, Rogério Moreira da Silva.
O assalto aconteceu por volta das 22h de domingo (2), na casa da família de Roseli. O delegado explicou que ela saiu na área para abrir o portão para o filho entrar na residência. Nisso, os assaltantes viram que havia um carro estilo sedan na garagem e abordaram a família.
“Eles a colocaram dentro do carro como garantia da fuga e seguiram na BR-452, sentido de Bom Jesus de Goiás para Itumbiara”, afirmou o investigador.
Prisão de suspeitos
De acordo com Silva, logo após o assalto, as polícias Civil, Militar e Rodoviária Federal iniciaram as buscas pela vereadora. Por volta das 6h desta segunda-feira, as equipes encontraram dois homens, sujos e com ferimentos, caminhando às margens da BR-452. Os agentes desconfiaram da dupla e os abordaram.
O delegado informou que Natanael Cardoso dos Santos, de 22 anos e, Gilberto Alves da Silva, de 26, confessaram o assalto. Em seguida, os policiais localizaram o carro da vítima, um Honda Civic, que estava às margens da rodovia.
Os assaltantes alegaram que são de Itumbiara e saíram da cidade para Bom Jesus de Goiás com o intuito de roubar um carro sedan. “Os indivíduos relataram que passaram a tarde em busca de um carro e, quando escureceu, presenciaram situação de facilidade e abordaram a vereadora”, relatou.
Conforme o delegado, Gilberto afirmou que, após a batida, Natanael atirou contra a vítima, mas a dinâmica deve ser confirmada pela perícia. “Ele disse que saiu do carro e escutou três disparos. Depois, o outro confessou que atirou. Ela tinha visto o rosto deles, acredito que ficaram com medo de serem identificados”, afirmou.
O delegado deve interrogar os suspeitos nesta segunda-feira e, em seguida, eles serão encaminhados para o presídio da cidade. Conforme Silva, as investigações continuam.
G1 não encontrou a defesa dos suspeitos até a publicação desta reportagem.
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domingo, 2 de dezembro de 2018

UM NOVO CAMINHO

Artigo de Fernando Henrique Cardoso, O GLOBO
A última eleição foi um tsunami que varreu o sistema político brasileiro. Terminou o ciclo político-eleitoral iniciado depois da Constituição de 1988. Ruiu graças ao modo como se formaram os partidos, o sistema de voto e o financiamento das campanhas. A vitória da candidatura Bolsonaro funcionou como um braço cego da História: acabou de quebrar o que já estava em decomposição. Há muitos cacos espalhados e há a necessidade de reconstrução. Ela será feita pelo próximo governo? É cedo para dizer.
O sistema político-partidário não ruiu sozinho. As fraturas são maiores. Antes, o óbvio: a Lava Jato mostrou as bases apodrecidas que sustentavam o poder, sacudiu a consciência do eleitorado. Qualquer tentativa de reconstruir o que desabou e de emergir algo novo passa pela autocrítica dos partidos, começando pelo PT, sem eximir o MDB e tampouco o PSDB e os demais. Na sua maioria, os “partidos” são sopas de letras, e não agremiações baseadas em objetivos e valores. Atiraram-se na captura do erário, com maior ou menor gula.
Visto em retrospectiva, é compreensível que um sistema partidário sem atuação na base da sociedade se desmonte com aplausos populares. Os mais pobres encontram nas igrejas evangélicas – e em muito menor proporção na Igreja Católica e em outras religiões – recursos para se sentirem coesos e integrados. O povo tem a sensação de que os parlamentos e os partidos não atendem aos seus interesses. O eleitorado, contudo, não desistiu do voto e imaginou que talvez algo “novo”, inespecífico, poderia regenerar a vida pública.
Não foi só isso que levou à vitória o novo presidente. Basta conhecer mais de perto a vida dos mais pobres nas favelas e nas periferias carentes de quase tudo para perceber que pedaços importantes do território vivem sob o domínio do crime organizado, violência que não se limita a essas populações, pois alcança partes significativas da população urbana e rural.
Inútil imaginar outros motivos para a vitória “da direita”. Não foi uma direita ideológica que recebeu os votos. Estes foram dados mais como repulsa a um estado de coisas em geral e ao PT em particular. O governo foi parar em mãos mais conservadoras, e mesmo de segmentos abertamente reacionários, não pelas propostas ideológicas que fizeram, e sim pelo que eles simbolizaram: a ordem e a luta contra a corrupção. Não venceu uma ideologia, venceu o sentimento de que é preciso pôr ordem nas coisas, para estancar a violência e a corrupção e tentar retornar a algum tipo de coesão social e nacional.
Enganam-se os que pensam que “o fascismo” venceu. Enganam-se tanto quanto os que veem o “comunismo” por todos os lados. Essa polarização marcou a pugna política em outra época de antes da 2.ª Grande Guerra, ao fim da qual foi substituída pela polarização entre capitalismo liberal e socialismo.
Os problemas básicos do País continuarão a atazanar o povo e o novo governo. Este não será julgado nas próximas eleições por sua ideologia “direitista”, mas por sua capacidade, ou não, de retomar o crescimento, diminuir o desemprego, dar segurança à vida das pessoas, melhorar as escolas e os hospitais, e assim por diante.
Com isso não quero justificar a “direita”, dizendo que se for capaz de bem governar vale a pena apoiá-la, mas também não posso endossar a “esquerda”, quando ela deixa de reconhecer seus erros, conclama a votar contra tudo o que o novo governo propuser, sem considerar o que realmente conta: quais os efeitos para o bem-estar das pessoas, para o fortalecimento dos valores democráticos e para a prosperidade do País.
As mudanças pelas quais passamos, aqui e no mundo, são inúmeras e profundas. Pode-se mesmo falar numa nova “era”, a da conectividade. Se houve quem escrevesse “cogito ergo sum” (penso, logo existo), como fez Descartes, se depois houve quem dissesse que o importante é saber que “sinto, logo existo”, em nossa época, sem que essas duas afirmativas desapareçam, é preciso adicionar: “Estou conectado, logo existo”. Vivemos a era da informática, das comunicações e da inteligência artificial, que sustentam o processo produtivo e formam redes entre as pessoas.
As novas tecnologias permitem formas inovadoras de enfrentar os desafios coletivos, assim como acarretam alguns inconvenientes, como a dificuldade de gerar empregos, a propagação instantânea das fake news, a formação de ondas de opinião que mais repetem um sentimento ocasional do que expressam um compromisso com políticas a serem sustentadas em longo prazo. Elas dependem de instituições, partidos, parlamentos e burocracias para serem efetivas.
As questões centrais da vida política não se resumem, no mundo atual, à luta entre esquerda e direita. No passado o espectro político correspondia a situações de classe, interpretadas por ideologias claras, assumidas por partidos. Na sociedade contemporânea, com a facilidade de relacionamento e comunicação entre as pessoas, os valores e a palavra voltaram a ter peso para mobilizar politicamente. Isso abre brechas para um novo populismo e uma exacerbação do personalismo. O desafio está em recriar a democracia. O que chamo de um centro radical começa por uma mensagem que envolva os interesses e sentimentos das pessoas. E essa mensagem, para ser contemporânea, não deve estancar num palavreado “de direita” nem “de esquerda”. Deve, a despeito das divergências de classe que persistem, buscar o interesse comum capaz de cimentar a sociedade. O País não se unirá com o ódio e a intransigência cultural existentes em alguns setores do futuro governo.
Há espaço para propostas que juntem a modernidade ao realismo e, sem extremismos, abram um caminho para o que é novo na era atual. Esse percurso deve incorporar a liberdade, especialmente a de as pessoas participarem da deliberação dos assuntos públicos, e a igualdade de oportunidades que reduzam a pobreza. E há de ver na solidariedade um valor. Só juntos poderemos mais.
*Fernando Henrique Cardoso é sociólogo, foi presidente da República
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ENTRAMOS NBA ERA DA MENTIRA

O pós-doutor em Comunicação e diretor da AP Exata – Inteligência Artificial, Sérgio Denicoli, diz que a expansão da internet, possibilitada pelo surgimento da web, em 1989, sustentou a crença de que “o novo meio online seria um grande campo de liberdade”. No entanto, hoje, segundo ele, “entramos na era da mentira, das teorias da conspiração, que influenciam nossos amigos e familiares”, como escreve em artigo publicado na edição de novembro da revista Política Democrática online, produzida e editada pela Fundação Astrojildo Pereira (FAP), vinculada ao Partido Popular Socialista (PPS).
Com o título “As doces, atraentes e estimulantes fake news”, o artigo ressalta que, no início, a ideia que havia era de que finalmente o mundo se livraria das amarras da mediação da imprensa, que, segundo ele, é “contaminada pelos seus mais diversos interesses e pela sua proximidade com o poder político”.
No final dos anos 1980, como observa o pós-doutor em Comunicação, acadêmicos e críticos entendiam que a imprensa desenhava toda a narrativa da vida pública e que a internet trazia ao mundo a possibilidade de democratização da informação. “As pessoas comemoraram, então, o surgimento do chamado ‘jornalista cidadão’, aquele que não precisava de intermediários para difundir uma notícia. Foi uma onda avassaladora a transformação dos internautas em produtores e não apenas consumidores de conteúdo”, escreve ele, em um trecho.
No entanto, de acordo com Sérgio Denicoli, houve mudança não apenas no ato de se reportar algo. “A internet viria a colocar em causa muitas profissões que tinham a mediação como norte. Foi assim que aconteceu a revolução do Uber, do Airbnb – que permite às pessoas comuns alugarem suas próprias casas como se fossem hotéis –, dos classificados, do comércio de imóveis, entre tantos outros exemplos. Enquanto essas mudanças eram comemoradas, o mundo não percebeu que, aos poucos, a internet foi sendo capturada”, acrescenta ele.
Segundo o diretor da AP Exata – Inteligência Artificial, empresas ultraglobais, como Google, Facebook, Twitter etc, construíram resorts de comunicação e cooptaram bilhões de usuários, os quais, conforme ressalta ele, foram transformados “em produtos narcisistas municiados de espelhos hipnotizadores”. “Ocorreu, portanto, a digitalização da vida, com ideias, opiniões e momentos privados devidamente classificados e armazenados em data centers espalhados pelo planeta. As pessoas foram agrupadas em bolhas e viraram presas”, afirma Sérgio Denicoli.
Assim, conforme aponta o artigo, “um ambiente que chegou anunciando liberdade se tornou uma prisão sem muros, com requintes apurados de cooptação ideológica”. “Tudo devidamente disseminado por robôs e alimentado pelo que denominamos de ‘perfis de interferência’, criados especificamente para interferir nos mais diversos processos que envolvem a opinião pública”.
Na avaliação do pós-doutor em Comunicação, a sociedade entrou não somente “na era da mentira”, mas também na das “teorias da conspiração, que influenciam nossos amigos e familiares”. “Estabeleceu-se um surto coletivo, onde, se achando mais que especial, o internauta acredita que sua vida é o centro das atenções e que sua opinião deve prevalecer, sendo ela apoiada em pós-verdades, se assim for necessário. Uma doce ilusão. Tão doce e atraente, como uma bem construída fake news”, escreve ele, no artigo.
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sábado, 1 de dezembro de 2018

MORRE GEORGE W.H. BUSH

Do G1
Morreu aos 94 anos nesta sexta-feira (30) o ex-presidente George H. W. Bush.
"Jeb, Neil, Marvin, Doro e eu anunciamos com tristeza que, depois de 94 anos extraordinários, nosso querido pai morreu", disse Bush no comunicado.
Não há ainda informações sobre o funeral do ex-presidente.
O 41º presidente dos EUA ocupou a Casa Branca entre 1989 e 1993. Republicano, Bush se destacou por ter decidido pela intervenção das forças norte-americanas no Iraque na guerra do Golfo, depois que as forças de Saddam Hussein invadiram o Kuwait.
Antes de ocupar a presidência, ele foi vice-presidente durante os oito anos da administração Reagan, diretor da CIA e congressista.
Infância e juventude
George Herbert Walker Bush nasceu em Milton, Massachusetts, em 12 de junho de 1924. Pouco depois sua família, que era muito rica, se mudou para o subúrbio de Nova York, onde ele foi criado.
Bush estudou em escolas privadas, foi líder estudantil e, após se formar no ensino médio, se alistou no exército para servir na II Guerra Mundial.
Aos 18 anos, tornou-se um dos mais jovens pilotos da história do país e serviu em 58 missões. Em uma delas, foi abatido foi abatido por japoneses e teve que ser resgatado das águas do Pacífico por um submarino dos EUA.
Bush chegou ao cargo de tenente antes de ser liberado com o fim da guerra.
Casamento e vida pessoal
Em 1945, casou-se com Barbara Pierce. O casamento deles durou 73 anos, até a morte da ex-primeira-dama, em 17 de abril de 2018. O casal teve seis filhos: George, Robin (que morreu ainda criança), John (conhecido como Jeb), Neil, Marvin e Dorothy.
Ele cursou economia na Universidade de Yale, se formando com louvor em 1948. No mesmo ano, se mudou para o Texas e começou a trabalhar na indústria do petróleo do estado, criando uma carreira lucrativa: fundou uma empresa exploradora em 1951 e, na década de 1960, já presidente de outra companhia, se tornou milionário.
Carreira política
Filho do senador Prescott Bush (eleito por Connecticut em 1952), Bush se filiou ao Partido Republicano, de perfil mais conservador e economicamente liberal.
Em 1967, tornou-se deputado pelo Texas e ficou no cargo durante duas gestões, até 1970. Entre 1971 e 1974, serviu como embaixador na ONU e passou 14 meses como representante na China. Entre 1976 e 1977, foi diretor da CIA, o serviço de inteligência norte-americano.
Em 1980, Bush tentou se candidatar à presidência, mas perdeu e foi escolhido como vice na chapa do republicano Ronald Reagan. Em seu mandato como vice, de 1981 a 1989, Bush era responsável por programas antidrogas e fez visitas diplomáticas a dezenas de países.
Presidência
Em 1988, foi nomeado candidato à presidência pelo Partido Republicano. Em uma campanha pesada, com ataques pessoais dos dois lados, Bush derrotou o democrata Michael Dukakis. O republicano teve 54% dos votos populares e 426 dos 537 dos votos do colégio eleitoral.
Presidente dos EUA durante o fim da Guerra Fria, seu mandato foi marcado por profundas mudanças na geopolítica, como o desmantelamento da União Soviética.
A política externa teve papel central em seu mandato. Em dezembro de 1989, Bush autorizou o envio de tropas ao Panamá para depor o general Manuel Noriega.
Entre 1990 e 1991 o país enviou tropas com apoio da ONU para remover soldados de Saddam Hussein que invadiram o Kuwait, durante a chamada primeira guerra do Golfo. Quando os soldados foram retirados, ele optou pelo fim da operação militar e não perseguiu Hussein.
Em sua política doméstica, Bush ostentava a promessa de não aumentar impostos, mas chegou a aprovar esta medida em uma tentativa de reduzir o déficit do país.
Bush foi alvo de muita atenção da mídia quando, em 1992, vomitou e em seguida desmaiou durante um jantar diplomático no Japão, com a presença de mais de 100 diplomatas. A cena foi filmada e repercutiu internacionalmente.
O republicano tentou a reeleição e foi derrotado pelo democrata Bill Clinton na eleição de 1992.
Aposentadoria
Após deixar a presidência, se aposentou da vida política, mas participou de campanhas para arrecadar dinheiro para vítimas de calamidade pública, como o Furacão Katrina em 2005, e o Furacão Harvey, em 2017. Neste último caso, participou da iniciativa One America Appeal, ao lado de outro quatro ex-presidentes dos EUA: Jimmy Carter, Bill Clinton, seu filho George W. Bush e Barack Obama.
Em 2011, recebeu de Barack Obama a Medalha da Liberdade, maior honraria que pode ser concedida a um civil no país.
Saúde
Dependendo há alguns anos de uma cadeira de rodas para se locomover, o ex-presidente continuou fazendo diversas aparições públicas, mas sua saúde foi se tornando mais frágil.
Em novembro de 2012, ele foi internado e passou quase dois meses hospitalizado por causa de uma bronquite, chegando a passar o Natal no hospital. Em dezembro de 2014, voltou a ter problemas respiratórios e retornou ao Houston Methodist Hospital.
Em julho de 2015, foi tratado em um hospital do Maine após quebrar um osso no pescoço como consequência de uma queda e, em 2017, teve duas internações por pneumonia, uma em janeiro e outra em abril.
Em 2018, foi internado no dia 22 de abril, com um quadro de infecção, um dia após o funeral de sua esposa, Barbara.
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