terça-feira, 9 de junho de 2026

RELAÇÃO BRASIL-EUA: LIMITES DA AMIZADE

Artigo de Fernando Gabeira

Nunca me senti confortável com a importância que a imprensa dá à proximidade dos candidatos com Trump. Tanto a fidelidade canina da família Bolsonaro como a química que o uniu a Lula enfraquecem uma análise mais fria sobre interesses dos dois países.

Compreendo que Lula tenha certo orgulho da simpatia de Trump. Afinal, o poder de sedução atravessou barreiras ideológicas confirmando seu prestígio internacional. Na hora do vamos ver, a situação se revela com toda a crueza. Ao apresentar sua política para o continente, os Estados Unidos fizeram uma grande reunião na Flórida. Foi lançado o Escudo das Américas, aliança contra o crime organizado e imigração ilegal. O Brasil ficou de fora, assim como Colômbia e México. Em discurso no Congresso, Marco Rubio nomeou os países que não se alinhavam com a política americana. Entre eles estava o Brasil.

É nesse contexto que temos de analisar alguns movimentos da política em relação ao nosso país. Um deles, a classificação de terrorismo imposta a PCC e Comando Vermelho. Não foi uma decisão importante para uma política de Estado. Vinha sendo avaliada havia muito tempo. Mas a oportunidade de sua oficialização deu uma pequena ajuda ao pré-candidato Flávio Bolsonaro, sem dúvida preferido dos americanos. A preferência explícita acabou trazendo grande desgaste a Flávio quando se anunciaram novas tarifas.

Embora seja um discurso muito eficaz de campanha, as tarifas não foram feitas para a família Bolsonaro. Não se pode analisá-las sob essa ótica de quarteirão, como se fossem obra dos Bolsonaros, dos Morales, dos Bertrands, dos Millers, dos Johnsons. Elas são uma política global de Trump. Já foram tentadas de forma autoritária e anuladas pela Suprema Corte. Agora, Trump volta à carga, usando a seção 301 de uma lei comercial para dar verniz legal a sua determinação.

Há muita coisa injusta nas razões que punem o Brasil. Uma delas é a denúncia de trabalho forçado, algo muito combatido num governo de esquerda, assim como o desmatamento. Os americanos não parecem muito preocupados com precisão nem coerência. Tanto que, no caso da carne, abrem uma exceção. Se o trabalho forçado é para produzir carne, então tudo bem.

É evidente que tudo isso será processado pelas narrativas eleitorais. Mas o Brasil precisa manter um olhar frio e uma prática profissional para atenuar o impacto das medidas e compreender a realidade americana como ela é. Nessa luta planetária contra o poder ascendente da China, os americanos podem passar por várias fases.

Nem a devoção da família Bolsonaro nem a química entre Trump e Lula são proteções estratégicas. Precisamos discutir caminhos, e eles estão um pouco ofuscados no valor cultural da amizade, algo que cultivamos no Brasil. Entre países, não há amigos, apenas interesses. Não significa que devamos abandonar o bom humor e a abertura para novas amizades. Sempre ajudam.

Artigo publicado no jornal O Globo em 09 / 06 / 2026

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segunda-feira, 8 de junho de 2026

A RELEVÂNCIA DE 'A NOBREZA DO AMOR '

Preto Zezé, O Globo

Sem negar a história, a novela apresenta também uma África ligada à cultura, aos afetos, à sofisticação, à política e à construção dos próprios destinos

Nos conselhos empresariais, consultorias e ambientes de decisão, costumo defender uma ideia simples: toda transformação relevante começa por um diagnóstico honesto dos problemas e pela construção de soluções para não repetir os mesmos erros. Mas existe uma segunda etapa igualmente importante: reconhecer avanços, celebrar conquistas e tornar visíveis as mudanças alcançadas. Uma sociedade amadurece quando aprende com seus erros e transforma seus acertos em referência para o futuro.

Faço essa reflexão porque ela ajuda a olhar para a televisão brasileira. Durante décadas, a teledramaturgia ajudou a construir o imaginário nacional e também refletiu os limites de cada época. A presença negra existia, mas muitas vezes condicionada a lugares estreitos. O problema nunca foram o humor, o romance ou os personagens populares. O problema era a limitação das possibilidades. Personagens negros podiam emocionar, divertir e marcar gerações, mas raramente ocupavam a complexidade reservada aos protagonistas.

Reconhecer esse passado não significa negar a importância da televisão brasileira. Significa compreender o caminho que nos trouxe até aqui e perceber que mudanças importantes têm acontecido. É por isso que “A nobreza do amor” merece atenção. Sua relevância não está apenas em colocar uma princesa africana no centro da trama, mas em registrar uma mudança de tempo.

O aspecto mais interessante da obra é ampliar o repertório simbólico oferecido ao público. Os personagens negros aparecem associados ao amor, à beleza, ao poder, à estratégia política, aos sonhos e aos dilemas universais da condição humana. Durante muito tempo, a discussão foi garantir presença. Agora começamos a discutir amplitude e complexidade.

A novela não faz da pluralidade apenas um tema. Aparece na própria criação, no encontro entre pesquisa histórica, referências da diáspora africana, dramaturgia popular, estética contemporânea e diferentes formas de interpretar a experiência negra. A história não ignora desigualdades nem conflitos históricos. Apenas recusa a ideia de que esses sejam os únicos lugares possíveis para seus personagens.

Há também um aspecto que merece destaque. E aqui nem falo apenas do elenco, que reúne novos e já consolidados talentos. A riqueza da obra está no encontro de diferentes saberes, experiências e repertórios. Muitas das melhores narrativas surgem quando trajetórias diferentes colaboram sem que uma precise apagar a outra. A pluralidade fortalece a criação.

Essa mudança aparece na maneira como a África é apresentada. Por muito tempo, a imagem do continente oferecida ao público brasileiro esteve associada quase sempre à escravidão, à pobreza ou aos conflitos. “A nobreza do amor” amplia essa lente. Sem negar a história, apresenta também uma África ligada à cultura, aos afetos, à sofisticação, à política e à construção dos próprios destinos.

Isso importa porque imaginários têm consequências concretas. Uma sociedade também se transforma pelas histórias que conta sobre si mesma e pelas possibilidades que aprende a enxergar.

As novelas sempre foram um espelho do país. Mas alguns espelhos fazem mais que refletir. Talvez a verdadeira nobreza dessa história esteja aí: ampliar possibilidades, renovar imaginários e mostrar um Brasil mais complexo e mais interessante do que aquele que aprendemos a enxergar durante muito tempo.

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domingo, 7 de junho de 2026

FLÁVIO BOLSONARO CONTRA O PIX

Celso Rocha de Barros*, Folha de S. Paulo

Bolsonarismo conseguiu aumentar os impostos dos brasileiros estando na oposição

Graças à influência da quinta coluna bolsonarista, uma parte expressiva da população brasileira dará razão a Trump

Com a ajuda da Casa Branca, o bolsonarismo tornou-se o único movimento político que conseguiu aumentar os impostos dos brasileiros estando na oposição.

Para piorar, o "Tariflávio" de Trump incluiu uma ameaça explícita ao Pix: é como se Trump tivesse dado a Lula uma versão anabolizada do vídeo de Nikolas Ferreira do ano passado —e agora a ameaça ao Pix é real.

Para não deixar dúvida de que o bolsonarismo pretende matar o Pix por ordem de Trump, Eduardo Bolsonaro gravou vídeo sugerindo que o Brasil negociasse com os Estados Unidos a adoção do Zelle, um sistema de pagamentos americano que é mais lento, exige que se abra conta em um grande banco americano (que compensa nas tarifas a "gratuidade" do sistema) e tem uso muito mais restrito.

De qualquer forma, a aversão dos filhos de Bolsonaro aos mecanismos de pagamento automático é conhecida. Na hora de comprar seus imóveis, nunca usaram o Pix, nunca usaram o Zelle, sempre preferiram pagar em dinheiro vivo.

No dia do Tariflávio, Trump postou a imagem de Flávio na Casa Branca com elogios ao candidato.

Foi notável, porque Trump não tinha postado nada no dia da visita dos irmãos Bolsonaro. Até o Tariflávio, Trump tinha encarado a foto como um compromisso social inútil.

Com o Tariflávio, Trump lembrou que os bolsonaristas tinham, afinal, uma utilidade: reduzir o poder de reação do Brasil a uma evidente ameaça à sua soberania. Graças à influência da quinta coluna bolsonarista, uma parte expressiva da população brasileira dará razão a Trump, ou, ao menos, reagirá com muito menos indignação do que reagiria se a direita brasileira fosse dirigida por brasileiros.

A quinta coluna bolsonarista também serve como instrumento de pressão contra o governo brasileiro. É como se Trump dissesse a Lula: se você não topar me entregar as riquezas brasileiras, eu posso bancar esse puxa-saco que me entrega tudo. E ele não está tão atrás de você assim nas pesquisas.

O Tariflávio não vai quebrar o Brasil, mas deve causar prejuízos nos setores mais afetados. Brasileiros vão perder emprego, empresas brasileiras podem falir, porque os direitistas brasileiros entregaram a liderança de seu movimento para a Casa Branca.

Flávio Bolsonaro aceitou entregar o Pix e a saúde de nossa indústria em troca de uma foto com Trump que fizesse o público esquecer do Banco Master.

Mas o que deveríamos nos perguntar é o seguinte: o encontro com Trump foi pago com dinheiro roubado pelo Master? Foi pago com outros desvios cometidos pelos bolsonaristas?

O lobby é permitido por lei nos Estados Unidos. Há empresas especializadas em vender acesso às autoridades americanas. Os irmãos Bolsonaro utilizaram serviços como esses para ter acesso à Casa Branca? Lobistas americanos são muito, muito caros.

Ou seja: é perfeitamente possível a hipótese de que os irmãos Bolsonaro tenham comprado o direito de ir até a Casa Branca trair o Brasil com dinheiro roubado pelo Master de aposentados do Rio de Janeiro, com dinheiro que a Prefeitura de São Paulo deu para a produtora de "Dark Horse".

Aliás, se "Dark Horse" tiver mesmo sido um veículo para corrupção e traição ao Brasil, a história de sua produção contará a vida de Jair Bolsonaro muito melhor do que o roteiro do filme.

*Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e autor de "PT, uma História"

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sábado, 6 de junho de 2026

DANIEL VORCARO PROPÕE ACORDO DE DELAÇÃO SELETIVO E ESCULACHADO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Quantas chances a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal darão ao banqueiro do Master?

Daniel Vorcaro tem esculachado – sob novos graus de esculacho – a já esculachada colaboração premiada brasileira, cuja matriz a serviço do interesse público está posta em xeque novamente, pela preponderância da má-fé de um corruptor obstrutor da Justiça que opera os recursos de uma concessão excepcional do Estado para proteger o próprio patrimônio; também a sua porção imaterial...

Quantas chances lhe darão Procuradoria-Geral da República e Polícia Federal? Quantas, se as investigações estão lá na frente – capazes já de lhe prescindir da palavra – e o tipo insiste em gerir a negociação como instrumento de defesa de mão única, protelatório, com contrapartida debochante e plantador de condições para nulidades?

Será o caso de lembrar que os senhores que comandam as instituições portas de entrada para o acordo, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, sentaram-se à mesa do clube do uísque londrino de Vorcaro, em abril de 2024, com os delatáveis Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Hugo Motta estava lá. Clube do uísque vorcárico cuja versão nova-iorquina, de maio daquele ano, teria Ciro Nogueira, Cláudio Castro e o onipresente Motta.

(Será o caso de lembrar a mensagem de Vorcaro à noiva, em março de 2025, poucos dias antes do anúncio do memorando de entendimento para a compra do Master pelo BRB: “Acabou chegando hugo e ciro aqui para falarem com alexandre”.)

Confrarias que tanto impõem nomes incontornáveis, cujas ausências em propostas de delação redefiniriam o conceito de escárnio, quanto explicam a essência peculiar da colaboração premiada à brasileira. Colaboração premiada à brasileira, exposta no contrato firmado por Mauro Cid, cuja delação foi reformada até entregar – não será crença inverossímil – o que Xandão queria. Ninguém – da inteligência jurídica influente – reclamou; ninguém, entre os virtuosos defensores monopolistas do estado democrático de direito. Era um golpista, afinal.

Com Vorcaro, consideradas as relações do sujeito em (a partir de) Brasília e a natureza de seus golpes (cuja prosperidade dependeu desses relacionamentos), as reações são diferentes, em disputa o controle sobre a delação seletiva do cara; sobre a capacidade de lhe denunciar a delação seletiva. Dado – admitido – que a delação será seletiva, lançada está a campanha por não estar nela; no que formará a plantação na imprensa de ministros do Supremo preocupados com a carga pública para que o banqueiro entregue ministros do Supremo.

Disputa-se o benefício da mentira. O benefício de fazer prevalecer o texto segundo o qual a invisibilidade do “elefante pintado de azul” (apud Flávio Dino), que engordava charutando pela Praça dos Três Poderes, derivaria da incompetência dos fiscais – e não de estarem todas as turmas sobre o bicho Master.

Para (por ora) a tranquilidade geral do sistema de poder no Brasil, Vorcaro, amante do cinema e da hotelaria nacionais, parece insistir – no que seria mais uma oferta de acordo – na tese de que distribuía milhões a autoridades, com ou sem contrato, “por amizade”. Os gonets querem acreditar.

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UMA SEMANA DEVASTADORA PARA A PROTEÇÃO À INFÂNCIA

Flávia Oliveira, O Globo

O que se viu foi brutalidade, desatenção, abandono, revitimização - o avesso do cuidado

Foi uma semana devastadora para quem acredita, como reza o provérbio africano, que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. A frase diz respeito à atribuição compartilhada por família, comunidade, escola, Estado, para garantir vida saudável, confortável, digna a meninas e meninos, Brasil e mundo afora. Neste limiar de junho, o que se viu foi brutalidade, desatenção, abandono, revitimização — o avesso do cuidado, enfim.

No domingo passado, Bento Bezze, de 12 anos, foi vítima de um tiro disparado por criminosos na quadra do condomínio onde morava na Pavuna, Zona Norte carioca. Festejava a Primeira Comunhão de uma amiguinha; morreu nos braços do irmão, um ano mais velho. O Instituto Fogo Cruzado já contou, neste ano, duas dezenas de crianças e adolescentes alvejados por disparos de arma de fogo no Grande Rio. Em uma década, foram 778 menores baleados.

Não é por acaso que, na pesquisa Datafolha para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ser atingido por bala perdida, com 77,5% de menções, é o sexto entre 13 pavores da população em relação à violência. O primeiro, não muito distante, é ser alvo de golpe financeiro via internet ou celular (83,2%). Na mesma consulta, 13,1% dos brasileiros disseram que já tiveram parente ou conhecido assassinado, num total de 21,9 milhões de pessoas. Um em dez (9,7%), cerca de 16,1 milhões, foi vítima ou soube de alguém atingido por bala perdida. A proporção aumenta entre quem se declara negro e na população de baixa renda, predominantemente preta e periférica.

Na terça-feira, o Senado deu seu quinhão em desfavor das meninas do Brasil, ao sustar a resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) que orienta a interrupção legal de gestação em menores de idade. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), concluiu a votação do relatório da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), ex-ministra da Família e dos Direitos Humanos, em menos de dois minutos. Não autorizou apartes e orientou os colegas favoráveis ao projeto a permanecer imóveis, ato que ratifica a votação simbólica, sem digitais.

De uma só vez, o Congresso restringiu o acesso a um direito previsto em lei desde 1940. Tirou proteção a meninas e adolescentes, portanto. No Brasil, o aborto é permitido em caso de estupro, risco de vida para a gestante e feto anencéfalo — neste caso, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Sexo com menores de 14 anos é estupro. A resolução do Conanda regulava procedimentos: do treinamento de profissionais para identificar e lidar com situações de violência sexual à assistência integral às vítimas. A última edição do Atlas da Violência, referente a 2024, identificou 29.135 notificações de violência sexual contra crianças de 5 a 14 anos; na faixa etária de 15 a 19, foram 6.869 casos. Entre as vítimas, 86,7% são meninas.

De tão recorrente e naturalizada a violência contra a infância em território nacional, uma estelionatária de 37 anos se passou por uma adolescente de 12, traumatizada por abusos e violência sexual. Conseguiu enganar, por 14 meses, a família que a abrigou em Santa Catarina, depois de aplicar o mesmo golpe em outros cinco estados (PR, MG, RJ, GO e CE).

Em pleno feriado de Corpus Christi, o Rio amanheceu com o veredito do caso Henry Borel, o menino de 4 aninhos morto, em 2021, em decorrência das agressões cometidas pelo padrasto, o então vereador Doutor Jairinho. O assassino foi condenado a 43 anos, nove meses e 20 dias pela barbárie. À mãe do menino, Monique Medeiros, foi concedido o perdão judicial pela presidente do II Tribunal do Júri do Rio, Elizabeth Machado Louro.

Para justificar a decisão, a juíza evocou a “reação desproporcional e desmesurada da sociedade em geral” contra a acusada; citou discriminação de gênero influenciada pela cultura patriarcal, misoginia, massacre em redes sociais e ataques praticados por agentes da custódia e detentas. Elizabeth Louro não errou ao mencionar a violência recorrente e o ódio contra mulheres no ambiente virtual. Mulheres são agredidas diuturnamente. Monique foi, sim, atacada.

Mas o que estava em julgamento era seu envolvimento na morte da criança que, como mãe, ela tinha o dever de proteger. Os jurados consideraram que a ré praticou, contra o filho único, tortura por omissão e homicídio culposo, quando não há intenção de matar. A juíza extinguiu a pena por assassinato e condenou a mãe a um ano e quatro meses por tortura. Monique deixou a prisão na tarde do julgamento. Foi liberada por já ter cumprido a pena.

O Ministério Público do Rio apresentou recurso ao TJ-RJ solicitando anulação do perdão, aumento da pena e cumprimento em regime fechado. Juristas não descartam a hipótese de novo julgamento, em razão da desclassificação (troca) pelo júri do crime de homicídio doloso por culposo. O promotor Fábio Vieira alega que a juíza alterou, na sala de sentença, uma das perguntas sobre o crime, o que pode ter provocado a mudança de opinião dos jurados. Ainda está por vir o desfecho de mais este crime que comoveu o país.

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MORRE BERNADETTE CHIRAC

Christophe Carmarans, da RFI em Paris

Morre aos 93 anos Bernadette Chirac, uma das ex-primeiras-damas mais populares da França

A morte de Bernadette Chirac, nesta sexta-feira (5) de junho, aos 93 anos, foi anunciada neste sábado (6) por sua filha Claude Chirac. Esposa do ex-presidente Jacques Chirac por mais de 60 anos, ela também era conhecida pela sua influência política nos bastidores do poder. O presidente francês, Emmanuel Macron, prestou homenagem a Bernadette Chirac, descrevendo-a como “uma mulher com um imenso coração” que “marcou nossa história”.

A ex-primeira-dama morreu em paz, “cercada pelos seus”. Muito debilitada há vários anos, sua última aparição oficial havia ocorrido em 2017, no funeral de Simone Veil, ex-ministra da Saúde, conhecida por liderar a legalização do aborto na França em 1975. Com a saúde fragilizada, Bernadette Chirac não pôde participar das diversas homenagens prestadas a seu marido, Jacques Chirac, morto em 26 de setembro de 2019. Ela passou os últimos anos de vida reclusa em sua residência em Paris.

A ex-primeira-dama casou-se em 1956 com o então futuro presidente da República e revelou-se, ao longo dos anos, uma figura política de destaque, passando do papel de “esposa de” para o de conselheira influente. Eleita conselheira geral da Corrèze por seis vezes entre 1979 e 2011, ela morou no Palácio do Eliseu durante doze anos ao lado do marido e se tornou popular entre os franceses graças a suas ações de caridade, apesar da forte personalidade que lhe rendeu a fama de “difícil”.

Foi em outubro de 1951 que Bernadette Chodron de Courcel, nascida em 18 de maio de 1933, conheceu Jacques Chirac na faculdade Sciences Po, em Paris. O futuro presidente já era conhecido pelo sucesso que fazia entre as mulheres. A família de Bernadette não aprovava o namoro.

Descendentes da antiga nobreza francesa, os Chodron de Courcel viam com maus olhos o relacionamento da filha mais velha com Chirac, filho de um funcionário de banco, que era um aluno brilhante, mas sem fortuna e considerado orgulhoso. Católicos fervorosos, ficaram escandalizados ao descobrir que o futuro genro frequentou reuniões comunistas em Paris por um breve período.

O casamento acabou acontecendo em março de 1956, mas com a condição de que fosse uma cerimônia discreta, realizada apenas na capela anexa da basílica Sainte-Clotilde. Quinze dias depois, a jovem esposa já se viu sozinha: seu marido, então subtenente, foi convocado para servir na Argélia. Ao retornar no ano seguinte, Jacques retomou seus estudos na Escola Nacional de Administração (ENA), conhecida por ser um celeiro de futuros chefes de Estado, onde havia sido admitido antes do casamento.

Como parceira dedicada, Bernadette aprendeu datilografia para ajudá-lo a preparar seu material de estudo. Foi nesse período que nasceram as duas filhas biológicas do casal: Laurence, em 1958, e Claude, em 1962. Mais tarde, a família cresceu com a adoção da refugiada vietnamita Ahn Dao Traxel, considerada “filha de coração”, acolhida em 1979, aos 21 anos.

Laurence, que sofria de anorexia após uma meningite em 1973, nunca levou uma vida normal e morreu em 2016. Claude, por sua vez, tornou-se assessora de imprensa do pai e manteve-se sempre muito próxima dele. Durante a ascensão política de Jacques Chirac, que foi deputado e secretário de Estado aos 34 anos, ministro aos 38 e primeiro-ministro aos 41, Bernadette manteve a imagem de esposa discreta, já que era difícil concorrer com o marido carismático e conhecido por seus adultérios.

“As mulheres eram muitas, eu conheço todas”, confessou ela em um livro de entrevistas publicado em 2001.

Carreira política e popularidade

Determinada a trilhar seu próprio caminho, ela entrou na política em 1971, como vereadora em Sarran, na Corrèze, no centro da França, onde o casal havia comprado o castelo de Bity. Foi lá que construiu sua carreira política e, em 1979, tornou-se conselheira geral, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo na região.

Reeleita várias vezes até 2011, sempre beneficiada por sua notoriedade, consolidou-se como figura política local importante. Paralelamente, destacou-se nas ações sociais, especialmente após a doença da filha, que a sensibilizou para as dificuldades do sistema público de saúde e dos hospitais.

Em 1994, passou a liderar projetos filantrópicos e a operação Pièces Jaunes (Moedas Amarelas, em tradução livre), destinada a financiar iniciativas para pacientes hospitalizados. A ação de caridade foi um enorme sucesso e decisiva para sua popularidade.

Após a eleição de Jacques Chirac em 1995, Bernadette assumiu o papel de primeira-dama. Diferentemente de outras, envolveu-se ativamente na vida política e tornou-se uma conselheira influente, considerada por seu marido como um “ponto de referência”.

Ela se posicionou em decisões importantes, como a escolha de Jean-Pierre Raffarin como primeiro-ministro em 2002. Segundo a jornalista Pascale Tournier, autora de uma biografia sobre ela, “a partir de 2007 houve uma inversão de papéis entre ela e Jacques Chirac”. A autora destaca que Bernadette sofreu por viver à margem do sucesso do marido, mas também soube usar essa posição para ganhar influência.

Em 2023, sua figura foi retratada no cinema em um filme da diretora Léa Domenach. Com sua forte personalidade, conseguiu transformar em vantagem uma vida inicialmente marcada pela discrição e pelas dificuldades, impondo-se, ao seu modo, como uma figura influente e respeitada.

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SOMOS 213 MILHÕES EM AÇÃO CRITICANDO O UNIFORME DO ESCRETE CANARINHO

Eduardo Affonso, O Globo

O traje social da seleção divide opiniões: há quem ache feio, há quem ache horroroso

Lá se foi o Brasil, pela sexta vez, rumo ao hexa. E, em vez de nos dedicarmos a pintar asfalto, pendurar bandeirola e tirar do armário a vuvuzela, somos 213 milhões em ação criticando o uniforme do escrete canarinho. Cansados de ser especialistas em logística naval no Estreito de Ormuz, em definição de “grupo terrorista” e em escala 6 x 1, viramos fashionistas. Tudo porque o traje social da seleção divide opiniões: há quem ache feio, há quem ache horroroso.

É que você, torcedor ingrato, não capta as referências e não entende que, em moda, o resultado é o de menos — o que importa é o conceito.

Sim, parece que os jogadores estão de pijama — uma forma de nos lembrar que é preciso continuar sonhando em ser campeões. Mesmo numa disputa em que também estejam Espanha, França, Inglaterra, Argentina e Portugal. Sem contar Alemanha, Holanda, Bélgica, Noruega, Colômbia e meia dúzia de outros sérios candidatos a nos mandar pra cama mais cedo.

Sim, lembram internos do sistema prisional — o que sugere uma crítica subliminar à demora em políticos, juízes e gestores públicos serem agraciados com tornozeleiras eletrônicas ou introduzidos no ambiente carcerário.

Dir-se-ia tratar-se de enfermeiros — uma forma empática e sutil de mostrar que estarão ao lado do Neymar na lesão e na entorse, na queda e na contusão. Ou talvez sejam técnicos de laboratório de análises clínicas, reforçando a ideia de que todos ali darão o sangue pela vitória.

A fatiota pode também evocar uma convenção da firma, daquelas com treinamento de liderança, imersão em coaching e palestras sobre mindset, protagonismo e metas disruptivas para o terceiro trimestre. Pode e deve, porque é exatamente disso que se trata.

A foto oficial, no avião, parece ter sido feita numa oficina mecânica? Parece. A ideia daquela modelagem desconstruída, com o caban sem estruturas internas ou ombreiras, é nos dar a sensação de que a seleção passou por um processo de alinhamento e balanceamento, talvez até de cambagem. Que nada os freará no ataque e que têm tração suficiente para evitar o arrefecimento na defesa. Que a direção do elenco será firme e não haverá problema de suspensão.

(Caso você, como eu, esteja sendo apresentado neste momento ao mundo da alfaiataria, caban é uma espécie de casaco, ali entre o blazer e o jaleco, só que mais metido a besta. É o que os jogadores estão vestindo, no lugar do bom e velho paletó.)

Aquele look desestruturado remete, ainda, às nossas instituições cada vez menos democráticas, ao desequilíbrio entre os podres poderes da República, ao tariflávio e ao rombo bilionário dos Correios.

Por isso, antes de reclamar do problemático uniforme, pense que a CBF poderia ter contratado a Balenciaga, e nossa pátria de chuteiras estaria embarcando de chinelo de dedo, bermuda destroyed e camiseta regata de campanha eleitoral, carregando seus pertences numa sacola de plástico de supermercado. Tudo a um custo muitíssimo maior.

Melhor acreditar que o pior que poderia acontecer já aconteceu — no uniforme, não em campo. E agora é bola pra frente, futebol é uma caixinha de surpresas, treino é treino e jogo é jogo, são 11 contra 11, é vencer ou vencer, empatar fora de casa é um bom resultado, o importante é competir e vamos correr atrás do prejuízo.

Vai, Brasa!

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sexta-feira, 5 de junho de 2026

BOLSONAROS SÃO SOLDADOS DO TRUMPISMO

Fernando Luiz Abrucio, Valor Econômico

Família atua como parte de um movimento global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita

A movimentação política dos irmãos Bolsonaro em busca do apoio do governo Trump para enfraquecer o governo brasileiro, por meio da destruição da economia do país, é mais do que um plano para ganhar as eleições presidenciais. Esse objetivo se submete a outro maior: garantir a hegemonia da extrema direita no continente. E as duas dimensões anteriores se vinculam a um projeto mais forte que comanda ambas: a política trumpista de intervenção na política latino-americana. Flávio Bolsonaro é um soldado nesta história, não o comandante.

É preciso compreender essas três dimensões da relação entre o bolsonarismo e o trumpismo. Boa parte da cobertura jornalística deu a impressão de que Flávio e Eduardo Bolsonaro mudaram a cabeça de Washington. Sem dúvida que eles pressionaram e tentaram gerar um timing adequado para a designação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas. Mas eles não comandam o pacote completo da política trumpista para a América Latina. Em vez disso, adaptam-se erraticamente ao projeto de Trump para a região, já que Flávio Bolsonaro foi escolhido como candidato oficial do governo americano à Presidência do Brasil.

A maior prova disso é que, embora soubessem que Trump ainda preparava mais maldades ao Brasil, Eduardo e Flávio não tinham total consciência do projeto de retaliação comercial, que envolveu diretamente o ataque ao extremamente popular Pix e a setores econômicos nacionais que apoiaram o bolsonarismo recentemente, mas que agora poderão perder riqueza graças à aliança entre a família Bolsonaro e o governo americano.

Por isso, após comemorar a definição de terrorismo para o crime organizado brasileiro, Flávio Bolsonaro ficou atônito e teme um efeito político similar ao do tarifaço do ano passado. Ele e seu irmão são cúmplices nessa tramoia, porém, em grande medida ocupam esse papel porque aceitaram ser liderados de forma subserviente pelo governo americano, que quer definir os rumos do Brasil. Neste sentido, são traidores da pátria que esperam ter benefícios políticos diretos tornando-se marionetes do trumpismo.

Ainda é cedo para dizer quais serão todos os efeitos dessa aliança de subordinação. Só que se houver de fato consequências econômicas do novo tarifaço, ainda mais com pressão para acabar com o Pix, Flávio perderá uma parte dos eleitores de direita, mas não numa parcela tão grande que permita a ascensão de Caiado e Zema, pois estes se contentam em ficar como linhas de apoio envergonhado ao bolsonarismo. O problema maior é outra conta: nunca mais recuperarão a maior parcela dos votos dos independentes, favorecendo claramente a candidatura de Lula.

Flávio chegaria, assim, ao segundo turno com poucas chances de vitória, a não ser que haja intervenção maior do governo americano na política brasileira. Essa última hipótese parece absurda, mas ela passa pela cabeça dos irmãos, sobretudo Eduardo, que é o grande ideólogo da família e que pretende recuperar em algum momento a cidadania brasileira, mesmo que a vida americana tenha tido um financiamento invejável para um fugitivo político.

Uma pergunta se impõe aqui: por que Flávio Bolsonaro trocou um plano que estava dando certo por outro tão incerto e que lhe imprime uma visão sórdida de traidor da pátria? Afinal, o projeto do Bolsonaro moderado, que tomava vacina e não falava palavrões, tinha fortalecido sua candidatura. Desde que fora lançado e adotou esse figurino, o Zero Um crescera nas pesquisas, tanto no primeiro como no segundo turno. Eleitores da direita não bolsonarista migraram nas pesquisas em peso para ele, que também estava abocanhando grande parte dos independentes, inclusive muitos que tinham votado em Lula em 2022. Parecia que ele conseguiria realizar a revanche do pai.

O estouro do escândalo de suas relações promíscuas com Daniel Vorcaro parece ser o fato principal. E muitas revelações ainda podem surgir dessa história envolvendo o enrolado caso de financiamento do filme “Dark Horse”, inclusive um “videozinho”, como o próprio Flávio já profetizou. O flanco da corrupção não para por aí, porque cada vez mais será conhecido o funcionamento da cleptocracia montada pelos bolsonaristas no governo do Rio, e esse lamaçal tem grandes chances de alcançar a família Bolsonaro.

Falcatruas e relações não republicanas com o mundo da política e do crime já eram conhecidas por muitos que acompanham as peripécias da família Bolsonaro desde a década de 1990. Mas o mais visado entre eles era justamente Flávio, conhecido pela rachadinha e pela contratação ou condecoração de milicianos, fatos de sua época como deputado estadual da Alerj. Mesmo assim, a aposta no bolsonarismo moderado estava ganhando tração eleitoral. Decerto que o tamanho do escândalo envolvendo sua irmandade com Vorcaro pegou muita gente de surpresa, especialmente os eleitores independentes que começavam a acreditar no novo Flávio.

Sem querer tirar o peso dos escândalos na mudança de estratégia da família Bolsonaro, talvez fosse impossível manter até o final da eleição o perfil pretensamente moderado porque isso não corresponde ao âmago do bolsonarismo. Em algum momento isso viria à tona, mesmo que de forma menos desastrosa, desde que as conversas íntimas com Vorcaro apareceram na mídia. É preciso voltar às três dimensões enunciadas no primeiro parágrafo: a nacional, a internacional e a da geopolítica trumpista para a América Latina.

No plano nacional, o bolsonarismo é marcado por ser a face da extrema direita local, defensora da ditadura militar e de seus torturadores, da tentativa de golpe de Estado, do uso de um discurso agressivo para destruir inimigos e ex-amigos pelas redes sociais, e dos motes que lhe davam maior popularidade: Deus, pátria, família e liberdade. O patriotismo das manifestações de rua, todos com camisas da seleção, era o espetáculo principal de sua ideologia. Fechando o enredo estava Jair Bolsonaro, um líder popular que odiava as instituições democráticas.

Parte desse roteiro se perdeu no meio do caminho, principalmente com o fracasso do 8 de janeiro e pelo julgamento e posterior prisão de Jair. Sobraram os filhos para sucedê-lo, mas Eduardo foi para os EUA para tentar dar um golpe de fora para dentro, ao passo que Flávio teria o papel de segurar o leme na política interna, tornando-se, ao final, o herdeiro da dinastia com a candidatura presidencial. Há a figura ascendente de Michele, mas ela não chefiará o clã enquanto o marido estiver vivo.

Toda essa história política e familiar dos Bolsonaros não se esgota nas suas relações com o Brasil. E aqui entra a segunda dimensão que sempre esteve presente: o bolsonarismo faz parte de um movimento global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita, que atua em várias partes do mundo, principalmente nas Américas e na Europa. Um grupo político de combate à democracia e de defesa de um reacionarismo enorme frente a temas como imigração, família, religião e contra discursos progressistas de minorias, como as mulheres e os negros.

A Internacional da Extrema Direita teve como grande baluarte Steve Bannon, um dos principais inspiradores da visão política de Trump. Continua forte na Europa, com desempenhos impressionantes como recentemente nas eleições locais no Reino Unido, mas tem tido dificuldades por conta das mudanças geopolíticas, como a guerra na Ucrânia e os conflitos cada vez maiores com os EUA. Daí que hoje o principal impulso a esse movimento vem da política trumpista, particularmente no âmbito da América Latina. Essa é a terceira dimensão que afeta o bolsonarismo profundo e constitui o farol da família Bolsonaro.

O segundo governo Trump é mais do que uma forma política de extrema direita. É expansionista, beligerante e intervencionista. Para a América Latina, o modelo geopolítico é a tentativa de reavivar a Doutrina Monroe - a América para os (norte-)americanos. O Brasil e o México são os maiores obstáculos a esse projeto, seja pela força política e econômica de ambos, seja em razão de suas lideranças presidenciais, que não abaixaram a cabeça e nem querem entregar o país como deseja a família Bolsonaro.

Os Bolsonaros sustentam suas ideias e projeto de poder não só no território nacional. Eles têm seus alicerces principais fora do Brasil, seja na Internacional da Extrema Direita, seja cada vez mais na sua ligação subserviente com o governo Trump. A família Bolsonaro é soldada do trumpismo, e fará tudo para agradá-lo, a fim de ter o apoio do governo americano, das mais diferentes formas, para a eleição presidencial brasileira.

Flávio Bolsonaro foi chamado inicialmente de preposto do pai. Mas hoje se percebe, depois do tour em Washington pago com dinheiro público brasileiro e das decisões do governo Trump contra o Brasil, que no momento é Eduardo Bolsonaro o verdadeiro chefe da estratégia política do clã bolsonarista. Acabou-se o bolsonarismo moderado e restou a extrema direita pura comandada pelo trumpismo.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

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FEMINICÍDIO NO PARÁ

Da Folha de S.Paulo

Ex-prefeito mata empresária em escritório durante conversa sobre divórcio no PA

Crime foi registrado por câmeras de segurança, segundo a polícia

Romildo Veloso teria cometido suicídio após atirar na nuca da vítima enquanto ela estava sentada

São Paulo A empresária Icicléia Alves Veloso, 41, conhecida como Léia, foi assassinada pelo ex-prefeito de Ourilândia do Norte (PA) Romildo Veloso e Silva (PP), 69, no momento em que os dois estavam em um escritório de advocacia da cidade para discutir detalhes do divórcio.

feminicídio foi confirmado pela Polícia Civil, que teve acesso a imagens gravadas em uma sala onde o ex-casal estava no momento do crime, ocorrido na quarta-feira (3).

O político, que atualmente era vereador na cidade, teria cometido suicídio após atirar na nuca da ex-mulher, que estava sentada em uma cadeira do escritório. O corpo dele foi encontrado no banheiro do estabelecimento.

Médico e um dos pioneiros de Ourilândia, ele era conhecido como Dr. Veloso e exerceu quatro mandatos na prefeitura antes de ser eleito para o Legislativo, em 2024. Ele e Léia tinham dois filhos adolescentes.

A mulher chegou a ser socorrida e foi internada na UTI do Hospital Regional da PA-279, mas não resistiu e morreu na tarde desta quinta-feira (4).

Segundo o delegado Elioenai de Jesus, as imagens analisadas pela polícia mostram o momento em que o ex-prefeito fez um único disparo ao ficar sozinho com a empresária em uma das salas do escritório. Ele foi para trás da cadeira onde Léia estava sentada e disparou em sua nuca.

De acordo com o responsável pela investigação, o casal não chegou a discutir e há indícios de que o feminicídio tenha sido premeditado.

A Prefeitura de Ourilândia decretou luto oficial de três dias pela morte do ex-prefeito e divulgou duas notas separadas lamentando as mortes. O ex-prefeito foi velado na Maçonaria de Ourilândia do Norte.

Segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, 3.642 mulheres foram assassinadas no Brasil em 2024, o que corresponde a uma taxa de 3,4 mortes a cada 100 mil mulheres.

Esse número faz parte da nova edição do Atlas da Violência, estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado no mês passado.

A Lei do Feminicídio alterou o Código Penal e passou a tipificar esse crime no Brasil em 9 de março de 2015. A legislação abrange assassinatos de mulheres em contextos de violência doméstica, familiar ou motivados por misoginia.

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TEMPO FECHADO NAS RELAÇÕES EUA-BRASIL

Artigo de Fernando Gabeira

As relações entre Brasil e Estados Unidos pareciam caminhar bem. De repente, o tempo fechou. As duas medidas emanadas de Washington — a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas e um tarifaço adicional de 25 por cento — têm de ser analisadas com frieza.

No mesmo dia em que Jameson Green, o representante comercial, anunciava o tarifaço, Trump anunciou um novo embaixador para o Brasil, preenchendo uma lacuna desconfortável na relação entre os dois países. Agora temos com quem conversar num nível oficial um pouco mais alto.

Quando entram em ebulição, as relações Brasil-Estados Unidos não influenciam apenas a economia. Elas passam a ser a agenda principal das eleições.

Durante algum tempo, parecia aos candidatos que a proximidade com Donald Trump era um trunfo eleitoral. Agora, pelo menos um deles, Lula, terá de se distanciar e retomar o tom crítico que sempre teve em relação ao presidente dos EUA.

A classificação das organizações brasileiras como terroristas estava sendo combatida como ameaça à soberania nacional. Mas tudo isso é um pouco vago para a população mais pobre, sobretudo a que vive nas áreas ocupadas pelo crime. Tem-se debatido tudo: se a medida favorece Flávio ou Lula, que impacto terá no sistema financeiro; só não se debate um tema essencial: que diferença terá para os que vivem sob o jugo do crime organizado? Nenhuma. A própria ideia de asfixiá-lo economicamente não leva em conta que o lucro hoje é obtido mais pelo controle do território do que pelo tráfico. Eles vendem gás, detêm o transporte alternativo, exploram o gatonet (uma instalação clandestina para captar a TV a cabo), cobram taxa de proteção e até constroem prédios. Podem sobreviver mesmo sob asfixia financeira tradicional.

Esses aspectos são pouco debatidos porque não queremos encarar a falência do Estado nas periferias. Mesmo se os Estados Unidos quisessem resolver, iriam fracassar se usassem apenas uma solução militar. Fracassaram em inúmeras guerras assimétricas, daí a novidade na Venezuela: uma ação de comando e controle do petróleo, que era seu objetivo máximo. Também o era no Iraque, mas fizeram uma guerra desastrosa.

O argumento de que o Pix estava ameaçado acabou ganhando força com a decisão americana. Baseados na seção 301 de sua lei comercial, os americanos investem contra o Pix, afirmando que o sistema montado pelo Brasil é desleal com os concorrentes. O Pix é tão bem-sucedido, tão entranhado no cotidiano brasileiro, que, mesmo com mudanças, dificilmente perderá sua posição dominante.

Mas todo esse debate vai convergir na campanha nacional para a defesa do nacionalismo. A expressão “traidores da pátria” já foi usada contra Flávio e a família Bolsonaro. Enquanto o debate se limitava ao tema do crime organizado, a direita respondia com a acusação de que Lula protegia os criminosos.

O tema econômico agora vai dominar a discussão. Não há argumento que se sustente se não for em defesa do Brasil e na condenação do tarifaço. Lula recebeu de novo um presente político que subestimou acertadamente, apostando na negociação. Mas os americanos decidiram antes mesmo do prazo acordado na visita a Washington.

Isto mostra que as negociações devem prosseguir, mas não são mais o único caminho. Será preciso reativar o esforço comercial no mundo, abrir novas frentes, enfim, trabalhar com a hipótese de que os Estados Unidos já não serão o mesmo parceiro do passado.

Tempo para definir uma nova estratégia, contando com a possibilidade de um novo mandato. Certamente, essa medida vai aproximar mais o Brasil da China, mas o país não pode perder a perspectiva de autonomia e de equilíbrio nas relações com os EUA, apesar da passagem catastrófica de Trump.

Uma campanha eleitoral nem sempre é o momento para debater esses temas. As acusações recíprocas predominam sobre o diálogo. Mas é tempo de o Brasil ter uma visão estratégica de longo prazo, baseada nas nossas riquezas naturais, na transição energética, no desenvolvimento sustentável e no papel de líder mundial na questão ecológica.

Quando se sabe claramente o que se quer a longo prazo, esses sobressaltos na política externa ficam mais fáceis de serem absorvidos sem grandes traumas. E não existe disputa para saber quem é mais próximo de um presidente tóxico como Trump. Fica-se mais perto desse termo abstrato chamado soberania nacional.

O mesmo vale para a questão de segurança pública. Se estivéssemos endereçando o problema adequadamente, reconquistando centímetro por centímetro o território ocupado, a classificação americana seria apenas um exercício retórico.

Mesmo assim, nossos argumentos são ótimos. Os americanos reclamam, por exemplo, que o Pix esmaga os concorrentes. Na minha pesquisa preliminar, não encontrei um único concorrente que ofereça os serviços de pagamento gratuitos.

Quem sabe não evoluam para isso, se um dos seus objetivos principais é apenas acumular dados? A experiência brasileira é superior. A única forma inteligente de rivalizar com ela é imitá-la.

Na minha experiência, também se lucra com a humildade. A Suécia criou um número pessoal, cada um tem seu número no sistema administrativo. A Índia fez o mesmo e hoje economiza milhões de dólares nos pagamentos de ajuda social.

Artigo publicado no jornal Estadão em 05 / 06 / 2026

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quinta-feira, 4 de junho de 2026

CONGRESSO BENEFICIA ESTUPRADORES DE CRIANÇAS

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Em menos de 2 minutos Senado derrubou resolução do Conanda

Vítimas de estupro poderão ter gestação forçada enquanto seus abusadores continuarão impunes

Em sessão na terça-feira (2) que durou exatamente 100 segundos, o Senado aprovou um projeto que protege estupradores de crianças e adolescentes. Exagero eu dizer isso? Não para quem conhece a realidade dos abusos sexuais contra vulneráveis. Ao dificultar o acesso ao direito que crianças e adolescentes possuem há décadas de interrupção da gravidez em casos de violência sexual, o Senado facilita que crianças sejam mães.

Ao cancelar a resolução 258/2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), o Senado dificulta o atendimento a vítimas de violência sexual. Em outras palavras, senadores querem que a criança abusada não tenha acesso facilitado a serviço de saúde e assistência social caso seja estuprada.

Fora do mundo da fantasia bolsonarista, o que isso significa na prática é que crianças e adolescentes, muitas vezes sem terem a quem contar que foram violentadas, tenham que ser torturadas psicologicamente, carregando no ventre o fruto do abuso sexual.

Ao derrubar a resolução do Conanda, Damares Alves —relatora do projeto— quer que seja privilegiada a vontade não da criança, mas de pais, muitas vezes os estupradores. Segundo o IBGE, a maioria dos casos de violência sexual relatada por estudantes de 13 a 17 anos ocorreu no contexto familiar (só 23,2% foram cometidos por desconhecidos). Na prática, Damares quer que a criança/adolescente estuprada pergunte ao familiar ou conhecido estuprador se pode exercer seu direito de interrupção da gravidez resultante do estupro que ele praticou.

A aprovação do PDL do Estupro foi repleta de fake news.

O Conanda não criou um tipo de aborto; a hipótese está na lei. O Conanda não ignorou a vontade dos responsáveis; previu sua busca ativa, respeitada a autonomia da vítima em caso de abuso.

A violência sexual contra crianças e adolescentes triplicou na última década. Com o PDL, o Senado facilita que parte das 60 mil crianças e adolescentes que se tornam mães todos os anos seja submetida à violência de levar adiante uma gestação forçada, enquanto seus abusadores continuam impunes.

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INTERVENÇÃO DE DONALD TRUMP NAS ELEIÇÕES BRASILEIRAS COMEÇOU SEM TIRO NEM BOMBA

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

Medidas de Trump mudam foco do debate para beneficiar Flávio e dificultar reeleição de Lula

Sem tiro nem bomba, os Estados Unidos iniciaram uma intervenção política no processo eleitoral brasileiro. Se o assunto da semana passada era a fortuna que Flávio Bolsonaro recebeu do Banco Master para financiar uma cinebiografia do pai, as manchetes agora se ocupam de decisões de Donald Trump que miram a popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva – o principal concorrente de Flávio na disputa.

Parte da cúpula do Judiciário considera que a classificação de facções criminosas brasileiras como terroristas foi o primeiro passo na interferência dos EUA nas eleições deste ano, porque prende Lula a uma saia justa: se clamar pela soberania nacional, pode ser interpretado como defensor de bandido.

A sequência da intervenção veio com o anúncio do novo pacote de barreiras tarifárias ao Brasil. Trump conseguiu não apenas desviar a pauta do debate eleitoral, mas ameaçar o País com danos econômicos na reta final do governo Lula.

Flávio capitalizou com as medidas. Posou em foto ao lado de Trump na Casa Branca. Na semana passada, se contorcia diante das câmeras para explicar as suspeitas de ter se beneficiado do esquema de fraudes financeiras de Daniel Vorcaro.

Em suma: qualquer atitude dos EUA com impacto na economia ou na soberania brasileira agora interfere no processo eleitoral, ainda que o país de Trump siga poupando tiros e bombas até outubro.

Ao menos dois ministros – um do Supremo Tribunal Federal (STF) e outro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – consideram que os EUA podem incrementar a “intervenção soft” com outras medidas – como o financiamento de defensores de ideias alinhadas às de Trump e o incentivo a candidaturas de direita. Para esses ministros, Trump não está preocupado com o combate ao terrorismo, e sim com a subida de aliados ao poder na América Latina.

Um segundo ministro do TSE, também em caráter reservado, considera cedo para entender como os EUA podem interferir nas eleições brasileiras, mas tem como certo que Lula sai perdendo na primeira investida.

A coluna também ouviu outros dois ministros, um do STF e outro do TSE, que não estão preocupados com tentativas de influência dos EUA nas eleições deste ano. Eles consideram o Brasil imune a esse tipo de ameaça.

As pesquisas de opinião ainda não mediram as consequências para as candidaturas após a mudança de foco no debate eleitoral. Mas já é possível concluir que investigações criminais e estratégia política vão ditar o sobe e desce das campanhas. As propostas dos candidatos, mais uma vez, serão coadjuvantes nas eleições.

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quarta-feira, 3 de junho de 2026

A POLÍTICA DE HORROR DE TRUMP

Rodrigo Craveiro, Correio Braziliense

Longe de querer justificar o erro de imigrantes que tentam entrar de forma ilegal em outros países, vejo que o chamado país das liberdades tem promovido uma caçada de terror aos não documentados

Nas últimas semanas, tive contato com duas histórias que me fizeram repensar como nós, enquanto humanidade, chegamos ao fundo do poço. Ambas deram origem a reels publicados no perfil do Correio Braziliense. A hondurenha Wendy Hernández foi presa quando se dirigia ao trabalho, na Flórida, e deportada para Honduras. O filho, de apenas 2 anos, ficou com o tio materno. Sozinho, sem a mãe, foi exposto a todo tipo de barbárie, incluindo queimaduras e abuso sexual. Ao ser detida, Wendy implorou para que o pequeno Orlin Josué fosse levado com ela. O ICE, a polícia da Imigração americana, não lhe deu ouvidos. O menino acabou morto.

A outra história envolve um garoto de 18 anos, filho de imigrantes mexicanos. Kevin González tratava um câncer agressivo na cidade americana de Chicago. Os pais, Isidoro e Norma, tentaram atravessar ilegalmente a fronteira para estar com o filho. Mas, foram presos no Arizona. O casal ficou recluso em um centro de imigração durante 30 dias. Nesse intervalo, Kevin, desenganado pelos médicos, retornou a Durango, no México. A família começou uma campanha para sensibilizar os Estados Unidos a libertarem os pais do jovem. Deportados, Isidoro e Norma conseguiram ter somente 24 horas ao lado de Kevin. O garoto morreu nos braços dos pais.

Longe de querer justificar o erro de imigrantes que tentam entrar de forma ilegal em outros países, vejo que o chamado país das liberdades tem promovido uma caçada de terror aos não documentados. São exatamente eles que ajudam a movimentar a economia dos Estados Unidos, ocupando postos de trabalho com mão de obra barata e, às vezes, pouco qualificada. O ICE invade empresas, aborda estrangeiros nas ruas, entra em igrejas. No caso de Wendy, parece não se importar em separar famílias. 

Um levantamento do think tank Brookings Institution revela que 145 mil crianças foram retiradas do convívio dos pais durante as detenções de imigrantes ilegais — 36% delas sequer tinham 6 anos de idade. Desse total, 22 mil ficaram sem a companhia de pai e mãe, depois que ambos foram presos. A maioria das crianças com pelo menos um dos pais presos pela Imigração é oriunda do México (54%). Guatemala e Honduras aparecem em seguida, com 25%. Fico imaginando o trauma para esses pequenos. O que dizer do trauma que carregarão pelo resto da vida? Isso quando não estão expostas a perigos ou ao risco de morte, como ocorreu com Orlin Josué. 

Os apelos dos amigos e familiares para que Isidoro e Norma fossem libertados, a fim de que pudessem conviver com Kevin pelo pouco tempo que lhe restava, parece não terem comovido as autoridades americanas. Pensem em quantas histórias de dor, sofrimento, medo e solidão não são tornadas públicas, não chegam à opinião pública... A política de tolerância zero adotada pelo governo Donald Trump é condenada por ativistas dos direitos humanos, mas também por especialistas em política americana. Trump sempre classificou os imigrantes como criminosos e marginais. Coloca no mesmo balaio de terroristas e traficantes aquelas pessoas que cometeram um erro em busca de uma vida melhor. 

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TARIFAÇO E FOTO COM FLÁVIO ESCANCARAM INTERFERÊNCIA DE TRUMP NO BRASIL

Bernardo Mello Franco, O Globo

Ataque ao Pix mexe com bolso do eleitor e dá bandeira popular a Lula para acusar rival

Tudo aconteceu em menos de 24 horas. Na madrugada, o governo americano ameaçou baixar um novo tarifaço sobre produtos brasileiros. Pouco depois, o secretário Marco Rubio comparou o Brasil a regimes autoritários e hostis aos Estados Unidos. Para arrematar, o presidente Donald Trump divulgou uma foto com Flávio Bolsonaro. Descreveu o senador como um “jovem inteligente que ama muito seu país”.

A mensagem de ontem foi clara: a Casa Branca fará o possível para interferir na corrida ao Planalto e dificultar a reeleição de Lula. A classificação de facções criminosas como terroristas, na semana passada, foi apenas o começo da ofensiva.

Trump nem se preocupou com as aparências. Autorizou a divulgação de um relatório capenga, repleto de mentiras e distorções, para justificar a proposta de uma nova sobretaxa de 25% sobre exportações. O documento chega a usar como pretexto o desmatamento da Amazônia, que despencou nos últimos anos.

O texto também faz uma série de ataques ao Pix, tachado de “irrazoável”, “injusto” e “discriminatório” contra empresas americanas. Como se razoável fosse obrigar os brasileiros a abrir mão de uma ferramenta gratuita para voltar a pagar juros e taxas a bandeiras de cartão de crédito.

O abuso da investida deu a Lula um mote poderoso para a campanha. Ao exibir um cartaz com a expressão “O Pix é do Brasil”, o presidente se apresentou como guardião do interesse nacional e defensor do bolso dos eleitores. De quebra, tachou o Zero Um e seus irmãos de “traidores” e “vendilhões da pátria”. Os petistas completaram o contra-ataque ao emplacar a expressão “Tariflávio” nas redes sociais.

O filho do capitão acusou o golpe e ensaiou um discurso defensivo. Disse ter pedido a Trump que não sobretaxasse as empresas brasileiras. Difícil acreditar. Há menos de um ano, o mesmo Flávio declarou que “patriotas de verdade” deveriam celebrar o primeiro tarifaço contra o Brasil. Apostava na sabotagem econômica para livrar o pai da cadeia.

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terça-feira, 2 de junho de 2026

IMORALIDADE TRIBUTÁRIA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

É preocupante a aprovação, na Câmara, de PEC que amplia imunidade de igrejas a impostos

Entidades assistenciais ligadas a templos e que concorrem com iniciativa privada também seriam beneficiadas

O Brasil não vai dar certo. Falta-nos o sentido de comunidade. Se um dia já circulou por aqui a ideia de que os custos para a manutenção do Estado precisam ser divididos de forma mais ou menos equânime entre todos, pessoas e instituições, essa é uma noção que foi abandonada.

Mais um eloquente exemplo disso foi dado pelos deputados na semana passada, quando aprovaram uma emenda constitucional que amplia para níveis absurdos a imunidade tributária das igrejas. Pela PEC, que ainda precisa passar pelo Senado, o poder público fica impedido de cobrar impostos sobre tudo o que elas possuem, pelos serviços que contratam e até por itens que consomem. É isso mesmo, templos não pagariam um centavo de imposto seja sobre os jatinhos que compram para espalhar a palavra de Deus, seja sobre a comida com que saciam a fome de seus ministros, do pão ázimo ao caviar.

E fica pior. Os deputados não se limitaram a ampliar o rol das isenções. Também as estenderam para entidades assistenciais ligadas a igrejas, como creches, escolas, comunidades terapêuticas, hospitais. No limite, até um banco operado por instituição clerical ficaria livre de tributos. O risco de perdição das contas públicas só não é imediato porque a PEC exige a elaboração de uma lei complementar para regulamentar a matéria.

Não é só de imoralidade tributária que estamos falando. A extensão dos benefícios a entidades vinculadas a igrejas introduz graves distorções concorrenciais. Uma escola ligada a religiosos teria custos transubstancialmente menores do que os de um colégio particular. Se todos os agentes econômicos agirem racionalmente, eles se converterão em entidades religiosas ou se associarão a uma. Como já demonstrei no passado com a criação de uma igreja, fazê-lo é muito fácil e barato.

A prosperar essa lógica, em pouco tempo o poder público não teria mais de quem cobrar tributos. O lado bom é que isso limitaria o poder de congressistas de torrar com emendas parlamentares. Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas.

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RENAN SANTOS E A REVOLTA DOS LASCADOS DA DIREITA

Juliano Spyer, Folha de S. Paulo

Líder do partido Missão e do MBL tem 6,9% das intenções de voto no primeiro turno

Ele traz o DNA da nova direita de dizer o que pensa

Neste ano, um nome ainda desconhecido da maioria dos brasileiros roubou o protagonismo de Lula e Flávio Bolsonaro. Se sobreviver à campanha, Renan Santos, líder do partido Missão e do MBL, terá se tornado um político influente —e talvez presidente da República.

Renan defende causas impopulares, mas o caso Master abriu para ele uma avenida de oportunidades para se apresentar ao eleitor.

Um banqueiro vive como príncipe, tendo desviado R$ 60 bilhões e aliciado para a operação aliados nos três Poderes. Enquanto isso, o país se vê travado pela polarização, há uma sensação geral de insegurança e milhões de brasileiros recorrem a aplicativos de transporte e entrega para trabalhar.

Rosto desconhecido do brasileiro comum até o ano passado, Renan atingiu em maio 6,9% das intenções de voto no primeiro turno, isolado em terceiro lugar, segundo a pesquisa Atlas Intel/Bloomberg. Como?

Renan e seus aliados vêm sendo testados em ameaças, cancelamentos e ataques bolsonaristas, especialmente desde que o MBL defendeu o voto nulo na eleição de 2022. Essa experiência impulsionou a coleta de quase 600 mil assinaturas para a fundação do partido —e treinou o atual pré-candidato a se comunicar com clareza e contundência sobre seus planos para o Brasil.

Outra arma do Missão é a coesão da militância. O movimento vende assinaturas da Valete —a segunda revista de cultura em número de assinaturas no país, depois da Piauí. Dali emergem diagnósticos e propostas do partido. Esse espaço de debate forma quadros articulados, que influenciam amigos e parentes.

Renan tem uma personalidade original: é músico competente, tem uma banda chamada Limão Rosa, é fã de Ayrton Senna e Bob Dylan e traz o DNA da nova direita de dizer o que pensa, doa a quem doer.

Sua campanha navega a favor dos algoritmos das redes. Oferece comentários políticos diários em lives, e a militância é estimulada a fazer cortes desse material —um esforço remunerado pelo YouTube.

Renan está viajando de carro pelo país, e o movimento transforma entrevistas em rádios e o registro de problemas locais em conteúdo que circula nacionalmente.

Ele tem propostas polêmicas. Prega medidas radicais de enfrentamento ao crime organizado, denuncia o balcão de negócios do centrão e defende a desobediência ao Supremo para resgatar as prerrogativas do Executivo.

Em live recente, Eduardo Bisotto, uma das vozes da pré-campanha, católico, fumante, desbocado e analista político experiente, apresentou o movimento como "a direita dos fodidos". Eles têm o perfil do antigo militante de esquerda: jovem, urbano, com formação universitária, movido pelo idealismo.

O Missão entende que seu caminho para a glória passa por participar dos debates na TV. E, se serve de paralelo o exemplo colombiano —que levou ao segundo turno o candidato sem experiência política e com propostas radicais de enfrentamento ao crime organizado—, a banda Limão Rosa, com o vocalista presidente, pode encabeçar o show de posse no Brasil. Depois disso, estaremos em águas inexploradas.

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UMA CHANCE PARA O RIO

Artigo de Fernando Gabeira

Quem mora no Rio e não pensa em se mudar precisa considerar a possibilidade que se abre de abolir a triste tradição de ver os governadores saindo do Palácio Guanabara para a cadeia.

As eleições nos dão uma chance, talvez a única, de nos livrarmos desse tipo de governo. É preciso eleger alguém que compreenda o potencial do Rio e queira também fazer algo decente por um estado que vem sendo saqueado ao longo do tempo.

Não tenho ilusões de que essa mudança possa ser feita da noite para o dia. O último governador conseguiu adaptar alguns setores da administração a sua perspectiva predadora. Isso é demonstrado na sonegação da Refit — até setores do meio ambiente foram cooptados para o crime. É possível que grande parte da administração tenha apodrecido.

É preciso um plano de trabalho cauteloso para avançar nesse campo minado. Caso contrário, haverá colapso. Da mesma forma, não será possível romper com todos na Assembleia Legislativa. É preciso manter contato com alguns para ir se livrando progressivamente da máfia. Do contrário, haverá paralisia.

Nesse ponto específico, a volta por cima depende parcialmente de nós. Temos de escolher bem os deputados, acompanhar o trabalho de quem elegemos. A própria imprensa, na medida em que se concentre nos deputados, poderá ajudar a minoria, com apoio da opinião pública, a evitar barbaridades e avançar alguns projetos indispensáveis.

O grande tema na recuperação é a segurança pública. Para que tenhamos um trabalho de excelência e profissionalismo, será preciso ir além do discurso de matar bandidos. O governador eleito terá de ser capaz de convencer a sociedade de que a segurança pública exige investimentos em salários, equipamento e formação.

O estado tem pouco recurso. Mas a importância da segurança pública no Rio tem dimensão internacional. Brasília precisa ter sensibilidade para o tema que se tornou um delicado item da política externa.

Mesmo antes disso, o sofrimento de milhões de fluminenses, alguns sem gozar a liberdade nas áreas ocupadas pelo crime organizado, já seria motivo mais que razoável para que os governos estadual, federal e municipal se unissem.

A devastação moral, as dívidas crescentes, a captura de setores da administração pelo crime, a insegurança urbana, tudo isso é motivo para que todos os setores vivos e criativos do Rio se unam e tentem uma volta por cima.

Sem a consciência de que temos uma chance e de que é preciso embarcar nela, dificilmente as coisas acontecerão entregues apenas ao domínio da política profissional.

O Rio chegou a este ponto porque grande parte das forças criativas considera que não vale a pena acompanhar esse espetáculo desagradável. Pois nossos olhos, nossa voz, nossa atenção podem ser o veículo adequado para que os políticos realizem pelo menos um trabalho razoável. Não há nada a perder, basta embarcar nessa última chance.

Artigo publicado no jornal O Globo em 02 / 06 / 2026

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O REPÓRTER QUE DESCOBRE QUALQUER COISA, ATÉ VACA FALANTE

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Livro narra trajetória de Luarlindo Ernesto, do auge da imprensa marrom ao caráter investigativo de hoje

Aos 82 anos, ele é capaz de desvendar o mistério do dinheiro investido no filme "Dark Horse"

No romance "O Piano e a Orquestra", de Carlos Heitor Cony, o narrador está obcecado por uma vaca. Uma vaca que fala em perfeito francês: "À votre service".

Ele só a encontrara uma vez, empacada no meio da estrada, e gostaria de revê-la e mergulhar de novo na doce alucinação. Só uma pessoa no mundo poderia ajudá-lo: o repórter policial Luarlindo, cuja fama era saber de tudo e ser capaz de descobrir qualquer coisa. Em troca de alguns chopes, o jornalista dá o serviço. A vaca se escondia no bairro do Lins de Vasconcelos, na zona norte do Rio de Janeiro.

Revelar o mocó da vaca falante foi moleza para Luarlindo. Veterano do Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, sempre furando a concorrência, em seu currículo constam, além de três prêmios Esso, coberturas mais difíceis e traumáticas: a busca pela corpo da socialite Dana de Teffé, o incêndio do Gran Circus Norte-Americano em Niterói, a morte do detetive Milton Le Cocq, a caçada ao bandido Cara de Cavalo, as fugas cinematográficas do assaltante Lúcio Flávio, o surgimento dos esquadrões da morte, o sequestro do menino Carlinhos, o atentado a bomba no Riocentro, a captura do mafioso Tommaso Buscetta no Brasil.

Luarlindo Ernesto, que inspirou o personagem de Cony, acaba de ganhar uma biografia. Em "O Último Repórter dos Anos de Chumbo", Elenilce Bottari narra com rigor histórico os episódios da trajetória de Luar, como é conhecido, mas de maneira descontraída, como se fosse uma conversa de bar, com pitacos do próprio biografado: "Falei com o Buscetta, mas a única coisa que o italiano me disse foi: ‘A pronúncia do meu nome não é busqueta. É buceta mesmo’".

Aos 82 anos, Luarlindo mantém o faro de quem começou a trabalhar na Última Hora aos 14, quase de calças curtas, como foca do repórter sensacionalista Amado Ribeiro. Testemunha e agente das transformações no jornalismo, do auge da imprensa marrom ao caráter investigativo de hoje, se pautado pela chefia, ele é capaz de descobrir onde está escondida a grana do filme "Dark Horse".

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segunda-feira, 1 de junho de 2026

A MAIS NOVA STARTUP DA DIREITA DISPONÍVEL NA PRATELEIRA PARTIDÁRIA

Miguel de Almeida, O Globo

O Missão critica o sistema, mas nasceu dentro dele. No início, o PT também

Jair Bolsonaro tentou e não conseguiu criar seu próprio partido. Semelhante ao que as tendências de esquerda (Convergência etc.) fizeram no PT, teve de fazer um “entrismo” no PL e conviver sob o teto de Valdemar Costa Neto. A turma do MBL chegou lá em novembro passado e pôs na praça o Missão, a mais nova startup da direita disponível na prateleira partidária.

— Somos mais capazes que ele — diz sobre Bolsonaro Renan Santos, presidente do Missão e candidato à Presidência. — Ele é um homem fraco e um traidor. É um mérito que respeitamos.

O leitor certamente já ouviu falar de Romeu Zema e de Ronaldo Caiado, personagens da política regional. Mas dificilmente ouviu algo sobre Renan Santos. Exceto que as pesquisas eleitorais o colocam em empate técnico com os dois ex-governadores. Na Atlas/Bloomberg, a pontuação do novato Missão tem humilhado máquinas poderosas do PSD de Kassab e do volúvel Novo.

— O Novo é o PCdoB do PL — alfineta Renan.

E não sem razão: o candidato do partido, Romeu Zema, recebe puxões de orelha em público sempre que critica Flávio Bolsonaro.

O nascimento do Missão se dá à luz do escândalo do Banco Master. Ocupa o espaço dinamitado na direita. Com suas mesadas e rodadas de uísque, o caso Master exalou a necrose do universo político. Os bolsonaristas, desde sempre, estiveram na vizinhança de casos de corrupção: das rachadinhas à compra de imóveis com dinheiro vivo e funcionários-fantasmas — um prontuário parrudo.

Mesmo com tantos esqueletos, o eleitorado parece tapar o nariz para as malfeitorias. Como disse Zema: “Gambá cheira gambá”. Os índices de Flávio escondem um escândalo moral: para perdoar crimes, se dizem antipetistas. Reconheço: uma parte é ideológica; outra veste a carapuça do personagem Macunaíma, aquele sem nenhum caráter de que falava Mário de Andrade.

O acordão da direita em torno das corrupções mostra o estrago feito pela família Bolsonaro. É nesse espaço que caminha a candidatura de Renan Santos. Além de marcar em torno de 3% a 4% nos diversos institutos, traz embutido outro número que atesta o colapso dos partidos de direita: pontua cerca de 24% entre eleitores de 16 a 24 anos e 11% entre 25 e 35 anos.

— O PSOL é um partido; o PT corrupto é outro partido — tem dito Renan para marcar a diferença. — O restante são legendas. Essa direita é um bando de puxa-sacos do Bolsonaro.

Ator novo na disputa partidária, o discurso do Missão repete o mantra de ser antissistema. Os alvos são o PT no governo e toda a direita abraçada ao bolsonarismo. Na oposição, ironiza que a única plataforma dos candidatos seja o perdão a Bolsonaro. Daí a análise de que as agremiações políticas atuais só encantem os mais velhos. O Missão é um grito geracional dos jovens, segundo o candidato.

Isso é interessante. O partido é um spin-off partidário do MBL, movimento que ajudou a engrossar as manifestações de rua que, a partir de 2013, levaram ao impeachment de Dilma Rousseff. Nasceu nas redes sociais conectado a uma juventude desconectada da política institucional. Em momentos diversos, esteve próximo a João Doria e a Bolsonaro.

O partido sustenta-se no universo digital, nos cursos de formação, numa revista e na plataforma inserida em seu “Livro amarelo”. Não difere em atuação de agremiações da nova direita europeia, como o Vox espanhol. Não joga para o momento, mas para o futuro. Embora a direita radical tenha ojeriza a Antonio Gramsci, o Missão surge ancorado em seus conceitos: disputar a hegemonia cultural. Guerrear contra o que parece natural — viver com medo do crime organizado, nos dias de hoje.

Não por acaso, a principal plataforma do Missão é a proposta radical de guerra ao crime. Defende o uso do Direito Penal do Inimigo. Aquele que desrespeita reiteradamente as leis é inimigo declarado. Desde que seja considerado inimigo, deixa de estar na mesma cobertura legal, já que abandonou o pacto social. Deve, assim, ter julgamento imediato, diferente do que reza o Código Penal. O novo arcabouço não visa à ressocialização, mas à punição. A periculosidade do criminoso determina a rapidez de sua retirada da sociedade. Vem daí a defesa do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, criticado por suas constantes violações de direitos humanos.

À direita no espectro, o Missão sabe escandalizar em busca de engajamento. Coloca-se contra a ideia de criminalização da misoginia no ambiente digital. Em defesa das mulheres, prefere aumentar a pena do pai que não paga pensão e se ausenta da educação do filho. Desamparado é mão de obra para o crime.

O Missão critica o sistema, mas nasceu dentro dele. No início, o PT também se disse puro. Até o mensalão.

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