Marco Aurélio Nogueira, O Estado de S.Paulo
Se alguma bobagem adicional precisasse ser cometida para que ficássemos preocupados com o futuro da nação, o ministro da Educação Vélez Rodriguez se encarregou de pô-la na mesa.
Não se tratou de uma bobagem qualquer. Antes de tudo, por ter sido forjada numa área estratégica, que alcança diretamente o conjunto da população, os jovens e crianças que, dentro de alguns anos, serão a base intelectual, moral e operacional da sociedade. Se o responsável pela Educação se dá ao luxo de propor uma absurda intervenção ideológica e político-partidária nas escolas do País, então é porque estamos carentes de limites e critérios.
É difícil imaginar o que passou pela cabeça de Sua Excelência ao pedir aos dirigentes escolares e professores que lessem aos alunos um besteirol como esse: “Vamos saudar o Brasil dos novos tempos e celebrar a educação responsável e de qualidade a ser desenvolvida na nossa escola pelos professores, em benefício de vocês, alunos, que constituem a nova geração”. Não satisfeito, acrescentou: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos!”, um mero slogan de campanha.
O ministro pediu, ainda, que após a leitura, alunos, professores e funcionários deveriam, compenetrados e com os olhos marejados de fervor patriótico, entrar em ordem unida para cantar o Hino Nacional. Alguns filmariam o rito e enviariam as imagens para controle dos órgãos governamentais.
Seria cômico e ridículo se não fosse trágico. É ridículo porque não pode ser levado à prática nas milhares de escolas do País, onde a missiva por certo gerou estupor e ironia. Não haveria nem sequer fiscais e controladores para exigir o cumprimento da ordem. É cômico porque expõe o ministro à execração pública e mostra seu despreparo.
E é trágico porque se trata de uma exorbitância autoritária, de um escandaloso desvio de função, de uma demonstração clara de que no ministério da Educação não se tem uma pessoa preocupada com a educação, com a qualidade do ensino e a criação de condições para o desenvolvimento educacional, mas um agitador barato, interessado em fomentar desentendimento, congestionar o cotidiano escolar e bajular o presidente da República. Ou seja, precisamente tudo aquilo que não deveria integrar uma agenda ministerial.
Reações não faltaram, e foram expressivas. Mas nenhuma voz governamental procurou desautorizar a bravata. O ministro veio a público, no dia seguinte, dizer que errou ao pedir que filmem os alunos cantando o Hino. “Cantar o Hino Nacional não é constrangimento, não, é amor à pátria”, disse. E acrescentou: “O slogan de campanha foi um erro, já tirei, reconheci, foi um engano, tirei imediatamente. E quanto à filmagem, só será divulgada com autorização da família”.
É muito pouco. Ele mereceria bem mais que uma reprimenda presidencial: deveria ser afastado a bem do serviço público. Pois, se teve a ousadia de praticar um ato assim insano e desqualificado, é fácil imaginar o que mais poderá ser capaz de fazer.
Marco Aurélio Nogueira é professor titular de teoria política da Unesp
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019
TOMA LÁ, DÁ CÁ
O governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) começou a
distribuir cargos no Congresso em busca de apoio para aprovar a reforma da
Previdência, apresentada no último dia 20.
De acordo com o colunista Mauricio Lima, da revista Veja, o
líder do governo na Câmara, Major Victor Hugo, definiu quatro vice-líderes de
sua base e os levou ao Planalto para conversar e tirar fotos com Bolsonaro.
São eles Capitão Augusto (PR-SP), José
Medeiros (Podemos-MT), Coronel Armando (PSL-SC) e Darcísio
Perondi (MDB-RS).
Na sexta-feira (22), em café da manhã com jornalistas, o
presidente do Senado Davi Alcolumbre (DEM-AP) já havia defendido a distribuição
de cargos nos Estados para indicados por deputados e senadores em troca de
apoio para projetos importantes, como a reforma da Previdência.
“O governo precisa fazer articulação política. Tem que
buscar lideranças, partidos e parlamentares para garantir o voto mínimo
necessário. Tem que conversar com os partidos, com os deputados, os senadores e
os líderes. Porque, como se quebrou um modelo de administração que se arrastava
ao longo dos últimos anos, os parlamentares precisam sentir confiança de apoiar
um texto que seja bom para o Brasil, mas que ele tenha segurança sobre a
relação dele com o governo no que diz respeito à sua atuação parlamentar”,
disse Alcolumbre.
Entenda a proposta de Bolsonaro
Pela nova regra, o cálculo do benefício será igual a 60% da
média salarial do segurado mais 2% a cada ano que ele contribuir acima dos 20
mínimos necessários. Assim, se o trabalhador tiver 20 anos de
contribuição, conseguirá se aposentar com 60% de sua média salarial. Se tiver
25 anos de contribuição, terá direito a 70% da média.
Para quem desejar se aposentar com 100% do salário será
necessário contribuir por 40 anos.
Mais de 100%
A nova regra deve permitir, ainda, a quem for se aposentar
após o período de transição da reforma a possibilidade de se aposentar com mais
de 100% da média salarial. Assim, quem tiver 42 anos de contribuição, por
exemplo, terá direito a 104% da média.
O projeto ressalta, no entanto, que os valores serão
limitados ao teto da Previdência, que hoje é de R$ 5.839,45.
Aposentadoria de políticos
Como já havíamos adiantado, a reforma da previdência traz
mudanças também na aposentadoria de políticos. Novos ocupantes de cargos
eletivos estarão automaticamente nas mesmas regras que os trabalhadores da
iniciativa privada. Isso inclui as alterações propostas de idade mínima de 65
anos (homens) e 62 anos (mulheres).
Para os deputados federais e senadores atuais, também haverá
mudanças, segundo o texto que será analisado pelo Congresso.
Pelas normas em vigor, os parlamentares podem se aposentar
com 60 anos de idade e após 35 anos de contribuição. O modelo permite que eles
recebam aposentadorias acima do teto do INSS. A cada ano, eles acumulam na
aposentadoria 1/35 do salário para cada ano de parlamentar -cerca de R$ 1 mil
por ano.
Há uma regra de transição prevista para os parlamentares.
Eles passarão a ter que cumprir a exigência de 65 anos de idade mínima, se
homens, e 62 anos, se mulheres. Além disso, precisarão pagar um “pedágio” de
30% do tempo de contribuição que resta.
Quem ganha mais, paga mais
De acordo com o Ministério da Economia, a ideia é criar um
sistema progressivo de alíquotas no qual quem ganha mais contribui mais. As
alíquotas deixarão de incidir sobre o salário inteiro e incidirão sobre faixas
de renda, num modelo semelhante ao adotado na cobrança do Imposto de
Renda. No fim das contas, cada trabalhador, tanto do setor público como do
privado, pagará uma alíquota efetiva única.
Veja também:
Atualmente, o trabalhador da iniciativa privada, que recebe
pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), paga 8% se ganha até R$
1.751,81, 9% se ganha de R$ 1.751,82 a R$ 2.919,72 e 11% se ganha de R$
2.919,73 até o teto do INSS, de R$ 5.839,45. As alíquotas incidem sobre todo o
salário até o teto.
Policiais
A equipe econômica de Bolsonaro prevê ainda que policiais
civis, federais e agentes penitenciários se aposentem com 55 anos de idade
-independente do sexo. A regra deve ser mais branda do que a prevista para os
demais trabalhadores (65 anos para homens e 62 para mulheres) e para os
professores (60 anos) – outra categoria que também foi privilegiada na
proposta.
Assim, os homens teriam que contribuir por 30 anos,
comprovando 20 anos na função de policial. Para as mulheres, a exigência seria
de 25 anos de contribuição, com 15 anos na função de policial ou 20 anos de
agente.
No caso dos policiais, a regra atual não estabelece idade
mínima. Os homens precisam ter 30 anos se contribuição -20 deles na função de
policial. As mulheres cumprem 25 anos de contribuição, com 15 anos na função.
Via Yahoo, com FolhaPress e Agência Brasil
ESCOLA COM (OUTRO) PARTIDO
Merval Pereira, O GLOBO
Está tudo errado na “sugestão” do ministro da Educação,
Ricardo Vélez Rodríguez, para que as escolas coloquem seus alunos cantando o
Hino Nacional, o que foi mantido ontem, apesar da polêmica que provocou. E
indica que o governo que denuncia a partidarização das escolas no governo
petista quer apenas trocar de partido.
Retirar o slogan político da campanha de Bolsonaro é o de
menos, mas colocá-lo na mensagem oficial indica que o novo ministro da Educação
tentou infiltrar nas escolas do país uma propaganda política do governo a que
serve. Só não conseguiu porque seu abuso de poder foi denunciado.
Mandar pedir autorização dos pais para que seus filhos sejam
filmados, também, é só uma questão de cumprir a legislação em vigor. Mas indica
que o governo estava se preparando —e pelo visto continua com a ideia — para
promover campanhas “educativas” utilizando-se dos alunos e professores. O
problema maior é o subterfúgio usado para implementar uma promessa de campanha
do presidente eleito.
Durante a campanha eleitoral, tanto Jair Bolsonaro quanto
seus filhos prometeram que o Hino Nacional voltaria a ser cantado nas escolas
brasileiras.
O Ministério da Educação (MEC) afirma que se trata de um
“pedido de cumprimento voluntário” e que os diretores que quiserem seguir a
recomendação do ministro devem ler a carta aos alunos no primeiro dia letivo
deste ano.
Ora, para as escolas particulares, não haverá muito problema
em recusar a “sugestão” do ministro. Mas, e as escolas públicas? Terão seus
diretores segurança para recusar a proposta do ministro? Outra questão grave é
a permissão dos pais para que seus filhos sejam filmados.
Não me parece uma solução, pois também nas escolas públicas
do país a maioria dos pais se sentirá constrangida diante de um pedido da
diretoria da escola. Especialmente nas regiões menos desenvolvidas.
Quem se recusar, qual garantia terá de que não será
perseguido, do ponto de vista institucional, no caso dos diretores
discordantes, ou do pessoal, no caso de constrangimento para assinar a
autorização? E os alunos que se recusarem, que ambiente passarão a ter nas suas
escolas?
O ministro Vélez Rodríguez diz, com razão, que cantar o Hino
Nacional “não é constrangimento, é patriotismo”. Mas patriotismo só é imposto
em governos autoritários. É um sentimento de pertencimento que move muitos
cidadãos espontaneamente. Ninguém precisa mandar a torcida brasileira cantar o
Hino Nacional, às vezes à capela. Estímulos oficiais pelo patriotismo podem
levar a frases como a de Samuel Johnson, que dizia que “o patriotismo é o
último refúgio do canalha”.
Uma sugestão dessas só poderia ser feita pelo MEC depois de
ouvidas as entidades ligadas à educação, num ambiente institucional adequado,
certamente o Conselho Nacional de Educação (CNE).
Não se trata de concordar ou não com cantar o Hino, mas de
uma orientação oficial que muda o cotidiano das escolas. A recomendação lembra
o governo Vargas, que estimulava esse tipo de “patriotada”, ou a implantação
das matérias Estudo de Moral e Cívica (EMC) e a Organização Social e Política
do Brasil (OSPB), que se tornaram obrigatórias no currículo das séries dos hoje
ensinos fundamental e médio em 1969, em substituição a Sociologia e Filosofia. Aliás,
a volta dessas duas matérias está nos planos do novo governo. O Hino Nacional
seria apenas o começo.
Mas, mesmo na ditadura, essas mudanças no currículo seguiram
os trâmites legais, sendo aprovadas no Conselho Nacional de Educação. No
governo Temer, em 2017, o Ministério da Educação decidiu promulgar a Base
Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Médio, com alcance para todos os
alunos da educação básica no Brasil, depois de amplo debate no Conselho
Nacional de Educação e também no Congresso Nacional.
É uma norma de Estado e, como disse na ocasião da sua
aprovação o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), “deve ser
implementado independentemente de quem esteja no governo federal ou estadual”.
O mesmo Consed protestou contra a “sugestão” do ministro da Educação.
Segundo especialistas, é a autonomia e a liberdade do ensino
que estão em jogo, e, sem isso, não existe aprendizado, existe controle mental,
o que é bem grave do ponto de vista, inclusive, legal.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2019
O PAÍS QUE IMPORTA
Artigo de Fernando Gabeira
Aqui na Praia do Norte, em Nazaré, pensando nos portugueses que se atiraram, como diz o poeta, ao mar absoluto, ao encontro do impossível — aqui sigo surpreso com o que acontece conosco, com o que fizemos de nós no outro lado do Atlântico. São tristes as imagens que chegam do Brasil, a mulher deformada pelo espancamento, a jovem mãe correndo com um bebê no colo do conflito entre torcida e polícia. E Maduro fechando a fronteira para comida e remédio.
Todo cais é uma saudade de pedra, como lembra Fernando Pessoa. É preciso um momento de reflexão à distância. A mais recente crise política no Brasil seria tema de um folhetim, amores enviesados, mentiras, veneno e fel.
Temos de achar uma forma de abstrair esse baixo nível e nos unirmos no principal: tirar o Brasil da crise, votar a reforma da Previdência, reduzir o número de crimes. No caso da Previdência, ela tem a aprovação das pessoas preocupadas com o país e não pode ser nem rejeitada nem mutilada pelo Congresso.
Por mais que o governo considere a imprensa como inimiga, os ambientalistas como obstáculo ao progresso, é preciso ajudá-lo, pois o que está em jogo no momento é muito maior que ele.
O Congresso derrubou o decreto que deformava a Lei de Acesso à Informação. Já havia criticado Mourão por tê-lo lançado. A transparência venceu. Faz parte do jogo ganhar ou perder. Sou catedrático em derrotas e asseguro que não importam tanto. Com uma boa análise, fugimos das inevitáveis; com alguma cintura, transformamos outras em vitória relativa.
Num outro artigo em que divago sobre o tempo na concepção do historiador Fernand Braudel, classifico a vitória de Bolsonaro apenas como uma conjuntura em que vários fatores convergem para alterar o tempo rotineiro.
Guardadas as proporções, uma convergência que também aconteceu nos Estados Unidos. São conjunturas que necessariamente não quebram a longa linha do tempo.
Conheço um pouco do Brasil e de Bolsonaro. Quando se tornou um candidato favorito, sabia que sua experiência ainda era limitada. E que sua vitória exigiria de todos nós uma dose de maturidade para evitar traumas. O resto ficaria por conta dos eleitores em 2022.
Foi essa a escolha majoritária. Diante dela, creio eu, o ideal é mapear os temas essenciais para sairmos do buraco. E criticar o governo sempre que se afaste deles.
Intrigas, vaidades, embriaguez do poder sempre se apossam das pessoas mais simples. Ainda mais no Brasil, onde tudo parece ter um viés novelesco: “Carlos Henrique, nunca pensei que fosses me trair…”
De novo, reafirmo aqui minha defesa do jornalismo preventivo. Não se trata de evitar as coisas feias, mas simplesmente de colocá-las no contexto.
Com todo o respeito pelo seu trabalho, Bebianno não existia na política brasileira até a campanha de Bolsonaro. Por sua vez, Bolsonaro nunca foi um hábil estadista, atenuando arestas, unindo forças divergentes. São, por assim dizer, forças não buriladas, que podem amadurecer ou seguir aos trancos até o fim do mandato.
Bolsonaro sempre foi um homem risonho e brincalhão, embora, é natural, tenha ficado mais sombrio depois do atentado que sofreu. Não me importo com as coisas que diz sobre o meio ambiente, muito menos com seus seguidores fanáticos. Pertenço a um grupo no Brasil que leva porrada dos dois extremos e já se acostumou.
Na hora de fazer a coisa certa, como proibir barragens a montante e dar um prazo para desativar as que existem, ele o fez. Será que está esverdeando? Será que, como todos os outros verdes, ele é uma espécie de melancia, verde por fora, vermelho por dentro?
É um país estranho. Não sei se os portugueses traçariam o mesmo rumo se soubessem do desfecho. Sei apenas que é hora de partir. Saudade e dever me empurram de volta, depois desses dias ao lado de Fernando Pessoa:
“E nada traz tanta religiosidade como olhar muito para gente/ A fraternidade afinal não é uma ideia revolucionária/ É uma coisa que a gente aprende pela vida afora, onde tem que tolerar tudo/ E passa a achar graça ao que tem que tolerar/ E acaba quase a chorar de ternura sobre o que tolerou!”
O poeta me saúda no cais:
“Boa viagem! Boa viagem!/ Boa viagem, meu pobre amigo casual, que me fizeste o favor /De levar contigo a febre e a tristeza dos meus sonhos.”
Artigo publicado no jornal O Globo em 25/02/2019
Aqui na Praia do Norte, em Nazaré, pensando nos portugueses que se atiraram, como diz o poeta, ao mar absoluto, ao encontro do impossível — aqui sigo surpreso com o que acontece conosco, com o que fizemos de nós no outro lado do Atlântico. São tristes as imagens que chegam do Brasil, a mulher deformada pelo espancamento, a jovem mãe correndo com um bebê no colo do conflito entre torcida e polícia. E Maduro fechando a fronteira para comida e remédio.
Todo cais é uma saudade de pedra, como lembra Fernando Pessoa. É preciso um momento de reflexão à distância. A mais recente crise política no Brasil seria tema de um folhetim, amores enviesados, mentiras, veneno e fel.
Temos de achar uma forma de abstrair esse baixo nível e nos unirmos no principal: tirar o Brasil da crise, votar a reforma da Previdência, reduzir o número de crimes. No caso da Previdência, ela tem a aprovação das pessoas preocupadas com o país e não pode ser nem rejeitada nem mutilada pelo Congresso.
Por mais que o governo considere a imprensa como inimiga, os ambientalistas como obstáculo ao progresso, é preciso ajudá-lo, pois o que está em jogo no momento é muito maior que ele.
O Congresso derrubou o decreto que deformava a Lei de Acesso à Informação. Já havia criticado Mourão por tê-lo lançado. A transparência venceu. Faz parte do jogo ganhar ou perder. Sou catedrático em derrotas e asseguro que não importam tanto. Com uma boa análise, fugimos das inevitáveis; com alguma cintura, transformamos outras em vitória relativa.
Num outro artigo em que divago sobre o tempo na concepção do historiador Fernand Braudel, classifico a vitória de Bolsonaro apenas como uma conjuntura em que vários fatores convergem para alterar o tempo rotineiro.
Guardadas as proporções, uma convergência que também aconteceu nos Estados Unidos. São conjunturas que necessariamente não quebram a longa linha do tempo.
Conheço um pouco do Brasil e de Bolsonaro. Quando se tornou um candidato favorito, sabia que sua experiência ainda era limitada. E que sua vitória exigiria de todos nós uma dose de maturidade para evitar traumas. O resto ficaria por conta dos eleitores em 2022.
Foi essa a escolha majoritária. Diante dela, creio eu, o ideal é mapear os temas essenciais para sairmos do buraco. E criticar o governo sempre que se afaste deles.
Intrigas, vaidades, embriaguez do poder sempre se apossam das pessoas mais simples. Ainda mais no Brasil, onde tudo parece ter um viés novelesco: “Carlos Henrique, nunca pensei que fosses me trair…”
De novo, reafirmo aqui minha defesa do jornalismo preventivo. Não se trata de evitar as coisas feias, mas simplesmente de colocá-las no contexto.
Com todo o respeito pelo seu trabalho, Bebianno não existia na política brasileira até a campanha de Bolsonaro. Por sua vez, Bolsonaro nunca foi um hábil estadista, atenuando arestas, unindo forças divergentes. São, por assim dizer, forças não buriladas, que podem amadurecer ou seguir aos trancos até o fim do mandato.
Bolsonaro sempre foi um homem risonho e brincalhão, embora, é natural, tenha ficado mais sombrio depois do atentado que sofreu. Não me importo com as coisas que diz sobre o meio ambiente, muito menos com seus seguidores fanáticos. Pertenço a um grupo no Brasil que leva porrada dos dois extremos e já se acostumou.
Na hora de fazer a coisa certa, como proibir barragens a montante e dar um prazo para desativar as que existem, ele o fez. Será que está esverdeando? Será que, como todos os outros verdes, ele é uma espécie de melancia, verde por fora, vermelho por dentro?
É um país estranho. Não sei se os portugueses traçariam o mesmo rumo se soubessem do desfecho. Sei apenas que é hora de partir. Saudade e dever me empurram de volta, depois desses dias ao lado de Fernando Pessoa:
“E nada traz tanta religiosidade como olhar muito para gente/ A fraternidade afinal não é uma ideia revolucionária/ É uma coisa que a gente aprende pela vida afora, onde tem que tolerar tudo/ E passa a achar graça ao que tem que tolerar/ E acaba quase a chorar de ternura sobre o que tolerou!”
O poeta me saúda no cais:
“Boa viagem! Boa viagem!/ Boa viagem, meu pobre amigo casual, que me fizeste o favor /De levar contigo a febre e a tristeza dos meus sonhos.”
Artigo publicado no jornal O Globo em 25/02/2019
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019
A CARTA PATRIOTADA
Do Correio Braziliense
O Ministério da Educação (MEC) enviou a escolas públicas e
privadas do país um email do ministro da pasta, Ricardo Vélez Rodríguez,
pedindo que as instituições filmem com o celular o momento da execução do hino
nacional e enviem para o governo. O e-mail continha, ainda, uma carta, que
deveria ser lida aos alunos no primeiro dia de aula.
"Brasileiros! Vamos saudar o Brasil dos novos tempos e
celebrar a educação responsável e de qualidade a ser desenvolvida na nossa
escola pelos professores, em benefício de vocês, alunos, que constituem a nova
geração", dizia um trecho da carta, que finalizava com o bordão do
presidente da República, Jair Bolsonaro: "Brasil acima de tudo. Deus acima
de todos".
Ainda no e-mail em que a carta foi enviada, pede-se também
que, após a sua leitura, professores, alunos e demais funcionários da escola
fiquem perfilados diante da bandeira do Brasil, se houver na unidade de ensino,
e que seja executado o Hino Nacional.
O e-mail detalhava as recomendações de como o vídeo deveria
ser gravado. "Os vídeos devem ter até 25 MB e a mensagem de envio deve
conter nome da escola, número de alunos, de professores e de
funcionários."
Dois endereços eletrônicos foram disponibilizados para o
envio das gravações. O do próprio MEC e um da Secretaria Especial de
Comunicação Social da Presidência da República.
O diretor da Associação Brasileira de Escolas Particulares
(Abepar), Arthur Fonseca Filho, afirmou que o pedido causou estranheza e que as
crianças não devem ser filmadas sem a autorização dos pais. "Não há
competência legal no sentido de determinar esse cumprimento nas escolas. No
máximo, uma sugestão, um pedido estranho. Até pela forma do conteúdo
inconveniente da carta. Trabalhar o hino é interessante, mas de acordo com a
lógica e o projeto pedagógico. Se acatada, a filmagem implica em
irregularidades, porque não pode filmar alunos sem a autorização dos pais. É
altamente inconveniente e discutível esse pedido. No conjunto, acho que para a
grande maioria das escolas passará em branco, como uma sugestão não
acatada", diz.
O Correio procurou o MEC, mas a pasta
limitou-se a dizer que tratar-se de um "pedido voluntário", parte da
política de incentivo à valorização dos símbolos nacionais.
Já o presidente da Federação Nacional das Escolas
Particulares (Fenep), Ademar Batista Pereira, vê com bons olhos a iniciativa.
“O respeito à bandeira e aos valores nacionais, para gente não é novidade
nenhuma. A questão de filmar, não vejo problema. O MEC demonstra a visão do
governo novo, de resgatar os valores nacionais, está alinhado com o que eles
pensam. Vejo como uma ação positiva”, defendeu.
Após a repercussão do caso, a pasta afirmou que, com o
recebimento das gravações, será feita uma seleção das imagens com trechos da
leitura da carta por um representante da escola. Antes da divulgação, será
solicitada a autorização legal da pessoa filmada ou do responsável.
CRISE DE CANDIDATOS LARANJAS SE AGRAVA
Do EL PAÍS
Crise de candidatos laranja se agrava, fecha cerco a PSL
e complica Bolsonaro
A crise gerada pelas
denúncias de que aliados de Jair Bolsonaro teriam
utilizado recursos públicos na campanha de candidatos de fachada, somada às
suspeitas de cobrança de "pedágio" a funcionários no gabinete do
filho do presidente, Flávio Bolsonaro,
na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro ganharam mais força nos últimos
dias com a divulgação de novos depoimentos e mensagens de envolvidos nos casos.
Um assessor de Flávio admitiu em depoimento ao Ministério Público que
transferia dois terços do salário a Queiroz todos os meses. Também foram
divulgadas mensagens nas quais um assessor do ministro
do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, cobrava a devolução de verbas a uma
candidata que recebeu fundos partidários às vésperas da eleição. Além disso,
duas candidatas do PSL teriam recebido expressivos repasses para produzir
milhões de panfletos pouco antes do pleito. As novas descobertas, que começam a
fechar o cerco ao PSL na crise das candidaturas laranjas, trazem mais
complicações ao presidente, que nas últimas semanas vem tentando se descolar de
uma série de escândalos envolvendo seus correligionários.
No centro da crise, estão as fortes suspeitas de um esquema
de desvio de recursos públicos destinados ao PSL, partido de Bolsonaro. Parte
dessa verba teria sido destinada a candidaturas de fachada por dirigentes da
sigla. O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (PSL), foi apontado no
início deste mês pela Folha de São Paulo como patrocinador do
esquema em Minas Gerais, onde foi reeleito deputado federal. Segundo o jornal,
o agora ministro (que dirigia o diretório estadual do PSL) teria autorizado o
repasse da verba partidária a quatro candidatas laranjas durante a campanha eleitoral,
e a verba teria ido parar na conta de empresas ligadas aos seus assessores na
Câmara.
O ministro nega as acusações, mas na última quarta-feira a
ex-candidata a deputada estadual Cleuzenir Barbosa (PSL-MG) apresentou ao
Ministério Público uma mensagem de Whatsapp na qual um
assessor de Álvaro Antônio, Haissander de Paula, cobra a devolução de
verba pública de campanha para destiná-la a uma empresa ligada a outro assessor
do político. Em depoimento, Barbosa contou que foi pressionada a transferir a
metade dos 60.000 reais que havia recebido do partido para a conta da gráfica
de um irmão de Roberto Soares, também assessor do ministro.
Jair Bolsonaro não fez comentários públicos sobre as
suspeitas envolvendo o titular do Turismo, mas o caso
das candidaturas laranjas chegou a ser tema de conversa entre ele e o
ex secretário-geral da presidência, Gustavo Bebianno. A pedido de Bolsonaro,
Bebianno assumiu a presidência do PSL durante a campanha eleitoral do ano
passado e foi peça fundamental para a eleição do presidente. Responsável por
autorizar transferências feitas pelo diretório nacional a candidatos, ele nega
que estivesse envolvido em qualquer esquema. Bolsonaro, porém, ofereceu
tratamentos diferenciados aos dois ministros supostamente envolvidos nos
escândalos. Na última segunda-feira, Bebianno
foi demitido em meio à crise do Planalto, impulsionado por uma queda
de braço travada publicamente pelo filho do presidente, Carlos Bolsonaro.
Verbas para milhões de panfletos a dois dias da eleição
O fato de duas candidatas do PSL haverem
destinado recursos públicos para a confecção de mais de 10 milhões de panfletos
a apenas dois dias antes da eleição inflamou ainda mais as suspeitas do desvio
de verbas por meio de candidaturas laranjas. Nesta sexta-feira, O Globo publicou
que o partido transferiu 268.000 reais nas vésperas do pleito para as campanhas
das candidatas a deputada Gislani Maia (Ceará) e Mariana Nunes
(Pernambuco), que gastaram praticamente todo o valor recebido da executiva
nacional da sigla em gráficas entre os dias 5 e 6 de outubro.
Gislani foi a única a receber verba do partido no Ceará,
embora houvesse outras 18 candidatas pelo partido no Estado. Ela disse ao O
Globo que o material impresso continha imagens de outros candidatos,
mas sempre a seu lado. A maior parte da despesa da candidata (103,2 mil reais)
foi concentrada em uma única gráfica, a M C de Holanda Carvalho, cujo nome
fantasia é EH 8 Comunicação Visual. Apesar do investimento, Gislani só
conseguiu 3.501 votos. Em Pernambuco, o centro da polêmica envolve a
candidatura de Mariana Nunes, que obteve apenas 1.741 votos mesmo tendo usado
127.800 reais na campanha, segundo a prestação de contas entregue à Justiça
Eleitoral. A maior parte dos recursos (118.000 reais) foi transferida pelo
partido poucos dias antes da eleição e quase tudo (113.900 reais) foi gasto em
uma única gráfica para a confecção de cinco milhões de santinhos e um milhão de
adesivos.
Novas suspeitas sobre Flávio
Nos últimos dias, as suspeitas
que pairam sobre o senador Flávio Bolsonarotambém ganharam novos capítulos.
O filho mais velho do presidente já enfrentava há meses denúncias de cobrança
de "pedágio" aos funcionários de seu gabinete no período em que foi
deputado estadual no Rio de Janeiro. Agora, também surgiram indícios de que uma
funcionária de sua campanha pode ter sido remunerada com os recursos da
Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). A revista Crusoé publicou
nesta sexta-feira que teve acesso ao contrato de trabalho da promotora de
eventos Valdenice Meliga como funcionária da liderança do PSL na Casa. O contrato
teria sido firmado um dia depois de Meliga fechar acordo com o então líder do
partido, Flávio, para gerir as contas eleitorais da sigla. Não há menção de
remuneração por este trabalho na prestação de contas feita à Justiça Eleitoral.
Os acordos, conforme a revista, determinam que Valdenice Meliga trabalharia de
graça na campanha de Flávio ao Senado e acumularia um cargo na Alerj. O valor
do salário dela na Casa, porém, coincide com os cerca de 5.000 reais que a
própria funcionária teria estimado para os serviços prestados à campanha de
Flávio.
Além disso, nesta semana o Estadão divulgou o primeiro
depoimento colhido pelo Ministério Público do Rio sobre as movimentações
bancárias atípicas entre funcionários do gabinete do senador, identificadas
pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
O ex-assessor Agostinho Moraes da Silva admitiu que depositava mensalmente
cerca de dois terços do salário que recebia na Casa — o equivalente a 4.000
reais — na conta de Fabrício
Queiroz, ex-motorista do agora senador. Segundo Silva, as transferências
eram um investimento na compra e venda de veículos exercidas por Queiroz. No
depoimento, ele também afirmou que Queiroz lhe devolvia de 4.500 reais a 4.700
reais em espécie todos os meses, como retorno do negócio, e que não tinha
conhecimento da existência de funcionários fantasmas no gabinete. Silva, porém,
não apresentou documentos que comprovassem suas declarações nem explicou porquê
Queiroz lhe devolvia o dinheiro em espécie e não por transferência bancária,
por exemplo.
A principal suspeita das autoridades que investigam o caso é
que o valor movimentado pelo motorista seja uma espécie de pedágio cobrado por
parlamentares de seus funcionários: os depósitos na conta de Queiroz eram
feitos por pelo menos 20 integrantes do gabinete de Flávio, e coincidiam com as
datas de pagamento da Assembleia Legislativa do Rio. O confisco de salários é
ilegal, mas
bastante difundido em assembleias, câmaras e prefeituras do país. Na TV,
Queiroz negou ser "laranja" dos Bolsonaro e afirmou que o dinheiro na
sua conta, que o Coaf considerou incompatível com seus rendimentos, é
proveniente de negócios realizados por ele com carros usados.
Flávio
Bolsonaro também é investigado no caso, além de responder por evolução
patrimonial irregular com a venda de imóveis tanto na esfera criminal quanto na
eleitoral, em razão da declaração
de patrimônio que concedeu à Justiça Eleitoral no ano passado. Na
última quinta-feira, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, definiu
que as investigações criminais devem correr em primeira instância, sem foro
privilegiado. Em entrevistas que concedeu à televisão nos últimos meses, o
filho do presidente tem negado seu envolvimento nas irregularidades. Queiroz
e Flávio faltaram os depoimentos ao Ministério Público.
MORRE PAULO NOGUEIRA NETO
Do G1, via EPTV
O ambientalista Paulo Nogueira-Neto, de 96 anos, morreu em
São Paulo (SP) nesta segunda-feira (25). Ele é irmão de José Bonifácio Coutinho
Nogueira, fundador da EPTV, afiliada da TV Globo.
O ambientalista é filho do ex-deputado federal Paulo
Nogueira Filho e de Regina Coutinho Nogueira. Viúvo, ele teve falência múltipla
de órgãos e deixa três filhos - Paulo Nogueira Júnior, Luiz Antonio Nogueira e
Eduardo Manoel Nogueira - e seis netos.
O velório será realizado na casa dele, em São Paulo, a
partir das 8h desta terça-feira.
Trajetória
Secretário especial do Meio Ambiente do governo federal
entre 1974 e 1986 - função hoje equivalente à de ministro - ele foi responsável
pela criação de estações ecológicas com objetivo de valorizar a preservação da
natureza, segundo publicação feita pelo Jornal da USP, em 2014.
Nesta universidade, Nogueira-Neto tornou-se bacharel em
Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito em 1945, e depois fez o
curso de História Natural, na Faculdade de Filosofia e Letras, o qual ele
concluiu em 1959. Além disso, foi professor emérito do Instituto de
Biociências, onde também foi um dos fundadores do Departamento de Ecologia
Geral.
Ele é integrante da Academia Paulista de Letras desde
1991- veja aqui texto de recepção. Trabalhou em pesquisas
sobre o comportamento de abelhas indígenas sem ferrão e publicou livros com
estudos na área, e também sobre a criação de animais nativos vertebrados e
viagens.
Reconhecimento
Ao longo da carreira, o ambientalista recebeu uma série de
homenagens. Entre os destaques está o Prêmio Paul Getty, láurea mundial no
Campo de Conservação da Natureza, recebido com Maria Thereza Jorge Pádua em
1981. Além disso, foi eleito duas vezes vice-presidente do programa "O
homem e a biosfera (MAB)", da Unesco, e exerceu a presidência dele na
sessão de 1983.
A atuação conservacionista fez com que fosse distinguido com
a Ordem de Rio Branco (do Brasil) e com a Comenda da Arca Dourada, dos Países
Baixos. Já no ano de 1997, ele recebeu o Prêmio Duke of Edinburgh 1997, da WWF
Internacional.
Nogueira-Neto foi ainda um dos dos fundadores da Associação
dos Dirigentes Cristãos de Empresa (ADCE), vice-presidente da WWF Brasil e
atuou no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), no Conselho do Meio
Ambiente (Cades) da Prefeitura de São Paulo, no Conselho de Administração da
Companhia Ambiental do estado (Cetesb). O ambientalista também foi
vice-presidente do International Bee Research Association e membro do Advisory
Group do PP-G7.
PEDIDO NEGADO
Da Folha de S.Paulo
A juíza Grace Correa Pereira Maia, da 9ª Vara Cível de
Brasília, negou pedido de liminar feito pelo ministro do Turismo, Marcelo
Álvaro Antônio, para censurar a Folha.
O ministro pediu que o jornal retirasse do ar reportagens que
revelaram a ligação dele com um esquema
de candidatas-laranjas do PSL em Minas Gerais.
Em decisão, com data do último dia 22, a juíza afirma que os
documentos apresentados pelo ministro "não estão aptos a atestar, de
maneira idônea e inconteste, que as matérias jornalísticas veiculam conteúdo
inverídico e/ou ilegal e/ou ofensivo à pessoa do autor".
"Conforme o entendimento exarado pelo STF no julgamento
da ADPF 130/DF, a retirada de matéria de circulação configura censura em
qualquer hipótese, o que se admite apenas em situações extremas, o que
evidentemente não é o caso dos autos", diz trecho da decisão judicial. Cabe
recurso à decisão da juíza.
Ao todo, o ministro pede que 13 reportagens sobre o caso
sejam retiradas da internet e que o jornal seja condenado a pagar uma
indenização de R$ 100 mil. Segundo a defesa de Álvaro Antônio, as reportagens
da Folha pretendem "ofender, insultar e afrontar a
honra" do político.
"Direito à liberdade de expressão não pode ser
confundido com a autorização (inexistente) para que ofensas e mentiras sejam
ditas, devendo ser coibido todo o abuso praticado a pretexto de se exercer
liberdade de pensamento", afirma trecho do pedido de censura.
Na decisão que negou o pedido de liminar, a juíza Grace
Correa Pereira Maia afirma que "sendo o autor pessoa que exerce atividade
política e parlamentar, eventuais críticas ao desempenho do seu mister devem
ser ponderadas, em necessária dilação probatória, com a exposição inerente ao
seu próprio cargo, bem como com a liberdade de expressão dos cidadãos".
"Vivemos numa sociedade livre e democrática, na qual é
garantida a livre manifestação do pensamento, contudo, não se admitem excessos,
que, caso cometidos, devem ser reparados, bem como adotadas todas as medidas
possíveis para evitar a manutenção do dano. Ou seja, a liberdade de imprensa é
princípio constitucionalmente protegido e a divulgação de informações traduz-se
em verdadeiro interesse público. Não obstante, deve-se primar pela
autenticidade, pela lisura, tendo em vista o potencial de lesão a honra e
imagem dos cidadãos, além da formação de opinião pública", afirma a juíza.
Em relação ao pedido do ministro, reforça a juíza,
"apenas com a dilação probatória e o decurso do devido processo legal
ter-se-á a necessária segurança para atestar eventual abuso no direito de
informar, passível de reparação".
Reportagem da Folha publicada em 4 de
fevereiro revelou
que Álvaro Antônio, deputado federal mais votado em Minas, patrocinou um
esquema de quatro candidaturas de laranjas, todas abastecidas com verba pública
do PSL.
Álvaro Antônio era presidente do PSL em Minas e tinha o
poder de decidir quais candidaturas seriam lançadas. As quatro
candidatas-laranjas receberam R$ 279 mil da verba pública de campanha da legenda,
ficando entre as 20 que mais receberam dinheiro do partido no país inteiro.
Desse montante, pelo menos R$ 85 mil foram destinados a
quatro empresas que são de assessores, parentes ou sócios de assessores do hoje
ministro de Bolsonaro. Ele nega irregularidades.
O escândalo dos laranjas do PSL, revelado pela Folha,
levou à queda
do ministro Gustavo Bebianno do
cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência na última segunda-feira
(18) e deixou o ministro do Turismo em situação delicada. Integrantes do PSL
defendem a demissão de Álvaro Antônio.
Na última terça (19), a Folha mostrou
que uma outra candidata em Minas disse ter havido um esquema de lavagem de
dinheiro público pelo PSL no estado. Segundo essa candidata, Cleuzenir Barbosa,
o agora ministro do governo Bolsonaro sabia
de toda a operação. Mensagens de celular dela, publicadas pelo jornal,
também contradizem a versão de Álvaro Antônio e revelam
cobrança para desvio de verba eleitoral. Ela diz não ter aceitado entrar no
esquema.
Sob pressão, o ministro recorreu
ao foro especial quando soube da investigação no Ministério Público e
pediu ao STF (Supremo Tribunal Federal) que a investigação passe a tramitar
perante a corte. A defesa do ministro quer que, até que o Supremo decida sobre
a prerrogativa de foro, a apuração em Minas seja suspensa. O pedido foi
sorteado para o ministro Luiz Fux.
No sábado (23), o jornal mostrou que o Ministério Público em
Minas Gerais investiga a contratação
de uma empresa durante a eleição como o principal elo entre o ministro
e o esquema.
Além do esquema vinculado ao ministro do Turismo, a Folha também
revelou caso
semelhante em Pernambuco, que causou a maior crise no governo Bolsonaro até
agora, levando à queda de Bebianno da Secretaria-Geral da Presidência.
Reportagem de 10 de fevereiro mostrou que o grupo do atual
presidente do PSL, Luciano Bivar, criou
uma candidata-laranja em Pernambuco que recebeu do partido R$ 400 mil
de dinheiro público na eleição de 2018.
Leia abaixo as 13 reportagens que o ministro quer retirar do
ar:
BRINCADEIRA IDEOLÓGICA
Da Folha de S.Paulo
Brincadeira ideológica atrapalha a cautela dos militares com
a Venezuela
Quando a crise na
Venezuela começava a transbordar, o general Hamilton Mourão se apressou para
empurrar as inquietações para outras fronteiras. “Do lado mais complicado, que
é o lado colombiano, acho que vai ficar nessa situação de impasse”, afirmou o
vice à BBC.
Enquanto isso, do lado mais complicado, o chanceler Ernesto
Araújo resolveu posar sorridente com o autoproclamado presidente interino, Juan
Guaidó. O ministro decidiu confraternizar com o opositor de Nicolás Maduro
justamente na hora em que os venezuelanos chegavam a uma encruzilhada.
O núcleo militar do governo tem reagido com cautela à
escalada de tensões na região, mas a ala ideológica do bolsonarismo insiste
numjogo político perigoso.
Generais do Planalto trabalharam nos últimos dias para
delimitar claramente o envolvimento brasileiro na crise venezuelana. Embora não
tenha se recusado a enviar ajuda humanitária ao país, o grupo conseguiu reduzir
a marcha dessa ação.
Além de circunscrever a participação de tropas brasileiras,
os militares também barraram a presença de soldados americanos em território
nacional —ideia que havia sido alimentada pelo Itamaraty em conversas com
autoridades dos EUA.
Araújo mergulhou numa guerra de provocações que, agora,
interessa somente a Maduro, aos colombianos e a Donald Trump. Enquanto os
militares tentavam baixar a temperatura para evitar uma matança, o chanceler
brincava de fazer diplomacia.
*
Um assessor de Flávio Bolsonaro contou que repassava dois terços de seu salário a Fabrício Queiroz. Ele transferia R$ 4.000 ao ex-motorista do senador e recebia de volta R$ 4.700. O rendimento de 17,5% causaria inveja no mercado financeiro.
Um assessor de Flávio Bolsonaro contou que repassava dois terços de seu salário a Fabrício Queiroz. Ele transferia R$ 4.000 ao ex-motorista do senador e recebia de volta R$ 4.700. O rendimento de 17,5% causaria inveja no mercado financeiro.
Flávio deveria incluir o nome de Queiroz no banco de
talentos criado pelo governo para disfarçar nomeações políticas. Com essa
habilidade para fazer dinheiro, ele seria contratado na hora por Paulo Guedes.
OUTRO VELLOSO
Cacá Diegues, O GLOBO
Morreu semana passada o economista João Paulo dos Reis
Velloso, e seu obituário, exposto nos jornais e na televisão com todo o
respeito, esteve sempre incompleto. Ninguém deixou de informar que Reis Velloso
foi ministro do Planejamento do general Ernesto Geisel, um dos presidentes da
ditadura militar. Mas ninguém se lembrou de acrescentar que ele dedicou sua
vida e sua carreira à busca de alternativas nacionais mais justas,
democráticas, segmentárias e igualitárias para o crescimento do país.
Crítico de Delfim Netto, seu antecessor no comando da
economia do país, Velloso o considerava responsável pelo “ovo da serpente”, o
conjunto de ações que criara as dificuldades posteriores ao artificial “milagre
econômico” do início dos anos 1970, quando se perdeu no horizonte a própria
ideia de desenvolvimento nacional. Foi na correção desse rumo que ele criou a
Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e o Ipea (Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada).
Em 1988, fora do governo, Velloso montou o Fórum Nacional,
espaço de debate sobre o Brasil, com discussões que envolviam vários aspectos
do conhecimento em geral e da realidade nacional, em particular, como ele a
cultivava criativamente. Sobretudo através da cultura nacional e do próprio
cinema brasileiro, uma de suas paixões.
Enquanto ministro de Geisel, Velloso se preocupara em
estabelecer, como uma das metas de seu ministério, um projeto cultural visando
não só à produção de bens culturais, como também seu vasto consumo pela
população. Os resultados dessas buscas repercutiram logo nos segmentos mais
próximos do sistema de consumo, como as indústrias fonográfica, editorial e
cinematográfica.
Sem censura política ou ideológica (os filmes estão aí para
prová-lo), a Embrafilme, uma sociedade anônima de capital misto, sob a direção
do cineasta Roberto Farias, durante a gestão de Velloso no ministério, produziu
qualidade e sucesso comercial, com prêmios internacionais e uma participação de
35% a 40% do mercado interno, taxa que nunca mais voltamos a alcançar. Em
determinado momento, a Embrafilme era, ao lado de duas das sete majors
americanas, uma das três empresas de cinema mais bem-sucedidas em toda a
América Latina.
Foi Velloso que imaginou e criou a Condecine, taxa sobre
produtos audiovisuais que até hoje alimenta a produção do cinema brasileiro,
sem recorrer ao Orçamento da União ou a outros recursos públicos. É essa mesma
Condecine que, até hoje, sustenta os financiamentos do Fundo Setorial do
Audiovisual (FSA), da Ancine.
Mais tarde, já fora das estruturas oficiais, Velloso passou
a organizar um Fórum Econômico para o Desenvolvimento, incluindo sempre nos
debates a produção cultural, inclusive a da cultura popular produzida em
favelas, periferias urbanas e pequenas concentrações no interior do país. Mais uma
vez, ele se adiantava à ideia futura de Centros de Cultura, elaborada e
executada bem depois por Gilberto Gil.
Velloso foi o primeiro homem público brasileiro a tratar a
produção cultural, não apenas por sua importância simbólica, mas também como um
concreto setor econômico do país. Ele ordenou ao Ipea, que acabara de criar,
pesquisar o impacto da atividade em relação ao PIB. Pela primeira vez em nossa
história, ficamos sabendo que a indústria cultural brasileira gerava entre 1,5
e 1,8% do PIB, com criação significativa de empregos e renda acima de outros
segmentos industriais mais conhecidos e festejados. Foi graças a essa pesquisa
que, nos últimos 30 anos, tornou-se possível estruturar de maneira mais
produtiva os diferentes setores da indústria cultural.
Estudioso de cinema, Velloso se aproximou dos cineastas
brasileiros através de Nelson Pereira dos Santos, com quem tinha ácidas
discussões políticas e de quem nunca deixara de ser amigo, até a morte recente
do cineasta. Como ficara depois amigo e ouvira as ideias de tanta gente como
Roberto Farias, Glauber Rocha, Luiz Carlos Barreto, Joaquim Pedro de Andrade e
tantos outros. Velloso era o exemplo de um Brasil com o qual sonhamos tanto,
onde os conflitos políticos não perturbavam as necessidades específicas de cada
atividade. Um Brasil que bem correspondia ao ensinamento de Raymond Aron,
cientista político francês de meados do século passado: “Na política, a opção
jamais tem a ver com a luta entre o bem e o mal, mas com o preferível e o
detestável.”
A última publicação do Fórum Nacional a que tive acesso foi
a de um livrinho sobre os grandes amores da Bíblia. Nele, Reis Velloso
reproduzia a palavra do apóstolo Pedro, citando o profeta Joel: “Vossos filhos
profetizarão, vossos jovens terão visões, e vossos velhos sonharão”. Era essa a
sua esperança de construção do país, baseada no que podemos sonhar e fazer a
cada momento distinto.
domingo, 24 de fevereiro de 2019
AS BOMBAS DE BEBIANNO
Da ISTOÉ
Até a semana passada, o ex-ministro da Secretaria-Geral da
Presidência, Gustavo Bebianno, era um pote até aqui de mágoas. Na segunda-feira
18, ele deixou o governo 45 dias depois da posse de Jair Bolsonaro tachado de
mentiroso e traidor, principalmente pelo filho e vereador Carlos Bolsonaro, mas
também pelo próprio presidente e seu entorno. Seu mundo caiu – jamais esperava.
Sentiu-se escorraçado por alguém a qual dedicou os últimos dois anos de sua
vida, ao custo de muitas noites mal dormidas e viagens desgastantes de Norte a
Sul do País, e a quem carregou nas costas, para alçá-lo à Presidência da
República. Não por acaso, quando ainda estava sendo frito em fogo escaldante na
semana iniciada no dia 12 e já ciente de que seria a primeira vítima do
capitão, Bebianno enfileirou uma série de ameaças.
Na sexta-feira 16, quando Bolsonaro convocou o agora
ex-ministro ao Palácio do Planalto para um tête-à-tête, os dois quase se
engalfinharam. Na reunião em que também estavam presentes Onyx Lorenzoni e o
vice-presidente Hamilton Mourão, Bebianno exibiu aos presentes os áudios
vazados posteriormente (leia mais na página 28). Em seguida, disparou: “O
senhor está me chamando de mentiroso. Mentiroso é o senhor. Olha aí o senhor
não falando comigo”, disse Bebianno. “O senhor está usando seu filho Carlos
para me desgastar. Não é assim que se faz. O senhor vai se arrepender muito
disso”, prometeu. Ali mesmo Bebianno começou a desfiar seu rosário. Acusou
Bolsonaro de ser alguém que não cumpre compromissos. Disse que o presidente
havia prometido ao presidente do PRTB, Levy Fidelix, fiador de Mourão, pelo
menos três ministérios e o comando de uma empresa pública. Afirmou que ele
também prometera uma pasta para o ex-senador Magno Malta, do PR, um dos
principais líderes da sua campanha, mas, ao fim e ao cabo, não havia honrado
com a palavra. “O senhor não pode deixar seus companheiros feridos pelo
caminho”, reclamou. À imprensa, durante o fim de semana, um Bebianno embebido
em fúria pegou ainda mais pesado. Chamou o presidente de “fraco”, cogitou
“pedir desculpas ao País” pela “vergonha de ter acreditado nele”, “uma pessoa
louca, um perigo para o Brasil”.
Além da contabilidade da campanha, o ex-ministro e sua
esposa Renata Bebianno conhecem os bastidores do processo no STF
que livrou Bolsonaro da inelegibilidade
que livrou Bolsonaro da inelegibilidade
No auge de sua revolta, Bebianno fez confidências a um
círculo muito restrito de amigos. Na quarta-feira 20, ISTOÉ conversou com dois
desses interlocutores. A eles, Bebianno revelou ter armazenado ao menos quatro
bombas capazes de produzir estragos no epicentro de um governo já desgastado e
manquitolante. Quais sejam:
1 Sua mulher, a advogada Renata Bebianno foi a
responsável por toda a prestação das contas da campanha enviadas à Justiça
Eleitoral. Ela e Bebianno guardam em sua casa, no Rio de Janeiro, dentro de
enormes caixas, todos os documentos. Têm em seu poder, cópias de todos os
recibos, cheques, transferências bancárias. Guardaram recibo por recibo, que
podem ser usados a qualquer tempo caso achem conveniente.
2 Bebianno mantém em sua residência uma lista
com os nomes de todos os candidatos do PSL para os quais destinou os R$ 9,2
milhões do Fundo Especial de Financiamento de Campanha. Além do presidente Jair
Bolsonaro, o partido lançou 1.543 candidaturas a deputados estaduais, federais,
senadores e governadores em todo o País. O ex-ministro foi o responsável por
costurar os acordos regionais que deram sustentação à candidatura de Bolsonaro
e de expoentes da legenda. “Ele conhece todos os segredos da campanha”,
assegurou um de seus amigos mais próximos.
3 O ex-ministro conhece os bastidores do
processo que garantiu a candidatura de Bolsonaro à Presidência. Bebianno foi
quem contratou o advogado Antônio Pitombo para defender o presidente no
episódio envolvendo a deputada Maria do Rosário (PT-RS), em que ele foi denunciado
por “incitação ao estupro”. O caso foi parar no STF, porque os dois eram
deputados e possuíam foro privilegiado, onde Bolsonaro respondeu a uma ação
penal. Se fosse condenado, Bolsonaro teria se tornado inelegível, assim como
aconteceu com Lula. Os dois advogados conseguiram que a Justiça Eleitoral não
considerasse Bolsonaro ficha suja, como queriam os adversários. Bebianno ainda
é advogado de Bolsonaro em todos os cinco processos (inclusive os criminais)
que o presidente responde na Justiça.
4 O processo não contou só com a eficiência de
Bebianno e Antônio Pitombo para evitar que o candidato do PSL ficasse fora da
disputa. O papel da advogada Renata Bebianno, que já havia atuado no escritório
de advocacia do jurista Sérgio Bermudes, no Rio, um dos maiores do País, foi
fundamental. Aqui surge outro personagem. É que nesse escritório também
trabalha como sócia a advogada Guiomar Feitosa de Albuquerque Lima Mendes,
mulher do ministro do STF, Gilmar Mendes.
A dúvida, agora, é se ele pretende acionar esse arsenal
potencialmente tóxico. Uma equipe de bombeiros trabalha para evitar que
Bebianno conte o que ele sabe e que pode respingar em Bolsonaro. Onyx Lorenzoni
é um deles. O problema é que o episódio deixou claras escaramuças dentro do
governo. Disputas de pontos de vista que podem criar novas arestas e gerar mais
desgastes. Uma delas diz respeito à forma como o governo deve tratar a imprensa
e os meios de comunicação. Os diálogos vazados mostram a indignação de
Bolsonaro com o fato de Bebianno procurar estabelecer contatos com a imprensa.
Uma reunião marcada na agenda de Bebianno com um representante da TV Globo foi
o estopim de uma das crises. Desconfianças de vazamentos de informações para
outros veículos seguiam na conversa. O presidente chegou a dizer que
considerava Bebianno um “X9”, um “infiltrado” no governo para alimentar a
imprensa. Deixou claro aí que seu pensamento não difere muito do de Carlos
Bolsonaro, para quem o governo deveria cortar relações com a imprensa
tradicional.
Passou do ponto
Aliados do presidente consideram que ele exagerou na dose. O
próprio Bolsonaro se mostrou preocupado em diálogo com Onyx, conforme conversa
telefônica vazada na quarta-feira 20 e cujo teor alcançou a imprensa em
Brasília. Na gravação, o presidente demonstra apreensão com uma nota publicada
na coluna da jornalista Mônica Bergamo, segundo a qual Bebianno estaria
reunindo documentos de campanha. O áudio deixa claro que Onyx tratou de
tranquilizar o presidente dizendo que Bebianno teria “dado a palavra” de que
não emitiria mais declarações sobre a crise:
— A Folha deu uma nota e o Antagonista acabou de reproduzir.
Ele (Bebianno) acabou de ligar e pediu para tirar, que é o seguinte…Que ele
estava preparando documentos e não sei o quê para atacar. Ele disse ao Jorge (Jorge
Oliveira, subchefe de Assuntos Jurídicos do Palácio do Planalto): o que eu
tinha pra fazer, eu fiz ontem (na entrevista à Jovem Pan). Eu não dou mais
nenhuma palavra, acabou tudo ontem. Eu estou te dando a minha palavra, ok?”.
Então, agora, no fim da tarde, para tu saber, eu vou lá dar uma conversada com
Bebianno — prometeu Onyx ao presidente.
O diálogo ainda revela outro temor de Bolsonaro: o destino
das ações criminais nas quais é réu e que possuem Bebianno como advogado de
defesa. — Você vai conversar com ele sobre as ações?”, pergunta Bolsonaro. Ao
que Onyx confirma que sim. Então, o presidente acrescenta: — Se ele (Bebianno)
me cobrar individualmente o mínimo (como advogado nas ações), eu tou f… Tem que
vender uma casa minha para poder pagar” — desabafou Bolsonaro a Onyx.
Ouvido, Bebianno prometeu não cobrar nada de Bolsonaro.
Disse ainda que “tudo o que ele fez foi por acreditar na causa (eleição do
capitão)”. — Ele não deve nada pra mim e nem para os advogados que engajei —
afirmou. Segundo apurou ISTOÉ, o ex-ministro deve anunciar oficialmente nos
próximos dias sua desvinculação da defesa do presidente.
Bandeira branca
Amigos próximos garantem, no entanto, que a disposição, por
ora, é de um cessar fogo por parte de Bebianno. A atitude guarda relação com o
que o ex-ministro planeja para o seu futuro político. Os interlocutores de
Gustavo Bebianno ouvidos por ISTOÉ asseguram que ele acalenta um desejo antigo:
o de se lançar candidato à prefeitura do Rio no ano que vem. “Ele já está se
articulando com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia”, contou um aliado de
primeira hora de Bebianno. Não seria a primeira vez que os dois celebrariam uma
aliança. Maia contou com a prestimosa ajuda de Bebianno para se reeleger
deputado no Rio e também presidente da Câmara.
Enquanto não coloca de pé o projeto municipal, Bebianno se
prepara para controlar o partido no plano nacional. O tema já se encontra na
pauta de conversas com o deputado Luciano Bivar, hoje presidente do PSL. Está
tão avançado que, por enquanto, sua intenção é mesmo deixar as munições
guardadas. Ninguém garante, porém, que Bebianno não possa mudar de ideia. O
problema é que os esquemas produzidos na campanha podem virar um rastilho de
pólvora que nem mesmo o próprio Bebianno possa mais tarde controlar. Novos
casos vão se tornando conhecidos a partir de outras apurações e personagens.
Caso da candidata em Minas Gerais, Cleuzenir Barbosa, que conta detalhes de
como funcionou o esquema sob o comando do ministro do Turismo. Ou do que revela
ISTOÉ nesta edição sobre os novos rolos do PSL do Rio de Janeiro.
Quem também abriu o verbo foi o deputado federal Bibo Nunes
(PSL-RS). Segundo ele, o mesmo modus operandi se reproduziu no diretório
gaúcho. Ele afirma que, por orientação de Bebianno, a candidata ao Senado,
Carmem Flores, recebeu R$ 200 mil do Fundo Partidário. Foram feitos, segundo
ele, 76 depósitos na conta dela durante seis dias. Ela acabou não se elegendo.
Ele afirma que houve desvio de recursos. Que a candidata teria entregue
dinheiro para seus parentes e que até os móveis do Diretório Estadual do Rio
Grande do Sul teriam sido comprados numa loja que pertence a ela. “O senhor
Gustavo Bebianno quis me tirar da campanha quando eu comecei a denunciar o
caso”, afirma.
Autor de um projeto que pede a extinção do Fundo Eleitoral e
que obriga o uso exclusivo do Fundo Partidário em despesas do partido, Bibo
ameaça denunciar Bebianno para o Ministério Público Federal. Bibo pode estar
movido por outros ressentimentos. Ele é um dos deputados que participou da
comitiva da polêmica viagem feita à China antes da posse. Um dos “jumentos”,
portanto, na qualificação feita pelo guru do governo, Olavo de Carvalho. O
grupo anda ressentido pelo fato de nem Bebianno nem Luciano Bivar os terem
defendido publicamente. Assim, caso o ministro recém-demitido atire, há gente
disposta a trocar chumbo. Entre mortos e feridos, não vão se salvar todos.
Colaboraram Rudolfo Lago, Ary
Filgueira e Wilson Lima
YES, NÓS TEMOS LARANJA
Plantar laranjas sempre foi bom negócio. É verdade que um pé de laranja plantado hoje pode levar até 15 anos para produzir a primeira laranja. Tempo demais. Há pés com apenas um ano de idade, germinados em viveiros e enxertados com sementes de pés de laranja mais velhos, que chegam lá em muito menos tempo. Um jeito ainda mais rápido é contratar pessoas —“laranjas”— que se façam passar por candidatos a vereador, deputado e até senador, injetar-lhes dinheiro público para suas “campanhas” e embolsar de volta esse dinheiro, já que os ditos não estão ali para disputar de verdade.
Um litro de suco de laranja puro leva 30 laranjas. Mas quem sabe a diferença entre um suco puro e um que leve água? Com meio litro de água e 15 laranjas, faz-se um litro de suco do mesmo jeito e reservam-se as outras 15 para fazer outro litro. As transações financeiras entre a família Bolsonaro e seu ex-motorista Fabrício Queiroz seguem o mesmo princípio. Só que, em lugar de laranjas, Queiroz compra e vende carros usados, transferindo parte dos lucros para um ou outro Bolsonaro e reservando o resto para comprar mais laranjas.
Um pé de laranja deveria ficar de 3 a 4 metros de distância um do outro. Mas, isso, só idealmente. Na prática, pode-se plantá-los lado a lado e ver no que dá. Foi o que fez o laranjeiro Queiroz ao plantar suas mulheres, ex-mulheres, filhas, enteadas e milicianos de sua confiança no mesmo espaço, a Assembleia Legislativa do Rio. O laranjal era tão atulhado que deu na vista e o suco azedou.
E não se deve usar o fundo partidário, que é uma cortesia oficial, para fazer malabarismos com laranjas bichadas. Vide os candidatos-fantasma do hoje ministro do Turismo, Álvaro Antônio. O Ministério Público, a Polícia Federal e a imprensa descobriram e o governo precisa fazer de conta que o abacaxi não é dele.
A laranja é doce, mas pode ter marimbondo no pé.
QUEM FOI ELEITO? O JAIR OU OS FILHOS ?
Da ISTOÉ
“Não se pode fazer política com fígado, conservando o rancor
e ressentimentos na geladeira. A Pátria não é capanga de idiossincrasias
pessoais. É indecoroso fazer política uterina, em benefício de filhos, irmãos e
cunhados. O bom político costuma ser mau parente”. A frase-alerta de Ulysses
Guimarães se ajusta com perfeição ao atual momento do País. Contrariando o
“Doutor Diretas”, Jair Bolsonaro resolveu arriscar o governo, ao menos neste
início, para se tornar um bom parente. Claro que não tinha como dar certo. Pela
primeira vez, a família de um presidente participa institucionalmente da vida
política do País. Nem a oposição consegue tisnar a imagem do governo de maneira
tão evidente quanto os três filhos do presidente. Não importa as intenções de
cada um, mas a conduta pública deles. Hoje, com o cenário que se criou, em que
questiúnculas domésticas são confundidas com questões de Estado, o que fica
aparente aos olhos de todos é que o presidente da República Jair Bolsonaro só é
o mandatário do País formalmente, mas quem exerce o poder de fato são seus
rebentos. Quem o Brasil elegeu afinal?
Desde a posse, a relação de Bolsonaro com seus filhos Flávio, Carlos e Eduardo se tornou o principal fator de instabilidade do governo. O episódio mais rumoroso em que Carlos Bolsonaro foi o pivô da demissão de Gustavo Bebianno, ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, é ilustrativo sobre quem é que goza de autoridade no Executivo. Com as bênçãos do presidente, Carlos não só se sobrepõe a ministros como comanda uma espécie de poder paralelo em Brasília. Não há quem o segure, e o único para quem presta continência é o pai.
Desde a posse, a relação de Bolsonaro com seus filhos Flávio, Carlos e Eduardo se tornou o principal fator de instabilidade do governo. O episódio mais rumoroso em que Carlos Bolsonaro foi o pivô da demissão de Gustavo Bebianno, ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, é ilustrativo sobre quem é que goza de autoridade no Executivo. Com as bênçãos do presidente, Carlos não só se sobrepõe a ministros como comanda uma espécie de poder paralelo em Brasília. Não há quem o segure, e o único para quem presta continência é o pai.
Uma troca de mensagens entre Bolsonaro e Eduardo revelada em
2017 esclarecem bem como se dá a relação entre o pai agora presidente e seus
filhos. Eduardo Bolsonaro faltara à sessão de eleição do presidente da Câmara
porque tinha viajado aos Estados Unidos para comprar uma arma. Bolsonaro ficou
irritadíssimo. Afinal, tinha ele mesmo se lançado à Presidência da Câmara.
Conquistou apenas quatro votos. Poderia ter tido cinco, se seu filho estivesse
presente. Bolsonaro já começa a conversa num tom incomum entre um pai e seu
filho: “Papel de filho da puta que você está fazendo comigo. Tens moral para
falar do Renan?”, escreve ele. Renan, no caso, é Renan Bolsonaro, o filho
caçula do presidente, que não apresenta qualquer ação política até agora.
Entrou na história como Pilatos no Credo. “Compre merdas por aí. Não vou te
visitar na Papuda”, continua. A reação de Eduardo revela também um grau de
agressividade inusual entre pais e filhos: “Quer me dar esporro, tudo bem.
Vacilo foi meu. Achei que a eleição só fosse semana que vem. Me comparar com o
merda do seu filho, calma lá”.
A família na intimidade
Em algumas postagens, revela-se aí como se trata na
intimidade a família Bolsonaro. Algumas pessoas que passaram a integrar a
campanha e o governo e a lidar com Bolsonaro e seus filhos avaliam que há na
forma como transcorre essa relação um grau perigoso de complicação. Bolsonaro
já está no quarto casamento. Seus filhos são de três mulheres diferentes. O que
se verifica é que tal situação gera uma relação familiar em permanente estado
de ebulição, que acaba por interferir no ambiente em que vive e trabalha o
presidente.
Embora seja o mais novo dos três, Carlos, conhecido na
família e entre amigos como Carluxo, foi o primeiro a ingressar na política.
Elegeu-se em 2000 para uma vaga na Câmara de Vereadores pouco depois de
completar 18 anos. A entrada de Carlos na política já foi pivô de uma questão
familiar complexa. Bolsonaro não queria que sua ex-mulher Rogéria Nantes Braga
Bolsonaro se reelegesse vereadora. Empurrou Carlos para a disputa com esse
objetivo. Carlos aceitou derrotar sua mãe, depois de um complicado processo em
que ficara três anos sem falar com o pai por conta do divórcio litigioso. Jair
Bolsonaro, assim, colocou mãe e filho como adversários na disputa eleitoral.
Hoje, o presidente fez as pazes com Carlos e também com Rogéria. Mas quem
conhece a família interpreta que o presidente sente-se em dívida com Carlos por
ter aceitado tal papel. E, por essa razão, não consegue conter o temperamento
daquele que ele mesmo chama de “meu pitbull”. Livre, leve e solto, Carluxo
indicou para o governo Tércio Arnaud e José Sales. No Planalto, são seus olhos
e ouvidos Léo “Índio”, primo que já foi 58 vezes ao local, mais até que
Bolsonaro.
Se com o pai, Carlos conseguiu contornar o conflito e
desenvolver um sentimento de admiração, o mesmo não ocorre com o irmão mais
velho, Flávio, que é senador da República. Apesar de ser também filho de
Rogéria, Carluxo não se dá bem com Flávio. Aqueles que são próximos da família
afirmam que o que interfere na relação entre os irmãos é o ciúme. Carlos chegou
a querer ser ele o candidato ao Senado. Mas o escolhido foi Flávio. Assim como
o irmão, Flávio também tem sido fonte de dor de cabeça para o presidente. Foi
dele a causa da primeira crise enfrentada por Bolsonaro assim que assumiu a
Presidência. Uma investigação do Coaf, no começo do ano, detectou movimentação
estranha em suas contas. Hoje o fio deste novelo é tão extenso que ninguém
arrisca como se chegará ao final.
Ao contrário dos irmãos, Eduardo Bolsonaro sempre se revelou
avesso à política. Quem o conhece, garante que Eduardo prefere o surfe. Em
dezembro, enquanto seu pai e irmão Carluxo cuidavam da transição do governo,
ele disputava a etapa carioca do campeonato com amigos na Praia da Reserva, na
Zona Oeste do Rio. Mas até mesmo Eduardo parece inebriado com o poder. Ele
arrisca incursões na área externa. E, como os outros dois rebentos, consegue o
que quer. Como, por exemplo, emplacar pessoas de sua confiança na assessoria
especial da Presidência para assuntos internacionais, caso de Filipe G.
Martins, um jovem professor de política internacional. O próprio chanceler,
Ernesto Araújo, para chegar lá teve de ter o aval de Eduardo Bolsonaro. Na
Apex, o 03 encaixou uma dileta amiga: Letícia Catel, cujo estilo “tiro, porrada
e bomba” já rendeu demissões e bate-bocas no órgão. O pai parece aprovar. Ou
não reprovar, o que na prática dá no mesmo. Durante viagem do presidente
Bolsonaro a Davos, lá estava Eduardo estrategicamente acomodado na poltrona ao
seu lado no avião presidencial. A ala militar do governo, que Bolsonaro segue e
respeita, já deu o recado. Com filhos assim, o presidente não precisa de
oposição. Urge colocá-los na linha.;
UMA CONQUISTA FEMININA
A conquista do voto feminino no Brasil completa hoje 87 anos. Com a instituição do voto feminino, em 24 de fevereiro de 1932 os primeiros passos foram dados para que a mulher marcasse presença no espaço político, comprovando sua competência na arte de fazer política.
Apesar da instituição, o voto feminino não era obrigatório, o que só ocorreu em 1946. A partir daí, a mulher entrou no campo político e entrou na disputa eleitoral, concorrendo à cargos de vereadora, prefeita, deputada, senadora governadora e presidente da República.
As pioneiras Alzira Soriano e Carlota Pereira de Queiroz desbravaram essa seara e foram eleitas. Em 1928, a potiguar Alzira Soriano foi a primeira prefeita eleita no Brasil. A paulista Carlota Pereira de Queiroz, em 1933 foi eleita a primeira deputada federal no país.
O caminho longo e árduo continua fazendo parte da trajetória política da mulher no Brasil e levou mais outras décadas para eleger a primeira senadora, Eunice Michiles, em 1979. Ela era suplente do senador João Bosco de Lima, após a morte do senador, ela assumiu. Por voto direto as senadoras eleitas foram Júnia Marise Azeredo Coutinho, por Minas Gerais e Marluce Pinto, por Roraima.
Para eleger a primeira governadora, o país demorou outra eternidade, em 1986,no Acre, Iolanda Fleming foi a primeira mulher a tomar posse como governadora. Eleita vice-governadora em 1983, com a saída do governador Nabor Júnior para disputar o Senado, ela se torna a primeira mulher a governar um estado brasileiro.
Em 1986, Maria Luiza Fontenele é eleita prefeita de Fortaleza (CE). É a primeira mulher a ser eleita prefeita de uma capital.
Quebrando todos paradigmas, Luiza Erundina, em 1988 é eleita a primeira mulher prefeita de São Paulo, a maior cidade da América Latina.
Disputando uma eleição majoritária na cabeça de chapa, Roseana Sarney, no Maranhão, foi eleita primeira governadora e entra para a história da política brasileira.
Benedita da Silva, primeira mulher negra a assumir cargo de senadora, em 1990 e, em 2002 é eleita vice-governadora do Rio de Janeiro e em seguida assume o cargo de governadora.
Enraizado de conceitos ultrapassados, o Brasil demorou 78 anos para eleger Dilma Rousseff, a primeira mulher chegar à Presidência da República. As mulheres trilharam um caminho, longo e árduo para conquistar o direito de votar.
AS PIONEIRAS
A conquista do voto feminino no Brasil completa hoje, 87 anos. Pela primeira vez em mais de 80 anos, o país foi comandado por uma
mulher, a ex-presidente Dilma Rousseff; um marco na história política
brasileira. Em 2010, Dilma chegou pela primeira vez ao cargo maior do país. Mas
antes de Dilma chegar à Presidência da República, outras mulheres também foram
pioneiras na política brasileira.
Alzira Soriano, em 1928 foi a primeira mulher eleita prefeita no Brasil, em Lajes, Rio Grande do Norte. Com a Revolução de 1930, Alzira Soriano perdeu o seu mandato, por discordar da ditadura de Getúlio Vargas. Em 1947, voltou a exercer um mandato de vereadora, foi eleita três vezes.
Carlota Pereira de Queiroz, foi a primeira mulher eleita deputada federal do Brasil, em 1933, em São Paulo.
Eunice Michiles, a primeira senadora do país em 1979. Eunice era suplente do senador João Bosco de Lima, após a morte do senador, ela assumiu a cadeira no Senado e entrou para a história da política brasileira.
Pelo voto direto, em 1990: Júnia Marise foi eleita a primeira mulher para o cargo de senadora: Júnia Marise, do PDT de Minas Gerais e a cearense Marluce Pinto, por Roraima.
Maria Luiza Fontenele, em 1986 é prefeita de Fortaleza (CE). É a primeira mulher a ser eleita prefeita de uma capital.
Iolanda Fleming foi a primeira mulher a tomar posse como governadora, em 1986, no Acre. Eleita vice-governadora em 1983. Quando o governador Nabor Júnior deixou o cargo em 1986 para disputar o Senado, ela se tornou a primeira mulher a governar um estado brasileiro.
Luiza Erundina, em 1988 é eleita a primeira mulher prefeita de São Paulo, a maior cidade do Brasil.
Antonieta de Barros, uma catarinense filha de uma escrava liberta começa aos poucos a ser "redescoberta" nacionalmente como ícone do movimento de mulheres negras. Antonieta de Barros foi a primeira parlamentar negra brasileira, eleita em 1934.
Benedita da Silva é a primeira mulher negra a assumir cargo de senadora, em 1990 e, em 2002 é eleita vice-governadora do Rio de Janeiro e em seguida assume o cargo de governadora.
Roseana Sarney, em 1994 é eleita a primeira governadora do país, pelo estado do Maranhão.
Leia mais sobre a mulher na política, clique aqui.
sábado, 23 de fevereiro de 2019
OS NOVOS ROLOS QUE ENVOLVEM FLÁVIO BOLSONARO
Há uma outra Val na complicada vida política da família
Bolsonaro. Se a primeira era uma suposta funcionária fantasma lotada no
gabinete de Jair Bolsonaro quando deputado federal, a nova Val exibe ligações
muito mais explosivas e perigosas. Quando foi desencadeada a operação “Quarto
Elemento”, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco)
e do Ministério Público do Rio de Janeiro, já era sabido que dois dos
milicianos presos, os gêmeos Alan e Alex Rodrigues Oliveira, eram irmãos de Valdenice
de Oliveira Meliga, e que ela era lotada no gabinete do então deputado estadual
e hoje senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). O que não se sabia — e ISTOÉ revela
nesta reportagem – é que Valdenice, a Val Meliga, era tão merecedora da
confiança de Flávio que ele entregou a ela a responsabilidade pelas contas da
sua campanha ao Senado. Val Meliga, irmã dos milicianos, assinou cheques de
despesas da campanha em nome de Flávio. ISTOÉ obteve dois cheques: um de R$ 3,5
mil e outro no valor de R$ 5 mil. Dona de uma empresa de eventos, a Me Liga
Produções e Eventos, Val era uma das pessoas a quem ele deu procuração,
conforme documento enviado à Justiça Eleitoral, para cumprir a tarefa. Mas não
só. Aos poucos, Val Meliga revela-se uma personagem que pode ser tornar
“nitroglicerina pura” para Flávio Bolsonaro. Ela é uma das pontas de um
intrincado novelo que une as duas maiores fragilidades que hoje fustigam o
filho do presidente da República e seu partido, o PSL: além do envolvimento com
as milícias do Rio de Janeiro, o uso de supostos laranjas e expedientes na
campanha para fazer retornar ao partido dinheiro do fundo partidário.
Explica-se: um dos cheques assinados por Val, no valor de R$ 5 mil, é destinado
à empresa Alê Soluções e Eventos Ltda, que pertence a Alessandra Cristina
Ferreira de Oliveira. O pagamento é referente ao serviço de contabilidade das
contas de Flávio Bolsonaro. Ocorre, porém, que Alessandra era também
funcionária do gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa, com um salário de
R$ 5,1 mil. Estava vinculada ao escritório da liderança do PSL na Alerj,
exercida por Flávio. E, na época da campanha, exercia a função de primeira
tesoureira do PSL. Mais do que isso, sua empresa não foi contratada para fazer
somente a contabilidade de Flávio Bolsonaro. Ela, a primeira-tesoureira do PSL,
ou seja, a pessoa a quem cabia destinar os recursos, fez, por meio de sua empresa,
a contabilidade de 42 campanhas eleitorais do PSL do Rio. Ou seja: cerca de um
a cada cinco postulantes a um cargo político pelo PSL do Rio deixou sua
contabilidade aos serviços da Alê, empresa de Alessandra, tesoureira do
partido. Assim, a responsável por entregar e distribuir os recursos do partido
tinha parte do recurso de volta para as contas de uma empresa de sua
responsabilidade.
Para atrair os candidatos, Alessandra ofereceu um pacote
mais barato do que o que eles encontrariam no mercado. Normalmente, uma empresa
de contabilidade cobra R$ 4 mil pela administração das contas de uma campanha.
Ela cobrou dos candidatos menores R$ 750. Para os candidatos com chances
médias, R$ 3 mil. Para as candidaturas mais fortes, como a do próprio Flávio,
R$ 5 mil. Ganhou no atacado, não no varejo. Ao todo, sua empresa recebeu das
campanhas R$ 55 mil.
O “combo”
Em mais uma ponta do novelo de recursos que vão e voltam
para pessoas do próprio PSL, Alessandra atuou em conjunto com o escritório
Jorge L.A. Domingues Sociedade Individual de Advocacia, que tem como um dos
sócios o advogado Gustavo Botto. Na prestação de contas à Justiça Eleitoral,
Gustavo Botto também aparece como um dos administradores das contas de Flávio
Bolsonaro. No combo que coloca Alessandra como contadora e Botto como
advogados, estiveram 36 campanhas do PSL. Seus serviços também variaram entre
R$ 750 e R$ 5 mil. No total, renderam ao escritório R$ 38 mil.
De todas as aspirantes a cargos eletivos que contrataram
Alessandra, mais de 95% conquistaram menos de dois mil votos. Candidatas do PSL
ouvidas por ISTOÉ relatam que, ao final, praticamente os únicos gastos que
efetivamente fizeram na sua campanha foram com a empresa de Alessandra e o
escritório de Botto. Foi o caso de Karen Valladares, que obteve 2,5 mil votos
no Rio e recebeu do PSL R$ 2,8 mil para a campanha. Ela pagou às duas empresas
e com o que sobrou contratou duas pessoas para cuidar das suas redes sociais.
“Foi praticamente uma troca. O valor que a gente recebeu, praticamente teve que
devolver. Nem deu para fazer campanha”, diz ela. “Eu não tinha experiência
nenhuma, com campanha. Então, para não ficar andando de um lado para o outro,
resolvi logo essa questão da contabilidade no partido”, conta outra candidata,
Ana Thaumaturgo, que teve 771 votos. Uma candidata, Heliana Souza, recebeu os
mesmos R$ 2,8 mil do PSL. Pagou R$ 750 a Alessandra e R$ 750 ao advogado. O
restante, ela devolveu para os cofres do Fundo Especial de Financiamento
Eleitoral. Ou seja, Alessandra e Botto fizeram a contabilidade e a defesa de
uma campanha que, na prática, não gastou mais um centavo sequer e que,
portanto, não existiu.
Endereço fantasma
Há outros aspectos estranhos que envolvem a empresa de
contabilidade de Alessandra. A Alê Soluções foi constituída em maio de 2007. E,
no começo, era somente uma empresa de eventos, como a de Val Meliga. Segundo,
porém, o registro junto à Receita Federal, existem dez atividades econômicas
secundárias mais tarde incorporadas à empresa. O mais próximo de contabilidade
que aparece são “Serviços combinados de escritório e apoio administrativo”. A
empresa tem capital social de R$ 60 mil. Para a Receita Federal, a Alê Soluções
está localizada na Estrada dos Bandeirantes 11216, na Vargem Pequena. Talvez
seja só coincidência, mas a Vargem Pequena, em Jacarepaguá, é uma das áreas
cariocas dominadas pelas milícias. Para o Tribunal Regional Eleitoral, no
entanto, o endereço anotado é Avenida das Américas número 18000 sala 220 D, no
Recreio dos Bandeirantes. Esse é simplesmente o endereço da sede do PSL do Rio.
Situação semelhante acontece com o escritório Jorge L.A.
Domingues Sociedade Individual de Advocacia. Para a receita, o endereço
informado é uma casa em Vila Valqueire. Para a Justiça Eleitoral, foi novamente
a sede do PSL do Rio. Por curiosidade, todos os endereços mencionados ficam em
Jacarepaguá. Onde também mora o ex-motorista Fabrício Queiroz, o desaparecido
primeiro suposto laranja ligado a Flávio Bolsonaro. E onde atuam as milícias.
ISTOÉ apurou que, durante a campanha, a Alê só trabalhou na
contabilidade dos candidatos. Entre maio de 2007 e agosto do ano passado, a
empresa emitiu 183 notas fiscais eletrônicas, conforme os registros do número
das notas concedido ao TRE. Uma média de 16 notas por ano. Somente durante a
eleição foram 46 notas em 4 meses. Notas sequenciais, o que indica o serviço
exclusivo para as campanhas. Apenas no dia do primeiro turno da eleição, 7 de
outubro, foram emitidas 18 notas fiscais entre as 21h31 e as 22h43. Uma média
de uma nota fiscal a cada 4 minutos. Houve caso de notas fiscais emitidas em um
tempo inferior a 2 minutos entre uma e outra.
Procurada, Alessandra Oliveira disse não enxergar conflito
ético no fato de ser ao mesmo tempo tesoureira do partido, funcionária de
Flávio Bolsonaro e ter contratado sua empresa para fazer a contabilidade das
campanhas. Segundo seu raciocínio, o recurso do Fundo Partidário não é do PSL
Estadual do Rio de Janeiro, mas do PSL Nacional. Ela afirma ter fundado a
empresa junto com seu ex-marido. Depois que se separou dele, mudou o nome.
Segundo ela, inicialmente a empresa funcionava na casa dele. Na campanha,
mudou-se para uma sala no mesmo prédio onde funciona o PSL. Há, aí, uma
contradição, porque o endereço declarado é o do PSL, inclusive a sala. E
Gustavo Botto afirma que trabalhava de fato na sede do partido para, segundo
ele, “facilitar a administração e resposta de eventuais comunicações processuais”.
Em resposta à ISTOÉ, Botto acrescentou que não houve conflito ético na atuação
dos advogados pelo “simples fato de que não há oposição de interesses entre
partido e candidatos. Ainda que porventura existisse uma divergência entre uma
candidata e o partido, tal atuação não se encontraria no escopo da assessoria
jurídica prestadas às candidatas, pois cuida-se somente de questões relativas à
campanha eleitoral”. Botto também esclarece que o trabalho de advocacia ocorreu
em parceria com outros três advogados e, para isso, foi utilizada a empresa
Jorge L.A.Domingues Sociedade Individual de Advocacia. A assessoria de Flávio
Bolsonaro não se manifestou.
Quando o Congresso aprovou, em 2015, a extinção do
financiamento privado de campanhas eleitorais, o ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF) e ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gilmar
Mendes, previu: “O Brasil vai ganhar a Copa do Mundo das Laranjas”. Os casos
que vão se revelando sobre o PSL parecem demonstrar que, nesse caso, o ministro
infelizmente parece ter razão.
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