sábado, 1 de agosto de 2026

BOLSONARISMO PÕE DISPUTA ELEITORAL SOB ESTRESSE DEMOCRÁTICO

Flávia Oliveira, O Globo

O golpismo tornou-se variável obrigatória nos cenários de análise política

Desde que o bolsonarismo ganhou protagonismo político no Brasil, a corrida presidencial se desenrola sob estresse das instituições democráticas. O golpismo tornou-se variável obrigatória nos cenários de análise política. Quatro anos atrás, a campanha se iniciava sob o impacto do encontro do então presidente da República com embaixadores estrangeiros para lançar suspeitas sobre o sistema eleitoral e as urnas eletrônicas. A saraivada de ataques — que envolveu até operação da Polícia Rodoviária Federal no Nordeste para impedir eleitores de Lula de votar — deu na inelegibilidade de Jair Bolsonaro e, posteriormente, na condenação dele próprio e de seu grupo por tentativa de golpe de Estado. Em 2026, a trama se repete.

O Brasil ganhou prestígio na política e na opinião pública global por ter sido capaz de preservar o regime e punir os que contra ele atentaram, incluindo o ex-presidente, três generais e um almirante. Em 2022, antes mesmo do início formal da campanha que opunha Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, acadêmicos e representantes da sociedade civil realizaram ato em defesa do Estado Democrático de Direito no Salão Nobre da histórica Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

— Brasileiras e brasileiros, diálogo e negociação são normais nas relações diplomáticas, violência e arbítrio, não! Nossa soberania é inegociável. Quando a nação é atacada, devemos deixar nossas eventuais diferenças políticas para defender nosso maior patrimônio. Sujeitar-se a esta coação externa significaria abrir mão da nossa própria soberania, pressuposto do Estado Democrático de Direito, e renunciar ao nosso projeto de nação — dizia a carta tornada pública na ocasião.

O texto elaborado para aquele levante pode, sem ressalva, ser repetido agora, quando a democracia brasileira é, de novo, empurrada para o corner. Desta vez, o risco se apresenta numa aliança da extrema direita local com a internacional. Nos últimos meses, não apenas foi sepultada a relação cordial que Lula e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, ensaiavam desde setembro de 2025. É evidente também o conjunto de iniciativas para estressar relações bilaterais com sanções econômicas e ofensas políticas; tensionar a convivência do bolsonarismo com o Judiciário; minar a legitimidade do pleito de outubro.

Em duas semanas, os Estados Unidos taxaram duas vezes o Brasil, em 25% e 12,5%, por motivação mais política que técnica. Postagem do próprio secretário de Estado, Marco Rubio, compartilhada pelo senador Flávio Bolsonaro, não deixou dúvida. No último sábado, os ataques do presidente argentino a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, no palco da convenção do PL que formalizou o filho Zero Um como candidato à Presidência, deram ao Palácio do Planalto e à diplomacia brasileira a certeza do alinhamento entre Javier Milei, a ala ideológica do governo Trump — Rubio à frente — e o bolsonarismo.

Estaria em andamento a ação para submeter o Brasil, maior economia da América do Sul, ao campo magnético do trumpismo. Até a reação do governo paraguaio, também aliado dos Estados Unidos, à declaração inoportuna do presidente brasileiro sobre a guerra entre os países no século XIX foi vista como parte do empreendimento de perturbação política.

No período que antecedeu as eleições de 2022, Lula percorreu o mundo democrático para arregimentar apoio ao processo eleitoral brasileiro. Visitou AlemanhaFrança e Espanha. Nos Estados Unidos, contou com o governo do democrata Joe Biden. A possibilidade de interferência externa foi afastada; e os Poderes locais garantiram a lisura do pleito e a posse do eleito. Bolsonaro, para não passar a faixa presidencial, deixou o país no fim do período de transição, marcado por aliados reivindicando intervenção militar em acampamentos no entorno de quartéis.

O bolsonarismo conseguiu fraturar o arcabouço legal de proteção à democracia por meio da Lei da Dosimetria, que atenua penas para golpistas. É visível também a articulação para desqualificar, novamente, o processo eleitoral. Flávio já se reuniu com diplomatas e lançou dúvidas sobre as urnas eletrônicas. Citando a CIA, agência de inteligência dos Estados Unidos, repetiu ao grupo informação, já desmentida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de que as urnas brasileiras têm a mesma origem de equipamentos relacionados a um plano de fraude do governo venezuelano, em 2012.

Semana sim, semana também, há novo estresse com o STF, relacionado à prisão de Bolsonaro pai, ou com o TSE, sobre o regramento das eleições 2026. O risco é crescente. Um Brasil exausto de batalhar por um regime democrático nunca implementado plenamente terá de arrumar forças para se levantar, outra vez, contra o golpismo continuado.

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COMMODITIES OU INDÚSTRIA: QUE PAÍS QUEREMOS ?

Roberto Amaral*, Carta Capital

Estaria o Brasil retornando, em pleno século XXI, à condição de economia agroexportadora? 

Fundado sobre as bases do binômio escravismo-latifúndio (o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravatura e ainda hoje se recusa a promover a reforma agrária que as nações desenvolvidas levaram a cabo nos dois últimos séculos), nascemos e nos formamos determinados pela metrópole empobrecida a cumprir o papel de fornecedores das matérias-primas requeridas pelo mercado europeu.

Nascemos como economia agroexportadora, uma empresa territorial sob a intermediação de Lisboa, o entreposto de tudo o que importávamos e de tudo o que exportávamos, basicamente o açúcar produzido nos engenhos do litoral nordestino, depois da extração predatória do pau-brasil. Nenhum projeto de sociedade, de nação, de país. O fundamental era assegurar a posse de uma imensidade de terra ainda desconhecida e visitada por piratas e aventureiros.

Este é o Brasil Colônia que, com as alterações impostas pelo processo histórico (com destaque para a chegada da Corte, posta a correr de Lisboa pelas tropas de Junot), se instala no Império, com duas alterações: uma estrutural, a substituição do açúcar pelo café; outra política, quando o mando lusitano cede espaço à preeminência britânica, que, ademais de controlar nossas finanças mediante empréstimos extorsivos (fartou-se a Casa Rothschild), renova o veto de Lisboa a qualquer sorte de manufatura na Colônia.

Na sucessão do açúcar, ingressaremos na era do café, promotora de duas alterações: a primeira, o deslocamento do centro dinâmico da economia do Nordeste para o Sudeste, principalmente durante o século XIX, quando o cultivo se expandiu para o Rio de Janeiro, o Vale do Paraíba e, posteriormente, para o Oeste de São Paulo, tornando-se a principal atividade econômica do país. 

A segunda alteração será a possibilidade de acumulação de capital. Pois será essa commodity que, lá adiante, na República, financiará o sempre adiado sonho da industrialização. 

O desenvolvimento da grande lavoura é facilitado pela disponibilidade de terras férteis e inexploradas no Centro-Sul. A necessidade de utilização intensiva de mão de obra será atendida pela exploração escravista. Este é um lado, mas não o único, porque o outro é o aprofundamento da concentração fundiária, destruindo tanto a pequena propriedade quanto mesmo a lavoura de subsistência. É o mando da terra.

Com poucas alterações, este é o país que chega à República, ainda essencialmente rural e agroexportador, e ainda marcado pela hegemonia do café, que assim se conserva até pelo menos os anos 1930, quando, com Getúlio Vargas, se dá início (ou se retoma), como projeto de Estado, ao tardio processo de industrialização. 

Na balança permanece o café, mas a ele se juntarão soja, milho, carne, açúcar e um sem-número de minérios, desde o ferro (que retorna como lingotes) até minerais críticos ou estratégicos, como as chamadas terras raras, lítio, grafite, nióbio, além de cobalto, níquel, cobre, manganês etc., essenciais para diversas aplicações tecnológicas, civis e militares, e para a transição energética, dramaticamente urgente. 

Mas são minerais que exportamos na forma bruta (muitas vezes escavados de nossas jazidas e minas exploradas por multinacionais), sem valor agregado, enquanto o refino e a transformação são majoritariamente levados a cabo por outros países — como a China —, que, na sequência, se transformam em nossos fornecedores do produto acabado. 

É exemplar o caso do petróleo: somos, hoje, exportadores de petróleo bruto e importadores de seus derivados, como gasolina e fertilizantes, a fórmula mais eficiente de mandar para as calendas gregas os projetos estratégicos de segurança energética e alimentar, ao tempo em que, desperdiçando milhões de dólares, estamos há 20 anos aguardando a montagem de Angra III, enquanto a China possui 60 usinas em funcionamento, 35 em construção e programa chegar ao ano de 2030 com mais de cem.

Continuamos governados pelo passado.

A indústria de transformação atingiu seu pico em 1985, quando representava cerca de 36% do PIB brasileiro. A partir daí, iniciou-se um declínio contínuo para, no biênio 2024-2025, chegar a apenas 10% do PIB, quando o agronegócio atingia o patamar de 25,13%.
O ponto de partida da crise é consensualmente datado no início dos anos 1980, que registra a recessão de 1981-83 e a crise da dívida externa (1982). A desindustrialização ainda toma pulso com a abertura comercial (1990-94) e o Plano Real (valorização do câmbio). Desfazem-se, sob o neoliberalismo paulista, os sonhos industrialistas dos anos 1980. Era também, e então de forma mais profunda, o “fim da era Vargas” prometido por Fernando Henrique Cardoso.

A participação da indústria na composição do PIB cai de cerca de 36%, em 1985, para aproximadamente 27% em 1990 e, no curso declinante, esbarra em 10% em 2025. São os dados de hoje. Na outra ponta da liça, a participação do agronegócio chega a 25,13% do PIB, exibindo um crescimento de 12,2%. 

Os anos 2003-2011 são ainda marcados pela expansão do agrobusiness, puxada principalmente pelas exportações de soja, carnes e minérios. O outro lado, sem necessariamente apontar uma relação de causa e efeito, retrata a constância da tendência da redução relativa da indústria, o que vai agravar-se com a recessão de 2015-2016, enquanto, de 2017 até aqui (dados de 2025), as estatísticas registram a expansão da produção agrícola e, consequentemente, o crescimento da participação do agronegócio na formação do PIB.

Como se vê, a expansão do agronegócio opera paralelamente ao processo de desindustrialização, um e outro determinando transformações econômicas, sociais e políticas, como o êxodo rural que se encontra com a crise do trabalho, na crista das transformações impostas pelas inovações tecnológicas no processo produtivo e na vida social como um todo.

Consabidamente, o país de hoje nada lembra os inícios do século passado, e se apresenta como uma economia cuja característica predominante é a centralidade do setor exportador de commodities, modificando a estrutura produtiva, com notórias repercussões políticas e sociais que podem, no médio prazo, alterar as bases do poder.
Durante boa parte do século XX, acreditou-se que o Brasil caminhava para se tornar uma potência industrial, posto que reunia todos os requisitos: população, território, grandes reservas naturais, minérios estratégicos, petróleo e água à farta.

A partir do recesso da República Velha, o país se empenhou na gradual substituição do cediço modelo agroexportador por um projeto de industrialização que transformaria sua economia, sua sociedade e suas cidades. E alteraria a composição do poder com a alternância de mando. Este, por óbvio, permaneceria sob as rédeas da classe dominante, mas esta estaria agora sob o comando modernizante dos novos industriais. Entre os anos 1950 — com o governo constitucional de Vargas, mas igualmente com os frutos do seu Estado Novo, como a Companhia Siderúrgica Nacional — e 1980, sob a nova ditadura, a indústria de transformação tornou-se o principal símbolo do desenvolvimento nacional.

Depois do Estado Novo e do governo democrático de Vargas, tivéramos, com os cinco anos de JK, a retomada da industrialização e, a seu serviço, maciços investimentos em infraestrutura. Assim, nada obstante os percalços que a memória coletiva gravou, chegamos aos meados dos anos 1980 com a indústria respondendo por aproximadamente 36% do PIB, participação jamais repetida.

Como referido acima, quarenta anos passados, a indústria de transformação representa cerca de apenas 10% do PIB, enquanto o agronegócio responde por aproximadamente um quarto da riqueza nacional, quando considerada toda a sua cadeia produtiva.

A mudança é suficientemente profunda para suscitar uma pergunta que ultrapassa o interesse acadêmico: estaria o Brasil retornando, em pleno século XXI, à condição de economia agroexportadora?

A resposta não é simples. O país contemporâneo, por óbvio, é muito diferente daquele da República Velha. O agronegócio atual reúne agricultura altamente mecanizada, beneficia-se da pesquisa científica e da biotecnologia favorecidas pelo Estado através da Embrapa, dispõe de logística sofisticada, agroindústria e grandes empresas exportadoras. E usufruiu de um sem-número de benefícios e incentivos fiscais e creditícios. Trata-se, afinal, e como fruto de tudo isso, de um dos segmentos tecnologicamente mais avançados da economia brasileira, assinalando a ascensão de um novo complexo exportador, baseado em commodities agrícolas.

Essa trajetória não parece ser mera coincidência. Embora um setor não cresça necessariamente às custas do outro, ambos evoluíram em direções opostas durante quase quatro décadas. Não se trata, este fenômeno, de uma regra: vários países, como Estados Unidos, Alemanha,  Holanda e China demonstram a compatibilidade entre expansão agrícola e elevada capacidade industrial.
O que é o “caso” brasileiro?

Seria incorreto atribuir a crise industrial ao êxito do agronegócio. Um bom caminho recomenda considerar o baixo investimento brasileiro na produção, não de hoje, mas faz décadas; a infraestrutura (seja qual for o ângulo pelo qual A analisemos) apresenta deficiências; o sistema tributário é complexo; o custo do capital figura entre os mais elevados do mundo; o padrão educacional é baixo e baixos os esforços visando à formação de mão de obra especializada; as políticas industriais sofrem descontinuidade; e nossa produtividade cresceu pouco, ou muito pouco, em comparação com economias asiáticas, sejam as revoluções econômico-tecnológicas da China e da Coreia do Sul, seja o fenômeno vietnamita após a devastadora invasão dos EUA. É certo que a indústria automobilística se instala no Brasil a partir de 1956, com o governo Juscelino Kubitschek. Mas até hoje não temos uma só marca nacional, não produzimos um só motor a explosão, esta obsolescência que em breve será reconhecida como peça de museu.

Dir-se-á, porém, que a indústria nacional não conta com inumeráveis benefícios que vêm alimentando a expansão do agronegócio. Podemos dizer ainda, e é verdade, que padece na concorrência internacional, à mercê de práticas protecionistas as mais variáveis, e padece mesmo de verdadeiros embargos, como o que representa a atual política dos EUA.

A questão também pode ser vista a partir de outra ótica, a saber: por que o Brasil não conseguiu — ou não quis — combinar uma agricultura competitiva com uma indústria igualmente dinâmica? Nossa indústria, ao contrário, perdeu densidade tecnológica e competitividade internacional e sofre concorrência no mercado interno.

Não é exato que o Brasil voltou a ser uma economia agroexportadora, isto é mais do que óbvio, mas é precisa a afirmação de que o país ingressou em nova etapa de sua história econômica, na qual o dinamismo das commodities convive com uma indústria relativamente enfraquecida. A antiga promessa de uma economia liderada pela manufatura cedeu lugar a um modelo em que a produção primária voltou a ocupar posição estratégica. 

Resta saber — e eis o nó górdio da questão — se essa configuração representa um estágio e, por isso, fenômeno necessariamente transitório, ou uma mudança estrutural de longa duração. A resposta definirá não apenas o futuro da indústria brasileira, mas, de igual modo, o próprio padrão de desenvolvimento do país neste século. Definirá mais: que país queremos ser. 

Sem indústria, não conheceremos desenvolvimento econômico nem distribuição de renda, muito menos autonomia, seja econômica, seja política, porque, sem alto desenvolvimento industrial sustentável, assentado em tecnologias avançadas (fruto do avanço da ciência e da tecnologia, e exigentes de educação), seremos incapazes de tomar a peito qualquer projeto de soberania.

Este pode ser um tema para o debate eleitoral de outubro próximo — quando, elegendo o presidente da República, estaremos dizendo que país queremos.

*Com a colaboração de Pedro Amaral

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O ENGANO PELAS PALAVRAS

Cristovam Buarque, Veja 

O politicamente correto é moralmente imperfeito

Com a intenção de defender sua indústria, a Inglaterra usou o argumento humanista do combate ao trabalho escravo no Brasil, há pouco mais de duzentos anos. Agora, o governo de Donald Trump utiliza o mesmo argumento, com hipocrisia. É preciso condenar o oportunismo trumpista, mas sem perder de vista um drama social brasileiro real, que vem sendo camuflado por um vocabulário afeito a suavizar a tragédia. Para evitar caracterizar os brasileiros submetidos a trabalho análogo à escravidão como pobres desassistidos, o dicionário politicamente correto passou a chamá-los de “hipossuficientes”, termo técnico que esconde o drama e, de algum modo, absolve a responsabilidade dos políticos. Os sem-teto passam a ser “moradores em situação de vulnerabilidade”, expressão que não traduz o relento, nem a exclusão. Se, na África do Sul, o apartheid tivesse sido chamado de desigualdade racial, a bárbara desumanidade da separação entre negros e brancos teria sido diluída. É isso que se faz no Brasil ao chamar de desigualdade social a apartação que caracteriza a sociedade brasileira segregando condomínios de tugúrios.

O uso da expressão “vítima de insegurança alimentar”, em vez da palavra faminto, transforma a dor em um conceito técnico e não transmite o sofrimento de quem passa fome. Para evitar estigmas, o termo prostituição infantil foi substituído por “exploração sexual de menores”. Evita-se a marca infame de crianças submetidas à prostituição, mas atenua-se a violência moral e transforma-se a vergonha social em mais um tipo de exploração, como se a ação de um criminoso pervertido fosse comparável à exploração de um operário. De forma semelhante, trocar favela por “comunidade” pode atenuar o estigma de quem mora nela, mas mascara a carência de serviços urbanos e oculta o tamanho da desigualdade.

“O uso da expressão ‘insegurança alimentar’ transforma a dor de quem não come em um conceito técnico”

Por sentirem que o termo analfabeto carrega discriminação ofensiva, alguns defendem o uso do termo “iletrado”. Essa substituição disfarça a tortura diária de quem não sabe ler e isenta os governos da responsabilidade por essa tragédia. Iletrado é quem aprendeu a ler, mas não lê com frequência, sem a dramaticidade da situação de uma pessoa que, por falta de cuidados do Estado e da sociedade, chegou à vida adulta incapaz de ler. A mudança de escravo para “escravizado” tem o mérito de lembrar que os africanos eram livres antes de capturados, mas ofusca o fato de que, salvo raras exceções de alforria ou fuga, o capturado tornava-se escravo por toda a vida. O sistema fazia com que, desde a captura, o estar escravizado se transformasse na condição permanente de ser escravo. A mulher negra grávida carregava um bebê ainda não escravizado, mas já escravo — condenado desde o ventre, como se o útero fosse um navio negreiro humano. A boa intenção de indicar uma condição temporária pode ocultar a perversidade de um sistema vitalício.

A prática de camuflar a tragédia, tratando-a como etapa de um processo, repete-se no uso da expressão “em vias de desenvolvimento”, em lugar de subdesenvolvido. Embora a palavra mais antiga transmita a ideia de condenação ao atraso, a nova expressão oculta o círculo vicioso que mantém as populações na pobreza, caso não ocorram rupturas políticas, econômicas e educacionais. Embora com boas intenções, o politicamente correto fica imperfeito moralmente.

Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006

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O MOMENTO ELEITORAL

Murillo de Aragão, Veja

Disputa é uma corrida de erros, e Lula tropeça menos que Flávio

No início de agosto, temos um cenário basicamente semelhante ao do início de julho. Lula segue à frente nos cenários de primeiro e de segundo turno; Flávio Bolsonaro, apesar dos tropeços, continua firme no encalço do líder; e a terceira via faz barulho, mas não decola — apesar de Renan Santos aparecer com quase 8% na última pesquisa da AtlasIntel.

Já descrevi a disputa como uma corrida de erros, aqui mesmo nesta coluna, e o cenário prossegue igual. Mas, no momento, Lula erra menos do que Flávio Bolsonaro e ainda teve a ajuda luxuosa dos desentendimentos na família Bolsonaro e das medidas americanas contra o Brasil. Teve, ainda, a ajuda inesperada do espetáculo lamentável de Javier Milei na convenção do PL. Numa corrida assim, ganha mais quem erra menos — e, por ora, é o presidente quem administra melhor os próprios tropeços.

Porém, a liderança de Lula continua em xeque, já que o antipetismo é forte e beira os 50% do eleitorado. O que, considerando uma disputa de segundo turno em que a maioria dos votos dos candidatos da terceira via possa migrar para Flávio, torna a disputa final uma incógnita. É o velho paradoxo das nossas eleições: lidera no primeiro turno, mas carrega um teto de rejeição que o deixa vulnerável no voto decisivo.

“Petista teve ajuda luxuosa da família Bolsonaro, das medidas dos EUA e do espetáculo lamentável de Milei”

De fato, Lula só perde para ele mesmo. O que significa isso? Lula é o favorito tanto por ser o incumbente quanto por ter a caneta na mão e estar distribuindo sacos de bondade para o eleitorado. Conta, como disse, com a ajuda dos tropeços do seu principal adversário. Ganhou de presente a decisão do PP, do Republicanos e do União Brasil de não fechar, pelo menos até agora, com a candidatura de Flávio — um Centrão que prefere esperar para ver de que lado o vento sopra. E ainda assiste de camarote ao fato de que a terceira via não decola. Lula sabe que correria um risco enorme caso outro nome fosse para o segundo turno.

Pelo lado de Flávio Bolsonaro, reafirmo que sua resiliência aos erros, conflitos e tropeços de sua campanha — e à falta de apoio do Centrão — é admirável. Desde que seu relacionamento com o Master apareceu, sua perda de intenção de voto foi relativamente pequena: cerca de seis pontos percentuais, em média. É pouco para um episódio dessa natureza — sinal de eleitorado fiel. Assim, apesar de tudo, Flávio está competitivo e não pode ser descartado.

O que muda o atual cenário? Aponto três fatos, para não ser exaustivo. Primeiro: o interesse da cidadania pelas eleições vai aumentar a partir de agosto, o que abre campo para reflexões mais aprofundadas sobre a escolha dos candidatos. Segundo: há a certeza de que novas revelações vão abalar a opinião pública — em ambos os lados da polarização atual. Terceiro: quem irá decidir a eleição são, de fato, os “nem-nem”, esse contingente que só se move na reta final. E não podemos deixar de considerar que, ainda que em proporções reduzidas, um nome da terceira via desponte no horizonte com mais de 10% ao longo de agosto.

Portanto, olhando para o futuro, a tendência é de que Lula se mantenha favorito na disputa, mas o cenário está em aberto — pelos três fatores apontados e pelo fato inconteste de que o futuro a Deus pertence.

Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006

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OS REIS DO GADO

Leonardo Avritzer*, CartaCapital

As fragilidades de Flávio Bolsonaro não se convertem em oportunidades aos clones

O fim de semana anterior foi marcado pelas convenções de dois pré-candidatos à Presidência da República: o candidato do Partido Liberal, Flávio Bolsonaro, e o candidato do Partido Social Democrático, Ronaldo Caiado. As duas convenções apontam para a enorme fragilidade da direita brasileira, esteja ela dividida ou não. De um lado, é evidente que, unida, a direita poderia ter maiores chances eleitorais. Por outro lado, os próprios fatores que explicam sua desunião, entre eles a evidente falta de liderança do candidato do PL, são características decisivas que marcarão o pleito de 2026.

Flávio Bolsonaro chegou à convenção do PL enfrentando três problemas, nenhum dos quais conseguiu resolver. Em primeiro lugar, havia o conflito com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que implicou em uma série de trocas públicas de vídeos. Inicialmente, Flávio não buscou solucionar a crise e, posteriormente, optou por um pedido de desculpas frio e distante, insuficiente para convencer a ex-primeira-dama a comparecer à convenção. Em segundo lugar, enfrenta dificuldades na relação com diferentes setores do centro-direita que optaram por não formar uma coligação com o Partido Liberal, sendo o Progressistas o caso mais relevante. Em terceiro, o candidato chegou à convenção sem um nome para a vice-presidência e saiu dela exatamente na mesma situação.

A esses problemas, Flávio Bolsonaro acrescentou outro, que tinha alguma relevância, mas que provavelmente se tornará ainda mais significativo: a crescente dúvida sobre quais são suas fidelidades e sobre o grau de compromisso dele e do bolsonarismo com os interesses da Nação. A fotografia de Flávio Bolsonaro ao lado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, antes da imposição de tarifas ao Brasil, já havia desgastado a imagem do candidato que posteriormente retornou aos Estados Unidos para solicitar o adiamento dessas sanções. O discurso de Javier Milei durante a convenção ultrapassou, no entanto, qualquer limite de razoabilidade. Não apenas pelo fato de um chefe de Estado estrangeiro ter participado do evento, o que, por si só, pode não ser completamente atípico, mas sobretudo porque dois dos três poderes da República foram atacados e insultados durante a convenção do PL, sob aplausos entusiasmados de parte expressiva dos presentes. Assim, esse episódio amplia as dúvidas sobre as fidelidades de Flávio Bolsonaro e de seus apoiadores no que se refere aos interesses do Brasil.

No domingo 26, foi a vez da convenção do PSD, que oficializou o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como candidato à Presidência da República. Caiado enfrenta o desafio central de ultrapassar a faixa de 5% a 6% das intenções de voto registrada nas pesquisas Datafolha e Quaest desde o início do ano. Sua maior exposição pública não foi suficiente para alterar esse quadro, apesar de reunir, em princípio, duas vantagens relativas em comparação com Flávio Bolsonaro. A primeira é apresentar uma rejeição significativamente menor. A segunda decorre do fato de ter exercido o governo de Goiás e ter deixado o cargo com elevados índices de aprovação.

O chefe do clã mantém cativa uma parcela do eleitorado

Caiado, entretanto, enfrenta um problema semelhante àquele de outros candidatos à Presidência da República que alcançaram elevados índices de aprovação em seus estados, mas cujas unidades da federação representam uma parcela relativamente pequena do eleitorado nacional. Ou seja, a aprovação conquistada em Goiás não é suficiente para conferir ao candidato uma vantagem significativa nas pesquisas de intenção de voto em âmbito nacional.

Seu principal trunfo eleitoral parece residir no fato de que algumas pesquisas, especialmente a da Ideia, o apontam como a segunda opção entre os eleitores bolsonaristas. Em determinados cenários, ele poderia receber o apoio de cerca de 60% dos eleitores que pretendem votar em Flávio Bolsonaro, caso essa candidatura venha a naufragar. Ainda assim, convém destacar um aspecto fundamental: os votos do bolsonarismo são cativos. Até o momento, embora parte desses eleitores afirme que poderia migrar para outro candidato, tudo indica que essa mudança dificilmente ocorreria sem a autorização de Jair Bolsonaro. Assim, a candidatura de Caiado enfrenta o desafio imediato de romper a barreira dos 10% das intenções de voto para, ao menos, se tornar uma alternativa a Flávio Bolsonaro. Até o momento, contudo, nada indica que isso irá acontecer.

As convenções da extrema-direita mostram os dilemas que esse campo enfrentará nas eleições de 2026. De um lado, nenhuma candidatura se mostra suficientemente forte, e ambas apresentam distintas mazelas. No caso de Flávio Bolsonaro, a principal fragilidade reside em uma gestão absolutamente deficiente da campanha, marcada por um conjunto de conflitos que ele não foi capaz de arbitrar e por alianças potenciais que não conseguiu viabilizar. Nesse sentido, sua candidatura expressa o principal trunfo do bolsonarismo: a resiliência de um certo eleitorado no Brasil e a capacidade da família Bolsonaro de manter o controle sobre esse segmento. Nada indica, contudo, que esse controle seja suficiente para se converter em maioria eleitoral.

No caso de Caiado, tudo indica que sua candidatura enfrentará grandes dificuldades para decolar, apesar de as pesquisas, já mencionadas, apontarem a disposição de parte do eleitorado em optar por seu nome caso a candidatura de Flávio Bolsonaro se torne inviável. O problema, todavia, é que tanto Flávio quanto o bolsonarismo, de maneira geral, não parecem dispostos a desistir da disputa. Ao mesmo tempo, Caiado tampouco demonstra capacidade­ de ampliar seu desempenho eleitoral de forma independente do bolsonarismo.

Nesse contexto, o presidente Lula inicia sua campanha de maneira relativamente tranquila, em um país e em uma conjuntura nos quais sabemos que essa tranquilidade pode se desfazer a qualquer momento em razão de eventuais escândalos ou reviravoltas políticas. Esse é o cenário apontado pelas pré-convenções. •

*Professor aposentado do Departamento de Ciências Políticas da Universidade de Minas Gerais e coordenador do Observatório das Eleições.

Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.

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AUTOFAGIA ELEITORAL

André Barrocal, CartaCapital

Caiado, Zema e Renan Santos estão obrigados a avançar sobre a base bolsonarista

Às vésperas do fim do prazo para a realização das convenções partidárias que definem as candidaturas à Presidência da República, o antipetismo em todas as suas variações está escalado, na esperança de impedir o tetra de Lula. Apesar da causa comum e de uma agenda muito semelhante, o time vai entrar em campo rachado, desunido. E o motivo tem um nome, ou melhor, um sobrenome: Bolsonaro. O ex-presidente ungiu o primogênito Flávio a fim de manter a hegemonia da família no polo reacionário e, claro, livrar-se da condenação por tentativa de golpe de Estado. Em uma situação como essa, só se pode, no fundo, confiar em laços de sangue. Ronaldo Caiado, do PSD, Romeu Zema, do Novo, e Renan Santos, do Missão, desafiam, no entanto, o bolsonarismo, convencidos de que o filho “zero um” é um competidor frágil demais para terminar a campanha de pé.

O quarteto anti-Lula repisa a mesma ladainha contra o presidente e sua administração: o PT tem projeto de poder, não de País, o governo gasta muito e mal, a corrupção e a criminalidade correm soltas, o tarifaço de Donald Trump é culpa nossa, não dos Estados Unidos. Não é muito provável que Flávio, ­Caiado, ­Zema e Santos tomem eleitores do petista. E como, segundo as pesquisas, são poucos os indecisos, menos de 5%, o que está em jogo são os votos de gente desgostosa com o governo ou decididamente de oposição. Ou seja, todos pescarão no mesmo aquário. É um dos motivos para a possibilidade de inexistir debate presidencial digno do nome na campanha. Do ponto de vista de Lula, não há motivo para participar, seria ficar na linha de tiro de todos os outros. E, sem o petista, quem não tem razão para dar as caras é Flávio, que, aliás, desmaiou em um debate na tevê ao concorrer a prefeito do Rio de Janeiro em 2016. Segundo Valdemar Costa Neto, presidente do PL, não faz sentido o senador duelar com concorrentes nanicos, pois, no cenário atual, a disputa se dará entre ele e Lula.

Costa Neto é de uma sinceridade constrangedora ao comentar o quadro eleitoral. Já disse que Flávio não estava preparado para ser candidato. Que ele e a madrasta precisam parar de brigar, pois desestimulam a militância bolsonarista e entusiasmam o PT. Que sem o engajamento de Michelle, do deputado mineiro Nikolas Ferreira e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o filho “zero um” não vence. O trio não tem feito força pelo presidenciável. Que sem o triunfo do senador, tão cedo o pai não sai da prisão e o irmão Eduardo não volta dos Estados Unidos. A portas fechadas, comentou, dias antes da convenção do PL que lançou a candidatura de Flávio, preferir uma chapa encabeçada pelo senador potiguar Rogério Marinho, ex-ministro de Bolsonaro, com Michele na vice. A propósito: Costa Neto acaba de chamar Gilberto Kassab, manda-chuva do PSD e vice de Caiado, de “desclassificado”, mas a explicação não é eleitoral, vem de uma apuração do Supremo Tribunal Federal sobre controle de emendas parlamentares por caciques partidários sem mandato. O liberal foi pego pela Polícia Federal a administrar verba de emendas e disse que todas as legendas fazem isso, explicação negada por Kassab.

O cenário de quatro antipetistas contra Lula na eleição cria uma situação paradoxal, na avaliação de Bruno P. W. Reis, presidente da Associação Brasileira de Ciência Política e professor da Universidade Federal de Minas Gerais. “O Lula pode ganhar no primeiro turno, embora em um segundo turno a disputa venha a ser apertada, não há expectativa de que ele ganhe muitos votos”. Segundo Reis, a única chance de Caiado, Zema e Santos estarem em um duelo final contra o atual presidente seria Flávio sair de cena por ordem do pai, em uma articulação que passaria pela promessa de anistia ao capitão, condenado a 27 anos de prisão. Caiado e Zema topam o indulto. Santos não, é quase tão mordaz em relação ao bolsonarismo quanto o é com o lulismo. Sustenta inclusive estar à direita de Flávio. A desistência do “zero um” é para lá de improvável, prossegue Reis. “A política é o ganha-pão da família. Eles vão ­disputar eleição agora, em 2030, 2034… Há todo um patrimônio acumulado na política pela família”, diz o professor.

“A política é o ganha-pão” do clã Bolsonaro, ressalta o cientista político Bruno Reis

Bolsonaro e Eduardo, deputado cassado no ano passado por excesso de faltas em Brasília, estão inelegíveis, o resto do clã pode concorrer à vontade, embora Flávio seja alvo de um processo no Supremo por calúnia contra Lula e, na hipótese de condenação, a inelegibilidade será um fantasma. Carlos, o filho “zero dois” e vereador no Rio há 25 anos, disputará o Senado por Santa Catarina. Jair Renan, vereador de primeiro mandato em Balneário Camboriú e caçula do capitão, pretende ser deputado. Michelle­, esposa atual e ainda sem experiência nas urnas, deve se candidatar ao Senado por Brasília. Rogéria Bolsonaro, a primeira das três mulheres do capitão e vereadora na capital fluminense de 1993 a 2000, tentará a Câmara dos Deputados pelo Rio. A ideia dela e do filho Flávio era outra: suplente na chapa ao Senado de um político do União Brasil, ­Márcio ­Canella, ex-prefeito de Belford Roxo. A rota mudou após Canella dormir umas noites na cadeia em julho por ter sido apanhado com um fuzil.

A carreira política fez bem ao bolso do clã, há vários milionários ali. É possível consultar no site do Tribunal Superior Eleitoral o patrimônio de políticos que disputaram cargos eletivos desde 2006. Naquele ano, Bolsonaro era deputado­ e tinha 400 mil reais declarados. Em 2022, o total chegou a 2,3 milhões. Carlos passou de 260 mil em 2008 para 1,9 milhão em 2024. Eduardo possuía 200 mil ao eleger-se deputado em 2014 e, oito anos depois, 1,7 milhão. Esta quantia foi informada na eleição ao Senado em 2018, a última disputada por ele. O “zero um” havia chegado à Assembleia Legislativa do Rio em 2003 e, na campanha de 2006, possuía 380 mil reais. E na de agora, quanto declarará ao TSE? Durante o governo do pai, comprou uma casa de 6 milhões de reais em Brasília.

Julian Lemos, um dos coordenadores da campanha de Bolsonaro em 2018 e rompido com o clã, diz que Flávio enriqueceu com o capitão no poder e juntou 600 milhões de reais, no mínimo. Eduardo teria alcançado sucesso semelhante e acumulado 150 milhões. O “zero três” está em autoexílio nos EUA desde o ano passado, mora em uma casa confortável pela qual diz pagar aluguel. Seu dinheiro seria fruto de ganhos no mercado financeiro graças a 2 milhões de reais enviados pelo pai quando do autoexílio, afirma. A quantia saiu de uma vaquinha entre apoiadores que rendeu 19 milhões a Bolsonaro entre 2023 e 2024. Há a suspeita de que a vida mansa de Eduardo nos States seja bancada com grana do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do finado Master. A Polícia Federal acaba de abrir um inquérito, com aval do Supremo, para investigar repasses de Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia sobre Bolsonaro. Esses recursos foram parar nos EUA quando Eduardo já morava lá.

A revelação do financiamento, descoberto em um áudio de Flávio a Vorcaro, provocou um ataque especulativo contra o plano presidencial do senador por parte da concorrência. Era o mês de maio e o “zero um” estava cabeça a cabeça com Lula nas pesquisas. Em um levantamento do Datafolha de abril, havia empate técnico entre os dois, dentro da margem de erro, tanto no primeiro turno (39% a 35% para o petista) quanto no segundo (46% a 45% para o “zero um”). Idem na rejeição (48% de Lula e 46% de Flávio). O caso Master e a forma mentirosa de Flávio lidar com a crise assanharam os demais presidenciáveis do campo antipetista que imaginaram ser capazes de roubar o posto de principal “anti-Lula” e passaram a fustigar o filho do capitão, a apontar suas debilidades, a conjecturar que mais rolos dele viriam à tona. A crise do financiamento de Vorcaro foi seguida de mais dois dissabores: o “tarifaço 2” de Trump e a briga com a madrasta. A maré não foi suficiente para implodir suas chances, mas o distanciou de Lula, eliminou o empate técnico. No Datafolha de 24 de julho, Flávio aparece com 32% no primeiro turno (ante 40% de Lula) e 43% no segundo (48% do presidente). Os índices de rejeição inverteram-se, o senador pior do que o petista.

“Bolsonaro quer impedir a direita de substituí-lo como anti-Lula, não quer ganhar com outro nome, prefere perder com o próprio”, diz o cientista político e historiador Christian Lynch, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Depois da primeira vitória do petista, em 2002, diz Lynch, todas as campanhas viram a busca de um “anti-Lula”, e o mais bem-sucedido no figurino foi o capitão. Este até reproduziria certos traços do petista, como o carisma, em um espelho invertido. Flávio não tem programa de governo ainda, teoriza o acadêmico, pois vai pegar o de Lula e prometer o contrário. O bolsonarismo pode adotar uma atitude hegemonista no campo reacionário, pois conta com um piso de votos maior do que aquele da concorrência, “uns 15% de fanáticos”, segundo Lynch. “A direita é refém do bolsonarismo faz tempo, o Bolsonaro ­sequestrou-a­ no início do governo dele, todos os que tentaram ter vida própria foram destruídos, igual o Trump faz nos EUA”, afirma.

Marcos Pereira, do Republicanos: “Flávio não foi a melhor escolha, mas é o que temos para hoje”

“A eleição de agora é uma prévia de 2030, por isso não existe união na direita. É um termômetro nesse campo e na comparação com o lulismo”, diz a cientista política Lilian Sendretti, pesquisadora do Cebrap, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. A propósito: um analista político de um grande banco diz que o “mercado” pensa dia sim outro também no “pós-Lula” e que para 2030 a aposta seria em Tarcísio de Freitas. Segundo Sendretti, para quem o bolsonarismo tem pretensão hegemonista desde 2018, a campanha no primeiro turno deste ano vai mostrar uma disputa sobre quem representa melhor esse espectro. Com uma peculiaridade: Caiado, Zema e Santos concentrarão críticas em Flávio, não no pai. Não significa, porém, que dará­ certo, pelo fato de o senador carregar o sobrenome “Bolsonaro”, que é popular e aglutinador de várias forças anti-Lula, daí a resiliência do “zero um” nas pesquisas apesar das crises. “Caiado e Zema podem também levantar a bandeira de uma direita moderada e dizer que já foram governadores, têm um legado, enquanto o Renan vai ressaltar que é o único diferente, de fora do ‘sistema’”, afirma.

Na convenção do PSD, Caiado ressaltou sua gestão em Goiás nos últimos oito anos, reclamou da “polarização” entre bolsonarismo e lulismo e criticou igualmente o presidente e o “zero um”. Convencido de que o caso Master sepultou as chances de Flávio e fez deste o rival ideal do petista, Caiado, direitista fora do armário há tanto tempo quanto Jair, guardou palavras especiais para o senador. “É o candidato Kinder Ovo, uma surpresinha todo dia”, declarou na convenção. “Vocês já viram frango de granja, aqueles candidatos que não têm como explicar qualquer coisa, que falam assim, ‘eu chamo o papai, vou ler uma carta dele’? (…) Não, o Caiado é galo de terreiro.” Quando da revelação dos laços de Flávio e Vorcaro, Zema havia classificado de “imperdoável” a relação. Depois amansou, o Novo, sua sigla, depende de alianças estaduais com o PL para superar a cláusula de barreira e eleger deputados. Na convenção, limitou-se a criticar Lula e o Supremo e a exaltar a própria experiência administrativa em Minas Gerais em oito anos. Funcionou como linha-auxiliar do bolsonarismo, do qual dependeu para chegar a governador em 2018.

E Renan Santos? Tem apontado o isolamento político de Flávio e um discurso de uma nota só do rival, o medo da permanência de Lula. Ele atacou o senador por causa da recente reunião com embaixadores estrangeiros na qual o “zero um” pôs em dúvida a confiança das urnas eletrônicas, uma estratégia do pai em 2022. É como escreveu certa vez um blogueiro da extrema-direita norte-americana, Curtis Yarvin, codinome Mencius Moldbug, conforme relatado no livro Os Engenheiros do Caos: “Por vários ângulos, o absurdo é uma ferramenta organizacional mais eficaz que a verdade (…) Qualquer um pode crer na verdade, enquanto acreditar no absurdo é uma real demonstração de lealdade – e que possui um uniforme, e um exército.” Isolado e com a necessidade de juntar a tropa para seu clã não perder a hegemonia no direitismo, Flávio recorreu ao absurdo e à mentira.

Na convenção, apelou a Javier Milei, presidente argentino, que estava no palco, e a Benjamin Netanyahu, premiê de Israel, que apareceu em um vídeo. Flávio, Trump, Milei e Bibi: “o dream team” para Lula enfrentar nas urnas, comenta com ironia um colaborador presidencial. No evento do PL, Milei causou uma crise diplomática, que o governo brasileiro tenta atenuar de forma a não contaminar as relações econômicas entre as duas nações no Mercosul. O “libertário” insultou Lula (“presidiário”) e Alexandre de Moraes (“lixo careca”), juiz do Supremo. Foi denunciado à Justiça argentina por advogados de lá, por gastar verba pública em uma viagem de interesse particular. Aqui, o PT quer que o Ministério Público Eleitoral investigue se dinheiro estrangeiro bancou a convenção liberal, ato ilegal. Na volta Buenos Aires, Milei afirmou, sem provas, que o governo brasileiro financiou uma campanha midiática contra a Argentina após a Copa. “Ele está com problemas internos e tentou mudar de assunto. Sabia que os peronistas iam sair em defesa do Lula e que há um sentimento anti-Argentina aqui no Brasil visto na Copa. Para ele foi bom, para o Flávio foi um desastre”, diz Lynch.

A presença de Bolsonaro na convenção do PL, por meio de um vídeo feito por inteligência artificial, tem chance de terminar em “desastre” também. Pode ser caracterizada como um desafio do clã às restrições impostas pelo Supremo ao capitão no cumprimento da pena. Se o condenado sabia do vídeo, violou as restrições e poderá ser obrigado a deixar a prisão domiciliar e voltar à cela comum. Se não sabia, aí foi Flávio quem infringiu normas do TSE que proíbem as chamadas deepfakes, simulações da realidade feitas via computação. Alexandre de Moraes cobrou explicações da defesa do ex-presidente: ele sabia do uso do vídeo e autorizou? Os advogados disseram que não. O PT provocou o TSE. O presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques, e o vice, André Mendonça, chegaram ao STF pelas mãos de Jair e é a cadeira deles no Supremo que os catapulta à Corte eleitoral. Há no STF, porém, quem esteja a, digamos, vigiar Marques, para que este não jogue a favor do clã do padrinho durante as eleições. •

Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.

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ELEIÇÃO ALÉM-FRONTEIRAS

Jamil Chade, CartaCapital

No Brasil, o mapa mundial será desenhado

“Não temos tido sequer um minuto de sossego”, afirmou o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez ao receber em 1982 o Nobel de Literatura em um discurso no qual ele percorre a história de fantasias e dramas da América do Sul. Mais de 40 anos depois, a frase parece ecoar uma vez mais e, no Brasil, será escrito e testado o próximo capítulo dessa história de assédio ao continente.

A eleição no País não vai determinar apenas quem será o novo presidente ou qual a composição do Congresso. O que está em jogo é uma disputa que vai muito além de nossas fronteiras. Vamos definir quem somos no mundo, que projeto de nação queremos. Mas também como a nova ordem global será desenhada. O que vimos nos últimos dias com o envolvimento de Javier Milei, viagens de equipes obscuras de Donald Trump ou mesmo um telefonema de Xi Jinping são sinais escancarados de que há muito mais em jogo na eleição brasileira do que interesses domésticos.

Para o governo de Trump, reafirmar a América Latina como quintal é parte fundamental de sua política externa e estratégia para conter o avanço da influência chinesa pelo mundo. Ao longo dos últimos meses, a ação da Casa Branca em eleições pela região foi determinante para os resultados das urnas. Qualquer ambição de controlar a América Latina entraria, no entanto, para a história como um projeto fracassado se não incluir o Brasil, que representa um terço da população e do território, além de um volume preponderante da economia do continente. Para Washington, portanto, a eleição é o momento definidor dessa estratégia.

Para a extrema-direita global, as urnas no País também são centrais. Sequestrar o Estado brasileiro é fundamental para o plano de refundar o Ocidente a partir de novos valores, ultraconservadores. Ao longo dos últimos anos –e principalmente após a vitória de Trump nos EUA –, o movimento orquestrou uma tentativa de sequestro de organismos internacionais. A tática foi tão simples quanto assustadora. Washington fechou as torneiras a entidades globais e condicionou qualquer retomada de recursos a uma transformação daquelas instituições para que cumpram seus objetivos. Em outras palavras: um sequestro e uma exigência para iniciar qualquer diálogo que permita um resgate da vítima. Mas há um limite. Principalmente no mundo em desenvolvimento. Ter em suas mãos a rede da diplomacia brasileira garante ao movimento reacionário a influência sobre dezenas de países que contam com o Brasil como referência e uma força sedutora substancial nos organismos internacionais e regionais.

O que ocorrer em outubro também terá uma repercussão imediata para o destino de Javier Milei, José Kast e tantos outros líderes sul-americanos de extrema-direita. Ainda que façam oposição ao presidente Lula, todos sabem que suas economias irão à falência se o Brasil optar por romper acordos ou fechar pontes comerciais ou diplomáticas. Na Casa Rosada ou em qualquer outro gabinete presidencial da região, os governos são cientes de que precisam do mercado brasileiro para que ­suas próprias economias possam prosperar.

Essa é também uma eleição estratégica para a China. Em Pequim, diplomatas questionam de que maneira uma eventua­l vitória de Flávio Bolsonaro seria decisiva para o novo mapa mundial que se desenha e a ambição de Trump de expulsar qualquer presença chinesa na América Latina. Um Brasil sem forças progressistas significaria um golpe profundo no projeto do BRICS? Um Brasil com um Bolsonaro submisso à Casa Branca significaria o fim do projeto de desdolarizar parte do comércio mundial? Quem teria controle sobre as terras-raras brasileiras? Qual o destino da agenda de desenvolvimento, de combate à fome e das questões climáticas globais com um governo em Brasília que romperia com tratados internacionais? Não há almoço grátis no mundo do poder. Qual seria, portanto, o preço que Trump cobrará de Flávio Bolsonaro para apoiá-lo na eleição?

Nas urnas brasileiras, essencialmente, são rabiscadas as fronteiras estratégicas da disputa entre dois poderes que têm ambições hegemônicas. No fundo, é a própria definição do conceito de soberania e a sobrevivência do direito internacional que estão sendo testados.

As veias abertas da América Latina continuam a sangrar. Um continente que percorre séculos na tentativa de construir um caminho do outro lado do colonialismo. A esperança é que essas veias também resistam. Uma resistência que terá no Brasil um de seus capítulos mais críticos de nossa geração. Com disputas por terras, violência e ingerências que repetem algumas das cenas mais tristes de um continente exausto, a história global do século XXI tem sido taquigrafada uma vez mais no Brasil. •

Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.

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O FORTALECIMENTO DO CONGRESSO BRASILEIRO

Marcus Pestana, Congresso em Foco

Nas ruas, em 1984, na campanha das Diretas; na vitória de Tancredo, no Colégio Eleitoral, em 1985; no texto constitucional nascido de uma Constituinte livre e democrática, em1988; o Brasil fez uma escolha clara, uma aposta que esperamos seja definitiva: a reconstrução da democracia brasileira como valor universal, permanente, inquestionável e inegociável.

Dos 195 países oficiais existentes no mundo, bem menos da metade podem ser considerados democráticos. Na Rússia, de Putin; na China, de Xi Jinping; no Irã, de Khamenei; na Coréia do Norte, de Kim Jong-un; nas teocracias árabes; em inúmeros países africanos; em Cuba e na Venezuela; encontramos regimes políticos que não respeitam as liberdades políticas, sindicais, de opinião, de imprensa, de organização. Não há eleições livres e democráticas e alternância no poder. Não há três poderes e um sistema de controles cruzados, freios e contrapesos. Não há liberdade, e a sociedade e os indivíduos são controlados a partir da ação do Estado. Às vezes, com alguma sutileza. Em outras, com enorme desfaçatez e cinismo, como recentemente na decisão de Daniel Ortega, de suprimir as eleições na Nicarágua.

Nenhuma conquista é definitiva. A democracia correu perigo nos EUA, em 2020, e no Brasil, em 2023. “O preço da liberdade é a eterna vigilância”. É uma construção permanente. Há que se aprimorar sempre: ritos, regras, instituições.

Nosso processo de redemocratização comemorou 41 anos, em 2026. Caminhamos para mais uma eleição geral, livre e democrática. No entanto, existem problemas, contradições, desafios e avanços necessários.

Por isso, em boa hora, será lançado, pela Fundação Fernando Henrique Cardoso (iFHC), o documento “O FORTALECIMENTO DO LEGISLATIVO NO BRASIL: contribuição para o aperfeiçoamento institucional do Congresso”.

O texto parte da inequívoca constatação do fortalecimento, nas últimas duas décadas, do papel do Congresso Nacional no processo decisório brasileiro, com a recuperação e avanço de suas prerrogativas, Aponta que, de 1988 a 2000, 85% das leis aprovadas tiveram origem no Palácio do Planalto. Esse quadro mudou radicalmente. 2009 foi o primeiro ano em que se aprovou mais leis de origem parlamentar do que as nascidas no Executivo.

Se o fortalecimento do parlamento é positivo para a democracia, inibindo qualquer tentação autoritária da presidência da República, distorções foram acumuladas e muitos expedientes informais se cristalizaram. O documento traz propostas para a institucionalização de ritos e regras, desconcentração do poder interno no Congresso, valorização das comissões permanentes, reformulação das emendas parlamentares ao orçamento, aprimoramento do voto remoto, limitação do apensamento de PECs, alteração do rito de análise de medidas provisórias e dos processos de impeachment, institucionalização do colégio de líderes, diminuição das reuniões extraordinárias e dos requerimentos de urgência, extinção dos “jabutis”, etc.

São propostas pontuais e incrementais, não trazendo ideia alguma de transformação traumática e disruptiva. O objetivo é aumentar a previsibilidade e a transparência no processo decisório brasileiro.

Todo o esforço liderado pelo iFHC visa, através de mudanças simples e objetivas, fortalecer a democracia brasileira, o Congresso Nacional e seus vínculos com a sociedade.

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OS EUA E A ELEIÇÃO NO BRASILEIRA

Juliana Diniz*, O Povo

Já está bastante claro que as sanções sofridas pelo Brasil não têm um fundamento concreto e se tornaram instrumentos de pressão política com a meta clara de influenciar a temperatura da opinião pública às vésperas das eleições. Desde fevereiro de 2025, os EUA impuseram sobretaxas que impactam o comércio exterior brasileiro

Teremos, nas eleições de 2026, uma preocupação nova na história da redemocratização: um possível cenário de interferência internacional no nosso pleito. Falo especificamente dos norte-americanos. Qualquer observador atento da política nacional já percebeu que as manifestações recorrentes do presidente dos EUA revelam um interesse genuíno no resultado das urnas e que nossa soberania pode estar ameaçada.

Eu chamaria atenção para três movimentos que, analisados em conjunto, evidenciam esse interesse atípico de um país estrangeiro sobre os nossos assuntos internos: o conjunto de declarações do governo americano sobre o mérito do trabalho do Poder Judiciário brasileiro; a manutenção do discurso de que Jair Bolsonaro teria sido alvo de perseguição política; e a aplicação sobre sanções econômicas e diplomáticas.

Foquemos nas tarifas. Já está bastante claro que as sanções sofridas pelo Brasil não têm um fundamento concreto e se tornaram instrumentos de pressão política com a meta clara de influenciar a temperatura da opinião pública às vésperas das eleições. Desde fevereiro de 2025, os EUA impuseram sobretaxas que impactam o comércio exterior brasileiro: estamos falando de uma tarifa de 25% adicional sobre diversos produtos nacionais e de uma sobretaxa de 12,5% sob a alegação de que o Brasil não tem trabalhado para impedir a importação de produtos fruto de trabalho forçado.

As medidas impactam a competitividade dos produtos brasileiros e pressionam o desempenho de nossa balança comercial, notadamente em alguns setores exportadores que dependem dos mercados norte-americanos. Trata-se de um desgaste político que se junta às críticas ao Poder Judiciário brasileiro, seja no enfrentamento das tentativas de golpe, seja no tratamento da liberdade das big techs no Brasil. Quando somamos esse debate às críticas americanas ao sistema de pagamentos Pix, percebemos que há uma atenção importante com os assuntos internos e que a pressão sobre o Brasil se tornou uma pauta prioritária para o governo de Donald Trump.

Precisamos nos preocupar com um cenário possível de resultado eleitoral desfavorável aos interesses norte-americanos, que já declarou alinhamento com o bloco bolsonarista. O que os americanos estão dispostos a fazer se elegermos um presidente mais rigoroso com a proteção da soberania nacional? A possibilidade de uma interferência mais concreta não pode ser descartada, considerando o que observamos na Venezuela.

É certo que, como país, o Brasil é mais forte, mais complexo e desafiador de administrar do que o território venezuelano, mas não podemos ignorar o potencial de desorganização e estresse que a hostilidade de um país tão poderoso como os EUA pode nos causar.

*Doutora em Direito (USP e professora da Universidade Federal do Ceará

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O BOM EXEMPLO

André Gustavo Stumpf, Correio Braziliense

Em pouco mais de 70 anos, a Coreia do Sul passou de país devastado pela guerra a integrante do grupo das economias mais desenvolvidas do mundo. É uma trajetória que pode inspirar lideranças no Brasil e na América Latina

O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, visitou o Brasil semana passada. Foi recebido pelo presidente Lula, no Palácio da Alvorada, de maneira formal e recepcionado no Itamaraty com banquete de muitos talheres. Todo o evento foi cercado de mesuras e louvações ao ilustre convidado. No entanto, pouca gente percebeu a visita do asiático. Em Brasília as pessoas entenderam que alguém importante estava na cidade, porque as ruas centrais da capital foram fechadas e o trânsito ficou difícil. E um avião imenso ficou estacionado no aeroporto. 

A visita do presidente da Coreia do Sul concentra diversos significados neste dramático momento da história nacional. Pressionados pelo governo dos Estados Unidos, os brasileiros buscam alternativas para manter sua economia funcionando. A solução é diversificar mercados. E a Coreia do Sul, um dos chamados tigres asiáticos, tem apetite e dinheiro suficientes para compensar em boa parte as perdas nacionais no mercado norte-americano.

O presidente coreano deixou Brasília e seguiu para São Paulo onde, ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin, participou de reunião com empresários dos dois países com objetivo de discutir a diversificação de mercados para exportações brasileiras e cooperação nas áreas de tecnologia, energia e agronegócio. Esse encontro deu sequência ao anterior, realizado em Seul, em fevereiro de 2026, com a presença de 450 empresários brasileiros e coreanos. O Brasil tem corrente de comércio com aquele país em torno de US$ 11 bilhões. Participa com 1% da importação de bens da Coreia. Os empresários estão convencidos de que poderão fazer esses números crescerem bastante.

A história da Coreia do Sul é recente como Estado independente, mas remonta há mais de 2 mil anos. A Península Coreana foi ocupada por diversos reinos antigos. Em 1392, foi fundada a dinastia Joseon, que governou por mais de cinco séculos. Durante esse período, consolidaram-se a administração do Estado, a influência do confucionismo e, em 1443, foi criado o alfabeto coreano pelo rei Sejong. Em 1910, o Japão anexou a Coreia, que permaneceu sob ocupação estrangeira durante 35 anos. Os coreanos sofreram, naquele período, forte repressão política e exploração econômica. 

No fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o Japão foi derrotado e perdeu a colônia. A península foi dividida, ao longo do paralelo 38. Ocupação soviética ao norte, e ao sul, norte-americana. Em 1948, surgiram dois Estados: Coreia do Sul (República da Coreia), capital Seul; e Coreia do Norte (República Popular Democrática da Coreia), capital Pyongyang. Em junho de 1950, a Coreia do Norte invadiu a do Sul na tentativa de unificar a península pela força. O conflito terminou em 1953 com armistício. Tecnicamente, as duas Coreias continuam em estado de guerra. 

No final do conflito, a Coreia do Sul era um dos países mais pobres do mundo. A partir dos anos sessenta, século passado, sob o governo de Park Chung-hee, começou o processo acelerado de industrialização baseado no investimento em educação, planejamento estatal, incentivo às exportações e apoio a grandes conglomerados industriais. Durante parte desse período, a Coreia do Sul foi governada por regimes autoritários. Na década de oitenta, grandes manifestações populares levaram à redemocratização. Em 1987, foi estabelecido o sistema democrático atual, com eleições diretas para presidente.

A Coreia do Sul é, hoje, uma das maiores economias da Ásia. É líder em semicondutores, eletrônicos, construção naval e baterias, referência em educação, inovação, pesquisa e potência cultural, graças ao fenômeno K-pop. Em pouco mais de 70 anos, o país passou de devastado pela guerra a integrante do grupo das economias mais desenvolvidas do mundo. É uma trajetória que pode inspirar lideranças no Brasil e na América Latina. O país não ficou imobilizado para chorar as mágoas. O governo decidiu que o mais importante era seu povo, numa região que não oferece recursos minerais nem vantagens comparativas. Investiu em educação e multiplicou por 20 a renda per capita em 70 anos. 

O Brasil vive os pródromos da eleição presidencial, mas nenhum candidato até agora teve a preocupação de anunciar programa de governo ou de metas. O exemplo da Coreia é escandalosamente luminoso para os brasileiros. Capaz de atingir até os olhos menos sensíveis dos populistas com reduzida criatividade e golpistas que se julgam espertos. É uma possibilidade viva e alcançável. Depende menos de discursos recheados por promessas vazias e mais de planejamento, organização e trabalho. Só.

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O FANTASMA DA DÍVIDA PÚBLICA

Luiz Gonzaga Belluzzo, CartaCapital

Não há registro de crises monetárias e financeiras provocadas pelo endividamento “excessivo” dos governos em moeda nacional

Em entrevista ao Estadão, o simpático economista José Roberto Mendonça de Barros abordou o tema do ajuste fiscal. Respeitosamente, devo assinalar as dúvidas que me assaltam quando o debate entre economistas da corrente conservadora repete o mantra do risco fiscal. Se me permitem, caros leitores de nossa ­CartaCapital, vou enfiar a colher da “heterodoxia” keynesiana na sopa das concepções que circulam nos arraiais da “macroeconomia do equilíbrio”.

Na visão dos catastrofistas, o risco fiscal está associado a uma trajetória “insustentável” da dívida pública. Insustentável, porque essa vileza vai, no futuro, mortificar os mais jovens e os que ainda não vieram à luz, com um calote devastador na riqueza financeira que circula pelos balanços de bancos, fundos, gestoras de ativos e seus clientes do dinheirão e do dinheirinho. Não são poucos os que antecipam um calote na dívida do Estado. Esse calote seria devastador para a riqueza financeira privada, aquela que frequenta os balanços de bancos, fundos, gestoras de ativos e seus clientes do dinheirão e do dinheirinho.

Na visão monetarista-conservadora, admite-se que não existem fatores de perturbação monetária oriundos das avaliações privadas. Implicitamente, supõe que as decisões dos centros privados são sempre orientadas pela racionalidade dos agentes que habitam o mundo dos negócios e das finanças. Essas decisões gerariam resultados que corresponderiam ao que foi antecipado, vale dizer, as expectativas seriam sempre cumpridas e não haveria incerteza. Desta forma, qualquer desequilíbrio monetário decorreria do descumprimento, por parte do Estado, das regras de gestão.

Os estudos de Thomas Piketty sobre o papel da dívida pública na composição da riqueza privada nos primórdios do capitalismo mostram a importância do ativo-passivo emitido pelos governos na transição dos patrimônios imobilizados na terra para a riqueza móvel e líquida. O sistema monetário-financeiro de nossos tempos foi construído sob a direção do Banco da Inglaterra. O banco administrou, com a dívida pública, as trepidações e expropriações abrigadas no ouropel da finança.

Parênteses: ouropel é uma lâmina fina de latão que imita o ouro, além de representar um falso brilho, uma aparência enganosa de luxo ou um estilo vazio que esconde a falta de ideias.

O economista Pierre Dockés ensina: entre o fim do século XVII e o início do século XVIII, a Grã-Bretanha forjou os meios que lhe permitiram endividar-se massivamente, depois, no século XIX, viveu e prosperou com essa enorme dívida, reduzindo impostos antes de reduzi-la lentamente. O primeiro período, de 1688 a 1815, longe de ser uma corrida precipitada ao endividamento, foi a construção de uma capacidade moderna de contrair dívidas, complementada por uma capacidade moderna de cobrar impostos, uma arma decisiva do poder econômico e político britânico.

No capitalismo financeiro do século XXI, a apropriação de renda “rentista” está intimamente associada ao inchaço das dívidas públicas nacionais. Para compreender a “dinâmica” do enriquecimento e da desigualdade, é necessário avaliar o papel do endividamento público na valorização do capital financeiro e na transmissão da riqueza entre as gerações. No afã de se apropriar da riqueza, as criaturas do mercado buscam, ao mesmo tempo, apostar nos ganhos futuros e garantir o valor de sua riqueza com ativos seguros, garantidos pelo Estado. Nesse espaço de decisões aparentemente contraditórias, os títulos públicos atuam como garantias diante da incerteza do futuro.

Os estudos sobre as relações entre o crescimento da dívida privada e da dívida pública ao longo dos ciclos de expansão-contração das economias capitalistas mostram, de forma cabal, que, nas expansões, predomina o crescimento do endividamento privado e, nas contrações, eleva-se o endividamento público. Quando as desconfianças dos mercados se acentuam, a tigrada corre para os títulos públicos, considerados ativos seguros de última instância.

As crises financeiras dos países ditos emergentes estão invariavelmente associadas à tomada de empréstimos em moe­da estrangeira. Essa foi a causa da crise fiscal e monetária dos emergentes nos anos 80 do século passado, entre os quais o Brasil. A crise da dívida externa, deflagrada no início dos anos 80, produziu efeitos devastadores sobre as finanças públicas e erodiu a soberania monetária dos países atingidos ao suscitar uma fuga sistemática das moedas nacionais.

Em minhas peregrinações pelos labirintos da história do capitalismo, não encontrei sequer um fio de memória que denunciasse uma crise monetária-financeira provocada pelo endividamento “excessivo” dos governos em moeda nacional. 

Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.

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sexta-feira, 31 de julho de 2026

CONTROLE MÁXIMO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Legisladores e magistrados tentam e não conseguem criar boas regras a priori para regular eleições

Risco de normas ultradetalhistas é transferir do eleitor para juízes decisão sobre quem governa

O problema da modernidade é que precisamos viver em sociedades de massa cada vez mais informatizadas com um cérebro que evoluiu para nos fazer prosperar no Pleistoceno, quando o último grito da tecnologia era o domínio sobre o fogo. O ordenamento eleitoral brasileiro padece de descompasso semelhante.

Não é preciso mais do que uma passada de olhos sobre a Lei Eleitoral, a 9.504/97, para perceber que ela foi concebida para um tempo que já não existe. Está preocupada em regular o layout dos santinhos e o tamanho máximo de cartazes, quando a realidade das campanhas é marcada por IA, deepfakes e impulsionamentos. É verdade que temos uma coleção de resoluções do TSE que buscam dar atualidade ao arcabouço regulatório, mas não as classificaria como particularmente felizes.

O problema é que os magistrados, bebendo da mesma fonte de inspiração dos legisladores originais, também se propuseram a exercer controle máximo sobre o processo —algo que não tem como dar certo. Mesmo quando a regra estabelecida é clara, simpatias, confessas ou inconfessas, de um ou mais juízes se encarregam de criar obscuridades. Estamos vendo isso agora com as exuberantes interpretações de Kassio Nunes Marques para deepfakes e a divulgação de pesquisas eleitorais.

E o regramento da Justiça, embora mais atual, não é necessariamente bom. Os dispositivos contra trucagens com IA, por exemplo, acabam vedando usos que me parecem legítimos. Não vejo mal em produzir o material de TV sem a necessidade das caras filmagens externas ou até dispensando o candidato de ir ao estúdio. Sou cético quanto à possibilidade de fazer uma boa regulação a priori sobre a matéria.

E o problema, quando se mantêm um estoque quase infinito de normas eleitorais ultradetalhistas em ambientes hiperjudicializados, é que acabamos transferindo dos cidadãos para magistrados a decisão sobre quem vai governar. A demo

cracia eleitoral tem uma série de problemas e comporta aperfeiçoamentos, mas não penso que tirar o eleitor da equação seja um caminho.

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SEM LULA NA TV, FLÁVIO FOGE PARA NÃO VIRAR ALVO DA DIREITA

Do Blog do Noblat, Metrópoles

Flávio se esconde atrás de Lula para não ter que explicar propostas nem encarar a própria oposição

No programa do Noblat, a bancada analisou o cálculo político por trás da fuga dos debates no primeiro turno e o enquadramento jurídico que aguarda a cúpula do PL no Supremo Tribunal Federal.

A sinalização de que Lula pode faltar aos confrontos de TV abriu uma janela para Flávio Bolsonaro tentar escapar do mesmo palco. Por trás do pretexto de “não ir onde o petista não vai”, o herdeiro do PL busca disfarçar suas conhecidas limitações oratórias e o pavor de virar alvo da própria direita. Sem Lula em cena, candidatos conservadores como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos fariam de Flávio o saco de pancadas da rodada, já que a única chance de a direita tradicional chegar ao segundo turno é desidratar o pré-candidato do PL.

No campo judicial, o programa abordou a expectativa em torno da decisão do ministro Alexandre de Moraes sobre o uso ilegal de inteligência artificial na convenção do partido. Ao rebater as tentativas bolsonaristas de criar uma falsa equivalência com a situação de Lula em 2018, Ricardo Noblat destacou que o cenário é juridicamente incomparável: ao contrário do petista, que não tinha sentença transitada em julgado nem veto de comunicação, Jair Bolsonaro cumpre pena definitiva de 27 anos e está sob restrição expressa da Justiça que o proíbe de interferir no jogo político.

O uso de avatares e montagens sintéticas na convenção expõe não apenas o desrespeito a duas resoluções expressas do TSE, mas o desespero do clã em burlar as ordens do STF. A tentativa de transformar a pré-campanha em um circo digital reflete a incapacidade do candidato em debater propostas e a opção por atalhos ruidosos para segurar a militância – uma estratégia que aprofunda a rejeição do PL e escancara a fragilidade de quem tenta governar o país fugindo dos debates e desafiando a lei.

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O BRASIL PICOU ?

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Em inglês, 'to peak', picar, é chegar ao pico, ao máximo; e se o Brasil já tiver picado?

Ou se, com os bolsonaros, vorcaros, malafaias e neymares, o Brasil estiver picando hoje?

Os americanos, que vivem em competição doentia com os outros e entre eles próprios, têm uma expressão: "to peak". Significa atingir o pico, o ponto mais alto, o máximo de alguma coisa. Só que eles a usam como verbo: picar. Fulano picou na profissão, a música tal picou em décimo lugar nas paradas, a temperatura ontem picou em 35ºC. No Brasil, não falamos assim, mas poderíamos —e deveríamos. Para um país que há séculos se diz do futuro, o que fazer se, ao contrário do que queremos acreditar, o Brasil já tiver picado?

Ivan Lessa, arguto pensador popular, era dessa opinião. Para ele, o Brasil picou em algum momento entre os anos 1950 e 1960 —de Juscelino a, digamos, 1963. Foi quando tivemos vasta industrialização, urbanização e politização; o país começou a ser exaustivamente "pensado"; a criatividade em todas as categorias chegou a níveis absurdos; éramos adultos, responsáveis e otimistas; e tudo num clima de total liberdade democrática. Claro que esta é só a opinião de Ivan Lessa. Outros poderão atribuir outras épocas ao pico do Brasil. O que interessa é se o Brasil ainda tem jeito ou se já picou mesmo.

Desiludido, Ivan se mandou para Londres em 1978 e morreu lá, em 2012. Imagino se soubesse do Brasil de hoje, o paraíso dos bolsonaros, vorcaros, malafaias, neymares e outros luminares, dedicados a nos fazer de otários em primeiro grau. Eis alguns:

Políticos ligados a milicianos e facções. Influenciadores promovendo estilos de vida irrealizáveis. "Consultores" financeiros recomendando investimentos com lucros fabulosos em ativos sem lastro na economia real. Vendedores de cursos online sobre como ficar rico. Aliciadores de menores na internet. Sem falar em torcedores não mais de futebol, mas de "fubetol" (obrigado, Sérgio Rodrigues), cantores de sofrência pagos em milhões por prefeituras de cidades sem escolas e hospitais; mulheres com peitos pneumáticos, boca de peixe e bochechas de Fofão; etc.

Dúvida atroz: e se, em vez de ter picado no passado, o Brasil estiver picando agora?

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PF TENTOU DRIBLE

Raquel Landim, O Estado de S. Paulo

A PF enviou para a presidência do STF pedido de inquérito contra Lulinha sob um novo relator

A Polícia Federal tentou dar um drible no ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e retirar da sua batuta as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula.

Nas apurações do caso do INSS, cujo relator é Mendonça, os investigadores descobriram as ligações de Lulinha com Antonio Carlos Antunes, conhecido como o “Careca do INSS”.

E, lá no meio, estava também uma suspeita de tráfico de influência do filho do presidente Lula a favor do canabidiol junto ao Ministério da Saúde. Antunes chegou a levar Lulinha numa viagem a Portugal sobre o tema.

É praxe em investigações policiais surgirem procedimentos autônomos, vinculados ao eixo principal. Só nos casos Master e INSS, as duas investigações mais polêmicas hoje, chegam a quase 200 inquéritos diferentes.

Sem consultar Mendonça, a PF decidiu que Lulinha merecia um tratamento especial e enviou para a presidência do STF um pedido de abertura de inquérito sob um novo relator. Nas férias do presidente do tribunal, Edson Fachin, quem assume o posto é o primeiro-vice-presidente, o ministro Alexandre de Moraes.

Moraes enviou o tema à Procuradoria-Geral da República (PGR), que não se opôs à escolha de um novo relator. Assim, o inquérito sobre Lulinha partiu para um sorteio. Por aquelas ironias do destino, o sorteado foi o próprio Mendonça. O drible quase funcionou.

Os embates entre a PF e Mendonça nas investigações do INSS não vêm de hoje, mas chegaram ao ponto mais tenso do jogo. Já foram trocados pela cúpula da instituição três delegados que conduzem o caso e um perito. Pessoas que acompanham o assunto de perto dizem que são evidências de pressão política, mas a PF nega.

Mendonça fez uma reclamação formal sobre a morosidade das apurações e a falta de informações sobre o caso nos autos, e cobrou imparcialidade. Recebeu um relatório de oito páginas e voltou a protestar. A PF reagiu e enviou um pedido à Advocacia-Geral da União (AGU) para que encontre um “remédio jurídico” para frear a atuação do ministro e o que considera uma interferência na autonomia da instituição. Mendonça foi indicado para o STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O jogo é pesado, envolve o filho de Lula, que é candidato à reeleição e, vale lembrar, o pleito ocorre em outubro. O senador Flávio Bolsonaro (PL), filho de Jair Bolsonaro, é o principal candidato da oposição.

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¡ARRIBA ARGENTINA !

José Sarney*, Correio Braziliense

A fronteira entre Brasil e Argentina está aí para nos unir, convivendo com a mesma terra, as mesmas árvores, os mesmos problemas, as alegrias e tristezas, sem afetar a união dos povos

Vou tratar de um assunto delicado e até repetitivo, pois muitas vezes o tenho abordado, com a autoridade de quem negociou o fim das relações afastadas, e muitas vezes conflituosas, entre Brasil e Argentina.

É que agora estamos assistindo, depois de um progressivo afastamento entre nossos dois países, a uma série de despautérios do presidente da Argentina contra o presidente Lula, do Brasil, e contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), fora dos limites da civilidade, como disse o presidente da Corte, Edson Fachin, com a palavra apropriada e respeitando o vocabulário neutro, domínio da linguagem oficial.

 Este meu artigo se situa, também, no contexto de uma excelente carta feita pela deputada Marcela Pagano, da nação Argentina, ao presidente Lula da Silva, pedindo leniência para o Brasil, para que tenha esquecimento e quase perdão das desastrosas intervenções do Sr. Milei. Não posso deixar de repetir as palavras da deputada Pagano, de total propriedade sobre o que representa o chefe de uma nação:

"Um Estado não é um governo, não é um homem. As nações são entidades históricas: duram mais que os mandatos, mais que as conjunturas e, certamente, mais que os destemperos. O que foi dito não representa a República argentina."

A tese construída que iniciou essa rivalidade entre nossos dois países era — e é — absolutamente falsa: quem dominasse a Bacia do Prata dominaria a América do Sul, ou precisamente, o Cone Sul. Chegou-se mesmo a vislumbrar, naquele tempo das lendas, fantasiosos que nas nascentes estariam o Reino de Prestes João, onde os lagos seriam de águas de ouro. Falava-se de uma criação que nem Deus fizera na face da Terra: rios e lagos dourados.

Mas vamos aos tempos atuais. Agora mesmo, na assinatura do Tratado do Mercosul com a União Europeia, eu escrevi, e o artigo foi publicado no La Nación, de Buenos Aires, que nada se teria construído sem a Argentina, sem Raúl Alfonsín, o grande estadista das Américas, e Sáenz Peña, grande amigo do Brasil; este autor da tese verdadeira "Tudo nos une, nada nos separa", que deve presidir e nortear a diplomacia dos nossos dois países.

Tudo se pode mudar no mundo, menos a geografia. As nossas fronteiras comuns dizem que não podemos nos separar. Estamos unidos para sempre. Miguel Torga, grande intelectual e poeta português, define no seu poema "Fronteira" aquilo que ela tem de manter: o sentimento de pátria sem dividir o sentimento de união. Ele diz: "De um lado terra, doutro lado terra; / De um lado gente; doutro lado gente; / (…) Mas uma força que não tem razão, / Que não tem olhos, que não tem sentido, / Passa e reparte o coração / Do mais pequeno tojo adormecido".

A fronteira está aí para nos unir, convivendo com a mesma terra, as mesmas árvores, os mesmos problemas, as alegrias e tristezas, sem afetar a união dos povos.

Alfonsín foi nesses fatos ainda recentes o grande artífice dessa união. Sem ele, não existiria o Mercosul, nem a Ata de Iguaçu, nem o tratado de morte à corrida nuclear, na concretização da pesquisa nuclear para a paz, apenas para fins pacíficos, civis, de bem-estar do povo.

Quando me reuni com Alfonsín, em Foz de Iguaçu, em 1985, e apertamos as mãos (a deputada Marcela Pagano se refere a esse encontro inaugural), começava um novo tempo, no Brasil, chamado Nova República, para benefício da humanidade, pois, dali, saiu ser a América do Sul o único continente do mundo sem armas nucleares. Ali eu propus ao Alfonsín que iniciássemos uma nova era para a América do Sul, com a política de cooperação entre nossos países, e não de confrontação. De integração. Devo recordar também de Julio María Sanguinetti, então presidente do Uruguai, que acreditou em nosso projeto e foi o primeiro a apoiá-lo.

Agora me dirijo à brilhante deputada Marcela. Ela disse que os dois presidentes daquela época, da Ata de Iguaçu, não estavam mais vivos: "Nenhum dos dois está mais vivo." Estou aqui, deputada Marcela, para repetir aquilo que sempre digo: fui o presidente do Brasil que mais amor teve pela Argentina. E para dizer mais: torci e sofri pela Argentina na Copa do Mundo. E não sou fanático pelo futebol. Contei essa história de meu amor pela Argentina a toda minha família, que participou dessa torcida pelo seu país: eu, com 96 anos, três filhos, 15 netos e 23 bisnetos!…

Gonçalves Dias, o maior poeta brasileiro, foi dado como morto na Europa. No Rio, foram celebradas missas, uma do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Ele, quando soube, escreveu uma carta de próprio punho dizendo: "Não morri! Nem morro! Nem hei de morrer nunca mais!".

Eu não digo tal, apenas peço que não esqueçam aquele trabalho pela paz, meu e de Alfonsín. Pelo que fizemos. Do Mercosul. Do banimento das armas nucleares entre Brasil e Argentina, tornando a América do Sul o único continente no mundo livre dessa ameaça de destruição.

Símbolo dessa amizade indestrutível foi o meu convite a Raúl Alfonsín para inaugurar a Usina Secreta de Aramar, onde se processava o enriquecimento de Urânio. Convite eternizado na placa ali posta: 

"Esta usina foi inaugurada pelo presidente da Argentina Raúl Alfonsín". 

Essa atitude é tida como um exemplo para o mundo.

Só pudemos chegar a essas metas porque Alfonsín e eu fomos os presidentes que implantaram a democracia depois da ditadura e do regime autoritário. Agora, sempre juntos, jogando no mesmo time, Pelé e Messi, Maradona e Ronaldo Fenômeno, Sarney e Alfonsín, Argentina e Brasil.

*José Sarney — ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

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