quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

KASSAB MIRA EM HADDAD E ACERTA NO PRESIDENTE LULA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Na avaliação do presidente do PSD, qualquer candidato de centro que chegar ao segundo turno tem chances de derrotar Lula. Eduardo Bolsonaro (PL-SP) é o único que perderia

Nem só a oposição bolsonarista sentiu o cheiro de animal ferido na floresta, os aliados de conveniência também. E se aproveitam da queda de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a começar por Gilberto Kassab, presidente do PSD, que até agora manteve um pé em cada canoa, mas nesta quarta-feira subiu o tom contra o governo, para aplausos da oposição. Em evento com empresários e executivos do banco de investimento UBS BB, em São Paulo, disse que Fernando Haddad é fraco na condução do Ministério da Fazenda: “Um ministro da economia fraco é sempre um péssimo indicativo”.

Kassab aqueceu a fritura que o ministro da Fazenda já vem sofrendo por parte da presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PR), cotada para ser ministra, e do ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, cada vez mais poderoso: “Eu acredito no sucesso da economia quando você tem ministros de economia fortes. No próprio governo do FHC, no qual eu fui deputado federal, você ia levar algumas sugestões para o presidente e ele mesmo falava ‘isso não é comigo, é com o Malan’. No governo Lula, o Palocci comandava. No governo Temer, Meirelles comandava. Todos os bons momentos do Bolsonaro foram relacionados ao Paulo Guedes. E a presidente Dilma não foi bem porque ela queria comandar a economia”.

O presidente do PSD critica Haddad num momento de fraqueza do ministro, por causa do desgaste sofrido por Lula em razão de uma instrução normativa sobre fiscalização do Pix emitida pela Receita Federal, que passou para a opinião pública a falsa ideia de que seria cobrada uma taxa nas operações dessa modalidade. Quando atira em Haddad, porém, Kassab acerta no presidente Lula, cuja reeleição põe em dúvida: “O PT não estaria na condição de favorito, mas na condição de derrotado. Não vejo uma articulação para reverter essa tendência de piora no cenário. Não vejo nenhuma marca boa, como teve FHC e o Lula nos primeiros mandatos”, disse.

Na avaliação de Kassab, o governo federal tem errado na condução da política econômica e não tenta corrigir sua rota. Se a eleição presidencial fosse hoje, Lula perderia. Entretanto, ainda seria um candidato forte: “Ele tem muita experiência, pode fazer uma reviravolta no seu governo. O que precisa fazer para ganhar, ele faz”, ponderou. Kassab sabe que o Lula ainda tem muitas cartas na manga, uma delas foi anunciada nesta quarta-feira: a aprovação de empréstimos consignados para trabalhadores com carteira assinada, como lastro no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), proposta que torna esse crédito acessível a 40 milhões de trabalhadores.

Entretanto, o consignado aponta na direção da expansão do crédito para consumo, com objetivo de manter a economia aquecida, com juros mais baixos, à custa do maior endividamento da população, ou seja, mais uma fuga para a frente na questão fiscal. Lula não se convenceu de que o governo precisa de contenção de gastos para reduzir a dívida pública e controlar inflação, sem o Banco Central ter que aumentar ainda mais a taxa de juros. Com isso, gera desconfiança no mercado e faz a balança do equilíbrio fiscal pender para o aumento da arrecadação, num momento em que o Congresso se recusa a aumentar impostos, com apoio dos consumidores.

Reforma ministerial

O PSD conta com três ministros no governo Lula: Carlos Fávaro (Agricultura), André de Paula (Pesca) e Alexandre Silveira (Minas e Energia). Nos bastidores do Palácio do Planalto, havia quem defendesse que Kassab viesse a fazer parte de governo como ministro da Agricultura, na reforma ministerial que está sendo gestada no Palácio do Planalto. No entanto, subiu no telhado a tese de que Lula deveria formar um ministério com os caciques das legendas que participam do governo, com objetivo de aprovar as matérias de seu interesse no Congresso e formar a coalizão eleitoral que articula para concorrer à reeleição. Perdeu expectativa de poder.

Com as declarações desta quarta-feira, Kassab descartou qualquer possibilidade de deixar o governo de Tarcísio de Freitas (PR) para ser ministro de Lula. Prefere manter distância regulamentar do projeto de reeleição e trabalha para que o PSD seja uma alternativa de poder, seja em aliança com Tarcísio de Freitas, cada vez mais pressionado a concorrer à Presidência, seja com um candidato próprio. As conversas para uma fusão com o PSDB caminham nessa direção.

“É uma conversa difícil, porque o PSDB tem muita história, mas é uma conversa que está acontecendo, pode ser bem-sucedida e pode resultar num partido maior, mais fortalecido, com grande perspectiva de ocupar um espaço mais importante ainda no cenário da política brasileira”, explica. Kassab não descarta a possibilidade de lançar o atual governador do Paraná, Ratinho Junior, como candidato do PSD, ou mesmo Eduardo Leite, o governador tucano do Rio Grande do Sul, caso a fusão se concretize.

Na avaliação de Kassab, qualquer candidato de centro que chegar ao segundo turno tem chances de derrotar Lula. O único que perderia a disputa seria Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho de Jair Bolsonaro, ou outro nome ligado à família, como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ou a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Por ironia, a fragmentação da oposição, com as candidaturas de Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (União Brasil) e Ratinho Jr., favorece Bolsonaro, que poderia levar seu candidato ao segundo turno, se carrear de 18% a 20% dos votos para quem apoiar.

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O MAIOR RISCO PARA IBGE

Malu Gaspar, O Globo

Quem reclama que o governo Lula não produziu grandes novidades se esquece de olhar para as crises. Nesse quesito, Lula 3.0 tem inovado. Depois da crise do Pix, que machucou seriamente a popularidade do presidente da República, o foco é o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável pelo Censo populacional e pelos dados de inflação e PIB, entre outras estatísticas relevantes.

O caso ainda não viralizou como o anterior, mas a semente está plantada. Já começaram a surgir fake news sugerindo que esteja havendo manipulação de dados de inflação ou de emprego, e até um pedido de CPI já foi anunciado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).

Não se conhece nenhum indício de manipulação, mas isso não quer dizer que a crise no IBGE não seja grave. Seu presidente, o economista Marcio Pochmann, conseguiu a proeza de unir contra si 289 coordenadores e gerentes do instituto — gente que nunca se manifestou publicamente contra nenhum outro dirigente da instituição, nem no governo Bolsonaro. Eles subscreveram uma carta em solidariedade a duas diretoras que pediram demissão por divergências e falta de interlocução com o chefe.

O principal foco de insatisfação é a Fundação IBGE+, entidade de direito privado sem fins lucrativos conhecida internamente como “IBGE paralelo”. Foi criada por Pochmann em julho passado para fazer convênios e parcerias público-privadas, mas os funcionários só descobriram que ela existia em setembro.

Depois disso instalou-se a revolta, não só pela falta de transparência e diálogo, mas também pelo que os servidores chamam de risco para a soberania estatística do instituto. Fundações como a IBGE+ não são novidade. A Fiocruz tem a Fiotec, e não consta que tenha sido privatizada. Mas o caso do instituto é, sim, delicado e tem riscos.

Assim como a Receita Federal, o IBGE guarda informações de todos os brasileiros, que franqueiam acesso às suas casas, confiando que serão usados na produção de estatísticas para a elaboração de políticas públicas. Permitir que empresas, entidades e até governos estrangeiros tenham acesso a esses mesmos dados não é trivial.

Outro problema é o conflito de interesses. O IBGE segue um planejamento anual, quase sempre executado com dificuldade em razão da falta de recursos. Quem garante que um projeto com dinheiro privado não passará à frente de outros de dentro do instituto?

Nada disso, porém, foi discutido às claras nem com a sociedade nem com os técnicos e analistas, que discordam do formato da fundação. Ao assumir o cargo, Pochmann criou o projeto Diálogos, encontros da direção com os servidores para discutir “o futuro do IBGE”. Quem participou desses eventos, porém, diz que mais pareciam assembleias estudantis em que os dirigentes já chegam com uma lista de assuntos para ser ratificada. A IBGE+ nunca entrou na pauta.

Especialista em assuntos sindicais, Pochmann foi apoiado pelos sindicalistas do IBGE ao assumir a presidência. Mas, depois que o sindicato se opôs à fundação, ele enviou ao Ministério Público uma denúncia em que acusa um grupo de funcionários de prestar consultoria para o setor privado, sugerindo que eles possam estar ganhando dinheiro por fora à custa dos dados e da expertise do IBGE. Embora não seja vedado aos servidores prestar consultoria fora do horário de trabalho, claro que o caso precisa ser investigado.

Não há como não associar o que acontece no IBGE ao que se passou quando Pochmann presidia o Ipea, entre 2009 e 2012, nos governos Lula e Dilma Rousseff. Foi um período igualmente marcado por demissões de quem se opunha a seus projetos, além de acusações de interferência na equipe técnica para favorecer índices econômicos das gestões petistas.

Por isso mesmo, sua escolha para o IBGE preocupou muita gente no governo — incluindo a ministra do Planejamento, Simone Tebet, a quem o instituto está subordinado. Lula, porém, reivindicou para si a escolha e assumiu a responsabilidade.

Ontem, depois de uma reunião entre Pochmann e Tebet em Brasília, o Ministério do Planejamento anunciou ter suspendido a fundação para que sejam mapeados “modelos alternativos”. O líder da oposição no Senado FederalRogério Marinho (PL-RN), pediu o afastamento de Pochmann ao Tribunal de Contas da União (TCU), que já analisa o caso da fundação.

Nada disso diz respeito à confiabilidade dos dados do Censo, da inflação ou do emprego. Mas esse caso mostra que a instituição, que já lutou até contra um presidente da República que não queria fazer o censo, permanece unida. O grande risco para o IBGE, hoje, é seu próprio presidente.

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A FAIXA E A BÍBLIA: POSSE E 'INAUGURAÇÃO'

Roberto DaMatta, O Globo

Num regime aristocrático ou autocrático, não há disputas. Mas, nas democracias, a disputa requer pompa e circunstância

As etapas que legitimam a investidura de um cidadão como presidente são semelhantes nas democracias. Há candidatos, e uma eleição diz quem é o vitorioso. Mas, entre a vitória nas urnas e o cargo de supremo magistrado da nação, há diferenças que o estudo comparado do lado simbólico da vida social revela.

Porque nós, pós-modernos, guiados pela racionalidade tecnológica e pela implacabilidade dos mercados, investimos num ritual tão elaborado quanto dispendioso para investir um eleito na Presidência? Num regime aristocrático ou autocrático, não há disputas. Mas, nas democracias, a disputa requer pompa e circunstância ritual, talvez na esperança de assegurar uma continuidade que, como testemunhamos, tem a fragilidade das promessas humanas.

A “reinauguração” de Donald Trump revela como, nos Estados Unidos e no Brasil, esses ritos de passagem de poder mostram concepções diferentes de poder e política. Nos Estados Unidos, o rito se faz numa “inauguração”; no Brasil, numa “posse”. Dir-se-ia que procuramos chifre em cabeça de cavalo, mas “posse” remete a apropriação, ao passo que “inauguração” fala de história, de inicio, meio e fim — etapas que este furioso mandato de Donald Trump torna discutível.

Outra distinção é que, no Brasil, a posse tem dois momentos. O primeiro no Congresso Nacional, onde o eleito discursa e assina — o assinar é fundamental ao elitismo, porque o país ainda tem quem não saiba assinar o nome — o sagrado Livro de Posse. O segundo momento ocorre no Palácio do Planalto, quando o presidente “sobe” a rampa e recebe a faixa presidencial do magistrado que deixa o cargo. Há um lado impessoal, com ênfase no jurídico-burocrático, e um lado pessoal, em que os presidentes cumprimentam-se e trocam a faixa.

A “inauguração” americana tem um só ato: o juramento e o discurso-pregação do novo presidente. Todas as atenções se voltam para o novo mandatário, que figura como pastor, líder e, no caso de Trump, The Messiah que promete inaugurar uma idade de ouro da América. Algo mais parecido com um tiranete latino por ele abominado do que com um seguidor da tradição americana.

Chama a atenção que, nos Estados Unidos, o centro da solenidade seja um juramento numa Bíblia e, no Brasil, a passagem de uma faixa. No caso americano, a mão direita sobre o livro sagrado avaliza a fidelidade da promessa de garantir a Constituição. No caso brasileiro, a penetração do corpo numa faixa que representa a República sugere apropriação física.

No dia 20 de janeiro, vimos Trump, que não encostou na Bíblia, passando por um ritual cívico-religioso tipicamente puritano, feito de palavras e promessas que dificilmente — como ele mesmo anunciou messianicamente — serão cumpridas.

Se, nas investiduras reais, a coroa e o cetro são os símbolos do poder, nas duas maiores repúblicas constitucionais do continente americano o que articula a solene passagem do mais alto cargo nacional é o contato com a Bíblia e a vestimenta da faixa que sedutoramente envolve o corpo presidencial. No rito americano, destacam-se as mãos que juram solenemente exercer um papel que o ritual salienta como passageiro; no brasileiro, dramatiza-se o corpo que penetra a faixa, como que “possuindo” a Presidência e o país.

Trump — com sua fúria isolacionista e claramente simpática a um nacionalismo exclusivista, típico dos fascismos — ensina que os juramentos e promessas são instituídos para tentar fixar instituições no tempo. São ritos repletos de boas intenções, mas sujeitos ao que chamamos de inesperados — esse aspecto básico da dimensão humana.

Valha-nos Deus!

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JUROS MAIS ALTOS EM TODO O MUNDO

Míriam Leitão, O Globo

Fim de ciclo de corte na taxa americana indica juros mais altos em todo o mundo

O encerramento do ciclo de corte de juros nos Estados Unidoscom a manutenção da taxa básica entre 4,25% e 4,5%, tem um efeito sobre os juros mundo afora. Isso porque os juros americanos são uma espécie de patamar mínimo de juros global, explica o economista Thiago Moraes Moreira, professor do Ibmec-RJ. Como o dólar e os títulos públicos americanos (os Treasures) são considerados os investimentos mais seguros do planeta, quando a taxa básica da economia americana se estabiliza em patamar considerado alto para o padrão local, indica que os juros tendem a ficar mais altos nos demais países para poderem atrair capital para seus respectivos mercados. No Brasil, a estimativa de consenso é que a Selic chegue a 15% ao fim do ano, mas já há quem fale até em 17%, diz Moreira.

- Os juros mais altos são perigosos para a economia global, inflação com juros altos levam à desaceleração da economia, seja por redução de investimentos ou do consumo das famílias, ou pelos dois. Se ultrapassarmos os 15% aqui no Brasil haverá uma desaceleração grande da economia, que pode levar o PIB a crescer 0,5% ou até zero, depois de uma alta que deve ultrapassar 3,5% em 2024, e o desemprego pode voltar à casa de pelo menos 8%. É difícil competir com juros reais de 10% e os investimentos serão reduzidos, assim como o crédito ao consumidor ficará mais caro. Fica difícil convencer alguém a investir, quando sem risco nenhum um título público lhe garante 10% - diz o economista.

E acrescenta:

- A política de Trump, de aumentar tarifas, como disse que fará com Canadá, México e China, e deportação de imigrantes tem um impacto inflacionário, o que deve manter os juros nos EUA mais altos.

Moreira ressalta que, apesar do discurso de parte do mercado de que o crescimento da economia vem sendo "anabolizado" pelo gasto público, até aqui o gasto privado vem crescendo praticamente o dobro do que se registra no gasto público:

- O mercado tem uma hipersensibilidade às declarações do governo e pode autorrealizar a profecia de fiscal e inflação descontrolados, se continuar com essas previsões de juros chegando a quase 20%. A verdade é que até aqui o governo não se mostrou irresponsável pelo lado fiscal. O gasto que mais vem crescendo é o privado, 7,5% contra 4% do gasto público. O discurso de parte do mercado é que a economia está "anabolizada" pelo gasto do governo, mas esse não é o fato. A Selic, estabelecida pelo Copom, é apenas um ponto na curva de juros, mas o mercado financeiro forma a chamada “curva de juros” e pode fazer com que a expectativa de alta cresça e autorrealizá-la.

E o aumento de juros, como ferramenta para conter a inflação, não é remédio para todos os problemas. No caso dos alimentos, grupo que mais pesou para que a taxa superasse a meta, é muito pouco afetado pela alta da Selic. Influenciada por efeitos climáticos mundo afora, quebras de safra, como aconteceu, por exemplo, com o café, pelo efeito do câmbio, a inflação de alimentos precisa de outros remédios que não estão no cardápio do Banco Central:

- Os antídotos para a inflação de alimentos são outros e terão de vir do governo, como informou de forma atabalhoada o ministro. Imposto é um caminho, mas também a discussão de margens com os vendedores, pois a lucratividade nesse setor é muito relevante. Não à toa o governo andou conversando com a Abras. O incentivo à maior concorrência nas redes varejistas de alimentos é uma alternativa - diz Moreira, do Ibmec-RJ.

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GEOECONOMIA E BENS DE PRODUÇÃO NO BRASIL

Assis Moreira, Valor Econômico

Estrutura produtiva brasileira passa ser mais sensível a decisões de China, Ìndia e Rússia, e não só de EUA e UE

Praticamente coincidindo com a volta de Donald Trump à Casa Branca, o Ipea (Instituto de Pesquisa Economica Aplicada), vinculado ao Ministério do Planejamento, acaba de publicar um texto para discussão sobre a origem geográfica dos bens de produção na economia brasileira assinado pelo economista Renato Baumann.

Normalmente, como lembra Baumann, as análises de relações econômicas entre dois países ou grupo de países concentra o foco no comércio (superávit ou composição da pauta de exportações e importações) e nos fluxos de recursos (magnitude e ritmo de investimentos diretos e de fluxos financeiros bilaterais).

Mas ele explica que adotou um foco diferente, buscando identificar o peso de alguns parceiros selecionados sobre a capacidade potencial de influenciar a estrutura produtiva do Brasil pela oferta de bens de produção. Pela lógica geoeconômica, quanto mais intensa a participação no emprego desses bens no processo produtivo local, maior a margem para a influência econômica e eventualmente política sobre o país.

Foram levados em conta dois períodos, imediatamente antes e logo após a pandemia de covid-19. A estrutura produtiva está associada ao fornecimento de máquinas, equipamentos, partes, peças, componentes e matéria-prima.

O estudo aponta “indicações relevantes” de “notável avanço” do Brics no Brasil (sobretudo a China, mas não apenas ela), com um processo de substituição, e redução de participação dos EUA e da União Europeia (UE) nas trocas bilaterais.

O peso dos países que formam o Brics ampliado no total das exportações brasileiras aumentou de 34,6% para 35,6% entre 2018-2019 e 2021-2023. Já os embarques brasileiros para os Estados Unidos e UE declinaram de 27,2% para 25,2%.

Os Estados Unidos e a UE tiveram também perda de peso relativo na origem dos produtos importados pelo Brasil, caindo de 37,4% para 34,7%. Por sua vez, o grupo Brics aumentou sua fatia de 26% para 32% nas compras brasileiras no exterior.

Especificamente sobre os bens de produção provenientes dos Estados Unidos e da UE, igualmente tiveram ligeira queda de participação de 37% para cerca de 35%. Já o Brics ampliado aumentou sua fatia de quase 30% para mais de 35%.

Mesmo nas áreas de manufaturados em que permanece o predomínio dos produtos americanos e europeus, a entrada de bens fornecidos pelo Brics subiu bastante. Nos setores produtivos considerados na matriz de insumo-produto brasileira, o aumento de fatia dos produtos do Brics é uma característica de quase todos os setores no período pós-pandemia, segundo o estudo.

Em químicos e derivados, o peso relativo dos produtos vindos dos Estados Unidos e da UE era 65% mais elevado que o dos produtos do Brics antes da pandemia. Caiu para 12% no período mais recente.

Em manufaturados segundo o material, a fatia dos Brics já era 28% mais elevada, e o diferencial aumentou para 65% nos últimos anos. Em máquinas e material de transporte, a fatia dos Estados Unidos e da UE era 11% superior à do Brics, mas esse diferencial foi reduzido para pouco mais de 1% recentemente.

Em manufaturas diversas, a vantagem dos produtos americanos e europeus era quase três vezes a participação do Brics. Caiu para 43%.

É preciso ver que, de modo geral, os preços médios dos produtos americanos e europeus aumentaram várias vezes mais que o ocorrido nos preços médios dos produtos do Brics entre os dois períodos analisados.

O aumento da presença no mercado brasileiro de bens de produção pelo grupo Brics é importante, mas, nota Baumann, não significa que as mercadorias americanas e europeias tenham passado a ter participação marginal nas importações brasileiras dessa categoria.

Mas é inegável que a estrutura produtiva brasileira passa ser mais sensível a decisões de política e ajustes ocorridos em Pequim, Nova Déli e Moscou, e não só em Washington e Bruxelas.

A alteração ocorrida em um intervalo de tempo relativamente curto, em favor principalmente de seus sócios originais do Brics - China, India, Rússia e África do Sul -, chama atenção para a dimensão geoeconômica, pela alteração dos vínculos econômicos no núcleo central dos processos produtivos.

Em tempos de “desencontro” entre parceiros importantes, o alinhamento de posições no cenário internacional pode vir a ter implicações sobre o processo produtivo, avalia Baumann.

No cenário de intensificação da concorrência acirrada entre grandes potências, aumenta a chance de o acordo comercial UE-Mercosul ser ratificado mais rapidamente em Bruxelas. Países como a Alemanha querem recuperar mercados. De seu lado, Trump continuará ameaçando tudo e todos.

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O CONVÍVIO SOCIAL FICOU DE RECUPERAÇÃO

Rudá Ricci*, Correio Braziliense

Muito além das notas do Ideb ou do Enem, a educação também se aufere pelo desenvolvimento humano, como bem nos lembra a ONU neste dia 24 de janeiro, o Dia Internacional da Educação

Em 24 de janeiro, o mundo celebrou o Dia Internacional da Educação. Instituída pela ONU, a efeméride deste ano foi dedicada à discussão sobre a inteligência artificial (IA) e seu impacto em sala de aula. Mais do que o uso adequado desse recurso, a discussão sobre esse ou qualquer outro tema ligado à educação precisa estar alinhada à missão civilizatória do ensino. Esse direito universal transcende não apenas a tecnologia, mas também as gerações e os territórios, na busca do desenvolvimento humano, com equidade e paz.

Como em todo o planeta, nosso Brasil chega a 2025 com muitos e complexos desafios na educação. Por aqui, os efeitos da pandemia ainda ecoam nas escolas, sobretudo nos estudantes que, durante o isolamento, enfrentaram uma situação de extrema vulnerabilidade econômica. Quase sempre de famílias lideradas por mulheres, esses alunos sentiram o abalo do já fragilizado equilíbrio familiar, vendo suas mães impedidas de trabalhar, logo, sem garantir o sustento e a capacidade daquela casa em acreditar no futuro. Dados coletados pelo Instituto Cultiva à época revelam que grande parte dessas pessoas passava mais de seis horas seguidas de frente para a televisão, em silêncio, dentro da verdadeira gruta que se transformaram as suas apertadas residências.

Com a limitação da interação, do universo vocabular e da prática da convivência em sociedade, os efeitos econômicos da pandemia se somaram a uma consequência ainda pior para a educação no país: a baixa tolerância de crianças e adultos para se respeitarem uns aos outros. Quando as escolas foram reabertas, houve uma grande preocupação em recuperar o tempo perdido do ensino com sobrecargas de conteúdo na garotada. Novas tecnologias foram implantadas e fórmulas de ensino salvadoras eram — e são até hoje — vendidas como a solução para preparar os jovens para o mercado.

Mas e o convívio social? Muito além das notas do Ideb ou do Enem, a educação também se aufere pelo desenvolvimento humano, como bem nos lembra a ONU neste dia 24 de janeiro. O que esperar dos nossos alunos diante da chegada da inteligência artificial, por exemplo? Para além da promessa de acesso ao conhecimento, sabemos que essa é mais uma tecnologia que irá exacerbar as desigualdades brasileiras se não for utilizada de forma inclusiva, sem contar o impacto psicológico e cognitivo nos estudantes.

Assistimos recentemente à proibição do uso dos celulares nas escolas, como uma tentativa de mitigar esse problema. Em A geração ansiosa, Jonathan Haidt apresenta evidências sobre como o uso excessivo de smartphones prejudica a saúde mental de adolescentes, especialmente meninas, que enfrentam uma pressão por validação social em plataformas digitais. Sabemos da relação direta entre o aumento de depressão, automutilação, tentativas de suicídio e violência com o uso de redes sociais. Contudo, como o foco excessivo em preparar o aluno para o vestibular vai nos ajudar a sanar essas questões tão urgentes?

Enquanto celulares e IA são regulados, a desvalorização dos professores completa nosso cenário desolador. Hoje, somente 2% dos estudantes de ensino médio desejam seguir a carreira docente. Não poderia ser diferente, dado os baixos salários e a completa falta de infraestrutura enfrentada pelos professores. Precisamos que a valorização do magistério vire tema de redação do Enem para os gestores públicos investirem na profissão?

É alarmante que o ensino público, sob a justificativa de inovação, esteja utilizando modelos prontos de gestão que desvirtuam o papel social, humanizador e comunitário da escola. Para avançarmos rumo a uma sociedade mais equitativa, precisamos redefinir as prioridades do sistema educacional. A educação não é uma mercadoria; é um bem público essencial para a consolidação da democracia.

Tudo isso é pauta para o novo Plano Nacional de Educação, a ser discutido no Congresso em 2025. A celebração deste Dia Internacional da Educação pode ser, portanto, uma das últimas chances para refletirmos sobre o tipo de educação que realmente desejamos para os próximos 10 anos do Brasil e o quão distantes estamos desse sonho. 

*Cientista político e presidente do Instituto Cultiva

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BRASIL: UM ENREDO DE GOVERNABILIDADE E REINVENÇÃO

Eduardo Galvão*, Correio Braziliense

Lula enfrenta um desafio que poderia ser tema de um épico político: governar um país dividido, em que alianças frágeis e interesses conflitantes tornam cada decisão um ato de coragem

Se a política brasileira fosse uma novela, estaríamos em um daqueles episódios de reviravolta — o tipo em que os personagens enfrentam dilemas impossíveis, mas, ainda assim, deixam os espectadores ansiosos pelo próximo capítulo. Só que, ao contrário da ficção, aqui não há roteirista. O Brasil está no centro de uma trama que envolve governabilidade, reformas e um povo que, apesar de tudo, ainda acredita em mudanças.

Parece simples? Não é. A política brasileira tem o dom de transformar cada avanço em um campo de batalha. Como pensa Steven Levitsky, autor de Como as democracias morrem, a democracia morre na sombra da polarização. E o Brasil, como muitos países, atravessa um momento em que as disputas vão além do campo ideológico. Elas se tornam pessoais, agressivas e paralisantes, transformando verdades em trincheiras e desacordos em conflitos permanentes.

O presidente Lula, em seu terceiro mandato, enfrenta um desafio que poderia ser tema de um épico político: governar um país dividido, em que alianças frágeis e interesses conflitantes tornam cada decisão um ato de coragem. Como destacou o Banco Mundial em relatório recente, as reformas estruturais são necessárias, mas difíceis.

É nesse contexto que entram as reformas administrativa e tributária, junto com ajustes fiscais que buscam equilibrar as contas públicas. O problema? Cada uma delas é um jogo de alto risco. Para atender ao mercado e ao Centrão, o governo pode desagradar sua base progressista. E, para agradar sua base, pode perder a confiança de investidores e aliados estratégicos.

Ainda assim, o governo precisa avançar. Sem reformas, a máquina pública continuará emperrada, os juros continuarão altos e o custo de vida seguirá sufocando a população. A inflação não é só um número, é o prato vazio na mesa do brasileiro. Essa frase, que carrega a realidade de milhões, traduz como decisões políticas afetam diretamente a vida cotidiana. Não há espaço para erros ou promessas vazias.

Enquanto o governo tenta equilibrar interesses, o Brasil segue aguardando respostas. É aqui que surge a verdadeira questão: a mudança de que o país precisa não virá apenas de Brasília. Virá da capacidade de conectar políticas públicas à realidade das pessoas. Virá de cidadãos que enxergam a própria responsabilidade no processo político.

A história recente mostra que o Brasil já superou crises enormes, mas sempre a um custo alto. Isso precisa mudar. O país tem o potencial de ser uma potência global, mas é necessário investir onde realmente importa: educação, tecnologia e redução das desigualdades. Não se trata apenas de reformas fiscais, mas de criar um modelo de desenvolvimento sustentável, onde a inclusão social seja o pilar central.

Essa nova narrativa exige mais do que líderes inspirados; exige uma população engajada. "Quem não participa da política vive as escolhas dos outros", e essa verdade nunca foi tão urgente. O eleitor brasileiro tem em suas mãos a possibilidade de não apenas escolher quem governa, mas também de cobrar resultados e participar do processo decisório.

Um exemplo disso são as redes sociais, que deixaram de ser apenas espaços de debate para se tornarem ferramentas de mobilização e conscientização. Ao mesmo tempo, elas também podem amplificar desinformação e polarização, dois venenos que enfraquecem a democracia. Combater isso é um esforço coletivo.

O Brasil está escrevendo um capítulo decisivo de sua história. Como em qualquer boa narrativa, os desafios são o que definem os protagonistas. Mas, diferentemente da ficção, aqui não há espectadores. Todos estão envolvidos, queiram ou não.

Se "polarizar é fácil, dialogar é coragem", qual será a coragem que teremos para enfrentar nossos desafios? O próximo capítulo do Brasil ainda não está escrito, mas cabe a nós decidir se será uma história de avanços ou mais um ciclo de oportunidades perdidas.

A política brasileira não precisa de heróis; ela precisa de pessoas dispostas a transformar indignação em ação. E, acima de tudo, precisa de uma sociedade que entenda que o futuro é construído, um passo de cada vez — mas que cada passo importa.

*Professor de políticas públicas no Ibmec DF e diretor de public affairs da consultoria internacional Burson

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RODRIGO BOCARDI É DEMITIDO DA GLOBO

Tiago Minervino, UOL Colaboração para Splash, em São Paulo

Rodrigo Bocardi é demitido da Globo por 'descumprir normas éticas'

A Globo anunciou, nesta quinta-feira (30), a demissão de Rodrigo Bocardi, âncora do Bom Dia São Paulo, por "descumprir normas éticas" do jornalismo da emissora. Procurada, a Globo disse que não dará mais detalhes sobre a demissão do jornalista.

O que aconteceu

Bocardi foi desligado e não voltará ao comando do Bom Dia SP. Em nota, a Globo não forneceu maiores detalhes sobre quais normas foram infringidas pelo jornalista. "Como é de conhecimento de todos, a empresa não comenta decisões de compliance", informou a emissora.

Sabina Simonato assume interinamente o comando do telejornal a partir desta sexta-feira (31). A jornalista está escalada para comandar o Bom Dia Sábado, ao lado de Marcelo Pereira, que estreia neste sábado, dia 1º de fevereiro.

O jornalista Rodrigo Bocardi entrou na Globo em 1999, foi correspondente em Nova York por quatro anos entre 2009 e 2013. Desde maio de 2013, ele apresentava o Bom Dia SP, também com participação direta no Bom Dia Brasil.

Rodrigo também participava de um rodízio de âncoras do Jornal Nacional. A última vez que o jornalista esteve na bancada do principal telejornal da emissora foi no último sábado (25), ao lado de Ana Paula Araújo.

Até o momento, Bocardi não se manifestou sobre sua demissão. Splash tenta contato com o jornalista para pedir posicionamento.

Na Globo, Bocardi ficou conhecido pelo jeito descontraído de apresentar o Bom Dia SP, mas também pelas polêmicas. Ele chegou a ser acusado de racismo por sugerir que um atleta negro entrevistado no jornalístico seria gandula de um clube de futebol. Posteriormente, o apresentador refutou as acusações.

Relembre trajetória de Bocardi na Globo

Antes de ir para a Globo, Bocardi foi contratado da Band e da extinta TV Manchete. Ele estreou na Globo em 1999 como editor de texto do SPTV - 2º edição, depois foi para o Jornal da Globo.

Bocardi estreou como repórter em 2002 no programa Antena Paulista. Em 2003 ele deixou a Globo para trabalhar na TV pública de Angola, período em que passou por vários países da África. O jornalista retornou para a Globo em 2004 novamente na função de repórter, inclusive do Jornal Nacional.

 

Em 2009 ele se tornou correspondente da Globo em Nova York. Retornou para o Brasil em 2013, quando assumiu a titularidade do Bom Dia SP. No telejornal, ele imprimiu uma característica mais dinâmica, sem a tom sóbrio de outros telejornais da casa, como o JN.

Desde 2016, Bocardi virou plantonista do JN. No grupo Globo ele também teve passagem pelo SPTV 1 º edição, âncora do Jornal da Globo e comandou programa na Rádio CBN.

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O QUE ERA RUIM, FICOU UM POUCO PIOR

Torres Freire, Folha de S. Paulo

Festa do risco não tem hora para acabar, cenário indica Selic bem maior, bola está com governo

Não houve grande novidade no comunicado em que o Banco Central informou ao público sua decisão de elevar a Selic de 12,25% para 13,25%. Mas houve alguma novidade:

1) menção enfática ao risco de danos da política econômica de Donald Trump; 2) menção explícita do risco de o desemprego baixo no Brasil acabar em mais inflação; 3) a projeção de inflação do BC para o "horizonte relevante" de sua atuação continuou em 4%. Quer dizer, nem a promessa de arrocho refrescou o IPCA anual previsto para o terceiro trimestre de 2026.

As expectativas de inflação continuam em alta, a inflação de serviços continua pressionada, o PIB estaria em ritmo acima do que a economia aguenta sem produzir inflação. A economia "externa" (EUA) e interna (gastos do governo) podem desvalorizar o real ainda mais.

O que era ruim, ficou algo pior. Não há dica quanto ao futuro da Selic: decisões serão ditadas pelo compromisso de cumprimento da meta. Inflação perto de 3% em 2026? Nesse cenário atual ruim? Selic a 15% ficaria barato.

O comunicado do BC não inventou moda. Mas repete e enfatiza que a bola está com o governo.

O Fed não tem pressa para "ajustar a política monetária". A taxa básica de juros está acima do nível neutro. Ainda é preciso haver sinais de folga no mercado de trabalho e/ou que a inflação irá para a meta até o ano que vem (a medida de inflação preferida pelo Fed está 2,6%; a meta é de 2%; se cair para uns 2,3% até meados do ano, haveria relaxamento nos juros, estima-se).

Foi o que disse Jerome Powell, presidente do Fed com mandato até maio de 2026, nesta quarta. Powell fez questão de insinuar, por assim dizer, que o Fed é independente. Trump não gosta de nada disso.

A taxa básica está em 4,5% ao ano. No início de Trump 1, em 2017, estava em 0,5%. Foi a 2,5% em 2019, antes de ser talhada a zero, de novo, por causa da epidemia. Na maior inflação das últimas quatro décadas, chegou a 5,5% em 2023-2024, taxa mais alta desde o início do século, próxima dos 5,25% de 2006-2007, antes da explosão da crise de 2008.

Por causa desse desastre financeiro, a taxa de curto prazo baixara a zero. O Fed teve de intervir para diminuir também as taxas de longo prazo e, no fim das contas, subsidiou o custo de financiamento (juros) do governo e do setor privado.

E daí? Haverá mais 7 reuniões do Fed neste ano. Pelos chutes informados e pelos preços de "o mercado", haveria no máximo dois cortes de juros básicos.

Tal talho ainda está sub judice, não apenas por causa do ritmo ainda forte de atividade econômica. Não se sabe o que vai ser da política econômica dos EUA. Nada se sabe do que será feito dos déficits e dívida gigantescos: da pior situação fiscal geral em 50 anos e dos piores déficits afora aqueles dos anos da crise pós-2008 e da epidemia.

Não se sabe se Trump vai piorar tal situação, provocando ainda aumentos de custos com política comercial protecionista e caça a imigrantes.

Durante quase o século inteiro, as taxas de juros foram baixinhas nos EUA. Não será mais assim, por um bom tempo. Não há mais o crescimento disparado da China ou do preço de commodities. Há o risco Trump. Para variar, estamos de fora de mais uma revolução tecnológica, que é uma daquelas profundamente transformadoras.

O que temos discutido? Se é preciso importar milho e o bagaço da laranja, como no velho pagode.

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ISOLAMENTO DA EXTREMA DIREITA CAI NA ALEMANHA EM VOTAÇÃO HISTÓRICA

José Henrique Mariante, Folha de S. Paulo

Moção sobre imigração para constranger governo Scholz é aprovada com apoio da AfD, marco do país no pós-guerra

Uma moção que pede fronteiras fechadas na Alemanha foi aprovada nesta quarta-feira (29) no Parlamento Alemão, em Berlim. A sessão ganhou contornos históricos, já que a oposição ao governo Olaf Scholz contou com votos da extrema direita para aprovar a resolução, proposta após novo episódio de violência ligado a imigrantes irregulares.

O ato não tem força de lei, é apenas uma orientação a ser seguida. A votação, porém, mobilizou o debate público no país. De um lado, os que veem a necessidade de medidas urgentes para coibir a crise imigratória; do outro, os que temem a naturalização da AfD, uma legenda populista, nacionalista, que defende a saída da União Europeia, a volta do marco alemão e tem integrantes investigados por discurso de ódio e neonazismo.

Friedrich Merz, líder da CDU, autor das moções e favorito para conquistar o cargo de primeiro-ministro nas eleições de 23 de fevereiro, fez força para desvincular seu ato do apoio da AfD. Sem os votos da legenda extremista, porém, sua proposta não passaria. Ao propô-la, portanto, ele já estaria contando com o apoio e derrubando o Brandmauer, o firewall, a distância regulamentar que todos os partidos democráticos mantêm da AfD. Ou, segundo os críticos, que mantinha.

Os números da votação mostram como a estratégia de Merz era mesmo ter o apoio da extrema direita. O chamado Plano de 5 Pontos teve 348 votos a favor e 345 contra, além de 10 abstenções. O documento pede que o governo proíba a entrada de imigrantes sem documentos, controle permanente nas fronteiras, detenção de solicitantes de asilo rejeitados ou que estão em situação ilegal no país e deportações diárias.

"Hoje é um dia histórico, no sentido negativo", declarou Britta Hasselmann, líder dos Verdes, na tribuna do Bundestag. "Maiorias foram buscadas fora do centro democrático. E você é o responsável", afirmou a parlamentar, apontando para Merz. É a primeira vez que algo assim ocorre na política alemã no pós-guerra, com implicações óbvias.

"Este é verdadeiramente um momento histórico", declarou, na sequência, Bernd Baumann, da AfD. "Algo novo está começando", afirmou, também apontando para Merz.

O político conservador, que lidera as pesquisas de opinião, mas está longe de contar com uma maioria no próximo Bundestag, começou o dia sob críticas da sociedade civil. Representantes da Igreja Evangélica, dominante na Alemanha, e da Católica publicaram uma carta pedindo que recuasse, algo constrangedor para quem lidera a CDU, sigla para União Democrata-Cristã.

No começo da tarde, Merz foi duramente criticado por Scholz, que abriu a sessão parlamentar. "O direito de asilo faz parte do sistema jurídico alemão. O senhor quer que violemos a legislação europeia, algo que só Viktor Orbán fez até aqui", declarou o primeiro-ministro.

Scholz lembrou que os dois episódios recentes de violência relacionados a imigrantes ocorreram em estados governados pela oposição. Nos dois casos, perpetrados por pessoas com histórico de transtornos mentais, ficou evidente que o aparelho estatal falhou em algum momento.

Em Magdeburgo, em dezembro, um médico saudita, asilado, atropelou centenas no mercado de Natal local, matando seis pessoas. Na semana passada, um afegão, que já tinha concordado com a própria expulsão, esfaqueou pessoas a esmo em um parque em Aschaffenburg, matando dois, incluindo uma criança de dois anos.

"Política, em nosso país, não é pôquer", disse Scholz a Merz, ao criticar sua tolerância com a AfD. O rival respondeu minutos depois, logo ao assumir a tribuna, tecendo em sua primeira fala uma crítica não ao rival, mas ao partido de extrema direita.

"Não estamos querendo ferir as leis europeias. Estamos propondo fazer o que vários países já estão fazendo à nossa volta. É possível decretar emergência. Quantos mais terão que ser assassinados até que o primeiro-ministro veja que estamos em uma emergência", perguntou.

Em sua explanação, Alice Weidel, a candidata a premiê que conta com o controverso apoio público de Elon Musk, chamou de "ultrajante" o discurso de Scholz sobre o fato de Merz não recusar votos de seu partido. "O firewall nada mais é do que um acordo de cartel antidemocrático para minar a vontade dos eleitores."

Uma segunda moção da CDU, que pedia mudanças no funcionamento das polícias, foi amplamente rejeitada. Também foi recusada proposta do FDP, que pedia a demissão da ministra do Interior, responsável pela política de imigração, e outra, da AfD, que previa o fim da dupla nacionalidade

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A GAROTA DO ARPOADOR

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Marina Colasanti não reprovava as mulheres atreladas ao fogão. Só exigia que lutassem por orgasmos

Marina Colasanti morreu nesta terça (28), aos 87 anos. Muita coisa deve estar saindo sobre ela como a mulher que, em veículos de grande circulação, revirou a cabeça das leitoras nos anos 1970 e 1980. Eu próprio escrevi um dia sobre a enorme influência de Marina sobre elas: "Não se tratava de arrancar as mulheres do fogão e plantá-las em escritórios. Mas, as que preferissem ficar no fogão deveriam exigir, pelo menos, grandes e regulares orgasmos —e, se não os tivessem, que tomassem providências". De onde tirei isso? De uma conversa com a própria Marina, com aquele seu misto de doçura e autoridade.

O que me fascinava nela era o background que a tornara quem era: "Marina fez parte da revolucionária geração de garotas da praia do Arpoador, no Rio, que, em fins dos anos 1950, varavam Ipanema na garupa das lambretas, pegavam jacaré com os rapazes (um deles, seu irmão Arduino) e desconfiavam do casamento tradicional. Queriam trabalhar fora, morar sozinhas, seguir carreiras modernas e não deixavam que a culpa imposta pelos padrões interferisse em sua vida amorosa. À sua maneira, já eram feministas —sem ideologia, sem rancor e sem saber."

Se hoje isso parece normal, transporte-se para aquele passado remoto e avalie a coragem da menina de pouco mais de 20 anos. Quem eram seus amigos naquele tempo? Millôr FernandesRubem Braga, Tom JobimLucio CardosoPaulo FrancisOtto Lara Resende, mil anos mais velhos.

Foi essa experiência que a levou a colaborar na histórica revista Senhor, ajudar Millôr a botar na rua os oito números do tabloide Pif-Paf, fechado pela ditadura em 1964, e passar onze anos como colunista do Jornal do Brasil. E, depois, sua longa carreira na revista Nova, respondendo às cartas das leitoras e lhes dizendo o que elas precisavam ouvir.

De ascendência europeia numa época difícil, a Segunda Guerra, Marina sabia também costurar, bordar, tricotar e cozinhar. E nunca se sentiu "menor" por isso. "Ao contrário", me falou. "Em emergências, frito até bolinhos."

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CARLA ZAMBELLI: CASSADA E INELEGÍVEL

Do g1 SP

Carla Zambelli tem mandato de deputada cassado pelo TRE-SP e fica inelegível após divulgar fake news sobre processo eleitoral

Julgamento iniciado em 13 de dezembro terminou nesta quinta-feira (30). Ação foi proposta pela deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL). Zambelli disse que irá recorrer às instâncias superiores e permanece no cargo enquanto os recursos não forem esgotados.

O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) cassou nesta quinta-feira (30) o mandato de deputada federal de Carla Zambelli por entender que ela cometeu abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação ao espalhar notícias falsas sobre o processo eleitoral de 2022.

Além disso, os magistrados votaram por tornar Zambelli inelegível pelo prazo de oito anos, a partir do ano em que ocorreram os fatos. Foram cinco votos favoráveis e dois contrários.

A deputada irá recorrer às instâncias superiores e permanece no cargo até que as possibilidades de recursos sejam esgotadas.

Em nota enviada ao g1, Zambelli afirmou que o TRE-SP anulou os 946.244 votos que recebeu nas eleições de 2022 e se disse vítima de "perseguição política".

"Essa decisão não tem efeitos imediatos, e irei continuar representando São Paulo e meus eleitores até o encerramento dos recursos cabíveis", disse a deputada.

A ação foi proposta pela deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL), e o julgamento teve início em 13 de dezembro, quando o relator do processo, o desembargador José Antonio Encinas Manfré votou a favor da cassação e pediu a inelegibilidade de Zambelli.

O presidente do TRE-SP, desembargador Silmar Fernandes, e os juízes Cotrim Guimarães e Claudio Langroiva acompanharam o relator, concordando que a deputada do PL divulgou informações inverídicas sobre o processo eleitoral de 2022.

A juíza Maria Cláudia Bedotti, no entanto, pediu vista, e o julgamento foi suspenso, devendo ser retomado apenas depois do recesso do Judiciário. Além de Bedotti, faltavam votar os juízes Régis de Castilho e Rogério Cury.

“Não é demasiado se reconhecer que as condutas da representada alcançaram repercussão e gravidade aptas a influenciar na vontade livre e consciente do eleitor e em prejuízo da isonomia da disputa eleitoral. Portanto, realidades justificadoras da cassação do diploma de deputada federal e da declaração de inelegibilidade, sanções a ela impostas por prática de abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação”, disse o relator em seu voto.

Ele também ressaltou que a deputada não fez “mera transposição de notícias” ao publicar desinformação eleitoral em suas redes sociais, mas que Zambelli agiu com “abuso da liberdade de expressão e ato de evidente má-fé”.

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quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

DE CRISE EM CRISE, GOVERNO NÃO TEM CARA

Vera Magalhães, O Globo

Lula está desnorteado, sem saber ao certo como navegar nas novas águas da economia

O que falta ao governo Lula 3 é uma cara. Os dois primeiros mandatos do petista tiveram o êxito que se viu, a ponto de sobreviverem a escândalos de corrupção que mobilizaram o país, como o mensalão, e de terminarem com a eleição de alguém que nunca havia disputado eleições, como Dilma Rousseff, porque havia o que mostrar, mas, sobretudo, havia um bom resumo para a posteridade do que aqueles oito anos representaram na História brasileira.

Lula chegara ao poder tão ou mais desacreditado pelos agentes econômicos do que hoje, mas estreou oferecendo austeridade fiscal e diálogo com setores mais amplos da sociedade, proposto desde a campanha, com a Carta ao Povo Brasileiro. Saiu, oito anos depois, tendo mantido o controle da inflação legado pelo Plano Real, mas, sobretudo, tendo promovido a ascensão social de um grande contingente de pessoas, graças não só a programas de renda, como o Bolsa Família, mas a um projeto de acesso à educação superior a famílias nas quais nunca havia existido um universitário.

Esse tipo de indicador supera a narrativa rasa, ainda mais porque foram conquistas logradas num tempo em que as redes sociais apenas engatinhavam, com o pueril Orkut e os primórdios de seus filhos hoje crescidos, como o Facebook.

E agora? O que se tem de semelhante àquele legado em termos de diretriz, de projeto de longo prazo com coerência entre suas partes para um país que, desde então, é completamente diferente? Nada.

O resultado é um Executivo que se move de crise em crise, com respostas sempre insuficientes, analógicas, atrasadas ou completamente alheias à realidade. O episódio da semana é a situação dos deportados dos Estados Unidos — e ainda não se trata de um grupo diretamente atingido pela política de terra arrasada de Donald Trump, que tende a intensificar os envios de brasileiros em situação ilegal.

Dificilmente alguém poderá, em sã consciência, discordar da correta contraposição do governo às condições degradantes e indignas com que os brasileiros foram transportados. Mas, passados três dias, o mais provável é que a administração Lula não consiga obter nada de concessão — nem o Brasil nem os demais países do continente, aliás.

A pronta ação do Ministério da Justiça e da Polícia Federal na acolhida aos brasileiros pode até gerar melhora na imagem do governo, ainda mais em contraste com a babação de ovo da oposição bolsonarista diante dos arreganhos trumpistas. Foi o primeiro tiro n’água da direita em muito tempo, aliás, depois de meses surfando em erros de comunicação ou condução política do presidente e de seus ministros.

Mas isso dificilmente alterará o quadro captado pela pesquisa Quaest. Diferentemente da avaliação ligeira de alguns ministros palacianos, ele nada tem de mau humor momentâneo. O que crises como a do Pix e a da alta de alimentos vão sedimentando é a falta de conexão entre Lula e o eleitor real, aquele que vai ao supermercado, que usa transporte por aplicativo ou trabalha para um aplicativo, que está no corre da economia informal, cujo filho até pode ter se formado graças ao ProUni, mas que já virou essa página e hoje não guarda nostalgia daquele tempo, pelo contrário.

As reuniões de emergência de ministros para atender a cada susto semanal produzem só medidas que, além de claramente desfocadas, evidenciam que Lula está desnorteado, sem saber ao certo como navegar nas novas águas da economia (incluindo o mundo do trabalho), da geopolítica e da vida digital.

No caso dos repatriados de Trump, a entrevista rápida de ministros nervosos comunicou o óbvio: os brasileiros continuarão a viajar algemados e acorrentados, o que fará com a indignação da chegada do voo do fim de semana se dissipe no éter.

É preciso não ser apenas reativo, mas se antecipar aos problemas. Em relação aos Estados Unidos, isso era uma necessidade óbvia. Só essa real mudança, que não se resolve trocando peças, evitará que Lula passe dois anos apagando incêndios.

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O QUE SE PREVÊ DA RELAÇÃO ENTRE PLANALTO E CONGRESSO

Fernando Exman, Valor Econômico

Governo pretende ocupar a agenda legislativa e aprovar o máximo de itens da sua pauta prioritária já no primeiro semestre

Eleita a nova cúpula do Congresso no sábado (1º), o governo Lula pretende ocupar a agenda legislativa e aprovar o máximo de itens da sua pauta prioritária já no primeiro semestre. O horizonte a partir de julho é incerto e preocupa.

É preciso logo de saída, portanto, aproveitar o bom relacionamento estabelecido com os novos presidentes da Câmara e do Senado, ainda que hoje sejam distintas as expectativas no Executivo em relação ao deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) e ao senador Davi Alcolumbre (União -AP).

São reconhecidos o controle que Alcolumbre tem do plenário e a sua capacidade de mobilização das bancadas. No entanto, sua adesão à pauta do Planalto dependerá de cada caso, dizem fontes graduadas do governo, ainda que em seu Estado ele tenha se aproximado do PT com vistas à eleição de 2026.

Quanto a Motta, é dada como certa a sua convergência em relação à agenda econômica. A polidez e o traquejo do parlamentar paraibano são famosos. Porém, ainda é desconhecida sua forma de atuar quando sentado na cadeira mais poderosa da Câmara. Logo se saberá.

Já estão elencadas, entre as prioridades do Planalto, a PEC da Segurança e a proposta de emenda constitucional que visa a despolitização das Forças Armadas. Na área econômica, existe a expectativa de concluir a regulamentação da reforma tributária do consumo e aprovar mais uma leva de projetos que melhorem o ambiente de negócios. No front fiscal, permanece a intenção de limitar os supersalários do funcionalismo público e alterar o sistema de proteção social dos militares.

Ao segundo semestre, por enquanto está reservada a discussão sobre a reforma tributária sobre a renda. É o plano para ocupar o noticiário com uma pauta popular, que serviria também de “esquenta” para o ano eleitoral.

Contudo, é crescente a preocupação dos articuladores políticos do governo com o ambiente político em Brasília na segunda metade do ano. Existe grande expectativa em relação ao que emergirá da Operação Overclean e, também, das demais investigações que envolvem as emendas parlamentares ao Orçamento.

Vale lembrar: a Overclean foi deflagrada no dia 10 de dezembro, em uma operação conjunta pela Controladoria-Geral da União (CGU), Polícia Federal (PF), Ministério Público Federal (MPF) e Receita Federal. Teve o objetivo de desarticular uma organização criminosa envolvida em fraudes licitatórias, desvios de recursos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro.

Segundo a CGU, ela impactou o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) na Bahia, entre outros órgãos públicos. Durante o período investigado, a organização movimentou aproximadamente R$ 1,4 bilhão e foi identificado superfaturamento em contratação de obras.

Não tardou para a Justiça Federal enviar o caso ao Supremo Tribunal Federal (STF). Quando isso ocorre, a conclusão é óbvia, e imediatamente as atenções de todos os Poderes se voltam para o processo: pelo menos um dos suspeitos detém foro privilegiado.

Mas este não é o único procedimento no STF envolvendo as emendas. Como recentemente mostrou o Valor, atualmente há pelo menos 14 procedimentos na Corte que apuram suspeitas relacionadas à execução dessas rubricas orçamentárias. Os casos estão nas mãos dos ministros Kassio Nunes Marques, Luiz Fux, Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Cármen Lúcia, além, é claro, de Flávio Dino.

Quando se fala sobre o tema, é verdade, vem logo à mente a imagem do ministro Flávio Dino. É ele que tem estado à frente das exigências feitas pelo STF ao Congresso para elevar a transparência e rastreabilidade das emendas parlamentares ao Orçamento. São demandas legítimas. E algumas delas podem ser destacadas, como a de que os parlamentares só devem destinar emendas para o Estado ou munício da unidade da federação pelo qual foi eleito, salvo projeto de âmbito nacional.

Outra decisão pediu que a CGU fizesse auditoria em todos os repasses parlamentares. Em outra ocasião, a determinação foi para que as chamadas “emendas Pix” - emendas individuais que permitem a transferência direta de recursos - só poderiam ser liberadas quando observados os requisitos constitucionais da transparência e da rastreabilidade, além de fiscalização do Tribunal de Contas da União (TCU) e da CGU. Também foi feita uma demanda para a restruturação do Portal da Transparência e, em outra ocasião, a Polícia Federal foi acionada para instaurar inquérito e apurar possíveis práticas criminosas na liberação e destinação de emendas parlamentares. Ou seja, mais denúncias podem surgir. E de várias frentes.

Por isso, na visão de interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é até positiva essa multiplicidade de relatores no STF. Ela ajuda a dissipar as suspeitas de partidos da base aliada de que existe uma maquinação entre os Poderes Executivo e Judiciário - foram muitas as insinuações sem provas de integrantes do Centrão no sentido de que governo e Dino, que foi ministro da Justiça e Segurança Pública de Lula, poderiam estar atuando de forma coordenada. Não se relativiza, entretanto, o risco que os desdobramentos dessas investigações podem representar para a governabilidade.

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POCHMANN, PEDE PARA SAIR

Elio Gaspari, O Globo

Com a credibilidade de Lula em baixa, o melhor que o economista Marcio Pochmann tem a fazer é sair da presidência do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ele é um antigo quadro do PT e, em menos de dois anos, envenenou sua gestão com a proposta de criação de um IBGE +. Em tese, a novidade abriria uma janela para que o instituto firmasse parcerias com empresas privadas.

Quando interesses privados se misturam com a academia, coisas horríveis podem acontecer. Professores de Harvard e da London School of Economics meteram-se com o falecido ditador líbio Muammar Gaddafi. No Brasil, um braço da Fundação Getulio Vargas meteu-se com o então governador Sérgio Cabral.

Servidores e diretores do projeto de Pochmann batizaram-no de “IBGE Paralelo”. Ironia da vida: em 2007, quando o doutor presidiu o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, era acusado de cumprir a tarefa de “estatizar” o Ipea. (Em 2010, o instituto abriu um escritório na Caracas de Hugo Chávez.) Agora, acusam-no de querer privatizar o IBGE.

O estatuto da Fundação IBGE + tem trechos idênticos ao da malfadada similar da saúde do Rio. Até aí, pode ter sido preguiça, mas prever que certas matérias exigiriam a aprovação de dois terços de um conselho curador de cinco membros foi uma demasia para um texto do IBGE. Dois terços de cinco dá 3,333.

Nas últimas semanas, duas diretoras do IBGE pediram demissão, e 134 servidores (125 dos quais em cargos de chefia) assinaram uma carta condenando o IBGE + e o estilo de chefia de Pochmann. Na semana passada, demitiu-se o diretor executivo da Fundação IBGE +. É por causa do estilo que Pochmann deve pedir para sair.

Ele assumiu em agosto de 2023, e seu projeto de um IBGE + foi criticado em setembro de 2024. Em novembro, Pochmann pediu ao Ministério Público que apurasse irregularidades e conflitos de interesse atribuídos a funcionários do órgão. Seriam serviços privados de consultoria prestados a uma instituição parceira do instituto. Só Deus conhece os labirintos das consultorias, mas chamar o MP para investigar, dois meses depois das críticas, cheira a revide.

Pochmann é uma flor do jardim da Unicamp e um petista raiz. Disputou duas vezes a Prefeitura de Campinas e tentou se eleger deputado. Quando sua gestão no Ipea gerou chuvas e trovoadas, ele se defendeu:

— Tenho mais de duas décadas de atividade acadêmica. Sou polemista, gosto da polêmica. Não estou lá [no Ipea] para organizar o consenso, mas para organizar o dissenso.

Desde que começou a crise no IBGE, a presidência do instituto fala por meio de notas, sempre altaneiras. Numa delas, acusou os críticos de mover “uma campanha de desinformação”. Desinformação foi o doutor que estimulou, em outubro de 2020, ao dizer que o Pix do Banco Central era “mais um passo na via neocolonial”.

Pochmann parece ter perdido gosto pela polêmica e, se em algum momento quis organizar o dissenso, só conseguiu ampliá-lo. O sindicato dos servidores do IBGE marcou para a manhã de hoje uma manifestação em frente à sede do instituto.

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COMBUSTÍVEL PARA A TENTAÇÃO DO POPULISMO

Lu Aiko Otta, Valor Econômico

Com aprovação de Lula em baixa, será grande a pressão por adotar medidas que elevarão as despesas

O governo espera divulgar amanhã o resultado das contas públicas em 2024, que deve ser melhor do que o esperado pelo mercado e apontar para o cumprimento da meta fiscal do ano. São boas notícias que embutem um grande risco: o de parecer que está tudo bem. Não está, e o risco é piorar.

Na prévia calculada por Felipe Salto, economista-chefe da Warren Rena, as contas do governo central (conjunto formado por Tesouro Nacional, INSS e Banco Central) registraram no mês de dezembro saldo positivo de R$ 22,2 bilhões. No acumulado do ano, o saldo ficou negativo em R$ 44,6 bilhões, ou 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB), metade do déficit de 0,8% do PIB estimado pelo mercado no início do ano passado.

Para efeitos de meta, devem ser descontados desse valor os R$ 29 bilhões destinados ao Rio Grande do Sul, o que resulta um saldo negativo de R$ 15,6 bilhões. Porém, o resultado que realmente conta não é o apurado pelo Tesouro, e sim o do Banco Central, que usa outra metodologia. Esse, nas contas de Salto, deve ter ficado negativo em R$ 20,9 bilhões.

Ou seja, a meta teria sido cumprida. O prometido déficit zero admite um resultado negativo de até R$ 28,8 bilhões.

Esses são cálculos independentes. Mas os números oficiais devem ser parecidos.

Dar a meta de déficit zero como cumprida mesmo diante de um rombo de R$ 44,6 bilhões, desconsiderados descontos e margens de tolerância, é tema de debate entre especialistas. Mas, do ponto de vista formal, é assim que funciona.

Assim, a área econômica terá resultados positivos para produzir uma narrativa. Será uma chance de sair das cordas, depois de um final de 2024 em que a condução das contas públicas, considerada frouxa, ajudou a elevar o dólar ao recorde de R$ 6,26.

Não que isso deva ser comemorado, mas os leilões de reservas internacionais feitos pelo Banco Central em dezembro passado, no esforço para conter a disparada do câmbio, devem ajudar na narrativa governamental. Como as reservas são adquiridas por meio de dívida, sua venda reduz a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG).

O mercado estima que a DBGG encerre o ano em 77,7% do PIB, mas esse movimento das reservas pode reduzir o saldo para 76,1% do PIB, nas estimativas de Fernando Montero, economista-chefe da Tullett Prebon Brasil. Nova queda pode ocorrer em janeiro, para 75,3% do PIB, dessa vez influenciada pelo dólar mais baixo, na casa dos R$ 5,90.

“As quedas podem não ser tão fortes, e as razões, não as melhores”, observa. “Mas é a tendência.”

Tudo isso pode ajudar no marketing governamental, que ganhou força neste início de ano. Porém, os números positivos refletem movimentos episódicos. Na estrutura, as contas federais continuam deficitárias e carentes de medidas de ajuste.

O saldo primário do governo central tem rodado na faixa de 0,5% do PIB a 1% do PIB negativos, quando seria necessário um superávit da ordem de 2,5% do PIB para estabilizar e reduzir a dívida pública, aponta o economista Sergio Vale, da MB Associados.

Depois da decepção com o pacote de ajuste fiscal do ano passado, considerado insuficiente para tornar o Orçamento brasileiro mais sustentável, é grande o ceticismo no mercado quanto à possibilidade de essa agenda ser retomada no governo Lula, diz. Não há descontrole fiscal à vista nem melhora estrutural.

Na avaliação de Vale, o ajuste necessário poderá vir só em 2027. Ainda assim, não é uma certeza. Se o governo de Luiz Inácio Lula da Silva tem falhado nessa frente, a gestão fiscal no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro também frustrou, avalia. Na sua visão, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) pode ter uma compreensão melhor da importância do ajuste nas contas públicas. Porém, não se sabe ainda se disputará o Planalto ou uma reeleição ao Palácio dos Bandeirantes. A sucessão promete ser mais um fator de instabilidade nos mercados.

Mais incertezas residem nas decisões do presidente dos EUA, Donald Trump, e seus reflexos no Brasil. Esse era mais um motivo para o governo ter feito um pacote de ajuste mais robusto, diz o economista.

Os números menos ruins para as contas públicas embutem dois perigos. O primeiro é o governo agir como se estivesse tudo bem no campo fiscal.

O segundo, mais grave, é o entorno político do presidente Lula da Silva achar que há espaço para adotar novas medidas. Essa pressão tende a escalar depois que a pesquisa de opinião Genial/Quaest apontou uma taxa de desaprovação do governo de 49%, ante 47% de aprovação. Será grande a tentação de adotar medidas populistas que elevarão as despesas.

Há, além disso, há a já anunciada isenção do Imposto de Renda para pessoas que ganham até R$ 5 mil. Como a proposta passará pelo Congresso Nacional, o custo final é uma incógnita que preocupa os especialistas.

No fim do século passado, técnicos da área econômica evitavam alardear bons resultados da arrecadação para não levantar pressões do Planalto e do Congresso por mais gastos. Também agora, é recomendada prudência. A melhora é episódica e o desequilíbrio nas contas públicas não foi superado.

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VAI 'TOMBINAR' , COPOM ?

Fábio Alves, O Estado de S. Paulo

O cenário mais provável talvez seja confirmar a alta de março e uma outra, sem indicar de quanto

Na primeira reunião do Copom do ano, com a maioria dos diretores indicados pelo presidente Lula, muitos participantes do mercado ressuscitaram um verbo de tempos mais criticados da política monetária para falar sobre o desfecho da decisão hoje: “O Banco Central vai ‘tombinar’?”.

A referência é a Alexandre Tombini, então presidente do BC durante o governo Dilma Rousseff e que foi duramente criticado por adotar uma política monetária menos restritiva do que as condições na época exigiam. Mas não estaria a pergunta acima fora do lugar diante do choque de juros anunciado pelo Copom na sua última reunião de 2024?

Em dezembro, o Copom elevou os juros em 1 ponto porcentual, para 12,25%, e sinalizou outras duas altas na mesma magnitude para as reuniões de hoje e de março, quando a taxa Selic chegará a 14,25%. Assim, o que está em jogo não é o tamanho da alta de juros, mas o que será sinalizado para o futuro próximo no comunicado que acompanhará a decisão hoje.

Seguirá o Copom contratando o ritmo de alta de juros para as duas reuniões seguintes à de março, como fez em dezembro? Poderá sinalizar o que vai acontecer apenas com antecedência de uma reunião, no caso a de maio? Ou simplesmente dirá que a decisão seguinte dependerá dos dados da economia e das condições externa e interna, deixando em aberto até a possibilidade de o ciclo de alta de juros acabar em março, com a taxa a 14,25%?

O problema é que, apesar do choque de juros sinalizado em dezembro, desde então as expectativas de inflação pioraram muito, em vez de recuar, como seria o esperado. A projeção do IPCA de 2025 saltou de 4,59% para 5,50%. E a de 2026, de 4% para 4,22%. Isso significa que, na visão do mercado, uma Selic a 14,25%, como o Copom prometeu para março, não é suficiente para trazer as expectativas de inflação em direção à meta de 3%. Se o comunicado não indicar a continuidade da alta de juros para além de março, os analistas vão interpretar isso como uma postura mais frouxa, daí a dúvida sobre o BC “tombinar”.

Diante das incertezas externas (o que vai fazer o presidente americano Donald Trump em relação às tarifas de importação, por exemplo) e das domésticas (a credibilidade do arcabouço fiscal), o cenário mais provável talvez seja o de o Copom confirmar a alta de 1 ponto para março e sinalizar que para a reunião seguinte a Selic será elevada de novo, porém sem se comprometer com o tamanho da alta. Até porque a magnitude do ajuste dependerá de onde estarão a cotação do dólar, as projeções de inflação e o ritmo da economia. •

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O DÓLAR VOLTA A FICAR APENAS MUITO CARO

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Real se valoriza, mas volta ao nível ruim de novembro; taxas de juros não recuaram

dólar custava R$ 4,95 faz um ano. Em 18 de dezembro, chegou ao pico do ano, a R$ 6,27. Nesta terça, baixara a R$ 5,87. Copo meio cheio ou meio vazio? Continua bem azedo, mas a baixa é um alívio até surpreendente e despiora relevante.

Quando o dólar havia chegado a R$ 5,40, lá por junho, havia gente importante na praça financeira que recomendava, na surdina, alguma intervenção do Banco Central a fim de conter as "apostas unidirecionais" (dólar sempre subindo) e os efeitos secundários do que então se chamava "exagero" ("overshooting") em expectativas inflacionárias etc. A partir de meados do ano, mais ou menos, o real passaria por um ritmo peculiar de desvalorização no mundo, consideradas as moedas relevantes e de países comparáveis.

A segunda onda de "exagero" começou exatamente depois da divulgação do pacote fiscal do governo, em 27 de novembro (o dólar estava a R$ 5,81). Ao longo de dezembro, o BC diria que, além dos dezembros tipicamente secos de oferta de dólares e ricos em remessas, havia remessas atípicas. Pelos números do balanço de pagamentos, divulgados em janeiro, deu para ver que a disparada se deveu em muito a pânico.

Nem mesmo o BC por vezes sabe com precisão os motivos de movimentos de dinheiros e de preços do câmbio. No entanto, as intervenções acabaram por evitar que a bola de neve do pânico se tornasse avalanche perigosa.

Ao que parece, algumas expectativas quanto ao fortalecimento imediato do dólar depois da posse de Donald Trump parecem frustradas, ao menos até a tarde desta terça-feira. Algumas posições foram desmontadas (tirou-se dinheiro da operação que ganharia com a alta do dólar), aqui e alhures. O Brasil é um barquinho no mar de dinheiro grosso mundial.

Para onde foi o receio fiscal? Sumiu?

Primeiro, ressalte-se que o real continua bem desvalorizado. Segundo, considerem-se as taxas de juros no atacado de mercado de dinheiro (onde se definem os pisos dos preços do custo do dinheiro, a taxa de financiamento de déficits e dívidas do governo). A taxa futura de juro de um ano, real, passou de 10% ao ano no pico do pânico, em 18 de dezembro. Está em horríveis 9,2% ao ano. Em março de 2024, ainda estava na casa de 6% ao ano. É arrocho horrendo.

Não é preciso procurar muito, pois, para ver onde se cobra o preço do "risco fiscal" e até do aquecimento da economia: nos juros. Risco: dívida crescendo sem limite, sem esperança de medidas novas do governo, com expectativa de inflação indo a 6%, não importa se previsão certeira —este é um custo que compõe a taxa de juros exigida para se emprestar ao governo.

As expectativas começaram a piorar aos poucos entre abril e junho, quando o governo revisou a recém-nascida meta fiscal, quando o BC votou dividido e quando começaram reações práticas a tentativas do governo de recolher mais impostos.

Com a eleição de Trump e a promessa destrambelhada do governo de apresentar um plano fiscal, o caldo engrossou, nos juros e no câmbio.

O real continua muito desvalorizado, em nível inflacionário, em parte por peculiaridades fiscais do Brasil. Mas despiorou em ritmo surpreendente; o exagero de dezembro era pânico, uma camada extra de medo ao receio razoável de que as contas fiscais não melhorariam tão cedo e que Trump soltaria bombas econômicas nucleares logo de cara.

A situação continua muito ruim e Trump ainda pode apertar o botão nuclear.

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