domingo, 2 de fevereiro de 2025

EM DEFESA DAS FORÇAS ARMADAS: MILITARES FORA DA POLÍTICA

Raul Jungmann*, Correio Braziliense

Temos condições mais favoráveis para estabelecer regras capazes de contribuir para a despolitização das Forças Armadas e, com apoio destas

Uma questão democrática latente no Brasil hoje é a participação dos militares na política, sobretudo após os acontecimentos que culminaram no 8 de janeiro e suas consequências. Estudo anterior a esses episódios, do professor Pedro Kelson, mestre em cultura política e capital social, constatou que, em 11 democracias protagonistas da cena global, candidaturas de militares da ativa são proibidas.

Na França, Alemanha, Bélgica, Espanha, Itália, Portugal, Reino Unido, Estados Unidos, Uruguai, Argentina e Chile, essa é uma restrição comum, algumas, agravadas por mais condicionantes. 

O Brasil, como está, permanece não só à margem desse padrão, como indiferente ao próprio histórico político, que recomenda o mesmo caminho desses países. Daí a importância da aprovação da chamada PEC dos Militares, em tramitação no Senado, que veta candidaturas para cargos políticos a militares da ativa.

Em que pese a defesa da democracia pelas nossas Forças Armadas, que resistiram às pressões do presidente anterior e impediram a continuidade e consecução da sublevação — com altivez, senso democrático e obediência à Constituição —, o saldo e novos riscos permanecerão à falta de antídotos eficazes.

A PEC, em síntese, estabelece que militares que pretendam se candidatar a cargos políticos passem automaticamente à reserva. Ou seja, é um caminho sem volta que evita a contaminação das tropas pelo exercício dos mandatos e das atividades em quartéis.

Ao defendê-la, seu relator, senador Jorge Kajuru, lança mão exatamente dessa sequela, dando-lhe a dimensão em números que, mesmo involuntariamente, omitem o comportamento constitucional da instituição Forças Armadas, que agiram em defesa do país. 

A conta do relator é preocupante e inédita: 25 militares indiciados, oito detidos e um general de quatro estrelas preso preventivamente sob suspeita de atentar contra o Estado de Direito. É o saldo, por ora, no âmbito militar, das investigações em curso no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre os acontecimentos que culminaram com o 8 de janeiro.

Nenhuma de nossas constituições, até aqui, deu solução satisfatória para a questão, certamente limitadas às circunstâncias políticas de seu tempo. Desde a de 1824, do Brasil-Império, que só exigia maioridade de 21 anos e vetava a eventual condição de chefe de armas ao pretendente, até a de 1988, que foi a primeira a universalizar o alistamento eleitoral aos militares, observadas as regras gerais. 

Nesse contexto, vale lembrar que, mesmo na ditadura do Estado Novo, com forte presença militar no governo Vargas, sob comando do general Góis Monteiro, não era permitida aos militares a filiação partidária? 

Agora, temos condições mais favoráveis em todo esse ciclo para estabelecer regras capazes de contribuir para a despolitização das Forças Armadas e, com apoio destas — conforme apelo do ministro da Defesa, José Múcio, ao presidente Lula, por mais empenho do governo pela aprovação da PEC.

As Forças Armadas já estão empenhadas em oxigenar o ambiente interno após colocar-se ao lado da legalidade, defendendo a Constituição e reservando a vergonha aos — direta ou indiretamente — ligados aos movimentos frustrados contra a democracia. 

O apoio à PEC, portanto, surge natural diante desse cenário, em favor da própria instituição militar. Será que a proposta de emenda à Constituição torna os militares cidadãos de segunda classe, conforme vocaliza a oposição?

Nesse caso, é de se perguntar se esses que assim se expressam consideram também juízes e procuradores, que precisam exonerar-se dos cargos para entrar na política, cidadãos de segunda classe.

O contrário disso, como posto hoje, tem efeito sindicalista, um vírus a corroer a hierarquia e a inseminar a caserna com as tentações da política, ameaçando frequentemente sua estabilidade e profissionalismo, ao atacar pilares essenciais à vida militar, que são a ordem e a disciplina.

Além disso, somos uma jabuticaba no cenário mundial, no qual, tanto na Europa, quanto nas Américas, como demonstrado, prevalece a regra proposta pela PEC. 

Nesses países, mesmo para os militares da reserva, candidaturas só são admitidas com salvaguardas que visam preservar a imagem das Forças Armadas, com regras adicionais de transparência e prazos que garantam algum distanciamento entre o momento da decisão do militar de se candidatar e o de se lançar na vida pública.

O timing é agora, em que temos todas as condições favoráveis para sua aprovação, evitando a postergação de tema tão importante, sensível e emergencial.

*Ex-ministro da Defesa e da Segurança Pública

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INDÚSTRIA NACIONAL VOLTA A TER DESTAQUE

Geraldo Alckmin*, O Globo

O Brasil tem um chão de fábrica sólido. Essa base nos permitirá avançar em novos mercados e diversificar nossa produção

A indústria nacional voltou a ocupar lugar de destaque no crescimento do PIB brasileiro no ano passado. Para aqueles que gostam de aferir os resultados do governo, uma boa notícia: o parafuso está apertado, e a máquina tornou a funcionar.

Números, sem contexto, são apenas cifras. Mas, quando uma política pública produz resultados palpáveis, os algarismos traduzem a eficácia de programas bem construídos, como temos visto desde 2023, com o governo do presidente Lula.

A indústria, em geral, cresceu 3,2% até novembro do ano passado, puxada por bens de consumo duráveis (como televisores, geladeiras e móveis), que tiveram crescimento de 10,7% no acumulado de janeiro a novembro de 2024, em relação a 2023.

A produção de bens de capital (máquinas e equipamentos) cresceu 8,8% no mesmo período, e a indústria de transformação como um todo deverá encerrar 2024 com ganho de 3,7%, maior soma em dez anos, e registrou o valor recorde de US$ 181,9 bilhões em exportações. A produção da agroindústria havia crescido 2,2% nos 11 primeiros meses de 2024, melhor desempenho nesse intervalo desde 2010.

A indústria gerou 306,9 mil postos de trabalho formais em 2024. Em 2023, haviam sido criados 125 mil, portanto houve crescimento de 146% — 28,8% entre jovens de 18 a 24 anos. A indústria é reconhecida por pagar mais e por desenvolver empregos com maior nível de qualificação. Significa que nossos jovens entram num mercado de trabalho promissor, melhorando a qualidade da mão de obra e o nível de renda.

Esses são os números. Agora vem a tradução dessas estatísticas. Há um ano, o governo lançou o programa Nova Indústria Brasil (NIB), focado em seis missões, para estimular uma indústria mais inovadora, verde, exportadora e competitiva.

O Plano Mais Produção, outra iniciativa do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, viabilizou, por meio de diversas instituições públicas, R$ 507 bilhões para financiar projetos aderentes às missões da NIB. A Nova Lei de Informática e o programa Brasil Semicon promoveram o crescimento do setor eletroeletrônico, e o programa de Mobilidade Verde e Inovação (Mover) foi essencial para a retomada da indústria automotiva.

Graças a políticas como o Mover, a venda de veículos novos cresceu 14,1%, maior alta em 18 anos, e a produção de veículos aumentou 9,7%, levando o Brasil a ultrapassar a Espanha como oitavo fabricante do mundo. Para este ano, a Anfavea estima crescimento de 6,23% na produção, perspectiva que segue estimulando a geração de empregos no setor.

A Depreciação Acelerada já permite que as empresas invistam em máquinas e equipamentos. E as Letras de Crédito de Desenvolvimento (LCD) viabilizarão investimentos privados de R$ 10 bilhões por ano para nossa indústria.

O Brasil tem um chão de fábrica sólido. Essa base nos permitirá avançar em novos mercados e diversificar nossa produção para atender às demandas de um mundo cada vez mais conectado, em busca de soluções ambientalmente sustentáveis.

No que tange ao comércio internacional, o diálogo aberto é e continuará a ser um diferencial nas relações internacionais do Brasil, como demonstram os êxitos da conclusão dos acordos do Mercosul com Cingapura e União Europeia e, ainda, o ingresso da Bolívia no bloco.

Também avançamos em medidas desburocratizantes, como a implementação do Portal Único de Comércio Exterior, que gerará R$ 40 bilhões em economia por ano na liberação de cargas; a digitalização de operações de importação e exportação; e o Controle de Carga e Trânsito (CCT) aéreo, que reduz de cinco dias para um o tempo na liberação de cargas aéreas.

Com confiança e inovação, dois ativos da nossa indústria, avançaremos ainda mais na inserção de nossos produtos no mundo, mostrando o valor de ser made in Brazil.

*Geraldo Alckmin é vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços

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ALCOLUMBRE, MOTTA E AS BARBAS DE MOLHO

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

No ‘novo Congresso’, economia, redes sociais, IA, segurança e militares. E paz entre Poderes?

Inversão no Congresso: Davi Alcolumbre será na presidência do Senado o que Arthur Lira foi na da Câmara e Hugo Motta será na da Câmara o que Rodrigo Pacheco foi na do Senado. Ou seja, Alcolumbre terá muita força e um poder muito maior para chantagear, ops!, negociar com o governo e Motta tende a ser mais cauteloso ao dar um passo tão grande na carreira política – tomara que não um passo maior que a perna. Mas Motta não estará sozinho. Foi apadrinhado por Lira e grande aliado de... Eduardo Cunha.

Alcolumbre (União BrasilAP) e Motta (RepublicanosPB) têm muitas diferenças, mas ambos fortalecem ainda mais o já tão poderoso Centrão e ambos estão embolados nas investigações do Supremo sobre desvios de emendas parlamentares esquisitonas. Logo, o Centrão está no comando, mas o ministro Flávio Dino está a postos e o fator emendas tende a dar limites à audácia do Congresso.

As relações entre Legislativo e Judiciário tendem a ficar, digamos, mais calmas. Nem Alcolumbre nem Motta têm interesse em tocar pautas como mandato, facilitação de impeachment e possibilidade de derrubada de decisões de ministros do STF. Além de pisar em ovos por causa das emendas, Alcolumbre é amigão de boa parte dos ministros e Motta precisa comer muito feijão para peitar o Supremo.

Com o Executivo, o presidente Lula precisa aprovar, finalmente, a segunda parte da regulamentação da reforma tributária e o ministro Fernando Haddad pode precisar muito do Congresso para um novo pacote de corte de gastos, mas não só.

Qualquer governo, em qualquer parte do mundo democrático, precisa do Congresso, mas quantos países têm emendas parlamentares de R$ 50 bilhões por ano, orçamento secreto e outras jabuticabas do gênero?

É improvável que as duas Casas do Congresso se dediquem num primeiro momento a aborto, drogas e anistia aos criminosos de 8 de janeiro e, em consequência, a Jair Bolsonaro. Depois? Depende do desempenho do governo, da popularidade de Lula, das relações entre Poderes e do jogo para 2026.

Outros temas fundamentais serão a regulamentação das redes sociais e da inteligência artificial, o pacote da Segurança Pública do ministro Ricardo Lewandowski e a limitação de militares em disputas políticas, que seria, ou será, o fecho de ouro do ministro José Múcio na Defesa, no ano do julgamento do golpe.

São três pautas centrais na ácida polarização do País, com o governo de um lado, o bolsonarismo do outro e o Centrão no comando. Se a eleição de Alcolumbre e Motta uniu do PL ao PT, agora vem o dia a dia da política, às vésperas das eleições gerais de 2026, com Lula no olho do furacão. O pau vai quebrar.

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NOVA GERAÇÃO ASSUME O COMANDO DO CONGRESSO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Para alguns caciques do Congresso, chegou a hora de resolver a contradição entre um sistema de governo presidencialista e uma constituição parlamentarista

A eleição de Davi Alcolumbre (União-AP) e de Hugo Motta (PR-PB) ao comando do Senado e da Câmara, ontem, respectivamente, no contexto de uma ampla coalizão de partidos, que vai do PT do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao PL, representa também uma mudança de geração na elite política do país, que consolida a hegemonia dos políticos do Norte e Nordeste na Casa, com uma orientação fortemente vinculada aos partidos do Centrão.

Alcolumbre, que volta ao comando de Senado, tem 47 anos e foi eleito com uma votação consagradora, obtendo 73 votos, apenas três a menos do que o mais longevo e mais importante político que presidiou a Casa depois da redemocratização, o ex-presidente José Sarney (MDB). Fez uma carreira meteórica, pois chegou à Casa em 2015 e quatro anos depois se elegeu presidente do Senado pela primeira vez, o mais jovem da história. Judeu de origem marroquina, sua família é dona de postos de gasolina, emissoras de tevê (Band e SBT) e negócios agropecuários (terras, pecuária, papel e celulose). 

Aos 35 anos, Motta ascende ao comando da Câmara, como o mais jovem presidente da Casa. Entretanto, tem 21 anos de mandato de deputado federal eleito pela Paraíba. Sua cultura política é a das velhas oligarquias nordestinas, adquirida na convivência com o avô, Nabor Wanderley da Nóbrega, que foi prefeito de Patos, e seu pai, Nabor Filho, que é o atual prefeito, pela quarta vez. A avó materna, Francisca Mota, foi deputada estadual por seis mandatos e, também, foi prefeita da cidade.

Entretanto, ambos são hábeis articuladores, com forte atuação nos bastidores das duas casas. São considerados políticos de diálogo fácil e confiáveis pelos pares, com alianças robustas com os velhos caciques de suas respectivas legendas. Alcolumbre tem uma aliança estratégica com o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que o sucedeu no comando da Casa por quatro anos. Reassume o comando da Casa tendo como vice o senador Eduardo Gomes (PL-TO), grande artífice da sua aliança com a ala bolsonarista liderada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN).

Eleito com 444 votos, por um plenário de 513 deputados, Motta é muito ligado ao presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), e ao ex-deputado Eduardo Cunha (PR), que foi presidente da Câmara e teve o mandato cassado pelo Supremo Tribunal federal (STF). Não era o preferido de Arthur Lira, que fracassou no projeto inicial de fazer o deputado Elmar Nascimento (União-BA), que não conseguiu se viabilizar, assim como Marcos Pereira (SP), presidente de seu partido, que indicou seu nome. O futuro do ex-presidente da Câmara é muito incerto, tanto pode voltar à planície, como Aécio Neves (PSDB-MG) e Arlindo Chinaglia (PT-SP), que também já comandaram a Casa, ou fazer parte do governo Lula após a reforma ministerial.

No comando da Câmara por quatro anos, Lira protagonizou uma mudança radical no relacionamento entre Câmara dos Deputados com o Executivo, sobretudo quanto ao Orçamento da União. A ampliação das emendas parlamentares, com aumento substancial na destinação de recursos por parte dos deputados, reduziu a dependência das bancadas federais em relação ao Executivo e aos seus próprios partidos, e gerou um contencioso com o Supremo Tribunal federal (STF) por causa do chamado “orçamento secreto”.

Impasse existencial

Esse contencioso institucional é existencial. Em minoria no Congresso, o governo perdeu o monopólio do Orçamento; o Congresso ampliou seu controle sobre a agenda legislativa e a execução de investimentos federais, pulverizados por interesses fisiológicos, práticas clientelistas e recrudescimento do patrimonialismo; e o Judiciário, por sua vez, exerce um “poder moderador” de legitimidade constitucional cada vez mais contestada pelo Legislativo.

Essa tensão entre a Câmara e o Judiciário desloca o eixo de relacionamento do Executivo com o Congresso para o Senado, onde Alcolumbre deve manter a corda esticada com o governo, ocupando um espaço que era de Lira. O perfil do novo presidente da Câmara é mais próximo do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco, porém, sem a sua sólida formação jurídica. Motta é médico.

Desde a redemocratização, O Brasil passou por dois processos de impeachment, três grandes escândalos de corrupção (Anões do Orçamento, Mensalão e Petrolão) e a recessão de 2014 a 2016. Para alguns caciques do Congresso, chegou a hora de resolver a contradição entre um sistema de governo presidencialista e uma constituição parlamentarista. Mota e Alcolumbre estão alinhados politicamente, a ponto de terem decidido derrubar a cerca viva que separa as áreas verdes de suas residenciais oficiais, na Península dos Ministros.

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FIM DE UM CICLO ?

Merval Pereira, O Globo

Um sinal de que o presidencialismo de colisão está no fim é a distinção feita por Lira entre apoio eleitoral e para governar 

Um sinal de que o presidencialismo de coalizão está no fim, e que o governo Lula está abalado, é a definição dada pelo ex-presidente da Câmara Arthur Lira do que seja o apoio dos partidos a um governo: apoio para governar é diferente de apoio eleitoral, disse ele. O que significa avisar que os partidos que fazem parte da estrutura governamental não se consideram necessariamente obrigados a apoiar uma candidatura presidencial em 2026 que “esteja afundando”.

Além de deixar no ar que o governo está mal, mostra uma mudança no equilíbrio dos Poderes. No presidencialismo brasileiro, o presidente da República é eleito diretamente com o apoio de diversos partidos, que idealmente formarão o governo. Mas como dificilmente, para não dizer nunca, o eleito terá a maioria do Congresso, tem que formar coalizões, muitas vezes, para não dizer quase sempre, incoerentes com o papel que os partidos assumiram na campanha presidencial.

No tempo em que os parlamentares dependiam do Executivo para ter poder, o “presidencialismo de coalizão” funcionava à base de persuasões mais ou menos republicanas. As emendas dependiam, para serem liberadas, da boa vontade do Executivo com o parlamentar ou partido que as patrocinava. Essa troca de favores pressupunha que a coalizão funcionasse não apenas nas votações no plenário, mas também nas campanhas eleitorais.

Havia também as nomeações para cargos públicos, em estatais principalmente, que foi se degenerando ao longo do tempo, gerando um ambiente corrosivo controlado pelo Executivo, como nos casos do mensalão e do petrolão. O regime político brasileiro, que durante muito tempo foi um hiperpresidencialismo, colocava o Congresso a reboque do Executivo, o que provocou uma reação dos parlamentares, que passaram ano após ano a forçar um equilíbrio de poder, baseado na liberação das emendas.

Pouco a pouco, as emendas passaram a ser impositivas, o volume delas foi aumentando, especialmente quando o financiamento privado das campanhas foi proibido, até que chegamos aos dias de hoje, em que os parlamentares dividem entre si R$ 50 bilhões de emendas e mais os fundos eleitoral e partidário, o que os faz independentes em relação ao Executivo na parte financeira, restando ainda a disputa de poder, que é definida pela influência na máquina do governo. Passamos a ter um semi parlamentarismo. Ministério sem porteira fechada, nem pensar. O que era uma prática para manter o controle partidário dos governistas nos órgãos estatais, hoje é inaceitável para os parlamentares, que querem o controle completo. É aí que entra a distinção feita por Arthur Lira.

Os ministérios fazem parte do patrimônio dos partidos que os assumem, ocupá-los não significa que este ou aquele partido está comprometido com os projetos do governo. Não há mais pudor em afirmar que apoiar o governo no Congresso é uma coisa, outra muito diferente é apoiá-lo eleitoralmente. As coalizões brasileiras já não se referem a um governo, mas a uma situação pontual que não exige compromissos além da governabilidade. Esta também não engloba questões ideológicas que envolvam valores morais.

Votar a favor de um projeto na área econômica, por exemplo, que obtenha o consenso parlamentar, está no jogo. Mas debates sobre aborto, armamentos, casamento homoafetivo, tudo isso está na mesa para discussões e pode ser revertido, dependendo das circunstâncias. Por isso é previsto que a vida do presidente Lula não melhorará com a troca da presidência do Senado, de Pacheco por Alcolumbre.

Ao contrário, o novo presidente eleito ontem é mais voluntarioso do que o anterior, o que pode criar áreas de atrito entre o Legislativo e o Executivo. Sem falar no Judiciário, que pode ter problemas a partir da discussão das emendas parlamentares, que estão sendo constrangidas a cumprir a legislação no tocante à transparência, o que, no momento distópico que estamos vivendo, é considerado uma afronta à independência do Legislativo.

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MORRE NEWTON CARDOSO

Alex Araújo, Luis Gurgel, g1 e TV Globo — Belo Horizonte

Ex-governador de MG Newton Cardoso morre em Belo Horizonte

O deputado federal Newton Cardoso Júnior disse que o pai morreu por causa de falência múltipla de órgãos que e ele estava internado em um hospital da Região Centro-Sul da capital mineira.

O ex-governador de Minas Gerais Newton Cardoso (MDB), de 86 anos, morreu, na madrugada deste domingo (2), em Belo Horizonte.

O deputado federal Newton Cardoso Júnior (MDB) disse ao g1 que o pai estava internado há alguns dias, preferiu não dizer desde quando, no Hospital Orizonti, no bairro Mangabeiras, na Região Centro-Sul. Ainda segundo Júnior, Cardoso morreu por causa de uma múltipla falência de orgãos.

O velório será na manhã desta segunda-feira (3), às 10h, no Palácio da Liberdade, onde será realizado com honrarias, por ele ter sido governador do estado e pela carreira política.

Newton Cardoso Júnior disse ainda que o corpo do pai será cremado, com cerimônia reservada apenas à família.

"Com profunda tristeza e uma imensa dor no coração, comunico o falecimento do meu querido Pai, Newton Cardoso, que nos deixou nesta madrugada do dia 02/02/2025, aos 86 anos. Fundador do MDB, foi Governador de Minas Gerais, Vice-Governador, Prefeito de sua querida Contagem por três mandatos, Deputado Federal por três mandatos", lamentou a morte do pai em uma rede social.

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sábado, 1 de fevereiro de 2025

MORRE HORST KÖHLER

Daniela Santos, Metrópoles

Morre Horst Köhler, ex-presidente da Alemanha, aos 81 anos

O político sofria de uma “breve e grave doença”, informou o gabinete da presidência alemã. Köhler comandou o país entre 2004 e 2010

Morreu, aos 81 anos, o ex-presidente da Alemanha Horst Köhler (foto em destaque), na manhã deste sábado (1º/2). O político comandou o país entre 2004 e 2010 e foi chefe do Fundo Monetário Internacional de 2000 a 2004.

A informação foi confirmada pela Presidência alemã. Em nota, o órgão informou que o político passou os últimos momentos ao lado da família e faleceu após enfrentar uma “breve e grave doença”.

“Foi sua crença na força de nosso país e na energia e criatividade de seu povo que permitiu a ele conquistar tantos corações”, pontuou o atual presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier.

O chanceler Olaf Scholz também se manifestou, por meio de uma publicação nas redes sociais: “A Alemanha perde um político comprometido que dedicou sua vida a um mundo mais justo”, ressaltou.

Político democrata-cristão, Köhler nasceu em fevereiro de 1943, era economista de profissão e iniciou a vida pública como presidente do Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento, de 1998 a 2000.

O ex-presidente também ocupou cargo de destaque na Organização das Nações Unidas (ONU) após deixar o comando do país.

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COMBATE AO COMÉRCIO ILEGAL DE ARTE SACRA EXIGE MAIS DAS AUTORIDADES

Editorial O Globo

Iphan faz bem em atualizar cadastro de peças furtadas, mas só isso não será suficiente para deter criminosos

Há inúmeros relatos de furto de objetos de arte sacra. Para facilitar a recuperação das peças, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) está atualizando o banco de Bens Culturais Procurados (BCP) com informações, imagens e descrições dos objetos furtados. Há 20 anos não havia atualização do cadastro. O Iphan precisará agora mantê-lo sempre em dia.

Há no BCP 1.800 peças cadastradas. Supõe-se que sejam apenas uma pequena parcela do que se extraviou. Desviadas principalmente no Rio, em Minas, Bahia e Pernambuco, as obras precisam ser inventariadas por institutos públicos, colecionadores, museus e igrejas. Não se trata de tarefa fácil. Ainda são procurados objetos tombados, vendidos em inúmeros leilões on-line que, apesar da obrigação legal, não foram informados ao Iphan. Há ao redor de 3 mil vendas por ano no Rio, e apenas entre 5% e 10% da arte sacra tombada está inventariada, pela estimativa do museólogo Rafael Azevedo, da superintendência do Iphan no Rio. Por isso o instituto e a arquidiocese do Rio têm procurado fazer novos inventários.

Em outubro de 2023, o colecionador Claudio Castro encontrou em cinco peças de prata, anunciadas em leilão no Rio, um brasão com as iniciais AM (auspice Maria, sob a proteção de Maria) e uma coroa real, símbolo do acervo da Igreja Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, onde Castro havia sido nomeado provedor. Um par de tocheiros e três peças de prata com orações inscritas eram parte do acervo de 300 itens tombados que haviam desaparecido da igreja, construída em 1750 no centro histórico do Rio. Depois que o Iphan e a Polícia Federal foram chamados, o conjunto voltou para a igreja. No mesmo leilão, Castro encontrou um par de tocheiros da Catedral de Belém e três peças da Ordem Terceira do Carmo, do Rio. Estas estavam nos registros do BCP. “O mercado de arte precisa tomar mais cuidado”, diz ele.

O desvio das peças sacras deve ter ocorrido entre anos 1970 e 1990, pois ainda há fotos, feitas no período, em que os objetos aparecem. Foi a partir de um restauro feito em 1996 que centenas de peças desapareceram, por falta de controle dos responsáveis pela igreja. Não basta, portanto, apenas modernizar o banco de dados de peças extraviadas.

O mercado de arte sacra foi abastecido nos anos 1960 graças à interpretação equivocada de uma determinação do Vaticano para evitar a repetição de imagens de santos nas missas, distribuindo as obras entre casas paroquiais e sacristias. Isso levou vários padres a vender peças. Portanto nem toda obra tem origem ilegal. Há também peças com tombamento apenas estadual. Nesses casos, a fiscalização é driblada com a venda noutros estados. Além da atenção redobrada no comércio de arte sacra, é preciso haver contato mais próximo com as autoridades policiais para proteger um acervo valioso do patrimônio histórico e cultural brasileiro.

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ELOGIO DA TOLERÂNCIA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Sociedades diversas só se tornam viáveis se pessoas e grupos tiverem casca grossa para suportar ideias que lhes desagradem

Quanto mais diversa e plural uma sociedade, mais tolerante ela precisa ser. É fácil ver isso olhando para as religiões, por exemplo. Se cada fé ou denominação achar que pode impor seus credos a pessoas de fora do grupo, instala-se o inferno na Terra.

Para um hinduísta ou qualquer outro seguidor de fé politeísta, a simples afirmação do Deus único das três religiões abraâmicas já tem algo de blasfemo, uma vez que nega um ponto nuclear de seu sistema de crenças. Se as pessoas não criarem uma espécie de casca grossa que as faça não se incomodar muito com as ideias dos outros, tanto as religiosas como as políticas e filosóficas, seguem-se atritos e eventuais explosões de violência.

Até aí, nenhuma novidade. John Locke defendia esse tipo de tolerância religiosa já no século 17. Para o inglês, ela deveria abarcar não só membros de fés cristãs mas também judeus, maometanos e pagãos. Só os pérfidos ateus deveriam ser excluídos desse círculo.

O que se afigura contraditório é que, embora saibamos dessa necessidade de educar cidadãos para a tolerância, não é o que fazemos com nossas crianças.

Em vez de ensiná-las a aceitar críticas, mesmo as injustas, nós estimulamos uma hipersensibilidade a tudo o que possa incomodá-las. Em vez de deixar que aprendam a resolver sozinhas diferenças que tenham com seus pares, fazemos com que todos os seus relacionamentos sejam intermediados por adultos. Em vez de treiná-las para desenvolver a casca grossa, criamos ambientes em que tudo é considerado microagressão a ser remediada por "safe spaces" (espaços seguros) e "trigger warnings" (avisos de gatilho).

Como se isso fosse pouco, ainda tomamos o cuidado de nunca ferir-lhes a autoestima e fazemos de tudo para instilar-lhes idealismo. É uma combinação perigosa. O excesso de autoestima é uma causa prevalente de conflito interpessoal. Quando acrescentamos o idealismo, isto é, a convicção de estar a serviço do bem, aí já caminhamos perigosamente perto das violências do fanatismo.

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ENTRE O BURACO NEGRO E O BECO SEM SAÍDA

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Eleição de Hugo Motta aponta para mais fiascos no Congresso

Sai a República das Alagoas, entra a da Paraíba. A chegada de Hugo Motta à Presidência da Câmara muda o cenário, mas o fundo permanece o mesmo. Um fundo de buraco negro e sem fim que sugou mais de R$ 148,9 bilhões em emendas parlamentares em cinco anos. Um big bang de dindim.

Em 2024 cada deputado levou ao menos R$ 38 milhões em emendas, a maior parte delas de execução obrigatória aprovada pelo Congresso. A eleição de Motta, com apoio da bancada do PT, representa o consenso em torno do projeto de poder que enfraquece os ministérios. Mais verba para obras em redutos eleitorais. Com transparência zero.

O novo presidente é escolado no assunto. O repórter Fabio Victor mostrou que, em 2011, ele destinou uma emenda de R$ 2 milhões para a construção do Teatro Municipal de Patos, no sertão paraibano. O prefeito da cidade era o pai dele, que soma quatro mandatos e ocupa o cargo hoje. O teatro não ficou pronto. A construção foi paralisada diversas vezes e enfim abandonada por falta de pagamentos às empresas e outras irregularidades.

Motta é gente de Eduardo Cunha e Arthur Lira. Este, para elegê-lo, pôs de lado outro cupincha, Elmar Nascimento, de Campo Formoso, na Bahia, cidade beneficiada com R$ 63 milhões para obras de pavimentação —um asfalto tão bom que se desfaz na mão. Com tanto dinheiro rolando, quantas histórias semelhantes existem Brasil afora?

O que parecia impossível aconteceu. A falsa fidelidade do "toma lá, dá cá" acabou. Só ficou o "dá cá". Lula 3 terminou seu segundo ano com número recorde de vetos derrubados no Congresso: 32. O desempenho das medidas provisórias foi o pior da história: de 133, só 20 foram aprovadas. Com Motta, nada muda. São esperados mais vetos no âmbito da reforma tributária e muita pressão para votar o projeto de anistia aos terroristas de 8/1 e a PEC que limita as decisões monocráticas do Supremo.

Com popularidade em baixa entre os mais pobres e pressionado pelo preço dos alimentos, Lula lembra um personagem de Polanski. Vive num cul-de-sac.

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DUAS SOLUÇÕES PARA GAZA

Demétrio Magnoli, Folha de S. Paulo

Retirada de tropas é proposta de paz, enquanto sugestão de Trump implode democracia israelense

Na Cidade de Gaza, uma paisagem de ruínas, em cena cuidadosamente coreografada, combatentes armados do Hamas transferiram reféns israelenses à Cruz Vermelha. Na Salah Al Deen, a via que corta a Faixa de Gaza desde Khan Younis até o campo de Jabalia, uma multidão retornou para o norte –a pé, em carroças ou carros– até suas casas que já não existem. As imagens do interregno propiciado pelo cessar-fogo situam-se numa encruzilhada histórica que definirá os destinos de Israel e da Palestina.

Há duas soluções para Gaza. A primeira, que deve ser descrita como solução de paz, é a retirada completa das tropas de Israel e a substituição do governo do Hamas por uma administração da Autoridade Palestina sustentada por forças árabes e internacionais.

No fim da linha, sob o manto de um acordo regional de segurança entre Israel e os países árabes, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia seriam reunificadas num Estado Palestino independente. Biden e Blink delinearam tal plano, que tem o apoio de sauditas, egípcios e jordanianos, mas nunca utilizaram o poder dos EUA para impô-lo ao governo extremista de Netanyahu.

"Joe genocida" –a acusação infamante ressoou nas manifestações de jovens universitários nos EUA, junto com as bandeiras e palavras de ordem de uma esquerda que, sob os efeitos da amnésia histórica, clama pela destruição do Estado judeu. No lugar de Joe, tem-se agora Donald, um líder extremista capaz de associar a noção de paz à de limpeza étnica.

A segunda solução para Gaza é a de Trump, expressa no verbo "esvaziar" e no objeto "local de demolição". O presidente dos EUA dirigiu ao Egito e à Jordânia a proposta de transferir os 2,1 milhões de palestinos de Gaza para campos "temporários" ou "de longo prazo" nos dois vizinhos de Israel. Pela primeira vez, um governo americano alinha-se às correntes supremacistas israelenses que, hipocritamente, pregam a "migração voluntária" da população do enclave, na rota da anexação do conjunto da Terra Santa.

São mais que palavras. Diante da previsível rejeição, Trump dobrou a aposta: "espero que [o presidente egípcio] Sissi absorva alguns. Nós os ajudamos bastante e tenho certeza de que eles nos ajudariam. Ele é meu amigo –e acho que o rei da Jordânia também faria isto." O pretexto para a retomada da guerra está ali, no centro arruinado da Cidade de Gaza, sob a forma dos combatentes do Hamas, que enxergam os palestinos comuns como "mártires da causa".

A "solução final" de Trump colocaria a derradeira pá de cal na visão da partilha da Terra Santa em dois Estados consagrada na célebre resolução da ONU de 1947. Os palestinos seriam confinados a campos fragmentários de refugiados e convertidos, para sempre, num povo sem expressão estatal. Paralelamente, surgiria um grande Israel governado por nacionalistas e religiosos fanáticos engajados na repressão militar-policial de árabes destituídos. A destruição da Palestina conduziria, inevitavelmente, à implosão da democracia israelense.

O "Eixo da Resistência" iraniano, uma coalizão de milícias antissemitas, está morto. A constelação de governos autoritários árabes do Oriente Médio não tem a força ou a convicção para barrar a solução de Trump. Resta saber se a sociedade israelense será capaz de interromper a marcha rumo à catástrofe.

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TECNOUTOPIA OU TECNOFRAUDE ?

Pablo Ortellado, O Globo

Por que a startup de Sam Altman distribuiu R$ 250 milhões no Brasil?

Espalhou-se pelo boca a boca na periferia de São Pualo que qualquer um poderia 'vender sua íris' por R$ 500

Na periferia de São Paulo espalhou-se pelo boca a boca que qualquer um poderia “vender sua íris” por R$ 500 nas lojas de um aplicativo de celular chamado World. A notícia logo chegou às autoridades e pautou a imprensa. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados pediu esclarecimentos à empresa. A imprensa cobriu a história com certa dificuldade técnica e uma saudável dose de desconfiança. Afinal, porque uma empresa americana, fundada por Sam Altman, do ChatGPT, pagaria ao brasileiro que quiser escanear a sua íris?

A empresa em questão se chama Tools for Humanity (Ferramentas para a Humanidade) e oferece o equivalente a R$ 500 em criptomoedas a quem fizer a verificação de humanidade única por meio do World.

A Tools for Humanity criou um protocolo de prova de humanidade única por meio do escaneamento da íris humana, traço biométrico mais preciso que a impressão digital. O protocolo certifica que determinada pessoa é um ser humano único — e não um robô de inteligência artificial. A empresa argumenta que, entre outros potenciais usos, isso poderia ser útil caso plataformas como X adotassem o sistema, marcando contas verificadas como operadas por humanos, em contraste com contas automatizadas.

O protocolo implementa uma série de medidas de segurança para proteger esse dado biométrico sensível. Primeiro, o usuário cria uma conta num aplicativo móvel. Em seguida, deve se dirigir a um ponto de certificação para escanear sua íris usando um dispositivo futurista chamado Orb. Em São Paulo, há 54 lojas onde o escaneamento pode ser agendado.

No momento do escaneamento, a íris é convertida numa sequência, um código único que, segundo a Tools for Humanity, não é armazenado nem no Orb nem em servidores. O que é armazenado é uma chave derivada, produzida com técnicas criptográficas de mão única. Ela funciona como um identificador único, distinto do sequenciamento da íris. Se a mesma pessoa tentar se registrar novamente, o sistema gerará uma chave semelhante, permitindo detectar e impedir cadastros duplicados. No entanto, como essas técnicas criptográficas modificam o código e operam apenas em uma direção, não é possível reconstruir o sequenciamento original da íris a partir da chave derivada. Isso garante que os dados biométricos do usuário permaneçam protegidos. É um sistema engenhoso e, até onde posso ver, seguro.

A controvérsia nas ruas e na imprensa se concentrou na privacidade dos usuários, seja pelo medo popular de “vender a íris”, seja por preocupações mais técnicas das autoridades de dados a respeito da robustez do sistema de proteção à privacidade. Embora a proteção de dados biométricos mereça preocupação, a inquietação deveria estar voltada aos propósitos obscuros: por que um projeto com aplicações potenciais tão vagas escalou com velocidade tão rápida e recebeu tamanho investimento?

Como incentivo à adesão, quem fizer a prova de humanidade receberá cerca de R$ 500 na criptomoeda do projeto, a World (a conversão para reais é simples e pode ser feita alguns dias depois do escaneamento). Só no Brasil foram certificadas cerca de 500 mil pessoas e, portanto, distribuídos R$ 250 milhões. No mundo todo, foram certificadas quase 11 milhões. Significa que foram distribuídos centenas de milhões de dólares em criptomoedas e outros prêmios. Não foi só em São Paulo que a expansão da certificação a partir de populações pobres gerou apreensão. Aconteceu o mesmo na Cidade do México, em Buenos Aires e em países africanos, onde as recompensas eram de menor valor.

Os objetivos declarados do projeto são bastante vagos, e esses propósitos nebulosos, combinados com o altíssimo investimento, despertam suspeitas justificadas. Em algumas entrevistas, um dos fundadores do projeto, Sam Altman, CEO da OpenAI (empresa que faz o ChatGPT), sugere que a Tools for Humanity está criando o que pode ser a infraestrutura tecnológica da Renda Básica Universal — uma política de transferência de renda, como nosso Bolsa Família, mas sem qualquer tipo de condicionante, para todos os cidadãos. No Brasil, a ideia é historicamente defendida por Eduardo Suplicy. Altman é um entusiasta da Renda Básica Universal e acredita que sua adoção política será necessária para mitigar a destruição de empregos que a inteligência artificial acarretará. Com o protocolo da Tools for Humanity, haveria uma identificação de cada ser humano e uma carteira digital para a qual transferir os valores dessa renda básica.

Pode ser que o objetivo da Tools for Humanity seja nobre e altruísta como seu nome — mas, se é assim, por que a falta de transparência? Pode ser também que busque apenas difundir o uso da criptomoeda do projeto ou tenha outro propósito que não se pode ainda ver. Seja como for, expandir a adesão a um protocolo por meio de uma campanha que explora a vulnerabilidade econômica dos pobres em países em desenvolvimento certamente não parece ético.

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O COPOM DE LULA

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

Todo mundo no governo continua achando que a taxa de juros já estava e continua alta demais

Não faz muito tempo, Lula disse que a única coisa fora de lugar na economia brasileira era a taxa de juros. E que a culpa era do então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, tratado como adversário do governo e inimigo da pátria.

Hoje, a taxa básica de juros (Selic) está mais alta — 13,25% ao ano. Seria elevada, na semana passada, numa reunião em que sete dos nove diretores do BC estão lá por indicação de Lula. Inclusive o “companheiro” Gabriel Galípolo, novo presidente da instituição.

Mas a culpa continua sendo de Campos Neto, na opinião de Lula. Na entrevista que concedeu, ele disse que a alta da taxa era esperada, pois havia sido definida em decisão do “outro presidente” do BC. De fato, foi na última reunião presidida por Campos Neto que o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) aumentou a Selic para 12,25% e anunciou que aplicaria mais duas altas da mesma magnitude nas reuniões seguintes, de janeiro e março de 2025.

Mas o companheiro Galípolo estava lá. Era diretor de Política Monetária do BC e votou a favor do choque de juros. Lula deixou de lado esse detalhe, digamos assim. Preferiu manifestar a expectativa, ou, talvez, a convicção, de que a diretoria comandada por Galípolo, com maioria indicada por Lula, conduzirá os juros e a inflação para baixo. Teve o cuidado, porém, de colocar uma ressalva: quando a política permitir. Não disse em que circunstâncias isso ocorreria. 

Aumentar os juros para derrubar a inflação é justamente uma das tarefas de qualquer banco central. Conseguida a queda da inflação, os juros caem em seguida. A diferença é que, para Lula, elevar a Selic sob Campos Neto era sabotagem. Agora, passa. Esse novo discurso de Lula, mais amigável ao mercado, pode ser a explicação para a dura decisão do Copom em dezembro passado — quando elevou a Selic em 1 ponto percentual e anunciou duas altas iguais.

Não é incomum que bancos centrais anunciem seus próximos passos. O mais comum, entretanto, é que apontem a tendência e deixem para cravar a decisão na reunião seguinte. Sabe como é, as coisas podem mudar — e têm mudado muito nos últimos tempos, no Brasil e no mundo.

Quando o Copom se reuniu em dezembro, havia muita especulação sobre a política econômica de Donald Trump, mas nada de concreto. Era um momento de instabilidade. Mas o Copom cravou o que deveria fazer nas próximas duas reuniões, três meses à frente. Talvez não tenha sido intencional, mas isso facilitou a vida de Galípolo. Ele assumiu o BC em janeiro com o choque de juros já contratado.

Sim, a nova diretoria poderia alterar sua interpretação para dizer que o choque não era mais indicado. Mas pega muito mal quando qualquer banco central muda bruscamente sua política. Gera tremenda falta de confiança. Logo, o “companheiro” Galípolo e seus diretores, que votaram por unanimidade, estão praticamente obrigados a levar a Selic até 14,25%.

Era certo, em dezembro passado, que a inflação havia ultrapassado o teto da meta e seguiria assim por meses. Os juros tinham de subir. E seria desconfortável, digamos assim, que Galípolo comandasse sua primeira reunião elevando a Selic.

Teoria conspiratória? Vai saber.

Todo mundo no governo Lula continua achando que a taxa de juros já estava e continua alta demais. O ministro Haddad disse com todas as letras que o remédio, juro alto, pode causar mais danos que benefícios se aplicado em excesso.

Ficamos assim, portanto: só se saberá a orientação da nova diretoria do BC na reunião de maio, quando não estará mais amarrada. No encontro de janeiro, o novo Copom disse que cumpriria em março o choque pré-anunciado, mas não indicou tendências dali em diante. Considerando que as projeções do próprio BC mostram a inflação acima da meta até 2026, é quase unanimidade entre analistas que a Selic não pode parar nos 14,25%.

O mercado gostou do tom mais amigável de Lula. Gostou também que o Copom tivesse mantido o compromisso. E para maio? Veremos.

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DESEMPREGO CAI A 6,6% MENOR PATAMAR DA HISTÓRIA

Carolina Nalin, EXTRA

Pesquisa do IBGE começou em 2012. No último trimestre, taxa foi de 6,2%, também a menor para o período

O Brasil fechou 2024 com a menor taxa média de desemprego desde o início da série histórica, em 2012. O índice anual caiu de 7,8% para 6,6%. O número de pessoas ocupadas nunca foi tão alto no país, com recordes no emprego formal e por conta própria, além do maior rendimento médio já registrado. É o que mostram os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgados nesta sexta-feira pelo IBGE.

No trimestre encerrado em dezembro, a taxa foi de 6,2%, também o menor índice já registrado para o período desde 2012. O resultado veio em linha com o esperado pelos agentes econômicos, que projetavam que a taxa recuasse para 6% no quarto trimestre do ano passado, segundo mediana coletada pelo Valor Data.

Em um ano, 1,1 milhão de pessoas deixaram de procurar emprego . Com isso, o número de pessoas desocupadas foi o mais baixo desde 2014, quando esteve em 7 milhões.

— A gente remonta a patamares do início da série — diz Adriana Beringuy, coordenadora de Pesquisas por Amostra de Domicílios do IBGE, ao analisar a taxa média anual do desemprego.

Emprego com e sem carteira batem recorde

Enquanto o desemprego caiu, 2,7 milhões de pessoas ingressaram no mercado de trabalho no ano passado e o país bateu recorde de ocupados. Cerca de 103,3 milhões de pessoas tinham alguma ocupação em 2024, uma alta de 2,6% em relação a 2023(100,7 milhões).

Esse grupo corresponde a 58,6% da população com 14 anos ou mais - o chamado “nível da ocupação” - que avançou 1 ponto percentual em relação ao ano anterior (57,6%). Foi também a maior taxa já registrada pela série histórica, superando o recorde registrado em 2013 (58,3%).

O emprego com carteira cresceu 2,7% no ano e chegou a 38,7 milhões de pessoas, o mais alto da série. O mesmo ocorreu com o emprego sem carteira no setor privado, que mostrou aumento de 6% no período e alcançou 14,2 milhões de pessoas. Já o número de trabalhadores domésticos caiu 1,5%, chegando a 6 milhões de pessoas.

O comércio foi o setor que mais absorveu trabalhadores no ano passado, com um acréscimo de 733 mil profissionais na atividade. Em seguida, ficou a administração pública, que somou 524 mil novos ocupados, e o setor de transporte e armazenagem, com 429 mil. A construção, por sua vez, registrou a entrada de 406 mil trabalhadores, enquanto a indústria expandiu seu contingente em 340 mil pessoas no ano passado.

O emprego esteve aquecido em todos os setores. Comércio, transporte, administração pública, informação e comunicação e outros serviços atingiram recordes de profissionais. Já a construção e indústria voltaram a operar com contingente próximos aos recordes de 2014.

— São vários segmentos produtivos com expansão da ocupação, não apenas os mais intensivos em mão de obra — afirma Adriana, do IBGE.

No quarto trimestre de 2024, setores como construção (333 mil), transporte e armazenagem (283 mil) e alojamento e alimentação (214 mil) puxaram o aumento da ocupação. No entanto, a taxa de desemprego se manteve estável em relação aos três meses anteriores (6,4%).

Massa salarial e renda batem recorde

Os trabalhadores receberam cerca de R$ 3.225 ao longo de 2024, conforme o rendimento médio real habitual. Foi o maior valor anual para a série da pesquisa, superando o valor registrado em 2014 (R$ 3.120). A renda cresceu 3,7% na comparação com 2023.

— São dois anos seguidos de crescimento do rendimento, após recuo em 2021 e 2022. A expansão do rendimento em 2024 abrangeu trabalhadores formais e informais o que contribui para o crescimento da massa de rendimento — analisa Adriana.

Já a massa de rendimento chegou a R$ 328,9 bilhões, o maior da série, com alta de 6,5% (mais R$ 20,1 bilhões) em relação a 2023.

Pnad x Caged

Novos números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) foram divulgados na quinta-feira. O país abriu mais de 1,7 milhão de vagas com carteira assinada no ano passado.

Tanto a pesquisa do Caged quanto a do IBGE mensuram o emprego, mas suas metodologias são diferentes. A do Caged só traz informações sobre trabalho com carteira assinada, com base no que as empresas informam ao ministério. Os dados são mensais.

Já a Pnad traz informações sobre trabalhadores formais e informais. A pesquisa é divulgada mensalmente, mas traz informações trimestrais. A coleta de dados é feita em regiões metropolitanas do país.

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EM DEFESA DA LIBERDADE

Miguel Reale Júnior, O Estado de S. Paulo

A defesa da liberdade e da democracia, diretriz orientadora nos primeiros 50 anos do ‘Estadão’, veio a ser a senda do jornal no século que se seguiu

O sesquicentenário do Estadão convida a visitar o papel deste importante veículo de imprensa na história do País. O traço característico da caminhada de 150 anos está na defesa e no respeito da liberdade, cabendo destacar sua participação nos acontecimentos desde sua fundação até o fim do primeiro quartel do século 20.

Ressaltam-se as figuras dos jovens fundadores, Rangel Pestana e Américo de Campos, o primeiro, signatário do Manifesto Republicano de 1870, o segundo, integrante da Convenção de Itu de 1873, nascedouro do partido republicano. Ambos estiveram comprometidos com a causa da abolição da escravatura. São duas tônicas do novel jornal fundado em 4 de janeiro de 1875. Como disse Martinho Prado Jr., em 16 de março de 1882, a causa da nefanda escravidão estava na monarquia. A luta pela república andava junto com a da abolição.

Destacou-se, em caderno especial do centenário da abolição, que A Província de São Paulo estimulou e deu grandes espaços à criação de associações abolicionistas, divulgando notícias das atividades das então existentes. Rangel Pestana, em primoroso editorial de 17 de agosto de 1883, unia o ideal republicano ao fim da escravatura, mesmo porque o então projeto do governo era acanhado em face do pensamento nacional. Por isso, ao festejar a abolição, n’A Província de São Paulo, em edição de 12 de maio de 1888, se asseverou: o general que conseguiu a vitória “foi esse grande anônimo que se chama povo”.

A edição de 16 de novembro de 1889 estampava em grandes letras “VIVA A REPÚBLICA”, registrando-se na segunda página o contentamento geral com o povo a confraternizar-se com júbilo. Formou-se um governo provisório em São Paulo, um triunvirato composto exatamente por Rangel Pestana, Prudente de Moraes e coronel Mursa, sendo secretário-geral do governo Julio Mesquita.

A República, todavia, veio a ser dominada pela ditadura da espada com Floriano Peixoto, se conspurcando com a política dos governadores instalada por Campos Salles, consagrando o conluio espúrio entre o governo central e os governos estaduais, em troca de favores facilitada pelo controle do voto em aberto a perenizar o domínio dos chefetes locais. Não era, como disse o constituinte de 1891 Martinho Prado Jr., “a República dos meus sonhos”.

Assim, não é contra o militar Hermes da Fonseca, mas contra o militarismo e a situação degenerada da República que surge a candidatura de Ruy Barbosa, na qual se empenha grandemente O Estado de S. Paulo, noticiando eventos da campanha civilista. Retratamse, nos dias 16 de dezembro de 1909 e 24 de fevereiro de 1910, os comícios de Ruy em São Paulo e em Minas. As denúncias e as soluções aventadas por Ruy estão em seu programa de governo, publicado na edição de 16 de janeiro de 1910. Tais propostas continuam válidas passados 115 anos. Vejamos.

Ruy propunha, por exemplo, a proibição de o Congresso inserir nas leis anuais disposições estranhas aos serviços gerais da administração, autorizado o governo a vetar o Orçamento no que conflitar com essa proibição. Refutava a sugestão da candidatura militar para comissões do Senado desautorizarem decisões do Supremo Tribunal Federal, em um regime no qual esse é “o árbitro irrecorrível da validade dos atos do Congresso”, rejeitando ameaças a seus juízes com processo no Senado se persistir em suas decisões.

Afirma Ruy sua preferência por tribunais coletivos, nos quais a prolação dos votos sob a impressão viva dos debates é uma das vantagens do sistema.

Ruy asseverava que, com a política dos governadores, os Estados assumiram uma semissoberania no sistema federativo, um satrapismo irresponsável e onipotente, em proveito de um grupo, de uma família, facilitando reeleições. Segundo Ruy, instalou-se o conluio pelo qual o governo federal se faz solícito aos maus governos, visando a um processo eleitoral viciado, cumprindo, então, uma reforma moral para que a União deixe de ser o guardacostas das oligarquias locais. Ruy perdeu, mas nem por isso o jornal deixou de atuar em favor da reforma moral por ele mencionada.

Foi na linha dessa reforma que o jornal O Estado de S. Paulo, pelo seu diretor Julio Mesquita, se empenhou em favor dos revoltosos do Rio Grande do Sul, na revolução federativa de 1923, apoiando de todas as formas a luta de Assis Brasil, que resultou no acordo de Pedras Altas, impedindo-se mais uma reeleição de Borges de Medeiros.

Estourada a revolução em São Paulo, em julho de 1924, com Isidoro Dias Lopes e Miguel Costa, foi Julio Mesquita convidado a assumir o governo provisório, o que não aceitou. Colocou-se, todavia, em forte atividade na defesa da cidade de São Paulo, vítima de canhoneio, que matou centenas de pessoas. Com essa ação em favor de sua cidade, terminou preso e o jornal, fechado.

A defesa da liberdade e da democracia, diretriz orientadora nos primeiros 50 anos de vida do Estadão, como acima lembrado, veio a ser a senda do jornal no século que se seguiu, também continuando, resiliente, em prol da moralização da República. •

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MONROE REVISITADO

Luiz Gonzaga Belluzzo, CartaCapital

Como os Estados Unidos encaram o excepcionalismo. E como o resto do mundo o vê

A deportação de imigrantes pelo governo Trump foi analisada como um evento excepcional na história norte-americana. Uma caminhada pelos desvarios incrustados na história do Irmão do Norte traria, no entanto, informações que desmentem a excepcionalidade das proezas do atual presidente e seus asseclas. No artigo American Exceptionalism, Daniel ­Deudney e Jeffrey Meiser desvendam as origens da autolouvação dos EUA que invoca o caráter único e superior de sua posição no âmbito dos Estados Nacionais. “Desde a sua fundação, há quase um quarto de milênio, os Estados Unidos da América se consideram e são amplamente percebidos como excepcionais.”

Os autores discorrem sobre os movimentos contraditórios da afirmação desse excepcionalismo ao longo da história. Na política norte-americana e mundial contemporânea, o excepcionalismo dos EUA significa coisas diferentes para indivíduos e países. Segundo alguns, é uma visão, para outros, uma farsa, e para outros, um pesadelo. Para certos cidadãos estadunidenses, particularmente neoconservadores recentes, intoxicados de poder, a excepcionalidade é uma luz verde, uma justificativa e uma desculpa para todos os fins, para ignorar a lei internacional e a opinião pública mundial, para invadir outros países e impor governos.

Na reafirmação de sua excepcionalidade, a trajetória dos Estados Unidos recebeu uma contribuição valiosa da Doutrina Monroe. Vou me valer de uma reportagem da britânica BBC para esclarecer de forma sucinta os pontos centrais da doutrina formulada pelo presidente ­James Monroe. “A América para os americanos” é a frase que resume uma das políticas externas mais antigas e emblemáticas dos Estados Unidos, a Doutrina Monroe. Ela foi apresentada em 2 de dezembro de 1823 por Monroe em um discurso perante o Congresso. Na sua mensagem, o então presidente emitiu um alerta às potências europeias para que permanecessem fora do continente americano.

Aqueles eram os anos posteriores às independências que as nações americanas ganharam diante das monarquias da Espanha, França ou Portugal. “Os continentes americanos, pela condição de liberdade e independência que assumiram e mantêm, não deverão doravante ser considerados sujeitos de futura colonização por qualquer potência europeia”, disse Monroe aos congressistas. Qualquer intervenção, prosseguiu, “seria considerada um ataque aos próprios Estados Unidos e garantiu que o seu país não se envolveria em nenhuma disputa na Europa.”

A solidariedade anticolonialista conduziu a uma política expansionista e à proteção dos interesses econômicos dos EUA no Hemisfério Ocidental. É importante registrar os contornos da “nova ordem mundial” imposta pelos Estados Unidos depois da queda do Muro de Berlim. A “nova ordem” foi o resultado do exercício, sem peias, do poder dos Estados Unidos. As normas da mercantilização generalizada e da concorrência universal, apresentadas como forças naturais, refletem, na verdade, a predominância dos interesses do país dominante sobre o resto do mundo. As reformas liberais vêm sendo impostas aos governos da periferia pelos organismos internacionais –Banco MundialFMI, BID – que, por sua vez, funcionam como executores das políticas compatíveis com a preservação da Ordem Americana. Ainda não estão claras as consequências da disseminação dos padrões norte-americanos sobre sociedades que apresentam trajetórias históricas diferentes daquelas percorridas pelo ­país do Norte. O potencial de conflito não é desprezível, ainda que edulcorado por essa ideia de que ingressamos no caminho sem volta da harmonia universal.

Para uns é uma visão, para outros, uma farsa ou um pesadelo

Encerro com o episódio da perseguição ao nosso Carlitos–Charles Chaplin. A perseguição foi desatada na era do macarthismo. No derradeiro capítulo de sua autobiografia, Carlitos faz um relato de uma entrevista que, às vésperas de sua partida da América, concedeu a jornalistas. “Depois que eles serviram alguns coquetéis, eu apareci, mas imediatamente senti o cheiro de alguma coisa. Falei atrás de uma pequena mesa e, exibindo toda a capacidade de sedução que pude, disse: ‘Como vocês estão, senhoras e senhores? Estou aqui para informá-los de tudo o que lhes possa interessar em relação ao meu filme e meus planos futuros’. Eles permaneceram em silêncio. ‘Não falem todos de uma vez’, disse, sorrindo. Finalmente, um jornalista que estava sentado quase em frente disse: ‘Você é comunista?’ ‘Não’, respondi categoricamente. ‘A próxima pergunta, por favor’. Então uma voz começou a murmurar algo. Achei que ele seria meu ‘amigo, do Daily News, mas ele se destacou por sua ausência. O orador era um sujeito de aparência elegante, com o casaco, curvado sobre um manuscrito, do qual estava lendo alguma coisa. ‘Com licença’, eu disse. Você terá que lê-lo novamente. Não entendo uma palavra do que você está dizendo. ‘Nós’, começou ele, ‘os ex-combatentes católicos da guerra’; ‘Não estou aqui para responder aos veteranos católicos da guerra’, interrompi-o. Esta é uma conferência de imprensa. ‘Por que você não se tornou um cidadão americano?’, disse outra voz. ‘Não vejo nenhuma razão para mudar minha nacionalidade. Eu me considero um cidadão do mundo’, respondi.”

Chaplin continua: “Houve uma grande agitação. Duas ou três pessoas queriam conversar ao mesmo tempo. No entanto, uma voz dominou as outras: ‘Mas você ganha dinheiro nos Estados Unidos’. ‘Bem’, eu disse, sorrindo, ‘se você falar de uma perspectiva de negócios, vamos direto aos fatos. Meus negócios são internacionais; setenta por cento da minha renda eu ganho no exterior, e os Estados Unidos tributam cem por cento. Então, você vê, eu sou um hóspede muito bem pago’”.

Mais: “O da Legião Católica atacou novamente com voz estridente: ‘Quer você ganhe seu dinheiro aqui ou não, nós que desembarcamos nas costas da França lamentamos que você não seja um cidadão desta nação’. ‘Você não é o único homem que desembarcou nessas praias’, eu disse. ‘Meus dois filhos também estavam lá, no exército de Patton, firmes na linha de frente, e eles não saem por aí se gabando ou explorando o fato, como você está fazendo’. Eu gostaria de dizer a eles que quanto mais cedo eu estivesse livre daquele ambiente carregado de ódio, melhor, que estava farto dos insultos e da moral hipócrita da América, e que a coisa toda era um grande incômodo. Mas tudo o que eu tinha estava nos Estados Unidos e estava com medo de que eles pudessem encontrar uma maneira de confiscá-lo. Agora eu poderia esperar qualquer ação inescrupulosa deles”. •

Publicado na edição n° 1347 de CartaCapital, em 05 de fevereiro de 2025.

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NOTÍCIAS FALSAS E DEMOCRACIA

Marcus Pestana, Congresso em Foco

A democracia está em crise? Qual o papel da desinformação? Há hoje abundante literatura e espaço central para o debate sobre a manipulação da verdade como ferramenta de ação política através das tão propaladas “Fake News”.

Mas este é um problema novo? De jeito algum. A fofoca, as notícias falsas, as mentiras são presentes na vida pública e privada desde que o mundo é mundo, desde a Grécia Antiga e o Império Romano. E foram eficazes em grandes momentos da História.

Não sem motivos o escritor americano Mark Twain registrou: “Uma mentira pode dar a volta ao mundo enquanto a verdade ainda calça os sapatos”. A instrumentalização da mentira foi legitimada por Gobbels, ministro da propaganda da Alemanha nazista: “Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”. Existe um ditado jornalístico: “A primeira vítima da guerra é a verdade”. Hitler usou intensamente a mentira como arma. Lendo as “Memórias da Segunda Guerra Mundial” de Winston Churchill, vencedor do Nobel de Literatura, fica claro como a França e a Inglaterra, pela tibieza de seus governos nos anos de 1930, foram imobilizados por sucessivas mentiras de Hitler, que prometeu, em diferentes momentos, não invadir a Tchecoslováquia, a Polônia, a União Soviética e a França, e invadiu todos esses países.

Stalin simplesmente mandava tirar das fotos históricas as figuras de Trotsky, Kamenev, Zinoviev, Bukarin, considerados dissidentes e “inimigos do socialismo”. Uma das maiores coleções de mentiras, “Fake News” se preferirem, foram os famosos “Processos de Moscou” que, de 1936 a 1938, resultaram na execução de toda a velha guarda bolchevique.

Toda a polêmica em torno da suposta tributação das operações via PIX e o grau de controle da Receita Federal sobre a vida dos contribuintes reacendeu o debate no Brasil. Mas, nestas terras tropicais, o assunto também não é novo. Fui testemunha ocular como um dos coordenadores das campanhas citadas a seguir.

Em 2004, Juiz de Fora, eleições para prefeito, na passagem do primeiro para o segundo turno, espalhou-se na cidade uma brutal mentira. Nosso candidato era deputado federal. Foi disseminada, em larga escala, a “notícia” de que ele teria votado para acabar com direitos dos trabalhadores tais como férias, décimo terceiro, FGTS etc. Ferramentas usadas: e-mails, panfletos apócrifos, e, pasmem, teatro invisível – sem a autorização de Augusto Boal - nos ônibus da cidade. Resultado da eficaz mentira e de nossa reação tardia: nosso candidato perdeu 10% e a liderança, e dias depois, o segundo turno.

Eleição presidencial de 2014. Eu era tipo um ouvidor político da coordenação de comunicação. Sexta-feira, a nove dias do 2º. Turno, me liga um prefeito da Baixada Fluminense: “Deputado, estou nas ruas pedindo voto para nosso candidato e é a terceira senhora em bairros diferentes que me conta a mesma história: recebeu um telefonema da Caixa para se recadastrar rapidamente no Minha Casa, Minha Vida, porque se o nosso candidato vencer vai acabar com o programa”. Durante todo o dia choveram telefonemas do Brasil inteiro com a mesma “estória”! Ferramenta de disseminação da “Fake News”: call center.

Como se vê a “Fake News” como ferramenta política só ganhou escala e velocidade com as redes sociais e os aplicativos de mensagem. A difícil questão é: como combater a mentira sem agredir a liberdade de expressão?

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O 8 DE JANEIRO E A QUESTÃO MILITAR

Hamilton Garcia de Lima, Democracia Política

A jovem democracia brasileira segue seu curso, em seu ciclo mais extenso e profundo sob a República, sem se animar a sanar os graves problemas que a acometem desde 1985 (vide A crise e suas raízes). Seguindo assim, continuaremos suscetíveis a ameaças políticas como a representada pelo bolsonarismo.

A bem da verdade, o malogro do golpismo bolsonarista se deveu mais à inconsistência de seus estrategos (vide A viagem redonda – de volta à política de vetos) do que a qualquer propalada fortaleza institucional. Quem conhece nossa história republicana sabe que intervenções militares exitosas só se produzem quando em conexão com amplos movimentos sociais extra-caserna. A tentativa de Bolsonaro de se manter no poder passou longe disso.

Forjado no âmbito do centrão como líder corporativo (militar), sem ter estudado a história, Bolsonaro imaginou que a mera mobilização do “soldado-cidadão”, à moda da República da Espada (Governo Deodoro-Floriano, 1889-1894), junto com o toma-lá dá cá da Nova República, seria suficiente para pavimentar seu projeto autoritário. Não foi.

Um breve olhar sobre a Questão Militar do século retrasado nos ajuda a entender tanto o apelo anti-sistema do militarismo em pleno s.XXI, como também sua impotência política. A Questão Militar emerge em 1886 ecoando a consciência de si adquirida pelos militares depois de cinco anos de encarniçada luta do exército regular e dos corpos de voluntários na Guerra do Paraguai (1864-1870). Na ocasião, a governança aristocrática sobre o Exército e a Marinha foi posta à prova, sobretudo no primeiro caso, em função das péssimas condições das forças, desprovidas de materiais e recursos humanos apropriados, além de uma estrutura de apoio capaz de sustentar um conflito daquela magnitude. Em consequência, os militares passaram a perseguir, nos anos seguintes, tanto o reaparelhamento como o adequado treinamento das Forças, além do reconhecimento político e social de sua importância para o país.

Nenhum desses objetivos foi encampado pelo regime imperial, que passou a temer a consciência recém-assumida em combate pelos militares como prenúncio de contestações violentas à ordem escravista vigente. Ao contrário, operaram de modo rápido e descompromissado a desmobilização/fragmentação das unidades combatentes, o que foi percebido pelos oficiais como um menosprezo aos valores e méritos militares.

Desde então, uma série de crises foram colocando lenha no descontentamento do setor, como a da contribuição militar ao montepio (1883), da adesão pública à causa abolicionista (1884) e da autonomia administrativa para inspeção/punição militar (1885), esta última desencadeando uma série de artigos na imprensa que culminou com a proibição de manifestação pública dos militares e punições disciplinares em série (1886) que dariam ensejo à movimentação cívico-militar que culminaria com a fundação do Clube Militar no Rio de Janeiro (1887).

A dimensão da crise militar ficou plasmada nas metas do Clube, que previam não só estreitar os laços de união e solidariedade entre os oficiais do Exército e da Marinha, e defender seus interesses e direitos, como incentivar manifestações cívicas e patrióticas em prol da honra nacional e da dignidade militar. Ato contínuo, o Clube reitera a posição anti-escravista dos militares enviando à Princesa Isabel uma petição contra o engajamento de soldados em operações de captura de escravos. O documento defendia, em tom eloquente, que a liberdade era um valor supremo para os militares e tal designação era incompatível com a missão do Exército e a dignidade do Império.

Todas estas tensões, como sabemos, desaguaram no golpe contra a monarquia (1889) liderado pelo Marechal Deodoro, sob influência do Coronel Benjamin Constant, com o apoio de republicanos civis como Rui Barbosa, Aristides Lobo e Quintino Bocaiúva. Tinha início o ciclo de intervenções cívico-militares que marcariam todo o s.XX.

Refletindo sobre a necessidade da arbitragem militar para a proclamação da República, o monarquista Joaquim Nabuco afirmou de maneira premonitória:

“A República precisa do militarismo como o corpo humano precisa de calor; a questão é tê-lo no grau fisiológico (…). Ter o Exército como força ativa é tê-lo demais, tirar ao Exército todo o caráter político, é tê-lo de menos; a temperatura exata, seria tê-lo como força política de reserva – o que é (…) uma espécie de quadratura de círculo”[i].

A percepção liberal oitocentista de Nabuco foi reiterada, meio século depois, pela novecentista de Raymundo Faoro, que sustentava que, “para a propaganda reacionária, o Brasil (…) seria o prisioneiro (…) (d)os ‘bacharéis de espada’”. A tese expressa por Faoro, em 1958, era que “o afastamento total do Exército da política equivaleria a consagrar o imobilismo oligárquico do regime (…) com a fachada política dos governadores”, concluindo que “a força armada será, por muitos anos, o elo último de intermediação entre o país submisso e a ordem universal em movimento”.

Àquela altura, Faoro constatava que o intervencionismo militar, que trazia vários inconvenientes, como a politização da caserna – que implicava, no limite, no direito de insubordinação militar contra seus superiores – e a militarização da política, estava limitado pela incapacidade militar de governar como ditadura sem o apoio da sociedade e dos partidos regionais (de fato, embora não de direito) – hoje poderíamos sustentar a mesma tese substituindo os partidos pelas lideranças majoritárias no Congresso Nacional.

Foi precisamente esta limitação do poder militar que a Doutrina Góis Monteiro, a partir de 1930, trouxe à baila, determinando todas as intervenções posteriores em termos de suas chances de sucesso ou de fracasso. E foi a ignorância desta lei de bronze do intervencionismo militar que fez com que os linha-dura da caserna fossem reiteradamente derrotados até 1964. Mau aluno que é de História, Bolsonaro ignorou a lição e apostou todas suas fichas na agitação de ruas e estradas, sob o “ideário” de uma hipótese (adulteração das urnas eletrônicas), e na cooptação do oficialato, ignorando que a forte presença militar nos governos dos primeiros anos republicanos (1889-1891) não bastou para a manutenção do poder, e que, mesmo nesse período, o protagonismo dos chefes militares estava baseado não em ambições pessoais, mas nos “interesses nacionais e patrióticos”.

Tivemos sorte que a liderança autoritária tinha esse perfil. Mas, devemos colocar nossas barbas de molho, pois, sem as reformas que precisamos para dar maior solidez à democracia – inclusive a reforma moral-intelectual (de todos) –, continuaremos a contar com sorte.

*Hamilton Garcia de Lima (Cientista Político, UENF/DR[ii])

[i] Citado por Raimundo Faoro, Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro (vol.2); ed. Publifolha/SP-2000.

[ii] Universidade Estadual do Norte-Fluminense/Darcy Ribeiro.

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A INUTILIDADE DOS MUROS

André Gustavo Stumpf, Correio Braziliense

O mundo vem sendo dividido por muros desde priscas eras, com objetivo de cada grupo, ou tribo, preservar tradições, comércio e vantagens comparativas em relação aos vizinhos

A pequena cidade de Aguas Blancas, na província de Salta, Argentina, fronteira com a Bolívia, colocou a América do Sul no mapa das divisões tribais quando decidiu construir um muro para marcar sua fronteira com o vizinho naquela região andina. Explico melhor: o mundo vem sendo dividido por muros desde priscas eras, com objetivo de cada grupo, ou tribo, preservar tradições, comércio e vantagens comparativas em relação aos vizinhos. 

A iniciativa dos vizinhos parece ridícula, porque a construção é, na realidade, uma cerca de arame farpado com 200 metros de comprimento, numa área muito maior que pode ser violada a pé para quem quiser caminhar um pouco mais. Vale, contudo, como registro de um tempo de impossibilidade de convivência pacífica com quem pensa ou age diferente. Ou simplesmente é mais pobre. Trata-se de mensagem de apoio do mundo subdesenvolvido para o grande irmão Donald Trump.

Um dos mais antigos muros de que se têm notícia é a Muralha da China, com 21 mil quilômetros. É a metade da circunferência da Terra. Levou mais de um século para ser concluído. Seu objetivo era defender as dinastias chinesas de invasões dos mongóis. Não deu certo. Se colocada nos Estados Unidos, a Muralha da China poderia fazer três linhas paralelas de muro ligando a costa leste à oeste. Mas os norte-americanos já construíram um muro para chamar de seu, que os separa dos mexicanos e dos latino-americanos em geral no sul do Texas, na fronteira com Tijuana. 

Eles só querem latinos para fazer a colheita de frutas na Flórida e na Califórnia, limpar residências, cortar grama ou cuidar de crianças. Qualquer ameaça além disso, termina com pés e mãos amarrados por algemas em avião militar que despeja o intruso no porto de origem. É a democracia do grande irmão, o que tem a força. A estupidez do novo presidente dos Estados Unidos não é original.

O muro na fronteira de Israel com a Cisjordânia, ou aquele que cerca e envolve Gaza, está entre os mais intimidadores do mundo. Ele é assustador não apenas por seu tamanho, pelo concreto e aço utilizados, mas pelo que representa. São povos condenados à separação por incompetência da diplomacia dos homens. Interesses subalternos, egoísmo, religiosidade extremada ou nacionalismo pouco inteligente justificam as cercas. A recente guerra demonstra que os muros servem apenas para serem ultrapassados. Pelos dois lados. Não separam nada. Os dois lados perderam soldados, civis, crianças, velhos e esperanças. A paz é precária, no aguardo, apenas, de um novo conflito. 

Atravessar o Muro de Berlim, quando dividia a antiga capital alemã, que, por sua vez, ficava integralmente dentro do setor soviético, não era agradável. Soldados nada amistosos verificavam documentos, enquanto outro grupo obrigava a trocar dinheiro em um câmbio artificial caríssimo. Eram duas Alemanhas, separadas por um formidável muro de concreto, com mais de 180 quilômetros de comprimento. 

Começou a ser construído em agosto de 1961, quando o Exército da Alemanha Oriental iniciou o cerco de Berlim. As autoridades, de um lado, chamaram o muro de Proteção Antifascista. Do outro lado, ganhou o apelido de Muro da Vergonha. Em menos de uma década, ele foi concluído, com torres de vigia, cercas elétricas, cães, campos de tiro, e centenas de guardas armados. 

No lado oriental, as pessoas eram proibidas de se aproximar dele, mas do outro lado era possível percorrer as ruas que terminavam na parede de concreto. Em alguns trechos, havia mensagens como "pule o muro e ingresse no partido". Ou "atenção: área de treinamento de salto em altura da Alemanha Oriental." O objetivo do muro em Berlim era impedir que as pessoas deixassem o paraíso comunista. O muro nos Estados Unidos é projetado para impedir que pobres desfrutem do paraíso capitalista.

Quando Gorbachev lançou suas ideias de "perestroika", os controles se afrouxaram. No final da primavera de 1989, os alemães começaram a passar férias na Hungria, que pouco depois abriu sua fronteira com a Áustria. Daí por diante, a corrente humana aumentou e a pressão popular derrubou o muro no final daquele ano. O povo desmanchou o concreto e cantou hinos de independência. Um grupo de jovens viajou num pequeno e barulhento Trabant até Paris, onde foi recepcionado pelos franceses, engasgando, na avenida Champ-Élysées. Uma farra. 

Há outros exemplos de muros na África, na Ásia e até em cidades antigas que eram usualmente muradas. Os portugueses levaram um susto ao chegar ao Benim, 1485, e encontrar uma cidade murada maior que Lisboa, com muros de 20 metros de altura e fossos excepcionalmente profundos, todos vigiados. Claro que ao homem, chamado civilizado, branco, coube a tarefa de destruir o que havia sido a conquista civilizatória daquele povo. Os muros não servem para nada, nem para conquistadores, nem para conquistados.

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