quarta-feira, 18 de setembro de 2019

COM NOTICIAR BESTEIRAS ?

Hélio Schwartsman, Folha de S.Paulo
Como tratar as declarações escatológicas do presidente Jair Bolsonaro, que falam mais sobre sua psique do que sobre o estado do mundo? O que fazer quando o segundo filho insinua que a democracia não nos serve? E quando o terceiro desfila ostensivamente com uma arma na cintura? Tais imagens devem ser publicadas?
As asneiras ditas e encenadas quase diariamente por Bolsonaro e seu entorno colocam a imprensa numa sinuca de bico. A missão do que os britânicos chamam de "quality press" é dupla. Devemos, por um lado, destacar aquilo que tem interesse público, sem nos perder nas irrelevâncias típicas do reino da fofoca e menos ainda em psicoses privadas. Por outro, temos a obrigação de registrar os principais acontecimentos do dia, em especial os fatos que dizem respeito à política.
Nem sempre esses objetivos são compatíveis. Se os jornais estampam em suas primeiras páginas as opiniões pouco coerentes que um membro da família presidencial tem sobre a democracia, fracassam na primeira meta; se deixam de fazê-lo, malogram na segunda. É a definição clássica de dilema, em que qualquer solução adotada se mostra contraditória e insatisfatória.
O problema não é novo. O que mudou é que, por força do segundo objetivo, ficou muito mais difícil dar às bobagens a dimensão que elas mereceriam pela régua do primeiro. Enquanto Bolsonaro era apenas um deputado do baixo clero, as estultices que ele nunca deixou de proferir só ganhavam menção na imprensa quando batiam algum recorde. Agora que ele é o presidente e noticia-se até a evolução de seu trânsito intestinal, seria complicado aplicar filtros estéticos, políticos ou até civilizacionais a suas declarações.
Não importa o que a mídia decida fazer, estará traindo algum aspecto de sua missão. Erra-se um pouco menos, creio, mostrando o circo de horrores como ele é e deixando que cada leitor tire suas próprias conclusões. 
Hélio Schwartsman
Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…".
Bookmark and Share

A POLÍTICA DA INTIMIDAÇÃO

Bernardo Mello Franco, O GLOBO
O youtuber Felipe Neto falaria hoje no Educação 360, o seminário que acontece na Cidade das Artes. Ontem ele cancelou a palestra por razões desegurança. Em comunicado, relatou “ameaças que atentam contra a sua vida e de sua família”.
Felipe pilota um canal de vídeos com 34 milhões de seguidores. Virou empresário bem sucedido e ídolo do público infanto-juvenil. Nos últimos tempos, ele reduziu o besteirol em favor das mensagens educativas. Também conquistou desafetos ao se insurgir contra os discursos de ódio e a homofobia.
Há dez dias, o youtuber peitou o prefeito Marcelo Crivella, que tentava ressuscitar a censura na Bienal do Livro. Em reação ao bispo, comprou e distribuiu gratuitamente 14 mil volumes com temática LGBT. Marquetagem à parte, a ação enfureceu as milícias virtuais. Felipe virou alvo de uma campanha difamatória, impulsionada por robôs e liderada por blogueiros governistas e deputados do PSL.
“É estarrecedor que no Brasil, em 2019, um indivíduo seja impossibilitado de se manifestar e lutar contra qualquer tipo de censura e opressão sem ser ameaçado”, ele escreveu ontem. Não se trata de um caso isolado. A mesma fórmula tem sido usada para silenciar pesquisadores, jornalistas, políticos e artistas que ousam contestar o poder.
Todo governo lida mal com críticas. Os últimos três presidentes também viveram às turras com a imprensa. No entanto, nenhum deles mostrou tanto empenho quanto o atual para sufocar o contraditório e calar as vozes divergentes.
Há método por trás da política da intimidação. Em vídeo divulgado no domingo, o ideólogo Olavo de Carvalho incitou governo e militância bolsonarista a se unirem contra quem ele vê como inimigos.
“É contra essa gente que o presidente tem que se voltar. Não na base do xingamento, que não adianta nada. Tem que agir contra essas pessoas. Mas ele só pode fazer isso se tiver apoio de uma militância organizada”, receitou o autoproclamado filósofo.
Só faltou explicar o que ele entende por “agir”.
Bookmark and Share

terça-feira, 17 de setembro de 2019

VEXAME NA ONU

Marcos Strecker, ISTOÉ
As queimadas na Amazônia chamuscaram a popularidade do presidente e carbonizaram a sua imagem no exterior. Jair Bolsonaro já era uma figura bizarra para a comunidade internacional. Era visto como um fã caipira de Donald Trump (na melhor das hipóteses) ou uma versão latina do filipino Rodrigo Duterte (na pior das hipóteses, já que este promove a barbárie e execuções sumárias). Agora, tornou-se um pária.
Eleito com um discurso de ódio contra o PT, Bolsonaro tem apostado todo o seu mandato no confronto e no discurso radical para sua própria base. Ao pregar para os convertidos, ignora a maioria da população. No exterior, a estratégia tacanha levou-o a se aproximar das poucas estrelas extremistas de direita, como o húngaro Viktor Orbán e o italiano Matteo Salvini. Na América do Sul, tentou se alinhar com o chileno Sebastián Piñera e com o liberal argentino Mauricio Macri. Nos EUA, conseguiu até agora o apoio de Donald Trump.
Essa rede exterior está prester a ruir. Macri deve perder a presidência em outubro para os peronistas. Salvini derrubou seu próprio governo numa manobra desastrada. Piñera se afastou, pois Bolsonaro defendeu em uma visita ao Chile o ditador Augusto Pinochet — uma heresia até para os conservadores. E Orbán acelera a marcha autoritária em seu país ao esmagar a oposição e asfixiar a ciência, afastando-se da comunidade europeia. Trump endossa Bolsonaro, por enquanto, mas os interesses comerciais e econômicos do Brasil e EUA podem entrar em choque.
No exterior, o discurso misógino, sexista, pró-tortura e antiambiental foi arrasador até o momento. Além disso, entre os tradicionais aliados, Bolsonaro já agrediu a chanceler alemã e insultou o presidente e a primeira-dama da França. Também atacou o provável substituto de Macri na Argentina, nosso terceiro maior parceiro comercial. Além disso, implodiu acordos internacionais com a Noruega e a Alemanha, como o Fundo Amazônia. Com sua diplomacia de confronto em xeque, agora o presidente deu meia-volta. Programa gastos com publicidade oficial para melhorar a imagem do País (do governo Bolsonaro?) no exterior. Trata-se de desespero, já que nenhuma medida vai reverter a péssima impressão deixada nos primeiros oito meses de governo. Além disso, o presidente quer ir à ONU para falar sobre a Amazônia “nem que seja com a cadeira de rodas”, por causa de sua nova intervenção cirúrgica. É bom calibrar o discurso. No plenário da ONU, até Trump já foi motivo de chacota com suas bravatas. O vexame pode ser maior para Bolsonaro.
Bookmark and Share

BANDO DE CAFONAS

Fernanda Young, O GLOBO
A Amazônia em chamas, a censura voltando, a economia estagnada, e a pessoa quer falar de quê? Dos cafonas. Do império da cafonice que nos domina. Não exatamente nas roupas que vestimos ou nas músicas que escutamos — a pessoa quer falar do mau gosto existencial. Do que há de cafona na vulgaridade das palavras, na deselegância pública, na ignorância por opção, na mentira como tática, no atraso das ideias.
O cafona fala alto e se orgulha de ser grosseiro e sem compostura. Acha que pode tudo e esfrega sua tosquice na cara dos outros. Não há ética que caiba a ele. Enganar é ok. Agredir é ok. Gentileza, educação, delicadeza, para um convicto e ruidoso cafona, é tudo coisa de maricas.
O cafona manda cimentar o quintal e ladrilhar o jardim. Quer todo mundo igual, cantando o hino. Gosta de frases de efeito e piadas de bicha. Chuta o cachorro, chicoteia o cavalo e mata passarinho. Despreza a ciência, porque ninguém pode ser mais sabido que ele. É rude na língua e flatulento por todos os seus orifícios. Recorre à religião para ser hipócrita e à brutalidade para ser respeitado.
A cafonice detesta a arte, pois não quer ter que entender nada. Odeia o diferente, pois não tem um pingo de originalidade em suas veias. Segura de si, acha que a psicologia não tem necessidade e que desculpa não se pede. Fala o que pensa, principalmente quando não pensa. Fura filas, canta pneus e passa sermões. A cafonice não tem vergonha na cara.
O cafona quer ser autoridade, para poder dar carteiradas. Quer vencer, para ver o outro perder. Quer ser convidado, para cuspir no prato. Quer bajular o poderoso e debochar do necessitado. Quer andar armado. Quer tirar vantagem em tudo. Unidos, os cafonas fazem passeatas de apoio e protestos a favor. Atacam como hienas e se escondem como ratos.
Existe algo mais brega do que um rico roubando? Algo mais chique do que um pobre honesto? É sobre isso que a pessoa quer falar, apesar de tudo que está acontecendo. Porque só o bom gosto pode salvar este país.
Bookmark and Share

O DESEJO DE TODOS

Cacá Diegues, O GLOBO
Numa democracia de verdade, é sempre muito difícil determinar o que deseja a maioria. Sobretudo no presidencialismo, a maioria se manifesta e é compreendida através do voto, apenas de quatro em quatro anos, podendo muito bem mudar de opinião depois de uma eleição, num prazo curto ou não. Aliás, a democracia não foi mesmo inventada para garantir a ditadura da maioria.
Embora seja necessário reconhecer que sem a manifestação da maioria não há democracia possível, é preciso não deixar de considerar que a democracia existe também para garantir o direito à voz e à ação das minorias. Essa talvez seja a mais cara e nobre causa democrática possível, a menos óbvia e imediatista. Uma vez escolhido pela maioria dos que votam, o verdadeiro líder de uma verdadeira democracia deve se propor a representar o desejo da nação, nunca reduzido apenas aos interesses daqueles que o elegeram.
Em geral, a maioria se interessa apenas em garantir seus desejos e seus privilégios no conjunto de seus iguais. Enquanto as minorias estão sempre empenhadas na luta por um novo conjunto de direitos que elas pretendem ser capazes de beneficiar a totalidade dos cidadãos. A democracia de um país só faz se fortalecer no centro dessa dialética pacífica entre maioria e minorias. Talvez até seja isso mesmo a democracia.
Nosso atual presidente, legitimamente eleito por uma maioria de votos que o escolheu, não pode se considerar representante apenas dessa maioria, nem tratá-la como se ela fosse a nação. Até mesmo pelos números de sua eleição. No segundo e decisivo turno de 2018, 8,6 milhões de votos foram nulos, 2,4 milhões em branco, com uma abstenção de 31,3 milhões de eleitores. Ou seja, 42,3 milhões de votos que, se somados aos de seu adversário, formarão um número muito superior ao dos seus.
Isso não quer dizer que sua eleição tenha sido uma fraude. Absolutamente. A eleição do atual presidente foi correta, de acordo com as regras do jogo eleitoral democrático. Isso quer dizer somente, repito, que a frieza dos números é mais uma razão, além da razão conceitual, para que ele se considere um representante do que pensam todos os brasileiros. Mesmo aqueles que não votaram nele.
Durante a fundação da democracia americana, exemplo maior de regime democrático-liberal no Ocidente, os “pais fundadores” se dividiram muitas vezes, cada um para um lado dos princípios. Como quando James Madison e Thomas Jefferson enfrentaram Alexander Hamilton em defesa do federalismo na Constituição recém-criada. O “Bill of Rights” decorrente desses conflitos está até hoje em vigor, consagrado no sistema democrático americano.
Ao contrário disso, temos vivido, desde bem antes de 2018, um vendaval de opiniões radicais e histéricas, que não têm nada a ver com o país do presente. Imagine só o do futuro. O populismo, de direita ou de esquerda, transforma seus líderes em divindades de uma seita sem sentido, infalíveis e impossível de serem contestados. Eles se tornam maiores do que o que pensamos do Brasil e do que ele necessita, não nos deixa formar nenhuma tendência unida em benefício de um programa qualquer, seja ele qual for. Tanto de um lado quanto do outro, tudo é considerado fatal e inegociável.
A história passada ou mais recente nos ensina que não é nada disso, que só o contrário da polarização selvagem é razoável. Ho Chi Minh aliou-se aos Estados Unidos para expulsar os franceses da Indochina. Depois, aliou-se à União Soviética e à China para expulsar os americanos do Vietnã. Quando finalmente os vietnamitas conseguiram mandar os invasores para fora do país, a primeira medida do novo governo nacional foi rebatizar a capital como Ho Chi Minh.
Por mais que a gente tente mantê-la sob controle, a vida é feita sobretudo de acasos, eventos que não programamos e que podem chegar até nós por uma sucessão de acontecimentos pessoais ou por disposições do lugar e do tempo em que estamos. Em política, isso acontece constantemente e nem sempre podemos dar um jeito para que o acaso se acerte com nossos planos. Resta-nos acreditar sempre no que está na obra de Hilda Hilst: “Ainda que a janela se feche, o certo é que amanhece”.
Bookmark and Share

DORIA SE IGUALA A BOLSONARO

Nabil Bonduki, Folha de S.Paulo
A cena foi digna de um filme sobre tempos obscuros em alguma ditadura recém-instaurada. Inspetores entram em salas de aula e, sem nenhuma explicação, ordenam aos alunos que entreguem suas cartilhas escolares, que são jogadas em sacos de lixo.
Embora não exista nenhum registro fotográfico desse momento patético e triste da educação brasileira, a imagem foi relatada por vários professores da rede estadual de ensino.
“Parecia coisa de filme. Só fomos entender quando vimos a cópia de um comunicado da diretoria de ensino, que mandava colocar o material ‘em caixas ou sacos pretos [de lixo]'”, conta um professor que não quis se identificar com medo de represália (Folha, 4/9).
O prejuízo dessa ação na formação dos jovens é incalculável e vai muito além de os ter privado de uma cartilha, felizmente apenas por alguns dias, pois o Poder Judiciário determinou que o material fosse devolvido.
O que será que se passou pela cabeça de um adolescente de 14 anos ao ver, sem nenhum diálogo ou explicação razoável, um material didático fornecido pela própria escola sendo jogado em um saco de lixo?
Nessa idade, própria da rebeldia adolescente, a agressividade em relação à escola e a contestação ao processo de aprendizado crescem acentuadamente.
O diálogo franco entre professores e estudantes é absolutamente fundamental para se alcançar os resultados educacionais esperados. Mas como dialogar quando uma ordem superior, desprovida de sentido, desorganiza todo o planejamento e organização pedagógica?
Ao determinar o recolhimento de 330 mil exemplares de um livro escolar de 144 páginas, que tratava de oito disciplinas (português, matemática, geografia, história, ciências naturais, inglês, arte e educação física), o governador João Doria (PSDB) extrapolou suas atribuições e cometeu um abuso de autoridade.
Não é competência de um governador definir o conteúdo do material escolar entregue aos alunos nem interferir de forma abusiva no que acontece em sala de aula.
Em publicação em rede social, forma inadequada de tratar de assuntos ligados às políticas públicas, o governador afirmou que foi "alertado de um erro inaceitável no material escolar dos alunos do 8º ano da rede estadual”, que solicitou ao secretário de Educação “o imediato recolhimento do material e apuração dos responsáveis” pois “não concordamos e nem aceitamos apologia à ideologia de gênero”.
Acrescentou ainda que “tomou a decisão sem sequer ter visto o material”. Se não viu e não gostou, deve ter tomado a decisão baseado apenas em critérios políticos e não científicos ou pedagógicos. Afinal, foi alertado de um erro inaceitável no material por quem?
Como Dráuzio Varela afirmou em sua coluna na Folha (15/9), a ideologia de gênero “nunca foi mencionada em artigos científicos nem nos livros de psicologia ou de qualquer ramo da biologia”.
De modo didático, o médico explicou para o grande público, de maneira aprofundada, o mesmo conteúdo que as três páginas do segmento de ciências, que trata de ‘sexo biológico, identidade de gênero e orientação sexual’, na cartilha colocada no “index”, informava aos alunos.
O episódio mostrou que o governador, ao tentar disputar o eleitorado conservador, aderiu às teses anticientíficas defendidas pelo núcleo duro do bolsonarismo e pelo guru Olavo de Carvalho.
Revela ainda que desconhece os procedimentos administrativos e jurídicos básicos da gestão pública e que seus impulsos autoritários, expostos inúmeras vezes quando prefeito de São Paulo, continuam presentes nas suas atitudes e no seu modo de governar. Mostra, enfim, que Doria se iguala a Bolsonaro no que há de pior.
Talvez o único ganho desse episódio seja a oportunidade para professores e alunos dialogarem sobre o que significa autoritarismo, ditadura, ideologia de gênero e Escola sem Partido. E para conversarem sobre a importância da independência do Legislativo e do Judiciário para se contrapor às tentativas de exercício de poder absoluto por parte dos governantes.
Nabil Bonduki
Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, foi relator do Plano Diretor e Secretário de Cultura de São Paulo.
Bookmark and Share

ELE NÃO VEIO PARA EXPLICAR, MAS PARA CONFUNDIR

Da ISTOÉ
Abelardo Barbosa, conhecido como Chacrinha, o maior comunicador da televisão brasileira, falecido há 31 anos, continua atual. Autor de frases que marcaram a comunicação brasileira, como “quem não se comunica, se trumbica”, o velho guerreiro cunhou uma expressão que está servindo para orientar os aprendizes de comunicólogos do governo: “Eu não vim para explicar, eu vim para confundir”, dizia Chacrinha. Esse parece ser o mote adotado pela Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência da República, chefiada pelo publicitário Fábio Wajngarten. Desde que assumiu o cargo em abril, ele se envolveu em várias confusões, que só tem servido para confundir ainda mais a decrépita política de comunicação do governo. O secretário está sendo acusado de privilegiar blogs e empresas amigas do bolsonarismo com verbas públicas e de estar por trás da demissão de jornalistas críticos do governo, mas o que mais chamou a atenção nos últimos dias para seu trabalho foi a divulgação de uma campanha publicitária no exterior com graves erros de grafia no inglês. A campanha, que deveria explicar a ação do governo na proteção da Amazônia, acabou virando motivo de chacota no exterior e se transformou em memes na internet.
“Eu reafirmo que ele (Wajngarten) tem o hábito de pedir cabeças de jornalistas, mas a minha demissão não está nessa conta dele. Eu pedi para sair” Fábio Pannunzio, jornalista
Percebendo que a imagem do Brasil estava péssima, após a ineficiência governamental no combate às queimadas na Amazônia, Wajngarten decidiu desenvolver uma campanha na imprensa internacional para mostrar que o governo não estava insensível ao problema. O texto dizia: “Brazil reaffirms its sovereing actions of protection, susteinable development and preservation of the Amazon” (Brasil reafirma de forma soberana as suas ações de proteção, desenvolvimento sustentável e conservação da Amazônia). Ao invés de engrandecer o país, o texto foi ridicularizado. A palavra soberana se escreve em inglês como sovereign e não “sovereing”, como saiu na peça publicitária brasileira. E a palavra sustentável se escreve em inglês como sustainable e não “susteinable” como foi grafado. A repercussão negativa foi tão grande que a Secom apagou as publicações, mas o estrago já estava feito. A agência Calia, que fez o anúncio, assumiu os erros, mas a trapalhada ficou na conta de Wajngarten.
“Dedo-duro”
Depois que não conseguiu emplacar seu próprio nome na chefia da Secom, o vereador Carlos Bolsonaro começou a fazer campanha pela indicação de Wajngarten para o cargo. Mas os ministros Gustavo Bebianno e Santos Cruz tinham um pé atrás com o publicitário. Ele só conseguiu se fortalecer no posto com a saída dos dois ministros. Carlos queria que os blogs amigos do bolsonarismo recebessem mais recursos, em detrimento da imprensa tradicional. Por orientação de Wajngarten, as TVs Record, SBT e Rede TV!, que bajulam Bolsonaro, estão recebendo mais verbas publicitárias oficiais do que a TV Globo, líder disparada do mercado. No primeiro trimestre, a Record recebeu R$ 10,3 milhões (aumento de 659%), o SBT faturou R$ 7,3 milhões (alta de 511%) e a Globo apenas R$ 7,7 milhões (aumento de 19%).
Além privilegiar amigos, Wajngarten é acusado de estar por trás da demissão de jornalistas que trabalham nessas emissoras. O jornalista Fabio Pannunzio, da Band, saiu da empresa depois que passou a adotar uma postura crítica a Bolsonaro: “Eu reafirmo que ele (Wajngarten) tem o hábito de pedir cabeças de jornalistas, mas a minha demissão não está nessa conta dele. Eu pedi para sair”. Depois de um bate-boca com Wajngarten no Twitter, Pannunzio afirmou: “Você é um dedo-duro intrigante que só sabe pedir cabeças de jornalistas”. Já Wajngarten sugeriu a Pannunzio que ele perguntasse aos donos da Band se ele pediu sua cabeça alguma vez. “Se eles confirmarem, eu me demito”. Pode até ser que Wajngarten não tenha nada a ver com demissões de jornalistas, mas que ele veio para confundir ninguém tem mais dúvidas.
Bookmark and Share

O RECADO DO STF A MORO

Leandro Colon, Folha de S.Paulo
Não bastasse a fritura que vem sofrendo por parte do presidente Jair Bolsonaro, o ministro Sergio Moro (Justiça) pode ser derrotado em breve pelo STF em julgamento sobre métodos da Lava Jato.
A dica foi dada pelo ministro Gilmar Mendes em entrevista que concedeu à Folha e ao UOL, em Brasília.
Para o ministro, a popularidade de Moro, bem acima da de Bolsonaro, segundo o Datafolha, não deve influenciar no julgamento da Segunda Turma sobre a suspeição do ex-juiz no caso do tríplex de Guarujá.
“Se um tribunal passar a considerar esse fator, ele que tem que fechar, porque perde o seu grau de legitimidade”, disse o ministro do STF.
De acordo com Gilmar, o tema ligado a Lula será apreciado pelo colegiado até novembro. Está logo ali. Nos bastidores do STF, cresce a aposta de que os ministros Celso de Mello e Cármen Lúcia caminham para votar contra a atuação de Moro.
Com a posição conhecida de Gilmar e Lewandowski, seriam quatro votos pela derrota do ex-juiz contra o voto isolado de Edson Fachin.
A repórter Thais Arbex contou na Folha que Cármen Lúcia ficou impressionada com o teor das mensagens trocadas pelos procuradores da Lava Jato. Em uma das conversas, a ministra foi chamada de “frouxa”.
Cármen foi quem homologou, como presidente do STF, a delação da Odebrecht após a morte de Teori Zavascki. Para ministros do STF, aquele gesto foi uma homenagem dela ao colega, que conduzia as tratativas até morrer em uma queda de avião.
O tempo mostrou que grande parte dessas delações era frágil, feita às pressas pela Lava Jato, sem elementos capazes de comprovar o que os executivos haviam dito. A delação do fim do mundo virou um mico.
De lá para cá, a ficha de Cármen caiu, dizem ministros. Assim como a do decano Celso de Mello, cujo voto carrega sempre um simbolismo.
Uma derrota de Moro deve favorecer Lula e provavelmente causar turbulência política no país. Outro efeito imediato será o enfraquecimento do ministro de Bolsonaro.
Bookmark and Share

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

NOTÍCIA SENSACIONALISTA

Bruno Boghossian, Folha de S.Paulo
Chanceler usa notícia sensacionalista e cientista polêmico em debate climático
Em sua mais recente investida contra o que chama de “climatismo”, o chanceler Ernesto Araújo recorreu a uma notícia sensacionalista que viralizou nas redes e citou um cientista controverso, que era financiado pela indústria do petróleo.
O discurso do ministro na última quarta (11) na Heritage Foundation, centro de estudos conservador nos EUA, cimentou a tentativa do governo de dar tons ideológicos à discussão sobre a preservação ambiental. Nas palavras de Araújo, a questão das mudanças climáticas ganha contornos de conspiração global.
Em dado momento, o chanceler alertou: políticos e a mídia começam a demonizar o consumo de carne. “Alguém sugeriu”, disse ele, “que nós deveríamos recorrer ao canibalismo para salvar o planeta, deixando de comer carne bovina, que destrói a Amazônia, na narrativa deles”.
Partiu dali uma crítica aborrecida ao que o ministro enxerga como uma tentativa de usar as mudanças climáticas para limitar a soberania dos países e, agora, controlar até o que as pessoas comem. “Onde está a dignidade humana, o bom senso?”
A história do canibalismo jamais foi levada a sério no meio científico, é claro. Foi lançada por um professor de marketing sueco que, provavelmente, só queria aparecer. Há uma semana, o caso apareceu com cores chamativas no site ultraconservador Breitbart, foi replicado por Donald Trump e virou lenha para um debate baseado na desinformação.
Araújo também lançou dúvidas sobre temas relativamente consensuais. Ao questionar os efeitos da ação do homem sobre o clima, citou o pesquisador americano Patrick Michaels. O ministro só não disse que uma fatia daqueles estudos era financiada por produtores de petróleo e carvão, interessados nessa discussão.
O governo até pode ter razão em reclamar da contaminação do debate climático por interesses econômicos. Se continuar buscando argumentos no submundo das redes, no entanto, o chanceler vai empurrar a diplomacia brasileira para a margem do debate internacional.
Bookmark and Share

ORGULHOSAMENTE SÓS

Ruy Castro, Folha de S.Paulo
A primeira vez que ouvi a expressão foi em meados de 1973, em Portugal, ainda sob uma ditadura de mais de 40 anos. O primeiro-ministro Marcello Caetano, sucessor do odiado Oliveira Salazar, foi à televisão e anunciou que, mesmo tendo contra si a opinião mundial, não negociaria com os movimentos de libertação de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, suas colônias na África. A guerra colonial, já perdida para o país, sangrava não apenas a economia, mas a juventude portuguesa —os poucos jovens que se viam nas ruas de Lisboa usavam farda e tinham um braço ou perna a menos. E, então, Marcello Caetano disse que os portugueses não se importavam de ficar “orgulhosamente sós” diante do mundo.
Seria uma frase bonita se Caetano tivesse consultado os portugueses —o que ele não fez. Sua fala refletia somente a intransigência de meia dúzia de generais e banqueiros, habituados a mandar sem dar satisfações. Só que, em 1973, as antigas alianças estavam dando lugar a algo chamado pragmatismo. Pouco depois, quando a Guiné-Bissau declarou unilateralmente sua independência, Caetano deve ter caído da cadeira ao ver que, entre os países que reconheciam essa independência, estava o Brasil, velho capacho do salazarismo.
“Orgulhosamente sós” será o mote que restará a Jair Bolsonaro e seus filhos quando completarem o trabalho de trair, ofender, humilhar, demitir e se desfazer dos que, um dia, acreditaram neles. Não sobrará ninguém à sua volta —assim como, por causa deles, já rareiam os países ao lado do Brasil.
O pragmatismo de 1973 nunca foi abolido. Em breve, quando a Europa, a Ásia e a América do Sul nos derem uma definitiva banana, vamos ver para onde Bolsonaro irá se virar.
Em abril de 1974, a Revolução dos Cravos ensinou a Caetano que, ao atribuir aos portugueses a condição de “orgulhosamente sós”, ele estava falando apenas por conta própria.
*Ruy Castro, jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.
Bookmark and Share

MORO DESCULPOU-SE, MAS NÃO SE ARREPENDEU

Elio Gaspari, Folha de S.Paulo
No dia 29 de março de 2016, o juiz Sergio Moro pediu "escusas" ao Supremo Tribunal Federal por ter liberado a divulgação do áudio de um telefonema da presidente Dilma Rousseff a Lula. Os 95 segundos da conversa detonaram a nomeação de Lula para a chefia da Casa Civil e deram mais um empurrão na derrubada do governo petista.
Moro escreveu o seguinte: "Diante da controvérsia decorrente do levantamento do sigilo, compreendo que o entendimento então adotado possa ser considerado incorreto, ou mesmo sendo correto, possa ter trazido polêmicas e constrangimentos desnecessários. Jamais foi a intenção desse julgador provocar tais efeitos e, por eles, solicito desde logo respeitosas escusas a este Egrégio Supremo."
Mensagens e grampos reunidos por uma equipe da Folha e do Intercept Brasil mostraram que a única coisa verdadeira na carta de Moro era a data.
Moro e os procuradores quiseram, e conseguiram, criar a polêmica e constrangimento.
A ARMAÇÃO, ATÉ AS 13H32 DO DIA 16 
Aos fatos:
A pedido de Moro, os telefones usados por Lula estavam grampeados pela Polícia Federal desde o final de fevereiro. No dia 15 de março, a equipe que ouvia as conversas concluiu um relatório com 42 transcrições. A última havia ocorrido às 19h17 do dia 14.
Desde o dia 9 o procurador Deltan Dallagnol sabia que Dilma havia oferecido a chefia da Casa Civil a Lula. A informação veio de um agente da PF e às 19h25 Deltan solicitou ao delegado Igor Romário de Paula que lhe conseguisse um CD com os grampos: "Estou sem nada para ouvir no carro rsrsrs."
No dia seguinte, falando com o delegado, Deltan pediu para receber todo o conjunto que "pode ser importante para indicar riscos à segurança e à condução". Era voz corrente que Lula poderia ser preso. 
No dia 13, Moro alertou Dallagnol para a possibilidade de mudança de foro do processo de Lula caso ele virasse ministro. De fato, os grampos do dia seguinte informavam que Lula iria a Brasília para conversar com Dilma, precisando de "meia hora sozinho com ela".
Às 7h45 do dia 16, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima perguntou qual a posição da Procuradoria-Geral com relação ao assunto que discutiria dali a pouco com Moro. Tratava-se de saber o que se faria com o relatório dos grampos. Carlos Fernando queria "abrir tudo". 
Ele sabia que Lula e Dilma estavam tomando café da manhã juntos e explicou: "Por isso a urgência".
Às 11h12, Sergio Moro oficiou à PF a suspensão da escuta dos telefones. Ali havia de tudo, da indecisão de Lula, ao seu espanto com o tamanho da manifestação do dia 13, quando 3,6 milhões de pessoas foram para as ruas protestar contra o governo, e até assuntos familiares, como uma cadeira de rodas para seu irmão Vavá.
Até as 12h58 Moro não havia decidido tirar o sigilo das 42 conversas transcritas pela Polícia Federal. Divulgadas, elas prejudicariam a manobra, mas não teriam um efeito letal. Eram menos escabrosas do que as gravações que o ex-diretor de Transpetro Sérgio Machado vinha fazendo clandestinamente ao conversar com Romero Jucá, Renan Calheiros e José Sarney.
O TELEFONEMA DE DILMA MUDA TUDO
Às 13h32, Dilma telefonou para Lula, avisando que o "Bessias" estava a caminho, levando o documento de sua nomeação para chefia da Casa Civil.
Doze minutos depois o jogo mudou. Numa rapidez inédita, o agente federal Rodrigo Prado informou aos procuradores: "Senhores: Dilma ligou para Lula avisando que enviou uma pessoa para entregar em mãos o termo de posse de Lula. Ela diz para ele ficar com esse termo de posse e só usar em 'caso de necessidade'... Estão preocupados se vamos tentar prendê-lo antes de publicarem no Diário Oficial a nomeação do Lula."
Às 13h46, o Planalto divulgou a nomeação de Lula para a chefia da Casa Civil.
Às 14h26, o delegado Luciano Flores de Lima mandou que Prado transcrevesse a conversa de Dilma com Lula, "sem comentários". Às 15h34 o delegado narrou ao juiz Moro o conteúdo da conversa.
Às 16h21, Moro levantou o sigilo de todos os telefonemas, inclusive daqueles que ocorreram depois do seu despacho suspendendo a escuta.
Às 17h21, Moro disse a Deltan que havia levantado o sigilo mas que "aqui não vou abrir a ninguém". Minutos depois, mandou uma mensagem urgente ao procurador, mas seu conteúdo não é conhecido.
'O MUNDO CAIU'
Às 18h40, ao vivo e a cores, o diálogo de Dilma com Lula foi ao ar e o procurador Carlos Fernando registrou: "Tá na GloboNews".
Deltan comentou: "Ótimo dia. Rs".
O procurador Athayde Costa arrematou: "O mundo caiu".
Caiu, mas todos sabiam o que haviam feito.
O procurador-geral Rodrigo Janot estava na Suíça e seu chefe de gabinete, Eduardo Pelella, perguntou: "Vocês sabiam do áudio da Dilma? (...) A gente não falou sobre isso". (19h17)
Minutos antes, Deltan dissera que "por cautela, falei com Pelella e deu ok". Esquisito, porque ao saber que o grampo de Dilma com Lula não estava no relatório da PF, Pelella espantou-se: "Não estão nos relatórios? Caralho!!!" (19h23)
A partir das 21h os procuradores de Curitiba temem pelo que pode acontecer. O procurador Orlando Martello, que se surpreendeu com a divulgação dos áudios, avisa: "Estou preocupado com o Moro! (...) Vai sobrar representação contra ele."
Carlos Fernando concorda: "Vai sim. E contra nós. Sabíamos disso."
A procuradora Laura Tessler entra na conversa: "A população está do nosso lado, qualquer tentativa de intimidação irá se voltar contra eles".
Martello propõe: "Se acontecer algo com Moro, renúncia coletiva MP, PF, RF" [Ministério Público, Polícia Federal, Receita Federal].
Carlos Fernando gostou da ideia: "Por mim, ok. Adoro renunciar... Rsrsrs."
Nessa troca de mensagens que foi das 21h às 23h, os procuradores Andrey Borges de Mendonça e Antonio Carlos Welter levantaram dúvidas quanto à legalidade da divulgação do grampo de Dilma com Lula. Seis outros acompanharam a tese de Carlos Fernando para quem discutia-se uma filigrana, prontificando-se a renunciar, indo à televisão para denunciar o governo.
Não foram necessárias renúncias coletivas nem entrevistas agressivas. A manobra teve o apoio da opinião pública, o ministro Gilmar Mendes cassou a posse de Lula e seis meses depois Dilma Rousseff foi deposta pelo Congresso.
No dia 16 de março de 2016, a República de Curitiba teve sua maior vitória. Como no gol de Maradona, a bola foi ajeitada com a mão ("de Deus", como ele disse).
Cinco dias depois, trocando mensagens com Deltan, Sergio Moro resumiu sua conduta: "Não me arrependo do levantamento do sigilo. Era a melhor decisão." 
Era?
Elio Gaspari
Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada".
Bookmark and Share

A SAGA DOS TALIBÃS TROPICAIS

Artigo de Fernando Gabeira
Se os gays desaparecessem do mundo, Crivella ficaria amuado, sem um tema para aquecer a sua campanha.
Liberdade de expressão e democracia ocuparam grande parte da agenda da semana. Volto a elas porque, nesses casos, o tema nunca é antigo. E volto também porque talvez minha experiência possa acrescentar algo. Refiro-me à decisão de Crivella de censurar o beijo gay num dos livros da Bienal.
Eu o conheço um pouco. Em 2008, quando começava a campanha eleitoral, éramos candidatos. Ele me criticou por apoiar a relação de homem com homem. Respondi apenas que isso não era o mais interessante para mim naquele momento. Vivíamos uma epidemia de dengue, como hoje vivemos, e o que me interessava era a relação do homem com o mosquito.
Crivella está de novo no limiar de uma campanha eleitoral. É hora de tirar o tema do homossexualismo da cartola e tentar agrupar sua tropa de fiéis eleitores. Nada mais que isso. Agora não é apenas candidato. É o prefeito do Rio. Não é ingênuo a ponto de ignorar que sua ação vai promover a venda do livro alvo de sua cruzada.
Para ele, isso não tem muito importância. Não quer verdadeiramente combater o homossexualismo, mas agrupar alguns votos. Se os gays desaparecessem do mundo, ele ficaria amuado no seu canto, sem um tema para aquecer a campanha.
Foi muito animador ver a reação dos artistas e a pronta resposta do STF. Definiu-se um limite que dificilmente será transposto no Brasil, sem destruir também as bases da democracia.
No passado foi diferente. A batalha contra a censura do filme “Je vous salue, Marie”, de Jean-Luc Goddard, foi mais difícil porque aconteceu no auge de um plano econômico.
Sarney não tinha razão para temer. O filme, que exibi como um ato de desobediência em inúmeros lugares, se fosse às salas de cinema não iria durar mais do que dois dias, por falta de público.
Aqui na atmosfera da fronteira norte, diante da reação nacional a Crivella, sou mais otimista em considerar improvável uma teocracia puritana, do tipo do Irã, no país.
Na esteira do Crivella veio o post de Carlos Bolsonaro dizendo que a democracia era um instrumento limitado para mudar o país. De fato, seria possível concordar com ele, pois num contexto revolucionário, sem as formalidades legais, os governos podem andar mais rapidamente.
Mas cada vez que se enuncia uma tese desse gênero, é fundamental lembrar que a democracia é lenta, diria até sinuosa, mas a alternativa a ela tem um preço: a perda da liberdade.
Quanto à eficácia das mudanças revolucionárias, também sou cético. O socialismo, segundo alguns teóricos, fracassou simplesmente porque, ao liquidar o mercado, perdeu a chance de ter uma real política de preços. Todas as ditaduras, inclusive as de direita, mergulham em zonas nebulosas, perdem a noção do país real.
Os filhos de Bolsonaro são filhos do presidente, que, por sua vez, diz muitas frases inadequadas. Um deles, Eduardo, falou no fechamento do STF com um cabo e um soldado. O mais velho, Flávio, está mudando o curso da política brasileira por suas possíveis ligações com as milícias. O Coaf já mudou, Bolsonaro escolheu um procurador-geral sob medida e procura detonar a PF.
Tanto as ações de Crivella como as frases da família Bolsonaro podem ser um balão de ensaio para testar a resistência democrática da sociedade. Nunca é demais voltar ao assunto, lembrar-se dele na próxima Bienal, onde quer que escritores e artistas se reúnam. É essencial também que os políticos se manifestem quando a democracia parece estar em jogo.
Quando os artistas se expressam por alguma questão social, ou mesmo pela sobrevivência da Floresta Amazônica, sofrem muitas críticas por estarem tratando de “algo que não lhes diz respeito”. No caso da liberdade de expressão, o tema é direto, sua própria sobrevivência está em jogo. Eles devem gritar mais ainda do que gritaram e, sinceramente, deveriam se preparar para isso.
Os Bolsonaros testam a sociedade. Não basta responder apenas a cada frase. É necessário que se comece a trabalhar uma frente, imune à instrumentalização da esquerda, mas que tenha muito claro os limites que não podem ser transpostos sem que a democracia entre em colapso. A liberdade de expressão é um desses marcos. O outro é escolher livremente nossos governantes e poder descartá-los de quatro em quatro anos. Os dois marcos se entrelaçam. A família Bolsonaro é livre para dizer absurdos; defensores de um Brasil tolerante e democrático, livres para empurrá-los ao ostracismo ou à dimensão real da extrema direita.
Artigo publicado no jornal O Globo em 16/09/2018
Bookmark and Share

É A LEI, ESTÚPIDOS !

Do Blog do Noblat, VEJA
O que Deltan Dallagnol e Sérgio Moro esqueceram
Alguns pontos chamam atenção na entrevista por escrito dada por Deltan Dallagnol, chefe da Força-Tarefa da Lava Jato em Curitiba, ao jornal Correio Braziliense, e publicada no último fim de semana.
Sobre as mensagens trocadas por ele com seus colegas procuradores e com o ex-juiz Sérgio Moro, e divulgadas pelo site The Intercept, disse Dallagnol que elas foram “descontextualizadas e até mesmo editadas”. Recomenda a leitura dos diálogos como a melhor forma para se concluir que nada revelam de criminoso.
Quer dizer: ele se nega a confirmar a autenticidade das mensagens quando acompanhadas de comentários a respeito, mas os diálogos em estado bruto, e somente eles, não. Foram tantas as mensagens divulgadas até aqui que Dallagnol poderia ter apontado uma, pelo menos uma, que tenha sido editada ou manipulada. Não o fez.
A Polícia Federal ainda investiga se os hackers de Araraquara, que capturaram as mensagens e as repassaram ao The Intercept, foram pagos ou não pelo serviço. Eles negam que tenham sido pagos. Mas Dallagnol, que condena a interpretação apressada que se dá às mensagens de sua autoria, logo se apressa em sugerir:
“Um dos presos tem longa ficha criminal que aponta a prática de crimes por dinheiro. Um dos envolvidos chegou a dizer que o plano era de vender as mensagens. É razoável supor que ele possa ter recebido para passar minhas mensagens adiante. Até porque ele teve movimentações de ordem milionária (…)”.
Como é um bom moço, preocupado antes de tudo em fazer justiça, tem o cuidado de acrescentar:
“Mas é preciso aguardar o desfecho das investigações para saber exatamente o que ocorreu. Confiamos na PF.”
Houve exageros na divulgação das operações policiais ao longo da força-tarefa da Lava-Jato? – perguntou o jornal. Os crimes praticados é que foram exagerados, respondeu Dallagnol. “Prestamos informações públicas para a imprensa porque respeitamos sua importância na democracia”, justificou-se.
A imprensa tem a obrigação de transmitir ao distinto público tudo o que possa lhe interessar – de informações oferecidas pelos procuradores da Lava Jato a informações descobertas sobre o modo como eles se conduziram à frente da operação. Erraria gravemente se transmitisse umas e escondessem outras.
Dallagnol queixou-se da imprensa:
“O que vemos é o enfraquecimento do direito à privacidade e ao sigilo profissional para viabilizar a divulgação de fofocas, opiniões pessoais, cogitações e mesmo de estratégias, planos e atos de investigação legítimos. Isso tem prejudicado investigações em curso que tramitam sob sigilo. Não há interesse público nisso”.
Ao vazar para a imprensa conversas particulares de Lula que apenas mostravam o quanto ele é desbocado, telefonemas da ex-primeira-dama Marisa Letícia para seus filhos onde ela dizia palavrões, e comentários chulos feitos por líderes do PT, Dallagnol se preocupou com o “enfraquecimento do direito à privacidade” dessas pessoas?
“Nunca ultrapassamos a linha da lei e da ética”, afirmou Dallagnol. Foi ético escolher para divulgação apenas um dos 22 diálogos grampeados de Lula no dia em que ele fora convidado para ser ministro de Dilma? O diálogo escolhido deixou a impressão de que ele aceitara o convite só para escapar da Lava Jato.
Se tornados públicos, os demais diálogos deixariam a impressão contrária – e por isso foram guardados. Dallagnol e Moro respeitaram “a linha da lei e da ética” ao procederem assim? O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, que barrou a nomeação de Lula, está convencido de que não respeitaram.
Um procurador da Lava Jato, à época estarrecido com o vazamento do diálogo matador entre Dilma e Lula, obteve de Dallagnol a seguinte explicação: “Mas a questão jurídica é filigrana dentro do contexto maior que é político”. Quantas vezes na história da Lava Jato o “contexto político” não se impôs ao contexto jurídico?
É a lei, seus estúpidos. Ela é que deveria prevalecer sempre.
O desconforto da ministra
Bombeira
A deputada Teresa Cristina, ministra da Agricultura, uma das poucas peças que de fato funcionam no governo Bolsonaro, começa a sentir-se desconfortável onde está.
Além de fazer o que lhe cabe, ainda tem de se ocupar em apagar incêndios ateados pelo presidente e os que lhe são mais próximos. Não está sendo fácil evitar perdas para o país com a crise ambiental.
A ministra embarcou para uma visita de cinco dias a três países árabes que ameaçavam comprar menos ao Brasil.
Bookmark and Share

domingo, 15 de setembro de 2019

PIADA NO EXTERIOR

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo
Jair Bolsonaro diz que irá a Nova York para fazer o discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU nem que seja de maca ou de cadeira de rodas. Mais do que encarar o compromisso como um desafio físico, algo já delicado diante de sua recuperação de mais uma cirurgia na região do abdome, o presidente deveria ter em mente a importância simbólica da ocasião, e se preparar tecnicamente para ela, caso resolva mesmo ir a qualquer custo.
Bolsonaro chegará à ONU com os olhos do mundo voltados para o Brasil. E as razões para isso são, principalmente, decisões, ações, falas e comportamentos do presidente brasileiro e de expoentes de seu governo. O centro da geleia geral externa produzida pelo bolsonarismo nos últimos meses é a questão ambiental.
Foram as reações dele e de seus ministros ao aumento do desmatamento e das queimadas que chamaram a atenção de chefes de Estado, organismos internacionais e da sociedade global para a mistura tóxica de retórica ideológica nonsense, desprezo a dados e à ciência e a contraposição entre preservação ambiental e defesa de um desenvolvimento econômico extrativista da sua gestão.
Diante da fumaça composta de desaforos infantis e misóginos de Bolsonaro a outros governantes e da ausência de dados que desmintam o descontrole no aumento do desmate, a posição dos países desenvolvidos hoje em relação ao Brasil oscila entre o ceticismo, a ironia e o deboche puro e simples.
Foi emblemática a participação do chanceler Ernesto Araújo, um dos expoentes mais destacados da ala ideológica do governo, em evento na semana passada na Heritage Foundation, um centro de estudos conservador localizado em Washington. A mistura de negacionismo climático, crítica ao marxismo, críticas randômicas a pensadores de vertentes e épocas distintas e vitimismo de quem deveria governar deixou estupefatos representantes da direita norte-americana, a qual a prima brasileira tenta mimetizar, mas da qual só consegue ser uma versão-paródia.
Araújo disse que a esquerda usou a defesa da justiça social para legitimar ditaduras ao redor do mundo, e, num salto extraordinário, afirmou que se caminha para fazer o mesmo com a questão climática.
No Twitter, o analista de política externa do The Washington Post Ishaan Tharoor expôs sem misericórdia o ridículo da situação. “Este é um fascinante discurso ideológico de um ministro das Relações Exteriores no exterior (e um tanto incoerente). Nossa civilização está perdendo seus símbolos, diz ele”, narrou o jornalista norte-americano, parecendo se divertir com o exotismo do palestrante.
Ele ainda anotou, com razão, que esse arremedo de doutrina nada tem a ver com o conservadorismo norte-americano, ou com o que a direita dos Estados Unidos promove como política de Estado. Ou seja: ao beber em fontes como Olavo de Carvalho e Steve Bannon – dupla com a qual Araújo se encontrou na mesma viagem –, a política externa de Bolsonaro se afasta da doutrina, da tradição e do acúmulo pragmático da diplomacia brasileira, para erigir em seu lugar um edifício que não para em pé nem aos olhos de seu parceiro preferencial.
Se for esta a base para o discurso de Bolsonaro na ONU é desnecessário dizer que o resultado será um vexame internacional sem precedentes – e olha que Dilma Rousseff já discursou neste mesmo fórum. É urgente que entrem em cena os técnicos do Itamaraty e dos Ministérios da Economia e da Agricultura para produzir uma peça que, sem delírios grandiosos e ideologia rastaquera, tente desfazer a impressão de que o Brasil trata com descaso a questão ambiental e promove retrocessos na nossa exitosa transformação do agronegócio num exemplo de eficiência.
Bookmark and Share

LAVAR A LAVA JATO

Janio de Freitas, Folha de S.Paulo
Só com uma Lava Jato da Lava Jato, uma Lava Jato honesta para investigar a Lava Jato deformada, sob manipulação de Sergio Moro e Deltan Dallagnol, para interferências políticas e eleitorais. E ainda para ganhos pecuniários pessoais.
As revelações do site The Intercept Brasil, quase todas em associação com a Folha, tornam impossível qualquer dúvida respeitável sobre o desvirtuamento, passível de configuração criminal, do ataque à corrupção. Mas, dada a gravidade das revelações, provoca uma outra dúvida: a de que haja, entre as instituições apropriadas, ao menos uma capaz de investigação tão profunda e consequente quanto necessário.
O Ministério Público, no qual se enquadram a Procuradoria-Geral da República e os procuradores, já fez muitas exibições do seu corporativismo, um apego de proteção mútua entre os integrantes, com mais serviços aos próprios do que ao interesse geral. Seu Conselho Nacional é um exemplo admirável de omissão por coleguismo: nunca viu um desmando nas acusações públicas e sem provas, nas fake news de inúmeros vazamentos, nas entrevistas insolentes com o Supremo e o Congresso.
A Polícia Federal nem sempre é polícia. Cinco anos para explicar um gravador clandestino que o doleiro Alberto Youssef, malandro velho de guerra, procurou e descobriu em sua cela na PF. Afinal, veio uma explicação falsa, que não condiz com os fatos: o gravador foi para Fernandinho Beira-Mar quando hóspede ali, e ali ficou esquecido. Se gravados sem autorização, seria ilegalidade continuada, sendo Beira-Mar e Youssef iguais na condição de presos. E a PF obrigada à mesma conduta legal.
Passar por investigação e punição são coisas para policiais caídos em desgraça, mesmo que tenham feito o que muitos fazem sem problemas. O exonerado Protógenes Queiroz, da muito esquisita Satiagraha, explicaria isso melhor.
Confirmação das indisposições da PF para casos de gente sua, dois do principais delegados da Lava Jato hoje ocupam postos influentes na PF, levados por seu colega de Curitiba e hoje ministro —também por terem sido o que foram na Lava Jato. Ambos foram os braços de Moro para prisões coercitivas sem justificava e sem intimação prévia, revistas domésticas abrutalhadas e diante de crianças, encenações de prisão em que o ridículo fazia a violência. E montado nessa barragem de autoproteção está o próprio Sergio Moro.
Guardião derradeiro, o Supremo intimidou-se diante da Lava Jato e das manchetes vindas dos jatistas. O Conselho Nacional da Magistratura entregou-se a uma demissão moral. Relator no STF dos processos da Lava Jato, o ministro Teori Zavascki irritou-se com o abuso de abusos de poder por Moro. Mas, no fim, decidiu reuni-los todos em uma só, embora dura, advertência. Deixou a via aberta para mais e piores abusos. Que o Supremo permitiu correrem ou os endossou.
Não há quem investigue e quem julgue os maus investigadores, maus acusadores e maus julgadores. E, com isso, os próprios combatentes contra a corrupção confirmam e aumentam a impunidade incumbidos de combater.
NOVO TRUQUE
Muitos preços estão com aumentos fortes sem, no entanto, influírem nas taxas de inflação e custo de vida. Como ninguém dá atenção aos rótulos de compras frequentes, em muitos produtos passa despercebido um aviso em letras mínimas: “redução de 10%”, “menos 5 tabletes”, “agora 90g”. Menos produtos pelo mesmo ou por maior preço. Sem o consumidor notar o aumento de dez vezes a inflação e até mais.
Janio de Freitas
Jornalista
Bookmark and Share

O GRANDE ACORDÃO DO GOVERNO BOLSONARO

Vinicius Torres Freire, Folha de S.Paulo
A gritaria ultrajante do bolsonarismo e as crises de governo criadas pelo próprio governo produzem queimadas e fumaças políticas que obscurecem acontecimentos da selva brasileira. Os casos da Amazônia, do teto de gastos e da CPMF são sintomáticos. Mas, desde a aprovação da reforma da Previdência, faz dois meses, há certa ordem notável sob o tumulto que é o Brasil sob Jair Bolsonaro. Por exemplo:
1) quase no mesmo instante da votação favorável da Previdência, Bolsonaro passou a radicalizar no ultraje, no mandonismo, na aproximação com os neopentecostais, no elogio da ditadura e deixou ainda mais claro que está em campanha eleitoral;
2) parte pequena da elite econômica, de resto quase toda acomodatícia e tolerante das barbaridades, passou a insinuar que o presidente é um risco também para a economia. O projeto da “centro-direita” para 2022 reapareceu. Ainda assim, a maioria se cala, por colaboracionismo, gosto, cinismo ou interesse cru. Bolsonaro ainda seria preço razoável a pagar por “reformas”;
3) mas as reformas são tocadas pelo Congresso. Ainda resiste o parlamentarismo branco, acerto definido em março por Rodrigo Maia e o miolão do Parlamento. Na economia, o governo quase se limita a conter gastos, a animar a torcida e a prometer planos para “breve”. No mais, o governo se dá tiros no pé (teto, CPMF), até porque a administração econômica e social do país desinteressa a Bolsonaro;
4) o Congresso parece quieto, mas continua a aprovar mudanças enormes. Por exemplo, revisou a velha Lei Geral de Telecomunicacões (de 1997). Desregulamentou um tanto do setor e, além de melhorias para o público e doutros benefícios privados, ajudou empresas a evitar falência ou a se associar ao capital externo. Outras mudanças virão (a seguir, o setor elétrico). Em outubro, começa para valer o debate da reforma tributária;
5) vexames como o sururu da CPMF, além do “parlamentarismo branco”, fazem com que o governo continue sem protagonismo na economia, como na reforma tributária; são prejudicados grandes projetos do Ministério da Economia (capitalização, alívio tributário para em- presas, CPMF, desmonte da lei trabalhista);
6) agosto foi o mês de implementação de um grande programa bolsonarista, um programa de família. Como se sabe, Bolsonaro tenta proteger Flávio da polícia e nomear Eduardo para a embaixada. Para tanto, Bolsonaro tenta ou consegue intervir no Coaf, na Polícia Federal, na Receita e na Procuradoria-Geral, por exemplo;
7) essas intervenções de Bolsonaro são na prática toleradas na cúpula político-judicial. Esse o verdadeiro pacto entre os Poderes ou entre alguns de seus líderes (e não aquela conversa fiada de Dias Toffoli e Bolsonaro, de fins de maio). Em nome do programa de família e do acordão, Bolsolnaro se arrisca a perder apoio entre sua milícia virtual e entre os pares da extrema direita;
8) o objetivo do acordão tácito é limitar a força das instituições de controle e polícia (PF, Receita, PGR etc.) e contra-atacar o Partido da Lava Jato. Abafa-se a CPI da Lava Toga (dos juízes e Supremo), com a ajuda de Flávio 01; aprova-se a lei de abuso de autoridade, com veto para inglês ver de Bolsonaro, que também não chia contra os dinheiros e facilidades que o Congresso deu aos políticos para a eleição de 2020, mas não apenas.
Não é uma conspiração, claro. Mas os grandes blocos de pedra do poder vão se encaixando no terremoto constante.
Bookmark and Share

sábado, 14 de setembro de 2019

BOLSONARO VAI MONTANDO A SUA DITADURA

Carlos José Marques, ISTOÉ
O clã dos Bolsonaro tem ventilado amiúde a sua retórica autoritária, procurando aos poucos costurar, quem sabe (se colar!), um projeto de ditadura a ele conveniente. O Zero Dois da linhagem, o internauta multiplataforma Carlos, com a solidez e perspicácia retórica que lhe são peculiar, contribuiu dias atrás com mais uma pérola do caudilhismo caboclo. Disse de maneira cristalina, sem margem a interpretações equivocadas, que “por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos”. Nada mais eloquente como aceno a regimes de exceção e ao retrocesso do que o enunciado do pimpolho dileto do mandatário. Carluxo, saltando com a devida destreza o conciliábulo liberal da patota de Guedes, encontrou (quem sabe) novas e transcendentais mudanças impossíveis de vingar em um ambiente onde o poder emana do povo.
Interpretando seu personagem favorito, o de paladino de um western digital, expressou mais uma vez nas redes o que, decerto, também pensa o patriarca. Messias em pessoa já disse lá atrás: “através do voto você não muda nada no País; tem de matar uns 30 mil”. Era ainda deputado do baixo clero, vale a ressalva, mas não reviu o que pensa, como até as pedras do Planalto sabem. O mano de Carluxo, o Zero Três Eduardo, imerso nos últimos tempos em um programa de adestramento à candidatura de embaixador em Washington, já salpicou pistas de como alcançar o intento do controle absoluto do Estado: “para fechar o STF, basta um soldado e um cabo”, disse, ainda durante a campanha eleitoral de papai. Lembre: o Mito também falou em “levantar borduna”, em “fuzilar” FHC e em dar “o golpe no mesmo dia” se chegasse ao poder – como, por ironia do destino dos brasileiros, acabou acontecendo.
A estirpe bolsonarista, cavalgando ajaezadas metonímias ou indo direto ao ponto, não mede obstáculos na aplicação do vernáculo belicista. Nesse tocante, encarna o verbo em pessoa. Seus partícipes se orgulham de aparecer com armas (o postulante à diplomata Dudu foi o mais recente deles, em pleno hospital) e de ameaçar e perseguir eventuais críticos. Não se venha dizer que é preciso relevar, tolerantemente, essa índole totalitária. O pouco caso, a não reação a condutas do tipo, que afrontam preceitos constitucionais, já levou muitos governantes em outras ocasiões e em condições semelhantes ao flerte com o autoritarismo. É previsível entre esses aspirantes a déspotas a postura de incômodo com os contrapesos da democracia.
Jair Bolsonaro alardeou aos quatro ventos que só deve respeito e lealdade ao povo, esquecendo-se, talvez propositadamente, que também deve à Carta Magna e aos demais poderes o mesmo comportamento. Podem-se aduzir inúmeros motivos para o flagelo ideológico da trupe bolsonarista. Mas talvez o mais notório deles seja a intolerância que seus membros cultivam por quem pensa diferente. Tome-se a atitude de Carluxo, por exemplo. Após a saraivada de reações negativas ao vitupério antidemocrático, ele partiu aos ataques de sempre, alegando que “canalhas” da imprensa distorceram seus pensamentos. Nem às próprias palavras ele dá valor. Há pessoas que julgam os seus semelhantes como se todos indistintamente lhes compartilhassem as visões de mundo e a consistência de caráter. Com Carluxo, Eduardo, Flávio e o capo Jair parece que se dá assim.
Nos gabinetes parlamentares da família algumas práticas desabonadoras foram anotadas. Acusações de laranjal, de uso de cabos eleitorais fantasmas e de inexplicáveis relações com milicianos levaram o presidente a perseguir investigadores. A cúpula da Polícia Federal está no cadafalso, ameaçada de degola. O Coaf, que investigava movimentações financeiras suspeitas, foi para o espaço. Acabou na concepção original por ousar investir sobre as contas da Primeira Família. Receita Federal, depois da “devassa” que promoveu em seu clã, segundo palavras do próprio capitão, deve ser reestruturada, dividida em sub-repartições. O titular do fisco, Marcos Cintra, acaba de ser despachado para casa. Também foram mandados embora o presidente do INPE, por divulgar números de desmatamento oficiais que Bolsonaro não gostou, o da Ancine, por patrocinar filmes tidos por ele como “pornográficos”, membros do IBGE, do BNDES e por aí afora. 
O xerife do País, que faz questão de dizer que é quem manda no pedaço, quebra e arrebenta, vai aparelhando o sistema tiranicamente, enquanto despeja sobre a Nação seu entulho autoritário. Está tudo dominado. Ou quase. Importante perceber, não sem algum constrangimento, como a República dos Bolsonaro, que se anunciava nova, capaz de uma distopia radical com tudo que estava aí, promoveu ao logo dos últimos tempos – nesses primeiros nove meses de gestação – uma concepção muito peculiar de democracia. Seria, por assim dizer, uma democracia de sarau, uma ação entre amigos, que se desenvolve no avarandado dos poderosos. Na particular noção de liberdade que o Messias cultiva cabem as bravatas ranzinzas, as afrontas a parceiros internacionais, as mentiras em redes sociais, a difamação de rivais, o que der na telha.
Acata-se o amuo momentâneo dos grãos senhores da indústria e do comércio, absorvem-se a “malaise” de ministros menos trogloditas como Sergio Moro e até os protestos abertos do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. As desavenças se encerram sob o manto conciliador dos interesses da minoria, no círculo fechado do privilégio. A velha política, sob o tacape de Bolsonaro, segue, assim, sendo a mesma. Sai república, entra república, os desacertos da elite são ensarilhados ao lado do pote que mantém cheio o botim.
Para conservar acesa a camarilha de adoradores, o mandatário destampou o bolor de pânicos fictícios e alguns fantasmas que a Nação reza para ver pelas costas, como o da tenebrosa sombra petista. Mas são nas imprecações sistemáticas que o atual governo deixa a estranha impressão de que se assiste hoje, afinal, ao que talvez seja a derradeira cena de uma transição dolorosa na qual prevaleceu a guerra dos extremos. Polarizado até aqui, o País clama pela moderação. Repudia a prepotência de quem se arvora em digno detentor do poder absoluto. O governo enfezadinho armou seus homens para uma guerra imaginária e, nessa toada, sairá derrotado dela.
Bookmark and Share

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A NOVA VERSÃO HUMILDE E FRÁGIL DE BOLSONARO

Do Blog do Noblat, VEJA

É temporária, não se enganem

A indicação de Augusto Aras para o cargo de Procurador-Geral da República rachou a base de apoio ao presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais, onde ele costuma nadar de braçada, e repercutiu mal dentro do seu partido, o PSL.

Nada, de alguns meses para cá, deixou Bolsonaro mais assustado. A ponto de ele ter suplicado por compreensão e paciência no seu programa semanal ao vivo no Facebook da última quinta-feira, e de ter repetido a súplica ontem.

Pela primeira vez, na nova versão de “presidente humilde e frágil”, Bolsonaro pareceu emocionado e declamou sem elevar o tom da voz, quase chorando: “Reconheço as minhas limitações, a minha incompetência em alguns momentos”.

Esqueceu a advertência que fizera na véspera de que não deve “lealdade cega” nem mesmo aos que o elegeram, e de que o eventual insucesso do seu governo poderá resultar na volta do PT ao poder com todos os males que isso significaria.

Amigo do senador Jaques Wagner (PT-BA), com bom trânsito entre petistas cinco estrelas, Aras foi alvo de um dossiê entregue por deputados do PSL a Bolsonaro que eram contra sua a indicação para a Procuradoria Geral da República.

Notícias sobre o dossiê ganharam as redes sociais impulsionadas por bolsonaristas sinceros, porém radicais. Junto com o alerta de que se ele fosse escolhido, o combate à corrupção perderia força e o PSL poderia cindir-se de vez e para sempre.

A suspeita foi reforçada com manifestações de procuradores ligados à Lava Jato que recomendaram a Bolsonaro a escolha de outro nome – de preferência, um dos três sugeridos pela massa de procuradores em votação direta. Foram ignorados.

O Procurador-Geral da República pode muito, mas não pode tudo. Em matéria de importância, o cargo só perde para os de presidentes da República, da Câmara dos Deputados, do Senado e do Supremo Tribunal Federal. É mais importante que o cargo de vice-presidente.

Difícil que Aras vá se empenhar em enfraquecer o combate à corrupção. Não combina com o seu perfil e lhe faltaria apoio entre os colegas. Desconfia-se é que Bolsonaro pessoalmente já não esteja mais tanto assim comprometido com o combate à corrupção.

O ministro Sérgio Moro caiu em desgraça junto a Bolsonaro por tentar reverter a decisão do ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo, que, atendendo a um pedido do senador Flávio Bolsonaro, brecou investigações sobre a corrupção com base em dados fiscais.

Foi deslealdade de Moro na opinião de Bolsonaro, afinal a decisão solitária de Toffoli, que em breve será referendada ou não pelos seus pares, beneficiou não só Flávio como por tabela toda a sua família que corria o risco de ser também investigada.

A vida de Aras na Procuradoria Geral da República não será fácil. Como, de resto, não foi a dos seus antecessores.

Foi a facada que elegeu o capitão?

A pergunta que ainda se faz

A essa hora, há exato um ano, Jair Bolsonaro, o candidato azarão à presidência da República, estava entubado em estado grave na UTI da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora, Minas Gerais, depois de ter sido esfaqueado na véspera pelo pedreiro Adélio Bispo. Perguntava-se: se sobrevivesse, continuaria candidato?

Uma vez eleito, a pergunta que se fez e que muitos hoje ainda se fazem é: Bolsonaro teria vencido aquela eleição se Adélio não tivesse cruzado o seu caminho? Ou: a facada foi decisiva para que ele se elegesse? A pergunta jamais terá uma resposta satisfatória porque o momento ainda está impregnado de paixões.

Na noite do dia 6 de setembro do ano passado, a menos de 12 horas de ser esfaqueado, Bolsonaro tinha 21% das intenções de voto na pesquisa feita por telefone pelo Instituto Ideia BigData. No dia 10 saltou para 24%. No dia 18 para 27%. No dia 25 para 31%. E no dia 5 de outubro para 33%. Seu crescimento foi constante.

Recuemos pouco mais de um ano. Entre abril de 2017 e novembro daquele ano, o voto espontâneo em Bolsonaro quase dobrou de tamanho. Foi de 6% para 11%. O que se passou no período? Aécio Neves (PSDB) foi flagrado pedindo dinheiro ao empresário Joesley Batista, e Joesley gravou o presidente Temer no Palácio do Jaburu.

Políticos e empresários foram presos. Um ex-deputado, assessor de Temer, foi filmado carregando uma mala estufada de dinheiro no centro de São Paulo. A Lava Jato estava a pleno vapor. A imprensa só falava disso. E a indignação dos brasileiros com a corrupção só fazia aumentar. O desemprego também aumentava.

Sim, a facada deu a Bolsonaro uma cobertura midiática que ele jamais teria. Seu tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão era insignificante. Fora o minúsculo PSL, nenhum outro partido quis juntar-se a ele. A facada liberou Bolsonaro para que faltasse aos debates com os demais candidatos. Sim, mas…

Mas o candidato que até agosto liderava todas as pesquisas de intenção de voto, o ex-presidente Lula, estava preso e condenado por corrupção. Em junho de 2018, a uma pergunta feita pelo BigData, 57% dos eleitores entrevistados haviam respondido que “não votariam em um candidato do PT de jeito nenhum”.

O PT fizera pelo menos três apostas erradas. A primeira: Lula poderia ser solto a tempo de disputar a eleição. A segunda: se não fosse, transferiria seus votos para Fernando Haddad. A terceira: Bolsonaro seria o candidato mais fácil para derrotar. Haddad não herdou todos os votos de Lula, mas herdou toda a rejeição ao PT.

O voto útil manifesta-se no segundo turno de uma eleição quando o eleitor vota em um candidato para impedir que o outro ganhe. No primeiro turno da eleição de 2018, diante da fraqueza dos demais candidatos, o voto útil por pouco não elegeu Bolsonaro. Ele obteve 46,3% do total dos votos válidos, e Haddad, 29,8%.

O eleitorado cavalgou Bolsonaro para votar contra tudo o que rejeitava. Nisso, a eleição de 2018 foi parecida com a de 1989, a primeira depois do fim da ditadura militar. Em 1989, foram para o segundo turno os dois candidatos que se apresentavam como contrários a tudo – Fernando Collor e Lula.

O pragmatismo do eleitor é conhecido. Ele não tem compromisso com o erro. Collor governou por menos de três anos dos quatro a que tinha direito. Começou a cair quando pediu às pessoas que fossem às ruas vestidas de verde e amarelo para apoiá-lo.
Bookmark and Share

A DEFESA DA DEMOCRACIA

Merval Pereira, O GLOBO

Quem identificou a origem dos ataques foi o decano do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Celso de Mello, quando falou, a propósito da censura de uma história em quadrinhos para adolescentes, que a inspiração para atos obscurantistas “resulta das trevas que dominam o poder do Estado”.

A partir dessa constatação, tem-se diante das instituições do Estado brasileiro a tarefa de enfrentar um Executivo que não aceita limites.

O Legislativo, se cumpre com galhardia a missão de enfrentar as reformas necessárias, sendo o protagonista da mudança do Estado, não deveria se sentir liberado para legislar em causa própria.

O STF, que, no momento conturbado que o país vive tem o papel de poder moderador entre Legislativo e Executivo, e é buscado como solucionador de questões políticas e sociais, não pode comprometer seu legado democrático a pretexto de se defender de ataques.

O pacto anunciado pelos presidentes dos Poderes da República, nascido para, segundo revelou o ministro Dias Toffoli, desmontar um incipiente movimento contra o presidente Bolsonaro no início do governo, não pode se revelar apenas instrumento de um acordão político.

É importante impedir a percepção de que os Poderes estão se auxiliando mutuamente, em busca de um modelo de governo que deixe seus integrantes numa zona de conforto. Por isso, é necessário que o STF retome seu papel de guardião da democracia.

Sem citar nomes, mas voltando a pontuar sua indignação, o decano Celso de Mello fez defesa enfática do papel do Ministério Público, que “não serve a governos, a pessoas, não se subordina a partidos políticos e não se curva à onipotência do poder ou aos desejos daqueles que o exercem”.

Uma clara mensagem sobre a tentativa de aparelhamento do Ministério Público com a escolha do subprocurador Augusto Aras para procurador-geral da República. Aras vem tocando em pontos que soam como música a grande parte dos parlamentares: a Lava-Jato se excedeu, não pode estar sujeita ao personalismo.

Tendo sido identificado como o candidato que mais se enquadrou no perfil desejado pelo presidente, um procurador-geral que seja flexível na questão ambiental, ajudando o Brasil sem atrapalhar obras de infraestrutura, e se identifique com os valores morais defendidos pelo governo, Augusto Aras assume com a percepção de que será um procurador-geral dócil ao Executivo.

A tal ponto esse sentimento está disseminado que o próprio Aras se sentiu na necessidade de comentar com políticos que avisou a Bolsonaro que ele não poderá se intrometer a toda hora.

Foi a advertência do decano do STF: “O Ministério Público não deve ser o representante servil da vontade unipessoal de quem quer seja, ou instrumento de concretização de práticas ofensivas aos direitos básicos das minorias, quaisquer que elas sejam, sob pena de o Ministério Público se mostrar infiel a uma de suas mais expressivas funções, que é, segundo o que diz a própria Constituição Federal, a de defender a plenitude do regime democrático”.

A defesa da democracia também foi o tom da despedida de Raquel Dodge. Ela pediu aos ministros do Supremo, às instituições da República e à sociedade civil que “permaneçam atentos a todos os sinais de pressão sobre a democracia liberal”.

Dodge citou o sistema de freios e contrapesos “(…) para proteger o direito e a segurança para todos, para defender minorias”, que depende da atuação do Ministério Público.

Os retrocessos democráticos que estão ocorrendo em diversos níveis do governo brasileiro são preocupantes, na medida em que se avança sobre as liberdades civis, conspira-se contra o combate à corrupção, aparelha-se à direita o que antes era aparelhado à esquerda.
Bookmark and Share

A MUDANÇA NA PGR

Do Blog do Luiz Carlos Azedo, Correio Brasiliense

A despedida da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, ontem, no Supremo Tribunal Federal (STF), da função de representante do Ministério Público Federal (MPF), virou um ato em defesa da democracia e da independência entre os Poderes da República. Seu mandato terminará na próxima terça-feira e, a partir de agora, todos os holofotes estarão voltados para o subprocurador-geral Augusto Aras, indicado para o cargo pelo presidente Jair Bolsonaro. Dodge foi muito reverenciada na sessão do Supremo, mas todos os discursos, inclusive o dela, soaram como advertência ao seu substituto. Até a aprovação do nome de Aras pelo Senado, a Procuradoria-Geral da República será chefiada interinamente pelo vice-presidente do Conselho Superior do MPF (CSMPF), Alcides Martins.

Raquel Dodge recebeu homenagens do presidente do STF, Dias Toffoli, e dos demais ministros. Toffoli disse que a procuradora “foi firme e corajosa” ao promover a efetivação dos direitos das pessoas e proteger a ordem constitucional, mas o seu principal recado foi a defesa da autonomia do Ministério Público Federal, “forte e independente na defesa dos direitos e das liberdades das pessoas e no combate à corrupção”, sem o que os valores democráticos e republicanos da Constituição de 1988 “estariam permanentemente ameaçados”.

Na mesma linha se pronunciou o decano da Corte, ministro Celso de Mello, cujo discurso foi uma espécie de resposta ao comentário feito pelo presidente Jair Bolsonaro de que o novo procurador-geral seria uma dama no seu jogo de xadrez, ou seja, o principal aliado político. “O Ministério Público não serve a pessoas, não serve a grupos ideológicos, não se subordina a partidos políticos, não se curva à onipotência do poder ou aos desejos daqueles que o exercem, não importando a elevadíssima posição que tais autoridades possam ostentar na hierarquia da República”, disse.

Dodge deixa a Procuradoria-Geral da República derrotada, pois pretendia permanecer no cargo e contava com apoios importantes no Congresso e no Supremo, porém, com altivez. Sua atuação não foi pautada por iniciativas espetaculares como as do ex-procurador-geral Rodrigo Janot, mas foi particularmente intensa em defesa das mulheres, dos indígenas, das minorias e em questões ambientais. Seu discurso de despedida no Supremo reiterou essas preocupações: “No Brasil e no mundo, surgem vozes contrárias ao regime de leis, ao respeito aos direitos fundamentais e ao meio ambiente sadio também para todas as gerações”. E destacou o papel do Supremo: “É singularmente importante a responsabilidade do STF para acionar o sistema de freios e contrapesos para manter leis válidas perante a Constituição.”

Desalinhado

Augusto Aras faz uma grande peregrinação pelos gabinetes do Senado, em busca da maioria dos votos dos 81 senadores em plenário. Primeiro, porém, seu nome precisa ser aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que deve se reunir na próxima semana. Aras é uma espécie de anfíbio, até aqui acumulou o cargo com a sua banca de advocacia, uma das maiores da Bahia, estado cuja bancada o apoia com gosto, do ex-governador Jaques Wagner (PT) ao senador Ângelo Coronel (PSD). O senador Otto Alencar (PSD), titular na Comissão de Constituição e Justiça, é um dos principais articuladores da aprovação de seu nome pelos colegas.

Ontem, Aras sinalizou um reposicionamento em relação ao presidente Jair Bolsonaro, durante conversa com o senador Alexandre Vieira (Cidadania-SE), um dos articuladores da chamada CPI da Lava-Toga. No encontro, relatou que, na primeira conversa com o presidente da República, deixou claro que exerceria suas prerrogativas constitucionais plenamente. De forma inusitada, parte da conversa entre Aras e Vieira teve o vídeo divulgado.

“Tive o primeiro contato com o presidente da República através de um amigo de muitos anos e, nesse mesmo primeiro contato, disse ao presidente exatamente isso: ‘Presidente, o senhor não pode errar (…), porque o Ministério Público, o procurador-geral da República, tem as garantias constitucionais, que o senhor não vai poder mandar, desmandar ou admitir sua expressão. Tem a liberdade de expressão para acolher ou desacolher qualquer manifestação. O senhor não vai poder mudar o que for feito’”, disse Aras.

No Senado, a aprovação do nome de Aras pode vir a ser consagradora, apesar da oposição do grupo de senadores que apoiam a Lava-Jato. Aras tem enfatizado o papel do procurador-geral nos assuntos de natureza econômica, além de defender a independência do MP junto aos senadores. Sinaliza um certo desalinhamento em relação ao Palácio do Planalto. Quem o conhece, diz que é polivalente como operador do direito e habilidoso na negociação política.
Bookmark and Share