quinta-feira, 30 de abril de 2020

SEM SAÍDA IMEDIATA

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo
É muito mais deletério do que conseguimos mostrar em texto de análise política o efeito que pregações irresponsáveis como as do presidente Jair Bolsonaro contra as estratégias de distanciamento social provocam no efetivo combate à pandemia do novo coronavírus.
Essa influência perniciosa não só atiça a natural e justificável ansiedade das pessoas por retomar suas vidas “normais”, como se fosse possível prever qual será o novo normal a partir de agora. Ela também, é possível perceber agora, acabou por criar nos governadores e prefeitos, mesmo naqueles conscientes dos riscos reais da pandemia, uma pressão para dizerem quando e de que forma reabririam comércio, escolas e outros estabelecimentos, o que se deu, desde a semana passada, de forma claramente irrefletida, precipitada e inócua.
Os casos de contaminação e as mortes continuam em ritmo acelerado, sem que nenhuma das condições necessárias para que se comece a falar em saída das quarentenas esteja dada. Não começamos a testar de forma mais sistemática e massiva, para ter números mais fiéis a refletir em que momento da epidemia estamos, a ocupação dos leitos de hospitais e de UTIs não está em curva decrescente na maior parte do País, os casos (mesmo esses que conseguimos confirmar, uma fração ínfima do total) não estão estabilizados e, mais assustador de tudo, mesmo os países que fizeram tudo certo e começaram a abrir estão experimentando más notícias.
Se a ocupação dos leitos e a progressão do contágio continuarem no ritmo dessas duas semanas, ao contrário, é muito provável que o governador João Doria Jr. e o prefeito da capital, Bruno Covas, tenham de anunciar restrições ainda mais severas, e não relaxamento do distanciamento social. Foi assim em MilãoNova York e outras cidades com as características de São Paulo.
Mesmo lugares de populações e circulação mais restritas e controláveis, como Brasília, talvez tenham relaxado as regras cedo demais. Afinal, basta que a capital do País volte a receber fluxos de viajantes, a começar dos políticos, de outros Estados para que uma nova onda de contaminação seja não apenas possível, como provável.
Basta ver que países que chegaram a ser citados como exemplos de combate à covid, como Cingapura (que testou massivamente) e Alemanha (que tinha proporção confortável de leitos de UTI por milhões de habitantes e fez um isolamento social rigoroso), tiveram ou terão de anunciar a volta de medidas restritivas porque os casos voltaram a subir.
Diante de um quadro tão grave e imprevisível, é ainda mais bizarro que o presidente do Brasil esteja dedicado única e exclusivamente a aparelhar ministérios e cargos públicos, demitir ou desautorizar os poucos ministros que passariam num psicotécnico e em confronto aberto com as instituições.
Desde que trocou Luiz Mandetta pelo desarvorado e desanimado Nelson Teich, Bolsonaro parece ter esquecido que há um vírus matando seus governados aos milhares. Não fala mais sobre coronavírus (o que pode até ser bom, dado o nível de patacoada que ele costuma dizer a respeito) nem cobra ações efetivas para achatar uma curva que ameaça colapsar o País tanto no plano médico-sanitário quanto no tão temido aspecto econômico.
Não vai dar para reabrir o Brasil na marra, como a essa altura até Teich já deve ter conseguido se dar conta. Que os governadores parem de ficar com medo do bafo quente das ruas e ajam com responsabilidade. De irresponsável já basta um.
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O QUE EU QUERO, PRESIDENTE ?

Mariliz Pereira Jorge, Folha de S.Paulo
Jair Bolsonaro insiste na narrativa de que não tem nada a ver com as mortes causadas pela Covid-19. Vai que cola. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”, ele pergunta. Obrigada por ter perguntado, presidente. Aqui vão algumas sugestões do que fazer, visto que o senhor parece meio sem ideia.
Uma medida urgente é que você pare de brincar de roleta russa com a vida do brasileiro. O Imperial College diz que o Brasil tem a maior taxa de contágio do coranavírus do mundo e prevê mais de 5.000 mortes, na próxima semana. Diferentemente do que você disse, se insistir em abrir o comércio, quem corre risco é o povo. O único risco a que você se expõe é ser tachado de genocida. Mas e daí?
O que eu quero, Bolsonaro? Que você peça desculpas por ter dito que é gripezinha, histeria, fantasia. Que o vírus está indo embora, que está superdimensionado, que brasileiro pula em esgoto e não pega nada, que todo mundo vai morrer um dia.
O que mais eu quero? Que você pare de tentar interferir nas investigações da Polícia Federal para proteger seus filhos, que mostre os resultados de todos os seus exames para Covid-19, que trate jornalistas sem parecer um cavalo, que não cumprimente as pessoas com a mão cheia de perdigotos, que desista de estimular e de participar de atos golpistas. Entenda, você até “manda”, mas não é dono do país.
Por fim, deixe que os governadores façam o que você não tem feito, tentar preservar vidas. Já dizia qualquer avó: se não for para ajudar, não atrapalhe. Aproveite e demita o incompetente do Weintraub e também o Ricardo Salles, antes que não sobre uma árvore em pé na Amazônia. Antes que eu me esqueça, conta pra gente, cadê o Queiroz?
Se nada disso for possível, tenho uma sugestão muito mais simples. Renuncie. E, por favor, leve junto para o inferno os zeros à esquerda dos seus filhos. Se Deus realmente existe, é para lá que vocês vão.
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HÁ 75 ANOS, O FÜHRER TIRAVA A PRÓPRIA VIDA

Do AH – Aventuras na História
HÁ 75 ANOS, O FÜHRER TIRAVA A PRÓPRIA VIDA EM UM BUNKER
Hitler já estava escondido no bunker antes do Exército Vermelho adentrar Berlim, em 1945. Ele se retirou para seu Führerbunker em 16 de janeiro de 1945, ficando próximo ao Portão de Brandenburgo, no coração da capital alemã, com guardas e algumas pessoas específicas, como seus imediatos e sua amante Eva Braun.
Ele recebeu inúmeras más notícias enquanto estava em seu esconderijo. A aproximação das tropas americanas e soviéticas preocupava os militares nazistas, que já acreditavam que Berlim seria o cenário da batalha final da Segunda Guerra.
Em 20 de abril, a cidade começou a ser bombardeada pelos soviéticos. Já no dia seguinte, o Exército Vermelho chegava aos arredores da cidade, e foi em 22 de abril que Hitler declarou derrota pela primeira vez. A partir desse momento, o líder nazista já afirmava que permaneceria no bunker e cometeria suicídio no mesmo lugar, perguntando ao médico da SS Werner Haase qual era o método de suicídio mais confiável.
Apenas alguns dias depois, Hitler e Eva Braun decidiram que iam se casar — a união, no entanto, durou apenas algumas horas. Ainda no dia 29, o Führer recebeu a notícia de que seu colega Benito Mussolini havia morrido na Itália. O dramático fim do ditador foi entendido como um aviso pelo nazista, que começou a mobilizar as últimas 24 horas no bunker.
Hitler, Braun e alguns secretários almoçaram. Então, o casal se despediu das outras pessoas que ocupavam o local secreto, como Bormann, Goebbels e sua família e alguns oficiais militares. Por volta das 14h30, os dois entraram no escritório pessoal do nazista.
Acredita-se que os que estavam presentes tenham escutado um ou mais tiros nas 15h30 daquele dia. Além disso, teorias também afirmam que Braun tomou uma cápsula de cianeto para se matar, e que Hitler deu um tiro em si mesmo. Mas ainda existem historiadores que alegam que ele também tomou um frasco do composto químico para cometer suicídio e depois atirou com a sua pistola.
O cheiro de amêndoas queimadas toma o recinto — anunciando a morte do mais odiado político nazista. Heinz Linge, criado de Hitler, e Otto Günsche, oficial do Exército Alemão, entraram no escritório e afirmaram a morte dos dois. Eles estavam lado a lado no sofá mantido no bunker.
Linge e algumas pessoas começaram a embrulhar os dois corpos e leva-los para o jardim fora do Führerbunker. Lá, eles encharcaram os cadáveres com gasolina e colocaram fogo nos mesmos. Estima-se que essa operação tenha durado desde as 16h até as 18h30 daquele dia.
No dia seguinte, Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda do Terceiro Reich ainda se mataria no bunker, levando consigo sua esposa e seus seis filhos, mortos também por ingestão de cianeto.

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ESTÁ TUDO SOB CONTROLE, SÓ NÃO SABE DE QUEM...

Do Blog do Noblat, VEJA
O Brasil registrou um novo recorde de mortes em 24 horas por conta do coronavírus – 474. E daí? O total de óbitos, 5.017, ultrapassou o da China que é de 4.637. E daí? Em breve, o total de casos ultrapassará o de casos na China. E daí? Daí que o Brasil está em 9º lugar no ranking de países com maior número de mortos. É possível que atinja a casa dos 10 mil antes no final de maio. E daí...
Daí o presidente Jair Bolsonaro diz que sente muito, mas que são “coisas da vida”. Todo mundo vai morrer um dia, inclusive ele. De resto, Bolsonaro tem Messias no nome, mas não faz milagres, como disse ontem à noite no cercadinho de entrada do Palácio da Alvorada, ultimamente pouco frequentado por seus devotos de estimação. Os jornalistas sempre estão lá.
A aposta no antiviral que já traz ótimos resultados contra a Covid-19, a pandemia eleitoral em Brasília e os fiéis de Bolsonaro. Leia nesta edição.
A pandemia avança no Brasil conforme o previsto por Bolsonaro em fevereiro. Ele ouviu de técnicos da Saúde que o número de casos do coronavírus só começaria a cair depois que cerca de 70% da população tivesse sido infectada. Viu na televisão a primeira-ministra da Alemanha, Ângela Merkel, dizer algo parecido. Então se convenceu de que não havia o que fazer, salvo deixar rolar.
Ouviu também dos técnicos que o isolamento social deveria ser incentivado para que o sistema de saúde não entrasse em colapso rapidamente. Se entrasse, seria o caos. E ouviu ainda que seria preciso comprar milhões de kits de testes, milhões de máscaras, milhares de macacões para as equipes médicas, e milhares de respiradores. Mas essa parte ele esqueceu ou não deu muita bola.
Preferiu prestar mais atenção nas vozes que aconselhavam: “Jair, se a Economia for para o brejo, sua reeleição irá também. Por isso, salve a economia, que é o que você pode fazer”. Bolsonaro passou então a torpedear as medidas de isolamento social baixadas por governadores e prefeitos. Fez isso com afinco, sem ligar para a advertência de que assim estaria cavando sua fossa.
Não se demite ministro da Saúde às vésperas de um morticínio anunciado. E daí? Bolsonaro demitiu. Mandetta era o maior sucesso na programação de fim de tarde das emissoras de televisão. Bolsonaro queria que ele andasse na contramão de governadores e de prefeitos, e Mandetta não andou. Escolheu então um novo ministro obediente e quase mudo.
Aproveitou o momento para forçar a saída do governo de outro ministro, Sérgio Moro, que concorria com Mandetta em matéria de popularidade. A dos dois superava de longe a de Bolsonaro. Moro era o símbolo da luta que Bolsonaro prometera travar contra a corrupção. E daí? O presidente queria aparelhar a Polícia Federal para pô-la a serviço de sua família, e Moro se opunha.
Reeleição acima de tudo – só abaixo do impeachment que poderá abreviar o mandato de Bolsonaro. Portanto, quem é capaz de mandar o combate à corrupção para o lixo é capaz de mandar tudo mais que prometera. Nova Política? Sem entrega de cargos a partidos em troca de votos? E daí? Troque-se a Nova pela Velha política que Bolsonaro dizia abominar.
O Partido Progressista espera receber as presidências do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e do Departamento Nacional de Obras contra as Secas. O Partido Liberal, a presidência do Banco do Nordeste. Ao Republicano deverá caber uma secretaria do Ministério da Agricultura, e ao Partido Social Democrático, superintendências da Funasa nos Estados.
Decepcionados, bolsonaristas de ocasião começam a abandonar o presidente. E daí? Se ele não for deposto antes do tempo, os de raíz poderão catapultá-lo para o segundo turno da eleição de 2022. É nisso que Bolsonaro e os militares que o apoiam apostam.
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quarta-feira, 29 de abril de 2020

APARELHO FAMILIAR

Editorial Folha de S.Paulo
O desenrolar dos acontecimentos vai dando razão à acusação mais grave feita pelo ex-ministro Sergio Moro contra o presidente da República, de que Jair Bolsonaro age motivado pelo objetivo de reduzir a Polícia Federal a um instrumento pessoal do ocupante do Planalto.
Os primeiros indícios de confirmação constavam das palavras do próprio chefe do governo na sexta-feira (24). A propósito de defender-se do que pouco antes havia dito o ex-juiz da Lava Jato, o presidente admitiu que fazia pressões sobre o Ministério da Justiça para arrancar informações da Polícia Federal.
Na sequência, Moro divulgou mensagens trocadas com Bolsonaro em que o mandatário citava repercussões de um inquérito para apurar fake news e ameaças a magistrados, que corre no Supremo Tribunal Federal, como motivo para substituir o diretor da PF.
No sábado (25), esta Folha revelou que a apuração, presidida pelo ministro Alexandre de Moraes, havia identificado o vereador Carlos Bolsonaro como um dos articuladores do esquema criminoso de intimidação. O ciclo se fechava, mas ainda não se completara.
O delegado nomeado pelo presidente da República para assumir a Polícia Federal, Alexandre Ramagem, é amigo do filho Carlos.
Um outro conviva da família Bolsonaro, Jorge Oliveira, teria sido indicado para a pasta da Justiça não fosse uma forte pressão palaciana para demover o chefe de Estado. Acabou sendo indicado para o cargo André Mendonça, que era o titular da Advocacia-Geral da União.
Escandalosa é pouco para qualificar a promoção de Ramagem à chefia da Polícia Federal nesse contexto. Por mais que cautelas, como a tomada por Alexandre de Moraes ao proibir a troca dos delegados que conduzem o inquérito das fake news, possam evitar danos pontuais, a intenção de aparelhar o órgão policial ficou clara e parte do presidente da República.
Não à toa, ações para anular a posse do indicado a diretor-geral da PF começaram a chegar às cortes federais, inclusive ao Supremo. Alegam que Bolsonaro cometeu abuso de poder e desvio de finalidade na nomeação do amigo.
Na cartilha do neoautoritarismo em voga em algumas partes do planeta, aparece como item de destaque a lenta cooptação dos órgãos independentes do Estado pelos tentáculos do candidato a caudilho.
Jair Bolsonaro segue mestres como Nicolás Maduro, da Venezuela, e Victor Orbán, da Hungria, ao tentar transformar a PF num birô a serviço da família presidencial.
Precisa ser contido pelas instituições. A PF hoje exige mais, e não menos, garantias —como um diretor-geral submetido ao escrutínio do Legislativo— para a sua atuação técnica e republicana.
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A REPÚBLICA DO "E DAÍ ?"

Bernardo Mello Franco, O GLOBO
Num só dia, o Brasil recebeu três más notícias sobre a pandemia do coronavírus. O país registrou um novo recorde de mortes: 474 em apenas 24 horas. Isso fez o total de vítimas superar a marca dos cinco mil. Para completar, o Brasil ultrapassou a China no ranking de países com mais mortos pela Covid-19.
Diante desses fatos, qualquer presidente razoável se sentiria obrigado a reconhecer a gravidade da situação. Mas os brasileiros elegeram Jair Bolsonaro, que preferiu fazer piada com a tragédia. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”, disse, ontem à noite.
A mistura de indiferença e deboche virou marca das declarações do presidente. No domingo, ele foi questionado por uma eleitora sobre a decisão de entregar o comando da Polícia Federal a um amigo dos filhos.
“E daí? Antes de conhecer meus filhos eu conheci o Ramagem”, ele respondeu, numa rede social. Em seu idioma particular, o capitão queria dizer que conheceu o delegado antes dos herdeiros. Mesmo assim, ele não se julgou obrigado a esclarecer o conflito de interesses.
Hoje o presidente fez questão de reforçar que Alexandre Ramagem foi presenteado com o cargo porque “passou a ser um amigo”. “Tomava café junto, leite condensado no pão, tá? E daí? Eu devo escolher uma pessoa que eu nunca vi na vida?”, questionou.
Bolsonaro quer transformar o Brasil na República do “E daí?”. Seu desejo é viver num país em que o governante pode ignorar as leis e não precisa prestar contas do que faz. Por isso, ele detesta a imprensa e incentiva ataques ao Congresso e ao Judiciário.
Nesta segunda, a Justiça Federal atendeu a um pedido do jornal “O Estado de S. Paulo” e determinou que o presidente apresente o resultado de seus exames para a Covid-19. A informação é de interesse público, mas o presidente se julga no direito de sonegá-la.
Questionado sobre a ordem judicial, ele voltou a fazer graça. “Daqui a pouco querem saber se eu sou virgem ou não. Vou ter que apresentar o exame de virgindade. Dá positivo ou negativo, o que vocês acham?”, perguntou, na porta do Alvorada.
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MORRE LUIZ EDGAR ANDRADE

Do G1
O jornalista Luiz Edgar de Andrade morreu nesta quarta-feira (29) no Rio de Janeiro. Ele tinha 88 anos e contraiu o novo coronavírus.
Nascido em Fortaleza, Lúiz Edgar se formou em filosofia e direito, mas foi o jornalismo a sua grande paixão. Ele se mudou para o Rio de Janeiro nos anos 1950 e passou por vários veículos de comunicação.
Foi repórter da Revista Cruzeiro, chefe no Jornal do Brasil e chefe de redação na TV Manchete. Na Globo, Luís escreveu o Manual de Redação e foi editor-chefe do Jornal Nacional.
Um dos trabalhos de maior repercussão do jornalista foi a cobertura, como correspondente, da Guerra do Vietnã.
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FLEXIBILIZAR O TETO, JÁ

Monica de Bolle, O Estado de S.Paulo
Na semana passada, o governo apresentou o plano Pró-Brasil. Tratava-se do anúncio de uma agenda de investimentos públicos em infraestrutura para o País. O plano foi duramente criticado por razões acertadas e outras não tão acertadas assim. Entre as justificadas críticas estava o fato de o plano consistir em não mais do que meia dúzia de slides sem qualquer detalhamento sobre as áreas prioritárias para obras públicas. Foi citada a cifra de R$ 30 bilhões em investimentos públicos, que muitos sabemos ser insuficiente para cobrir as inúmeras carências e os variados gargalos do Brasil. Mesmo assim, houve quem tenha resolvido chamar o plano de Segundo PND de Bolsonaro, ou de PAC do seu governo, numa clara tentativa de demonizar o investimento público.
O anúncio deu margem a respostas histriônicas da equipe econômica, verdadeiros chiliques, por exemplo quando alguns de seus membros disseram à jornalista Miriam Leitão que o plano era uma ameaça ao teto de gastos e que, fosse o teto flexibilizado, muitos deixariam o governo. Talvez seja a hora mesmo de buscarem a porta de saída. Afinal, a responsabilidade desses indivíduos deveria ser com o País, e não com uma medida que sofre de diversas falhas desde seu desenho original.
Em 2016, quando se iniciou a discussão sobre o teto, fui favorável à ideia, mas não ao desenho. Nesse espaço e em outros veículos discuti por que a formulação do teto brasileiro estava em completo desalinho com a boa prática internacional e afirmei que mais cedo ou mais tarde pagaríamos por isso.
Minha visão à época, como agora, era a de que o teto era excessivamente rígido, não permitindo ao governo qualquer margem de manobra para a adoção de medidas contracíclicas, quando necessárias. Antes de a epidemia eclodir, alguns membros do Congresso já defendiam a flexibilização do teto em prol de uma retomada mais forte da economia, para que saíssemos da armadilha do crescimento de 1% ao ano. Há quem argumente que a sua adoção acabou retirando financiamento do SUS, na contramão do que se falava em 2016.
No momento atual, ante a declaração de calamidade, o teto tem um dispositivo que permite a abertura de créditos extraordinários, o que na prática o suspende por tempo limitado. Formalmente esse tempo acaba no ano que vem, quando ainda precisaremos sustentar a economia diante do cenário de quarentenas intermitentes sobre o qual tenho falado.
No início de março, após a epidemia ser declarada pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e começar a derrubar mercados e economias, disse em entrevista à Globonews que o teto precisaria ser flexibilizado para acomodar o investimento público, fundamental não para o enfrentamento da crise de saúde pública, mas para o que dela sobreviria. Alguns reputaram estapafúrdia a ideia, embora naquele momento eu já enxergasse não apenas o drama que hoje atravessamos, como também a crise crônica que haverá de seguir à atual, mais aguda.
Mas, para além disso, a inclusão do investimento público no teto de gastos é anacrônica do ponto da vista da experiência internacional. Estudo publicado pelo FMI em 2015 mostra que há alguma variância entre os diferentes tipos de tetos de gastos, mas todos tendem a excluir o investimento público e/ou ter cláusulas de escape para a adoção de medidas econômicas, quando necessárias.
Queiram os técnicos do governo ou não, o teto é profundamente inadequado tanto para a fase aguda da crise de saúde e da crise econômica quanto para a fase crônica que lhe seguirá. Teremos de continuar a conviver com o vírus, e, por essa razão, tenho insistido que a recuperação será volátil e lenta. Assim seria mesmo que não tivéssemos acrescentado aos nossos problemas a atual crise política e institucional com a saída de Sergio Moro. Dada a conjunção de crises e a dinâmica da economia brasileira, inevitavelmente teremos de nos valer do investimento público durante a fase de reconstrução econômica, pois o investimento privado não retornará tão cedo em situação de volatilidade.
Para tanto é preciso pensar simultaneamente em três linhas de frente: as prioridades para o investimento; o detalhamento dos projetos, para que não tenhamos os fracassos vistos em governos anteriores; e a necessária flexibilização do teto. A economia e a população brasileiras precisam mais do que nunca que tabus sejam abandonados em prol do bem maior: a atenuação da crise humanitária provocada pela epidemia e pela crise econômica.
O momento é de pensar seriamente o papel do investimento público, como estão fazendo vários países mundo afora, e de lembrar que nossas deficiências de infraestrutura não serão sanadas sem o envolvimento do Estado. A falsa dicotomia entre Estado e mercado caducou. Viremos essa página.
*Economista, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University
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EPIDEMIA VOLTOU A PIORAR NO BRASIL ?

Vinicius Torres Freire, Folha de S.Paulo
O número de mortes por Covid-19 no Brasil e em São Paulo parecia crescer mais devagar até o começo da semana passada, por aí. Até então, com todas as ressalvas de praxe, parecia haver uma despiora, como vinha acontecendo em países grandes da Europa, no que diz respeito à redução do ritmo do avanço do número de casos e mortes, considerados dias equivalentes de duração da epidemia.
Desde a semana passada, embatucamos. O ritmo parou de diminuir.
O que houve? Há mais registros de casos e mortes porque há mais testes ou notificações mais rápidas? Ou há um problema na contenção da doença, programa que mal e mal parecia funcionar?
Como está claro, epidemiologistas e outros estudiosos da doença estão com dificuldades ou indisposição de avançar opiniões, que dirá análises ou projeções. Mas alguns deles dizem temer que a desordem no distanciamento social possa ter abalado a tendência de despiora no ritmo de avanço da doença. Mas esperariam mais uma semana, pelo menos, antes de assinar o comentário.
As medições disponíveis de isolamento caíram, cidades reabrem a atividade econômica ou jamais as fecharam de fato, há propaganda federal contra o isolamento. Pessoas mais pobres, sem auxílio, procuram meios de ganhar vida, as pessoas em geral começam a se cansar do isolamento e fogem. Para piorar, ainda estamos muito longe de ter um sistema amplo e ágil de rastreamento de doentes e possíveis contaminados.
Temos ainda problemas com os dados mais elementares. Não sabemos quando as pessoas ficaram doentes (com sintomas) ou morreram. As notificações diárias são de confirmações de casos que podem ter ocorrido faz dias.
O problema vai, pois, muito além da subnotificação, que sempre há e haverá. E subnotificação do quê? De infecções em geral, de doentes leves, de casos hospitalares, de mortes? De resto, uma subnotificação mais ou menos constante permite que se acompanhe o ritmo da progressão da doença, embora não o nível do número de casos.
Há agora uma corrida para saber da subnotificação _é útil, ajuda a pressionar os governos a fornecerem dados melhores. Vários dados indicam subnotificação, mas não dizem muito mais do que isso.
No estado de São Paulo, o número geral de mortes em março de 2020 superou a média dos últimos quatro anos em 1.481. O número oficial de mortes por Covid-19 naquele mês foi de 731, mas várias mortes ainda estavam pendentes de confirmação ainda em abril (os dados de mortalidade de abril ainda são imprestáveis, por vários motivos).
O que podemos concluir? Nada além do óbvio. Existem mais casos, não se sabe bem quantos, quando e em que ritmo de notificação ou sub.
Além do risco do fetiche do número da subnotificação, falta qualidade nos dados elementares da doença. Parece que o país se cansou de falar no assunto, saiu de moda, embora o problema esteja explodindo. Ainda não temos informação precisa de UTIs, ventiladores, testes, detalhamento da gravidade dos casos e da evolução desses números.
Compramos mais, produzimos mais, temos mais equipamentos?
Deveria haver equipes supervisionando isso com precisão, de modo a tentar evitar mais desgraça. Que essas informações não existam ou que os governos se recusem a divulga-las, COMO TEM FEITO, é um escândalo que deveria ser objeto de campanha, talvez campanha do Ministério Público.
É uma zorra criminosa.
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GUEDES HERDOU A CARTA BRANCA DE MORO

Elio Gaspari, Folha de S.Paulo
Fica combinado que “o homem que decide a economia” no Brasil é Paulo Guedes. Afinal, Sergio Moro tinha carta branca e a política do toma lá dá cá com o centrão era coisa do passado. Cartas brancas não existem, e as tais bancadas temáticas que substituiriam as negociações com os partidos eram um delírio. Assustado com a ruína de seu governo, Bolsonaro bateu à porta do centrão. Repete Dilma Rousseff e Fernando Collor.
A fé de Bolsonaro em fantasias é inesgotável. Pena que a capacidade de Paulo Guedes de criar debates inconsequentes seja incontrolável. Diante de uma epidemia, de uma recessão e do teatrinho do lançamento do Pró-Brasil, Paulo Guedes resolveu encrencar com os servidores:
“Precisamos também que o funcionalismo público mostre que está com o Brasil, que vai fazer um sacrifício pelo Brasil, não vai ficar em casa trancado com geladeira cheia e assistindo à crise enquanto milhões de brasileiros estão perdendo emprego.”
Boa ideia. Que tal um programa de sacrifícios gradativos, começando pelos magistrado e procuradores que embolsam acima de R$ 30 mil por mês? O general da reserva Augusto Heleno já disse que tinha vergonha do seu salário de R$ 19 mil líquidos.
Guedes tomou uma bolada nas costas e partiu do oficialismo a pecha de que ele é um “inimigo dos pobres”. Teria surgido até uma banda “desenvolvimentista” no Planalto. Isso é falso por três razões.
Primeiro, porque o Pró-Brasil é apenas teatralista, como o foram seu pai — o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) — e seu avô, o 2º Plano Nacional de Desenvolvimento (PND).
Também porque esse desenvolvimentismo seria encarnado pelo ministro Rogério Marinho. Como secretário para Previdência e Trabalho de Guedes, o doutor teve a ideia de taxar os desempregados que recebem um seguro do governo. Justificando a tunga, disse que com isso o desempregado continuaria na Previdência Social. Só não explicou por que a medida seria compulsória. Se fosse voluntária, tudo bem.
Finalmente, porque o teatrinho do Pró-Brasil nunca foi coisa nenhuma. Revela apenas um governo desorientado. Quando Bolsonaro diz que Paulo Guedes é “o homem que decide a economia”, isso significa que, quando for o caso, poderá ser descartado, com a mesma argumentação usada para defenestrar Sergio Moro.
Até o mês passado Paulo Guedes queria reformar a economia brasileira com 40 milhões de invisíveis e 11 milhões de desempregados. Na segunda-feira ele reafirmou a vitalidade de seu projeto e encrencou com a geladeira dos servidores.
Na recessão americana de 1929 o secretário do Tesouro, Andrew Mellon, também viu um renascimento a partir da ruína e propôs ao presidente Herbert Hoover: “Liquide os sindicatos, liquide o papelório, liquide os fazendeiros, liquide o mercado imobiliário. Isso purificará a podridão do sistema. (…) As pessoas trabalharão mais e levarão uma vida com mais moral”. Felizmente, Hoover não o ouviu.
Em 1933, Franklin Roosevelt assumiu a Presidência, olhou para o andar de baixo e mudou a cara dos Estados Unidos.
Em tempo, o andar de cima americano nada tem a ver com o de Pindorama: Andrew Mellon doou ao povo o prédio da National Gallery de Washington e mais de mil peças de sua coleção. Coisa de dezenas de bilhões de dólares em dinheiro de hoje.
Jornalista ítalo-brasileiro, comentarista diário de alguns dos principais jornais do país, e autor, dentre outros, da coleção As Ilusões Armadas, em cinco volumes.
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DIÁRIO DA CRISE XXXIX

Do Blog do Gabeira
E daí? Essa resposta de Bolsonaro quando confrontado com o crescente número de mortes no Brasil foi o tema de discussão em toda parte.
Quer que eu faça o que? Eu sou Messias, mas não faço milagres.
Essa conclusão de Bolsonaro não me surpreende totalmente. Claro que um presidente da República tem de mostrar o mínimo de empatia e compaixão com seu povo.
Mas ele está convicto de que cerca de 70 por cento da população será contaminada. E não se importa que as pessoas morram por falta de atendimento. Mas esse é o resultado mais provável quando o sistema de saúde entra em colapso.
Sou leigo e do grupo de risco. Ainda tenho a audácia de ler diariamente não por curiosidade intelectual apenas. Mas por acreditar que o conhecimento ajuda a salvar vidas.
Outro dia escrevi sobre a pneumonia silenciosa produzida pelo corona vírus. Divulgava a tese de um especialista americano. No final texto, concluiu que era importante um oxímetro para medir a oxigenação e evitar surpresas, isto é internar as pessoas quando já for tarde demais.
Uma leitora ficou brava e disse que nunca mais me leria. Estava propondo algo fora do alcance do Brasil, um pais cheio de deficiências.
O oxímetro n∫ao custa tão caro. Mas entendo a irritação dela. Possivelmente acha que estamos condenados a morrer em grande quantidade apenas porque somos mais pobres.
Essas pessoas se irritam com quem se rebela contra as mortes, como se fôssemos os arrogantes personagens de uma tragédia grega e merecêssemos um castigo por desafiar o destino.
Mais tarde, Bolsonaro voltou ao tema e expressou sua solidariedade com as famílias dos mortos. Mas sua tese continua sendo a da imunização pela contaminação geral.
O pior é que não é uma tese estapafúrdia. Apenas não leva em conta o fato de que muitas pessoas adoecerem ao mesmo tempo, morrerá muito mais gente se essa contaminação se alongar pelo tempo.
O mais doloroso é que essa briga não precisava existir. Poderíamos ter uma posição nacional e solidária. Ainda que muitos se contaminassem ao longo do tempo, o essencial é que houvesse o mínimo de mortes.
Há muito o que fazer para evitar essas mortes. Quando o presidente se resigna, ele se afasta das milhares de pessoas que estão no front, cuidando dos doentes.
Ele tem ainda apoio de 30 por cento da população. Mas duvido que todos os seus eleitores apoiam uma reação como essa diante do crescimento do número de mortes.
Existe um núcleo mais duro e insensível que faz buzinaço na porta dos hospitais. Esses são adeptos da política da morte, da tese vamos deixar logo que os mais fracos desapareçam e prosseguir na economia, no crescimento.
Há uma frase hoje muito falada entre os que buscam saída para a economia pós-crise em Amsterdã. Ela é válida para esse gente: a filosofia do crescimento pelo crescimento pelo crescimento é a filosofia da célula cancerosa.
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ESCÁRNIO PRESIDENCIAL

Julia Chaib, Daniel Carvalho – Folha de S.Paulo
'E daí? Lamento, quer que eu faça o quê?', diz Bolsonaro sobre recorde de mortos por coronavírus
BRASÍLIA O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta terça-feira (28) que lamenta, mas não tem o que fazer em relação ao novo recorde de mortes registradas em 24 horas, com 474 óbitos, ultrapassando a China no número total de óbitos pelo novo coronavírus.

"E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre​", afirmou ao ser questionado sobre os números.
Em entrevista na porta do Palácio da Alvorada, Bolsonaro disse que cabe ao ministro da Saúde, Nelson Teich, explicar os números.
"Eu tenho que falar com o ministro, ele que fala de número. Eu não falo sobre a questão da saúde. Talvez eu leve na quinta-feira para fazer uma live aqui", disse.
O recorde diário anterior do Brasil era de 23 de abril, com 407 novas vítimas. O país é agora o 9º país com mais mortes no mundo. Segundo o boletim mais recente do Ministério da Saúde, ao todo 5.017 pessoas morreram por Covid-19. A China, por sua vez, registra 4.637 mortos, segundo a Universidade Johns Hopkins, nos EUA, que monitora a pandemia,
A primeira morte por coronavírus na China (e no mundo) foi confirmada em 11 de janeiro. No Brasil, a confirmação do primeiro óbito ocorreu em 17 de março.Em número de pessoas infectadas, o país tem 71.886 casos confirmados e está em 11º lugar, ainda atrás da China, que tem 83.938 casos.​
"As mortes de hoje, a princípio, essas pessoas foram infectadas há duas semanas. É o que eu digo para vocês: o vírus vai atingir 70% da população, infelizmente é a realidade. Mortes vão haver. Ninguém nunca negou que haveria mortes", continuou o presidente.
Depois de questionar e ser informado de que sua entrevista estava sendo transmitida ao vivo em redes de televisão, Bolsonaro buscou dar uma uma declaração mais amena sobre o assunto.
"Lamento a situação que nós atravessamos com o vírus. Nos solidarizamos com as famílias que perderam seus entes queridos, que a grande parte eram pessoas idosas, mas é a vida. Amanhã vou eu. Logicamente que a gente quer, se um dia morrer, ter uma morte digna, né? E deixar uma boa história para trás", disse o presidente.
Apesar de não ter falado sobre nenhuma proposta para conter a transmissão do coronavírus, Bolsonaro voltou a dizer que está preocupado com a situação econômica e o aumento do desemprego no país. Ele disse que conversou nesta terça com um grupo de 200 empresários do Rio de Janeiro e conversou com eles sobre a reabertura das atividades econômicas.
“O próprio pessoal da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) de hoje disse que tem que ser retomado.”
O presidente disse que o assunto já havia sido discutido com a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e afirmou ainda que pediu ao Ministério da Saúde que elabore um parecer sobre a retomada de campeonatos de futebol em estádios sem torcidas e com portão fechado.
"Ele (o ministro da Saúde) vai estudar, se for o caso, dar um parecer favorável neste sentido", complementou o presidente.
Embora tenha feito o pedido, Bolsonaro disse que não vai "obrigar" Teich a determinar a reabertura de atividades pelo país.
"Não vou dar parecer [sobre relaxamento do isolamento social]. Não vou obrigar o ministro da Saúde a fazer nada. Eu sugiro para todos os ministros. Hoje tive reunião de ministros e fiz várias sugestões", afirmou.
O presidente ainda foi questionado sobre decisão judicial que garantiu ao jornal "O Estado de S.Paulo" acesso ao resultado de seus exames para Covid-19. Ele afirmou que a lei garante o anonimato dos exames e repetiu que não teve coronavírus.
“Vocês não me viram rastejando aqui, com coriza, eu não tive [covid]”, disse. "Quero mostrar que eu tenho o direito de não mostrar (os exames)", continuou Bolsonaro.
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AS VÁRIAS FASES DA BURRICE BOLSONARISTA

Marcelo Coelho, Folha de S.Paulo
Está ainda para ser escrito um estudo sobre o papel da burrice na política brasileira. Comentaristas e historiadores sempre supõem que um homem de Estado se move por estratégia e cálculo.
Os melhores instrumentos de análise podem se quebrar, entretanto, quando confrontados com os atos de um verdadeiro energúmeno.
O presidente Bolsonaro nem precisaria ter feito aquele discurso. Só a foto dele, com todos os ministros enfileirados, já vale por um atestado clínico.
Qual o sentido de chamar todo o gabinete para ouvir, com cara de pastel, aquelas explicações sobre a demissão de Moro? Só se reconhecia, com isso, o tamanho da crise.
O presidente juntou Damares, Weintraub, Araújo, Mourão, Guedes e companhia, como se estivesse anunciando um grande plano para o Brasil. O que apresentou foi um discurso disperso, patético, mentiroso e oco, incapaz de responder à única pergunta que importava no momento.
Por que trocar o chefe da Polícia Federal?
Pela versão de Bolsonaro, tratava-se apenas de atender a um pedido do próprio demitido. E, confessadamente, de pôr alguém na Polícia Federal com quem ele pudesse se entender, sem interferências de Moro.
Reduzido ao seu ponto básico, o discurso de Bolsonaro é um escândalo.
Mas o presidente é tão falto de inteligência que nem mesmo percebe o que está dizendo.
Há burrices e burrices. Uma das que predominam, hoje em dia, talvez seja efeito do Facebook e das geringonças digitais.
As imagens, as piadinhas e memes se sucedem com tanta rapidez, que o sujeito perde a memória.
Presidentes como Trump ou Bolsonaro escrevem qualquer coisa no Twitter, e no dia seguinte já não se lembram mais.
Abre o comércio, fecha o STF, usa a máscara, tira a máscara, tanto faz. As falas de Bolsonaro se sucedem como disparos num estande de tiro esportivo.
Pá, pá, pá. Aí o instrutor pega aquele cartaz com uma silhueta humana para ver quantas balas chegaram ao alvo. Nosso herói nem mesmo se interessa pela pontuação que obteve. “Acertei tudo, claro, está OK?”
No “está OK?” se esconde uma insegurança. Mas a insegurança não se confunde com autocrítica. Estimula, apenas, uma nova rodada de disparos.
Junto com a falta de memória, surge a incapacidade de distinguir entre o anedótico e o essencial. O discurso do presidente sobre a demissão de Moro se perdeu, como é notório, em considerações sobre o aquecimento da piscina, os feitos do “número quatro”, a certidão de nascimento da sogra.
É claro, aquilo fazia sentido em sua argumentação —ele queria dizer que foi investigado com base em suposições infundadas. Um advogado talentoso organizaria o discurso nesse rumo, como quem demonstra um teorema.
Bolsonaro é incapaz disso; vai pulando de fato em fato, de caso em caso, de anedota em anedota, como quem clica nas histórias do Instagram ou vagueia num game tipo “GTA”.
É esse o comportamento mental do bolsominion típico.
Primeiro, ignora o sentido mais amplo de um fenômeno para se aferrar a um detalhe de fácil compreensão.
Aparece um livro sobre educação sexual, por exemplo. O bolsominion não leu, mas fica sabendo que ali tem uma ilustração meio estranha. Será o pretexto para gritar, espernear, denunciar o diabo a quatro.
Mas ninguém vive sem entender as coisas num contexto. Depois de tirar um fato de seu contexto, o bolsominion terá de achar outro.
Aí entra o papel de alguma grande conspiração internacional, que de tão “evidente” não tem como ser contestada.
Se alguém contestar, entra a terceira fase do processo. Trata-se de rotular o inimigo: comunista, petralha etc. Os nazistas preferiam falar em judeus. O tiro sempre “acerta”, porque o atirador é completamente míope e confunde tudo.
Segue-se a fase autocongratulatória. Moro abandona o barco? Não faz mal. Ele era falso; e nós estamos lutando “o bom combate”, como diz Bolsonaro.
Se, apesar de tudo, vier o desmentido, o desastre, o vexame, nenhum problema. Basta se esquecer do que foi dito e do que foi feito. “Torturador? Eu?” Como assim?
Os próprios eleitores de Bolsonaro já se esquecem que votaram nele. “Bolsonarista? Eu? Votei no Amoêdo.”
O bolsominion mente. Mas não tem a inteligência do mentiroso comum. É tão burro que acredita na própria mentira; é otário até quando se arrepende.
Marcelo Coelho
Membro do Conselho Editorial da Folha, autor dos romances “Jantando com Melvin” e “Noturno”. É mestre em sociologia pela USP.
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REGINA DUARTE NA FRITURA

Talita Fernandes, Gustavo UribeFolha de S.Paulo
Bolsonaro apoia fritura de Regina Duarte e fala em dificuldades dela
BRASÍLIA Na última semana, com o aval de Jair Bolsonaro, aliados do presidente deram início a um processo de fritura de Regina Duarte, com o objetivo de fazer com que ela peça demissão do cargo de secretária especial da Cultura antes mesmo de ter completado dois meses na função.
Na noite desta terça, na portaria do Alvorada, Bolsonaro criticou o distanciamento de Regina, que está trabalhando de casa em São Paulo, e afirmou que a secretária tem dificuldade na condução da pasta.
“Infelizmente a Regina está trabalhando pela internet ali e eu quero que ela esteja mais próxima. Uma excelente pessoa, um bom quadro, é também uma secretaria que era ministério, muita gente de esquerda, pregando ideologia de gênero, essas coisas todas que a sociedade, a massa da população não admite e ela tem dificuldade nesse sentido”, disse o presidente.
Bolsonaro, porém, negou que esteja insatisfeito com o trabalho da secretária. “Quem falou que ela sai? Você acredita na imprensa? Eu não acredito”, disse, ao ser questionado sobre a situação. “Eu queria que ela estivesse em Brasília para conversar mais com ela. Só isso. Mais nada. Eu sou também apaixonado pela namoradinha do Brasil.”
Regina também tem sido vítima de fogo amigo de membros da secretaria que permaneceram da gestão passada e que, na avaliação deles, não têm sido prestigiados por ela até o momento.
Integrantes do governo e do setor cultural que apoiaram a escolha da atriz para o cargo disseram ainda, sob condição de anonimato, que a atuação de Regina vem sendo decepcionante.
A atriz tomou posse no dia 4 de março, depois de uma longa negociação com a TV Globo, que pôs fim a um contrato de mais de cinco décadas.
Ela havia aceitado a proposta para integrar a equipe de Bolsonaro no fim de janeiro, substituindo Roberto Alvim, demitido depois de fazer um vídeo em que parafraseava o discurso de um ministro da Alemanha nazista.
Bolsonaro já disse a aliados que espera que parta da própria Regina uma decisão de deixar o governo. Ele também deu carta branca para que seus apoiadores critiquem a secretária.
Mesmo com a pressão, e de pessoas próximas verem em suas publicações nas redes sociais um sinal de esgotamento, a atriz tem resistido.
Ela tem dito a aliados que fica no governo até quando o presidente quiser e tem afirmado que confia em Bolsonaro e que fará medidas no setor cultural.
Procurada, a assessoria de imprensa da Secretaria Especial da Cultura informou que “Regina Duarte segue trabalhando, reunindo-se com a equipe, representantes do setor cultural, determinada a fazer seu melhor pela cultura, sempre alinhada com o presidente Jair Bolsonaro”.
Desde que chegou ao cargo, Regina não fez anúncios contundentes para o setor cultural. Ela vem sendo cobrada pelo meio artístico pela liberação de recursos para o setor num momento de dificuldade.
Aos 74 anos, Regina integra o grupo de risco da Covid-19 e foi desaconselhada a manter a rotina de viagens para Brasília. Desde o fim de março ela está trabalhando de São Paulo.
No período, foram só duas medidas anunciadas pela pasta —a flexibilização de prazos para editais e alterações de políticas de reembolso de shows e eventos que foram suspensos por causa da crise.
Não houve liberação de recursos, como vem sendo demandado, por exemplo, com o descontingenciamento do Fundo Setorial do Audiovisual.
Incomodou a classe artística o fato de a atriz ter dito em reunião com ministros da Cultura na Unesco, na semana passada, que o governo incluiu a cultura entre os trabalhadores que terão direito ao auxílio emergencial de R$ 600.
Os profissionais da área ficaram de fora do benefício.
Um projeto de congressistas da oposição foi aprovado para incluir trabalhadores do meio artístico entre beneficiários, mas Bolsonaro avisou que não deve estender o programa a nenhuma categoria.
Segundo a secretária de Cultura do Pará, Úrsula Vidal, que preside o fórum de secretários e dirigentes estaduais de Cultura, as medidas anunciadas até aqui por Regina não suprem as necessidades do setor e não atingem todo o país.
Ela defende mais investimento e explica que em vários estados foram feitos editais que estão pendentes da liberação de recursos federais.
Na Secretaria de Cultura, Regina enfrenta dificuldades operacionais como falta de equipe e de autonomia.
Embora a pasta tenha sido transferida formalmente do Ministério da Cidadania para o do Turismo, parte da estrutura que presta assessoramento ainda não foi deslocada.
A secretária também vive uma queda de braço com o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo.
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POR QUÊ ? POR QUÊ ? POR QUÊ ?

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo
Não são mais apenas os próprios militares e a Polícia Federal que estranham a canetada do presidente Jair Bolsonaro derrubando três portarias do Exército sobre controle de armas de civis, como destacado na coluna “Fazendo água”, de sexta-feira. Agora, o MP quer explicações e a oposição inclui mais essa decisão do presidente nos pedidos de impeachment que se multiplicam. Bolsonaro vai empilhando, assim, a mesma pergunta: Por quê?
Por que a demissão do diretor-geral da PF agora, em meio ao caos na saúde, na economia, na política? Por que empurrar porta afora o ministro mais popular do governo? Por que bater de frente com o ministro da Saúde até demiti-lo na hora decisiva da pandemia? Por que confrontar a OMS, epidemiologistas e o mundo inteiro com as cenas patéticas e infantis contra o isolamento social? E por que, afinal, o presidente da República foi prestigiar manifestações pedindo golpe militar? Justamente diante do Quartel-General do Exército?
Assim como no pronunciamento de sexta-feira ele não respondeu objetivamente a nenhuma das acusações que o ex-juiz e agora também ex-ministro Sérgio Moro acabara de lhe fazer, Bolsonaro não responde, não explica e não dá o sentido de suas ações mais absurdas. Por isso, ele, seu governo e o País estão envoltos numa nuvem de incertezas.
É aí que entra a decisão voluntariosa e mal (ou não) explicada de suspender – aliás, pelo Twitter – as três portarias do Exército. Além de, cinco dias depois, também como registrado na coluna de sexta-feira, mais do que dobrar as munições de cada arma de civis por mês. Por que derrubar as portarias? E por que aumentar de 200 para 550 as munições?
Bolsonaro e o governo não respondem, mas militares do Exército, policiais federais e assessores do Ministério da Justiça não gostaram, juristas e especialistas em Defesa acharam estranho. E todos eles dizem exatamente, claramente, o “porquê”: porque, na opinião deles, quem saiu no lucro, lépidos e fagueiros, foram o crime organizado e as milícias. Mais armas sem controle de entrada, sem rastreamento, sem fiscalização e com muito, mais muito mais munição legalmente permitida… A quem interessa?
É claro que Bolsonaro nunca escondeu, e até fez disso discurso prioritário de campanha, seu amor e o amor dos filhos pelas armas e que muitos neste país praticam tiro desportivo ou são colecionadores. Mas – e aí vem novamente o por quê? – derrubar as três portarias do Exército foi só para agradá-los? E mais do que dobrar a munição mensal por arma também?
A procuradora Raquel Branquinho alega que o presidente “viola a Constituição” e faz uma referência particular à base da família Bolsonaro. “A cidade do Rio de Janeiro é a face mais visível dessa ausência de efetivo controle no ingresso de armamento no País”, diz ela em ofício ao qual o repórter Patrik Camporez teve acesso e que foi manchete do Estado na segunda-feira, 27.
Pois é… Rio, armas, controle, munição… Isso tudo vai se embolando com a demissão de Valeixo da PF, a queda de Moro e as acusações que o ministro fez ao sair, de que o presidente queria ter acesso direto ao diretor-geral, a superintendentes e a relatórios de inteligência da PF. E ele, o ministro, também citou especificamente o Rio, neste caso, o Estado do Rio.
Moro, Mandetta e Valeixo saem por uma porta do governo e o Centrão entra pela outra, trazendo, entre outros, Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto. Isolado no Supremo e na cúpula do Congresso, perdendo apoios no empresariado e nas finanças e enfrentando uma guerra inglória na internet com Moro, Bolsonaro corre o risco de se apoiar só em dois pilares: os militares e os líderes do Centrão, que não têm nada a ver. Quem diria? Aliás, por quê?
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PILARES DESMORONAM E BOLSONARO SE ENTREGA A ESTELIONATO ELEITORAL

Fernando Canzian, Folha de S.Paulo

Como era de se esperar desde que Jair Bolsonaro começou a abrir a boca e a agir em público após a campanha e a facada de 2018, sua administração à frente do Brasil está se esfacelando.
Os dois pilares de seu governo que atraíram a confiança de muitos empresários e eleitores indignados com as inconsistências econômicas e a corrupção nos governos Dilma Rouseff e Lula agora desmoronam, um atrás do outro.
O primeiro a cair foi parte o projeto liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes, que sequer participou na quarta (22) do lançamento do PAC de Bolsonaro.
Com o projeto, o presidente reedita algumas das ideias desenvolvimentistas de Dilma e retoma a participação do Estado em obras públicas que nunca terminam.
Segundo o Tribunal de Contas da União, o Brasil tem pelo menos 12 mil obras paradas, ou cerca de 30% de todos os empreendimentos espalhados pelo país. Pelo menos 2,8 mil delas são do Programa de Aceleração do Crescimento de Dilma Rousseff.
Desesperado e pressentindo o tamanho da recessão econômica que se aproxima, Bolsonaro se move para tentar gastar um dinheiro público que não tem e rasga a fantasia do liberalismo com que tentava esconder suas verdadeiras convicções.
Alijado e ausente, não surpreenderá se Paulo Guedes também se movimentar para abandonar de vez o barco de Bolsonaro, destruindo o fiapo de confiança que as classes empresariais ainda depositam nesse governo.
Já a eventual saída de Sergio Moro da Justiça vai escancarar o bloqueio que a família Bolsonaro opera contra investigações perigosas, como a da “rachadinha" do senador Flávio no Rio e sobre as suspeitas de "fake news" de Carlos e Eduardo.
Ela minará também muito da sustentação popular de Bolsonaro, sobretudo entre aqueles brasileiros mais barulhentos que gostam de se vestir em verde e amarelo para sair às ruas condenando o PT e os políticos tradicionais do Brasil.
Mas é exatamente à velha guarda notória em casos ruidosos de Arthur Lira (Progressistas-AL), Roberto Jefferson (PTB-RJ) e Waldemar da Costa Neto (PL-SP), entre outros, que Bolsonaro recorre agora em busca de sustentação —antes que os efeitos da recessão e das mortes pela Covid-19 caiam de uma vez sobre seu governo.
Para quem condenava tudo o que está aí e a velha política, nada mais ultrapassado do que correr amedrontado para o colo do fisiológico centrão a fim de tentar salvar a própria pele.
Bolsonaro agora não passa de um estelionato eleitoral.
Fernando Canzian
Jornalista, autor de "Desastre Global - Um Ano na Pior Crise desde 1929". Vencedor de quatro prêmios Esso.
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ESTRUTURAL E CONJUNTURAL

Bernard Appy, O Estado de S.Paulo
O necessário aumento da atuação do governo durante a crise do coronavírus tem dado margem a diversas propostas de aumento da receita pública, voltadas a financiar o déficit resultante da elevação das despesas e da queda da arrecadação.
Algumas dessas propostas – como a criação de um empréstimo compulsório sobre as grandes empresas – são completamente inconsistentes. De um lado, porque não é hora de reduzir a liquidez das empresas, já muito afetadas pela crise. De outro, porque o governo consegue se financiar voluntariamente no mercado, não havendo razão para um financiamento compulsório.
Outras propostas – em especial projetos que buscam tornar o Imposto de Renda mais progressivo – podem até ser bem-intencionadas, mas estão muito mal desenhadas. Se aprovadas, quase certamente resultariam em distorções econômicas, maior litígio entre os contribuintes e o Fisco, além de deixar abertas várias brechas para sonegação.
O Brasil tem problemas sérios em seu sistema tributário, inclusive no Imposto de Renda, que resultam em iniquidades distributivas e em ineficiências econômicas que prejudicam o crescimento. Mas a solução para esses problemas precisa ser muito bem construída. Tentar resolver um problema fiscal conjuntural com medidas elaboradas às pressas visando a resolver um problema específico – a baixa progressividade do Imposto de Renda – quase que certamente resultará num sistema tributário ainda pior que o atual.
O momento de discutir o financiamento do custo fiscal da crise não é agora. No curto prazo, o financiamento tem de ser feito por meio do aumento do endividamento público. Passada a fase aguda da crise, aí, sim, é preciso definir como esse custo será equacionado, ou, mais precisamente, o que será necessário fazer para que a trajetória da dívida pública não seja explosiva no longo prazo.
Mas essa discussão tem de ser feita de forma ampla, contemplando não apenas medidas de aumento da arrecadação, mas também medidas de contenção do aumento de despesas. É preciso, sobretudo, separar de forma clara mudanças de caráter estrutural de medidas conjunturais.
Assim como é preciso evitar que medidas conjunturais de aumento de despesas decorrentes da crise se tornem permanentes, é preciso tomar muito cuidado para que o financiamento do custo da crise não comprometa o modelo brasileiro de tributação – até porque a melhora estrutural do sistema tributário brasileiro pode contribuir de forma decisiva para o financiamento da dívida pública.
Mudanças estruturais na tributação que tornem a economia mais eficiente contribuem para o equacionamento da crise fiscal, na medida em que o maior crescimento gera mais arrecadação, mesmo mantendo a carga tributária constante como proporção do PIB.
Mudanças estruturais que tornem o sistema tributário mais progressivo são importantes, pois, além de tornarem a tributação socialmente mais justa, sinalizam que é a parcela mais abastada da população que incorrerá com a maior parte do ônus do financiamento da crise.
Medidas estruturais de contenção de despesas são essenciais para que o aumento da arrecadação resultante do maior crescimento não se converta em maiores gastos públicos. Se forem bem desenhadas, tais medidas também podem contribuir para melhorar a distribuição de renda, focando o ajuste nas despesas que beneficiam a parcela mais rica da população e preservando as despesas que beneficiam os mais pobres.
Todas essas medidas já estavam na agenda antes da crise sanitária. A crise apenas as torna mais urgentes e necessárias.
Dependendo do custo fiscal da crise, é possível que tais mudanças não sejam suficientes para garantir o seu financiamento num prazo adequado. Neste caso, pode ser necessário recorrer a medidas conjunturais de aumento da arrecadação. Mas tais medidas deveriam ser temporárias e claramente separadas das mudanças estruturais necessárias para tornar o sistema tributário brasileiro mais justo e eficiente.
*Bernard Appy, diretor do Centro de Cidadania Fiscal
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BOLSONARISMO-RAIZ ENGENDRADO NOS GABINETES DO ÓDIO NÃO TERÁ FUTURO NO BRASIL ?

Juan Arias, EL PAÍS

É difícil ser profeta nesses tempos conturbados, mas pelo que conheço de Brasil o bolsonarismo-raiz, o que se nutre nas cloacas do gabinete do ódio do clã familiar Bolsonaro, não terá futuro nesse país. Logo ficará reduzido a uma excentricidade política que ainda poderá fazer barulho, mas que não será um movimento de peso. Acabará sendo marginal quando aparecer uma proposta democrática alternativa capaz de tirar o país do pesadelo autoritário e grotesco no qual está chafurdando.
Em que me baseio? No fato de que o chamado bolsonarismo nasce do radicalismo da política vista como guerra, como confronto permanente, como morte mais do que vida.
É bom lembrar que o pai da psicanálise, Sigmund Freud, descobriu, inspirado na filosofia grega, que o mundo se move entre duas grandes pulsões: a do eros, que seria o amor pela vida, à procriação, à sexualidade, ao prazer e ao amor, e de tanatos, que lembra o deus da morte. É o impulso da destruição, da violência e do sadismo.
Segundo Freud, o mundo continua de pé porque o impulso da vida é superior ao da morte. Do contrário, já não existiria. Nós teríamos nos autodestruído.
Acontece o mesmo na política. Há momentos em que o impulso de morte e destruição, o totalitarismo, parece triunfar, mas por fim vencem os valores da vida e da liberdade como aconteceu na Europa após a tragédia da Segunda Guerra Mundial.
Há países que sempre foram mais inclinados a viver sob o tanatos destrutivo e outros preferem crescer sob a força da vida e da liberdade que são as chaves da felicidade.
E o Brasil? Esse é um país que, apesar de um passado de bárbara escravidão que deixou marcas na pobreza e no abandono milhões de pessoas largadas a sua própria sorte, não pertence aos propensos a fomentar fantasmas de morte. Se o Brasil tem pecados, em certos momentos de sua história, é mais por passividade e servilismo ao poder do que pela guerra.
É um país com vocação, em suas diferentes e ricas culturas, ao desfrute da vida. Um país que não é geneticamente guerreiro.
De modo que o bolsonarismo, tal como se apresenta hoje sob a bandeira da violência e da morte, da política vista como um ringue de bairro, não pode criar raízes profundas nesse país.
Eu me atreveria a dizer que o bolsonarismo extremo, o da gritaria, que às vezes pode assustar, não é mais do que uma dessas seitas fanáticas que nascem e morrem sem deixar rastro. Essa política se nutre somente de negatividade. Cria inimigos imaginários e por fim se mostra de uma infantilidade espantosa.
Essas seitas são destrutivas, procuram brigas e se alimentam de símbolos de morte. Basta ver o caixão que levam nas manifestações como símbolo de sua morte anunciada.
Querem sempre guerra e luta porque a paz os assusta. E quando não existem inimigos os criam. Destroem tudo o que evoca o gosto pela vida, a alegria e a liberdade. Por isso não suportaram e assassinaram a jovem negra e favelada, a ativista Marielle Franco.
Essas seitas religiosas e políticas precisam de um mito para suprir sua nulidade como manada. Sofrem de complexo de castração. Professam uma sexualidade doentia adornada com símbolos que beiram a pornografia.
Cultivam os símbolos da morte e da destruição porque viver lhes dá medo. Sua vocação é a satânica de dividir. Agem nos meandros da obscuridade que é o reino da mentira.
Quando não encontram inimigos os inventam. Precisam manter vivo o diapasão do ódio. Por isso nadam com maestria nas águas escuras das fake news.
Negam a compaixão. A bile e o amargor são os primeiros ingredientes de suas cozinhas.
Essas seitas da morte acabam por fim como canibais devorando uns aos outros. A maior curiosidade mórbida, os melhores orgasmos políticos do bolsonarismo-raiz, vêm da paixão pelas armas e por todo o ritual gestual e simbólico da guerra.
O Deus da seita é o dos trovões e dos medos, o vingador, o deus que se compraz com a destruição dos inimigos. Eles que se dizem seguidores da Bíblia nunca entenderão a emoção de Jesus de Nazaré ressuscitando seu amigo Lázaro e ao ver um leproso curado.
Ao final, toda essa agressividade e fome de guerra e conflitos do bolsonarismo-raiz revelam sua incapacidade à felicidade. Eles se afogam em seus próprios instintos de destruição.
Os diferentes sexualmente lhes dão pânico porque ameaçam sua falsa virilidade. A ternura lhes dá medo porque condena sua índole machista.
Eles se sentem melhor às portas de um cemitério do que diante do berço de um recém-nascido. Seus impulsos de morte sempre superam os de vida.
Esses seguidores de morte e luta se assustam diante dos mansos porque definitivamente os desarmados lhes dão medo. Mostram coragem somente diante dos frágeis porque os verdadeiros fortes, que são os que não temem a morte, desnudam sua falsa hombridade.
Não, uma seita com essa força destrutiva e niilista nunca será a vocação de um Brasil que, apesar de todos os seus defeitos, não renuncia à alegria de viver em paz. Só poderão impô-la com a força dos tanques de guerra.
Os dois populares ministros, o da Saúde, Mandetta, e o da Justiça, Moro, ambos recentemente expulsos do Governo, representam juntos, de acordo com as últimas pesquisas, 75% do consenso popular. O que evidencia que o gabinete do ódio está se esgotando. Quem lhes resta? O Brasil não está mais com eles.
Muito otimista? Talvez, mas o pessimismo já deixou nossas gargantas secas demais.
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AMIGOS DO PEITO

Editorial O Estado de S.Paulo

Quem quer que se sente na cadeira de diretor-geral da Polícia Federal (PF) e de ministro da Justiça, em substituição, respectivamente, a Maurício Valeixo e a Sérgio Moro, estará sob a suspeita de ter sido nomeado para fazer desses órgãos de Estado uma extensão do gabinete de Jair Bolsonaro – ou, pior
 ainda, um cômodo da casa do presidente da República.
Como Sérgio Moro informou, e o sr. Bolsonaro não desmentiu, o presidente da República exigiu que a Polícia Federal tivesse na direção “uma pessoa do contato pessoal dele, que ele pudesse ligar, que ele pudesse colher informações, que ele pudesse colher relatórios de inteligência, seja diretor, seja superintendente”.
É o que muito provavelmente vai ocorrer agora, independentemente dos escolhidos. Nem seria necessário nomear amigos íntimos da família Bolsonaro, como Jorge Oliveira, atual secretário-geral da Presidência e cotado para o Ministério da Justiça, ou o delegado Alexandre Ramagem, que chefia a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e que era dado como certo para a direção da PF. Como disse o próprio presidente, os novos titulares serão seus amigos – estes ou quaisquer outros.
Questionado criticamente por uma seguidora no Facebook acerca da informação segundo a qual a indicação de Ramagem teria sido feita pelo vereador Carlos Bolsonaro, um dos filhos do presidente, Bolsonaro reagiu: “E daí? Antes de conhecer meus filhos, eu conheci Ramagem (sic). Por isso deve ser vetado? Devo escolher alguém amigo de quem?”.
Como presidente da República, Bolsonaro não deveria escolher auxiliares por serem seus amigos, ou de seus filhos, mas porque são qualificados para desempenhar bem seu trabalho. É assim que funciona numa República, especialmente quando se trata do presidente. Neste caso, porém, a amizade é decisiva: Bolsonaro quer nesses cargos-chave pessoas da sua mais estrita confiança, beleguins que saibam que ali estão não por suas qualidades profissionais, mas pela lealdade incondicional ao chefe.
É gravíssimo. Não se trata apenas de ter controle sobre eventuais investigações acerca das atividades suspeitas de seus filhos, mas de exercer influência sobre eventuais investigações a respeito das atividades de adversários políticos do presidente. Numa democracia, uma Polícia Federal não pode ser controlada dessa forma pelo governo, pois se transformaria em polícia política.
O problema é que Bolsonaro parece inclinado a tratar questões pessoais e familiares como se fossem problemas de Estado. Vista em perspectiva, a escandalosa tentativa de nomeação do filho Eduardo Bolsonaro para a Embaixada nos EUA, por exemplo, não é nada perto da suspeita de que o presidente quer ter controle sobre o aparato policial federal, encarregado de investigar corrupção e crime organizado.
É em razão da gravidade do caso que algumas forças políticas e da sociedade civil já se mobilizam para pedir o impeachment do presidente. Razões talvez não faltem, e não é improvável que Bolsonaro acrescente ainda outras tantas a estas, pois vive de criar conflitos.
Mas o Brasil, não nos esqueçamos, vive os efeitos devastadores da pandemia de covid-19. É nesse problema, e em nenhum outro, que o País deve concentrar toda a sua energia neste momento. Enquanto Bolsonaro cuida de seus interesses pessoais, os brasileiros têm de lidar com a escalada de mortes e de desemprego causada pelo coronavírus.
Felizmente, há autoridades, como a maioria dos governadores de Estado, que estão conscientes de seu papel nesta hora crítica. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a quem cabe dar seguimento a pedidos de impeachment, demonstrou exemplar espírito público ao dizer que “todos esses processos (impeachment e Comissões Parlamentares de Inquérito) precisam ser pensados com muito cuidado”, que “devemos ter paciência e equilíbrio, e não açodamento” e, o mais importante, que o coronavírus “deve ser nossa prioridade”.
Oxalá o exemplo desses líderes políticos responsáveis frutifique. No momento, o único oportunista que deve ser combatido sem tréguas é o coronavírus.
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