sexta-feira, 3 de abril de 2020

VÍRUS PODEROSOS, LÍDERES OPACOS

Marcos Magalhães, Capital Político
Em 1963, tempo da Guerra no Vietnã, ele nos perguntou quantas mortes haveriam de ocorrer, até que o homem se desse conta de que muita gente tinha acabado de morrer. Em 2020, tempo de vírus poderosos e líderes opacos, Bob Dylan sopra no vento uma longa homenagem a John Kennedy e a uma época de experimentação e esperança.
“Ele foi morto como um cachorro à luz do dia”, canta Dylan ao abrir a canção. “Era uma questão de tempo, e o tempo estava correto. Você tem dívidas a pagar, e nós viemos cobrar. Vamos matar você com ódio e nenhum respeito”.
O assassinato de Kennedy, em novembro de 1963, marcou toda uma geração. Era como o fim precipitado de alguma coisa que nem bem havia começado. Um momento, descreve Dylan, em que o espírito de uma nação foi rasgado. Espírito que entrou em “longa decadência”.
Era o tempo da luta pelos direitos civis. Dos direitos dos negros, das mulheres. Da música como ímã para juntar gente interessada em mudar o mundo. Tudo isso está em Murder most foul, que o poeta incansável lançou inesperadamente nas redes sociais. Bem no momento em que o mundo procura achar forças para combater uma grande pandemia.
Kennedy ia além do America First. Ele foi uma espécie de símbolo de um tempo que estaria para nascer. Apesar do Vietnã, apesar da invasão da Baía dos Porcos. Mas tinha o charme de uma liderança cosmopolita. Alguém capaz de encantar o mundo.
Praça vazia
O mesmo mundo que hoje assiste, quase impotente, à expansão de uma doença capaz de levar centenas de milhares de vidas em poucos meses. Tempo em que sobram preocupações e faltam lideranças capazes, ao menos, de inspirar ondas de confiança no planeta sobressaltado.
A liderança chinesa acredita haver feito o dever de casa. Conseguiu conter a expansão do coronavírus por meio de uma dura política de isolamento social e testagem em massa da população. Pode ter conquistado apoio interno com a vitória, ainda que parcial. Mas não inspira, nem pretende inspirar, o resto do mundo.
A Itália, país que até hoje sofreu as maiores perdas depois da chegada do vírus, pecou pela falta de rápida resposta. Da Prefeitura de Milão ao governo nacional, ninguém acreditou que a doença chegaria aonde chegou. O exemplo, ali, vem de baixo. De uma população isolada que canta nas janelas e celebra os seus médicos e enfermeiros.
As ruas de Milão e Roma estão desertas. E foi dali, na deserta praça de São Pedro, no Vaticano, que surgiu a mais candente resposta, até o momento, aos temores da humanidade nesse momento de incerteza. Sozinho, diante daquele enorme espaço público vazio, o Papa Francisco dirigiu ao mundo a benção Urbi et Orbi.
Ele falou para 1,3 bilhão de católicos. Mas, de certa forma, parecia estar se dirigindo ao mundo inteiro. Lembrou que a humanidade se calou diante de guerras e injustiças. Criticou a opção preferencial pelo lucro. “Não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo”, disse Francisco.
Empatia
O grave tom do pronunciamento de Francisco contrastou com a linguagem quase negacionista de líderes nacionais na Europa e em outras partes do mundo. Uma linguagem politicamente calculada, mas que tinha pouco de empatia e de conforto.
A mais notável exceção parece ter sido a da chanceler Angela Merkel, da Alemanha. Em rara emissão em rede nacional de televisão, ela explicou à população de seu país como o governo alemão reage ao que ela chamou de maior desafio desde a Segunda Guerra Mundial.
Merkel ressaltou a necessidade de atuação conjunta de governo e cidadãos na luta contra a pandemia. Elogiou os profissionais de saúde e lembrou à população que era necessário deter a velocidade de expansão do vírus, para não sobrecarregar os hospitais. E aqui ela se apresentou aos alemães mais humana do que nunca se havia apresentado.
“A Alemanha tem um excelente sistema de saúde, talvez um dos melhores do mundo, mas nossos hospitais ficariam sobrecarregados se tantos pacientes com infecções severas causadas pelo coronavírus fossem admitidos em tempo tão curto”, observou Merkel.
“Eles não são apenas números abstratos em uma estatística, mas sim um pai ou um avô, uma mãe ou uma avó, um companheiro. São Pessoas. E nós somos uma comunidade em que cada vida e cada pessoa importa”, completou.
Mudança
O discurso de Merkel, uma líder geralmente descrita como fria e distante, espalhou-se rapidamente pelas redes sociais em todo o mundo. Como um exemplo de transparência, sobriedade e empatia. Como exemplo de alguém em quem se poderia confiar.
As últimas semanas têm mostrado que não adiantou muito a tentativa de apresentar a pandemia como algo distante ou como manipulação da mídia internacional. O vírus cruzou fronteiras e desafiou governantes que duvidavam do alcance da pandemia.
O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, que se alinhava na turma dos céticos, foi pessoalmente atingido pelo coronavírus. E seu governo adotou nova postura diante da pandemia. Johnson foi à televisão para dizer que os britânicos deveriam permanecer em casa e sair apenas para compras essenciais ou necessidades médicas.
A mudança chegou também à Casa Branca. No domingo (29), o presidente Donald Trump pediu aos americanos que fiquem em casa pelo menos até o fim de abril, para reduzir o ritmo de expansão da pandemia. Ele foi convencido por seus assessores de que até dois milhões de americanos poderiam morrer se mantivesse os planos iniciais de romper a política de isolamento social nos próximos dias.
“Nada seria pior do que declarar vitória antes de conseguir a vitória”, disse Trump, em raro momento de modéstia e conciliação.
As idas e vindas do presidente americano são típicas de uma época de inquietude e incerteza. A pandemia surpreendeu o mundo em um momento de pouca cooperação e muito confronto geopolítico. Um momento onde a importância demasiada ao nacional tem desviado para o caminho do provincianismo, onde florescem governantes de curta visão.
Poucos líderes de hoje se arriscariam, como fez Kennedy com seus erros e acertos há meio século, a apresentar ideias ao mundo. Dylan escolheu o tempo certo para lembrar o seu exemplo.
Marcos Magalhães é jornalista
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BEM-AVENTURADOS OS PUROS DE CORAÇÃO QUE ACREDITAM EM BOLSONARO

Do Blog do Noblat, VEJA
Por que acreditar que desta vez a ficha do presidente Jair Bolsonaro começou de fato a cair? E o que isso significa? Que ele mudará seu comportamento? Que a loucura dará lugar à sensatez? Que o líder desagregador será substituído como por encanto pelo líder capaz de unir o país pelo menos no momento da desgraça?
Está para se ver se será assim como desejam os que torcem por ele, mas também pelos que aspiram um momento de trégua à medida que a tormenta, o desespero e a dor das perdas se aproximam. Bem-aventurados os puros de coração porque deles será o reino dos céus. Bem-aventurados os que têm esperança.
A mais recente fala do trono de um homem que não nasceu para ser presidente como ele mesmo disse, que não ambicionou o cargo durante 28 anos como obscuro deputado federal que era, e que só foi à luta por ele para ajudar as carreiras dos filhos e se aposentar em seguida, vale ser examinada pelo que não conteve.
Temia-se que Bolsonaro aproveitasse a data para exaltar o golpe militar de 64 que aniversariava – ele preferiu deixar para fazê-lo em mensagem no Facebook. Nela, escreveu que não houve golpe, uma vez que o primeiro general ditador foi eleito pelo Congresso. Esqueceu-se de dizer que por um Congresso emasculado.
Bolsonaro não ordenou que os brasileiros voltassem às ruas se não quisessem morrer de fome. Não voltou a pôr a Economia acima da vida como vinha fazendo há mais de uma semana. Não insultou os governadores que divergem dele (quase todos) nem agrediu a mídia como costuma fazer. Baixou o tom. Menos mal.
Mas por birra, ou para não dar o braço a torcer, ou por ignorância não recomendou aos que o escutaram: Fiquem em casa. Fiquem em casa. Respeitem as regras do confinamento. Não circulem. Por favor, não ponham suas vidas em risco. O vírus não ameaça só os idosos. Morrem pessoas de todas as idades.
O que poderia ter acontecido se Bolsonaro dissesse o que o país desejava ouvir? O que teria lhe custado? Até outro dia, o presidente do México, o Bolsonaro de lá só que de esquerda, pedia para ser abraçado e beijado e estimulava sua gente a ir às compras. Arrependeu-se. Não foi apedrejado por isso. Trump, tampouco.
De que adianta Bolsonaro assumir o comando do gabinete da crise se não for capaz de rever suas posições? Só para não perder o protagonismo que o ministro da Saúde lhe subtraiu por sua exclusiva culpa? Só por que na verdade continua agindo orientado por seus filhos e refém dos seus devotos nas redes sociais?
A ser assim, a continuar assim, o flerte que ele ensaiou com os brasileiros distraídos em bater panelas dará em nada por ser um flerte de ocasião, por ser pura jogada de marketing, em suma, por ser tão confiável como é qualquer notícia distribuída por seus filhos e endossada por ele. Gabinete do ódio nada constrói.
Ontem foi o pior dos dias da luta até aqui contra o vírus, dado ao elevado número de mortos e de doentes. Lá vem vindo a onda depois que o mar secou. Alertada, a maioria dos banhistas procura locais altos e seguros. Mas uma parte deles segue na praia sem entender o recuo do mar. O pior é que haverá outras ondas.
Quanto ao chefe dos salva-vidas, esse a tudo observa, impávido colosso. Calcula estar a salvo. Sabe nadar. E no passado foi um formidável atleta de codinome Cavalão. Apesar disso, sua de medo de morrer na praia. O desemprego retomou seu crescimento. A economia entrará em recessão. E 2022 é logo ali.
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MAIS UM BOLETIM SOBRE OS GAROTOS FEITOS À SEMELHANÇA DO PAI

Do Blog do Noblat, VEJA
Carlos Bolsonaro, o Zero Dois, trocou o Rio, onde é vereador, por Brasília onde assumiu informalmente a Secretaria de Comunicação da presidência da República, sob o comando aparente do general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo.
Dá ordens, participa calado de reuniões ministeriais promovidas pelo pai, desenha nessas ocasiões, e o orienta Jair Bolsonaro a dizer isso ou aquilo outro, a avançar, a recuar e a convocar sucessivas redes de rádio e de televisão para falar à Nação.
Flávio Bolsonaro, o Zero Um, levou, ontem, uma reprimenda indireta do ministro Sérgio Moro, da Justiça e da Segurança Pública. Havia escrito nas redes sociais que recebera notícias de saques. Moro desmentiu-o. Não é verdade. Puro terrorismo.
Eduardo “Bananinha” Bolsonaro, o Zero Três, foi visto à saída do Palácio da Alvorada a filmar o pai e a conversar com a turma dos devotos do cercadinho que exaltam o presidente e perguntam o que ele quer justamente responder. Jogo combinado.
Ex-fritador de hambúrguer nos Estados Unidos, o embaixador do Brasil em Washington que não foi carrega no seu celular um adesivo da campanha à reeleição de Trump onde está escrito em inglês: Vote no vermelho.
Vermelho é a cor do Partido Republicano.
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DIVAGAÇÕES

Maria Ida Fontenelle, Blog do Noblat – VEJA  
Embora eu saiba que não estou autorizada a falar do psiquismo de quem quer que seja, a fazer nenhuma analise selvagem de uma pessoa que não conheço, posso, sim, me autorizar a divagar, a fantasiar diante de qualquer realidade.
Nessa linha, tenho tentado entender um pouco esse tão limitado presidente que o Brasil arrumou. Como esse homem tão precário intelectualmente, tão primário, tão inculto, pode dar conta de uma tarefa tão árdua e complexa como governar um país gigantesco em problemas, em diversidade, em território?
Não consigo não ver nele um old-adolescent, rebelde sem causa, criando paranoicamente suas lutas e inimigos. Nos adolescentes sempre podemos encontrar esses traços, atuações e inconsequências que até podem lhes ensinar coisas importantes na vida, mas principalmente eles, no fundo, sabem, que aprontam porque ainda têm os pais como retaguarda e que podem segurar com eles as consequências de suas bobagens. As besteiras não ficam tão serias porque, mesmo que neguem, ainda estão sob a responsabilidade dos pais. Embora os generais, o Guedes e outros fiquem lhe puxando as orelhas, o presidente não deixa de mostrar o que é, onde está. Como um adolescente, nunca se responsabiliza por seus atos, sempre foram os outros os culpados: -a imprensa, os perseguidores, a esquerda, os comunistas, o PT. Quando percebe que errou e tem que voltar atrás, faz torções inacreditáveis dos fatos, como se, numa época de tantas tecnologias, pudesse negar seus atos e falas. Inconsequentemente, também como um adolescente, ele é capaz de debochar de pessoas, do povo, e de muitos adultos que são o que ele não consegue ser, como faz agora com os especialistas da saúde. Desafia e banaliza a autoridade e o saber que deveria respeitar.
Nunca esperei realmente que ele pudesse ser diferente, mas também nunca imaginei um tal nível de despreparo, de desrespeito, de incapacidade.
Na falta de poder se inserir, verdadeiramente nos problemas e necessidades do país, ele se dedica a fazer intrigas e fofocas, a amar desmedidamente seus ídolos ( Trump, Ustra, etc) e a odiar amargamente quem dele discorda e não o reconhece no lugar (impossível) no qual ele exige ser reconhecido.
E a Tchurma? - Não mexam com meus filhos ( que , aliás, são mais extensões dele mesmo que outra coisa), não mexam com meus amigos, se são milicianos não importa. Não toquem neles! Com meus amigos fecho até a morte! Para eles sou ídolo! A eles os empregos mais valorizados!
Tem também aquele lado da pirraça das crianças e dos adolescentes: - “aH! Vcs estão criticando, a imprensa tá falando mal? Especialistas dando opiniões? Agora é que vou manter os ministros criticados, okei? Fica o Weintraub, fica o Ernesto também, Damares, o Salles nem se fala!”
Quem sabe poderíamos começar a criticar fortemente o Mandetta porque será nossa chance que ele fique para continuar seu trabalho. Mas, pelo visto, o capitão já percebeu que o pobre do Mandetta está dando muito ibope nesse país acéfalo.
Já repararam como a gente se ocupa dele o tempo todo? Todo dia esperamos uma bobagem nova, todo dia apronta uma, todo dia ele precisa se fazer presente e nunca é por uma ação legal, por uma reflexão, por decisões importantes para os brasileiros! Agora deve estar como pinto no lixo, com todos os jornais mundiais falando dele! Todos estupefatos com tamanha irresponsabilidade, tamanha boçalidade. Que maravilha! Quantos inimigos novos para combater ou pirraçar!
Na falta de outras condições de expressão (isso ele demonstrou sempre, desde a campanha, se recusando a participar de qualquer debate), se especializou em redes sociais, - que para ele são atos mais do que suficientes para um governante, onde escreve e se exibe para seus amigos e seguidores e manda recados desaforados para os dasafetos ou para os que não o compram pelo preço que ele acha que vale. Fala também diariamente no portão de casa para seus seguidores que ali se amontoam para paparicá-lo, mandando recados que cada vez mais tomam ares ridículos
É muito impressionante também como ele não tem o menor respeito pelos seus colaboradores. É capaz de expor, criticar ou ir contra um ministro escolhido por ele, muitas vezes pela imprensa, só pelo fato de achar q o colaborador pode ameaçar ter mais visibilidade que ele.
O presidente, no fundo, deve saber da sua total falta de condição para governar, saber que não consegue nem conseguirá responder às demandas desse país Macunaíma, com seus tão parcos recursos pessoais. Acho que o fato de ter escolhido tantos generais como auxiliares, pode mostrar, além da ideologia que abraça, que ele apostou muito numa autoridade incontestável (pelo menos para ele), que poderia endurecer se ele disso precisasse dentro da sua fraqueza e das suas impossibilidades. Lembram de seu desfile em carro aberto no dia da posse? Porque ele precisou trazer um pit-bull armado atrás dele, um doublé de si mesmo, para saudar o povo que o elegeu?
O apelo às armas é outro ponto para pensarmos: não tem conversa, vamos armar o povo! É o argumento que ele acha que conhece, no qual se locomove com mais facilidade. Quem nele votou sabia que nos quase trinta anos que passou no Congresso só se preocupou com a bancada da bala e com o salário dos militares! Como pôde um deputado, em tantos anos de mandato, eleito por um estado com tantos problemas, só ter criado caso, agredido pessoas e entretido um fazer nulo? Poderia ele sair dessa condição como presidente?
Entre outros motivos, claro, penso que sua homofobia, seu racismo, sua misoginia tem a ver também com essa tão pouca possibilidade de entender a diferença, de reflexão, de compreensão do desconhecido. É melho para ele se fechar nos seus pobres conhecimentos e convicções e tomar a posição acusatória com quem é diferente, para não correr o risco que essa diferença se aproxime dele. Melhor atacar o que não se quer conhecer para que isso fique longe, que não ameace! Fantasias homossexuais? Deus me livre! Isso é coisa de viado!
Seria bom que o país o esquecesse, conseguisse deixa-lo de lado, não publicasse suas bobagens! Quem sabe ele se cansasse da brincadeira e fosse embora? Assim como está, está ótimo para ele..., já está pensando em 22! Quer continuar com seu circo e as brincadeiras. Quer continuar no picadeiro. Para mim, um circo de horrores!
Maria ida Fontenelle é psicanalista
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ATAQUE À IMPRENSA

Ricardo Della Coletta, Folha de S.Paulo
Não cheguei à Presidência para perder para esses urubus, diz Bolsonaro em novo ataque à imprensa
Em mais um ataque à imprensa, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou nesta sexta-feira (3) que não chegou à presidência da República "para perder para esses urubus aí".
Bolsonaro deu a declaração ao responder a uma apoiadora, que disse a ele que "Deus é o senhor do tempo" e que o melhor da vida do presidente ainda está por vir. "Eu não cheguei aqui... pelo milagre da facada, e a eleição também, para perder para esse urubus aí", respondeu o presidente, ao gesticular em direção ao grupo de repórteres que diariamente acompanha a sua entrada e saída do Palácio da Alvorada.
Ao descer do comboio presidencial, Bolsonaro pediu que seus simpatizantes se juntassem mais próximos da portaria do Alvorada, para que ficassem longe dos jornalistas —que aguardam em local separado.
"Vamos vencer essa guerra, pessoal", também disse o presidente na ocasião. A um apoiador que afirmou "só estamos esperando a tua voz", Bolsonaro respondeu: "Vai chegar a hora certa aí".
Ele não se dirigiu em nenhum momento aos jornalistas. Aos apoiadores teceu novas crítica às ações de isolamento social tomadas por governadores. Ele disse que a sociedade brasileira "não aguenta ficar dois, três meses parada". "Vai quebrar tudo", declarou o presidente.
"Vocês sabem do meu posicionamento: não pode fechar dessa maneira, e atrás disso vem desemprego em massa, miséria, fome, vem violência", disse Bolsonaro, ao ser interpelado por um simpatizante que se queixou de medidas do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), que determinou o fechamento de comércios e a suspensão de aulas.
"Esse vírus é igual a uma chuva. Vai molhar 70% de vocês. Isso ninguém contesta. Toda a nação vai ficar livre da pandemia depois que 70% for infectado e conseguir os anticorpos. Desses 70%, uma pequena parte, os idosos e quem têm problema de saúde, vai ter problema sério e vai passar por isso também."
"O que estão fazendo [com o isolamento social] é adiar [a transmissão do Covid-19] para ter espaço nos hospitais. Mas tem um detalhe: a sociedade não aguenta ficar dois, três meses parada. Vai quebrar tudo."
Em outra referência a governadores e prefeitos que determinaram políticas de restrição de movimento nas ruas, ele acusou ainda "algumas autoridades" de praticar "demagogia". "A opinião pública aos poucos está vindo para o nosso lado. Os políticos têm que ouvir o povo. Sabemos que vai ter morte, não negamos isso. Morre de gripe comum, morre de H1N1", concluiu.
Bolsonaro tem sido criticado por governadores e especialistas em saúde pública por suas declarações em que minimiza o impacto do novo coronavírus e faz apelos pela volta da normalidade. O argumento de sanitaristas e infectologistas é que o isolamento social é efetivo para a redução da velocidade de proliferação da Covid-19.
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UM PRESIDENTE CERCADO

Merval Pereira, O GLOBO
Vivemos situação impar na história recente, a de um presidente que para sobreviver precisa desmontar o próprio governo. Para seu desespero, Bolsonaro hoje tem pelo menos três ministros indemissíveis. Aos superministros da Economia, Paulo Guedes, e da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro, juntou-se nessa crise do Covid-19 o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta.
Guedes, porque representa a garantia de um caminho seguro na Economia, por mais que possam haver discordâncias pontuais sobre sua atuação. Nossa economia não resistiria à demissão do Posto Ipiranga, cuja presença na equipe do candidato Bolsonaro certamente foi fundamental para o apoio de uma classe de eleitores que normalmente não escolheria o capitão sem saber que estaria no comando da economia.
Se não tivesse anunciado com antecedência a presença de Paulo Guedes em sua equipe, o candidato do PSDB Geraldo Alckmin, com Arminio Fraga a apoiá-lo, teria mais chances.
O ministro da Justiça Sérgio Moro tem outra razão para ser indemissível: desde que foi escolhido, com Bolsonaro já eleito, transformou-se na garantia de que o novo governo combateria a corrupção na linha da Operação Lava Jato. De lá para cá, mesmo tendo recuado em alguns momentos do confronto com uma linha mais radical de Bolsonaro, e de ter sido exposto a uma campanha de descrédito claramente política, Moro conseguiu manter-se símbolo do combate à corrupção, mais popular do que Bolsonaro, o que incomoda sobremaneira um presidente inseguro.
Para cúmulo do azar de um presidente paranóico, em plena crise do novo coronavírus surge como guardião da saúde pública o ministro da Saúde Luis Henrique Mandetta, em contraposição involuntária ao próprio presidente, que tomou para si o papel de inimigo da ciência, relativizando a maior crise que o mundo já enfrentou em décadas recentes.
Em momento tão grave, o presidente Bolsonaro tem dado mostras de desequilíbrio emocional perigoso, que emperra a ação de seu próprio governo. Ao postar ontem o vídeo de uma senhora pedindo o exército nas ruas para reabrir o comércio e os negócios, Bolsonaro mostra que quer forçar uma confrontação com setores da sociedade civil e de próprio governo que são hoje majoritariamente favoráveis ao isolamento horizontal.
O Supremo Tribunal Federal (STF) já proibiu o governo de fazer propaganda que fuja à orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do seu ministério de Saúde, mas o presidente não se emenda. Vai contra o próprio ministro da Saúde, fazendo reuniões paralelas sem convidar Mandetta.
Para mediar essa relação conflituosa, o ministro do Gabinete Civil, General Braga Neto, assumiu a coordenação do ministério durante a crise, cabendo a ele o papel de interventor informal do governo. Garante que não haja contestações formais ao presidente, mas assegura que a orientação oficial seja dada por Mandetta, dentro de critérios técnicos, e não políticos.
Bolsonaro atua de maneira paralela, criando seus próprios factoides e ameaçando com decretos que não se concretizam porque seriam o fim do equilíbrio institucional. No espaço cada vez mais reduzido em que atua, porém, ele faz estragos.
É o caso da ordem que deu para que todos os servidores do Palácio do Planalto que estão em regime de trabalho domiciliar voltassem a seus postos, o que provocou a renúncia de um chefe de setor burocrático que se recusou a colocar seus subordinados em perigo.
Em entrevista ao programa Os Pingos nos Is, da Jovem Pan, Jair Bolsonaro voltou a criticar o isolamento horizontal, que Mandetta reafirmou precisar ser intensificado pela falta de material hospitalar, e defendeu uma “forma diferente” de isolamento.
Bolsonaro, que anteriormente já havia ameaçado com um decreto reabrindo todo o comércio e foi obrigado a recuar, ontem disse que tem um projeto de decreto “pronto na minha frente, para ser assinado se preciso for, considerando atividade essencial toda aquela exercida pelo homem ou pela mulher, através da qual seja indispensável para levar o pão para casa.”
Segundo ele, “entre morrer de vírus e de fome, depressão e suicídio, eu, como chefe de Estado, tenho que decidir. (…) vou assinar”. Se esse momento chegar, estaremos diante de uma crise institucional e humanitária sem precedentes, com o presidente da República usando seus poderes contra a saúde pública.
Esclarecimento
O ex-prefeito Eduardo Paes diz, com números, que a realização das Olimpíadas de 2016 no Rio não atrapalhou a Saúde na cidade do Rio de Janeiro.
Está registrado.
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A HUMILHAÇÃO DE MANDETTA

Bernardo Mello Franco, O GLOBO
É cada vez mais ingrata a situação de Luiz Henrique Mandetta no governo. Responsável pelo combate ao coronavírus, o ministro da Saúde já vinha sendo desautorizado pelo chefe. Ontem sua fritura alcançou um grau inédito, com direito a ameaça de demissão pelo rádio.
Em entrevista à Jovem Pan, Jair Bolsonaro voltou a atacar as medidas de isolamento defendidas pelo auxiliar. Ele disse ainda que o Ministério da Saúde teria sido tomado por um “clima de pânico” com a pandemia.
Questionado sobre o futuro do ministro, o presidente afirmou que não pretende demiti-lo “no meio da guerra”. Em seguida, ressaltou que “todo mundo pode ser demitido”. Mais Bolsonaro, impossível.
Foram três minutos de artilharia ininterrupta. “O Mandetta já sabe que a gente tá se bicando há muito tempo”, disse o capitão. “Ele é uma pessoa que em algum momento extrapolou”, prosseguiu. “Tá faltando um pouco mais de humildade para ele”, arrematou.
Foi o ataque mais explícito ao ministro, mas talvez não tenha sido o mais humilhante. Na quarta-feira, Bolsonaro montou uma armadilha para desmoralizar Mandetta diante da própria classe. Promoveu uma reunião de médicos no Planalto e não convidou o auxiliar.
O tema do encontro foi a hidroxicloroquina, que o presidente trata como panaceia contra um vírus que não tem vacina nem tratamento. O medicamento ainda está em fase de testes, sem eficácia comprovada. Além de desaconselhar seu uso sem prescrição, Mandetta já informou que ele provoca arritmia e pode causar parada cardíaca.
Em conversas reservadas, o ministro tem reclamado do clima de sabotagem. Um dirigente do DEM conta que ele está “louco para ir embora”, mas não quer pedir demissão. Prefere que o chefe assuma o desgaste de demiti-lo. “Virou um jogo de gato e rato”, resume o aliado.
À Jovem Pan, Bolsonaro disse que Mandetta precisa “ouvir um pouco mais o presidente”. Na prática, isso significaria trocar a ciência e a medicina por receitas que o capitão colhe na porta do Alvorada e em grupos de zap. Ao fim da entrevista de ontem, ele disse aos brasileiros que “papai do céu está conosco” e pediu um dia de jejum e orações “para a gente ficar livre desse mal”.

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A GUERRA CONTINUA

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo
Está redondamente enganado quem acha que, depois de todas as evidências, do novo pronunciamento e do telefonema para Donald Trump, o presidente Jair Bolsonaro enfim se rendeu à importância vital do isolamento social. Não, ele recuou só na forma e na TV, mas continua firmemente a favor de liberar o comércio e o trabalho das pessoas. E não tem apenas apoio do filho Carlos e do “gabinete do ódio” do Planalto, mas de influentes generais à sua volta.
Estudo da PUC-RJ e da Fiocruz jogou lenha na fogueira e reforçou no Planalto a implicância contra o isolamento, ao apontar uma evolução mais controlada do coronavírus no Brasil diante de EUA, China, Itália e Espanha. O estudo tem parâmetros científicos, óbvio, mas com base nos casos e mortes confirmados, quando as autoridades de saúde alertam que, entre os números oficiais e a realidade, há um fosso gigantesco.
Os relatos de parentes de vítimas abaixo dos 60 anos são contundentes: elas vão aos hospitais, radiografias e tomografias que não confirmam nada, tomam um remedinho para febre e voltam para casa. Sem o teste! Quando enfim são internadas, é tarde demais, os pulmões já estão parando, elas são entubadas e morrem em horas. Antes do resultado dos exames.
Sem contar as sabe-se lá quantas pessoas que tossem, têm febre e dor de cabeça, mas não conseguem fazer o teste nem mesmo em hospitais particulares, quanto mais nos sobrecarregados hospitais públicos. Logo, os números de infectados e mortos são muitíssimo maiores do que os oficiais.
Porém, a simples divulgação da “evolução controlada” do vírus alvoroçou gabinetes do Planalto, deixando evidente que o “recuo” do presidente entre o desastroso primeiro pronunciamento e o segundo, uma semana depois, foi só de boca para fora. Bolsonaro continua remoendo dia e noite a intenção de limitar o isolamento aos acima de 60 anos e/ou com doenças preexistentes. Logo, a guerra continua. Não apenas contra o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, mas contra o mundo todo e… boa parte dos próprios ministros. Dessa vez, nem a reviravolta de Trump dá jeito.
Ao elogiar o Ministério da Saúde e a imprensa até aqui, o ministro Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, pede “mais razão e menos emoção a partir de agora”. Considera que há exageros e cita a prisão de um rapaz que estava sozinho numa praia do Rio e a redução significativa dos ônibus em circulação em alguns Estados, o que, segundo ele, foi um tiro no pé: gerou mais aglomerações em pontos, ônibus e metrôs.
E, na quarta, Bolsonaro divulgava o vídeo de uma apoiadora implorando aos berros, na saída do Alvorada, para ele acabar com o isolamento, reabrir o comércio e “deixar as pessoas trabalharem”. Ignorando até mesmo uma distância mínima entre pessoas, ela distribuiu insultos à imprensa e desdenhou dos R$ 600 da emergência (ou R$ 1.200, caso seja chefe de família): “Não quero nada do governo!”.
Ou seja: ela só quer que as pessoas corram o risco anunciado de morrer, matar ou ambos, mas teve apoio do presidente: “Você fala por milhões”, reagiu Bolsonaro, que mais tarde engatilhou novamente a metralhadora verbal contra governadores, que têm “medinho” de ir às ruas.
E assim, “la nave va”, com o governo jorrando medidas, todo mundo perguntando pela “operacionalização” e os ministros divididos, com os mais sensatos defendendo Mandetta e os protocolos internacionais de saúde, enquanto Bolsonaro aposta em duas coisas: Deus é brasileiro, logo a pandemia vai ser mais camarada aqui, e a cloroquina vai valer já, já contra o coronavírus e salvar a lavoura. Tomara que seja assim, mas o que a realidade está apontando é bem diferente: o tsunami só está começando e o remédio ainda vai demorar.
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QUEM SEGURA A EXPLOSÃO DAS FAVELAS

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico
Quando Júlio Ludemir começou a tossir, percebeu que, na verdade, se tornara parte de uma sinfonia. Assim como em outras favelas do país, na Babilônia, zona sul carioca, não é preciso encontrar o vizinho para descobrir que ele tosse. Produtor cultural de iniciativas como a Festa Literária das Periferias, Ludemir mora na Babilônia há sete anos. Já viu a favela mudar de cara muitas vezes.
Cenário de “Orfeu Negro” (1958) a “Tropa de Elite” (2008), a Babilônia já foi do PT de Benedita da Silva, do Comando Vermelho, da UPP, do Terceiro Comando, de Marcelo Crivella, dos turistas estrangeiros que se hospedam em seus “hostels”, da chuva que arrasou seus barracos, da falta d’água que perdura em tempos de pandemia e, finalmente, de Jair Bolsonaro, que arrebanhou a franca maioria de seus eleitores em 2018 e hoje é poupado pelas panelas de seus moradores. Ludemir só não viu ainda a favela se transformar pelo coronavírus.
Os mototáxis continuam pra cima e pra baixo deixando o comandante da Unidade de Polícia Pacificadora numa saia justa. A restrição privaria a comunidade de importante fonte de renda e de comunicação. Por outro lado, seu tráfego, sem capacete para o passageiro, incorreria em infração de trânsito. Por ora, permanecem em operação, com álcool gel no assento e no lado de fora do capacete, como fonte de contágio.
Assim como o mototaxista, o barraqueiro de praia, a manicure e o flanelinha de carro para alugar não têm outra fonte de renda que não seja aquela trazida por sua exposição diária na rua. Por isso, continuam a sair do barraco, ainda que a vida no asfalto, de onde muitos tiram seu sustento, esteja parada.
Julio Ludemir é o primeiro a assumir a irresponsabilidade de não ter feito o confinamento. Além da idade (60 anos), a doença já se espraiava na cidade. No primeiro dia dos sintomas, precisou usar o banheiro de uma birosca e, sem perceber que faltava água, acabou por quebrar a torneira. A dificuldade de manter a higiene necessária à prevenção não impede que as pessoas continuem nos bares, as crianças, nos becos, e muitos, no culto pentecostal à noite.
Ludemir já vê vizinhos se queixarem de pastores que, sem interromper os cultos, fazem deles vítimas de discriminação por parte de outros moradores. O chefe da Igreja Universal, Edir Macedo, chegou a gravar um vídeo em que diz que o debate sobre a doença “é mais uma tática de satanás, que trabalha com o medo, o pavor e a dúvida.”
O produtor cultural diz, no entanto, que a vida na favela só vai mudar quando as avós começarem a ser contaminadas. Se a mulher que trabalha por conta própria é o arrimo de famílias à margem do tráfico e do crime, é a avó que, encarregada dos netos e da gestão familiar, se transforma no pilar da vida nas comunidades. A sobrevivência delas vai moldar, em grande parte, a reação das favelas ao avanço da covid-19.
É a avó do andar de baixo a maior preocupação de Bárbara Nascimento, professora de escola pública de 42 anos. Moradora do Vidigal, favela que se espraia entre o Leblon e a Barra da Tijuca, na zona sul do Rio, Bárbara foi uma das primeiras moradoras a se envolver com a campanha de conscientização pela quarentena. A sua se transformou em casa de ferreiro com espeto de pau.
A despeito da militância de Bárbara, o marido, Marcelo, que trabalha como autônomo no conserto de eletrodomésticos, não parou. Continuou a trabalhar até o sábado, 14 de março, quando o Brasil já tinha centenas de casos mas nenhuma morte confirmada. Na segunda, começou a tossir.
Respondeu a questionários virtuais e constatou que estava com a doença. Apesar de hipertenso, Marcelo, aos 45 anos, preferiu não procurar um serviço de saúde. Como os dois cômodos da casa ficam em andares separados, Bárbara ficou no de cima, que tem acesso à laje onde o filho do casal, de oito anos, pode brincar, e Marcelo, no de baixo. Alternam-se para usar a cozinha.
No primeiro pavimento moram três mulheres. A avó que cuida da neta para a filha, que vive de bico, poder trabalhar. Tem cesta básica entregue pela associação dos moradores, mas está exposta porque a filha continua na rua. Na laje ao lado, várias famílias ainda se reúnem para fazer churrasco.
Se a Babilônia voltou às ordens da UPP, o Vidigal continua sob o Comando Vermelho. E lá, a boca de fumo não parou nem decretou toque de recolher. Blogs como o “Portal Favelas” convocam para a quarentena. É uma das tantas iniciativas comunitárias que receberam rasgado elogio do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Para quem não tem acesso à internet, porém, a única fonte de alerta é o carro de som do supermercado da região, que passa apenas nas vias principais e uma sirene da associação de moradores. Nem um nem o outro são ouvidos por quem mora na parte mais elevada do morro.
Lideranças da favela têm encomendado faixas e pedido para o carro rodar mais vezes, mas é tudo pago e o cobertor, curto. A solidariedade, cimento de coesão social na favela, tem limites.
“Ninguém tá fazendo nada por amor”, queixa-se Bárbara. Nos fóruns de que participa, a professora recomenda que as pessoas deixem de pagar contas de água, luz, telefone ou dívidas. E guardem o dinheiro para comer e comprar remédio. A começar por sua mãe, que mora em Guaratiba, na zona oeste, aos 67 anos, hipertensa e diabética, gasta metade de sua renda em remédios.
A dificuldade de amplificar a recomendação de quarentena na comunidade se reflete em crianças – e suas avós – que permanecem nas vielas e becos, cuja largura não ultrapassa dois metros, e homens que lotam os bares. Dos motoristas de ônibus, auxiliares de enfermagem, trabalhadores das companhias de eletricidade, água e limpeza que lá moram, Bárbara ouve que se eles saem de casa para trabalhar, podem também fazê-lo para se divertir.
Mesmo no Vidigal, favela que, ao contrário da Babilônia, não votou em Bolsonaro, a pregação do presidente pelo fim da quarentena ecoa. Lá, o panelaço, mais forte do que em muitos bairros de classe média, convive com entregadores como aquele que leva remédio para o marido de Bárbara. Seu comentário – “Todo mundo um dia vai morrer mesmo, então é melhor trabalhar” – foi um copia e cola da fala de Bolsonaro no domingo, 29, em que, pela enésima vez, passeou pela rua contrariando as autoridades sanitárias.
Em Sapopemba, bairro do extremo Leste de São Paulo, zona mais populosa da cidade, o discurso bolsonarista também ecoou. Nas favelas da região, monopolizadas pelo PCC, houve toque de recolher e suspensão dos bailes funk nos dois primeiros fins de semana da quarentena, mas a pressão presidencial contra a quarentena já surtiu efeito para levar mais movimento para a rua e incutir conflito na comunidade.
Em Carapicuíba, cidade-dormitório no oeste da Região Metropolitana de São Paulo, os conjuntos habitacionais construídos pelo programa Minha Casa Minha Vida estão sendo geridos com toque de recolher e regras como a de que apenas um integrante por família sai de casa para abastecê-la no supermercado. A maior parte dos conjuntos habitacionais para a população de baixa renda da cidade é gerida por empresas dominadas por ex-policiais militares.
Psicóloga de 48 anos, nascida e criada em Sapopemba, onde trabalha num centro de reabilitação do hospital do bairro, um dos maiores da capital, Cláudia Diroli prevê um atendimento congestionado em seu serviço na volta ao trabalho, a começar pelos próprios profissionais de saúde que estão na frente de batalha. Diz que a associação entre privação e medo vai afetar a saúde mental das pessoas e provocar toda sorte de transtornos pós-traumáticos.
À frente de uma campanha de mobilização para doações a entidades de moradores de rua e associações de moradores de Heliópolis, favela da zona sul de São Paulo, a socióloga Luna Zarattini arregimentou 450 voluntários e R$ 80 mil, além de doações de alimentos e produtos de limpeza, na primeira semana de atuação. Viu, no entanto, a demanda crescer muito mais que a oferta.
Apesar disso, ainda não se registra, a não ser na ação dos robôs bolsonaristas, um risco iminente de saques desenfreados nas comunidades mais pobres do país. À frente de uma equipe que analisa a origem e a propagação de mensagens em redes sociais, Manoel Fernandes foi despertado pela postagem de saques em duas cidades, Curupira, município de 24 mil habitantes, no interior de Pernambuco, e São Vicente, no litoral paulista. A notícia vinha acompanhada de fotos e vídeos de saques ocorridos num supermercado na Guatemala.
Não estivesse o país em meio a uma pandemia sob o comando de Jair Bolsonaro, a notícia teria se perdido. Não foi o que aconteceu. Em um único dia, a equipe de Fernandes identificou 6.667 tuítes sobre saques. A propagação desta notícia falsa foi associada ao caos a ser provocado pela quarentena da covid-19, com desabastecimento e violência.
As Forças Armadas chegaram a ser colocadas de prontidão para a eventualidade de caos generalizado no país provocado pelo crime organizado. O sinal de alerta foi dado pela rebelião, com fuga, em cinco presídios paulistas antes de o confinamento se espraiar pelo país. A associação entre o PCC e as fugas acabou não se comprovando. Tampouco a associação entre crime organizado e saques nas comunidades carentes. É na saúde das avós que o termômetro social hoje parece estar sintonizado. No início da semana, a Rocinha, na zona sul do Rio, registrou a primeira morte de um morador de favela. Maria Luiza do Nascimento, de 70 anos, morava com filha e neta na parte alta da comunidade.
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A SIMULAÇÃO PRESIDENCIAL

César Felício, Valor Econômico
Os trabalhadores autônomos e informais que anseiam pela ajuda de R$ 600 precisam respirar fundo. O histórico de inépcia do governo Bolsonaro em relação a temas sociais é perturbador.
Parece que faz muito tempo, mas foi há poucas semanas, em janeiro, que se constatou que os brasileiros que cumpriam as exigências da nova reforma da Previdência para se aposentar não conseguiam fazê-lo, porque o INSS não havia se preparado para alterar seus parâmetros na concessão dos benefícios. O gargalo era a falta de mão de obra, porque a autarquia não repôs o quadro de funcionários que tinha se aposentado nos últimos anos. O principal sistema de seguridade social travou.
No ano anterior, o Ministério da Cidadania anunciou a concessão do décimo-terceiro salário para os beneficiários do Bolsa Família, mas não havia uma previsão clara de receita para garantir este pagamento. A solução encontrada foi o enxugamento de mais de 1 milhão dos beneficiários, alvos de uma operação pente-fino.
Durante um ano inteiro, o governo federal tergiversou sobre como atender a faixa um do programa Minha Casa Minha Vida. Pensou em voucher, pensou em restringir o benefício, pensou muito. Nada foi posto de pé.
Na balbúrdia do coronavírus, o presidente da Câmara cobra medidas urgentes do governo para preservar a economia e o governo se exime: para Bolsonaro e tecnocratas como o presidente do Banco do Brasil, a solução é soltar as amarras do isolamento, bater de frente contra orientações sanitárias mundiais e cada um que vá cuidar de seu sustento, porque a hora é de trabalhar. Nas curiosas palavras do presidente do Banco do Brasil, o isolamento social não é um tema para ser decidido no âmbito da medicina.
O livre-pensar das autoridades do governo não implanta um isolamento vertical que é desaconselhado por especialistas e que ninguém sabe como poderia funcionar. Serve apenas como areia nos olhos para distrair o público da inação.
O governo Bolsonaro será aquele lembrado por sugerir a privatização da Eletrobras como uma das medidas emergenciais para se combater uma pandemia mundial. Ou pela iniciativa de tentar restringir a Lei de Acesso à Informação. Ou ainda por ser a administração em que o presidente e sua família passam o dia divulgando notícias de procedência duvidosa e batendo boca com adversários políticos. Também pode ser recordado pelo filho deputado que criou uma querela inútil com a China no meio do pânico.
É vasta a sequência de pseudofatos, de crises artificiais, de cavaleiros riscando os cavalos, tinindo as esporas, saindo dos pagos em louca galopada para nada, como dizia o poeta Ascenso Ferreira. Bolsonaro ganha uma aparência de proatividade, quando na realidade é apenas reativo. Traveste-se de vítima do sistema, para justificar a própria inação.
Por último, parte o presidente em entrevista para a Rádio Jovem Pan para a inacreditável tarefa de fritar o seu ministro da Saúde no olho do furacão. Ameaça ordenar a abertura do comércio agora, sendo que o pico da epidemia está sendo projetado para o fim do mês. É de se apostar que o Congresso ou Judiciário irá impedir o tresloucado gesto.
Lições do passado
Observar o passado ajuda a projetar algumas linhas para o futuro. A história da saúde pública no Brasil é uma história de combate a epidemias e pandemias. A cada devastação produzida por um patógeno, houve uma elevação da saúde pública para outro patamar e a subordinação de políticas de Estado a objetivos sanitários.
A trajetória começou com a proclamação da República. Avanços na ciência fizeram com que a medicina se voltasse para a epidemiologia. Não por acaso o serviço sanitário paulista foi criado em 1892, o Instituto Soroterápico de Manguinhos em 1899 e o Instituto Pasteur chegou em 1903.
O cenário estava montado para que o governo implantasse uma política higienista de erradicação de cortiços, aterramento de pântanos, remoções de populações inteiras e vacinação compulsória.
Direitos e garantias individuais que contrariavam a saúde pública não foram levados em conta pelos governos que deram amparo a cientistas como Oswaldo Cruz, Emílio Ribas, Adolfo Lutz, Vital Brasil e Carlos Chagas, que estavam na linha de frente do combate às doenças infecciosas. A revolta da vacina de 1904 é um emblema de uma política de estado que, em nome do interesse da coletividade, se sobrepôs de modo violento à individualidade.
Rompeu-se com a inviolabilidade dos lares e com a garantia do livre arbítrio sobre a própria saúde, em um país em que a emancipação de escravos ainda era uma adolescente de 16 anos. A resistência popular ao higienismo foi combatida com fogo de artilharia de navios de guerra ancorados no Rio.
O saldo imediato, como ficou evidenciado nos anos seguintes, foi a queda drástica nos grandes centros urbanos dos casos de febre amarela, peste bubônica, varíola, malária, cólera e outros flagelos. No caso da varíola, foram 3.566 mortes de cariocas em 1904. Em 1910, apenas uma.
A ação brutal do governo de então, contudo, não debelou a gripe, que continuou matando cerca de 500 pessoas por ano na capital federal, em média. Rodrigues Alves, o presidente higienista da Revolta da Vacina em 1904 terminaria por ser vítima do H1N1, vírus da pandemia de influenza eternizada como gripe espanhola.
A moléstia chegou ao Brasil em 16 de setembro de 1918, a bordo do navio Demerara. Ela se caracterizava por uma evolução lancinante. Entre os primeiros sintomas e o óbito podiam se passar apenas 12 horas. Sem nenhum tratamento conhecido, o isolamento radical era a única maneira de contê-lo e coube a Carlos Chagas comandar o enfrentamento na capital, com carta branca do presidente Venceslau Brás, em fim de mandato. A doença matou 35 mil pessoas no Brasil.
Com 70 anos, Rodrigues Alves seria reconduzido ao poder. Teria sido o segundo presidente mais velho a exercer o cargo, depois de Getúlio e Fernando Henrique. Era conhecido por ser uma pessoa adoentada e não resistiu. Não chegou a tomar posse.
Diferentemente do Brasil da República Velha, o atual é uma democracia. Na evolução desta pandemia, é bastante provável que as autoridades médicas que estão na linha de frente do combate ao vírus ganhem projeção eleitoral relevante no futuro.
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O VÍRUS DA GUERRA CULTURAL

Artigo de Fernando Gabeira
De certa forma, uma epidemia como esta do coronavírus já estava prevista por estudiosos. O que não estava ainda no nosso radar era o impacto da ignorância humana em aceitá-la para realizar o combate frontal contra ela.
À pequena capa gordurosa do vírus foram acrescidos os fluidos da ideologia, tornando-o ainda mais perigoso e letal. Agora que aconteceu, constatamos que essa reação não era de todo imprevisível. Um movimento moderno de descrédito da ciência, do conhecimento, da imprensa facilmente desaguaria nesta oposição a uma ululante realidade sanitária.
A eleição de Donald Trump e a de Jair Bolsonaro são um marco destes tempos modernos. Ambos viram o surgimento do coronavírus como ameaça a seus governos e passaram aos seguidores a impressão de que todo o debate sobre o tema era manobra de oposição. A emergência do corona transformou-se, então, para eles numa guerra cultural contra os inimigos de sempre.
Ao transfigurar uma realidade sanitária num confronto político, usaram com naturalidade sua arma comum, fake news, para vencer a batalha. Nos Estados Unidos, por exemplo, a extrema direita travou uma luta direta contra a principal autoridade sanitária, Anthony S. Fauci, cobrindo-o de ofensas gratuitas.
Preocupado com sua reeleição, Trump tentou corrigir o rumo. Bolsonaro resistiu mais, de forma desagregadora. Seguidores usaram a mesma tática de fake news para desacreditar as mortes e classificar os mensageiros da realidade como uma torcida pelo vírus.
Os mais intelectualizados entre eles chegaram a afirmar que nos EUA morre mais gente engasgada por ano do que os primeiros milhares de mortos pelo coronavírus. Não se detiveram a analisar por que os norte-americanos não constroem, às pressas, hospitais de campanha para socorrer engasgados, muito menos por que não reduzem o ritmo da economia para evitar o contágio entre engasgados.
Bolsonaro liderou uma espécie de uma farsesca revolta da vacina. Em 1904 a população, que vivia em terríveis condições sanitárias, rebelou-se contra um governo que queria modernizar e higienizar a cidade e um cientista, Osvaldo Cruz, que queria vaciná-la. Agora um presidente se rebelou contra a orientação científica e grã-finos em carros importados desfilam pelas ruas afirmando que o povo precisa voltar a trabalhar.
Esse espetáculo patético drenou um pouco da nossa energia no combate ao coronavírus. Se nos detivermos no urgente debate das medidas sanitárias, há sempre alguém para dizer: por que não combater o Bolsonaro?
Sou dos que pensam que o combate ao vírus é uma prioridade planetária e que os adversários desse combate serão triturados pela História.
No mundo real, precisamos aprender com os países que já passaram por uma fase intensa da epidemia. Em todo lugar ficou evidente a necessidade de equipamentos de proteção individual para médicos e profissionais de saúde. É um ponto decisivo. Cerca de 20% dos nossos médicos estão numa faixa de idade que os põe no grupo de risco. Podem ser úteis na telemedicina, mas não vão ser escalados na linha de frente.
Os vídeos que mostram os profissionais da Coreia do Sul se vestindo para o trabalho revelam como o equipamento é necessariamente redundante para proteger contra o vírus. Os Estados Unidos já começam a ter problemas nesse campo. Eles vão surgir no Brasil, uma vez que o equipamento é disputado no mundo inteiro.
Uma das saídas é canalizar parte da solidariedade social para fortalecer os profissionais de saúde. Se não for possível complementar a deficiência de equipamentos, ao menos garantir uma infraestrutura de repouso. Muitos temem voltar para a casa e pôr a família em risco.
Nos primeiros artigos sobre o tema enfatizei a importância dos 220 milhões de smartphones. O governo vai usar os telefones para monitorar a população. Isso aumenta nossas chances. Existe uma possibilidade, que começa a ser usada também nos EUA, por meio de uma empresa que vende termômetros conectados à internet. Conseguem medir a temperatura de 160 mil pessoas, mas o potencial é muito maior.
Discutimos no início da pandemia sobre o alcance desses métodos. Pensadores como Yuval Harari temem uma avanço na quebra da privacidade, com o controle entrando pela nossa pele. Mas pelo que vi do método que o Brasil usará, a participação será voluntária. Da mesma forma, o controle de temperatura pode ser voluntário.
No fundo, o combate ao coronavírus, além da solidariedade humana, depende basicamente de conhecimento. Todo esse esforço de consultar o povo é indispensável. Seria mais facilmente vitorioso se complementado por testes em massa. Testes para detectar o vírus, testes para detectar anticorpos e potencial imunidade, testes para avaliar o potencial de evolução da doença em cada organismo.
Temos falado muito de ignorância, sobretudo a partir da atuação de Jair Bolsonaro. A frase de Barack Obama é repetida muitas vezes: a ignorância na política ou na vida não é uma virtude. Mais do que nunca, vencer não apenas a ignorância humana, mas também a ignorância específica sobre esse novo coronavírus, é a luta principal desse combate planetário.
Artigo publicado no Estadão em 03/04/2020
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DIÁRIO DA CRISE XII

Artigo de Fernando Gabeira
Hoje li um interessante artigo sobre o corona vírus. Todos são interessantes mas alguns vão um pouco além da contagem de mortes.
O artigo é assinado por Joshua Rabinowitz e Caroline R. Bartman, ambos cientistas e pesquisadores.
Eles levantam a hipótese de que assim como o veneno a dosagem de exposição ao coronavírus aumenta seu perigo e letalidade.
Partem do exemplo do médico chinês Li Wenliang que morreu aos 31 anos. Ele foi aquele médico que sentiu a importância da doença, quis discutir publicamente e foi reprimido pelas autoridades.
A morte de um médico de 31 anos que tratava de doentes de corona vírus talvez tenha acontecido porque se expôs a uma carga viral mais intensa.
Inúmeras experiências com outro tipo de vírus demonstram que a intensidade da carga viral tem importância. Talvez seja diferente, por exemplo, uma pessoa contaminando a outra por um espirro ou uma contaminação porque alguém tocou numa superfície metálica.
Isso já são especulações minhas. O artigo dos cientistas não nega em nenhum momento a existência dos grupos de risco. Mas nos ajuda a entender porque, em pessoas com sistemas imunológicos debilitados pela idade, alguns têm sintomas leves outros vão à UTI.
Achei interessante o artigo porque se é verdade cada organismo é um um caso singular, a intensidade da carga viral pode explicar adicionalmente porque tantas diferenças de reação ao vírus.
Se for verdade também, os testes em massa que detetam os anticorpos do vírus no organismo, podem indicar também que as cargas leves de contaminação, as vezes assintomáticas, produzem uma legião de pessoas imunizadas.
Para quem lê o que escrevo agora, isso tudo parece muito lógico. Pode achar estranho que destaque algo aparentemente tão óbvio.
Nos meus conhecimentos limitados do tema, pensava assim: a simples entrada de um vírus no organismo era suficiente para contaminá-lo gravemente. Isto porque trabalhava com a hipótese de que o vírus coopta a célula pulmonar e a obriga a produzir uma grande quantidade de proteína viral, obrigando- a dessa maneira a multiplicar a quantidade de vírus no organismo.
Mas agora posso conciliar um pouco essa visão. Se é verdade que um vírus escraviza uma célula, obrigando a trabalhar, uma quantidade maior de vírus cooptará muito mais células e, certamente, tornará o caso mais grave.
Não vou pedir mais uma vez desculpas pela minha ignorância. Não trabalho com vírus. Minha primeira grande reportagem quando tinha 18 anos foi sobre a doença de chagas, transmitida pelo barbeiro. Era um tema importante, tanto que dois jornalistas americanos do Saturday Evening Post estavam lá no norte de Minas fazendo a mesma reportagem.
Um deles, o fotógrafo, aproveitou para me ensinar alguma coisa: Establishing shot, aquela foto que mostra toda a cena . Ele subiu onde havia um cemitério e fez uma imagem da cidade, com as cruzes em primeiro plano.
Isso é apenas um caso à parte. O mais importante é que a doença de chagas ataca o coração e a pessoa morre de repente. Lembro-me que fiz a o texto e Roberto Drummond, na época o editor, sugeriu o título para a história da doença de Chagas no povoado: Aqui se morre como um passarinho.
Quem diria que fosse sentir saudades do barbeiro diante do coronavírus.
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DIÁRIO DA CRISE XI

Artigo de Fernando Gabeira
Acabo de escrever o artigo quinzenal do Estadão. Dediquei metade dele à guerra cultural. A tese é esta: os humanos acrescentaram à camada de gordura do coronavírus seus fluidos ideológicos e ele se tornou ainda mais letal.
Analiso rapidamente o comportamento de Donald Trump e seus seguidores, sobretudo a campanha que os fanáticos moveram contra Anthony Faucio, o homem que conduz a política sanitária por lá. Fauzio fala a verdade e, em inúmeros casos, contesta o falso otimismo de Trump sobre o perigo da doença ou mesmo a expectativa de cura pela cloroquina.
Falo também a maior parte do tempo em Bolsonaro e seu comportamento. Lembro da Revolta da Vacina em 1904, que foi contra uma política sanitária partida de um presidente.
Hoje o rebelde é o próprio presidente e alguns granfinos com carros de luxo afirmando nas ruas que é preciso voltar a trabalhar.
Mas é claro que a partir daí volto a me concentrar no corona vírus, o inimigo principal da humanidade, nesse momento. Estou contente pela regulamentação da telemedicina. Isto vai ajudar. Cerca de 20 por cento dos nossos médicos estão no grupo de risco. Vão poder trabalhar com essa ferramenta.
Será preciso algum treinamento, pois essa faixa de idade tem alguma resistência a essa plataforma. Nada que não possa ser superado.
Contente também por ver a disposição do governo de usar amplamente os 220 milhões de smartphones para monitorar a saúde, mapear áreas de mais intensidade da pandemia, acompanhar casos com sintomas leves.
Desde o principio, bato na tecla de que este é um vírus da era digital e todos os instrumentos precisam ser usados para atenuar seu impacto, do home office ao monitoramento a distância.
Li ontem que nos EUA uma empresa que trabalha com termômetros conectados à internet está monitorando a temperatura de 160 mil pessoas nos EUA.
Esse campo é inesgotável. Compreendo a reserva dos que temem uma invasão da privacidade. Yuval Harari fala num controle no interior de nossa pele, algo mais profundo do que acontece hoje quando nos monitoram como consumidores.
Acontece que esse dispositivo do governo assim como os termômetros pela internet são usadas com a concordância da pessoa. São mecanismos voluntários.
Como membro do grupo de risco não teria nenhum inconveniente em participar da experiência. Não me importam que saibam da minha temperatura por um determinado prazo de tempo.
Da mesma forma, dialogaria sem problemas com o robô do governo que fizer perguntas sobre minha saúde nesses dias.
Um dos grandes problemas que passa na cabeça dos velhos nesse momento é o que fazer se ficarem doentes, como se mover,
para onde ir, em que momento os hospitais da doença estariam preparados para recebê-los.
Minha suposição é de que a inteligência artificial ajudaria nessas respostas e o próprio governo os recolheria no momento necessário.
Apenas uma suposição, uma vez que sabemos como os serviços estão sobrecarregados e como funcionam precariamente em tempos considerados normais.
Apesar de tudo, esses mecanismos aumentam as chances de um trabalho eficaz. Essa simples possibilidade já é algo, num tempo tão desolador.
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CUIDADO COM AS CURVAS

Zeina Latif, O Estado de S.Paulo
Aprendemos com os profissionais da saúde que é necessário suavizar a curva de pessoas infectadas pelo novo coronavírus, por meio do isolamento social, pois o sistema de saúde não daria conta de tantos doentes. Também aprendemos que é necessário evitar uma segunda onda decorrente de uma suspensão precipitada do confinamento, dada a baixa imunização atual.
O desafio é encurtar o período de distanciamento social de forma segura, com definição de estratégia e uma boa gestão da saúde.
O choque é transitório, mas cabe a nós determinar sua duração.
O sucesso na área da saúde definirá o impacto econômico da epidemia e a própria eficácia das medidas de socorro. Assim, a mesma atenção dada aos anúncios de medidas econômicas deveria ocorrer para as medidas sanitárias e de saúde. Pouco sabemos, no entanto.
Além de cuidar da curva de infectados, precisamos cuidar da curva da economia.
A inação geraria grande sofrimento social, mas o excessivo voluntarismo dificultaria a retomada do crescimento adiante, por conta dos efeitos colaterais sobre a solvência do setor público e a eficiência econômica. Sim, todos os esforços precisam ser feitos para salvar a economia, mas dentro das nossas possibilidades.
Não há milagre na economia; há trabalho bem feito. É necessário aqui também haver estratégia, definição de prioridades e boa gestão, pois os recursos são escassos.
A prioridade número 1 – para além de investir em saúde – é garantir a subsistência das pessoas vulneráveis com renda comprometida na crise.
Além da ampliação do bolsa família, há medidas do governo para transferir renda a informais e afins. A tarefa agora é sua célere implementação. Não basta o anúncio.
A segunda prioridade é minimizar o desemprego dos trabalhadores mais pobres e vulneráveis à demissão – geralmente exercem atividades presenciais e trabalham em empresas com menor capacidade de atravessar a crise.
O desenho da política pública desse ponto em diante fica mais complexo, o que requer critérios para garantir o bom uso dos recursos públicos.
Entendo serem dois os critérios principais.
Primeiro, o socorro a empresas deve levar em conta sua fragilidade financeira decorrente da crise e a probabilidade de sobrevivência adiante – ou seja, ajudar quem precisa e merece. Uma empresa mal gerida não deveria ser beneficiada. Pode parecer crueldade, mas não é. É prejudicial ao bem comum gastar recursos da sociedade para socorrer artificialmente empresas que não irão sobreviver e honrar suas dívidas. Melhor seria cuidar dos que perderão seu emprego.
É acertada a medida do governo de criar uma linha de crédito barata para pequenas e médias empresas pagarem os salários mais baixos da folha, com participação dos bancos comerciais, pois estes têm mais condições de selecionar as empresas.
Para as microempresas, outros canais precisarão ser criados, pois não temos experiência de sucesso no microcrédito. Armínio Fraga, José Alexandre Scheinkman e Vinicius Carrasco propõem utilizar as empresas das chamadas “maquininhas”. Importante acelerar nos estudos de viabilidade dessa proposta.
Enfim, trata-se de aliar a utilização de recursos públicos à racionalidade econômica.
Para as grandes empresas, convém procurar maior participação do setor privado, evitando uso não prioritário dos recursos públicos. Um exemplo para reflexão são as companhias aéreas. Haverá encolhimento do setor adiante, inclusive pelo uso de alternativas às reuniões presenciais. Isso precisa ser levado em conta na decisão de socorro. Não seria o caso de o governo oferecer garantias apenas?
O segundo critério é não salvar o patrimônio de pessoas e empresas. É preciso aceitar que ficamos mais pobres. Cabe ao Banco Central conter o aperto do crédito, mas não compensar perdas de investidores no mercado financeiro.
No calor da urgência, o governo fica mais vulnerável à pressão de grupos de interesse, o que precisa ser evitado. Ceder a tudo e a todos agora implicará mais uma década perdida.
*Consultora e doutora em economia pela USP
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quinta-feira, 2 de abril de 2020

O MESMO DE SEMPRE

Editorial O Estado de S.Paulo
Durou apenas algumas horas a suposta moderação do presidente Jair Bolsonaro ao lidar com a crise gerada pela epidemia de covid-19. Se na terça-feira à noite, em cadeia de rádio e TV, Bolsonaro deixou de lado o costumeiro tom raivoso e se esforçou para soar presidencial, defendendo “a união de todos, num grande pacto pela preservação da vida e dos empregos”, na quarta-feira de manhã o presidente voltou a ser o que sempre foi e, quem sabe, sempre será.
Bolsonaro publicou em suas redes sociais um vídeo em que um homem denuncia o suposto desabastecimento da Ceasa de Belo Horizonte. O homem, então, passa a ofender os governadores que determinaram o isolamento social como forma de conter a epidemia, chamando-os de “canalhas” interessados apenas em “ganhar nome e projeção política”, enquanto “o presidente está brigando incessantemente para uma paralisação responsável”.
Trata-se de fake news – mais uma patrocinada pelo presidente, que já protagonizou o vexame de ter algumas de suas postagens suspensas pelos administradores das redes sociais por colocarem em risco a saúde pública ao disseminarem falsas informações sobre a pandemia de covid-19. Em nota encaminhada à ministra da Agricultura, Tereza Cristina, a Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais, que administra a Ceasa, informou que a denúncia do vídeo compartilhado por Bolsonaro “é inverídica”, pois não há desabastecimento.
A ministra Tereza Cristina já vinha dizendo reiteradas vezes que não há desabastecimento. O ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, informou na segunda-feira que a logística para distribuição de alimentos está funcionando. Ou seja, o presidente dá crédito ao que diz um desconhecido em vez de confiar em seus próprios ministros – como, aliás, ficou claro no caso do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, cuja amarga tarefa de convencer a sociedade sobre a necessidade de isolamento social é constantemente sabotada por Bolsonaro.
Assim, o presidente solene e conciliador do pronunciamento da terça-feira em rede nacional é um personagem de ficção. Horas antes de ir à TV para tentar convencer os brasileiros de que passaria a levar a sério o que diz a ciência sobre a pandemia, Bolsonaro – o verdadeiro – distorceu uma fala do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Ghebreyesus, em favor dos trabalhadores que perderam renda, para dizer que “a OMS se associa ao presidente Bolsonaro” na defesa do fim do isolamento social. A repercussão da declaração de Bolsonaro obrigou o diretor da OMS a deixar de lado suas atividades para desmentir o presidente brasileiro e dizer que continua a favor do isolamento.
Além disso, no mesmo dia em que Bolsonaro pretendeu se passar por estadista na TV, o País ficou sabendo que o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente e articulador do chamado “gabinete do ódio”, passará a ter uma sala no Palácio do Planalto. Não se sabe o que o vereador faz na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, mas sabe-se muito bem o que ele fará junto com o pai em Brasília: continuará a alimentar as redes sociais do presidente com fake news destinadas a confundir a opinião pública e causar confusão, hábitat do bolsonarismo. A tentativa de disseminar o pânico a respeito de um suposto desabastecimento de alimentos no País é só um aperitivo do que essa turma é capaz.
Diante disso, é preciso muita boa vontade – ou ingenuidade – para levar a sério a metamorfose de Bolsonaro. Afinal, o que mudou desde que o presidente desdenhou dos mortos pela pandemia e atacou todos os que dele discordavam até horas antes do discurso na TV? Por que a “gripezinha” se transformou, de uma hora para outra, no “maior desafio de nossa geração”?
Pode-se acreditar que Bolsonaro, numa incursão pela Estrada de Damasco, tenha tido uma iluminação transcendental e se conscientizado subitamente da gravidade da crise, mas o mais provável é que o presidente, como sempre, só esteja pensando em si mesmo e na preservação de seu capital eleitoral. O ensurdecedor panelaço que acompanhou seu discurso na TV mostra que grande parte dos brasileiros não se deixou tapear.
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A DOLOROSA TRAVESSIA

Míriam Leitão, O GLOBO
No início de uma recessão o governo deixará as empresas reduzirem até 70% dos salários ou suspenderem o contrato de trabalho do empregado e define isso como “o maior programa de emprego do Brasil”, como informou o Ministério da Economia. Era isso ou uma onda de demissões, disseram os secretários do Ministério. O presidente Jair Bolsonaro levou 48 horas para sancionar a MP de auxílio aos mais vulneráveis, mas precisou de apenas oito horas para derrubar a esperança de que tivesse enfim entendido a gravidade da crise. Na noite da terça-feira, ele elevou a “gripezinha” à categoria de “maior desafio da nossa geração”, mas de manhã postou em suas redes um vídeo com cenas falsas de desabastecimento e acusando governadores. De tarde, fez uma reunião com médicos para discutir a pandemia sem o conhecimento, e a presença, do ministro da Saúde.
O Brasil enfrenta uma pandemia e tem o presidente Jair Bolsonaro. Ele atormenta o país em vez de o administrar. Foi um alívio ouvir a ministra Tereza Cristina com seu tom calmo de sempre falar o oposto do que fora dito no vídeo falso que o presidente postou nas suas redes sociais logo cedo. Ela afastou “qualquer notícia de que está faltando alimento”. Ou o ministro Luiz Mandetta explicar mais uma vez que manterá o “foco” em vez de se preocupar com a reunião para a qual ele não foi convidado, nem recomendaria nesse momento.
Na economia, o presidente e o ministro Paulo Guedes anunciaram com pompas e circunstâncias medidas já anunciadas com pompas em outras circunstâncias. E até agora não implementadas. Elas foram detalhadas de tarde pela sua equipe. Guedes, no esforço de mostrar que o governo tem feito muito, costuma empilhar gastos de natureza diferente que confundem até sua equipe de comunicação.
Ontem, ela chegou a publicar que as medidas eram de 2,6% do PIB ou R$ 750 bilhões. Como se sabe 2,6% é em torno de R$ 190 bilhões e R$ 750 bilhões é 10,4% do PIB. Há muitas confusões que o governo tem feito: anuncia várias vezes a mesma medida, dá como realizado o que ainda não saiu do papel, mistura um dinheiro real, como o do auxílio que será pago aos informais, com medidas regulatórias do Banco Central que aumentam apenas o dinheiro disponível para os bancos.
A vida real está bem difícil. O governo não tem ideia de como vai encurtar o caminho até os informais. E nem tornou realidade o empréstimo a ser dado para pequenas e médias empresas para pagar o salário, com dinheiro do Tesouro e dos bancos, que já havia sido apresentado no Palácio do Planalto na última sexta-feira.
De novidade, o Ministério da Economia apresentou ontem o que ele chamou de “programa emergencial de emprego e renda”. Segundo o secretário Bruno Bianco, o plano “protege e tutela” o empregado e as empresas na crise.
A proteção é a seguinte: o empregador pode fazer acordos individuais ou coletivos de redução de 25%, 50% e 70% nos salários, com diminuição da jornada. O governo pagará o mesmo percentual reduzido, mas não do salário, e sim do seguro-desemprego. Então, excetuando-se quem ganha salário mínimo, os outros trabalhadores do setor formal poderão ter forte arrocho em seus salários. As empresas poderão também suspender os contratos de trabalho mas terão que pagar 30% dos salários a título indenizatório. Em compensação, segundo os técnicos do Ministério da Economia, os empregos estarão temporariamente mantidos até a travessia do pior da crise. Quem aceitar essa ajuda do governo não poderá demitir pelo tempo equivalente ao que o salário foi reduzido ou o contrato suspenso. Resta a dúvida: e se a empresa mesmo assim não conseguir sobreviver, como manterá o emprego?
As empresas terão outros alívios. As pequenas e médias poderão adiar o pagamento de vários impostos e contribuições. Isso realmente vai aliviar muito. Deixarão de pagar por uns meses PIS-Pasep, Cofins e contribuição patronal para a Previdência. Outra boa medida será a desoneração completa do IOF nas operações de crédito, o que reduzirá os juros nos empréstimos.
A proposta para a proteção do emprego vai na verdade reduzir muito a renda e, portanto, o consumo, mais do que já está sendo reduzido com o isolamento. É medida dura que vai aprofundar a recessão. E a boa ideia do auxílio aos informais, que pode mitigar o efeito da crise, o governo ainda não tem ideia de como vai implementar.
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PATO MANCO

Maria Hermínia Tavares, Folha de S.Paulo
Defensor do isolamento parcial, Jair Bolsonaro está politicamente isolado. Discursos e atitudes insanas, que ameaçam a já limitada capacidade do país de enfrentar a devastação do coronavírus, receberam o repúdio dos governadores.
O Congresso substituiu o Executivo inoperante ao aprovar o projeto de lei —ainda não sancionado— que garante renda mensal de R$ 600 aos mais pobres entre os pobres. Além do vice, Mourão, os ministros Guedes e Moro se distanciaram do chefe ao apoiar as posições do colega Mandetta em relação à quarentena.
A entrevista coletiva armada na segunda-feira (30) para mostrar ao titular da Saúde qual é a cadeia de comando no combate à Covid-19 não foi conduzida pelo presidente, mas pelo chefe da Casa Civil, um general.
Empresários importantes, abandonando a prudência que costuma fazê-los buscar o regaço do governismo, não escondem ter perdido a confiança inicial no “Posto Ipiranga” da economia. O Twitter e o Facebook apagaram mensagens das contas de Bolsonaro por suas falsidades sobre a pandemia.
No exterior, seu comportamento literalmente singular provoca espanto e chacota. Disparates de sua lavra foram desmentidos pelo diretor-geral da Organização Mundial da Saúde. O tiro na mosca partiu de Ian Bremmer, o número 1 da Eurasia, influente empresa de consultoria de negócios. “Comparado a Bolsonaro”, fulminou, “Trump parece um Churchill”.
Os americanos chamam de pato manco o presidente em final de mandato. Com o sucessor já eleito, o poder lhe escapa, só lhe resta limpar as gavetas de seu gabinete e oferecer aos visitantes, cada vez mais raros, o café frio servido pela copeira.
Com pouco mais de um ano no Planalto, Bolsonaro é um pato manco precoce. Precisaria muito mais do que a morna fala fingida desta terça-feira (31) na televisão a fim de reaver o crédito das lideranças políticas, o respeito de seus ministros e o apoio da opinião pública não tomada pelo fanatismo. Para isso, teria que vencer a cláusula pétrea dos seus traços mais autênticos —ignorância e truculência.
O Brasil vive a inédita experiência de um presidencialismo sem presidente. Em circunstâncias normais, Bolsonaro estaria com os dias contados. Mas, na crise sanitária que só está começando, todos os esforços estão dirigidos a reduzir seu impacto, medido em vidas e privações. Uma comoção pública é tudo o que não convém provocar numa hora dessas.
Ainda assim, as lideranças políticas estão fazendo seus cálculos. Que encontrem a fórmula de assegurar estabilidade política, preservando as liberdades civis e as regras democráticas. Pois a saída será pela direita.
*Maria Hermínia Tavares, professora titular aposentada de ciência política da USP e pesquisadora do Cebrap
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MORRE ARGEU AFFONSO

Da ISTOÉ
Considerado um dos grandes conhecedores do Carnaval carioca e torcedor fanático do Fluminense, Argeu Affonso morreu aos 88 anos nesta quinta-feira (2). O jornalista sofreu um acidente e foi levado ao hospital Silvestre na cidade do Rio de Janeiro, mas não resistiu.
Affonso trabalhou no Jornal O Globo e era um dos criadores e presidente de honra do Prêmio Estandarte de Ouro, um reconhecimento aos melhores do Carnaval do Rio de Janeiro. Argeu também foi dirigente do tricolor carioca e era um dos principais beneméritos do clube.
Nas redes sociais, amigos e colegas que trabalharam com “Mestre Argeu”, como era carinhosamente chamado, prestaram homenagens ao jornalista.
“Ele era o nosso Google, a nossa Wikipedia em um tempo em que nenhum dos dois existia. Sabia tudo, dominava a língua portuguesa como poucos! Eu não liberava um texto sem o Argeu passar os olhos”, afirmou a colunista Luciana Fróes.
“Argeu foi um grande amigo tanto no trabalho como na minha vida. Sempre, com sábias e bem colocadas, palavras de carinho. Conheci ele quando fui para a redação em 1983, e me ajudou muito a entender a dinâmica do trabalho. Depois que saiu da empresa, ficou a amizade. Ele era muito só e, sempre que podia, estávamos juntos. Quando almoçava no jornal (ele gostava), ele aproveitava para visitar os amigos e opinava em matérias deles e dos colunistas”, disse a assistente-executiva do O Globo, Isa da Mata.
O Fluminense também emitiu uma nota em homenagem ao jornalista.
Confira a nota na íntegra:
O Fluminense Football Club começou o dia 2 de abril de maneira muito triste. O grande benemérito Argeu Affonso nos deixou. Sócio do clube há 70 anos, com amplos serviços prestados para a instituição, era um companheiro leal, inteligente, carismático e dono de um olhar sempre muito atento e responsável.
Quis o destino que o tricolor apaixonado Argeu tivesse nascido em 21 de julho, justamente a data de fundação do Fluminense. No dia, tradicionalmente, ele recebia o carinho de inúmeros amigos do clube, no que se tornou quase uma tradição.
Nos últimos anos, inclusive, o seu aniversário fez parte do calendário tricolor, ocupando os festejos da já tradicional Flu Fest em um churrasco com dezenas de ex-jogadores. Participou das grandes solenidades e de publicações especiais nos festejos dos 50 anos e dos 100 anos do Fluminense. Recentemente, foi homenageado pelo Conselho Deliberativo por seus 70 anos ininterruptos como sócio do clube.
Frequentador das arquibancadas desde os anos 1940, ele esteve presente a quase todos os jogos do Fluminense. Quase todos. Não ir a um jogo, para Argeu, era como faltar ao trabalho.
E acompanhava o dia a dia tricolor com a autoridade de quem viu a história se passar à sua frente. Sua rica memória, sempre disposto a contar e lembrar de vários fatos vividos pelo clube, era uma parte do patrimônio imaterial do Fluminense. Foi diretor do clube, ocupando importantes cargos que passaram pelo Conselho Deliberativo, departamento Social, Marketing e a vice-presidência de Futebol.
Argeu teve a mesma dedicação ao jornalismo, com brilhante e longeva carreira em O Globo, onde era reconhecido por todos por sua cultura e sua postura ética. Profissional querido em várias redações, era amante não só do futebol, como também do Carnaval. Foi um dos fundadores do Estandarte de Ouro, a mais importante premiação do Carnaval Carioca, da qual foi o Presidente de Honra por anos.
Argeu faleceu hoje, aos 88 anos, em um hospital da Zona Sul do Rio de Janeiro. Ele foi internado após um acidente doméstico. O presidente do Fluminense, Mário Bittencourt, determinou luto oficial do clube por três dias”.
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