quinta-feira, 2 de abril de 2020

A REAÇÃO À CRISE ESTÁ FORA DE CONTROLE

Marcos Lisboa, Folha de S.Paulo
A grave crise que o mundo atravessa está forçando os países a adotar medidas excepcionais para enfrentar a pandemia e seus efeitos colaterais sobre o emprego e a economia. Alguns reagiram com coordenação e equilíbrio e retornarão à normalidade passada a pandemia. No Brasil, no entanto, a reação descontrolada ameaça deixar um rastro de destruição do qual será difícil nos recuperarmos.
Neste difícil momento, é preciso tanto agilidade quanto serenidade. A saúde e a proteção das famílias mais vulneráveis devem ser as nossas prioridades. Muitas medidas têm sido anunciadas para tratar dos problemas da população.
Nessas horas, surgem também muitos pedidos oportunistas que se valem da grave crise para obter benefícios. Todo o cuidado é pouco porque estamos hipotecando o nosso futuro. Todo recurso gasto hoje será cobrado nos próximos anos. Chegamos a esta crise com uma das maiores dívidas públicas entre todos os emergentes, o que quer dizer que sairemos ainda mais fragilizados. E essa dívida terá que ser paga por nós e nossos filhos. Não será fácil.
Estamos mais pobres; todos nós. Alguns, porém, demasiadamente expostos ao flagelo da falta de renda e de assistência. Esses devem ser a imediata preocupação das políticas emergenciais.
Empresas de todos os tamanhos estão assistindo a uma queda vertiginosa das suas receitas, enquanto suas despesas permanecem elevadas, a menos que demitam trabalhadores. Não queremos isso. Muitas terão prejuízos significativos nos próximos meses e vão ter que utilizar os seus recursos, se ainda os tiverem, para honrar as suas obrigações e sobreviver.
Cabe à política pública auxiliar as pequenas e médias empresas, que têm maior dificuldade em apresentar garantias para conseguir crédito, desde que preservem o emprego. É fundamental, por outro lado, remunerar ou pagar aquelas empresas que continuam a oferecer seus bens e serviços, apesar da adversidade.
Essas políticas devem, neste momento, ser financiadas com o aumento da dívida, que deverá começar a ser equacionada apenas após o fim da grave crise, com a volta da normalidade.
Devemos ter cuidado com as propostas mirabolantes, como se o poder da caneta resolvesse os problemas de todos. Vendem ilusões.
Deixar de pagar aluguéis pode parecer uma boa ideia. Mas e os proprietários que dependem dessa renda para sua sobrevivência? Não pagar contas de luz e telefonia parece fazer o bem para muitos. Mas o que ocorrerá se os fornecedores desses serviços entrarem em dificuldades insolúveis?
Permitir que alguns não paguem suas obrigações beneficia os favorecidos em detrimento dos seus fornecedores, que vão enfrentar dificuldades ainda maiores, afinal não estão sendo pagos pelos serviços já realizados. A cada um que deixa de pagar o que deve, corresponde outro que deixa de receber.
Liminares têm sido concedidas para empresas terem seus aluguéis reduzidos com a justificativa de “desequilíbrio financeiro na relação contratual”. Outras decisões judiciais determinam o fechamento de fábricas. Na ausência de coordenação das ações, o Judiciário opta por tomar medidas sem a avaliação técnica das suas justificativas ou das suas consequências.
Moratórias generalizadas autorizadas por leis ou decisões judiciais podem gerar reações em cadeia e comprometer permanentemente o mercado de crédito e a atividade econômica.
Propor que quem não produz deve continuar a receber como antes, e que quem trabalha, empresta e produz não deve ser pago pelos serviços prestados será a rota da nossa destruição.
Impor novas obrigações às empresas, como empréstimos compulsórios ou aumentos da tributação, é condenar muitas delas à falência e ao aumento do desemprego. Nenhum país dos 43 catalogados que enfrentaram essa crise aumentou impostos. E não o fizeram por boas razões. Nesta fase, cabe ao poder público auxiliar na preservação do setor privado, não o fragilizar ainda mais.
As medidas que adotarmos nesta difícil fase repercutirão por muitos anos. Se agirmos com irresponsabilidade, diremos àqueles que investem: vocês erraram ao fazê-lo.
É preciso lembrar que a crise passa. Mas, se destruirmos muitas de nossas empresas, haverá menos produção, emprego e renda quando a pandemia for controlada. Medidas oportunistas ou pouco refletidas a respeito de suas consequências trariam impactos permanentes sobre a confiança no país e as instituições econômicas. Sairíamos ainda mais pobres do que estamos agora.
Há muitos anos, crescemos pouco e muitas empresas já desistiram do nosso país em razão das muitas medidas oportunistas adotadas no passado.
É preciso cuidar do emprego agora e do emprego futuro. É preciso cuidar da renda agora e da renda futura. É preciso cuidar dos vulneráveis. E é preciso evitar o populismo que promete o paraíso e entrega a desolação.
O Brasil já desperdiçou demasiadamente seu passado com medidas oportunistas. Esta grave crise nos acomete em meio a muitas desavenças entre os Poderes. Devemos superá-las. Há dificuldades urgentes a serem enfrentadas. Insistir em disputas miúdas apenas nos levará ao fracasso como nação.
O país nos pede responsabilidade, serenidade, urgência e união. Precisamos atentar para as muitas necessidades do presente, assim como devemos cuidar do futuro.
Marcos Lisboa
Presidente do Insper, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (2003-2005) e doutor em economia.
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BOLSONARO À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

Thaís Oyama, UOL
Todo mundo notou.
Os gestos nervosos nas entrevistas coletivas, o tom de voz acima do normal nas saídas do Alvorada e os olhos injetados no pronunciamento do dia 31 denunciam o que assessores palacianos confirmam: os nervos do presidente Jair Bolsonaro estão por um fio e ele se sente pressionado por todos os lados. Bolsonaro deu até mesmo para chorar no meio do expediente, como revelou o repórter da Folha de S. Paulo Igor Gielow. Sua agenda oficial tornou-se uma planície desolada. Hoje, quarta-feira, registrava um único compromisso: audiência com o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, das 10h às 10h30, e mais nada.
Para Bolsonaro, o mundo está contra ele. Não bastasse o que considera oportunismo político de seus adversários (os governadores João Dória e Wilson Witzel, em especial), seus principais ministros - Sérgio Moro, Paulo Guedes e Henrique Mandetta, homens que ELE próprio escolheu, como lembra sempre que pode— alinharam-se contra ele na defesa do isolamento social. "O presidente sou eu, pô. O presidente sou eu", achou por bem lembrar a um repórter que lhe perguntou sobre o fato de o vice, Hamilton Mourão, também ter defendido a quarentena como forma de evitar a disseminação do coronavirus.
Isolado em sua teimosia e sentindo-se ameaçado em sua autoridade, Bolsonaro oscila entre socorrer-se junto aos generais palacianos -que, no ano passado, havia deixado em banho-maria por não querer ser por eles "tutelado"—ou ouvir os conselhos do filho Carlos, comandante em chefe dos atiçadores oficiais das massas, assessores do presidente que atuam nas redes sociais com tal beligerância que fizeram por merecer a alcunha de integrantes do "gabinete do ódio".
Ocorre que, a cada vez que o presidente segue os conselhos dos generais, desagrada a turma de Carlos - e o contrário é também verdadeiro. O pronunciamento inusitadamente sensato do dia 31 de março teve a influência de Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército a quem Bolsonaro havia visitado no dia anterior, e o dedo do general Braga Netto, chefe da Casa Civil e estrela ascendente no Palácio. Se soou como música para os ouvidos dos moderados, irritou na mesma intensidade os bolsonaristas raiz, seguidores de Carlos Bolsonaro e companhia.
Uma hora e meia depois do pronunciamento do presidente, a agência de análise digital Bites registrou o menor número de pessoas tuitando em favor dele nos últimos quinze dias. Já quando o ex-capitão fez o discurso em que chamou a Covid-19 de "gripezinha" e afirmou que "atleta não pega isso", sua claque virtual foi ao êxtase.
Ou seja, quando Bolsonaro age de forma comedida e sensata, deixa a militância apática. Quando radicaliza e diz atrocidades, ganha mil pontos com ela.
Ontem, militares do núcleo duro do Palácio do Planalto avaliavam que as duas próximas semanas serão cruciais para determinar os rumos da crise. A pandemia do coronavírus deve atingir o pico no período.
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BOLSONARO INSISTE EM DESINFORMAÇÃO PARA MANIPULAR DEBATE SOBRE VÍRUS

Bruno Boghossian, Folha de S.Paulo
No início da tarde, o ministro da Saúde lançou um alerta. Henrique Mandetta afirmou ser “muito importante evitar as notícias falsas” sobre a pandemia do coronavírus e fez um apelo: “Estamos lidando com a vida de seres humanos”. Ainda falta mandar o aviso ao presidente.
Jair Bolsonaro acordou no Dia da Mentira disposto a golpear a realidade. Pela manhã, ele publicou um vídeo para dizer que as medidas de isolamento implantadas no combate ao vírus haviam provocado desabastecimento de comida em Minas.
Não era verdade. A rádio CBN foi até a Ceasa e mostrou que a situação era normal. A gravação havia sido feita durante a limpeza do espaço. O presidente apagou a postagem e pediu desculpas, não sem antes ser desmentido pela ministra da Agricultura, que disse não haver notícias de desabastecimento no país..
Sergio Moro também pegou carona em relatos falsos. Na terça (31), o ministro da Justiça interrompeu uma entrevista no Planalto e divulgou o boato da prisão de um traficante que teria passado a cumprir pena em casa para evitar contágio pelo coronavírus. Era mentira. Segundo a Polícia Civil gaúcha, o tal homem não estivera preso antes.
O presidente e seus aliados continuam espalhando desinformação para manipular o debate da crise. Redes como Twitter e Instagram já tiveram que apagar ou editar postagens de bolsonaristas para conter a correnteza. O último alvo foi Regina Duarte, que publicou a informação falsa de liberação da cloroquina pela Anvisa no tratamento da Covid-19.
A mentirada é uma conhecida estratégia política do governo para produzir tumulto e confundir a população. A diferença é que, agora, esse jogo põe vidas em risco.
Porta-voz da ala radical do Planalto, Carlos Bolsonaro afirmou que o país caminhará para o socialismo se a população pobre depender de dinheiro do Estado para comer. Além da crise, os miseráveis também serão vítimas da cegueira ideológica.
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CONTRA O ISOLAMENTO, O VÍRUS DA DESCONFIANÇA

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico
Durou menos de 24 horas a aposta de ministros civis e militares de que o insurgente capitão fora domado. Depois do brando pronunciamento da noite de terça-feira, o presidente da República mostrou que sua maior missão é ocupar a tribuna da provocação. Em tuíte, compartilhou depoimento (falso) de um feirante que exalta Bolsonaro e culpa os governadores pelo pouco movimento. No fim, comentou: “Depois da destruição, não interessa mostrar culpados”.
Como bedéis de um adolescente indisciplinado, os ministros do Palácio do Planalto apagaram o tuíte, fizeram o rapaz pedir desculpas e deram instruções para que a segurança impedisse a claque bolsonarista, sob o comando diuturno do presidente da República, de vaiar os jornalistas que cobrem sua saída do Palácio do Alvorada.
Comportado em rede nacional e debochado na rede social, o presidente cumpre a bipolaridade com a qual inaugurou seu mandato. Faz passar por doença o que é método. Se os ministros militares insistem na tutela, é menos pela aposta na disciplina do capitão e mais pela ausência de alternativas a uma situação que se agravou pelo isolamento institucional do presidente e pelo avanço do coronavírus.
O Comando Militar da Amazônia confirmou casos da covid-19 no Centro de Instrução de Guerra na Selva, em Manaus, reduto da elite do Exército e referência mundial de treinamento. Some-se à preocupação com a preservação da capacidade operacional das Forças Armadas, o avanço inaudito da covid-19 no Distrito Federal, que combina a maior incidência de casos da Federação com uma frágil rede de hospitais públicos. É no entorno do presidente passeador que ameaça se concretizar mais rapidamente a tragédia italiana prevista pelo ministro da Saúde: caminhões do Exército transportando pilhas de vítimas do coronavírus.
O imperativo de manter a ordem pública sob o comando de um desordeiro cobrou um preço alto das instituições. A ordem do dia do Ministério da Defesa, em 31 de março, retroagiu, em pelo menos três décadas, a publicidade da visão das Forças Armadas sobre o golpe de 1964.
Depois de passar em branco durante os governos do PSDB e do PT, a ordem do dia voltou a registrar a efeméride no primeiro ano do governo Bolsonaro. A necessidade de fazer o contraponto com um governo militarizado produziu um texto ponderado, beirando a auto-crítica: “Enxergar o Brasil daquela época em perspectiva histórica nos oferece a oportunidade de constatar a verdade e, principalmente, de exercitar o maior ativo humano – a capacidade de aprender”.
Bem distinto daquele que, este ano, abriu e fechou pela declaração de que 1964 é um “marco para a democracia”. Na pressa, rejeitou a igualdade como utopia: “Os países que cederam às promessas de sonhos utópicos ainda lutam para recuperar a liberdade, a prosperidade, as desigualdades e a civilidade que regem as nações livres”.
O pacto pela preservação de Bolsonaro esgarçou ao limite as relações institucionais. O tuíte do vice-presidente, enaltecendo o golpe militar, é apenas sua evidência mais exposta. Destinava-se a sua própria corporação, mas acabou servindo, aos que o acalentam como opção, de tira-teima para a declaração de Bolsonaro: “Mourão é mais tosco do que eu”.
Em nenhuma instância, o consciente exercício da bipolaridade presidencial se refletiu de maneira mais desgastante do que na redação da proposta de emenda constitucional do orçamento da crise. Exigência do ministro da Economia, Paulo Guedes, que alega receio de infringir normas fiscais ao atender à demanda pela liberação de recursos, a PEC chegou a ser esvaziada por liminar, nessa direção, do ministro Alexandre de Moraes.
Não satisfeito com a liminar, Guedes condicionou a liberação do auxílio de R$ 600 reais aos informais à aprovação da PEC que, àquela altura, já contava com quatro minutas. Na primeira delas, o comitê gestor da crise seria presidido pelo ministro da Saúde, Henrique Mandetta, que comandaria uma equipe de ministros, nenhum deles militares. O presidente da República, que passeava em Ceilândia, foi ignorado.
Veio do Supremo o aviso de que não cabia ao Congresso interferir na maneira como o Executivo se organizaria para tomar decisões. No mesmo fim de semana, o ministro Gilmar Mendes foi chamado ao Planalto para encontrar Bolsonaro. No dia seguinte, os redatores da PEC colocaram o presidente na cabeça do comitê e lhe atribuíram sua composição.
Parlamentares reagiram. E se Bolsonaro montasse um escrete de ouro, com Weintraub, Damares e Araújo? Nova redação definiu as Pastas que integrariam o comitê, nenhuma delas comandadas pelos generais do Palácio. Até mesmo o ministro-chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto, comandante do atual comitê de crise, foi deixado de fora.
“Não queremos generais nisso”, justificou um dos envolvidos na costura política. “Eles já foram avisados de que isso é um golpe?”, perguntou um general, alertando para a possibilidade de que, aprovada a PEC, nada impediria que Bolsonaro demitisse todos os ministros cujas Pastas lá estavam listadas e nomeasse militares para seu lugar.
Na quarta-feira, dia para o qual sua votação foi pautada, o texto amanheceu com Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos, devidamente incluídos. Ao Congresso, que terá oito assentos no Comitê, sem direito a voto, caberá vetar decisões que “afrontem o interesse público”, redação que também desagradou militares resistentes à prerrogativa do Legislativo.
No fim, o Congresso havia feito mais concessões do que pretendia, mas esperava ter evitado que a gestão da crise se resumisse a um dueto entre governo e Supremo. Para encorpar a PEC, os parlamentares acabaram puxando para o texto as mudanças pretendidas pelo Banco Central para dar mais liquidez ao mercado.
No meio desse vaivém, Bolsonaro sancionou a ajuda de R$ 600 aos informais. Com a PEC, cairá um dos obstáculos para que o dinheiro chegue na ponta do desespero. Se Bolsonaro pretendia inocular nas instituições que o isolam o vírus da desconfiança mútua, foi bem sucedido. Não passaria de um festival de discórdia se o ingresso não fosse cobrado em vidas.
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PROCURA-SE ESTADISTA

Editorial Folha de S.Paulo
Por breves sete minutos e quatro segundos, na noite de terça-feira (31), o Brasil parecia ver o esboço de um presidente capaz de conduzi-lo em meio à imensa crise sanitária e econômica por que passa.
Foi essa a duração do discurso de Jair Bolsonaro em rede nacional, o nono de sua gestão e quarto desde o início da pandemia do coronavírus. Nele, foi ponderado, razoável e objetivo, adjetivos não comumente associados ao mandatário, a suas falas ou ações.
Chamou a atenção não só pelo que disse, mas pelo que deixou de dizer. Não houve espaço para as sandices de outrora, como classificar de gripezinha ou resfriadinho uma doença do impacto e da magnitude da Covid-19.
Não houve, igualmente, menção positiva à data em que o discurso era proferido, os 56 anos do golpe militar de 1964, que deu início a duas décadas de uma ditadura vil, em que milhares foram presos e torturados, e centenas, assassinados.
Nem mesmo a imprensa, alvo recorrente de ataques, foi lembrada.
No lugar, um irreconhecível Bolsonaro disse estarmos “diante do maior desafio de nossa geração” e acenou aos outros Poderes e aos governadores, com os quais vinha se atritando, ao exortar o país a buscar “grande pacto de preservação da vida e dos empregos”.
Mesmo ao falar de polêmicas recentes, como as recomendações da Organização Mundial da Saúde e a droga hidroxicloroquina, foi equilibrado. Quanto ao primeiro caso, à diferença do que fizera ao longo do dia, não distorceu o que disse o diretor-executivo da entidade, mas selecionou trechos em apoio de seu argumento: pensar igualmente em salvar vidas e empregos.
Sobre o segundo, adotou o tom de cautela e esperança que se exige ao tratar de um remédio ainda não devidamente testado.
Foi um sopro de normalidade de um presidente que se torna a cada dia um pária mundial por declarações e atos destrambelhados —e, no limite, criminosos. Infelizmente, a esperança durou pouco.
Minutos após terminar o pronunciamento, Bolsonaro publicou em suas redes sociais elogios à ditadura. Menos de 12 horas depois, voltou a criticar as medidas de isolamento recomendadas pela OMS e adotadas pelo mundo inteiro.
Reclamou dos governadores e espalhou fake news, agora sobre um desabastecimento no Ceasa de Belo Horizonte que não houve.
De fato, o Brasil passa pelo desafio de uma geração —a dos confinados, que têm de pagar as contas no fim do mês; a de seus filhos, isolados em casa; a dos idosos, privados do convívio familiar e social; a dos empobrecidos pela quarentena; a dos que vivem em condições subumanas em favelas.
Precisa-se de um estadista como o ex-premiê Winston Churchill, que dirigindo-se aos britânicos durante a Segunda Guerra disse que só tinha a oferecer “sangue, labuta, suor e lágrimas” —e conduziu seu país a uma vitória improvável.
Na falta de algo remotamente parecido, que ao menos o Brasil contasse com o presidente do discurso de terça à noite. Infelizmente, aquele era a exceção; o que voltou à ativa nas horas seguintes, a regra.
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VERGONHA ALHEIA

Merval Pereira, O GLOBO
“Não se faz Copa do Mundo com hospitais”, disse Ronaldo Fenômeno, rebatendo as críticas sobre os gastos para a realização campeonato mundial de futebol no Brasil em 2014. Também o então presidente Lula foi na mesma linha, declarando que ser contra a Copa por causa dos hospitais seria “um retrocesso danado”.
Também deixamos de construir hospitais enquanto nos vangloriávamos de termos vencido a concorrência para realizar as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. Sabemos hoje que nas duas competições houve fraude na disputa pela indicação, e o Brasil ganhou as duas com a ação de atravessadores e lobistas, brasileiros e estrangeiros, comprando os votos de delegados.
A Copa do Mundo de futebol deixou na nossa memória uma vexaminosa derrota por 7 a 1 para a Alemanha, que acabou sendo a campeã. Mas deixou também inúmeros elefantes brancos construídos a preços superfaturados, que geraram diversos processos criminais por corrupção.
Inclusive o Itaquerão, onde se realizou a abertura da Copa, em São Paulo, e o Maracanã, palco da final. O Itaquerão, aliás, foi denunciado pela Odebrecht como tendo sido construído por pressão do então presidente Lula, torcedor fanático do Corinthians.
Pelo Brasil, estão espalhadas diversas arenas esportivas que se transformaram em problemas para os governadores dos 12 Estados em que foram construídas, a maioria deles sem torcidas capazes de enche-los em jogos do campeonato local. Aliás, o Brasil teve 12 sedes, e não 8, por pressão do presidente Lula e da CBF, para agradar politicamente alguns estados.
Hoje, ironicamente, vários deles estão transformados em hospitais para o enfrentamento da crise do Covid-19: em São Paulo, o Pacaembú será um hospital administrado pelo Albert Einstein, e o Itaquerão possivelmente será usado também.
Em Fortaleza, o estádio Presidente Vargas terá 204 leitos, que podem ser transformados em UTIs. Em Brasília, o Mané Garrincha, que até pouco sobrevivia comprando o mando de campo de times com grandes torcidas, como o Flamengo, agora virou hospital. O Nilton Santos, no Rio, a Arena da Baixada, no Paraná, o da Ilha do Retiro, em Pernambuco, todos estão se transformando em hospitais para receber os infectados pelo Covid-19.
Coube à então presidente Dilma, que fora reeleita em 2014, abrir a Copa do Mundo. Como acontecera um ano antes, em 2013, na abertura da Copa das Confederações, a presidente foi vaiada assim que seu nome foi anunciado pelos alto-falantes, e ela nem pôde falar. Reflexos da insatisfação que reuniu, em 2013, as maiores manifestações contra Dilma nas ruas do país, eventos que deram início à derrocada da presidente até o impeachment em agosto de 2016.
Os panelaços foram indicador preciso da crescente insatisfação do povo contra a presidente Dilma Rousseff, mas o processo de desgaste político foi lento e aconteceu concomitantemente ao crescimento das investigações da Operação Lava-Jato, que colocou o PT diante de provas irrefutáveis do maior esquema de corrupção já descoberto no país.
Junto com a trágica realidade que enfrenta de ter que transformar arenas esportivas em hospitais, fenômeno que de resto acontece em diversos países pela gravidade da pandemia, o presidente Bolsonaro continua fazendo bolsonarices, revivendo o Febeapá do inesquecível Stanislaw Ponte Preta. Na época, durante a ditadura, era o Festival de Besteiras que Assola o País. Hoje seria o Festival de Bolsonarices que Assola o País.
Após ter feito um discurso equilibrado e ponderado na terça-feira, voltou ao seu normal ao divulgar um vídeo fake sobre uma suposta falta de mercadorias na Ceasa de Belo Horizonte, para forçar uma mudança na política de isolamento horizontal.
Os bolsonaristas gostam de opor a suposta falta de corrupção em seu governo ao perigo que representaria o PT de volta ao poder. Como se fossemos obrigados sempre a escolher o menos ruim entre os dois. Trocamos a corrupção financeira em larga escala pela corrupção dos hábitos e costumes nacionais, ambas provocando a deterioração da democracia brasileira.
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A EPIDEMIA DA MENTIRA

Bernardo Mello Franco, O GLOBO
Crer que Jair Bolsonaro possa ser domado é um ato de fé. Desde os tempos do quartel, ele pensa e age como um extremista. Sua carreira política foi construída com mentiras, insultos e ameaças à democracia.
Na Presidência, o capitão continua o mesmo. Seu governo opera na lógica do confronto permanente. Quem tenta moderá-lo é hostilizado e recebe a pecha de traidor, como ocorreu com o general Santos Cruz.
No pronunciamento de terça, o presidente ensaiou uma mudança de tom sobre o coronavírus. Depois de chamar a epidemia de “gripezinha”, disse que seu combate será o “maior desafio da nossa geração”.
Lendo o teleprompter, Bolsonaro pregou a “união de todos num grande pacto pela preservação da vida e dos empregos: Parlamento, Judiciário, governadores, prefeitos e sociedade”. Logo ele, que nas últimas semanas foi a um ato pelo fechamento do Congresso e chamou os governadores de “exterminadores de empregos”.
Acreditou quem quis. Em menos de 12 horas, o presidente arrancou a máscara da conciliação. Ontem ele divulgou um vídeo apócrifo para atacar os governadores e torpedear as medidas de isolamento social. Na peça, um homem dizia faltar comida na Ceasa de Belo Horizonte.
A cascata foi desmontada pela rádio CBN. O repórter Pedro Bohnenberger visitou o local e mostrou que não havia desabastecimento. Pelo contrário: as vendas aumentaram na pandemia, já que as pessoas passaram a fazer mais refeições em casa.
Bolsonaro não está sozinho na difusão de fake news. Na terça, Sergio Moro propagou uma lorota para fazer populismo penal. Segundo o ministro, um preso libertado por causa da pandemia teria sido flagrado com 124 quilos de cocaína, sete fuzis e uma submetralhadora. “Situação do indivíduo que é colocado em prisão domiciliar por questões humanitárias relacionadas ao coronavírus”, concluiu, com ar de reprovação.
A história era falsa, revelou checagem do Fato ou Fake. Moro não se desculpou, e sua assessoria disse que “a recomendação dada na entrevista continua sendo válida”. Ontem foi Primeiro de Abril, mas o governo pensa que todo dia é Dia da Mentira.
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SÓ FALTAVA CHORAR

Ascânio Seleme, O GLOBO
Não foi a primeira vez nessa crise sanitária que o presidente Bolsonaro deu sinais de que iria voltar atrás para logo em seguida destruir o esforço conciliatório. A primeira foi quando recuou da convocação para a manifestação contra Supremo e Congresso e depois correu para os braços dos manifestantes. A segunda aconteceu quando ele disse estar havendo uma histeria no país para em seguida recuar e adiante anunciar que faria uma festinha para comemorar seu aniversário e o da mulher. E, finalmente, diz num pronunciamento que a Covid-19 não passa de uma gripezinha e culpa os governadores por futura crise econômica.
Depois, em novo pronunciamento fala em entendimento e trabalho conjunto com as autoridades estaduais e, no dia seguinte, compartilha vídeo fake com críticas aos governadores.
Não dá para levar este homem a sério. Os jornais de ontem apontaram a mudança de tom do presidente. Foi uma benevolência arriscada. Embora a afirmativa fosse correta, Bolsonaro de fato mudara o tom, era óbvio que a nova abordagem sobre o tema não duraria muito. Pois durou menos de 12 horas. O depoimento pregando a conciliação foi ao ar às 20h30m de terça. O vídeo com ataque aos governadores foi compartilhado às 7h57m de ontem. Já escrevi aqui, há muito pouco tempo, que não podemos passar a mão na cabeça de Bolsonaro como se fosse um menino travesso que pede desculpas depois de fazer uma arte. Ele não merece mais a confiança dos brasileiros.
O presidente está muito mal cercado. Os únicos assessores que ouve são os filhos e os terraplanistas de sempre. Gente séria, que aparentemente só deseja o melhor para o país, como os ministros Braga Netto, Tereza Cristina, Tarcísio de Freitas, Luiz Henrique Mandetta, Sergio Moro e Paulo Guedes não conseguem romper o círculo de ferro e ódio armado em torno de Bolsonaro. Os que chegam a se aproximar um pouco mais são logo sabotados por Zero Um, Zero Dois e Bananinha. O Zero Dois agora sentou praça dentro do Palácio do Planalto. Pode? Acho que não, mas no estilo de governar desta turma muito não pode e ela ainda assim segue fazendo.
A novidade desses dias é que o presidente tem chorado. Só faltava essa. Matéria de Igor Gielow, na “Folha”, revela que Bolsonaro chorou numa reunião com gente que nem era de seu círculo mais próximo. Depois, no domingo, ao voltar do passeio pelas cidades-satélites do Distrito Federal, ele falou com jornalistas e deu para ver na TV seus olhos brilhando. Uma imagem do fotógrafo Orlando Brito da mesma cena não deixa dúvidas, ele quase chorou. Essas lágrimas significam duas coisas, uma delas identificada pelo repórter da “Folha”. Bolsonaro está fragilizado emocionalmente. Eu acrescento que essa emoção, se verdadeira, deveria ser atribuída às inúmeras bobagens que ele comete. Se fossem honestas, seriam lágrimas de arrependimento.
Mas não são honestas. O choro presidencial lembra outras lágrimas da história nacional. Me refiro a um episódio envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula chorou publicamente inúmeras vezes antes, depois e ao longo do seu mandato. Mas um deles, o que ocorreu no discurso após ter sido conduzido coercitivamente para depor em São Paulo, foi de puro oportunismo político. Não havia por que chorar, e um homem como Lula não se quebra facilmente. Tanto que não derramou uma lágrima sequer quando foi preso. Mas naquele discurso, lágrimas cairiam bem, dramatizariam um ato jurídico legal, embora desnecessário.
O presidente e o ex-presidente são de matizes absolutamente diferentes, mas as lágrimas de Bolsonaro agora não diferem em nada das de Lula de março de 2016. Na reunião com gente pouco conhecida, talvez quisesse que vazasse sua emoção fingida. No domingo passado, Bolsonaro tentou chorar quando falava dos brasileiros que precisam trabalhar para levar comida para casa. Francamente, um homem que não se importa que pessoas morram com a Covid-19 e que atrasou em uma semana a distribuição de recursos emergenciais aos mais pobres não vai chorar depois de passear no mercado da Ceilândia. Por isso aqueles olhos estavam apenas rasos d’água.
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TRUMP APLICA UMA RASTEIRA EM BOLSONARO E O JOGA NO CHÃO

Do Blog do Noblat, VEJA
Adianta ter dinheiro para gastar? – queixou-se, ontem, o ministro Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, em seu desabafo diário na sessão fim de tarde. Adianta fechar contratos de importação, fixar multa caso não sejam cumpridos, se alguém com muito dinheiro vai às compras e paga por elas o que lhe cobrarem?
O presidente Donald Trump, a quem Jair Bolsonaro imita e reverencia como ídolo, foi às compras, pagou mais caro e arrebatou tudo o que o governo brasileiro esperava receber da China em matéria de equipamentos essenciais para a proteção dos profissionais da saúde e o combate ao coronavírus.
Foi uma razia. Trump mandou 23 grandes aviões militares se entupirem na China de tudo que estivesse à venda. Mais de 240 mil americanos poderão ser mortos pelo vírus a se confirmarem as piores previsões. No momento, 187 mil estão infectados e há 4.600 mortos. Nos atentados de 11 de setembro, morreram 2.977.
Até a semana passada, Trump ainda se referia ao coronavírus como “uma gripezinha”. Entendeu por que Bolsonaro repetia gripezinha? Trump, depois, admitiu que o coronavírus seria um caso sério, como está vendo. Aqui, anteontem, Bolsonaro concedeu ao vírus a patente de “o maior desafio da nossa geração”.
Os dois conversaram por telefone. Trump informou a Bolsonaro que “o Brasil está parando”. Nada que Bolsonaro não soubesse. Dizem assessores de Bolsonaro que ele ofereceu ajuda. A maior ajuda seria não ter comprado o que o Brasil já comprara. Mas América em primeiro lugar! E a situação está feia em todo canto.
Se morrerem apenas 110 mil americanos, o numero será maior do que a soma de todos os que morreram nas guerras da Coreia (40 mil), do Vietnam (58 mil) e do Iraque e Afeganistão (6,6 mil). O ano nos Estados Unidos é de eleição presidencial. Trump já teve a reeleição garantida. Agora teme o que possa acontecer.
Como Bolsonaro também teme – no seu caso, não a reeleição, mas a sorte do atual mandato. O número de brasileiros infectados é muito maior do que o reconhecido oficialmente – 6.836. O de mortos, idem – 241. O próprio Mandetta advertiu para o crescimento de tais cifras a partir de hoje.
São Paulo e Rio de Janeiro estão no epicentro da pandemia. Nos dois Estados, 250 mortos esperam o resultado dos seus exames. Decepcionaram-se em poucas horas os que esperaram que a fala à Nação de anteontem significasse uma mudança de comportamento de Bolsonaro. Saíra de cena o radical. Entrara o moderado.
Qual o quê! Bolsonaro amanheceu postando nas redes sociais outra fakenews – desta vez o vídeo de um homem sobre desabastecimento em Belo Horizonte. Deu tempo para que seus devotos o copiassem e reproduzissem. Então apagou o vídeo e pediu desculpas. No fim da tarde, aprontou novamente.
Voltou a criticar os governadores que adotaram medidas restritivas em seus Estados, e defendeu que os mais necessitados fossem trabalhar para garantir o sustento. Não se sabe como o dinheiro prometido a essas pessoas pelo governo chegará às suas mãos. Por enquanto, nem o governo parece saber.
E pensar que tudo só está começando, e começando mal desse jeito… A coincidência de epidemias (coronavírus, dengue, influenza e bolsonarismo) ameaça fazer muito mal ao Brasil.
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quarta-feira, 1 de abril de 2020

BOLSONARO, ISOLADO E DESAFIADOR, DESCARTA AMEAÇA DE CORONAVÍRUS NO BRASIL

Do The New York Times
Ernesto Londoño , Manuela Andreoni e Letícia Casado 
RIO DE JANEIRO - À medida que crescem os casos e as mortes de coronavírus no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro permanece desafiador, o último destaque notável entre os principais líderes mundiais em negar a gravidade do coronavírus.
Os brasileiros, declarou ele na semana passada , são especialmente adequados para enfrentar a pandemia, porque podem ser enterrados em esgoto bruto e "não pegam nada".
Desafiando as diretrizes emitidas por seu próprio ministério da saúde, o presidente visitou domingo um movimentado distrito comercial de Brasília, capital, onde pediu a todos os brasileiros, com exceção dos idosos, que voltassem ao trabalho.
Em seguida, ele insistiu que uma pílula anti-malária de eficácia não comprovada curaria aqueles que adoecerem com o vírus que matou mais de 43.000 pessoas em todo o mundo.
"Deus é brasileiro" , disse ele a uma multidão de apoiadores . "A cura está aí."
Vários líderes mundiais - entre eles o presidente Trump e o primeiro-ministro Boris Johnson - demoraram a compreender a ameaça do vírus altamente contagioso e relutaram em adotar medidas de distanciamento social perturbadoras e economicamente dolorosas que se tornaram a norma em grande parte do mundo.
Mas Bolsonaro continua sendo o principal destaque ao evitar o consenso científico sobre as medidas de bloqueio necessárias para impedir que os sistemas de saúde sejam sobrecarregados.
A maneira como ele lidou com a crise levou a consternação em todo o espectro político do país, já que líderes do Congresso , conselhos editoriais e chefe do Supremo Tribunal Federal pediram aos brasileiros que ignorassem seu presidente. Um movimento para impeachment de Bolsonaro está ganhando apoio popular, com brasileiros batendo panelas em suas janelas todas as noites para repudiar seu presidente.
"Ele demonstrou ser incapaz de ser presidente", disse Maria Hermínia Tavares de Almeida, cientista política da Universidade de São Paulo. "Ele permanece no poder por uma razão muito simples: ninguém quer criar uma crise política para expulsá-lo em meio a uma emergência de saúde".
Desde que o novo coronavírus foi detectado no Brasil no final de fevereiro, o vírus se espalhou rapidamente por todo o país, com grandes grupos em São Paulo e no Rio de Janeiro, os estados mais populosos do país. Na quarta-feira, havia 6.836 casos confirmados no Brasil, onde os testes são limitados e 240 mortes registradas.
Em um discurso televisionado na noite de terça-feira , Bolsonaro falou sobre o vírus em termos mais graves, chamando-o de "o maior desafio de nossa geração".
Mas o presidente não aprovou medidas estritas de quarentena e parafrasearam declarações enganosas do chefe da Organização Mundial da Saúde para afirmar que os trabalhadores informais deveriam continuar trabalhando.
"Os efeitos colaterais das medidas para combater o coronavírus não podem ser piores que a doença real", disse ele.
Em grande parte do país, suas palavras foram abafadas por manifestantes batendo em panelas e cantando "Abaixo Bolsonaro!"
Em meados de março, os governadores começaram a pedir aos brasileiros que ficassem em casa, a menos que trabalhem em setores críticos e pediram que várias categorias de negócios fossem fechadas. Desde então, o comércio, o trânsito e os vôos foram bastante reduzidos, limitando a maior economia da América Latina, que ainda precisa se recuperar de uma recessão brutal em 2014.
Enquanto a colcha de retalhos das medidas de bloqueio endurecia, Bolsonaro atacou os governadores por cair em um estado de "histeria" e afirmou, sem provas, que eles estavam inflando números de coronavírus para ganho político. Ele atacou jornalistas, acusando-os de provocar pânico em um esforço para minar seu governo. Ele chamou o vírus de "um resfriado moderado".
"Alguns vão morrer" com isso, disse ele, porque "assim é a vida".
No fim de semana, Twitter, Facebook e Instagram excluíram postagens de Bolsonaro nas quais ele questionava medidas de distanciamento social, considerando as postagens em violação às diretrizes que proíbem conteúdo que põe em risco a saúde pública.
Na terça-feira, a Organização Mundial da Saúde instou os líderes das Américas a expandir urgentemente a capacidade de atendimento ao paciente ao implementar medidas de distanciamento social que talvez precisem permanecer por pelo menos três meses.
"Tais medidas podem parecer drásticas, mas são a única maneira de impedir que os hospitais sejam sobrecarregados por muitas pessoas doentes", Dra. Carissa F. Etienne, diretora da Organização Pan-Americana da Saúde, escritório regional da Organização Mundial da Saúde, a repórteres em Washington. Ela acrescentou que os protocolos de distanciamento social "continuam sendo nossa melhor aposta" para combater o vírus.
Bolsonaro e seus aliados dizem que ele está sendo injustamente retratado como imprudente por postular que as rigorosas medidas de isolamento podem ser mais prejudiciais para o bem-estar dos brasileiros do que permitir que o vírus cresça mais rapidamente.
“O presidente e o governo estão trabalhando em duas frentes: salvar vidas e salvar empregos”, disse Victor Hugo de Araújo, parlamentar federal que serve como principal canal de Bolsonaro para o Congresso. "O que o governo está fazendo é tentar encontrar um meio termo entre o bloqueio total e permitir que a economia e o comércio continuem."
Embora a conduta de Bolsonaro possa parecer politicamente autodestrutiva, ele provavelmente está fazendo uma aposta calculada, disse Malu Gatto, professor assistente de política latino-americana na University College London.
“Governadores estão tomando medidas, garantindo efetivamente práticas de isolamento, enquanto Bolsonaro pode continuar a pregar que o governo federal está focado em promover o crescimento econômico”, disse Gatto. Isso posiciona o presidente para "colher os benefícios", acrescentou ela, das medidas de bloqueio enquanto se retrata publicamente como um campeão dos brasileiros que estão desempregados.
A resposta de Bolsonaro à pandemia fez dele uma aberração em uma região onde a maioria dos líderes agia rapidamente para implementar medidas de permanência em casa, fechar fronteiras e fechar negócios. Tais medidas foram adotadas em outros países politicamente polarizados, incluindo Chile, Argentina e Colômbia , com pouca discórdia.
Outro grupo discrepante é a Nicarágua, onde o governo socialista de Daniel Ortega manteve escolas abertas e organizou comícios em massa. Rosario Murillo, vice-presidente da Nicarágua e sua primeira-dama, disse no domingo que o país não poderia parar e que "com fé podemos vencer o medo".
Embora o vírus tenha devastado a economia global, os países da América Latina estão sofrendo golpes particularmente dolorosos porque vários estavam lutando para aumentar o crescimento, conter a inflação e pagar dívidas muito antes da pandemia os colocar em crise.
Na semana passada, o Senado do Brasil aprovou um pacote de assistência para conceder a 30,8 milhões de trabalhadores informais um subsídio mensal de US $ 115 por três meses. No início do mês, o Brasil declarou estado de calamidade pública , o que permite ao governo exceder os limites de gastos e aumentar os gastos com saúde.
Diante das mensagens confusas vindas da capital, os brasileiros em comunidades vulneráveis ​​têm tomado as próprias mãos nos últimos dias, em um esforço para se proteger do vírus.
Os líderes indígenas fecharam o acesso a vilarejos remotos, em alguns casos barricando estradas, temendo que o coronavírus pudesse acabar com comunidades inteiras que têm acesso limitado a cuidados médicos.
"Eles estão tentando aderir às diretrizes de isolamento e restringir as idas e vindas dos povos indígenas de e para as cidades", disse Márcio Santilli, ativista dos direitos indígenas.
Mas Santilli disse que há um grave perigo nos territórios indígenas que foram invadidos por mineradores e madeireiros, cujas transgressões são impossíveis de conter. E ele também expressou preocupação com tribos isoladas, a quem os missionários evangélicos têm tentado alcançar.
Na quarta-feira, uma mulher de 20 anos da tribo Kokama, perto da fronteira com a Colômbia, testou positivo para o vírus, o primeiro caso relatado entre os grupos indígenas do Brasil, segundo a agência de serviços de saúde indígena do Ministério da Saúde, Sesai.
Nas favelas do Rio de Janeiro, as quadrilhas de traficantes impuseram toque de recolher noturno e líderes comunitários lançaram campanhas para convencer as pessoas a limitar seu movimento a tarefas essenciais.
Verônica Brasil, ativista da favela da Cidade de Deus, uma das maiores da cidade, disse que os voluntários estavam coletando produtos de higiene e cestas de alimentos para ajudar as famílias que já lutam para sobreviver antes que os negócios comecem a fechar.
"O desespero está crescendo", disse Brasil. "As pessoas estão ficando sem comida e perdendo empregos."
Ernesto Londoño e Manuela Andreoni, do Rio de Janeiro, e Letícia Casado, de Brasília. Frances Robles contribuiu com reportagem de Key West, Flórida, e Alfonso Flores Bermúdez contribuiu com reportagem de Manágua, Nicarágua.
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BOLSONARO CHORA; É PENA DE SI MESMO, NÃO DOS BRASILEIROS

Lúcia Guimarães, Folha de S.Paulo
Nos últimos dias, conhecidos que leram esta reportagem sobre o desafio à saúde mental na pandemia do coronavírus me procuraram para dizer que a conclusão tinha provocado um frio na espinha, não pela sorte dos americanos, mas pela dos brasileiros.
Conversei com uma renomada psiquiatra forense da Universidade de Yale sobre o comportamento de Donald Trump.
Este foi o comentário de Bandy Lee: "Quem não tolera a realidade é especialmente perigoso numa pandemia, algo que requer tanto esforço coordenado de prevenção".
O estado mental de um presidente já seria um fator de segurança nacional em tempos de paz e relativa tranquilidade social.
Durante uma pandemia sem precedentes, comportamentos que apontam para desequilíbrio e distúrbios de personalidade tornam um líder no sistema presidencialista muito mais perigoso e letal.
E, aqui, temos a dupla ameaça continental. Jair Bolsonaro chorando no ombro de militares com pena de si mesmo, enquanto planeja friamente a morte em massa de brasileiros.
E Trump, consumido por cólera, acusado de pedir a fornecedores que não entreguem suprimentos médicos urgentes “àquela mulher”, a governadora democrata do estado de Michigan, Gretchen Whitmer, que ousou criticá-lo.
Há três anos, Bandy Lee entrou em choque com a Associação Psiquiátrica Americana (APA) por uma mudança, feita logo após a posse de Trump, na orientação ética para a opinião de médicos sobre a saúde mental de figuras públicas.
A APA alterou a chamada regra de Goldwater, que determina que um psiquiatra só pode dar um diagnóstico a uma figura pública se a examinar pessoalmente.
Lee afirma que a mudança foi política, e não médica ou científica. “Observar um comportamento incomum num líder, informar e educar o público sobre os variados tipos de desordem, não é o mesmo que diagnosticar um paciente,” diz a psiquiatra.
“No momento em que alguém se torna paciente, a regra para o médico é o sigilo absoluto.” Então, diz ela, a mudança da APA se tornou, na prática, uma mordaça para a classe médica, depois da posse de um presidente que dá sinais de instabilidade psíquica e neurológica.
“A APA não saiu atrás de médicos", lembra Lee, “que, com base na observação de grande quantidade de vídeos, sugeriram que o presidente sofre de uma leve forma de demência”.
Em novembro passado, o ex-médico da Casa Branca David Schneider, que tratou de Barack Obama por 22 anos, sugeriu que Trump demonstra em público sinais de ter pequenos AVCs, pela forma como, às vezes, luta para pronunciar certas palavras.
A Constituição americana tem a 25a emenda, que permite a remoção de um presidente se o vice-presidente toma a iniciativa de declarar incapacidade física ou mental do chefe, acompanhado de pelo menos oito membros do gabinete. O vice assume imediatamente.
O presidente pode resistir e pedir um voto às duas casas do Congresso. Se dois terços não concordarem com o vice, o presidente recupera o cargo.
Depois de três anos de quebra-quebra em Washington, o Partido Republicano já deixou claro que não há limite para o comportamento de Trump capaz de causar alarme.
O subserviente vice Mike Pence aguarda apenas a manhã de 4 de novembro, seguinte à da eleição deste ano, para se lançar candidato em 2024, pouco importa o resultado das urnas.
A Constituição brasileira não tem nenhuma provisão para comportamento que sinalize distúrbio mental ou doença física num chefe de Estado.
O advogado paulista Acácio Miranda me explica que, historicamente, houve debates sobre o tema, no período de Jânio Quadros, que renunciou em 1961, e em 1985, quando Tancredo Neves entrou em coma e não pôde tomar posse.
Miranda é especialista em direito constitucional e diz que o comportamento errático de Bolsonaro só resultaria no seu afastamento através de impeachment por incompatibilidade com o exercício da Presidência.
“Mas mesmo assim,” diz o advogado à Folha, “estaríamos num território subjetivo, diante da presente Constituição.”
Em 2017, a psiquiatra Lee editou o livro "The Dangerous Case of Donald Trump" (o perigoso caso de Donald Trump), em que 27 psiquiatras e especialistas em saúde mental avaliaram o presidente com base no seu comportamento em público.
Lee lembra que participou de uma conferência de psiquiatras na Universidade de Harvard em que debateram o papel da profissão em denunciar sinais de risco no comportamento de Trump.
Um deles disse que nenhum dos pacientes privados que, de fato, havia diagnosticado oferecera tanta fartura de sintomas na forma de pronunciamentos públicos registrados em vídeo. Na mesma hora, conta ela, a maioria da plateia concordou.
Ao longo da conversa, Lee vai reiterando a distinção entre diagnóstico de um paciente e as observações que ela faz. Considera Trump a pessoa mais perigosa do planeta porque risco se aplica a situações concretas.
“Combina o status mental de uma pessoa com seu acesso ao poder”, diz. “Se Trump fosse um cidadão privado, não seria um risco para o país. Com seu acesso aos códigos nucleares, eu o considero o homem mais perigoso da história.”
Lee vê no comportamento público de Trump, “muito mais desinibido do que a média dos meus pacientes”, sinais de narcisismo patológico e sociopatia —esta não se trata de diagnóstico privado, como seria a demência.
Ela afirma que, por ser incapaz de demonstrar empatia, o presidente vê na pandemia uma oportunidade para se beneficiar.
Há dias, ele mandou um recado claro a governadores democratas: demonstrem gratidão em público. De acordo com analistas, foi uma forma de acumular sonoras úteis para anúncios da campanha de reeleição.
“Trump vê na pandemia do coronavírus, não uma crise humanitária, mas uma inconveniência que pode atrapalhar sua reeleição e dar prejuízos a suas propriedades”, diz a psiquiatra, especulando se o presidente pode tentar algo para perturbar o processo eleitoral.
“Não estou falando de possibilidades, mas de probabilidades”, conclui.
É mesmo difícil não temer que as observações da psiquiatra de Yale descrevam mais de um presidente.
Lúcia Guimarães
É jornalista e vive em Nova York desde 1985. Foi correspondente da TV Globo, da TV Cultura e do canal GNT, além de colunista dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo. Colabora com o canal digital MyNews.
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ALEGORIA DE CAMUS

Do Blog do Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense
Publicado em 1947, A Peste, do escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960), é uma alegoria da ocupação nazista. Por isso, fez tanto sucesso não só na França como na Europa do pós-guerra e também na América Latina, inclusive no Brasil, nas décadas de 1960 e 1970. Camus foi um militante da Resistência, mas teve uma posição muito moderada em relação aos que colaboraram com os invasores alemães durante a II Grande Guerra, condenando os “justiçamentos”. Já era um escritor consagrado, com duas obras elogiadíssimas pela crítica: O estrangeiro e O mito de Sísifo.
Albert Camus nasceu em 7 de novembro de 1913 na Argélia, à época uma colônia francesa, cenário de seu romance, que conta a história de uma epidemia na cidade de Oran, no norte daquele país. Em 1940, um médico encontrou um rato morto ao deixar seu consultório. Comunicou o fato ao responsável pela limpeza do prédio. No dia seguinte, outro rato foi encontrado morto no mesmo lugar. A esposa do médico tinha tuberculose e foi levada para um sanatório. A quantidade de ratos aumentou exponencialmente. Em um único dia, oito mil ratos foram coletados e encaminhados para cremação.
Em pânico, a cidade declarou estado de calamidade, as pessoas tinham febre e morriam em massa. Os muros foram fechados, em quarentena, ninguém entrava ou saía; os doentes foram isolados, as famílias, separadas. Enquanto o padre apregoava que tudo aquilo era um castigo divino, prisioneiros eram mobilizados para enterrar os cadáveres, que empilhavam nas ruas: velhos, mulheres e crianças morriam. O livro é uma alegoria da condição de vida regulada pela morte, fez muito sucesso porque era uma crítica ao fascismo e relatava as diferenças de comportamento diante de situações-limite. Fora escrito durante a ocupação militar alemã. Camus foi editor do jornal clandestino Combat, porta-voz dos partisans.
Em 1951, Camus lançou o livro O homem revoltado, no qual condenava a pena de morte e criticava duramente o comunismo e o marxismo, o que provocou uma ruptura com seu amigo e filósofo Jean-Paul Sartre, que liderou seu linchamento moral por parte da intelectualidade francesa. Mesmo depois do Prêmio Nobel de Literatura, em 1957, continuou sendo um renegado para a esquerda. Seu discurso na premiação foi profético. Permanece atual nestes tempos de epidemia de coronavírus.
“Cada geração se sente, sem dúvida, condenada a reformar o mundo. No entanto, a minha sabe que não o reformará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrupta onde se mesclam revoluções decaídas, tecnologias enlouquecidas, deuses mortos e ideologias esgotadas, onde poderes medíocres podem hoje a tudo destruir, mas não sabem mais convencer, onde a inteligência se rebaixou para servir ao ódio e à opressão, esta geração tem o débito, com ela mesma e com as gerações próximas, de restabelecer, a partir de suas próprias negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e de morrer”, disse Camus.
Epidemia
Em comemoração aos 60 anos de sua morte, divulgou-se na França um de seus textos da época da resistência, cujo original foi encontrado nos arquivos do general De Gaulle, o presidente francês que liderara a Resistência do exílio. O documento era destinado às forças que combatiam o marechal Pétain e trata de dois sentimentos presentes no contexto da ocupação: ansiedade e incerteza. A ansiedade “em uma luta contra o relógio” para reconstruir o país; a incerteza, em razão do fato de que, “se a guerra mata homens, também pode matar suas ideias”.
A alegoria de A Peste também serve de advertência diante de certas manifestações de apoio ao regime militar implantado após o golpe de 1964, cujo aniversário foi comemorado ontem. Em 1974, o Brasil enfrentou a pior epidemia contra a meningite de sua história. Para evitar o contágio, o governo decretou a suspensão das aulas e cancelou os Jogos Pan-Americanos de 1975, que foram transferidos de São Paulo para o México. A epidemia começou em 1971, no distrito de Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo. Com dor de cabeça, febre alta e rigidez na nuca, muitos morreram sem diagnóstico ou tratamento.
Em setembro de 1974, a epidemia atingiu seu ápice. A proporção era de 200 casos por 100 mil habitantes, como no “Cinturão Africano da Meningite”, que hoje compreende 26 países e se estende do Senegal até a Etiópia. O Instituto de Infectologia Emílio Ribas, com apenas 300 leitos disponíveis, chegou a internar 1,2 mil pacientes. Na época, eu era um jovem repórter do jornal O Fluminense, de Niterói (RJ). Com a cumplicidade de um acadêmico de medicina, conseguimos fotografar pela janela uma enfermaria lotada de crianças com meningite, no Hospital Universitário Antônio Pedro (UFF). A foto foi publicada com a matéria, mas gerou a maior crise política para a direção do jornal, porque a meningite era um assunto censurado pelos militares. A epidemia só acabou no ano seguinte, após a vacinação de 80 milhões de pessoas, que seria impossível com a manutenção da censura sobre a meningite pelo governo do general Ernesto Geisel.
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PELA ECONOMIA, É MELHOR PARAR

Míriam Leitão, O GLOBO
Não há dilema entre economia e combate à pandemia. É o oposto. A economia reduz a atividade e tenta parar exatamente para evitar a recessão maior. O economista André Medici, do Banco Mundial, especializado em saúde, diz isso com números. A economia mundial pode encolher 4,9% no primeiro semestre, mas se recuperar no segundo  e terminar o ano com queda de 1,5%. Se relaxar o isolamento, há mais risco de uma ressurgência do vírus e então o tombo do PIB global será de 4,7%.
Ele elaborou os dados com base nos cenários da McKinsey e Oxford Economic Analysis para este ano. O que vai acontecer segundo essas grandes consultorias é a economia ter um baque forte no primeiro semestre. O que elas dizem é que se houver um isolamento total – das atividades não essenciais, evidentemente – o custo econômico será menor.
– A China terá uma queda de 3,3% no primeiro semestre, mas termina o ano com um ligeiro negativo de 0,4%. Os Estados Unidos caem 8% no primeiro semestre, mas a retomada do segundo semestre permitirá reduzir essa recessão para 2,4%. A zona do euro sofre mais. Deve cair 9,5% no primeiro semestre e depois reduzir essa queda para 4,4% – diz o economista.
Só que, segundo ele, depende de como as autoridades desses países enfrentarão o desafio da pandemia em si. O que ele acha que dá certo é parar agora ao máximo para reduzir o contágio e assim diminuir o risco e a dimensão de uma segunda onda do vírus:
– É preciso o lockdown total por um tempo determinado enquanto se criam mecanismos seguros para o retorno. Isso evitará ou mitigará a ressurgência. Para se ter uma ideia, se errarmos agora e o vírus voltar com força a recessão na China será de 2,7%, a mesma coisa nos Estados Unidos. A zona do euro pode encolher 9,7%, e o mundo, ao todo, 4,7%.
Então para evitar um desastre maior da economia é preciso exatamente parar a economia agora:
– Essa é a maior pandemia do século. A última que houve foi a gripe espanhola que teve um enorme impacto, com 24 a 50 milhões de mortos, 25% dessas mortes na Índia. Aquele era um vírus que atingia principalmente a população em idade de trabalhar. O novo coronavírus é muito contagioso. É por isso que é preciso o lockdown. Se a parada for bem-sucedida a possibilidade de ressurgência é menor, e a economia se recupera mais rápido.
Ele diz que é preciso pensar em duas coisas enquanto há o isolamento social dos que puderem parar. A garantia do apoio econômico aos trabalhadores que ficaram sem renda, para sustentar o isolamento, e a estratégia para a volta segura ao trabalho. Médici contou que em Nova York o governador permitiu a continuidade dos trabalhos de construção de casas populares. Mas os trabalhadores não se sentiam seguros. Eles usavam máscaras, luvas, toda a roupa de segurança, mas a dúvida é se no banheiro ou refeitório poderiam se contaminar. As empresas então contrataram mais funcionários para o serviço de higienização e as obras puderam continuar.
– Vamos ter que entender o comportamento do vírus e ao mesmo tempo saber que tipo de proteção será possível para o negócio continuar. E os negócios com mais riscos, pelo nível de contato entre as pessoas, não poderão ser feitos. O lockdown é necessário mas é preciso pensar as saídas. Neste momento, o lockdown é fundamental pelo nível de ignorância que nós temos sobre a doença. Mas as informações vão avançar rapidamente. Há empresas pensando em medicamentos biológicos e vacina – diz.
Ele diz que dois países o preocupam particularmente. A Índia, pelo número grande de pessoas em cada casa, e o Brasil, pelos sinais contraditórios dados pelo próprio governo, sobre como isso será enfrentado. Ele tira o chapéu para o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, mas lamenta o clima belicoso criado pelo presidente.
A vantagem do Brasil é ter o SUS, e ele recomenda aumento forte dos gastos no sistema. Desde 2006, a OMS determinou que os países se preparassem para emergências sanitárias. E foram criados vários indicadores de avaliação.
– O Brasil é o melhor da América Latina. Está melhor que o Chile, por exemplo. Mas nenhum país do mundo está 100% preparado. O que estamos vendo na prática é que a maioria dos países não tem capacidade de resposta – diz André Médici.
A travessia é perigosa, as escolhas, complexas. E o presidente cada dia inventa uma briga. Ontem resolveu distorcer o sentido das palavras do diretor-geral da OMS.
Com Alvaro Gribel (de São Paulo)
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BOLSONARO TRAVA UMA GUERRA COM TODA A HUMANIDADE

Marcelo Coelho, Folha de S.Paulo
É incrível como cargos públicos e posições de poder terminam impressionando até as pessoas mais críticas.
Um chefe de Estado pode ser irresponsável, psicopata ou palhaço —sempre haverá quem veja na sandice algum tipo de estratégia sofisticada.
Diante de um jumento, há quem ponha a mão no queixo e diga: “Hum, esperem um pouco. Burro ele não é”.
Simpatizo com essa atitude. Se, por acaso, eu encontrasse Adolf Hitler numa reunião social, sei que minha opinião a seu respeito acabaria melhorando.
Vejo-o numa rodinha de empresários e banqueiros; ele conta uma piada não especialmente preconceituosa. Todos riem. Um garçom se aproxima.
“O senhor aceita uma empadinha de palmito?” Adolf é simpático com o serviçal. “Não, agora não, obrigado.” Sua voz se torna mais íntima. “Estou tentando dar uma emagrecida, hehe.”
O garçom já está se afastando quando Hitler muda de ideia. “Ah, quer saber?” Ele pega a empadinha de palmito, e sorri. “Começo o regime amanhã!”
Nada mais banal. Não duvido: Hitler deve ter sido capaz de banalidades, entre um genocídio e outro.
Pego eu mesmo uma empadinha. “Puxa, afinal o Hitler não é tão ruim como dizem.”
Eu esperava um rottweiler de uniforme, latindo e babando sem parar. Encontro um ser humano. Ele não está em surto psicótico o tempo inteiro. Tem atitudes normais com relação a dietas, garçons e empadinhas.
Passo ao presidente Bolsonaro. Ele foi à TV para criticar as medidas de isolamento contra o coronavírus, adotadas no mundo inteiro. Perdeu muito apoio com isso, claro.
Há quem veja em sua loucura algum maquiavelismo político. Vai saber. Bolsonaro terá condições, no futuro, de culpar outras autoridades pela queda no PIB. Quando a crise passar, sairia fortalecido como um defensor do crescimento econômico.
Minha impressão é diferente. Se os hospitais explodirem e o número de mortes for o que se imagina, será difícil para Bolsonaro negar responsabilidade direta pela catástrofe.
Não há cálculo, eu acho. Ele simplesmente acredita no que diz. Acredita, por exemplo, que tem excelente condição física (a facada foi de somenos) e que a maioria das pessoas terá, no máximo, os sintomas de uma “gripezinha”.
Como entender as origens dessa convicção? Não é só burrice. O burro normal tem medo de se contaminar.
As opiniões de Bolsonaro e de seus gurus se articulam num sistema coerente. A tese da “gripezinha” combina com a negação do aquecimento global, com a ideia da Terra plana, com a xenofobia racista, com a defesa da liberação das armas de fogo.
Todos esses delírios têm pontos em comum. Em primeiro lugar, há uma espécie de repulsa à própria ideia de que a humanidade é uma coisa só. Assim, os direitos humanos não valem para todos os humanos —só para quem for decente e honesto.
Reconhecer a crise climática é algo que pode unir franceses e mexicanos, heterossexuais e homossexuais, crianças escandinavas e idosos do Zambeze. É uma causa universal demais; irmana o mundo inteiro —e é isso o que o extremista de direita não consegue aceitar.
Ele encontra, nessas teses delirantes, o passaporte imaginário para um mundo em que ele é melhor e sabe mais do que os outros.
Proibir armas de fogo, assim como recomendar o isolamento na pandemia, é sobretudo uma atitude de bom senso.
Mas o extremista foge do bom senso, mesmo que a custo do ridículo, da ilogicidade, do terraplanismo. O animal quer fugir da manada, sem perder a sua animalidade jamais.
Nesse ponto, sua orgulhosa irracionalidade se dá bem com o liberalismo econômico. Cada um por si: nada mais certo, pensa ele. Tenho direito a comprar armas de fogo, porque sei como usá-las. Além disso, não sou um vagabundo. Logicamente, sou contra aumentar os gastos estatais, porque no Estado só existem vagabundos. Digo mais: quem defende gastos estatais é vagabundo também.
Enquanto diz isso, o neoliberal enriquece sem esforço no mercado financeiro. Fazendo paródia de um candidato de direita nas eleições de 2018, o humorista Marcelo Adnet foi ao ponto —o empresário riquíssimo de fato acredita que carrega nas costas 99% da população, tendo ainda de aguentar a inveja de tantos parasitas.
O extremista de direita despreza o resto da humanidade. Afinal de contas, é um atleta. Um atirador de elite. Um filósofo. Um miliciano. Um gênio. Um torturador, com muita honra.
Quanto à ciência, à responsabilidade política, à democracia, à humanidade, que fiquem para os imbecis.
Marcelo Coelho
Membro do Conselho Editorial da Folha, autor dos romances “Jantando com Melvin” e “Noturno”. É mestre em sociologia pela USP.
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BOLSONARO PODERADO PODE TER CHEGADO TARDE À CRISE

Igor Gielow, Folha de S.Paulo
Nem parecia Jair Bolsonaro. O presidente que surgiu no pronunciamento em rede nacional na noite desta terça (31) adotou um tom mais tranquilo, ponderado e sem grandes malabarismos retóricos.
Parece tudo sob medida para servir de vacina contra os murmúrios de crime de responsabilidade em torno de sua condução na crise do novo coronavírus, mas talvez o presidente tenha demorado demais.
Seja como for, depois de falar em “gripezinha” e de supor que seu “histórico de atleta” o tornaria quase imune aos efeitos da Covid-19, como disse no apoplético pronunciamento da terça-feira passada (24), Bolsonaro agora sacou o “maior desafio da nossa geração” para definir a pandemia instalada entre nós.
O termo não saiu do nada. Ele foi tirado da fala do comandante do Exército, Edson Leal Pujol, que em mensagem gravada na semana passada falou em “maior missão de nossa geração”, e trai a origem da inspiração do novo posicionamento do presidente.
Se os militares, sejam da ativa ou da ala abrigada no Palácio do Planalto e em outros prédios da Esplanada dos Ministérios, concordam de forma geral que há riscos de instabilidade social associados à crise econômica que quase certamente se agravará com a Covid-19, ninguém estava satisfeito com a posição de Bolsonaro até aqui.
A gota d´água foi a visita do presidente a comerciantes em área popular do Distrito Federal no domingo (29), um dia depois de ouvir do ministro da Saúde, o engolidor de sapos Luiz Henrique Mandetta, que o isolamento parcial defendido por Bolsonaro “por princípio” não era exequível, nem recomendável.
Naquele ponto, o presidente redobrava a aposta na irresponsabilidade sanitária que vinha marcando sua atuação desde o início da emergência do novo coronavírus no Brasil.
O mal-estar estava colocado e piorou quando ficou claro que os dois pilares do governo, Paulo Guedes (Economia) e Sergio Moro (Justiça), alinharam-se a Mandetta no questionamentos acerca da condução da crise pelo presidente.
Restou a Bolsonaro recuar para sair das cordas. A crítica ao isolamento social por meio de quarentenas foi mantida, mas com um verniz de preocupação com o indivíduo afetado. Se tivesse adotado tal posição e não buscado a polarização extrema, talvez o presidente não estivesse tão acuado agora.
Duas mentiras foram programadas para o discurso, para não perder o costume. Tentar associar a fala do diretor da Organização Mundial da Saúde a uma suposta crítica ao isolamento foi mantido, mas de forma bem menos assertiva depois que a organização negou isso —em resposta a um “test-drive” que o presidente havia feito sobre o tema pela manhã.
Já o congelamento do preço de medicamentos, algo que já é anunciado para abril em qualquer farmácia online de São Paulo, não foi combinado com a indústria. Dada a gravidade da crise da pandemia do Sars-CoV-2, que já matou 201 brasileiros até a tarde desta terça (31), esse é um ponto que não deverá ensejar muito debate.
O pronunciamento até pediu uma “união nacional” entre Poderes, governadores e setores da sociedade. Um avanço, dada a crispação do embate de Bolsonaro com governadores ou o insuflamento feito pelo presidente de atos pedindo para fechar o Congresso, o Supremo e outras delicadezas.
Naturalmente ninguém vai acreditar até que a realidade se interponha, mas parece um avanço. A estabilidade emocional do presidente vem sendo objeto de preocupação de auxiliares, conforme a Folha mostrou, e o pronunciamento em modo ansiolítico deixou aliviados alguns observadores do quadro.
A influência da ala militar do governo e também da ativa das Forças também ficou evidente na quantidade de referências a ações sob o comando do Ministério da Defesa. Guedes e suas medidas pontuais foram citados, mas sem tanta pompa.
Isso tudo indica uma nova etapa do manejo da crise? Talvez, mas, como dito, pode ser tarde. Bolsonaro já perdeu o Congresso e o Supremo, que nunca teve de verdade.
Já a aparente tutela operada pelos militares sobre o presidente, algo que já aconteceu antes e foi refutado depois, é algo muito frágil dado o arcabouço familiar da corte bolsonarista e o temperamento instável do ocupante do Planalto.
A responsabilidade imposta a todos os agentes pela Covid-19 poderá lhe dar tempo, mas as semanas de “gripezinhas” e de barata-voa no governo não deverão ser facilmente substituídas pelo “todo indivíduo importa” e o chamamento a “ações coordenadas”.
As panelas em fúria em antigos redutos bolsonaristas de capitais são um eloquente sinal dessa dificuldade.
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NECESSIDADE MORAL

Antonio Delfim Netto, Folha de S.Paulo
Desde antes de sua posse, o presidente Bolsonaro é assessorado (ou melhor, "aceçorado"!) por um grupo ideológico que continua escondido nos porões do palácio.
A desastrada mensagem à nação (24/3), que destruiu parte importante do respeito que lhe tinha a sociedade, foi obra desse tumor maligno que trabalhou à socapa e surpreendeu até os palacianos.
Para verificar a sua inconsequência, basta mostrar o que ele mesmo disse, na terça-feira, 17/3, ao encaminhar a mensagem nº 93 ao Congresso para que este reconhecesse a "necessidade de um estado de calamidade pública" em decorrência da pandemia da Covid-19 declarada pela Organização Mundial da Saúde: "O desafio para as autoridades governamentais em todo o mundo, além das evidentes questões de saúde pública, reside em ajudar empresas e pessoas, especialmente aquelas mais vulneráveis à desaceleração do crescimento econômico, a atravessar este momento inicial".
A resposta do Congresso ao seu apelo foi pronta e segura. Na quinta-feira, 19/3, o Senado aprovou, por unanimidade, a proposta do projeto de decreto legislativo nº 88, da Câmara. Deu ao Executivo os graus de liberdade pedidos, submetendo-o ao necessário controle de uma comissão parlamentar para que a expansão dos gastos não contamine o Orçamento em vigor. Usando-o, o Executivo emitiu, no domingo, 22/3, a rápida e malfeita Medida Provisória 927. Uma barbeiragem gigantesca, que obrigou o presidente a revogar, no dia seguinte, o seu artigo 18, que previa a possibilidade de suspender contratos de trabalho sem nenhuma remuneração ao trabalhador. Um evidente disparate.
Qual será o custo do enfrentamento da pandemia no Brasil? Ninguém pode responder, diante das incertezas das ações humanas somadas aos caprichos da dinâmica da evolução epidemiológica. Isso é irrelevante diante da absoluta necessidade moral de reduzirmos ao mínimo, com estratégias empiricamente testadas, o número de óbitos. Quem vai pagá-lo? Não é o governo, mas todos nós, a sociedade organizada que criou o Estado (que não gera recursos, só pode transferi-los) exatamente com esse objetivo: coordenar ações de todos no enfrentamento de tragédias como a que estamos vivendo.
Ao final e ao cabo, como sempre, todos pagaremos pelo empobrecimento geral, proporcionalmente à nossa situação de vulnerabilidade, exatamente como numa guerra. O Brasil nunca mais será o mesmo.
Terá de repensar a volta do seu crescimento com maior aumento da igualdade de oportunidades e ênfase total na perspectiva de aumento do acesso geracional de seus cidadãos. A crise talvez seja uma oportunidade civilizatória.
Antonio Delfim Netto
Economista, ex-ministro da Fazenda (1967-1974). É autor de “O Problema do Café no Brasil”.
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UM HOMEM ATORMENTADO

Merval Pereira, O GLOBO
Só o futuro dirá mas, pelo pronunciamento de ontem por rede nacional de televisão, está caindo a ficha do presidente Jair Bolsonaro. Com atraso, parece ter começado a se mover na direção do bom-senso que a realidade está fazendo prevalecer em todo mundo, em governos populistas de direita, como o dele e o de Trump nos Estados Unidos, e de esquerda, como o de Lopez Obrador no México.
Pela manhã, o presidente havia dado a entender que usaria a fala do diretor-geral da OMS Tedros Ghebreyesus para defender o fim do isolamento horizontal, mas teve que recuar diante do desmentido formal da Organização.
Mesmo assim, Bolsonaro sonegou frases para montar uma versão que, para os mais desinformados, parece ser uma concordância com a sua posição. Mas em nenhum momento ousou defender o fim do isolamento social, mesmo porque o número de mortes e infectados entre nós começa a crescer de maneira exponencial, e ainda nem estamos no pico da epidemia.
Cada vez mais solitário, o presidente Bolsonaro é um homem atormentado, conforme depoimento de pessoas que estiveram com ele recentemente. Alguns relatos falam em choros súbitos, e não seria estranho, pois há meses o presidente, ele próprio, já declarou que chora durante a noite.
Reclama dos ministros, acha que a imprensa elogia Mandetta, ou Moro, ou Guedes para diminuí-lo, como se ter escolhido bons ministros não fosse uma qualidade sua. Parece sentir não estar à altura do momento. Mas, apesar do comportamento errático que frequentemente espanta ministros e assessores palacianos, Bolsonaro consegue manter um apoio na classe militar, na qual desde o começo baseou seu governo.
Militares influentes, mesmo discordando de muitas atitudes, levam em conta sua reclamação de que o Congresso e a imprensa não o deixam trabalhar, emperram suas decisões com críticas exageradas e posições radicalizadas, como se ele não fosse o primeiro a radicalizar.
A organização de seu governo abriga cerca de mil militares em diversos escalões, inclusive oito ministros, dentre eles os que têm gabinete no Palácio do Planalto. Esse aparelhamento militar da máquina estatal é consequência natural, pois Bolsonaro fez sua vida política apoiado pelas corporações militares e por membros delas mesmo fora das três Armas, como integrantes de empresas de segurança e milicianos que a família condecorou e empregou.
Essa atitude faz com que os militares tenham pontos em comum com o presidente, mesmo quando discordam das estratégias ou atitudes. Há uma admiração pela maneira como conseguiu eleger-se deputado federal por quase trinta anos e chegar à presidência da República com apoio popular, como se esse apoio, coroado em 2018, tivesse o condão de resgatar a imagem dos próprios militares.
Bolsonaro faz questão de manter essa aura de vencedor, e quando há alguma discussão mais difícil dentro do governo, ele assume a solução alegando: “Quem tem voto aqui sou eu”. Ontem, esse homem assombrado por fantasmas viu-se diante de uma situação inusitada, o combate ao Covid-19 que provoca a maior crise humanitária das últimas décadas no mundo, e a data 31 de março de 1964, que para ele e os militares em geral, especialmente os de uma geração ainda na ativa, representa um paradigma do qual insistem em se orgulhar, como mostra a ordem do dia anacrônica do ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva.
A luta contra o comunismo num mundo em que esse sistema político nem mesmo existe mais, é o maior elo entre os militares e Bolsonaro, e ele se vale disso para alimentar o sentimento de lealdade. O perigo de haver revoltas populares por falta de comida e dinheiro é uma ameaça que o presidente vende para justificar sua insistência contra o isolamento horizontal. O fantasma da volta de Lula e do PT, a que o próprio Bolsonaro alude volta e meia, aliado à memória do golpe de 64, é um amálgama que os une, ainda que completamente equivocado.
Bolsonaro usa essa lembrança para fazer política, pois lhe convém manter essa dicotomia “eu contra ele”. Mas ele, que pela manhã havia feito um comentário sobre o golpe militar dizendo que foi “o dia da liberdade”, à noite não se pronunciou sobre o tema, demonstrando, talvez pela primeira vez, que, por momentos, sabe separar o grave período por que a humanidade passa da politicagem que ontem ainda manchava seu pronunciamento com a tentativa de distorcer as palavras do diretor-geral da OMS.
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MORRE LUIZ FLÁVIO GOMES

Do G1, SP
O deputado federal Luiz Flávio Gomes (PSB-SP), de 62 anos, morreu na madrugada desta quarta-feira (1°), em São Paulo, em decorrência de complicações de uma leucemia. A informação foi divulgada pelo Hospital Sírio-Libanês, onde o parlamentar estava internado.
Ainda segundo o hospital, o deputado foi diagnosticado com a doença em setembro de 2019, quando iniciou o tratamento. Ele realizou transplante de medula em janeiro deste ano, mas teve piora no quadro de saúde nos últimos dias.
Luiz Flávio Gomes foi eleito pelo PSB ao receber 86.433 votos nas eleições de 2018. Ele também atuou como delegado, promotor de justiça, juiz de direito e professor. Fundou a LFG, rede de ensino jurídico no Brasil, vendida em 2008.
Foi comentarista do Jornal da Cultura. É autor e coautor de mais de 60 livros na área jurídica.
Nota de falecimento do hospital Sírio-Libanês:
O deputado Luiz Flávio Gomes (PSB-SP), de 62 anos, faleceu hoje, às 4h30, em decorrência de complicações de uma Leucemia Mieloide Aguda, diagnosticada em 4 de setembro de 2019, quando iniciou o tratamento. Realizou transplante de medula em 14 de janeiro de 2020, porém seu quadro de saúde se complicou nos últimos dias.
Ele estava internado aos cuidados da equipe da Dra. Yana Sarkis Novis.
Dr. Fernando Ganem
Diretor de Governança Clínica
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