sábado, 24 de fevereiro de 2018

PIONEIRAS NA POLÍTICA

A conquista do voto feminino no Brasil completa hoje, 86 anos. O país está sendo comandado por uma mulher, a presidente Dilma Rousseff;  é um marco na história política brasileira. Em 2010, Dilma chegou pela primeira vez ao cargo maior do país. Mas antes de Dilma chegar à Presidência da República, outras mulheres também foram pioneiras na política brasileira.
Alzira Soriano, em 1928 foi a primeira mulher eleita prefeita no Brasil, em Lajes, Rio Grande do Norte. Com a Revolução de 1930, Alzira Soriano perdeu o seu mandato, por discordar da ditadura de Getúlio Vargas. Em 1947, voltou a exercer um mandato de vereadora, foi eleita três vezes.
Carlota Pereira de Queiroz, foi a primeira mulher eleita deputada federal do Brasil, em 1933, em São Paulo.
Eunice Michiles, a primeira senadora do país em 1979. Eunice era suplente do senador João Bosco de Lima, após a morte do senador, ela assumiu a cadeira no Senado e entrou para a história da política brasileira.
Pelo voto direto, em 1990: Júnia Marise foi eleita a primeira mulher para o cargo de senadora: Júnia Marise, do PDT de Minas Gerais e a cearense Marluce Pinto, por Roraima.
Maria Luiza Fontenele, em 1986 é prefeita de Fortaleza (CE). É a primeira mulher a ser eleita prefeita de uma capital.
Iolanda Fleming foi a primeira mulher a tomar posse como governadora, em 1986, no Acre. Eleita vice-governadora em 1983. Quando o governador Nabor Júnior deixou o cargo em 1986 para disputar o Senado, ela se tornou a primeira mulher a governar um estado brasileiro.
Luiza Erundina, em 1988 é eleita a primeira mulher prefeita de São Paulo, a maior cidade do Brasil.
Antonieta de Barros, uma catarinense filha de uma escrava liberta começa aos poucos a ser "redescoberta" nacionalmente como ícone do movimento de mulheres negras. Antonieta de Barros foi a primeira parlamentar negra brasileira, eleita em 1934.
Benedita da Silva é a primeira mulher negra a assumir cargo de senadora, em 1990 e, em 2002 é eleita vice-governadora do Rio de Janeiro e em seguida assume o cargo de governadora.
Roseana Sarney, em 1994 é eleita a primeira governadora do país, pelo estado do Maranhão.
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UMA CONQUISTA FEMININA

A conquista do voto feminino no Brasil completa hoje 86 anos. Com a instituição do voto feminino, em 24 de fevereiro de 1932 os primeiros passos foram dados para que a mulher marcasse presença no espaço político, comprovando sua competência na arte de fazer política.
Apesar da instituição, o voto feminino não era obrigatório, o que só ocorreu em 1946. A partir daí, a mulher entrou no campo político e entrou na disputa eleitoral, concorrendo à cargos de vereadora, prefeita, deputada, senadora governadora e presidente da República.
As pioneiras Alzira Soriano e Carlota Pereira de Queiroz desbravaram essa seara e foram eleitas. Em 1928, a potiguar Alzira Soriano foi a primeira prefeita eleita no Brasil. A paulista Carlota Pereira de Queiroz, em 1933 foi eleita a primeira deputada federal no país.
O caminho longo e árduo continua fazendo parte da trajetória política da mulher no Brasil e levou mais outras décadas para eleger a primeira senadora, Eunice Michiles, em 1979. Ela era suplente do senador João Bosco de Lima, após a morte do senador, ela assumiu. Por voto direto as senadoras eleitas foram Júnia Marise Azeredo Coutinho, por Minas Gerais e Marluce Pinto, por Roraima.
Para eleger a primeira governadora, o país demorou outra eternidade, em 1986,no Acre, Iolanda Fleming foi a primeira mulher a tomar posse como governadora. Eleita vice-governadora em 1983, com a saída do governador Nabor Júnior para disputar o Senado, ela se torna a primeira mulher a governar um estado brasileiro.
Em 1986, Maria Luiza Fontenele é eleita prefeita de Fortaleza (CE). É a primeira mulher a ser eleita prefeita de uma capital.
Quebrando todos paradigmas, Luiza Erundina, em 1988 é eleita a primeira mulher prefeita de São Paulo, a maior cidade da América Latina.
Disputando uma eleição majoritária na cabeça de chapa, Roseana Sarney, no Maranhão, foi eleita primeira governadora e entra para a história da política brasileira.
Benedita da Silva, primeira mulher negra a assumir cargo de senadora, em 1990 e, em 2002 é eleita vice-governadora do Rio de Janeiro e em seguida assume o cargo de governadora.
Enraizado de conceitos ultrapassados, o Brasil demorou 78 anos para eleger Dilma Rousseff, a primeira mulher chegar à Presidência da República. As mulheres trilharam um caminho, longo e árduo para conquistar o direito de votar.
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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

FUGINDO DO PARAÍSO

Artigo de Fernando Gabeira
No século passado, tive a oportunidade de cobrir a chegada dos refugiados do comunismo às praias de Brindisi, na Itália. Vinham da Albânia, sedentos de liberdade e de algum conforto material. E agora testemunho o movimento dos refugiados do socialismo do século 21. Como o drama se desenrola no Brasil, tive a oportunidade de seguir sua trajetória em três viagens à fronteira.
Na primeira entrei na Venezuela. Nas duas últimas concentrei-me em Boa Vista, Pacaraima e no trecho de 200 quilômetros da BR-174 que liga a fronteira à capital de Roraima.
O Brasil ainda não se deu conta desse drama na sua amplitude. Cerca de 180 crianças venezuelanas entram todos os dias no País, na maternidade Boa Vista nascem quatro por dia. E há muitas mulheres grávidas. Toda uma nova geração de brasileiros está surgindo desse drama histórico.
Índios waraos, que desceram da Bacia do Orenoco, vieram em massa para o Brasil. Estão alojados em Pacaraima e em Boa Vista. No ano passado estavam na rua. Eram um perigo para eles e também para a pequena cidade brasileira. Muitos tinham doenças de pele, pelas circunstâncias em que vivam, amontoados na rodoviária e nas cercanias. Hoje estão em abrigo, ainda em situação precária. É praticamente toda uma etnia que se mudou para cá. O que fazer diante disso?
A novidade desta última viagem é que o drama ficou mais intenso, famílias dormindo no chão, crianças revirando latas de lixo, mulheres se prostituindo na capital. Há também nesse sofrimento muita iniciativa, muita gente vendendo picolé, cortando cabelo, desenhando retratos, enfim, buscando uma forma de atenuar a miséria.
Hoje, são os próprios habitantes de Roraima que alimentam os venezuelanos. Mas isso não significa a inexistência de rejeição. As pesquisas indicam um mal-estar crescente, uma xenofobia latente num Estado que já teve os maranhenses como bode expiatório num momento em que se deslocaram em massa para Roraima.
O governo lançou um plano de ordenamento da fronteira com a Venezuela. Assim como a intervenção no Rio, é uma ideia à espera de um plano concreto. O princípio é correto: cadastrar e distribuir os venezuelanos racionalmente pelo País.
Pelo menos em teoria, aprendemos com a história dos haitianos no Acre. Eram em menor número, mas ainda assim foi preciso mandá-los de ônibus para São Paulo, sem nenhum aviso ou preparação.
No caso dos venezuelanos, no êxodo em massa está embutida também uma fuga de cérebros. Não há indicações precisas, mas há quem calcule em 20% o índice de profissionais com curso superior.
Desde o ano passado eu estranho o silêncio das forcas políticas brasileiras. Naquela época, já era possível prever esse desdobramento e, mais ainda, é possível agora afirmar que não existe nenhuma solução no horizonte.
Os venezuelanos vão continuar saindo em massa do país e as eleições anunciadas por Nicolás Maduro, boicotadas pela oposição, devem fortalecer a ditadura bolivariana. Os instrumentos diplomáticos do continente, Mercosul, Unasul, OEA, parecem incapazes de encontrar saída.
O Brasil hesita em internacionalizar o problema, embora a ONU já tenha mostrado simpatia pelo plano teórico de Temer. A internacionalização dificilmente resolverá pela América do Sul um problema que é muito do próprio continente.
A Europa está sobrecarregada com o êxodo pelo Mediterrâneo. Os Estados Unidos são governados por Trump, que não tem simpatia pelos refugiados.
O plano de ordenamento da fronteira, segundo os militares, depende de segurança jurídica. Ali podem trabalhar contra a entrada de drogas e armas. Mas não podem legalmente tratar de migração.
A fronteira continua porosa. Existe algo muito difícil de combater, técnica e politicamente: o contrabando de gasolina. A 174 está cheia de carcaças de carros queimados, muitos deles tentando escapar da polícia com uma altamente inflamável carga desse combustível. Documentei como os carros evitam a aduana e entram por um caminho alternativo trazendo a gasolina, que no lado da Venezuela é tão barata que dez centavos de real dão para encher um tanque. No lado brasileiro é vendida por R$ 1,50 o litro.
É politicamente difícil combater o contrabando, pelos simples fato de que ele faz parte da vida de Pacaraima: a cidade não tem posto de gasolina. Em termos de coerência, o Brasil só pode combater esse tipo de contrabando se abrir um posto em Pacaraima. A cidade se organiza como se isso não fosse necessário.
São 400 quilômetros de ida e volta entre Pacaraima e Boa Vista. É preciso encher o tanque na capital até transbordar ou, então, fazer o jogo do contrabando. Qual o sentido de tirar proveito de um país em ruínas? Jogar no quanto pior, melhor? Essa tese pertence ao outro lado, o de Maduro e seus apoiadores no mundo.
O êxodo entrou no noticiário talvez enfatizando apenas o sofrimento, sem atenção para os milhares de estratégias pessoais de sobrevivência, uma dimensão que é possível sentir nas descrições do escritor Primo Levi do campo de concentração em Auschwitz.
Mas na política mesmo ainda não descobriram o que se está passando por lá, exceto pelo voz desgastada de Romero Jucá. Impressionante como tanto sofrimento some no radar de Brasília. A condição humana escapa à esquerda quando as pessoas fogem do que ela considera um paraíso ou, como Lula, uma democracia em excesso. A esquerda não pode encarar essa realidade porque abalaria sua autoimagem. Entre abrir a cabeça ou se fechar para o mundo, já fez sua opção.
Felizmente, é um drama que não tem repercussão eleitoral, a não ser num universo de meio milhão de habitantes de Roraima. Com as paixões em fogo brando talvez seja possível responder com serenidade a essa tragédia, mesmo sabendo que o horizonte será mais sombrio.
Artigo publicado no Estadão em 23/02/2018
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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

FALANDO FRANCAMENTE

Marina Silva está de volta, por terceira vez, ao debate eleitoral brasileiro. Por ora, como pré-candidata. Quer ser a presidenta da República do Brasil que vai superar a polarização da sociedade, reunindo o melhor que cada partido pode aportar ao país. Marina, a ambientalista que ajudou a fundar a Rede Sustentabilidade, persiste. A exemplo do ex-presidente Lula, que concorreu três vezes até chegar ao Planalto na quarta, Marina teima. Levanta a bandeira do diálogo republicano para mudar o rumo da prosa num país que acumula rancor pelo futuro glorioso que nunca chega. Vinda de uma família pobre e numerosa, a exemplo de Lula, Marina sabe o que é furar o bloqueio do destino. Sua história sensibiliza. A superação da pobreza, o aprendizado da leitura aos 14 anos, a militância pelo meio ambiente. A carreira política e a projeção internacional. "Vamos fazer um debate em torno de propostas para que o eleitor analise a trajetória de vida de cada um”, diz ela.
Diferentemente do ex-presidente, ela quer abreviar seu tempo de espera para alcançar o Planalto. Chega nesta eleição trazendo uma mensagem, a priori, óbvia, que caracterizou sua campanha em 2010 e 2014: construir pontes com adversários, elevar o patamar de ética pública na condução do Executivo. Diálogo, diálogo, diálogo. Sair da dinâmica do toma lá dá cá. Tirar o país da cultura do ódio que se estabeleceu nas ruas. Há quem diga que Marina está numa posição confortável, de ataque aos que estão sob os holofotes, apenas apontando os erros de seus adversários. É criticada, também, por ter apoiado Aécio Neves em 2014, o impeachment de Dilma em 2016, a Lava Jato, e agora, mais recentemente, por não ter se posicionado enfaticamente contra a intervenção federal do Rio de Janeiro, muito embora a Rede tenha soltado uma nota contundente a respeito do assunto. Ela já se acostumou a críticas, e não se importa de confundir seus detratores: defende pautas consideradas de esquerda para alguns, e de direita para outros. “O Brasil não precisa de mais ódio, mais separação, mais violência. O Brasil precisa se unir em torno do que interessa”, diz ela ao receber o EL PAÍS, na sede da Rede, em Brasília.
O que deveria ser óbvio, porém, é algo profundamente desafiador para um país que se decepcionou com políticos eleitos sob o discurso da ética, e que depois demonstraram a perversidade do jogo político. Com o desenrolar da Lava Jato, entraram tempos bélicos, com eleitores tomados pela ira contra representantes da sua classe. Marina tem pouco tempo de propaganda e parcos recursos para campanha. Mas está confiante. “O debate que precisamos fazer hoje é o de uma transformação que não se encerra na eleição”, diz.
Pergunta. Você esteve em 2010 e 2014 concorrendo à presidência em campanhas presidenciais marcantes, com votações expressivas. O que a pré-candidata Marina de 2018 aprendeu com a experiência dessas duas eleições?
Resposta. Aprendi que vale a pena a gente persistir na verdade e não vale a pena fazer de tudo para ganhar uma eleição. A forma como a gente ganha determina a forma como a gente governa. Se ganha mentindo, governa mentindo. Se ganhar roubando, governa roubando. Se ganhar com violência, governa com violência. Vale a pena persistir em falar a verdade, em estabelecer o diálogo, em não ter postura de agressão, para não ganhar o poder a qualquer custo e a qualquer preço. Isso se confirmou nas duas eleições, principalmente em 2014, depois da catástrofe que aconteceu com nosso país, depois de uma campanha que fez tudo para ganhar a eleição. Eu dizia que preferia ganhar ganhando. E se não fosse assim, perderia ganhando. Dilma e Temer ganharam perdendo, e quem perdeu mais foi o povo brasileiro. São 12 milhões de desempregados, índices de violência cada vez mais altos no Brasil inteiro, a segurança pública um caos. Só ver o que acontece no Ceará, no Tocantins, no Amazonas e no Rio de Janeiro, e em todas as unidades da federação. Espero que hoje os brasileiros não se deixem levar pelas estruturas. Mas façam contraponto muito forte a elas.
P. Você coloca bastante ênfase no papel que a sociedade exerce e avanços que têm a chancela popular, como Todos pelo Educação, Ficha Limpa, etc. Mas essa mesma sociedade é suscetível a quem hoje inflama a cultura do medo, e que tem mais recursos do que você, como candidata. Sua estratégia tem sido trabalhar a linha do bom senso, como em 2010 e 2014. Vai dar certo agora?
R. A mesma estratégia de não apostar na polarização, na mentira e no medo vai permanecer. Até porque eu não posso acreditar que uma vitória baseada nessa prática política possa construir alguma coisa boa. Nunca o Brasil precisou tanto quebrar a polarização como agora, nunca se precisou tanto criar condições para que as velhas estruturas sejam derrotadas. Do dinheiro, do marqueteiro. A violência que você cita acontece em dois níveis. Num que aponta que se você não votar naquele projeto e naquele grupo você vai perder todos os direitos e conquistas que você já alcançou. Isso também é uma forma de violência. Porque é pensar política como dádiva, como favor. E pensar o cidadão como eterno devedor, que terá de pagar com o seu voto. O outro lado também é aquela política que infantiliza o eleitor. 'Fica aí que eu faço e aconteço por você, arrebento por você, falo e penso por você'. Precisamos de um amadurecimento político, onde a sociedade tem seu papel, sua responsabilidade, e essa campanha será a da hora da verdade.
P. De qual verdade estamos falando?
R. A verdade que empresários – não todos –, políticos – não todos – cometeram crimes gravíssimos contra o orçamento público e os interesses da sociedade. A verdade de que a polarização levou o país para o fundo do poço. E a verdade que o cidadão agora sabe de tudo isso. O cidadão pode ter agora uma atitude clínica, como diz o [filósofo polonês Zygmunt] Bauman, ou uma atitude cínica. Tenho fé em Deus, e na consciência do povo brasileiro, que ele tenha uma atitude clínica, de chamar para si a responsabilidade. Neste momento o povo brasileiro poderá, com o apertar da tecla no dia da eleição, demitir todos aqueles que usurparam a sua confiança, roubaram seu dinheiro, sua esperança. Uma situação de desequilíbrio muito grande, porque PT, PMDB, PSDB e DEM fizeram acordos entre eles, para evitar que a sociedade faça qualquer tipo de mudança que não esteja por dentro de seus leitos. O tempo de televisão maior é pra eles, recurso eleitoral é maior pra eles. Para bloquear qualquer possibilidade de que a sociedade possa fazer a mudança.
P. Mas e agora, como fica?
R. O povo brasileiro é maior que a montanha de dinheiro, o tempo de TV e o marqueteiro. Acredito nisso e vou trabalhar por isso com tranquilidade. Não acho que para ganhar a eleição a gente tem que destruir as pessoas. Cada um tem o direito de se colocar. E vamos fazer debate em torno de propostas para que o eleitor analise a trajetória de vida de cada um. O projeto que representamos, o que pensamos para manter as conquistas do passado e corrigir erros, resolver problemas graves que estão acontecendo, caso de segurança pública que leva a aumentar a violência e a situação de descontrole. E o desemprego ceifou as esperanças de cada pessoa cuidar da sua família. Tem muito candidato que faz campanha olhando para o retrovisor. Sem deixar de olhar para trás, mas coisas ruins que podem ser pedra no caminho, olhar para o presente, resolver os problemas, e olhar para futuro, para um novo ciclo de prosperidade econômica, social, cultural, política e de valores.
P. Suas colocações, e a filosofia da Rede pegam um público jovem. Mas como um partido pequeno de poucos representantes pode concorrer com as bancadas de MDB ou PT?
R. Espero que haja grande renovação no Congresso e no Executivo, tanto nacional como na maioria dos Estados. E essa história de partido grande e partido pequeno... precisamos aprofundar melhor esse debate. Olha a situação em que está o Brasil. Quem foi que levou o Brasil a essa situação? Os partidos grandes! As bancadas grandes. Logo, o tamanho do partido e da bancada não é sinônimo de bom governo, de boa gestão publica, ou de bom serviço prestado ao cidadão. Pelo contrário, passou a ser sinônimo, na maioria dos casos, de articulação criminosa para roubar a Petrobras, fundos de pensão, a Caixa Econômica, o Banco do Brasil, Belo Monte. Quando digo que a sociedade tem um papel, é porque eu acho que só ela pode criar um novo ciclo na política brasileira.
P. De que forma exatamente?
R. Muita gente acha que é primeiro mudar as estruturas para depois mudar a política. Acho que primeiro precisa de uma mudança de postura. E mudar esses parlamentares que estão aí numa grande quantidade. Mudar o Executivo para que haja uma nova qualidade principalmente no sentido da ética pública. A sociedade já deu grandes contribuições do ponto de vista prático. Na saúde, na educação, no meio ambiente, até na política econômica. Nos direitos humanos. Na questão indígena, no combate a fome, e agora é convocada para dar uma grande contribuição na inovação política. A renovação de quadros tem que vir lastreada de inovação política. Porque a reforma política que foi feita vai na contramão da inovação e renovação. Foi feita para dar mais poder e dinheiro aos partidos, e mais possibilidade de controle dos caciques. Seja de Executivo ou Legislativo. Num momento em que surge um novo ativismo no mundo, autoral, das pessoas, eles estão na velha lógica das velhas estruturas do século XX, final do século XIX. É repensar qual é a visão que conduz a essa nova dinâmica, à política cultural civilizatória, qual processo faz com que pessoas se integrem, para não ser uma sociedade tão fragmentada que não leva a lugar algum. O debate que precisamos fazer hoje é o de uma transformação que não se encerra na eleição. A eleição é um momento de tudo isso. Pode dar grande contribuição.
Hoje, a Rede Sustentabilidade conta com quatro deputados e um senador. Mas, o noticiário político dá como certo que Alessandro Molon (Rede-RJ) e Aliel Machado (PR) devem migrar nos próximos dias para o PSB, partido pelo qual Eduardo Campos e Marina concorreram à eleição em 2014. Foi com a morte de Campos que Marina assumiu a cabeça de chapa, alcançando 22 milhões de votos. Em 2010 haviam sido quase 20 milhões. Se por ventura a notícia da saída dos deputados, aventada desde o ano passado, se confirmar, Marina não teria o mínimo de cinco representantes no Congresso, que lhe garantiria espaço nos debates eleitorais na TV. Mas, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, a Rede agora tenta atrair novos filiados. Mesmo nessa troca de guarda, seu tempo de programa ainda seria minúsculo, com menos de 15 segundos, tempo este que poderia crescer a partir de alianças partidárias. Uma delas poderia ser o próprio PSB.
P. Vamos imaginar que Marina Silva ganha a presidência. Apoia uma reforma da Previdência, trabalha o ajuste fiscal, e você vive um momento de popularidade baixa. E aí, o Congresso aproveita e não quer aprovar projetos importantes. E negociam barganha: “aprovamos se você liberar tal emenda”. Como a presidenta Marina reagiria a uma chantagem do Congresso?
R. Primeiro que um presidente não deveria ceder jamais a uma chantagem. Numa República, um representante da sociedade, que é o Congresso, jamais deve chantagear. Esse é o novo requerimento. Nós precisamos refundar a República. Não consigo imaginar um país que naturaliza a chantagem. Os que chantageiam e os que são chantageados. Os que corrompem e são corrompidos. Em que se naturaliza como única forma de governar esse tipo de prática. Participo sem vale tudo para ganhar, pois se ganhar quero estar legitimada para fazer as mudanças que o Brasil tanto precisa. Tenho certeza que isso é totalmente possível. Fui ministra do Meio Ambiente durante cinco anos e meio, aprovei projetos altamente relevantes para o resultados das políticas ambientais que hoje são reconhecidos e premiados no mundo inteiro, e nunca fiz qualquer tipo de barganha. Sempre foi na base do convencimento. Quando aprovei a lei da Mata Atlântica, a lei de gestão de florestas públicas, a criação do serviço florestal brasileiro, que tinha o objetivo de se tornar a Embrapa das floresta ( infelizmente foi parado com tudo), a criação do instituto Chico Mendes, e posso citar uma série de projetos relevantes também na base de convencimento. E olha que eu não era a pessoa que tinha mais popularidade no Congresso.
P. Por quê?
R. Porque eu sempre fui militante das causas ambientais, da educação, de direitos humanos, causa indígenas, mas graças a Deus consegui dialogar com diferentes partidos, e nunca na minha vida encontrei qualquer pessoa que me viesse fazer uma proposta antirrepublicana. Nunca. Não se pode baixar a guarda. Quando você baixa a guarda dos procedimentos republicanos, acontece o que aconteceu no Brasil. A sociedade precisa de quem dialoga, de quem compõe. E não é errado compor governo, pode fazer isso sem ser no base no toma lá dá cá, mas no base do programa, dando crédito inclusive para aquela liderança política que está à frente da saúde, da educação, da segurança pública. O problema é que as pessoas querem privatizar a popularidade. Eu não acredito no poder centralizado, acredito no poder diluído. Se tenho um bom ministro na Educação, é com esse trabalho que ganhará nome, mesmo sendo de outro partido. Não tenho problema em partilhar crédito, porque política não se faz sozinho. E os partidos políticos têm bons quadros, o setor privado também. A sociedade, a academia, os trabalhadores... eles estão no banco de reserva e quem entrou em campo entrou para fazer gol contra. Está na hora de botar em campo quem vai fazer gol a favor do Brasil e na rede, literalmente na Rede.
Marina ri, discretamente, do seu jogo de palavras. Na sede do partido, num velho edifício comercial da região central em Brasília, ela já havia recebido diversos jornalistas, seguindo uma sequência de entrevistas, que iniciou há algumas semanas. É uma maneira de se expor até que os tempos de campanha cheguem oficialmente, a partir de 16 de agosto. Será uma campanha curta e muito disputada, inclusive com o jogo sujo das notícias falsas. Mas ela, criticada por seu excesso de discrição diante de temas substanciosos, já começou a falar como a candidata da Rede.
O QG do partido é modesto, instalado num edifício onde se encontram a sede de sindicatos trabalhistas, lojas de eletrônicos, farmácia, e escritórios. Poucos dias antes da entrevista, uma parte de um viaduto havia caído perto dali. O orçamento da ex-ministra do Meio Ambiente para avançar na corrida eleitoral também é modesto, assim como seu tempo de propaganda. A Rede deve contar com cerca de 10 milhões de reais do fundo eleitoral para bancar a campanha. PT e PMDB, por exemplo, terão mais de 200 milhões cada.
P. Você tem pouco dinheiro para campanha e pouco tempo de televisão. Existe alternativa de aliança para que você possa ampliar seu tempo?
R. Tenho feito um esforço de dialogar com os diferentes partidos, numa atitude de respeito porque é um momento difícil e cada um coloca a possibilidade de ter candidatura própria. Venho dialogando com os partidos com os quais caminhamos juntos em 2014. Mas com respeito, pois é eleição em dois turnos e aí partidos têm direito de encaminhar o que eles acham que é a sua contribuição genuína para o momento de primeiro turno. Não se pode tratar a eleição de primeiro turno como se fosse a única. Não preciso ser inimiga do Ciro Gomes, do Joaquim Barbosa, se ele for candidato, de quem quer que seja o candidato que esteja dentro desses requerimentos. Torço para que haja uma renovação na política. Vejo como promissora a iniciativa de segmentos da sociedade começarem a participar do processo político colocando candidaturas que não costumeiramente estavam nos cânones dos partidos. Mas temos de ter um certo cuidado porque uma coisa é ir por um percurso. Deputado, senador, etc. Outra coisa é algo como a Dilma, que foi direto para a presidência da República. E outras experiências. Temos de ir aprendendo. Mas eu saúdo a iniciativa de quem quer contribuir para melhorar e se dispõe como quadros novos.
P. Entre outsiders que rondam as eleições, o Luciano Huck  é um apresentador de TV e o cogitam para a presidência, incluindo FHC validando. Não é estranha essa validação do ex-presidente?
R. Acho [positivo] o movimento de querer contribuir com o debate, estimular candidaturas, como o Huck diz que irá fazer, e eu não tenho por que duvidar da palavra dele. Ele mesmo já disse que não é candidato, acho legítimo. Neste momento de tanto descrédito, se ele já disse que não é candidato, e inicia um debate de processo político, não o diria com tanta veemência para depois voltar atrás. Acho que participa de forma legítima, de um processo cidadão para estimular candidaturas cidadãs.
P. Não vê a chance de ele vir a dizer que é candidato?
R. Ele mesmo disse 'não' com todas as letras. Sou daquela compreensão de que na democracia todos têm direito de se colocar se estiverem de acordo com a lei da Ficha limpa. Obviamente que temos de ter todos os cuidados. Vamos colocar quem não é político... Não deu certo com a Dilma. Tem aquilo “ah, é um gestor que está acima do bem e do mal”. Mas eu saúdo os que querem melhorar a qualidade da política, não tenho por que ficar duvidando do que o Luciano diz que não é candidato. E como cidadão, tem direito de mostrar o que acha melhor para o Brasil.
A entrevista com Marina foi feita dias antes de o nome de Huck voltar à baila, com as especulações de que anunciaria, por terceira vez, se seria ou não candidato. Embora Marina tenha dito que não tinha por que duvidar da palavra do apresentador, o próprio duvidou de suas certezas, pelo que descreveu no artigo publicado na Folha de S. Paulo, no último dia 18. “... por mais coerente que eu tente ser, não posso esconder que o coração se encheu de força, a cabeça de ideias e que todas as intempéries e adversidades que os amigos mais queridos apontavam incessantemente, encolheram e ficaram minúsculas por alguns instantes.” Embora tenha dito por terceira vez publicamente que não é candidato, sua hesitação deixou aberta, novamente, a porta para as especulações.
P. Falando de Lula, uma edição da revista Época mostra que TRF-4 foi mais severo com ele do que em outros julgamentos similares, o que abre especulações. A sua leitura é que a Justiça foi feita?
R. Temos um processo longo de investigação, em que foi assegurado ampla defesa. E que ainda tem recursos cabíveis para revisão das penalidades aplicadas, de acordo com requerimentos legais. Não podemos ter atitude de rebelião contra a Justiça. Ou criaremos dois pesos e duas medidas. O problema é que temos altos empresários e lideranças políticas sendo julgadas, e não temos o equivalente para os que estão escondidos no Executivo e no Legislativo dentro do foro privilegiado. É isso que está criando a anomalia. Tem 200 deputados e senadores que deveriam ser igualmente investigados e punidos, mas não estão em função do foro privilegiado. Eles podem julgar seus próprios crimes. Temos pessoas que estão no Executivo sem investigações. Caso do presidente, se não tivesse foro, seria investigado pelo Supremo. Não fosse o toma lá dá cá, que garantiu o caso arquivado. Temos de acabar com foro para que todos aqueles que cometeram erros, assegurada a ampla defesa, sejam investigados e julgados. Não acho que alguém por ser citado ou ser investigado já é culpado. Só digo que temos que respeitar o trâmite judicial e fazendo todos os esforços de que sejam decisões técnicas, investigações que levem a um veredito legal, ético, em todos os sentidos.
P. Nós vimos o fortalecimento da bancada ruralista no Congresso, assim como a bancada da bala, e a chamada da bíblia, inclusive com vários falsos profetas. Como lidar com esses retrocessos em meio ambiente e diretos de mulheres e até o fim do estatuto do desarmamento proposto por este grupo?
R. Esse risco está posto, as pressões acontecem, no Governo da Dilma e do Temer. Eles cederam sobremaneira, porque a primeira coisa que negociam é a agenda ambiental, indígena, dos direitos humanos. Direitos que não deveriam ser negociados. Um governo que tem credibilidade, legitimidade, ele terá que fazer a mediação entre os diferentes interesses. Não é errado ter interesse. O erro é quando o interesse de algum se sobrepõe de maneira ilegítima e espúria sobre o interesse dos demais. Num governo democrático você dialoga com todos os segmentos. E paga o preço por assumir posição. Nesse presidencialismo de coalizão que nós temos, enquanto estava com figuras fortes, como Fernando Henrique – pode-se ter discordância —, ou Lula – pode-se ter discordância também – eles conseguiam liderar governos. Tivemos problemas de compras de votos de reeleição (FHC), do mensalão, com Lula. Mas no caso de governos fracos, como é o caso de Dilma e Temer, então, a chantagem campeou porque esses governos não conseguiram outra linguagem que não a toma lá dá cá. O governo legitimado pelo respaldo da sociedade tem de usar sua credibilidade para fazer o que é estratégico pelo país.
Marina se declara contra a reeleição por ver neste mecanismo uma porta de entrada para oportunismos que prejudicam a democracia. Em sua visão, as pessoas acabam sobrepondo limites éticos para garantir mais tempo no poder. “Quem decide o tempo de validade é o cidadão”, diz ela. Lembra da época em que emissários tucanos aventavam que o partido precisava ficar 20 anos no poder. Depois, veio o PT com o mesmo objetivo. E para lograr esse objetivo, vende-se a alma de um país. “Se precisa negociar interesses espúrios contra os índios, é o que vão fazer. Se precisa fazer interesses tem que atacar cofres públicos e roubar Petrobras, eles vão fazer”, reclama Marina, para quem um Governo deveria ter cinco anos, e abrir caminho para alternância de poder, ainda que o partido no poder concorra.O que não dá para ser é personalizar os Governos. “Nós não podemos criar uma lógica de que isso [um Governo] só funciona com um grupo. Pois isso acaba com a democracia. Temos de combinar as duas coisas”, diz ela.
P. De que forma se combinam as duas coisas?
R. Institucionalizar as conquistas, transformar as conquistas em direito, em leis que possam ser cumpridas independente dos partidos, do governo ou dos lideres. No Brasil e na América Latina e nas democracias ainda não amadurecidas as pessoas fulanizam, partidarizam as conquistas para ganhar dividendos com aquilo que é de todos. E trabalham com a cultura do medo, da violência, fazem as pessoas trocarem as suas liberdades para fazê-las mudar de opinião, fazer sua escolhas por segurança. Se eu não votar eternamente nesse, vou perder meu emprego, meus estudos? Meu programa de transferência de renda? Isso não é cidadania. Não acredito em políticos que tratam direitos como se fossem favores. Temos de amadurecer nossa democracia. Por isso pago um preço, falo claramente o que penso. Vejo políticos que fazem a política de camaleão. Fala de acordo com o público. A estratégia é enganar o eleitor. Em cima de princípios e valores duradouros podemos fazer alianças pontuais.
P. Você sempre  defendeu a Lava Jato e o papel que a força tarefa tem exercido no Brasil. Vivemos a revelação de que os juízes Moro, Bretas e o chefe da força-tarefa, Deltan Dallagnol, recebem auxílio moradia, mesmo tendo casa própria. Num momento em que o papel da ética está sobre a mesa, isto não soa como ética relativa?
R. Nós temos de fazer o aperfeiçoamento das nossas instituições. As contribuições que vem sendo dadas para o combate à corrupção não podem ser invalidadas em função dos aperfeiçoamentos que devem e precisam ser feitos em cada um dos poderes. Não temos a pretensão de anular a Constituição Federal pois com certeza dentre os que votaram, havia alguns que não tinham alinhamento com os valores republicanos dela. Temos de fazer corretamente essa separação. Ou daqui a pouco estamos fazendo a política de que um se esconde atrás do erro do outro. Vamos nos fortalecer nos acertos de cada um, no varejo para ver se fazemos uma grande mudança no atacado. E vamos combater os erros que existem no Executivo, Legislativo e Judiciário no atacado. Quem está dando a melhor contribuição nesse sentido, mais uma vez, é a sociedade que ajudou a aprovar a Lei da Ficha Limpa, e também por ela não se permitiu aprovar a lei de abuso de autoridade para intimidar a Justiça. E será graças à sociedade que, acho, se criará algum mecanismo de controle social do Judiciário, ressalvada a autonomia desse poder. Nós não podemos ter uma justiça tutelada e nem de encomenda. Precisamos de uma Justiça de acordo com sua autonomia.
P. Mas essas notícias lhe incomodaram? O auxílio moradia lhe incomodou?
R. O correto é não ter esse tipo de privilégio para ninguém, assim como não ter foro privilegiado.Nem para o Executivo, nem Legislativo nem Judiciário. Tudo que vem à tona é para ir separando o que são erros de privilégios legais, e outros erros daqueles problemas ilegais. Privilégios combatidos com a lei para que a lei seja igual para todo mundo.
P. Você já disse que hoje não apoiaria Aécio Neves, como o fez em 2014, com as informações que se dispõe dele. Você também sempre se disse favorável ao impeachment da ex-presidenta Dilma. Mas, de lá para cá nossa democracia sofreu abalos, houve queda na qualidade democrática. Isso não lhe faz rever sua posição sobre o impeachment também? Você não teme ser vítima de um processo similar num Congresso hoje?
R. Com relação ao Aécio, com as informações de hoje, não teria apoiado assim como acho que a maioria do povo brasileiro não teria votado nem nele nem na Dilma porque ambos participaram do mesmo assalto aos cofres públicos. Em relação ao impeachment, houve um crime de responsabilidade e ele não pode ser secundado, foi em função dele que a presidente Dilma foi cassada. Já tivemos outro presidente cassado também, com o Fiat Elba do Collor. Se as pessoas vão agir de forma oportunista em determinadas circunstâncias de fazer a cassação de um mandato sem ter nenhuma materialidade para fazê-lo, espero que não. Não acho que a mobilização da sociedade para cassar quem comete crimes contra a nossa Constituição diminua a democracia. O que diminui a democracia é o que leva governantes a desrespeitarem as leis. É o que está sendo feito com a liberdade que conquistamos para assaltar a Petrobras, Caixa, etc. Isso diminui a democracia. A mobilização do povo é o que está salvando a democracia. As instituições que estão funcionando a duras penas também.
P. Setores da sociedade temem seu nome por você ser evangélica. Como você pensa em falar com grupos, como o LGBT, e trabalhar o preconceito que existe pelo fato da sua religião ser pública?
R. Tem de tratar com tranquilidade porque as pessoas têm o direito de querer saber as opiniões, posições em relação àquele que vai se dirigir a todos os brasileiros.
P. Existem riscos de retrocesso?
R. A resposta, você mesma já deu. Há um preconceito pelo fato de ser evangélica... as pessoas têm o mesmo cuidado em relação aos católicos? A outros credos? Claro que determinadas situações que até vão na contramão nesse modo que foi a grande contribuição do mundo evangélico para a abertura do Estado – não esqueçamos que estamos fazendo 500 anos de reforma protestante. Quem estabeleceu e ajudou a separar Estado e Igreja para Estado laico, e trabalhou tanto para que não houvesse a educação apenas confessional....
P. ...Sim, mas temos representantes no Congresso que trabalham por retrocessos de conquistas.
R. Não podemos trabalhar com rótulos. O fato de termos algumas pessoas com algum tipo de atitude com a qual eu não concordo... não posso generalizar para todas as pessoas que não têm fé. Então temos de tratar no mérito. Defendo Estado laico, porém não é Estado ateu. Estado laico respeita os direitos dos cidadãos, seja ele que crê, que não crê, seja ele que é homem ou mulher, independente de orientação sexual. Estado é para atender as políticas públicas. E não imagino que depois de tanta luta para que tivéssemos um Estado laico iríamos reeditar a ideia de um Estado teocrático. A própria reforma protestante deu essa contribuição. Eu tenho tranquilidade porque tenho a minha fé. Não preciso escondê-la. As pessoas têm de votar em mim sabendo quem eu sou. Não gosto de fazer prática de um discurso para cada público. Já disse que em cima de valores e princípios éticos duradouros podemos fazer alianças pontuais. Eu não concordava com tudo que a Marta Suplicy defendia quando eu era do PT mas isso nunca me impediu de fazer suas campanhas. Eu não concordava com tudo com o [Fernando] Gabeira, e isso não me impediu de apoiar sua candidatura. O direito de expressão não é só para os que creem mas para os que não creem. Então, vamos fazer o debate. Meu programa de 2010, 2014 sofreu muitos ataques e eu diria que foram injustos. De longe fui a que mais apresentou propostas respeitosas com a comunidade LGBT, o que não significa que eu tenha de negar a minha fé e os valores nos quais acredito.
P. Ainda que não falemos em polarização, a Rede está mais a esquerda, não?
R. A Rede está à frente. Hoje essa coisa de esquerda e direita não diz muita coisa. A esquerda se junta com Maluf, com Sarney, Jader Barbalho, Amazonino, Renan... com Collor. As pessoas têm complexo, as pessoas têm síndrome de rei Midas, que achava que tudo que tocava virava ouro. Tem gente que acha que tudo que toca está purificado. Temos de pensar em novas sínteses. O socialismo humanista deu grandes contribuições. Chegamos aqui por contribuições do ideário da revolução francesa e avanços tecnológicos da revolução industrial. E hoje já estamos em outra fase. Será que vamos continuar nos situando dentro dos mesmos paradigmas? As coisas não são 100% cinza ou azul. Temos de saber trabalhar com a complexidade da vida e do mundo. Não gosto dessa relativização. Se estiver com este grupo, você esta purificado. Se você esta com outro, demonizado. Essa dicotomia que leva a polarização nos levou agora para essa guerra com algum lado. Podemos nos unir a favor do Brasil. Há pessoas valorosas em todos os partidos. As pessoas têm de se unir para combater alguém?
P. Você se vê numa eventual união de esquerda caso Jair Bolsonaro cresça demais e se torne uma ameaça?
R. As pessoas querem se blocar para polarizar, não sei se é o melhor caminho. Eu venho de um projeto que é para desconstruir a polarização, e não para adensá-la. Não acredito nela como solução. Se ela ajudasse a construir algo, não teríamos o desmascaramento dela no que acontece no combate a corrupção. Esses grupos que nunca se uniram, como PT e PSDB, nunca os vi se unirem para grandes questões relevantes nacionais, mas sim para ir contra a Lava Jato, e apoiar o foro privilegiado. O primeiro partido a fazer uma nota contra o suspensão do mandato do Aécio foi o PT.
P. Como ficaria a reforma da Previdência? Se você estivesse no Congresso, você votaria?
R. Esta que está aí não tem credibilidade e legitimidade para ser feita. Começou do jeito errado, ouvindo apenas o lado do empregador. Uma reforma da Previdência, para resolver os problemas de déficit, para atualização na reestruturação produtiva que o mundo está vivendo, o bônus demográfico que perdemos, precisamos fazer, mas não essa que não dialoga com trabalhadores. Mas precisamos sim de reforma, e precisa ser encarada. Em 2010 eu já levantei esse problema, e dizia, inclusive, que precisávamos sair do regime atual para o de capitalização.
P. Mas esta Previdência atual modifica direitos de uma parte de sociedade, e preserva de um setor da elite. Como se corrige, por exemplo, o caso dos militares?
R. Isso só se corrige no debate. Olhando o conjunto dos problemas da Previdência, de forma transparente. Colocando a natureza das assimetrias que existem hoje em relação aos grupos que ficam fora dos grupo de pressão. E o Governo Temer perdeu grande chance de fazer isso. A reforma que o Brasil precisa é a partir de um debate. Não se pode pedir sacrifício em nome de privilégio de um, ou de gasto ineficiente de um Governo, sem perspectiva de um novo ciclo de prosperidade e investimento.
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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

BATATA QUENTE

Da ISTOÉ
No abre-alas do ano eleitoral, o PSDB se depara com um problemão para resolver. Depois de perder quatro eleições em 16 anos, o partido esperava nadar de braçada, ao apresentar um candidato mais identificado com o centro do espectro político para fazer frente aos representantes dos extremos Lula, à esquerda, e Bolsonaro, à direita. Tudo muito bom, tudo muito bem se o nome ungido pela cúpula do partido não fosse o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. O tucano se transformou numa batata quente na mão da legenda. Ninguém sabe como ele vai fazer para conseguir desempacar nas pesquisas – hoje Alckmin encontra-se estacionado nos 6%, bem atrás dos mais bem colocados Lula (34%) e Bolsonaro (27%), e registra a maior rejeição.
O pessimismo invadiu até os poros do PSDB. Sem carisma, o presidenciável encarna o anti-candidato: não tem mostrado habilidade política para celebrar alianças, padece de um discurso consistente para encantar o eleitorado, recorrendo sempre a evasivas e a generalidades, e ao contrário do que prometeu quando assumiu a presidência da legenda, não conseguiu unir o tucanato – hoje mais dividido do que nunca. Tucano histórico e adversário de Alckmin no PSDB, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, é um dos que já jogam a toalha. “Geraldo é um candidato sem pegada, sem posições definidas. No ritmo em que ele vai, o PSDB ficará de fora do segundo turno”, afirmou. A direção do partido, que mais uma vez escolheu o candidato a partir de uma convenção de cúpula, ou seja, de modo vertical, de cima para baixo, não é poupada das críticas: “Olho para eles (a direção do partido) e vejo todos felizes, rumo à quinta derrota seguida. Parece que jogam para perder”, disparou Virgílio. Na mesma linha de Virgílio, o próprio ex-presidente Fernando Henrique está convencido de que, com Alckmin, a candidatura do PSDB não alçará vôos mais altos.
À ESPERA Luciano Huck continua atraindo os holofotes, apesar de negar a candidatura (Crédito: Pedro Ladeira)
Hoje, ao se vislumbrar o quadro político, o melhor cenário para Alckmin seria que as forças de centro, diante da mais absoluta falta de alternativas, convergissem em torno de seu nome. A questão é que, em política, nada ocorre por gravidade. Daí a dificuldade de Alckmin. O advogado Murillo Aragão, da Arko Advice, aponta outro obstáculo. “Nas três vezes em que o centro precisou do PSDB, seja para proteger o presidente Temer ou para encaminhar a reforma da Previdência, o partido titubeou.
Como então o centro vai aceitar a candidatura do PSDB sem questionar? Esse é o ponto que se coloca hoje”, afirmou. A postura claudicante de Alckmin abriu uma avenida para nomes que correm na mesma raia que ele, como Rodrigo Maia (DEM) e Henrique Meirelles (PSD). Não por acaso, no PSDB, o caldeirão está fervendo. A pressão exercida sobre ele é inversamente proporcional à contagem regressiva do relógio. Ainda mais levando-se em conta que a eleição de outubro será a mais curta da redemocratização. Se Alckmin não emocionar o eleitorado até o fim do primeiro trimestre, nomes com maior potencial de crescimento já se insinuam para substituí-lo: o apresentador Luciano Huck e o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB). Huck, inclusive, atraiu os holofotes nesse início do ano ao sugerir em entrevista ao Domingão do Faustão que não estaria fora do jogo. Embora, na quarta-feira 10, ele tenha voltado a negar a candidatura, o frenesi gerado por Huck entre os eleitores mais identificados com o centro do debate político embalou comparações com a popularíssima apresentadora de TV norte-americana, Oprah Winfrey, cotada para concorrer em 2020 à Presidência dos EUA. Na segunda-feira 8, o próprio presidenciável do PSDB disse acreditar que até junho ou julho o cenário dificilmente vai ser alterado de forma consistente.
Riscos
Também joga contra Alckmin o fato de ele representar o velho, enquanto o eleitor busca novos rostos. “O eleitor está cansado de Alckmin, sobretudo porque ele não resolveu a crise de Segurança no Estado, apesar de ser governador por 14 anos”, disse o cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV. O tucano encontra dificuldades para decolar também no Paraná e em Santa Catarina, considerado “o Nordeste do PSDB”, regiões onde o senador Álvaro Dias e o deputado Jair Bolsonaro demonstram bom desempenho. O tucano também não vai bem no Rio Grande do Sul, patina no Rio e não encanta no Nordeste.
“Geraldo pensa que é o candidato do centro, mas não é. Há candidatos mais credenciados que ele” – Arthur Virgílio (PSDB), prefeito de Manaus
Os aspectos éticos, flancos que poderiam ser explorados contra o PT na campanha, não deixam de assombrá-lo. Além de estar às voltas com denúncias em obras no Rodoanel e Metrô, Alckmin vem sendo investigado no Superior Tribunal de Justiça, devido à acusação de delatores da Odebrecht de que teria recebido R$ 10 milhões de caixa dois, durante as campanhas eleitorais de 2010 e 2014. Para tentar turbinar a campanha, Alckmin adiantou na última semana o coordenador do seu plano econômico: o economista Pérsio Arida, um dos pais do Real. Mas ninguém no próprio PSDB, à exceção dos aliados mais próximos de Alckmin, acredita que o gesto será suficiente para desencadear uma agenda positiva que se traduza em índices mais robustos de aceitação popular. Se o quadro não mudar e o céu não converter-se a brigadeiro, certamente o PSDB e os partidos da órbita governista ligarão o radar por um nome com turbinas mais potentes.
• Alckmin com 6% se mantém muito distante dos líderes Lula 34% e Bolsonaro 17%, e perde até para Marina, com 9%
• Sua rejeição é muito alta, com 27%, só atrás de Lula
• Deveria obter melhor desempenho no seu estado. Lidera a corrida em São Paulo, com 23,7%, segundo o Instituto Paraná Pesquisas, mas só um pouco à frente de Bolsonaro (19,9%) e Lula (19,4%)
• Perde em redutos tradicionais do PSDB, como Paraná e Santa Catarina. Não tem penetração no Rio de Janeiro e muito menos no Nordeste
• Está desgastado depois de 20 anos de PSDB no poder em São Paulo
• É investigado no STJ por ter recebido ilegalmente R$ 10 milhões da Odebrecht para as campanhas de 2010 e 2014
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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

DESEMBARQUE DO GOVERNO

A ministra Luislinda Valois foi demitida dos Direitos Humanos, pasta que comandava desde fevereiro. Subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Gustavo Vale Rocha, acumulará a pasta. A exoneração de Luislinda será publicada no Diário Oficial da União de amanhã, 20. Luislinda ficou conhecida depois que a Coluna do Estadão revelou que a ministra pediu para acumular seu salário de desembargadora aposentada com a remuneração da pasta alegando “trabalho análogo à escravidão”.
Em novembro passado, a Coluna do Estadão mostrou que Luislinda Valois apresentou ao governo um pedido para acumular o seu salário com o de desembargadora aposentada, o que lhe garantiria vencimento bruto de R$ 61,4 mil. Em 207 páginas, ela reclamava que, por causa do teto constitucional, só pode ficar com R$ 33,7 mil do total das rendas. A ministra disse que essa situação, “sem sombra de dúvidas, se assemelha ao trabalho escravo, o que também é rejeitado, peremptoriamente, pela legislação brasileira desde os idos de 1888 com a Lei da Abolição da Escravatura”.
Luislinda justificou no documento que, por causa da regra do abate-teto, pela qual nenhum servidor ganha mais do que um ministro do Supremo, seu salário de ministra cai para R$ 3.292 brutos. O de desembargadora, de R$ 30.471,10, é preservado.  Ao citar a Lei Áurea, a ministra Luislinda cometeu um deslize. Ela disse que a norma “recebeu o número 3533”, quando a lei sancionada pela princesa Isabel em 13 de maio de 1888 é a 3353.
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DE MALAS PRONTAS

Charge do Sinfrônio, via Diário do Nordeste
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domingo, 18 de fevereiro de 2018

RIOS DA INDIFERENÇA

Artigo de Fernando Gabeira
Escrevo a caminho de Pacaraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela. Saí diretamente do Rio para cá. Suponho que a sociedade também tenha essa tendência ao equilíbrio, uma espécie de sistema nervoso autônomo. Se é assim, creio que já deu sinais de que algo vai mal tanto no organismo nacional como no sul-americano.
O Rio foi tomado por inúmeros casos de violência e assalto. Apesar de tantos avisos, o governador Pezão confessou que o estado não se preparou para o carnaval. Como se uma festa tão antiga e previsível fosse um raio em céu azul. O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, disse que iria aproveitar a folga do carnaval e viajar para a Europa, em busca de experiências “inovativas”. Folga, como assim? Trabalhei no carnaval por escolha, se quisesse poderia estar fantasiado em qualquer esquina. Mas um prefeito não tem folga no carnaval. É precisamente o período em que tem de cuidar de tudo, para evitar o pior. Pezão ainda não conseguiu ler o plano de segurança. Crivella se elegeu dizendo que iria cuidar das pessoas. Será que foliões, fantasiados, seminus e alegres, não são pessoas?
Essas coisas nos colocam próximos de uma desordem generalizada. As principais autoridades parecem não entender o que está se passando. A tarefa do equilíbrio, a homeostase, torna-se cada vez mais complicada.
Aqui na fronteira, as coisas não são diferentes. Estive em Pacaraima duas vezes, e uma em Santa Helena, já na Venezuela. Previ que a situação iria se agravar, o que não é nenhuma vantagem, apenas o óbvio. Por aqui já passaram mais de 40 mil. Na Colômbia, um milhão de refugiados cruzaram a fronteira. As ferramentas diplomáticas, Mercosul, Unasul e mesmo a OEA, são incapazes de achar uma saída. Talvez o único caminho seja internacionalizar uma crise que transcende a capacidade sul-americana. Mas o que pode fazer a ONU? A Europa está sobrecarregada pelo fluxo de refugiados no Mediterrâneo. E os Estados Unidos, com a escolha de Donald Trump, fecham-se cada vez mais para as tragédias do mundo.
Como um sistema nervoso autônomo, os mecanismos de monitoramento continuam funcionando. Eles registram os desequilíbrios, indicam as desordens. No entanto, não se encontra remédio. A tarefa do sistema nervoso central está atrofiada, não há antecipação planejada, apenas uma espera na crise para intervir quando for tarde demais. O colapso do governo no Rio, por corrupção e incompetência, já era um sinal de que a crise de segurança se agravaria. A escalada repressiva de Maduro, uma certeza do êxodo em massa para Colômbia e Brasil.
Assim como no corpo, o sistema nervoso autônomo na sociedade precisa de mais atenção. No corpo, é ele que nos desestimula, por exemplo, a disputar uma corrida depois de um farto almoço.
Embora isso não explique tudo, creio que os governantes em Brasília e no Rio não se importam tanto com esses desequilíbrios porque estão atentos a outros sinais. Ambos têm problemas com a polícia, ambos se esforçam para escapar dela. Não creio que uma antecipação conseguiria resolver as crises em Pacaraima ou Copacabana. Mas, certamente, ajudaria.
Um governador que não se prepara para o carnaval, um prefeito que vê nele uma folga para buscar soluções na Áustria, na Alemanha e na Suécia, são figuras inúteis.
No caso da Venezuela, Temer pode dizer que o governo anterior não só apoiou como se tornou cúmplice da tragédia produzida por Maduro. Mas Temer era vice-presidente. Não é possível que só tenha percebido agora como o Brasil errou.
E, agora, as coisas são bem mais difíceis. Em Roraima, segundo as pesquisas, a população, majoritariamente, rejeita os imigrantes. Em termos regionais, nas eleições, pode acontecer ali algo que aconteceu na Europa: um avanço da xenofobia.
Nesse caso, como aliás em tantos outros, é preciso preparar o corpo para pancadas de todos os lados. A direita gostaria de ver a fronteira fechada. E a esquerda, assim como Crivella, que não vê pessoas na multidão carnavalesca, dificilmente enxerga direitos humanos nas milhares de famílias que fogem do socialismo do século XXI, como se autoproclama a aventura bolivariana.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 18/02/2018
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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

À ESPERA DE LULA

Da ISTOÉ
Quando o sol se descortina no horizonte, o ar cortante e álgido da manhã dá lugar a uma atmosfera densa de expectativa. É inegável para quem por lá atravessa: o Complexo Médico Penal de Pinhais, a 40 minutos do centro de Curitiba, já respira diferente. O presídio, com 8,406 metros quadrados de área construída e que hoje abriga 697 presos, entre os quais 11 da Operação Lava Jato, será o provável destino do ex-presidente Lula, tão logo os desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) decretem sua prisão. Na última semana, a reportagem de ISTOÉ visitou a penitenciária – em fase final de preparação para receber o petista. Já foram definidos os esquemas de segurança, o local em que o líder do PT irá ficar e até sua rotina no cárcere – incluindo o que ele poderá ou não fazer no futuro lar.
Por decisão do Departamento Penitenciário do Paraná (Depen), foi reservada a Lula uma das dez celas da galeria 6 do Complexo, situada no segundo piso. Lá estão acomodados exclusivamente presos da Lava Jato e outros condenados pelo crime de colarinho branco. Os mais ilustres são o ex-governador Sérgio Cabral, o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto. Cada cela da galeria 6, como a que já está separada para Lula, tem 12 metros quadrados, e é destinada a 3 presos. A unidade é composta por três camas de solteiro, construídas em alvenaria, com direito a um colchão de densidade 28. Se o petista precisar de colchão especial, um médico deverá atestar que ele sofre da coluna, por exemplo. Nesse caso, caberá à família providenciar outro colchão, nas medidas fornecidas pela direção do presídio. A cela, com uma janela e porta em aço, conta com um vaso sanitário no chão (o chamado boi), com pouca privacidade, e um tanque com torneira. Os agentes penitenciários asseguram que é possível bebê-la sem sobressaltos – a água, fornecida pela Sanepar, esclarecem, é potável. Mas se Lula exagerar no consumo, não tem conversa: a água será cortada. O tanque também servirá para o futuro detento lavar as quatro cuecas e quatro pares de meias, autorizados a carregar para a cela. Toalhas e roupas de cama são fornecidas pela prisão, incluindo um cobertor. Como o inverno de Curitiba é gelado, alcançando até temperaturas negativas, a família poderá mandar cobertores mais quentes. Detalhe: a movimentação de familiares no presídio é restrita. Só podem entrar dois parentes por vez, devidamente cadastrados. E não são permitidas visitas íntimas. Já os advogados podem falar com os presos a qualquer hora e dia, mas através de um parlatório, por meio de interfone, protegido por resistente vidro de policarbonato.
Como todos os demais presos, Lula será obrigado a usar uniforme – calça de moletom cinza e camisa branca, com detalhe em azul, as cores da bandeira do Depen –, mas não precisará mexer no bolso para receber o novo figurino. A indumentária será fornecida pelo presídio. Os uniformes são lavados uma vez por semana na lavanderia da cadeia, onde trabalham dois detentos, devidamente remunerados. Se o ex-presidente necessitar de remédios, a penitenciária fornece genéricos de graça. Médicos e enfermeiros também prestam atendimento gratuitamente. São eles que controlam a ingestão de eventuais medicamentos, que não ficam nas celas em hipótese alguma para evitar que algum deles se intoxique.
Desde que alcançou o Planalto, Lula acostumou-se ao conforto e salamaleques que só o poder é capaz de proporcionar. No Complexo dos Pinhais a vida será bem mais dura, por óbvio. Por exemplo, o petista, assim como seus pares, será obrigado a despertar às 5h. O café da manhã, servido na cela, vai até às 6h. Limita-se a dois pães com manteiga e café com leite. Depois, é chegada a hora o banho. Há um conjunto de chuveiros para cada galeria. Com água quente, inclusive. Mas cada banho só pode durar no máximo quatro minutos. A escala no chuveiro é regida pela lei da vida, que deveria valer para todos: quem chega por último, vai para o final da fila. Para o asseio do preso, os parentes poderão levar shampoos e sabonetes.
Das 9h às 11h, Lula poderá tomar banho de sol no pátio. E até jogar futebol. Mas não será como nas famosas pelejas na Granja do Torto com os ministros. A bola é improvisada, em algumas ocasiões feitas de meia, e a trave foge da tradicional: em geral é pintada nos dois lados do muro. À atividade física segue-se uma nova refeição. O almoço do petista será entregue às 11h. A comida vem em formato de marmitex, fornecida pela Risotolândia, empresa contratada pelo Depen em processo licitatório. Cada marmita, na temperatura de 42º, é devidamente balanceada por nutricionistas: 60% de carboidratos (arroz, feijão ou macarrão) e 40% de proteínas (carne todos os dias), acompanhados de verduras ou legumes. Sobremesa, no entanto, é luxo: só é permitida uma vez por semana. O jantar, com o mesmo cardápio, está programado para ser servido às 17h. Nesse intervalo, é possível circular pelos corredores, ir à biblioteca, ou mesmo ficar vendo TV nas celas – cada unidade é equipada com um aparelho de TV de 20 polegadas e um rádio AM/FM, sem entrada de USB. O uso de outros equipamentos eletrônicos são expressamente proibidos. Celular nem pensar. Por volta das 22h, as luzes se apagam. “A vida não é das piores, mas também não chega a ser um hotel duas estrelas”, disse Luiz Alberto Cartaxo Moura, diretor do Depen, à ISTOÉ. O diretor do presídio que abrigará Lula, Jefferson Medeiros Walkiu, carrega a fama de durão. Medeiros não admite, por exemplo, que o detento beba ou fume. Portanto, nada de cachacinha ou charutos cubanos. Se flagrado fumando ou bebendo, o petista estará sujeito a sofrer medidas restritivas de liberdade. “Não vai para a solitária, como se fala, mas fica numa área confinada por quinze dias”, alerta Cartaxo. E também pode vir a amargar o acréscimo na pena. Tudo é anotado na ficha do preso, analisada posteriormente pelo juiz de Execuções Penais.
NOVOS PERSONAGENS O jurista Sepúlveda Pertence (à esq.) foi contratado a peso de ouro por Lula, enquanto o ministro Alexandre de Moraes (à dir.) mandou para cadeia deputado condenado em segunda instância. Um recado para Lula
O Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) publicou nesta terça-feira 6 o acórdão da sentença dos três desembargadores (Gebran Neto, Leandro Paulsen e Victor Laus) que condenaram Lula a 12 anos e 1 mês de reclusão. Decisão de segunda instância que prevê prisão após a sentença, conforme decisão do STF em 2016. Os advogados de Lula têm 12 dias úteis para apresentarem o embargo declaratório para esclarecer detalhes da sentença. Esse embargo não pode modificar o resultado da sentença, que foi por 3 a 0. Prazo vence no próximo dia 20. Os desembargadores do TRF-4 terão até dois meses para analisar esse recurso. A decisão pode sair até o final de março. Devem decretar a prisão de Lula, conforme prevê o STF, e encaminhar a ordem de prisão para a 13ª Vara Federal do Paraná, do juiz Sergio Moro
O cotidiano de quem está (ou esteve) lá
O DIA A DIA NOS PINHAIS Cada detento se ocupa de uma forma. Os da Lava Jato fazem ginástica com garrafa pet e pintam paredes
Bem longe do aconchego desfrutado durante a vida fora do cárcere, não raro regada a luxos inacessíveis ao cidadão comum, os poderosos presos da Lava Jato tiveram de se adaptar, cada um a seu jeito, à insólita rotina no Complexo Médico-Penal dos Pinhais, em Curitiba.
Vidrado em musculação e acostumado a uma rotina de exercícios físicos, o empreiteiro Marcelo Odebrecht, que deixou o presídio no dia 23 de dezembro, tinha de improvisar para manter a saúde em dia: utilizava como peso duas garrafas pet de dois litros d’água. O ex-ministro José Dirceu, por sua vez, preferia cuidar dos três mil livros da biblioteca. Trabalhava como auxiliar do bibliotecário. Dessa forma, conseguiu abater alguns dias da pena imposta a ele de 30 anos de detenção. Já o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), um dos prováveis futuros vizinhos de Lula na galeria 6 da penitenciária, tem optado por atividades mais frugais. Diariamente, desde que chegou aos Pinhais, se ocupa pintando grades de celas. É como uma terapia, justifica. Para o serviço de limpeza se apresentam como voluntários dois ex-companheiros de Lula: o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto e o ex-deputado André Vargas (PT-PR). Só o ex-governador do Rio Sérgio Cabral é quem ainda permanece no ócio. Nos últimos 15 dias, ficou enfurnado numa solitária. Na segunda-feira 5, foi transferido para uma cela comum. Está sozinho.
Saiba mais sobre o Complexo Penal Médico de Pinhais e seus arredores:
Confira também a íntegra da entrevista exclusiva com o delegado Luiz Alberto Cartaxo Moura, diretor-geral do Departamento Penitenciário do Estado do Paraná, o Depen:
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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

SILÊNCIO PORNÔ

Micheal D. Cohen, advogado pessoal do presidente norte-americano, teria pago US$ 130 mil do próprio bolso para a atriz de filmes adultos, Stephanie Clifford, também conhecida como Stormy Daniels, não falar sobre suposto affair com Donald Trump. O caso teria sido na época em que o empresário já estava casado com sua atual mulher, Melania.
O advogado disse em nota ao jornal New York Times que “nem Trump, nem a sua organização tiveram parte na transação com a senhora Clifford e eu também não recebi nenhum tipo de reembolso pelo pagamento”.
Cohen se recusou a responder se Trump sabia do pagamento, o motivo dele ter pago e se existiram casos parecidos que também foram encobertos com suborno.
A atriz nunca negou publicamente ter tido 1 caso com o atual presidente norte-americano. Quando perguntada, apenas não respondia. Após polêmica, Cohen liberou 1 comunicado supostamente assinado pela atriz em que negava ter tido relações com Trump e afirmava não ter recebido dinheiro por silêncio.
A veracidade do documento foi contestada depois de Stormy Daniels, em entrevista ao programa “Jimmy Kimmel Live!”, negar que a assinatura no comunicado apresentado fosse dela.
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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

PRENDA-ME SE FOR CAPAZ

Da ISTOÉ
Lula / execução da pena
Líderes políticos, poderosos ou não, em decadência ou não, costumam ser rodeados por dois grupos distintos de auxiliares: os que lhe falam verdades difíceis de serem ditas e aqueles que, de suas bocas, só escapam sinfonias para os ouvidos do interlocutor – ou seja, os que só pronunciam palavras aveludadas, aquelas que seu líder mais gostaria de ouvir. O senador Jorge Viana (AC) se enquadra nesse segundo time. Viana virou uma espécie de grilo falante de Lula para assuntos de desacato à Justiça e tentativas de driblar a lei. Há dois anos, foi dele a sugestão, registrada em escuta telefônica com autorização judicial, para que Lula afrontasse publicamente o juiz Sergio Moro de modo a virar um “preso político”. Como o diálogo se tornou público, Lula não levou a ideia adiante, nem Moro caiu nessa. Agora, é da lavra de Viana outra indecente manobra que, nos últimos dias, ganhou fôlego no seio do PT. É semelhante à primeira na essência: para escapar da prisão, hoje iminente, Lula buscaria o asilo diplomático em países camaradas. De lá, discursaria ao seu séquito como “exilado político”, até retornar ao Brasil em momento de mais calmaria – ou depois de costurar um acordão político-jurídico que o livrasse definitivamente da cadeia. Embora tenha dito, recentemente, que “a palavra fugir não existe” em sua vida, Lula gostou do que ouviu – como não. E passou a considerar seriamente a hipótese. A proposta de Viana foi recepcionada no partido como cafezinho quente e açucarado em sala de espera. Tanto que logo ganhou adeptos no petismo: o ex-ministro José Dirceu, também condenado em segunda instância, mas que ainda segue livre, foi um dos que endossaram a “saída pelo asilo”, à revelia da lei. Na última semana, passou a propagar a tese, que se espalhou no PT como rastilho de pólvora.
Entre as nações dispostas a receber Lula, estariam a Venezuela, Bolívia, Equador e Cuba, além de países do continente africano onde o petista poderia fixar residência como Argélia e Etiópia. Este último, destino para onde o ex-presidente tinha até viagem marcada. Lá daria uma palestra sobre corrupção, tema que, a julgar pelas recentes decisões judiciais, ele domina como poucos. Mas capitulou, depois que o juiz Ricardo Leite cassou-lhe o passaporte – já devolvido. Face à impossibilidade de se dirigir aos etíopes pessoalmente, Lula gravou um vídeo em que dourou a narrativa persecutória – o suficiente para angariar apoios e receber convites de hospitalidade.
Em sua argumentação em favor da idéia do asilo, Viana lapida a articulação. Argumenta que, se um país aceitar conceder refúgio ao ex-presidente, não há possibilidade de extradição, pois reconheceria que a situação não é somente jurídica, mas política. A vantagem para Lula seria a possibilidade de, solto, seguir na toada de entrevistas e de alguma forma se manifestando sobre o processo. Se decidisse partir para Venezuela, Bolívia ou Equador, Lula não precisaria ir de avião nem muito menos de passaporte. Bastaria pegar um carro que chegaria ao destino livremente, beneficiado pela longa área de fronteira que circunda o território brasileiro. Para convencer a chancelaria vizinha a lhe conceder o asilo, Lula teria de justificar sua fuga. Um bom argumento, na visão dos petistas entusiastas da tese, seria declarar ser vítima de perseguição política, discurso que o partido vem usando desde que se ventilou o nome dele em denúncias de corrupção. Apesar de a maioria dos nossos vizinhos ter acordo de extradição com as autoridades brasileiras, o processo que o levaria ao caminho de volta não seria rápido, o que daria para ele continuar dando as cartas e capitaneando a militância, mesmo que de longe.
Os articuladores
O mentor da tese de que Lula deve driblar a lei para escapar da prisão e buscar asilo diplomático numa embaixada amiga é o senador Jorge Viana (PT-AC), mas a hipótese já havia sido aventada pelo ex-ministro Ciro Gomes, candidato a presidente pelo PDT. O ex-ministro José Dirceu também endossa a ideia
Para Jorge Viana, se um país aceitar conceder refúgio a lula, não há possibilidade de extradição, “pois reconheceria que a situação é política”
“A gente vai lá, sequestra o Lula e entrega numa embaixada. Isso eu topo fazer” Ciro Gomes, ex-ministro de Lula
Passaporte devolvido
Por enquanto, não há registro de que o ex-presidente tenha feito um movimento mais brusco nesse sentido. Segundo o Itamaraty, não existe, por ora, nenhum comunicado dessas nações sobre um pedido de asilo a Lula. O Itamaraty é categórico: apesar de não ser obrigatório, os países da América do Sul costumam manter uma relação diplomática entre si. Para uma fonte ouvida pela ISTOÉ, uma omissão dessa natureza pode abalar a diplomacia com o Brasil. Dependendo do desfecho, até mesmo suspender acordos entre as duas nações, por um gesto unilateral do governo brasileiro. Procuradas pela reportagem, as embaixadas desses países negaram peremptoriamente que tenha recebido qualquer contato, muito menos nesses termos. Os embaixadores se negaram a tecer qualquer comentário adicional. O estratagema, por ousado e ilegal, pode realmente constituir um tirambaço no pé, caso seja levado adiante por Lula e o PT. ISTOÉ apurou com a alta cúpula da Polícia Federal que, desde a decisão do TRF-4, agentes federais já monitoram os passos de Lula. Especialmente depois que seu passaporte foi devolvido na semana passada, por decisão da Justiça.
Embora a saída apontada pelo senador Jorge Viana também tenha sido sugerida por Ciro Gomes em 2016, qual seja, um plano de fuga, a medida desesperada ganhou força com a atual situação de Lula, que ficou muito longe do cenário que o PT previa. Primeiro, esperava que o julgamento no TRF-4 acontecesse em março, o que daria mais tempo a Lula para consolidar seu discurso de candidato. Em vez disso, houve precipitação do julgamento para janeiro. Depois, o partido e a defesa dele acreditavam que haveria uma divergência entre os desembargadores, o que daria maior possibilidade de recurso. Mas foi uma derrota acachapante por 3 a 0. As condições jurídicas estão colocadas. Resta, agora, apenas o cumprimento da lei. Se Lula optar pela fuga – ou asilo, que seja – com o beneplácito das autoridades brasileiras, ao País não haverá mais como descer na escala da degradação institucional.
Uma das estratégias de Lula e dos petistas entusiastas da tese do asilo seria ele se declarar vítima de perseguição
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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

A FOLIA POLITIZADA

Da ISTOÉ
A realidade se impôs sobre a imaginação no carnaval deste ano. Desde 1989, quando a Beija-Flor de Nilópolis desfilou, no Rio, com seus “Ratos e urubus: larguem a minha fantasia” e um Cristo censurado, não se anunciava uma festa como essa, tão orientada para denunciar as grandes mazelas nacionais, como a miséria e a corrupção e para avançar, no ritmo do samba, nas referências ao atribulado momento político. O que se verifica neste ano é que a crítica social se aprofundou, assim como a consciência da crise moral que assola o país. A folia se politizou. No Rio de Janeiro, os protestos sociais aparecem em pelo menos três escolas de samba, que se sobressaem por apresentar enredos com questionamentos ao difícil momento nacional: Beija-Flor, Estação Primeira da Mangueira e Paraíso do Tuiuti. Em São Paulo, a Império da Casa Verde, com seu enredo baseado em “Os Miseráveis”, livro de Victor Hugo, destaca a luta contra a corrupção e os privilégios restritos a uma pequena parcela da população. Também os blocos enchem as ruas cariocas e paulistanas de gritos de guerra contra o cerceamento da liberdade, a volta da febre amarela, os auxílios dados aos juízes, a intolerância religiosa e de gênero e o preconceito racial.
Fundada há 90 anos, a Estação Primeira de Mangueira, estréia, em 2018, no quesito samba politizado com o enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco” — e o alvo principal é o prefeito do Rio, Marcelo Crivella. “O momento político que o Brasil vive é muito delicado. Há uma influência da onda conservadora que extrapola a cultura da sociedade”, afirma o carnavalesco Leandro Vieira. “A chegada do prefeito Crivella ao Rio de Janeiro é isso. Ele representa o avanço da mistura explosiva entre política e religião, é o prefeito de uma cidade que tem uma festa libertária que ele não gosta.” O pomo da discórdia entre a Mangueira e Crivella é o corte das verbas destinadas às escolas de samba do Rio no carnaval deste ano.
Segundo Vieira, o prefeito tentou justificar a medida com o argumento de que o dinheiro seria destinado para as creches municipais, o que revela uma visão errada do carnaval, que além de representar a cultura popular é uma enorme fonte de receitas para a cidade do Rio. “O enredo da Mangueira é um tributo à cidade, à sua essência festiva, seu caráter plural, mundano e livre. A Mangueira veio dizer que a rua é do povo e nosso enredo é um tributo à liberdade — tudo o que o prefeito não quer”, diz Vieira.
O tom mais politizado e crítico dos desfiles deste ano, na avaliação dos próprios carnavalescos, tem relação com a renovação do público da festa, que busca uma maior conexão com o mundo real. Com seu enredo “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”, a Beija-Flor pretende claramente atingir uma plateia mais jovem, que vai para o Sambódromo mas mal assiste aos desfiles porque não se interessa pelos temas apresentado pelas escolas. “Houve uma pasteurização do espetáculo que não gera atração”, afirma o coreógrafo Marcelo Missailidis, responsável pela concepção cênica da Beija-Flor. ”A preocupação de nosso enredo não foi só com o potencial cênico, mas também com um conteúdo que interesse.
Falamos das preocupações de hoje: medo de viver em cidade grande, falta de confiança nos representantes políticos, abandono, angústia da população em todas as camadas sociais.” Em outras palavras, o desfile da escola poderia ser considerado uma grande manifestação política com invólucro artístico. E qual o significado do rato gigante que aparece em um dos carros alegóricos? “É o maior símbolo de corrupção do Estado do Rio. O rato representa toda a imundície, a sujeira da política hoje em dia. Aquilo que corrói a ética. Percebemos hoje que as decisões políticas sempre foram rodeadas por corrupção e ganância”, afirma Missailidis.
O poder do riso
“O riso é uma arma muito poderosa”, diz o pesquisador do carnaval e professor de marketing de massa da Universidade Mackenzie José Maurício Conrado, para ele, o carnaval já traz embutida uma crítica social. “O desfile da Beija-Flor em 1989 foi emblemático por conta do período histórico em que o País se encontrava”, afirma, relembrando a expectativa nacional pela redemocratização com as eleições diretas para presidente, que ocorreram no mesmo ano. Em 2018, ano eleitoral e de polarizações ideológicas, o ambiente social e político se tornaram perfeitos para esse tipo de abordagem. “O carnaval tem essa veia de crítica social. É normal que isso aconteça. Mas parece que este ano ele está mais sintonizado com essas questões”, afirma. “Elas apareceram com muita força porque há mudanças em curso.”
O escritor e sambista Haroldo Costa, outro especialista em carnaval, afirma que temas políticos em sambas enredo são frequentes: “Em diversas oportunidades as escolas realizaram enredos com alusões ou fatos políticos”, afirma. A lista remonta à década de 1950, com “O Grande Presidente”, da Mangueira, em 1956, e segue com “Heróis da Liberdade”, da Império Serrano, em 1969, “Kizomba, Festa e Raça”, da Vila Isabel, de 1988 e “Prestes, o Cavaleiro da Esperança”, da Grande Rio, em 1998. Costa faz questão de afirmar que as escolas de samba não são alienadas, como alguns insistem. Durante a Segunda Guerra Mundial, muitos enredos focaram na presença do Brasil no combate ao nazismo, lembrou. Segundo ele, “não há a menor dúvida de que as escolas têm contribuído de modo efetivo para realçar episódios e personagens que os livros escolares pouco ou nada registram.”
A questão racial e o imperativo da liberdade do homem entrará em discussão no samba da Paraíso do Tuiuti. O enredo “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?” tem como pano de fundo a Lei Áurea e trata da exploração do homem pelo homem no decorrer das civilizações. “Mostra que o negro que era açoitado ficou preso na favela e é marginalizado. Acorda às 3h da madrugada para pegar o ônibus às 5h e ir trabalhar por menos de um salário mínimo, diz Thiago Monteiro, diretor de carnaval da escola. “As críticas não são personificadas em um governo, mas sim em um sistema no qual as grandes corporações exploram o ser humano pagando salários indignos. Nosso enredo é, na verdade, um grande tratado da exploração humana”, afirma.
Pátria amada
“Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu” BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS
Vejo a liberdade aprisionada
Teu livro eu não sei ler, Brasil!
Mas o samba faz essa dor dentro do peito ir embora
Feito um arrastão de alegria e emoção o pranto rola
Meu canto é resistência
No ecoar de um tambor
Vêm ver brilhar
Mais um menino que você abandonou
Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar
Você que negou o amor
Vem aprender na Beija-Flor
Referência ao panelaço
Em São Paulo, a escola de samba Império de Casa Verde ocupará a avenida com o propósito de fazer o público se divertir e pensar. O tema do enredo é “O povo: a nobreza real” e trata da revolução francesa. Mas é impossível ouvir a composição e não relacionar com o cenário que se vê no Brasil. O tema é histórico e atual: muitos com pouco e poucos com muito. As diferenças sociais são bem destacadas no enredo, nos carros alegóricos e nas fantasias. O samba canta as regalias das classes dominantes e a pobreza do povo, que se revolta contra essa situação e provoca uma revolução. No desfile, a ideia da escola é mostrar que o povo venceu os desafios e terminou comemorando em uma grande festa: o carnaval, é claro. De acordo com o carnavalesco Jorge Freitas, a relação com o período histórico e a atual situação do Brasil foi proposital, mas ele afirma que a escola não quer tomar nenhum partido. Segundo ele, a intenção é mostrar que o povo unido é forte. “Só mudou o tempo. O povo, no boca a boca, tem força. Se ele se unir, no nosso reino há justiça”, afirma. Em um dos carros, inclusive, a escola irá trazer o que ficou conhecido como “panelaço”: “Quem estiver assistindo, vai estar se vendo. É histórico e contemporâneo”, afirma. Freitas também explica que uma das obrigações da arte é trazer uma reflexão para a sociedade e que a intenção dele não é ser nem “coxinha” nem “petralha”, mas mostrar que muitos anos se passaram e pouca coisa mudou em relação à liberdade, igualdade e fraternidade, que é o lema da revolução francesa. “O povo se manifesta através da alegria. Quem dera que eu não precisasse falar disso em um enredo”. Um dos onze compositores do samba da Império, Luciano Godoi, explica a intenção da letra: “A gente queria passar, de alguma forma, essa mensagem de que isso aconteceu lá atrás, mas está acontecendo hoje”. Em determinado momento, a música convoca: “Vem pra rua”, slogan que ficou conhecido nas manifestações de 2013. De acordo com Godoi, “não é que a gente quis exaltar um grupo, mas é para mostrar que quando o povo vai para a rua, ele consegue tomar as rédeas.” 
No pré-carnaval de São Paulo, o bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, um dos maiores e mais disputados da capital, trouxe a mensagem “É proibido proibir”, referência aos movimentos de contestação de 1968. Em vários momentos era possível ouvir os foliões cantando músicas de protesto como “Para não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, e “Apesar de você”, de Chico Buarque. As canções ficaram famosas durante o período da ditadura militar, quando a censura atingia também o carnaval. Cheios de artistas, os trios elétricos do bloco passaram pela Rua Consolação, no centro de São Paulo, com discursos poderosos sobre liberdade de expressão. Em um dos carros, artistas de grupos de teatro da região central fizeram uma performance em que apareciam nus. A cantora Maria Rita cantou “Como nossos pais”, música de Belchior que se tornou clássica ao ser interpretada pela mãe dela, Elis Regina. Em vários momentos, os foliões também participaram das manifestações e gritavam “Fora Temer” e “Volta Lula”.
A hora da mudança
“Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco!” ESTAÇÃO PRIMEIRA DA MANGUEIRA
Chegou a hora de mudar
Erguer a bandeira do samba
Vem a luz à consciência
Que ilumina a resistência dessa gente bamba
Pergunte aos seus ancestrais
Dos antigos carnavais, nossa raça costumeira
*Outrora marginalizado já usei cetim barato*
*Pra desfilar na mangueira*
A minha escola de vida é um botequim
Com garfo e prato eu faço meu tamborim
Firmo na palma da mão, cantando laiálaiá
Sou mestre-sala na arte de improvisar
Ôôôô somos a voz do povo embarque nesse cordão
Pra ser feliz de novo
Carna tríplex
O ex-presidente condenado a 12 anos e 1 mês de detenção também é mote da folia. Foi marcado para o terça-feira 13, às 14h, o “Carna Tríplex”. Organizado pelo grupo Mobilização Brasil, o evento acontecerá em frente ao Edifício Solaris, no Guarujá, onde fica o apartamento que Lula recebeu indevidamente da OAS. Não será a primeira vez que o condomínio vira palco de uma manifestação de foliões. No sábado 3, jovens simpatizantes de Lula realizaram um churrasco em frente ao condomínio para homenagear o ex-presidente. O evento foi batizado de “Churras no Tríplex do Lula” teve carne, farofa e camisetas vermelhas.
Além das escolas de samba e dos blocos, outra forma de politizar a folia apareceu nos centros de comércio popular, caso da região da Rua 25 de março, em São Paulo. Como em anos anteriores, máscaras de políticos estavam à venda junto às tradicionais fantasias para os foliões. As figuras que mais aparecem são os ex-presidentes Lula e Dilma, o juiz Sergio Moro, o “japonês da Federal” e o ministro do STF Gilmar Mendes. Ainda que as vendas não estejam tão em alta, as máscaras, que custam a partir de R$ 4, continuam funcionando como alegoria pessoal para os foliões que querem brincar e protestar ao mesmo tempo.
Vem pra rua
“O povo: a nobreza real” IMPÉRIO DA CASA VERDE
“Quem sou eu na ‘selva de poder’?
Mais um ‘bobo da corte’ a padecer
Sem desfrutar da riqueza
Que a realeza tem pra oferecer
No ‘Reino das Regalias’
A poesia é nossa arma pra lutar
Contra o carrasco da injustiça
Na monarquia impera a corrupção
E nos banquetes, toda a fidalguia
Desperta a insatisfação
É chegado o momento, surge um movimento
A batalha acabou de começar
Na alma da gente a esperança continua
Vem pra rua
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