quinta-feira, 20 de julho de 2017

RECORDANDO PADRE CÍCERO

Há exatos 83 anos, a população de Juazeiro do Norte, no Ceará, dava  último adeus a Cícero Romão Batista, o Padre Cícero. Nascido em 24 de março de 1844, Crato (CE), Padre Cícero faleceu em 20 de julho de 1934, em Juazeiro do Norte. Carismático, Padre Cícero ou “Padim Ciço”, obteve grande prestígio e influência sobre a vida social, política e religiosa do Ceará e da Região Nordeste do Brasil.
A cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará celebra hoje o aniversário de 173 anos de Padre Cícero. Cícero Romão Batista nasceu no Crato, 24 de março de 1844 e faleceu em Juazeiro do Norte, 20 de julho de 1934. Carismático, Padre Cícero ou “Padim Ciço”, obteve grande prestígio e influência sobre a vida social, política e religiosa do Ceará e da Região Nordeste do Brasil.
Padre Cícero, foi o primeiro prefeito de Juazeiro do Norte, em 1911, quando o povoado foi elevado a cidade. Voltou ao poder, em 1914, quando o governador Marcos Rabelo foi deposto. No final da década de 1920, o Padre Cícero começou a perder a sua força política, que praticamente acabou depois da Revolução de 1930. Seu prestígio como santo milagreiro, porém, aumentaria cada vez mais.
Em 1° de novembro de 1969 no alto do Horto, em Juazeiro do Norte foi erguido uma estátua (a terceira maior do mundo) em homenagem ao Padre Cícero Romão Batista. Em 22 de março de 2001 “Padim Ciço” foi eleito o cearense do século.
A trajetória religiosa e política de Padre Cícero é relatada na excelente biografia Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão, do jornalista Lira Neto. A obra é primorosa, resultado trabalho intenso de dez anos de pesquisa, baseada em documentos raros e inéditos tornam a biografia a mais completa obra sobre a vida do mais amado e controvertido religioso que o Brasil já teve, Padre Cícero, para os romeiros e fiéis, o “Padim Ciço”.
Clique aqui e ouça a música Viva meu Padim, composta pelo Rei do Baião, Luiz Gonzaga e João Silva para homenagear Padre Cícero. A canção tem a participação especial de Benito di Paula. 

Leia mais sobre Padre Cícero

Lira Neto, via Aventuras na História
Um padre que viveu sob o signo da controvérsia e morreu proscrito, condenado pelo Santo Ofício. Esse foi sacerdote brasileiro Cícero Romão Batista, acusado no fim do século 19 de proclamar falsos milagres, de incentivar o fanatismo popular e de se beneficiar financeiramente da devoção extremada de seus milhões de seguidores.
Em decorrência das acusações de que era um rebelde, um desobediente à hierarquia católica e um semeador de fanatismos, ele foi alvo de um inquérito eclesiástico que terminou por proibi-lo de rezar missas, de confessar fiéis e de ministrar sacramentos como o batismo e o matrimônio. Tornou-se, então, um pária da fé. Apesar de idolatrado pelos cerca de 2,5 milhões de peregrinos que acorrem todos os anos à cidade cearense de Juazeiro do Norte para reverenciar sua memória, Cícero foi um padre maldito, renegado pela Igreja Católica.
Fazedor de milagres
Toda a história pessoal de Cícero Romão Batista está permeada de mistérios, ambiguidades e contradições. Amado e odiado em igual medida por seus contemporâneos, depois de morto - e talvez ainda mais a partir daí - ele continua a provocar sentimentos idênticos de adoração e repulsa.
Nascido na cidade cearense do Crato em 1844, ordenado padre em 1870, Cícero viveu e cresceu na confluência de dois mundos. De um lado, o universo mágico do misticismo sertanejo, no qual a crença em lobisomens, almas penadas e mulas-sem-cabeça convivia com a festiva devoção aos santos padroeiros e com as advertências apocalípticas dos profetas populares, que pregavam o fim dos tempos. Do outro lado, o mundo da fé ritualizada, da disciplina clerical e da submissão cristã com a qual foi educado e doutrinado no seminário. Com um pé no maravilhoso, outro na ascese, Cícero protagonizou uma biografia acidentada, recheada de episódios mirabolantes que mais parecem beirar a ficção.
Entretanto, até os 45 anos de idade, sua vida nada teve de extraordinária. Em 1889, Cícero era um simples padre de aldeia, rezando missa numa minúscula capelinha do então povoado do Juazeiro, a 600 quilômetros de Fortaleza, quando um fenômeno misterioso chamou a atenção dos sertanejos, da Igreja e da imprensa. Ao ministrar a comunhão a uma beata - a humilde costureira e doceira Maria de Araújo -, a hóstia consagrada teria se transformado em sangue. "Não posso duvidar, porque vi muitas vezes", escreveu Cícero a dom Joaquim José Vieira, bispo do Ceará.
Os jornais abriram manchetes para noticiar o fenômeno e os sertanejos caíram de joelhos diante do proclamado milagre. A Igreja, porém, acusou Cícero e a beata de fraude. "Se Maria de Araújo recebe realmente provas do céu, que as vá gozando só, sem perturbar a boa ordem da diocese", desdenhou o bispo Vieira.
Fato ou embuste, o caso é que o padre e seus adeptos evocaram em sua defesa uma série de fenômenos mais ou menos semelhantes, devidamente chancelados pelo Vaticano sob a classificação genérica de "milagres eucarísticos". Mas uma frase atribuída ao então reitor do Seminário da Prainha, o padre Pierre-Auguste Chevalier, revelaria a dificuldade do clero tradicional em aceitar as manifestações da fé popular: "Jesus Cristo não iria sair da Europa para fazer milagres no sertão do Brasil", teria tripudiado o francês.
Chefe político
O episódio da hóstia que diziam se transformar em sangue rendeu a Cícero a admiração dos milhares de peregrinos, que desde então não nunca pararam de chegar a Juazeiro para testemunhar a suposta maravilha. Mas também significou para o padre uma longa via-crúcis de indisposições perante as autoridades eclesiásticas da época.
Banido pelo clero, Cícero passou a ocupar a posição de mártir no imaginário coletivo, ao mesmo tempo que começou a desfrutar de uma enorme notoriedade e de um imenso poder junto ao povo mais simples do sertão, vítimas históricas da seca e do descaso governamental. Aquela gente, sem perspectivas, sem dinheiro e sem chão, cada vez mais se identificava com o sacerdote que nunca foi propriamente um grande orador, mas em compensação sabia falar a mesma língua deles, chamando-os de "amiguinhos", ouvindo-lhes as queixas, distribuindo prédicas e conselhos.
Moralista severo, Cícero pregava contra os amancebados, os festejos pagãos e o desregramento das famílias. Numa terra em que imperava a lei do punhal e do bacamarte, seu lema mais famoso conclamaria os pecadores ao arrependimento: "Quem bebeu não beba mais, quem roubou não roube mais, quem matou não mate mais", costumava dizer.
Quando não pôde mais celebrar batismos, ele próprio aceitou apadrinhar inúmeras crianças, vindo daí o título de "padrinho padre Cícero", que na corruptela da linguagem popular resultou Padim Pade Ciço.
"Em cada casa um oratório, em cada quintal uma oficina", pregava ele, atraindo trabalhadores, agricultores e artesãos de todo o Nordeste, que passaram a se fixar e aos poucos transformaram o arrabalde em um importante centro manufatureiro. O povoado virou cidade autônoma e, em 1911, Cícero foi nomeado o primeiro prefeito de Juazeiro. Líder religioso, tornou-se também chefe político, igualmente polêmico e contraditório. Ao mesmo tempo que pregava aos "náufragos da vida", como se referia aos menos favorecidos, estabeleceu alianças com as elites poderosas.
A Santa Sé delibera
Entre 2001 e 2006, uma comissão multidisciplinar de estudos se debruçou sobre a vasta documentação relativa ao padre, em arquivos do Brasil e do Vaticano. Coordenada pelo bispo do Crato, dom Fernando Panico, tal comissão foi composta por especialistas de várias áreas do conhecimento: antropologia, filosofia, história, psicologia, sociologia e teologia. A finalidade era trazer à luz novos documentos que servissem para tentar responder a uma questão que sempre acompanhou o nome de Cícero: quem afinal foi esse homem, acusado de espertalhão por muitos, aclamado como visionário por outros tantos?
O relatório final da comissão foi entregue em maio de 2006 na Santa Sé. Junto, uma coleção de 11 volumes reunia as transcrições das centenas de cartas trocadas entre os principais personagens da história do padre. Um volume à parte levava cerca de 150 mil assinaturas de populares em prol da reabilitação, às quais se somava um abaixo-assinado no qual se lia o nome de 253 bispos brasileiros favoráveis à causa. Em complemento à papelada, a carta de dom Fernando ao papa: "Venho com toda esperança e humildade suplicar a Vossa Santidade que se digne reabilitar canonicamente o padre Cícero Romão Batista, libertando-o de qualquer sombra e resquício das acusações por ele sofridas",
Em setembro de 2008, a igreja de Nossa Senhora das Dores - o templo que Cícero construiu em Juazeiro e no qual depois se viu impedido de rezar missa - foi elevado pelo Vaticano à categoria de basílica. Com isso, o brasão de Bento XVI foi sintomaticamente colocado à porta de entrada, bem à vista dos romeiros que chegam para louvar o Padim. No templo em que o padre está enterrado, a capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, também em Juazeiro, foi autorizada a instalação de um vitral multicolorido em que se destaca a imagem de Cícero, ao lado de outros santos oficiais.
Em 2015, finalmente, o perdão se tornou 100% oficial. O bispo Dom Fernando Pânico, declarou sua reabilitação em 13 de dezembro. Esse é o primeiro passo para uma posterior beatificação, ou seja, o reconhecimento canônico de que o homem Cícero Romão Batista teria vivido na plenitude das virtudes cristãs, sendo um "bem-aventurado", resultou na consequente autorização para o culto público a seu nome. Devido às milhares de graças que os romeiros dizem ter alcançado por intercessão do padre Cícero - cegos que teriam voltado a ver, aleijados que andaram novamente, loucos que teriam recuperado o juízo -, o caso, ainda pode evoluir da simples beatificação para a efetiva canonização, quando então ele seria elevado à honra dos altares de toda a Igreja. Esse processo burocrático, como ocorreu com Frei Galvão (1739-1822), o primeiro santo nascido no Brasil e durou vários anos.
Santo sertanejo
A polêmica trajetória de Padre Cícero
1844: Cícero Romão Batista nasce na cidade do Crato (CE).
1870: Cícero é ordenado padre, apesar das reservas do reitor do seminário, que o julgava um aluno "teimoso" e "dono de ideias confusas".
1872: Sem ter recebido nenhuma paróquia, o jovem padre aceita o convite de moradores para rezar a missa de Natal no pequeno povoado de Juazeiro, vizinho ao Crato. Segundo ele, um sonho faz com que continue a morar ali para sempre. Jesus teria pedido a Cícero que "tomasse conta" dos pobres do local.
1889: 1 de março, sexta-feira da Quaresma, o padre Cícero oferece a comunhão à beata Maria de Araújo e a hóstia se transforma em sangue. O fenômeno teria ocorrido por semanas seguidas, até 15 de agosto, dia da Ascensão de Nossa Senhora. Os paninhos manchados de sangue são adorados como relíquias sagradas. O milagre vira notícia na imprensa de todo o país.
1891: O bispo do Ceará, dom Joaquim José Vieira, censura Cícero e o monsenhor Monteiro por proclamarem milagres ainda não investigados pela Santa Sé. Cria uma comissão de inquérito eclesiástico, formada pelos padres Francisco Antero e Clycério da Costa Lobo. A ordem é desmascarar um possível embuste.
1892: O padre Antero viaja ao Vaticano em defesa de Cícero. O Santo Ofício examina o caso. Em agosto, o bispo cearense proíbe Cícero de rezar missas, pregar aos fiéis, confessar e ministrar sacramentos.
1894: o Santo Ofício condena os fatos como "prodígios vãos e supersticiosos. Os padres adeptos do milagre se retratam. Menos Cícero.
1898: Cícero vai ao Vaticano se defender. É interrogado e depois recebido pelo papa Leão XIII. O Santo Ofício absolve Cícero das censuras, desde que ele guarde silêncio sobre o caso. O padre jura submissão, mas segue suspenso das ordens sacerdotais. Os paninhos sujos de sangue são roubados da matriz do Crato e desaparecem por vários anos.
1908: Atraído por notícias da existência de uma valiosa mina de cobre na região, chega a Juazeiro um baiano misterioso: Floro Bartolomeu. Médico, rábula e garimpeiro, ele passa a ser o principal braço político de Cícero.
1909: Começa a circular O Rebate, primeiro jornal de Juazeiro, fundado para defender a tese da emancipação do povoado em relação ao Crato. Floro Bartolomeu é um dos editores.
1910: Morre misteriosamente o professor José Marrocos, um ex-seminarista que exerce grande influência sobre Cícero. Floro é acusado de tê-lo envenenado, mas nunca se prova nada a esse respeito.
1911: Juazeiro se emancipa. Cícero, filiado ao Partido Republicano Conservador, é nomeado primeiro prefeito do novo município. Permanecerá quase duas décadas no cargo, sendo reeleito seguidamente. Na data da posse, sela um pacto de paz com os principais coronéis da região, no qual todos prometem parar as animosidades mútuas.
1913: Em acordo com o governo federal e com o aval de Cícero, Floro viaja ao Rio de Janeiro para tramar a queda do então presidente (cargo igual ao de governador) do Ceará, Franco Rabelo. De volta, Floro depõe as autoridades municipais e instala uma Assembleia estadual paralela para caracterizar a duplicidade de poderes e provocar uma intervenção federal.
1914: O governo estadual reage. Manda tropas para atacar Juazeiro. Cícero segue o conselho de um sobrevivente de Canudos e pede aos moradores que cavem um fosso gigantesco em torno da cidade: o "Círculo da Mãe de Deus". Com isso, o ataque fracassa. Juazeiro parte para a ofensiva. Comandado por Floro, um exército de jagunços e cangaceiros toma o Crato e várias outras cidades cearenses, cercando Fortaleza. O governo federal decreta a intervenção no Ceará. Cícero é nomeado vice-presidente do estado.
1916: A Santa Sé declara que Cícero, aos 72 anos, por ainda alimentar o "fanatismo", está excomungado. Mas ele jamais saberia disso. Temendo pela saúde do velho padre, o bispo do Crato, Quintino Rodrigues, evita aplicar a excomunhão e exige dele uma retratação pública. O Santo Ofício revê a pena, mas mantém suspensas as ordens sacerdotais.
1926: A Coluna Prestes entra no Ceará. Cícero escreve carta aberta a Prestes, conclamando-o à rendição. Floro tem a ideia de convocar Lampião para integrar o chamado "Batalhão Patriótico", organizado para dar combate à Coluna. É quando o cangaceiro recebe a patente de capitão e passa a assinar "Capitão Virgulino". No mesmo ano, Cícero é eleito deputado federal, mas não assume o cargo, por causa da idade avançada.
1930: Vitória da revolução que leva Getúlio Vargas à Presidência da República. Cícero escreve uma carta aberta ao povo, classificando os revolucionários de "mensageiros de Satanás".
1934: Morre Cícero Romão Batista. No testamento, ele deixa a maior parte dos bens para a Igreja. Após o falecimento do padre, os paninhos manchados de sangue reaparecem em poder de uma beata. Por ordens do novo bispo do Crato, de acordo com o que determinara o Santo Ofício, eles são destruídos e queimados.
2001: O cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, reabre o processo que culminou na suspensão de Cícero.
2005: Ratzinger é eleito papa. No ano seguinte, recebe a documentação de uma comissão interdisciplinar de estudos que sugere a anistia, post-mortem, do padre.
2015: O padre Cícero é perdoado das punições impostas e reconciliado com a Igreja Católica. O processo de beatificação passa a ser possível.
Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão, Lira Neto, Companhia das Letras, 2009
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MORRE MARCO AURÉLIO GARCIA

Morreu nesta quinta-feira (20), em São Paulo, o professor Marco Aurélio Garcia, 76, assessor da Presidência da República nos governos do PT e fundador do partido.
Professor aposentado do Departamento de História da Unicamp, ele sofreu um infarto fulminante e foi encontrado morto em seu apartamento, no centro de São Paulo, por volta do meio-dia.
Seu corpo será velado às 10h desta sexta (21) na Assembleia Legislativa de São Paulo.
Garcia ocupava nos últimos tempos uma cadeira no conselho curador da Fundação Perseu Abramo, função que assumiu após o impeachment da ex-presidente Dilma.
Ele foi entusiasta do Brics, grupo de países de economia emergente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A Garcia era creditada parte da projeção internacional do Brasil durante o governo Lula.
Embora sofresse de graves problemas circulatórios, o ex-assessor participava ativamente da agenda partidária, como o ato em solidariedade a Lula, na semana passada, após a condenação do ex-presidente pelo juiz Sergio Moro.
Na sexta-feira (14), apresentou à fundação um texto sofre o futuro da esquerda.
No fim de semana, fez compras no centro de São Paulo, onde vivia sozinho em um apartamento com vista para a praça da República. Ele deixa um filho, Leon.
Foi um dos criadores do arquivo de história social da Unicamp, apontado como dos mais importantes da América Latina.
Além da Unicamp, ele também foi professor na Universidade do Chile, na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais e nas universidades Paris VIII e Paris X, na França.
Gaúcho, formou-se em filosofia e direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e fez pós-graduação na Escola de Altos Estudos e Ciências Sociais de Paris.
Garcia foi secretário municipal de Cultura de Campinas (1989-1990) e São Paulo (de 2001 a 2002), na administração da ex-prefeita Marta Suplicy (hoje no PMDB).
Iniciou sua trajetória política no movimento estudantil, foi vice-presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes) e vereador na cidade de Porto Alegre. Exilou-se na França e no Chile durante a ditadura militar. De volta ao Brasil, em 1979, ajudou a fundar o PT, partido que também presidiu.
POLÊMICAS
Garcia colecionou polêmicas ao longo de sua carreira. Como conselheiro de Dilma, foi responsabilizado pelo silêncio da ex-presidente sobre a violenta relação do governo de Nicolás Maduro com opositores na Venezuela.
Foi ainda influente na exclusão do Paraguai do Mercosul, em 2012, após o impeachment-relâmpago do presidente Fernando Lugo.
Um dos fundadores do PT, era chamado de "professor" entre os amigos.
Dos inimigos, recebeu o apelido de "Top Top", em alusão a um gesto obsceno que fez, em 2007, ao assistir ao noticiário sobre o acidente do Airbus A320 da TAM.
Desde então, Garcia lamentava o fato de ter sido filmado, de fora de seu gabinete no Palácio do Planalto, fazendo um movimento com as duas mãos enquanto via reportagem sobre o acidente pela TV.
No flagrante, ele comemorava a conclusão de que um defeito na aeronave provocara o acidente, já que o governo vinha sendo culpado pela tragédia em São Paulo, que causou 199 mortes.
O assessor era famoso por não ter muitos freios e foi até repreendido por Dilma após anunciar em entrevista a possibilidade de redução das taxas de juros no Brasil.
Também causou desconforto de seus pares ao pregar afastamento de petistas investigados por suspeita de corrupção, como o ex-tesoureiro João Vaccari Neto.
Era ainda um dos defensores da formação de uma frente de partidos de esquerda, nos moldes da coalizão governista uruguaia, como saída para a esquerda brasileira e mesmo para o PT.
CRISE
Em uma entrevista à Folha, o ex-assessor contou ter sido alvo de hostilidade nas ruas em meio à crise enfrentada por seu partido.
"No domingo, uma pessoa passou de carro e me insultou. Num restaurante um senhor idoso veio fazer críticas. Mas este foi muito educado, tive a oportunidade de conversar com ele por dez minutos. Fico chateado. É uma consequência de um conservadorismo muito agressivo de um setor.
Nunca insultei ninguém. Nunca me vali de uma situação que pudesse ser favorável para fazer igual ao que está acontecendo", relatou.
Rechaçava o rótulo de organização criminosa associado ao PT.
"Uma coisa é dizer que pessoas no PT se envolveram em malfeitos. Outra é tentar qualificar o PT como uma organização criminosa. Não estou de acordo. Não me considero criminoso. Não tenho nada a ver com isso."
Recentemente expôs críticas à política internacional do governo Temer. Em uma gravação ao site Nocaute, do escritor Fernando Morais, disse haver uma partidarização do Itamaraty.
Reclamou do ingresso do Brasil no Clube de Paris, segundo ele "uma imposição desses quadros jovens neoliberais que infestam a equipe econômica. Alguns estão plantados também na Casa Civil".
REPERCUSSÃO
"A morte do professor Marco Aurélio Garcia, meu amigo querido, é extremamente dolorosa (...) Hoje é um dia de dor para todos nós, que compartilhamos com ele seus muitos sonhos, histórias e lutas. Era um amigo querido, de humor fino e contagiante, sempre generoso e cheio de ideias, dono de uma mente arguta e brilhante."
Dilma Rousseff, ex-presidente da República
"Profundamente entristecido com a morte do Marco Aurélio Garcia. Um colega exemplar e um grande amigo. Um humanista com visão política ampla e do lugar do ser humano nos processos históricos. Um verdadeiro intelectual de esquerda como já não se fazem hoje em dia. Deixa uma grande lacuna no pensamento democrático e progressista."
Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa 
"Destacou-se como um dos mais importantes arquitetos da integração latino-americana e da ampliação das relações com países da África e dos Brics. Contribuiu decisivamente para que o Brasil tivesse uma política externa ativa e altiva."
Gleisi Hoffmann, senadora (PR) e presidente nacional do PT
"Dificilmente alguém pode escrever a história da América Latina nesses últimos 15 anos sem falar no Marco Aurélio Garcia. Ele ajudou a escrever a política exterior do Brasil."
Paulo Teixeira (PT-SP), deputado federal
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VEM PRA CAIXA !

A Caixa está à procura do ex-governador de Goiás Alcides Rodrigues Filho, o Cidinho, a fim de que ele preste contas de um contrato firmado pelo governo goiano em sua gestão com o governo federal em 2007 ou devolva mais de R$ 300 mil, em valores atualizados.

Se em 45 dias Cidinho não prestar contas do dinheiro recebido, o caso será remetido ao Tribunal de Contas da União (TCU). A Caixa publicou a notificação no Diário Oficial da União por não ter encontrado Cidinho.
O ex-governador goiano sofreu um sério acidente de automóvel em outubro do ano passado. Ele mora na cidade de Santa Helena de Goiás, onde seu filho, João Alberto Rodrigues (PRP), é prefeito.

Colemar Moura, advogado de Cidinho, afirmou a EXPRESSO ter estranhado a notificação da Caixa porque o ex-governador sempre foi localizado para responder a eventuais pendências de sua gestão.
Da coluna Expresso, ÉPOCA
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quarta-feira, 19 de julho de 2017

OS SURREALISTAS LULA E TEMER

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo
O termo castiço é contubérnio, ou a familiaridade para delinquir e enganar. Dele brotaram ou convergiram outros similares, há muito tempo (e hoje mais do que nunca) em moda no Brasil: conluio, conjura e tudo o que esconda o crime dentro de si.
Entre nós, o crime está à mostra. O processamento do presidente Michel Temer pelo Supremo Tribunal e a condenação do ex-presidente Lula da Silva a nove anos e meio de prisão, por exemplo, têm a mesma origem e surgem do mesmo sigiloso contubérnio, que até no som já é explosivo. Tanto o caso de Lula (que se proclama a pessoa “mais honesta do Brasil”) quanto o de Temer (que se diz “a caravana que passa”) surgem do conluio que tenta disfarçar ou ocultar o delito.
No caso de Lula, o detalhe financeiro que levou à condenação é quase insignificante – uns R$ 3 milhões – diante das centenas de milhões de dólares dos roubos apurados na Lava Jato e outras estripulias. O apartamento no Guarujá, porém, desponta como o rabo do gato que surge pela fresta da porta e revela os multimilionários ninhos de rato gerados no conluio entre grandes empresas e o poder enquanto ele estava no poder.
Algo similar acontece com Temer. O amistoso diálogo com Joesley Batista revela uma intimidade em que as frases ou ideias nem precisam ser concluídas para se entenderem. Basta que um inicie e o outro já complementa.
Quem imaginaria um presidente da República, em conversa com velho comparsa na calada da noite, mandando que continue a entrar, no futuro, pelos fundos do palácio para não ser identificado?
“Sempre pela garagem, viu?”, advertiu Temer a Joesley Batista, em sussurro, ao final da conversa daquele mês de março, hoje estopim de uma explosão inimaginável: o presidente da República investigado pela Polícia Federal e denunciado ao Supremo Tribunal pelo procurador-geral, dependendo apenas da licença dos deputados.
Quem imaginaria alguém como Lula, que há pouco perdeu a esposa, culpando (de fato) a mãe dos próprios filhos pelo obsessivo (ou mesquinho) interesse num apartamento triplex de frente para o mar?
Lula condenou-se a si próprio naquele depoimento ao juiz Sergio Moro, meses atrás. O Lula solto e falastrão sumiu. Surgiu um reticente, incapaz de ocultar que inventava e que, ao inventar, mentia. E se viu que tudo aquilo era apenas o rabo do gato pela fresta da porta...
Lula terá sido tão ausente da função de presidente da República que o assalto à Petrobrás prosperou de forma gigantesca em oito anos de seu governo? Ele nunca soube de desvios na maior empresa estatal, nem desconfiou que o então deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) estivesse envolvido em estrondosas falcatruas?
Temer tenta se livrar de ser julgado pelo Supremo. Compôs com servos fiéis a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados para que, a partir dali, se estanque o processo. Ora, se nada daquela aparente intimidade criminosa com o mafioso Joesley for verdadeiro, por que evitar a ampla atuação do Supremo? O execrável é que a fidelidade tenha raízes em nova orgia de liberação de verbas de “emendas ao Orçamento” para os currais eleitorais, ou nomeações no Dnit e noutros setores com polpudas verbas.
Temer continua com todos os poderes de governança da função presidencial. Mas já não é o chefe de Estado modelo de sensatez, equilíbrio e serenidade, acima de pequenezes, apto a mediar as disputas e decidir com isenção. Ao contrário, alinhou-se com o lado nebuloso e dele não se desgruda. Seus ministros mais íntimos e mais poderosos são réus na Justiça. E alguns ex-ministros e auxiliares estão presos.
Que bizarro modelo pode ser alguém que manda um emissário “de estrita confiança” receber uma mala com R$ 500 mil?
O jeito ousado e a cara de atrevida inocência dos políticos, empresários e figurões que desfilam pelas investigações fazem com que tudo pareça surgir de um romance surrealista de terror, imaginado por um ficcionista genial, mas doentio.
Os envolvidos (e são centenas) agem com a desenvoltura e naturalidade de personagens inventados, vestidos com fantasia grotesca, tal qual uma caricatura fatídica. E tão burlesca e terrorífica que ninguém se animaria sequer a esboçar um rabisco, por ir além do razoável, só admissível na literatura fantástica. Agora, porém, a crua realidade é que soa como fantástica, fruto da imaginação e da fantasia, quando apenas retrata o cotidiano.
A crise política imita um terremoto: tudo se abala ou despenca na superfície, mas, em realidade, as fissuras estão lá no fundo da Terra. Escondidas numa complicada geologia, são elas que provocam o horror.
Nosso terremoto dos últimos anos escancara, agora, o criminoso poder dos grandes figurões da política e da economia. Hoje conhecemos o rosto profundo da própria crise, tão nosso como um samba do Adoniran Barbosa, mas até aqui oculto e escondido – e que não nos amimávamos sequer a cantarolar.
Desde 2014 a Lava Jato e outras lavagens bilionárias, como a do ex-governador do Rio Sérgio Cabral, do PMDB, ou menores, como a do Metrô paulistano (com o PSDB à frente), revelam o monstro voraz que domina a área partidária. Quatro ex-presidentes da República vivos (Sarney, Collor, Lula e Dilma) aparecem envolvidos em algo ou são suspeitos de operações irregulares, em maior ou menor grau. Lula acaba de ser condenado no menor dos muitos enredos em que aparece ou aparecerá. As irregularidades do tempo de Fernando Henrique só não serão avaliadas porque prescreveram judicialmente.
E falta ainda penetrar no emaranhado dos mais de 30 partidos, de fato meros grupelhos que se alugam ou se vendem para ampliar o tempo de rádio e televisão dos candidatos a cargos majoritários, como se democracia fosse isso – mera contagem de votos!
Jornalista e escritor,prêmio Jabuti de Literatura em 2000 e 2015
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terça-feira, 18 de julho de 2017

COISA DE RICO

Do UOL
O preço alto que nos ingressos que tem afastado torcedores pobres dos estádios é um prática correta dos clubes na visão de Alexandre Kalil, atual prefeito de Belo Horizonte e presidente do Atlético Mineiro na conquista da Libertadores em 2013. A afirmação foi feita à edição brasileira do jornal El País.
"No mundo inteiro, futebol não é coisa para pobre. Doa a quem doer. Ingresso é caro em todo lugar."
O ex-cartola acrescentou que "entrada a preço de banana estragada só existe no Brasil". Na avaliação de Kalil, o futebol não é assistência social nem uma entidade pública. Quando questionado por ter colocado ingresso a R$ 5 para encher o estádio em 2008, temporada que o Atlético MG foi mal, ele respondeu que "isto foi em outra época"
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segunda-feira, 17 de julho de 2017

AS AMANTES DE GETÚLIO

Um sujeito prepotente, egoísta, que nutria um grande apreço por si próprio e, ao mesmo tempo, um desprezo total por outras pessoas – inclusive amigos. A frieza que pontuou a trajetória do ex-presidente Getúlio Vargas (1882–1954) foi quebrada por uma única pessoa, teoricamente bem mais inofensiva do que a imprensa livre ou qualquer outro adversário que cruzou o seu caminho. Aimeé Lopes, uma paranaense elegante e culta, que viajava com frequência para a Europa e dominava seis idiomas, entrou na vida de Vargas em 17 de abril de 1937. O presidente – que completara bodas de prata ao lado de dona Darcy, casada com ele desde os 15 anos – não resistiu ao charme de Aimeé, esposa de seu amigo e oficial de gabinete Luiz Simões Lopes, que mais adiante viria a presidir a Fundação Getúlio Vargas por quase cinco décadas. Naquela data, o homem mais poderoso do País escreveria em seu diário a primeira de cerca de 20 citações que fez à amante: “Ocorrência sentimental de transbordante alegria”. Mais: dizia-se “um homem no declínio da vida… banhado por um raio de sol”. No livro “Os Tempos de Getúlio Vargas” (Topbooks), o escritor soteropolitano José Carlos Mello não só crava o romance que corria a boca pequena como deixa claro que Aimeé feriu o coração de Vargas. “Aimeé não o amou. Na sua juventude tinha fascínio por ser amante da autoridade máxima do País”, diz o autor, 69 anos, que há 20 pesquisa a vida do gaúcho de São Borja. “Ela não queria se casar, ter filhos, pretendia uma vida livre não compatível com a sociedade da época.” Mello se debruçou por três anos sobre as 1.257 páginas do diário do “pai dos pobres” com o intuito de apresentar uma história mais verdadeira do que ficcional sobre Vargas.
O trunfo de seu livro, não menos caudaloso (600 páginas), é detalhar a faceta menos discutida do estadista, especialmente a sua vida íntima e o seu leque de amantes. Mulherengo, o todo-poderoso líder gaúcho contava com os préstimos do amigo Iedo Fiúza, que foi prefeito de Petrópolis, para dar as suas escapadas. “Fiúza sabia onde estavam os melhores endereços para trazer calma ao presidente, conhecia as mais discretas garçonnières da cidade”, escreve o autor. E não foram poucos os episódios de infidelidade. Os “amores mercenários”, como Vargas se referia às amantes, provocavam ciúme em sua esposa. As saídas dele com Fiúza aconteciam à noite ou mesmo no meio da tarde. O pretexto mais frequente: inspeção a obras rodoviárias. “Não imagino a esposa do presidente indo além de um chilique com o marido. Ele a mandaria de volta a São Borja, se ela passasse dos limites”, diz Mello sobre Darcy, que assistiu ao casamento definhar e se resumir a partidas de dominó e pingue-pongue.
Nos três últimos anos de vida, Vargas remediava o marasmo de seu matrimônio falido nos braços da atriz Virgínia Lane ou, nas palavras dele, “a vedete do Brasil”, cujas pernas eram uma mania nacional. “Ela não foi além de uma companhia para o político, que beirava os 70 anos naquela época”, diz Mello. Os encontros do casal aconteciam no apartamento de Virgínia, em Copacabana.
O presidente entrava de carro pela garagem e o condutor, um tenente, o aguardava. Para a atriz, que irá completar 92 anos este mês, Vargas foi um grande amor que a estimulou a estudar direito. Na avaliação de Mello, contudo, Aimeé, que morreu aos 104 anos, em 2006, merece o título de grande paixão do presidente. Juntos, os dois cavalgavam e caçavam em bosques. Trocavam olhares provocativos em eventos. O romance atravessou os anos 1937 e 1938 e terminou por iniciativa da paranaense, que optou por se divorciar do marido e abandonar o amante. Não era uma mulher de vínculos.
Sem a “bem-amada”, como Vargas se referia a ela, até mesmo os amores mercenários deixaram de encantá-lo. Assim Vargas registrou para a posteridade a importância de Aimeé: “Vou a uma visita galante. Saio um tanto decepcionado. Não tem o encanto das anteriores. Foi-se o meu amor, e nada se lhe pode aproximar.” Seu coração parara de bater muito antes que ele atirasse contra o próprio peito e colocasse fim à vida em 1954.
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domingo, 16 de julho de 2017

LUZES E TREVAS

Artigo de Fernando Gabeira
A notícia da condenação de Lula chegou num momento especial. Acabara de escrever um artigo sobre o apagão no Senado. E comparava aquilo aos apagões nos estádios de futebol: a luz volta aos poucos. E concluía que, no universo político, as luzes só voltarão completamente em 2018. A condenação de Lula é uma pequena lanterna para enxergar parcialmente o cenário das eleições presidenciais. A estratégia de lançar a candidatura para escapar da Justiça, de politizar o processo, sofreu um golpe. Talvez por falta de alternativa, a esquerda pode insistir nela. Mas é um equívoco fixar-se no destino de uma só pessoa e esquecer o país.
O Tribunal Regional em Porto Alegre pode levar até nove meses para julgar um recurso, uma condenação fundada em provas testemunhais, documentais e periciais. Pode até levar mais. Legalmente é possível ser candidato. Mas será preciso levar um guarda-roupas de candidato e uma malinha com as coisas indispensáveis na cadeia.
O candidato vai se mover sempre com essa espada na cabeça, e supor que isso não influa na sua viabilidade só é possível aos que o seguem com um fervor religioso. Ao mesmo tempo em que Lula era condenado por Sergio Moro, a Câmara discutia se aceitava ou não a denúncia contra Temer.
Embora esses fatos apareçam de forma isolada, fazem parte de um mesmo processo histórico. O governo petista caiu, em seu lugar ficaram os cúmplices da aventura que arruinou o país. Agora, a coisa chegou a eles.
Um ex-presidente condenado, um presidente denunciado, dois presidentes impedidos. É o momento de avaliar, não só um governo mas todo o processo de redemocratização.
É possível começar de novo? As diretas eram uma bandeira clara. A luta contra a corrupção, também. Mas o principal cenário dessa luta acontece na Justiça, onde os processos correm.
Resta o caminho eleitoral. Em alguns países da Europa, como a Dinamarca, num determinado momento, e a França agora, eleições costumam ser um sopro de vida ao sacudir um sistema envelhecido. Aqui no Brasil, o sistema não apenas envelheceu mas também se corrompeu. Muito possivelmente a renovação será orientada por valores que estiveram soterrados nesse período. No entanto isso não basta. Estamos vivendo problemas diante dos quais apenas a honestidade não resolve. As questões emergenciais estão aí, muitas delas decorrentes do colapso dos governos corrompidos.
Segurança, por exemplo. Meu projeto era escrever sobre isso até apagarem as luzes do Senado e ver aquelas mulheres comendo quentinhas. Isso me fez refletir sobre luzes e trevas.
Mas quando pensava em segurança, minha ideia era mostrar alguns reflexos psicológicos de quem mora numa cidade como Rio. Um deles é o perigo de se acostumar com a violência. Começava por mim mesmo. Vivo na base de um morro onde sempre houve tiroteio. Numa visita a Porto Príncipe, no Haiti, hospedado na casa de um diplomata brasileiro, ouvi tiros ao longe. Virei para o canto e dormi como se estivesse em casa.
Não sei que impacto teria a morte de inocentes em outros lugares. Mas a morte de crianças e adolescentes no Rio é recebida com uma certa resignação.
O terrorismo não é o melhor parâmetro. Mas suas vítimas são cultuadas e as próprias autoridades aparecem para visitar as famílias. Absortos em suas manobras defensivas, os políticos não têm sensibilidade para isso. Nem espero que tenham nesta encarnação.
No entanto, não importa que governo fique de pé, é essencial conseguir dele alguma resposta à violência urbana. Na verdade, seria necessário que tivesse uma visão clara de como gerir os colapsos que explodem em vários pontos da máquina.
A sucessão de crimes nas cidades e sucessão de escândalos no poder produziram uma certa anestesia. Suspeito que muita gente vai se perguntar se ainda vale a pena gastar alguma energia em mudanças. Creio que uma resposta negativa tende a perpetuar essa etapa constrangedora da história moderna brasileira.
Não porque goste de eleições e tenha muita paciência com o festival de demagogia que gravita em torno delas. É que não vejo outra saída. Ainda assim uma saída estreita, precária. Esta é sociedade mais extensamente informada de nossa história moderna. Talvez consiga um Congresso renovado que, apesar de modesto, pelo menos não atrapalhe.
A política tornou-se um tema central porque a corrupção e suas consequências roubaram a cena. Sem esses fatores dispersivos, é possível concentrar mais energia em campos que, realmente, nos empurram para a frente: trabalho, inovação, conhecimento.
A política terá o seu papel, que certamente vai se desenhando pelo caminho. Mas não pode mais ser essa pesada mala nas costas do país. Mala cheia de malinhas: dinheiro, joias, obras de arte, cartões de crédito, contas no exterior.
Mas o grande peso mesmo não é monetário. É a perda de esperança num futuro comum, o eclipse de um sentimento de país.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 16/07/2017
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sábado, 15 de julho de 2017

HORÁRIO LIMITADO

A gestão João Doria (PSDB) mudou as regras para estudantes que usam passe livre na capital e vai reduzir o tempo de uso diário. As alterações foram publicadas na edição deste sábado (8) do "Diário Oficial" da Cidade.
A partir do próximo dia 1º de agosto, quando voltam as aulas, o estudante terá direito a fazer até quatro embarques em um período de duas horas, duas vezes ao dia.
Hoje, o estudante conta com até oito embarques ao dia, em um período de 24 horas. Assim, é possível usar o passe livre para outros fins, como ir ao trabalho. Com o novo limite de embarques, teoricamente o estudante só poderá usar o passe livre para ir e voltar da escola ou da faculdade.
Segundo a SPTrans (empresa que gerencia o transporte municipal), o número de cotas vai variar conforme a frequência exigida pela instituição de ensino: de dez cotas ao mês para cursos que exijam uma presença por semana a até 48 ao mês aos que exijam cinco presenças semanais.
O número de embarques será contado a partir do registro da primeira passagem pelo validador do cartão. Os estudantes que pagam meia passagem também terão direito a 48 cotas ao mês. De acordo com a Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes, a expectativa é de uma economia de R$ 70 milhões até o fim deste ano com a nova medida.
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TRISTE VISIONÁRIO

Durante mais de dez anos, Lilia Moritz Schwarcz mergulhou na obra de Afonso Henriques de Lima Barreto, com seu afiado olhar de antropóloga e historiadora, para realizar um perfil biográfico que abrangesse o corpo, a alma e os livros do escritor de Todos os Santos.
Esta, que é a mais completa biografia de Lima Barreto desde o trabalho pioneiro de Francisco de Assis Barbosa, lançado em 1952, resulta da apaixonada intimidade de Schwarcz com o criador de Policarpo Quaresma - e de um olhar aguçado que busca compreender a trajetória do biografado a partir da questão racial, ainda pouco discutida nos trabalhos sobre sua vida.
Abarcando a íntegra dos livros e publicações na imprensa, além dos diários e de outros papéis pessoais de Lima Barreto, muitos deles inéditos, a autora equilibra o rigor interpretativo demonstrado em Brasil: Uma biografia e As barbas do imperador com uma rara sensibilidade para as sutilezas que temperam as relações entre contexto biográfico e criação literária.
Escritor militante, como ele mesmo se definia, Lima Barreto professou ideias políticas e sociais à frente de seu tempo, com críticas contundentes ao racismo (que sentiu na própria pele) e outras mazelas crônicas da sociedade brasileira.
Generosamente ilustrado com fotografias, manuscritos e outros documentos originais, Lima Barreto: Triste visionário presta um tributo essencial a um dos maiores prosadores da língua portuguesa de todos os tempos, ainda moderno quase um século depois de seu triste fim na pobreza, na doença e no esquecimento.
Sinopse do livro Lima Barreto: triste visionário, via biblioteca da Folha.
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sexta-feira, 14 de julho de 2017

QUANDO AS LUZES SE APAGAM

Artigo de Fernando Gabeira
Vivemos momentos desoladores. O apagão do Senado é um fato simbólico que nos provoca a pensar sobre como sobreviver no escuro.
Nos apagões em estádios de futebol as luzes nunca voltam de uma vez só, o campo vai se iluminando aos poucos. Creio que as luzes só voltarão totalmente no Congresso depois das eleições de 2018.
Daqui até lá teremos de nos acostumar com a penumbra. A realidade histórica obrigou-nos a derrubar presidentes com uma frequência maior. A repetição nos obriga também a um espetáculo constrangedor, os deputados se sucedendo na tribuna: voto sim pela família, pelos netos, pelo marido, por sua cidade natal e o pelo coronel Brilhante Ustra.
Estamos no caminho dessa desse velho enredo. Sempre se diz no final que a sociedade se surpreendeu com o nível de seu Congresso. A chance de evitar as surpresas que se repetem, apesar de tudo, está concentrada na capacidade social de mudar o quadro em 2018.
Outro dia alguém me perguntou o que esperava do eventual sucessor de Temer nesse período de transição. Nada, respondi distraidamente. Aos poucos fui obrigado a precisar esse nada. Basta que toque a máquina do Estado, num momento em que muitos setores ameaçam entrar em colapso.
E basta que o Congresso tenha aprovado a reforma mais negociável, que é a do trabalho. Na política, que ao menos reduza o número de partidos.
No quesito tocar a máquina será preciso considerar emergencial a crise da segurança pública. Talvez por uma visão limitada e pessoal eu destaque esse tema. Vivo no Rio de Janeiro e viajo semanalmente pelas estradas do Brasil. O Rio vive um clima trágico: crianças mortas, balas perdidas, tiroteios. E as estradas agora estão menos policiadas, pois faltam recursos à Polícia Federal.
Não sou favorável à tese do Estado mínimo, penso como John Gray que o Estado tem vários tamanhos possíveis, dependendo das circunstâncias históricas.
Se Rodrigo Maia for presidente, terá chegado ao cargo com 53 mil votos. Em algumas configurações partidárias esse número não chega a ser suficiente para eleger um deputado. O ideal, portanto, seria tocar as obrigações cotidianas, sem muitas marolas.
O Congresso ficaria na penumbra, o que não significa opacidade, porque a transparência é uma conquista. Seria apenas uma forma de não atrapalhar mais a recuperação econômica, evitar os sobressaltos dedicando-se a projetos que não tem mais legitimidade para aprovar
Isso talvez possa liberar alguma energia social. Perdemos muito tempo ouvindo discursos, dispersamo-nos muito com as nuvens da política.
Toda semana o PSDB se reúne para decidir se sai ou não do governo. Como dizia Cazuza, vivemos num museu de grandes novidades.
As próprias discussões sobre o destino do Temer, embora tratando de crimes diferentes dos atribuídos a Dilma, têm a mesma monotonia jurídica. O relator Sergio Zveiter afirmou que os indícios eram suficientes para autorizar que fossem investigados. Disse que, nesta fase, não se trata de afirmar que in dubio pro reo, algo que se aplica ao julgamento. E concluiu que, nesse caso e etapa, a dúvida é pró-sociedade.
O advogado de Temer questionou a tese em abstrato, afirmando o direito do indivíduo. Algo louvável. No entanto, a sociedade é feita de indivíduos que ocupam lugares diferentes, arquitetos, cozinheiros, encanadores e um presidente da República. No caso de denúncia contra o presidente da República, a sociedade tem o direito de conhecer as suas consequências.
O enigma de todo o processo é a própria sociedade. Embora atenta, não parece ter ânimo par ir às ruas. No “fora Dilma” havia emoção, confrontos.
A oposição a Temer revela-se mais nas pesquisas de opinião do que nos movimentos de rua. Tornou-se algo do cotidiano, inspirou até a marca de uma cerveja artesanal Fora Temer. Como toda bebida algo alcoólica, imagino que sugira também moderação para evitar uma ressaca brava.
A liquidação do grupo de Temer, amigos presos, assessores presos, é mais uma etapa da derrocada de um gigantesco esquema de corrupção. O que restava do grupo dominante vai deixando a cena e em seu lugar um apagado Congresso deve tocar o País num regime parlamentarista não escolhido como resultado de um de debate sobre o rumo da política. Um parlamentarismo acidental, que deveria ter o cuidado de um zelador noturno que trabalha apagando as luzes lentamente.
Até que amanheça. Com sol ou nublado, radiante ou cinzento, mas amanheça. Foi muito longo o período de decomposição do processo político-partidário, ele tende a anestesiar, como os tiroteios do Rio e a sucessão de mortes de crianças alvejadas em casa, na escola, no carro e até na barriga da mãe.
As eleições em período de desencanto político costumam marcar novas etapas. Na Dinamarca o desencanto foi devastador para os partidos dominantes, na França surgiu como um movimento por fora deles.
Não sei o que acontecerá aqui, mas duvido que continuaremos nessa sequência de quedas de presidentes e deputados votando pela mãe, pelos netos. Presidentes e deputados serão possivelmente melhores. Com um nível de informação como nunca teve antes sobre o universo político, a sociedade deve se manifestar.
Ainda aí, nas eleições, poderá surgir de novo a questão: vale a pena dedicar alguma energia a essa mudança? A resposta negativa pode perpetuar esse horror, em nome da mãe, dos netos, da cidade natal e do coronel Brilhante Ustra.
Já se discute muito no Rio se a cidade não se tornou impraticável. Muitos brasileiros se deslocam para Portugal, que exerce grande fascínio. Mas 517 anos depois na dá para voltar todo mundo para Portugal e encobrir o Brasil. A saída só se encontra por aqui. Mesmo depois de resolvida a escassez de passaportes.
Artigo publicado no Estadão em 14/07/2017
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A ETERNA VÍTIMA

A trajetória de vida de Luiz Inácio Lula da Silva é marcada pela vitimização. Até certo ponto, a condição lhe teria sido determinada pelas adversidades que afligem tantos milhões de brasileiros como ele. Só mais tarde, quando a malandragem já estava suficientemente desenvolvida para capturar o potencial político daquela condição, é que nasceu a persona pública de Lula, a eterna vítima.
Ele é o sétimo de oito filhos de um humilde casal de lavradores analfabetos, o menino que passou fome e não teve acesso à plena educação formal. É o sertanejo forte descrito por Euclides da Cunha, o jovem que sobreviveu à inclemência do agreste pernambucano e veio fazer a vida na Grande São Paulo. É o metalúrgico que ousou enfrentar a ganância da burguesia e ascendeu como a maior liderança sindical do Brasil. É o político nato que lutou contra a ditadura e ajudou a escrever uma nova Constituição democrática. É o candidato que passou quatro campanhas presidenciais sendo achincalhado por não ter um diploma universitário, mas triunfou no final. “Fui acusado de não ter diploma superior. Ganho como meu primeiro diploma, o diploma de presidente da República do meu País”, disse ele, chorando, em dezembro de 2002. Agora, é o criminoso condenado injustamente a nove anos e seis meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Lula da Silva não existe na esfera pública se não estiver sendo vítima de alguma injustiça ou atacado pela força de uma arbitrariedade. Jamais é o sujeito ativo de seus próprios infortúnios, o único responsável pelas consequências das más escolhas que faz. Quando os fatos contradizem o mito, que se reescrevam os fatos.
No primeiro pronunciamento após a condenação histórica pelo ineditismo – Lula da Silva é o primeiro ex-presidente da República condenado por um crime comum –, a cantilena da vitimização deu o tom. O que se viu na manhã de ontem, no diretório do PT em São Paulo, foi o personagem de sempre, dizendo as platitudes de sempre. Durante o discurso, que durou pouco mais de meia hora, em nenhum momento Lula da Silva contestou objetivamente as razões de sua condenação, minuciosamente descritas ao longo das 238 páginas da sentença proferida pelo juiz Sérgio Moro.
Sabedor de que a esmagadora maioria de sua audiência cativa não irá ler a peça condenatória – e aqueles que a lerem o farão com os olhos enviesados pela paixão que devotam ao demiurgo –, Lula se dedicou ao discurso político de candidato à Presidência, um recurso, aliás, que hoje lhe parece ser mais importante do que aqueles que seus advogados, certamente, irão interpor na Justiça.
O desapreço que Lula demonstra ter pelo Poder Judiciário é tal que o ex-presidente não se limitou a criticar o teor da sentença que o condenou, um direito legítimo que assiste a qualquer réu. No que chamou de “entrevista coletiva” – outra mistificação, pois não abriu espaço para perguntas dos jornalistas –, Lula foi além e questionou a própria legitimidade do Poder Judiciário para julgá-lo. “Só quem tem o direito de decretar o meu fim é o povo brasileiro”, disse ele.
A fragilidade de Lula da Silva no campo jurídico é evidente. A sentença condenatória divulgada ontem corresponde apenas a um dos cinco processos a que o ex-presidente responde. Para ele e seus sequazes, a alternativa à cadeia é a aposta numa candidatura à Presidência em 2018.
“Senhores da Casa Grande, permitam que alguém da senzala cuide deste povo”, disse o pré-candidato, agora condenado, transformando o que deveria ser um ato de contrição em um ato político-eleitoral.
A sentença do juiz Sérgio Moro expôs ao Brasil o verdadeiro Lula da Silva, não o personagem que ele criou para sua própria conveniência política, envernizado ao longo dos anos por marqueteiros contratados a peso de ouro.
Mantida a sentença condenatória da primeira instância pelo Tribunal Regional Federal (TRF) da 4.ª Região, Lula estará inelegível. Caso o tempo da Justiça não seja o mesmo da política, que as urnas sejam tão implacáveis quanto a sentença. Para o bem do Brasil e dos brasileiros. 
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quinta-feira, 13 de julho de 2017

PRISÃO PREVENTIVA

A Justiça do Peru determinou nesta quinta-feira (13) a prisão preventiva, por 18 meses, do ex-presidente peruano Ollanta Humala (2011-2016), 55, e de sua mulher, a ex-primeira-dama Nadine Heredia, 41.
Eles são acusados de lavagem de dinheiro por conta do recebimento de caixa dois vindo da construtora brasileira Odebrecht durante as campanhas eleitorais de 2006 (em que Humala perdeu para Alan García) e de 2011 —quando venceu Keiko Fujimori.
Trata-se do primeiro dirigente de um país latino-americano, ainda que já não mais exercendo o cargo, que irá para a prisão por causa de desdobramentos das delações da Odebrecht no decorrer da Operação Lava Jato.
A sessão que decidiu pela prisão foi longa. Na noite de quarta-feira (12), a Promotoria entrou madrugada adentro para apresentar sua acusação. O julgamento foi, então, interrompido e retomado na tarde de quinta (13).
O juiz Richard Concepción Carhuancho levou cinco horas para demonstrar que, segundo sua avaliação, haviam sido apresentados fatos novos que apontavam para a possibilidade de Humala deixar o país —afinal, sua mãe, mulher e filhas haviam viajado recentemente— e de ele e Heredia tentarem atrapalhar as investigações em curso.
Pela manhã, Humala deu breves declarações, afirmando ser inocente e dizendo "estar tranquilo" com relação à decisão da Justiça.
O casal não esteve presente à sessão e assistiu pela TV, em sua casa, cercada de manifestantes desde o início da tarde. Foram representados, no tribunal, por seus advogados, Julio César Espinoza e Wilfredo Pedraza.
Pouco depois das 23h de Brasília (21h em Lima), Humala e Heredia deixaram sua casa de carro e foram até o tribunal para se entregarem. Em mensagem numa rede social, o ex-presidente afirmou que a decisão é a "confirmação do abuso de poder, ao que nós faremos frente em defesa do direito de todos".
Ainda não há informações de para qual centro de detenção o casal seria levado.
Segundo o pedido da Procuradoria, a prisão preventiva se justifica para evitar que Humala não faça o mesmo que outro ex-presidente, Alejandro Toledo (2001-2006), que se encontra foragido nos EUA e é acusado de receber subornos seu mandato.
A Odebrecht ainda tem obras em andamento no país, e sua continuidade está sob avaliação da Justiça.
A Procuradoria também reforçou o pedido de prisão do casal após apresentar evidências de que Heredia havia aberto recentemente duas contas no exterior, no nome das duas filhas menores do casal, Illariy e Nayra.
Apesar de o depósito inicial ser baixo, o promotor afirmou que eram indício de que poderiam ser usadas para depositar verba para manter a família no exterior, em caso de fuga.
Segundo informações entregues pela Odebrecht ao Departamento de Justiça dos EUA, a construtora brasileira teria pagado, apenas no Peru, entre 2005 e 2014, mais US$ 20 milhões, entre caixa 2 e subornos.
O pedido de prisão preventiva de Humala foi feito a partir da delação de Marcelo Odebrecht, que afirmou ter destinado US$ 3 milhões para as campanhas eleitorais de Humala. O ex-presidente também é acusado de receber verba ilícita da Venezuela.
Os demais pagamentos da Odebrecht no país andino também abrangem, além dos mandatos de Toledo e Humala, o de outro ex-presidente, Alan García (2006-2011), ainda não chamado a dar explicações pela Justiça peruana.
Para o jornalista peruano Gustavo Gorriti, especializado em desvios de verbas e representante em seu país das investigações sobre a Lava Jato e os Panamá Papers, a Procuradoria peruana não tem agido da melhor forma.
"Eles escolheram primeiro um dos envolvidos mais frágeis politicamente, que é Alejandro Toledo, para levar quase toda a culpa. Agora acusam Humala com base em caixa dois, quando o maior escândalo é montante de dinheiro envolvido em desvio de verbas de obras públicas no Peru. Essa investigação está, no momento, em segundo plano. Isso que ocorreu hoje mais parece uma encenação", disse à Folha.
Durante toda a tarde de quarta e o dia desta quinta, houve concentração de manifestantes do lado de fora do tribunal, no centro da capital, Lima, com cartazes contra e a favor da prisão do ex-casal presidencial.
A repercussão dentro do Peru, com lados polarizados, demonstrou um cenário parecido ao do anúncio, no Brasil, da condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apesar de se tratarem de casos diferentes em relação aos motivos que levaram à decisão do Poder Judiciário de cada país.
O atual presidente, Pedro Pablo Kuczynski, não se pronunciou até o momento.
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DENÚNCIA REJEITADA

Os deputados da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) rejeitaram, nesta quinta-feira, 13, o relatório de Sergio Zveiter (PMDB-RJ) sobre a denúncia por corrupção passiva, apresentada pela Procuradoria-Geral da República, contra o presidente Michel Temer (PMDB).
O placar ficou em 40 votos contrários ao relatório, 25 a favor - o presidente da comissão, Rodrigo Pacheco (PMDB-MG), não vota. O placar ficou com a contagem exata prevista pelo governo federal, com 40 votos a favor de Temer.
O novo relator indicado por Pacheco é o deputado Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG). Aliado do presidente Michel Temer, ele declarou voto contrário ao parecer de Zveiter, para o placar da denúncia do Estadão. Há mais quatro relatórios alternativos já prontos - o principal, é o voto alternativo apresentado por deputados peemdebistas aliados ao Planalto.
Abi-Ackel lê para o colegiado o voto alternativo ao de Zveiter, indicando que deve rejeitar a denúncia contra o presidente.
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A CONDENAÇÃO DE LULA DA SILVA

Já não recaem apenas suspeitas contra o sr. Lula da Silva, e tampouco ele é simples investigado ou réu. Ontem, o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado pelo juiz Sérgio Moro, da 13.ª Vara Federal de Curitiba, a nove anos e seis meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no processo relativo ao triplex do Guarujá. Mesmo reconhecendo que o comportamento de Lula poderia ensejar eventual decretação da prisão, em razão das suspeitas de tentativa de destruição de provas e dos vários atos de intimidação da Justiça, Moro permitiu que o ex-presidente recorra da sentença em liberdade.
Para o juiz, ficou provado que o líder petista recebeu R$ 2,25 milhões em propinas da empreiteira OAS. A sentença, que também condenou Léo Pinheiro por corrupção ativa e lavagem de dinheiro e Agenor Franklin Magalhães Medeiros por corrupção ativa, afirma que Lula da Silva praticou por três vezes, entre 11 de outubro de 2006 e 23 de janeiro de 2012, o crime de corrupção passiva e também por três vezes, de outubro de 2009 até 2017, o crime de lavagem de dinheiro. Em relação às imputações de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo o armazenamento do acervo presidencial, o juiz Sérgio Moro absolveu Lula da Silva e Léo Pinheiro por falta de prova. Também foram absolvidos, por falta de prova, Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, e outros três réus.
Para fixar a pena, o juiz deve avaliar as circunstâncias nas quais o crime foi praticado. Na sentença, Sérgio Moro expõe didaticamente a gravidade da conduta do réu Lula da Silva. “A prática do crime de corrupção envolveu a destinação de R$ 16 milhões a agentes políticos do Partido dos Trabalhadores, um valor muito expressivo. Além disso, o crime foi praticado em um esquema criminoso mais amplo no qual o pagamento de propinas havia se tornado rotina. Consequências também devem ser valoradas negativamente, pois o custo da propina foi repassado à Petrobrás, através da cobrança de preço superior à estimativa, aliás propiciado pela corrupção, com o que a estatal ainda arcou com prejuízo no valor equivalente. A culpabilidade é elevada. O condenado recebeu vantagem indevida em decorrência do cargo de Presidente da República, ou seja, de mandatário maior. A responsabilidade de um Presidente da República é enorme e, por conseguinte, também a sua culpabilidade quando pratica crimes. Isso sem olvidar que o crime se insere em um contexto mais amplo, de um esquema de corrupção sistêmica na Petrobrás e de uma relação espúria entre ele e o Grupo OAS. Agiu, portanto, com culpabilidade extremada, o que também deve ser valorado negativamente.”
Ainda que caiba recurso, a condenação de Lula da Silva a nove anos e seis meses deixa claro que o líder petista, em vez de alimentar pretensões de voltar à Presidência da República, deve antes acertar as contas com a Justiça. Seria um tremendo desserviço ao País que o condenado Lula usasse a política para tentar se livrar das graves acusações que recaem sobre sua conduta.
Diante do reiterado mau comportamento que Lula teve ao longo de todo o processo na primeira instância, com tentativas canhestras de politizar a questão penal e intimidar as autoridades, não se deve esperar arrependimentos repentinos. Reforça-se, portanto, a necessidade de que a Justiça, no caso específico o Tribunal Regional Federal (TRF) da 4.ª Região, quando convocado para rever o processo, mantenha o condenado sob o peso da lei.
A ação penal de Lula da Silva não é um jogo político. Longe de ser uma questão de opção ideológica, o processo penal instaurado contra o ex-presidente petista manifesta a existência no Brasil de um Estado Democrático de Direito, com uma lei vigente e todos, absolutamente todos, respondendo por ela. Como disse o juiz Sérgio Moro ao final da sentença, “é de todo lamentável que um ex-presidente da República seja condenado criminalmente, mas a causa disso são os crimes por ele praticados, e a culpa não é da regular aplicação da lei”. Que a Justiça na segunda instância continue a assegurar a regular aplicação da lei, também para os efeitos da Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar 135/2010). Faz muito mal ao País que corruptos se candidatem e tentem enganar o povo. 
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NINGUÉM ESTÁ ACIMA DA LEI E DA CONSTITUIÇÃO

A condenação do ex-presidente Lula mostra que ninguém está acima da lei e da Constituição
A condenação de um ex-presidente da República pela Justiça, como ocorreu hoje com Lula, é um fato grave que se soma à  cassação da ex-presidente pelo Congresso e  à denúncia do atual presidente por crime de corrupção passiva.
A condenação também mostra o amadurecimento das instituições democráticas, em que ninguém está acima da lei e da Constituição, como vem sendo demonstrado pela Justiça, Ministério Público e Polícia Federal. Num país de costumes fortemente patrimonialistas como o nosso, este é um ponto de consolidação democrática do qual não podemos abrir mão.
É preciso garantir que a Lava Jato vá até o fim de sua missão e resista, com o apoio da sociedade, aos golpes que vêm sofrendo por parte daqueles que, no poder, resistem a ter seus delitos investigados e punidos. É preciso, também, que mesmo após o final da Operação, sua herança permaneça para toda a nação como uma atitude irrevogável de busca da Justiça para todos, como um caminho sem volta de defesa do Estado e do interesse público.
É preciso, também, que a Câmara Federal mostre que está à altura desse momento de amadurecimento das instituições democráticas e vote favorável à autorização para que o Supremo Tribunal Federal julgue o presidente Temer.
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quarta-feira, 12 de julho de 2017

GETÚLIO VARGAS, MEU PAI

Publicado originalmente em 1960, Getúlio Vargas, meu pai narra a vida do político gaúcho entre 1923 e 1937 por sua filha e principal confidente. Indispensável testemunho de uma época, as memórias de Alzira são uma leitura saborosa e surpreendente.
Anos depois, Alzira se dedicou a escrever uma continuação, que não terminou. Esses escritos, até então inéditos, estão na segunda parte deste livro e são um material valioso — descrevem episódios como a morte de Getulinho, irmão mais novo de Alzira; o rompimento do Brasil com o Eixo; ou o grave acidente de automóvel sofrido por Getúlio em 1942.
E aos leitores que se debruçarem sobre esses inestimáveis relatos, não restarão dúvidas: Alzira é também uma grande personagem da história do Brasil.
Sinopse do livro Getúlio Vargas, Meu Pai, via livraria Saraiva
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DE VOLTA PARA CASA

Do G1
O desembargador Ney Bello, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), autorizou o ex-ministro Geddel Vieira Lima a deixar o Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, para cumprir prisão domiciliar, informou a assessoria da Corte. O tribunal ainda não informou onde o peemedebista irá cumprir a medida cautelar.
Um dos políticos mais próximos ao presidente Michel Temer, Geddel foi preso preventivamente pela Polícia Federal (PF) no início do mês, em Salvador, por suspeita de obstrução da Justiça. Dois dias após a detenção, o ex-ministro da Secretaria de Governo (articulação política) foi transferido para o Distrito Federal.
Atualmente, ele está detido na ala para presidiários que têm curso superior, a mesma em que o ex-deputado e ex-assessor especial do Planalto Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) ficou preso.
Na última quinta (6), na sessão de custódia de Geddel na 10ª Vara da Justiça Federal de Brasília, o juiz Vallisney de Souza Oliveira havia negado o pedido da defesa para que o ex-ministro fosse autorizado a ficar em prisão domiciliar com uso de tornozeleira. Na ocasião, o peemedebista chorou diante do magistrado do Distrito Federal.
Geddel foi preso por suspeita de atrapalhar as investigações da Operação Cui Bono, que apura supostas fraudes na liberação de crédito da Caixa Econômica Federal.
A investigação se concentra no período em que Geddel ocupou o cargo de vice-presidente da Caixa. À época, ele assumiu o cargo na cúpula do banco público por indicação do PMDB, que era sócio do PT no governo federal.
A apuração do envolvimento de Geddel com as irregularidades cometidas na Caixa foi motivada por mensagens de texto registradas em um aparelho de telefone celular apreendido na casa do então deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que está preso em Curitiba pela Operação Lava Jato.
Mulher de Funaro
Ao pedir a prisão, o Ministério Público Federal argumentou que Geddel pressionou a mulher de Lúcio Funaro, preso em Curitiba, para sondar sobre a possibilidade de o doleiro fechar uma delação premiada com o Ministério Público. Funaro iniciou negociações com o MP para colaborar com a Justiça em troca de uma eventual redução da pena.
Na audiência da semana passada, o ex-ministro negou ter procurado a mulher do doleiro. Geddel admitiu, entretanto, ter falado com ela mais de dez vezes nos últimos 12 meses, mas, segundo ele, só sobre amenidades.
Para o juiz responsável pela Operação Cui Bono, o fato de o peemedebista ter procurado a mulher de Funaro é gravíssimo e se tornou o principal motivo da prisão do ex-ministro de Temer.
Geddel Vieira Lima foi vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa entre 2011 e 2013, no governo Dilma Rousseff. De acordo com as investigações, ele manteve a influência sobre a instituição financeira desde que Temer assumiu a Presidência em maio de 2016.
Demissão do governo
Ex-deputado e ex-ministro, Geddel Vieira Lima era um dos principais nomes do PMDB no governo Michel Temer até pedir demissão, em novembro do ano passado, depois de supostamente ter pressionado o então ministro da Cultura, Marcelo Calero, a liberar um empreendimento imobiliário em Salvador.
À época, o peemedebista negou que tivesse feito pressão sobre Calero. Mesmo assim, ele não resistiu à repercussão negativa do caso e acabou pedindo demissão.
Na semana passada, sem citar o nome de Geddel, Marcelo Calero disse no Twitter após a prisão do ex-colega da Esplanada dos Ministérios, sonhar com o dia em que, no Brasil, os "desonestos responderão por seus atos".
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