segunda-feira, 26 de setembro de 2016

PSICODRAMAS

Grão Mogol, Minas — De novo na estrada, e o intenso trabalho ao ar livre é o antídoto para a tristeza de ver não só o momento econômico, mas também a longa agonia do sistema político brasileiro. Não são animadoras as notícias que vêm de esquerda, direita e centro. Em toda parte, os parâmetros políticos são subvertidos. Lula, por exemplo, fez um pronunciamento para anunciar que era candidato. Comparou-se a Jesus Cristo e insultou numa só frase todos os funcionários públicos concursados do Brasil.
Os admiradores fazem vista grossa. Os livros do século passado definem a classe operária como a eleita para transformar a História. Eles querem um presidente operário, ainda que delirando. Lula disse coisas que contrariam o mais elementar senso político. A única saída é colocá-lo à força no modelo marxista e, sobretudo, não levar em conta o que diz. No fundo é adotar a mesma tática que adotei quando disse que Lula tinha habeas língua. Buscar um sentido é perder tempo.
Num outro espaço, escrevi sobre o psicodrama da denúncia, parecido com aquele da condução coercitiva. As críticas se concentraram na coletiva da Lava-Jato e no PowerPoint. A denúncia tem em torno de 150 páginas. Sérgio Moro não ia aceitá-la ou rejeitá-la apenas vendo uma entrevista e o PowerPoint. É obrigado a ler atentamente. E aceitou. A denúncia foi apenas o segundo ato. O terceiro será a sentença, após um trabalho específico de coleta de dados e exame dos argumentos da defesa.
Mas, se o panorama é desolador à esquerda, o que dizer do restante do espectro? Rodrigo Maia, um jovem do DEM, foi aconselhado a não usar casa oficial ou avião da FAB. Maia recusou. Nesse último caso, então, o avião da FAB só para transportá-lo é um disparate econômico e ambiental. Acomodado no assento oficial de um avião vazio, sente-se, possivelmente, projetando mais poder. Mas está em franco conflito com a situação do país, inclusive com nosso compromisso internacional de reduzir emissões.
Um grupo de deputados tentou aprovar às pressas um projeto anistiando o caixa dois. Descobertos, pareciam um grupo de garotos travessos. De quem é o projeto que já estava na mesa do presidente? Ninguém sabia. O projeto não tem autor. Sua inclusão na pauta também é um mistério.
Uma semana depois do maior criador de jabutis, Eduardo Cunha, ser cassado, eles inventam um outro jabuti, desta vez destinado a proteger os investigados na Lava-Jato.
Dizem que Renan estava ciente e Maia também. Renan está em luta aberta contra a Lava-Jato. Pena que a recíproca não seja verdadeira. Apesar de tantos inquéritos, não foi incomodado. O interessante é pensarem que daria certo. Vão se recolher e preparar um novo truque. Possivelmente tão patético quanto esse.
As pessoas que fazem campanha eleitoral hoje contam que estão comendo o pão que o diabo amassou. As ruas estão frias, no limite da hostilidade. A indiferença era prevista. O inquietante é imaginar que vencedores vão emergir desse processo eleitoral tão atípico.
No psicodrama da denúncia contra Lula, ouvi alguns jornalistas dizendo: o Planalto acha que os promotores exageraram. Mas quem no Planalto? Temer, Geddel, Padilha ou Moreira? Quem está com sua espingardinha atrás da janela querendo atirar na Lava-Jato? Houve gente que se expôs, de um lado e de outro, e a discussão sobre os caminhos da Justiça é saudável, embora inexista quando os acusados são pessoas anônimas.
Foram 115 as conduções coercitivas antes de Lula. E centenas de denúncias antes da dele.
De psicodrama em psicodrama, avança o conhecimento do que se passou no Brasil, e aproxima-se o julgamento dos acusados.
Ainda não sabemos tudo porque o governo Temer é opaco, por escolha ou inépcia. É preciso usar a Lei da Transparência para descobrir o que resta.
Os homens no Palácio do Planalto, Temer à frente, estão no governo por um acidente constitucional. São parte de um sistema político em agonia, sócios menores do governo petista.
O Planalto com seus palpites, Renan e os deputados querendo anistiar o caixa dois, Lula defendendo-se da denúncia — todos de alguma forma reagem ao processo da Lava-Jato, que precipitou a ruína do sistema político. Rodrigo Maia sentado na poltrona do avião da FAB: apenas uma das várias maneiras de se apegar ao passado.
Na ausência de um olhar para o futuro, para um sistema reformado, o Brasil dá uma sensação de exilar a própria sociedade que pede mudanças desde 2013.
De costas para a parede, protegendo-se da Lava-Jato, os políticos de Brasília não almejam do futuro nada mais do que escapar de seu passado.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 25/09/2016
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sábado, 24 de setembro de 2016

PROCESSOS TRABALHISTAS

O Tribunal Regional do Trabalho do Distrito Federal tem ao menos cinco processos trabalhistas contra o Bar e Restaurante do Alemão de Brasília, que foi de propriedade do candidato Celso Russomanno (PRB). Os funcionários cobram dívidas trabalhistas em causas que ainda estão em andamento.
As ações foram propostas a partir de agosto deste ano, mês em que o bar fechou. Entretanto, três dos cinco processos ainda não tiveram nem sequer a primeira audiência de conciliação porque os oficiais de Justiça não conseguem localizar representantes legais do estabelecimento: os requerimentos voltam com a informação de que o requerido, o bar, “mudou-se”, segundo os despachos do processo.
A dificuldade na localização dos representantes do bar que pertencia ao candidato já fez com que em um dos processos, da 15.ª Vara do Trabalho de Brasília, o juiz Aldrey Choucair Vaz notificasse os requeridos por meio de edital público. O despacho é do dia 1.º deste mês.
Os valores das ações não são de acesso público no TRT. Entre os assuntos dos processos, entretanto, é possível saber o teor das reclamações: atraso no pagamento de verbas rescisórias, adicional de horas extras, aviso prévio, entre outros.
Em entrevista na quinta-feira, 22, à Rádio Bandeirantes, Russomanno afirmou que pagou todos os funcionários do bar, que foi despejado após acumular dívidas.
Ao jornal O Estado de S. Paulo, o garçom Gledis Nei, um dos autores das ações contra o bar, disse que até gorjetas deixaram de ser pagas. “Eu trabalhei lá durante seis anos. Praticamente morava lá dentro e até agora não recebi nada de rescisão. Me devem até gorjeta”, disse o funcionário.
“Esses que entraram na Justiça do Trabalho não quiseram esperar o pagamento. Se eles quiserem que eu pague, eles retiram a ação e eu pago sem problema nenhum”, disse o candidato. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Estadão Conteúdo
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O TERCEIRO ATO

Artigo de Fernando Gabeira
A denúncia contra Lula em Curitiba desfechou um psicodrama nacional. Eu a vejo como parte de um drama inconcluso. De qualquer forma, os dois primeiros atos trazem boas indicações para prever o futuro.
Quando Lula foi levado numa condução coercitiva, abriu-se um grande debate não só sobre a escolha da Lava Jato, mas sobre a própria legalidade do procedimento. Entretanto, no âmbito da mesma Lava Jato, mais de uma centena de pessoas foram conduzidas no momento em que os investigadores escolheram. Não houve nenhum protesto de monta ao longo de todas essas operações.
A vantagem de um processo que envolve políticos de peso é que, de certa forma, põe à prova o próprio Estado de Direito. Tudo o que é feito é escrutinado e criticado sem piedade pelas forças atingidas.
Foi assim também com um instrumento mais importante: a delação premiada. Dilma chegou a comparar os delatores da Lava Jato com Joaquim Silvério dos Reis. Como se a Lava Jato fosse a opressão portuguesa e os assaltantes da Petrobras, os heróis da Inconfidência Mineira.
Sempre que nossa cabeça está a prêmio nos lembramos de Tiradentes. Lula também o fez, no pronunciamento após a denúncia dos procuradores. Não é preciso ser um luminar em História do Brasil para perceber que são situações essencialmente distintas, a Inconfidência Mineira e o petrolão.
O segundo ato do drama foi a apresentação da denúncia. Choveram críticas aos procuradores. Dessa vez, não só dos petistas, mas também de adversários de Lula que consideraram a denúncia um excesso.
De fato nunca houve no Brasil uma denúncia com características tão políticas. Mas tratava-se de uma organização que dirigiu o País por 13 anos. A denúncia situava-se no contexto do petrolão, um escândalo que revelou as entranhas do sistema de financiamento político no Brasil.
Reclamou-se do tom e da politização e daí se chegou à conclusão de que a denúncia seria inepta. Considerando que Sergio Moro não se iria basear nem na entrevista nem no power point, o conceito de inépcia da denúncia dependia, necessariamente, da leitura atenta de suas 150 páginas. E isso certamente ele o faria. Se a denúncia fosse inepta, ele a rejeitaria; se não, iria aceitá-la.
E foi o que Moro fez: aceitou a denúncia. Não está isento de crítica. Mas para demonstrar o contrário, que a denúncia deva ser rejeitada, é preciso percorrer com ele as 150 páginas.
Os dois pontos básicos da denúncia, o triplex e o armazenamento dos presentes presidenciais, foram mostrados com bastantes detalhes, documentos e fotografias. A crítica mais contundente não se prendeu ao objeto da denúncia, mas à sua formulação, em que apresenta Lula como o comandante máximo, o general, o topo da pirâmide.
Isso não foi amplamente demonstrado e a lacuna ficou mais profunda com a sucessão de epítetos. Essa é, no entanto, a apreensão geral do Ministério Público, avaliando o conjunto dos processos, incluídos os de obstrução da Justiça. O próprio Janot já fez um pronunciamento público afirmando que Lula quer tumultuar o processo.
Lula ignorou os documentos apresentados pelos procuradores e se fixou na questão política. Apresentou-se não mais como uma jararaca, e isso é essencial para quem quer disputar a Presidência. Os companheiros já o salvaram nos momentos difíceis. Falcão lembrou de um senador não citado no arco de forças que foi contra o impeachment. Lula disse que as mulheres falavam até de madrugada no WhatsApp. Uma voz feminina o salvou do fundo da sala; os homens, também.
Mas nos momentos em que está, de fato, emocionado, ninguém consegue salvá-lo. Num deles, comparou-se a Jesus Cristo. Não chegou à audácia dos Beatles. Ele estava abaixo de Jesus Cristo, mas acima de todos nós.
Em seguida disse aquele frase sobre os políticos: ninguém é mais honesto do que o político porque em todas as eleições precisa ir às ruas pedir votos. Nessa versão tosca de defesa nos garante que nenhum profissional tem profissão mais honesta que Paulo Maluf, sempre chamado de ladrão, sempre se reelegendo. Os votos absolvem, não os juízes.
A história de chamar os funcionários públicos de analfabetos e sugerir que sua profissão não é tão honesta é um absurdo que deveria levar os defensores a uma reflexão sobre seu líder.
Afinal você não anuncia que está na luta pela Presidência e ofende num só parágrafo todo o funcionalismo público. Ou, então, você não é bom candidato.
Significa apenas que os artifícios e a mística que sustentaram uma fase de sua vida perderam todo o vigor.
Lula não era um candidato a presidente, mas alguém bastante abalado na própria autoestima, lembrando, nostalgicamente, uma reunião com os líderes mundiais e acentuando que Fernando Henrique adoraria estar ali.
Tudo o que reteve de uma importante reunião global foi uma vitória sobre o Fernando Henrique, como esse vasto mundo estivesse dividido entre PT e PSDB.
Vi na televisão alguém comparar os procuradores ao movimento dos tenentes, o tenentismo. De fato está presente nos dois grupos o mesmo impulso moralizador da política brasileira. Mas os métodos são outros, o que valeu aos tenentes prisão e exílio.
Os procuradores e todos os que participam da Lava Jato trabalham sob o império da lei, são controlados por instâncias superiores e também por uma forte cultura jurídica, que, de repente, brotou na imprensa brasileira. É um processo saudável, uma discussão necessária. Seria mais bem-sucedida ainda se buscasse alguma maneira de levar esses cuidados a todos os brasileiros às voltas com a Justiça.
O drama ainda não chegou ao terceiro ato: o julgamento. Aos vários julgamentos que envolvem o período. Nele versões e evidências se chocaram sem parar. Hora de conhecer os vencedores.
Artigo publicado no Estadão em 23/09/2016
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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O JUSTO VERÍSSIMO DE CURITIBA

Em sabatina realizada na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) na noite de quinta-feira (22), o candidato à Prefeitura de Curitiba Rafael Greca (PMN) disse que quando “carregou” pobre em seu carro vomitou por causa do cheiro.
Greca lidera a pesquisa mais recente do instituto Ibope, à frente do atual prefeito e candidato à reeleição Gustavo Fruet (PDT). A gafe foi imediatamente explorada pela campanha do adversário e criticada na internet.
A afirmação de Greca aconteceu após a pergunta do professor Otto Leopoldo Winck, da Escola de Educação e Humanidades, que questionou se o candidato teria soluções para o aumento de moradores rua na capital.
Como resposta, Greca cita o Papa Francisco e diz que “o governo tem que centrar sua atenção ao resgate social e apoio aos mais pobres para superarem a crise”, mas disse que nunca cuidou dos pobres e que “não é São Francisco de Assis”.
“No meu convívio com as irmãs de caridade – eu nunca cuidei dos pobres, eu não sou São Francisco de Assis – até porque a primeira vez que eu tentei ‘carregar’ um pobre em meu carro, eu vomitei por causa do cheiro”, disse Greca. A frase foi dita a partir de 29 minutos da sabatina:
A campanha de Fruet aproveitou da gafe de Greca para compartilhar o trecho editado nas redes sociais.
Em nota, o candidato “pediu perdão” pelo comentário em texto enviado pela assessoria. “Peço perdão pelas minhas palavras. Não tive a capacidade de explicar a dificuldade que vivi ao tentar realizar o trabalho de resgate social na minha juventude. Mais uma vez, descontextualizam o que falo para tentar enganar as pessoas”, disse Greca.
“Ao exaltar o difícil trabalho dos educadores sociais e das irmãs de caridade, comentei sobre o quão difícil é essa missão. Com sinceridade, disse que não tenho a capacidade desses profissionais para o resgate, mas que acima de tudo, admiro, respeito, faço e farei o possível e impossível para mudar o quadro de abandono nas ruas. Peço que me perdoem pela falta de clareza do discurso. Não me interpretem mal.”
“Bala de prata”
De acordo com Miguel Manasses, professor de Redação Jornalística, um dos organizadores da sabatina, as entrevistas com os outros sete candidatos não trouxeram trechos tão polêmicos. “Não me lembro de nada tão forte. É uma bala de prata que o Fruet ganhou. Vários jornais já ligaram”, diz.
A última dos nove candidatos à Prefeitura de Curitiba é a candidata Maria Victoria (PP), que será sabatinada nesta sexta-feira (23), das 19h às 20h30.
Todas as sabatinas estão disponíveis na íntegra em canais da PUC-PR.
Pesquisa
De acordo com os últimos números do instituto Ibope, em pesquisa contratada pela RPC-TV, Greca estaria com 45% das intenções de voto, bem à frente do atual prefeito Gustavo Fruet (PDT), que aparece com 19%.
Engenheiro civil de formação, Greca já foi prefeito de Curitiba entre 1993 e 1996, sucessor de Jaime Lerner (ex-PFL). Já foi vereador, deputado estadual, deputado federal e ministro do Esporte e do Turismo no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
No ano passado, Greca deixou o PMDB por desavenças com o senador Roberto Requião, cujo filho também concorre ao cargo de prefeito e aparece em terceiro nas pesquisas. No ‘nanico’ PMN, Greca se coligou com outros seis partidos, entre eles o PSDB, do governador Beto Richa.
Do Paraná Portal, UOL
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O APRESENTADOR QUE EVITA FALAR

Da ÉPOCA
Assim que o placar fechou em 3 a 2, um aliado que acompanhava a votação no plenário do Supremo Tribunal Federal se apressou em telefonar para o deputado Celso Russomanno, do PRB de São Paulo. “Ganhou, você ganhou! Acabou o sofrimento”, disse. Naquela tarde de terça-feira, dia 9 de agosto, o ministro Gilmar Mendes, num voto de desempate, absolveu Russomanno do crime de peculato – era acusado de pagar uma funcionária de sua produtora com dinheiro público – e manteve seus direitos políticos. Russomanno ficou com o caminho livre para concorrer à prefeitura de São Paulo em outubro. Quando ouviu a boa-nova, chorou. “Deus foi justo comigo”, disse. Na sequência, desceu e subiu pelas escadas – cinco vezes consecutivas – os nove andares que separam seu gabinete do térreo do Anexo IV da Câmara dos Deputados. “Era uma espécie de propósito religioso”, afirma o deputado Marcelo Squassoni, coordenador de sua campanha, que presenciou a catarse. “Quando soube que poderia sair candidato, entrou em parafuso. Ele é frágil psicologicamente, fez isso para dar uma baixada na ansiedade”, diz um opositor, numa explicação mais terrena.
Celso Russomanno, político e apresentador de televisão, é o líder nas pesquisas de intenção de voto que medem a disputa pela prefeitura de São Paulo. Em uma sexta-feira de setembro, ele chegou ao primeiro compromisso de campanha do dia em uma academia de judô, na Penha, Zona Leste da cidade, às 11h33 – uma hora e três minutos de atraso em relação ao horário marcado. Atrasos são comuns em campanhas, mas não quando o primeiro compromisso está marcado para o meio da manhã. O motivo, que Russomanno deixou escapar, menos ainda: ao falar sobre as benesses da prática de esportes, disse que passara a manhã fazendo exercícios na academia de sua casa, equipada com “mais de 30 aparelhos de musculação”. Russomanno compensou o atraso com uma boa atuação de candidato. Permaneceu com o sorriso congelado durante a longa e burocrática apresentação dos atletas. Alimentou uma fantasia de leão, vestimenta usada num número de dança chinesa, com um pé de alface – de verdade. Cobriu-se com um quimono e ensaiou uma luta.
Como a candidatura de Russomanno esteve sob ameaça da Justiça Eleitoral até o início de agosto, o PRB não conseguiu amealhar muitos aliados. Sem uma rede partidária consistente, a campanha sofre com a escassez de pontos de apoio pela cidade. Para compensar essa dificuldade, além da fama da televisão, Russomanno anda muito. A caminho do mercado municipal ali perto da academia, apertou a mão de cada um dos fãs e potenciais eleitores que se aproximavam. Nas últimas semanas, Russomanno passou por quase todos os mercados e feiras livres que teve chance. Ficou conhecido por não resistir a um pastel. Ao contrário do concorrente tucano, João Doria, que recentemente pediu a fotógrafos que o poupassem de ser clicado comendo (e não foi atendido, é claro), Russomanno faz questão de ser fotografado abocanhando a iguaria.
Russomanno nunca foi um parlamentar de destaque. Tornou-se o deputado federal mais votado do país em 2014 graças à imagem de “defensor do consumidor”, construída em mais de 30 anos na televisão. Começou no ramo como apresentador de videoclipes exibidos em motéis e baladas. Deixou o anonimato depois de um episódio dramático: em 1990, enquanto sua ex-mulher agonizava num hospital de São Paulo, Russomanno foi até sua casa, pegou uma câmera e gravou um vídeo em que denunciava o que dizia ser negligência médica. Adriana Torres morreu de meningite. Ele foi contratado pelo programa Aqui, agora, do SBT, onde construiu a imagem de “defensor do consumidor” em reportagens às quais chegava com a câmera ligada e enfrentava os entrevistados. O sucesso na TV levou Russomanno à política pelas mãos do então governador tucano de São Paulo, Mário Covas, em 1994. Foi deputado federal cinco vezes, por três partidos diferentes – PSDB, PP e, agora, PRB. Coroinha da Igreja Católica na infância, é candidato pelo partido que é a voz da Igreja Universal no Congresso.
Russomanno é piloto de helicóptero, faixa roxa de judô, se diz parapsicólogo e capaz de hipnotizar pessoas. Como candidato, boa parte de sua atuação consiste em hipnotizar eleitores representando na rua o papel do apresentador da televisão, sem roteiro ou microfone. Sua campanha procura fixar a imagem de que o sujeito loquaz, de olhar decidido, fala firme e agressivo na defesa do consumidor, defenderá o cidadão do gabinete de prefeito. Como a imagem o garantiu na dianteira até agora, na campanha Russomanno segue o mantra de que o candidato da dianteira evita polêmicas e fala o menos possível. Só decidiu na última hora ir ao primeiro debate da campanha deste ano. Enquanto os adversários se engalfinhavam diante das câmeras, manteve o tom suave nas respostas. Era uma tentativa de camuflar algumas de suas propostas controversas. Russomanno é contrário à regulamentação do Uber, o aplicativo de transporte individual que compete com os taxistas, apoiadores de sua candidatura. Discorda da redução de velocidade nas marginais, medida que, segundo o prefeito Fernando Haddad (PT), é responsável pela redução em 37% dos acidentes de trânsito na cidade, medida pela Companhia de Engenharia de Tráfego. Para a região da Cracolândia, sua ideia é estabelecer “bloqueios policiais” e “revistar todos os suspeitos”. Um detalhe: a polícia é competência do estado, não do município.
Russomanno também evita entrevistas. Depois de vários pedidos, sua assessoria disse a ÉPOCA que ele só falaria se as perguntas fossem enviadas previamente por e-mail. Por isso, ele não falou para esta reportagem. Na quarta-feira, dia 14, o empresário Sergio Zimmerman perguntou a Russomanno sua opinião sobre uma jornada de trabalho de 12 horas. “Não vou responder agora porque sou candidato a prefeito de São Paulo”, disse Russomanno. “Ia gerar uma polêmica tão grande que a minha candidatura naufragaria.” Naquele dia, uma pesquisa do Ibope apontara uma queda de 3 pontos de Russomanno nas intenções de voto. Ele lidera, com 30%, à frente de Marta Suplicy, do PMDB, com 20%, e do tucano João Dória, com 17%.
Russomanno não quer polêmica. A derrota na campanha de 2012 ainda o aterroriza e mantém o PRB em alerta em relação a ele. O episódio desastroso começou quando o vereador petista Antonio Donato, então coordenador da campanha de Haddad, pinçou no programa de governo de Russomanno uma proposta que previa a implementação da tarifa de ônibus proporcional, cobrada conforme a distância percorrida: quem morasse mais longe pagaria mais caro. O morador da periferia seria punido. Era certamente uma das piores ideias já escritas num documento de campanha. Mas passara despercebida. Durante um debate na televisão, Haddad jogou a questão. Surpreendido, Russomanno se enrolou na resposta. Nem a prática de apresentador o salvou. Em um movimento natural na cadeia alimentar da política, passou a ser atacado nessa ferida aberta. A propaganda eleitoral petista adotou o bordão “Russomanno não faz por mal. É falta de experiência” – frase criada pelo próprio Haddad. Russomanno, que tinha 30% das intenções de voto na ocasião, despencou e terminou com 21% menos de duas semanas depois, fora do segundo turno. Hoje, além de evitar cascas de banana verbais, Russomanno tenta compensar o tempo menor na propaganda na televisão com a habilidade diante das câmeras e o fato de ser conhecido.
No privado, o Russomanno apresentador vez ou outra relaxa e cede espaço ao político visto como agressivo e vaidoso. “Ele não é nada daquilo que se vê na televisão, representa o tempo todo”, afirma um ex-aliado do PP. “Não tem autocontrole, é fácil destemperá-lo.” Outro episódio da campanha de 2012 ficou marcado na memória dos que o presenciaram. Numa noite de agosto, Russomanno chegou aos berros ao comitê de campanha, na Avenida Itacira, em Moema. “Quero saber quem mudou meu site”, perguntou. Estava enfurecido porque a equipe havia transformado seu site pessoal, o do apresentador, em seu site de campanha, o do político. Uma das 15 pessoas presentes na sala retrucou. “Como assim quem mudou seu site, Celso? Você agora é um produto, seu site agora virou um site de campanha”, disse. Russomanno exigiu que desfizessem tudo e ameaçou abandonar a campanha. Deixou o comitê dirigindo um Mercedes preto. Arrancou com tanta velocidade que se perdeu na curva da esquina seguinte e quase capotou. Foi Marcos Pereira, presidente nacional do PRB e hoje ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, quem o acalmou e fez enxergar que não era por aquilo que desistiria da candidatura.
Ex-integrantes da campanha reclamam que Russomanno não se empenhava para enfrentar embates como aquele em que Haddad o encurralou. Treinar para debates é um trabalho constante para candidatos. Na tarde anterior a um desses debates, na TV Bandeirantes, em agosto daquele ano, Russomanno estava com três de seus mais próximos assessores de campanha no Hotel Sheraton, no Brooklin Novo, em São Paulo. O plano era estudar a ordem das perguntas aos candidatos, passar pontos do programa de governo e, em seguida, descansar. De repente, duas moças chegaram ao local. Sob a justificativa de que precisava descansar, Russomanno encerrou a reunião, dispensou os homens e só apareceu de novo na hora do debate.
A presença feminina é uma constante na campanha. Ao contrário do padrão masculino de boa parte das campanhas, a equipe de Russomanno tem várias beldades. O mesmo vale para sua vida privada. Seus relacionamentos amorosos são, digamos assim, focados em modelos. Adriana, sua primeira mulher, havia sido Miss São Paulo. Sua atual mulher, Lovani, foi modelo da agência Mega. A jornalista Flávia Feola lembra-se do primeiro encontro com Russomanno, numa noite em que ele fazia uma gravação para seu programa numa casa noturna country. “Lembro do vestido que eu estava: um tubinho acima do joelho, porque nunca fui periguete, e um sapatinho alto laranja”, diz Flávia, que sustenta um tom de voz relativamente alto. “Ele olhou para mim e falou: ‘Nossa, como você é bonita, magrinha...’.” Saíram de lá num Opala preto. Foram três anos e meio de namoro e permaneceram amigos até o ano passado, quando Flávia abriu um processo trabalhista, no qual pede R$ 2 milhões contra a Rede Brasil, de Marcos Tolentino. Russomanno foi do conselho administrativo do canal.
Dono de um patrimônio declarado de R$ 1,8 milhão, Russomanno aparentemente não é muito bom nos negócios. É parceiro do cirurgião plástico celebridade Roberto Miguel Rey Júnior, o Doctor Rey, na rede de clínicas Estética Hollywood. Em maio deste ano, a unidade de Moema da clínica recebeu uma ordem de despejo por aluguéis atrasados. Seu outro empreendimento na capital paulista, o restaurante português Forno do Padeiro, igualmente em Moema, fechou neste ano. “Absolutamente tudo que ele abre dá errado”, diz um antigo aliado. Em 2012, Russomanno tornou-se sócio do Bar do Alemão, um restaurante de dois andares na beira da margem norte do Lago Paranoá, em Brasília. Um dos sócios investiu R$ 1 milhão no negócio, e Russomanno explicou na ocasião que não gastaria um centavo: pagaria sua parte à medida que o dinheiro fosse “entrando”. Mas não entrou. No mês passado, o bar fechou e deixou um prejuízo de R$ 2 milhões.
Outro sócio no bar era o empresário  Augusto Mendonça, condenado na Operação Lava Jato por ter repassado R$ 60 milhões em propina ao ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato de Souza Duque e ao PT. Russomanno aparece nos autos da Lava Jato citado pelo ex-
deputado federal Pedro Corrêa, seu ex-colega de PP, que celebrou um acordo de delação premiada em março passado. “Celso Russomanno era um dos que o partido dividia as propinas, recebendo os recursos de José Janene”, diz Corrêa, um veterano do mensalão, em um trecho. Segundo ele, Russomanno também “era famoso em solicitar vantagens indevidas a empresários utilizando a televisão como forma de intimidar e ameaçar”. Corrêa afirma que Russomanno fazia isso de sua posição na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara, a qual presidiu. Na época, Russomanno se defendeu com uma nota à imprensa. Disse que era adversário de Janene e chamou as acusações de “levianas”. Como de costume, evitou falar.
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O GENERAL DO PETROLÃO

Da ISTOÉ
Na última semana, a força-tarefa da Operação Lava Jato alcançou o cume da organização criminosa responsável por sangrar os cofres da Petrobras. Nas palavras do procurador Deltan Dallagnol, que coordena o grupo de procuradores em Curitiba, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o “comandante máximo”, o “general” e “maestro” de uma “orquestra” baseada na “propinocracia” “concatenada para saquear os cofres da Petrobras e de outros órgãos públicos”. As contundentes declarações embasaram a primeira denúncia por corrupção contra Lula, apresentada pelo Ministério Público Federal na quarta-feira 14. Nunca antes o petista esteve tão perto de uma condenação e de ser preso – além da possibilidade de se tornar ficha-suja, o que o impossibilitaria de disputar as próximas eleições – o segundo revés que mais o atemoriza no momento. Constam ainda no rol de denunciados a ex-primeira dama Marisa Letícia, o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, o ex-presidente da OAS Léo Pinheiro e outros quatro executivos.
Conforme antecipou a ISTOÉ em sua última edição, configurou-se a tempestade perfeita e o cerco se fechou contra Lula de maneira inapelável. No panorama traçado pelo Ministério Público, todos os elementos levam à convicção de que o petista estava no comando dos desvios nos cofres públicos. O objetivo seria obter uma governabilidade por meio da corrupção, nos mesmos moldes do mensalão, perpetuar-se no poder obtendo recursos para seu partido e também enriquecer ilicitamente. “Temos um projeto de poder estabelecido com base nas propinas, daí a propinocracia”, definiu Dallagnol. De acordo com a acusação, a atuação de Lula “garantiu, durante seu mandato presidencial, uma governabilidade assentada em bases criminosas, mediante compra de apoio político”. O ex-presidente ainda teria formado “em favor do seu partido, o PT, um colchão de recursos ilícitos para abastecer futuras campanhas eleitorais, no contexto de uma perpetuação criminosa de poder”.
A denúncia se baseia em três acusações principais contra Lula e relacionadas à empreiteira OAS: corrupção passiva no valor de R$ 87,6 milhões, que foram desviados pela empresa em três obras da Petrobras; lavagem de dinheiro no valor de R$ 2,4 milhões pela aquisição e reformas feitas pela empreiteira no tríplex no Guarujá e de R$ 1,3 milhão pela armazenagem de seus bens pessoais feita por uma empresa custeada pela empreiteira.
Esta é a segunda denúncia contra Lula na Lava Jato, mas a primeira em que ele é acusado diretamente de corrupção. A primeira foi feita pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, imputando a ele a obstrução de investigações de organização criminosa – Lula seria o mandante de pagamentos para evitar a delação premiada do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró. Neste caso, que está na Justiça Federal do DF, o ex-presidente já é réu e a primeira audiência de instrução e julgamento está marcada para 8 de novembro, conforme antecipou ISTOÉ em sua última edição. A nova denúncia, feita por Curitiba, ficará com o juiz federal Sérgio Moro. Nos bastidores da Justiça Federal, a expectativa é de que Moro delibere sobre a abertura do processo já no início desta semana, o que pode tornar Lula réu em sua segunda ação penal. “Nesse esquema criminoso, Lula dominava toda a estrutura por ele montada, com plenos poderes para decidir sobre sua prática, interrupção e circunstâncias. O esquema perdurou por, pelo menos, uma década. Diversas pessoas próximas a Lula e da cúpula do PT, que faziam parte desse arranjo criminoso, já foram denunciadas por seu envolvimento em crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, reforçando o caráter partidário e verticalizado do esquema criminoso”, escreveram os procuradores na denúncia. A relação dessas pessoas com Lula foi listada como indício de que ele era o ponto convergente do esquema criminoso. Dentre eles, o Ministério Público cita o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, o pecuarista José Carlos Bumlai e o ex-tesoureiro João Vaccari Neto, todos atualmente presos na Lava Jato.
Diversas delações premiadas robusteceram a denúncia. Sobre a indicação de diretores pelos partidos políticos com o objetivo de arrecadar recursos lícitos e ilícitos, o ex-líder do governo no Senado, Delcídio do Amaral (ex-PT-MS), afirmou que “Lula sabia ‘como as coisas funcionavam’” e sabia “como a ‘roda rodava’, embora pudesse não ter conhecimento das especificidades”. Já o ex-deputado Pedro Corrêa (PP-PE) relembrou quando seu partido indicou Paulo Roberto Costa para a diretoria de Abastecimento da Petrobras e o Conselho de Administração não queria aprovar a nomeação, o que causou uma crise política entre o governo Lula e o Congresso Nacional, com o trancamento de diversas pautas. “Somente Lula teria força para resolver essa nomeação. O presidente Lula tinha conhecimento de que a manutenção do PP na base aliada dependeria da nomeação da Diretoria, sabendo que o interesse era financeiro e arrecadatório, pois esta era a base inicial de negociação com o governo”, relatou. Segundo Pedro Corrêa, o petista chegou a ameaçar destituir todo o Conselho de Administração da Petrobras caso não aprovassem a indicação de Paulo Roberto Costa. No fim, ele acabou sendo nomeado.
No mesmo dia da denúncia do MPF, os advogados de Lula correram para tentar desqualificar os indícios de que a cobertura no Guarujá foi preparada, reformada e mobiliada em benefício de Lula. Os argumentos, porém, deixam um inequívoco fio desencapado. A cota-parte de um apartamento teria sido adquirida por Marisa Letícia em 2005, mas só nove anos depois a família foi visitar o apartamento para saber se queria mesmo comprá-lo e só em 2015 entrou na Justiça para reaver o dinheiro aplicado. A versão não pára em pé. O Ministério Público, por sua vez, sustenta com evidências mais substanciosas que o apartamento e a armazenagem de bens foram parte de pagamentos de vantagens obtidas ilegalmente pela OAS em contratos na Petrobras. Nas próximas semanas, Lula não deverá ter sossego, como deixou clara a própria força-tarefa da Lava Jato. “O trabalho não para aqui, as investigações continuam. Essa é uma primeira resposta aos crimes praticados pelo senhor Lula”, afirmou Deltan. Independentemente do desfecho, e de quando o desenlace se dará, a casa caiu para o ex-presidente. Um vaticínio já se impõe: se não for impedido pela Lei da Ficha Limpa, dificilmente o petista terá musculatura política e eleitoral para concorrer às próximas eleições presidenciais.
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BAIXO NÍVEL ELEITORAL

Da ISTOÉ
Ao colocarem em vigor novas regras, as autoridades eleitorais esperavam ter um respiro nos velhos hábitos da política brasileira. Enganaram-se. A redução do tempo de rádio e televisão e o fim do financiamento empresarial não aplacaram práticas responsáveis por contaminar, ainda nas urnas, o nível e os costumes da política. Nem a insatisfação com os partidos, após o Petrolão, fez as legendas aumentarem a rigidez na escolha dos candidatos. Pelo contrário. Siglas de diferentes matizes colocaram novamente as ideologias e projetos em segundo plano. Dobraram a aposta em um vale-tudo por votos que mistura o jocoso com o oportunismo. Não se constrangem em impulsionar o desempenho nas urnas com celebridades, como os humoristas Marquito, sósias e personagens pitorescos. O PSDB mineiro, por exemplo, deixou uma postulante a vereadora em Contagem aderir ao nome de “Paula Tejano”. Sabe que ela não se destacará pelas promessas, mas por uma brincadeira adolescente. É similar ao que ocorre em Aracaju. Lá o nanico PHS dá palanque para que o motoboy André da Fonseca incorpore o personagem Chapolin e repita, fantasiado, bordões da série. Já, em Santos, o PP tenta pegar carona na Lava Jato. Fez de José Afonso Pinheiro, o zelador do tríplex do ex-presidente Lula no Guarujá, uma arma para ganhar cadeiras no legislativo.
Surfar em escândalos ou na popularidade de personalidades se tornou uma estratégia costumeira que empobrece a política. No auge do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 105 candidatos usavam o seu apelido em 2012. Um número que despencou com as denúncias contra o lulopetismo. E é graças a uma destas acusações que o PP de Santos, litoral paulista, lançou a candidatura de José Afonso Pinheiro. Trata-se, como ele frisa nos santinhos, do zelador do tríplex do Guarujá. Seus depoimentos complicaram a situação de Lula e da ex-primeira-dama Marisa Letícia com a Justiça. José Afonso afirmou que os dois vistoriaram a reforma do apartamento, que dizem não ser donos. Tamanha sinceridade fez com que fosse demitido no começo do ano. “Voltei para Santos, onde minha mulher trabalha como doméstica”, conta. As reportagens sobre o caso fizeram partidos o convidarem para ingressar na política. “Eu escolhi o PP, porque foi o primeiro que me chamou para conversar e gostei do pessoal”, afirma. Ex-campeão amador de boxe, sua plataforma se baseia na ajuda a projetos sociais. Os votos, espera conquistar principalmente de porteiros e zeladores. Para isto, passa o dia visitando edifícios. Invariavelmente, é questionado sobre o contato com Lula e Marisa Letícia.
Trocadilhos
Se faltam ideologias, sobram brincadeiras. Candidatos usam trocadilhos e nomes inusitados para chamar a atenção. É o caso da autônoma Ana Paula Teodoro Mendonça (PSDB). Ela assumiu a identidade política de Ana “Paula Tejano” para concorrer a vereadora na cidade de Contagem, Minas Gerais. A cacofonia dos últimos dois nomes dá margens para inúmeras brincadeiras. “O pessoal acha graça. Acredito que ajuda (na eleição)”, conta a candidata, que quer trabalhar contra a homofobia e pelos animais. “Agora, se tem maldade, é na cabeça dos outros.” Ana Paula diz que trocou nas urnas o sobrenome Teodoro pelo Tejano por ser o jeito que a conhecem há tempos. A brincadeira teria começado entre os amigos na adolescência e pegou. Farão companhia para ela nestas eleições outros candidatos inusitados, como “Helio Quebra Bunda”em Cachoeira (BA), “Xereca” em Mongaguá (SP), “Nojo” em Parnaíba (MS) e “Vin Diesel Curitibano” na capital paranaense.
Em muitos casos, os nomes pitorescos afrontam a lei. Uma resolução TSE estabelece limites aos candidatos. É necessário que a alcunha escolhida “não atente contra o pudor e não seja ridículo ou irreverente”. A esteticista Risolene de Lima Macedo (PPL) acredita que seja o seu caso. Com o nome “Riso Sempre Riso”, ela concorre a uma vaga de vereadora em Igarassu, Pernambuco. “O meu nome (Risolene) leva a Riso. Todo mundo aqui me conhece desde criança assim”, afirma. “Nunca me viram triste”, garante. Na Câmara, ela pretende lutar pelo sorriso das crianças. Seu principal projeto é que o município ofereça dentistas nas escolas públicas. Com políticos como esses, fica díficil acreditar nos partidos. Se as brincadeiras trarão votos, só as urnas dirão. Mas, com certeza, não trazem credibilidade para a política.
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O INFERNO DE PIMENTEL

Da ISTOÉ
Desde que assumiu o governo de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT) coleciona problemas com a Justiça. Não bastasse a denúncia de corrupção que pode afastá-lo a qualquer momento se aceita pelo Superior Tribunal de Justiça, o petista passou à condição de investigado formal em outro caso da Operação Acrônimo na última semana. O ministro Herman Benjamin, do  STJ, autorizou a Polícia Federal a indiciá-lo por ter recebido propina para facilitar empréstimos a empreiteiras. É o último passo antes de uma denúncia formal pela Procuradoria-Geral da República. As investigações apontam que Pimentel, então ministro do Desenvolvimento no primeiro mandato do governo Dilma, exigiu cerca de R$ 25 milhões do grupo Odebrecht. Em troca, prometeu ajuda para que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) concedesse créditos para obras em Moçambique e na Argentina. Segundo a delação do operador do petista, Benedito Oliveira, o Bené, o acordo ilícito saiu do papel, mas a construtora não aceitou pagar a quantia exigida. Liberou R$ 12 milhões, parte em espécie. A negociata teria o consentimento de Marcelo Odebrecht, também indiciado.
O cerco se fecha
O cerco, para desespero de Pimentel, está se fechando. Na quinta-feira 17, foi deflagrada uma nova operação para investigar se ele e pessoas próximas receberam vantagens para atuarem na liberação de empréstimos em obras no exterior e fraudarem licitações do ministério da Saúde. Já outro inquérito reaberto contra o petista demonstra para onde foi o dinheiro da corrupção. Financiou o caixa dois da sua campanha ao governo de Minas Gerais. De acordo com depoimentos do operador Bené, as despesas eleitorais superam em R$ 28 milhões o valor oficial de R$ 52 milhões declarado ao Tribunal Superior Eleitoral.
Em outra frente, Pimentel já foi denunciado pela Operação Acrônimo ao Superior Tribunal de Justiça em maio. Procuradores o acusam de ter recebido propina de uma empresa automobilística em troca da concessão de benefícios fiscais, quando era ministro. Até agora, a Corte não se manifestou se aceita ou não. De acordo com a Constituição de Minas Gerais, se virar réu, Fernando Pimentel será automaticamente apeado do cargo. Assumirá o vice Antônio Andrade, do PMDB. Na tentativa de permanecer no cargo, o petista ingressou com um pedido para que só responda ao processo se a Assembleia Legislativa autorizar. O recurso possui poucas chances de prosperar, mas serviu para lhe dar mais tempo. Foi três vezes adiado por pedidos de vista. Enfim, deverá ser julgado nos próximos quinze dias.
Petista enrascado
Fernando Pimentel enfrenta sucessivas acusações. Confira:
1. Exigiu dinheiro para ajudar empreiteiras a obterem empréstimos para obras na Argentina e em Moçambique
2. Recebeu propina em troca da concessão de benefícios fiscais para uma empresa do ramo automobilístico
3. Os gastos com a campanha de Pimentel a governador foram R$ 28 milhões acima dos R$ 52 milhões declarados
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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

UM CANDIDATO IRRITADO

O clima entre jornalistas e candidatos a prefeitura de São Paulo está tenso. Depois da saia justa na quarta-feira, 21, entre o candidato João Doria (PSDB) e César Tralli, no SPTV, da Globo, Celso Russomanno (PRB) se envolveu em confusão no Jornal Gente, da Rádio Bandeirantes, com um apresentador.
O primeiro tema abordado foi o polêmico vídeo do candidato PRB tentando comprar apenas um rolo de papel higiênico, que tirou da embalagem. Quando a atendente do estabelecimento se recusa a passar a compra, ele a hostiliza.
Na rádio, Russomanno não gostou das perguntas feitas pelos apresentadores José Paulo de Andrade, Salomão Ésper, Rafael Colombo e Fabio Pannunzio e, para argumentar, passou a interrompê-los.
O clima piorou quando ele foi questionado por Pannunzio sobre um bar do candidato em Brasília. No entanto, o apresentador foi interrompido novamente. “Você está mentindo, isso é uma mentira”, disse Russomanno.
O apresentador perguntou se o deputado federal não o deixaria terminar e, mais uma vez, Russomanno o acusou de mentiroso.
Como o cenário de “saia justa”, a equipe chamou o intervalo. Na volta, os gritos do candidato vazaram: “Você me respeita! Me respeita.”
Estadão Conteúdo 
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FALANDO EM CÓDIGO

Charge do Alpino

Adivinha quem foi preso o ex-ministro preso hoje...
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INVASORES E TRANSGRESSORES

O candidato à Prefeitura de São Paulo João Doria (PSDB) foi o entrevistado desta quarta-feira, 21, de Cesar Tralli na série de sabatinas que o SPTV está fazendo com os principais candidatos à Prefeitura.
O jornalista perguntou ao candidato sua opinião sobre um terreno abandonado, Doria respondeu que considera os ocupantes da área “invasores e transgressores”. Foi aí que o clima esquentou, pois Tralli o questionou sobre uma área pública de 400 m² incorporada a seu imóvel em Campos do Jordão (SP). “O senhor se considera um invasor?”, disse o apresentador ao finalizar a pergunta.
“Esse processo corre faz vinte anos. A Justiça já mandou o senhor devolver essa área pra prefeitura, mas, o senhor insiste em manter essa área pública anexada à sua propriedade particular. O senhor se considera um invasor?”, questionou Tralli colocando Doria na parede.
Após uma repetir várias vezes “não, não, não”, o candidato do PSDB tentou por panos quentes no embate com um elogio ao apresentador e rebateu a questão. “Tralli, gosto muito de você e admiro o seu trabalho. Você é o jornalista mais brilhante que eu conheço há muitos anos. Não é verdade o que você está falando. A Justiça não determinou isso, está sob judice”, disse Doria.
O jornalista insistiu no assunto. No Twitter, muitos internautas defenderam a dureza de Tralli, mas outros consideraram as patadas desnecessárias.
Estadão Conteúdo
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PRISÃO REVOGADA

Do UOL
Horas depois da prisão do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega (PT) na manhã desta quinta-feira (22) pela PF (Polícia Federal) durante a 34ª fase da Operação Lava Jato, o juiz Sergio Moro revogou o pedido de prisão.
Em seu despacho, Moro diz considerar que Mantega não oferece riscos para a "colheita das provas" procuradas pela operação e também considerou o fato de que Mantega acompanhava sua mulher, que sofre de câncer e estava no hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde seria submetida a uma cirurgia.
Mantega foi preso pela PF na saída do hospital. "Considerando os fatos de que as buscas nos endereços dos investigados já se iniciaram e que o ex-inistrom acompanhava o cônjuge no hospital e, se liberado, deve assim continuar, reputo, no momento, esvaziados os riscos de interferência da colheita das provas nesse momento", disse Moro no despacho.
Mantega estava em um hospital no momento da detenção e foi alvo de um mandado de prisão temporária assinado por Moro. A prisão feita no hospital foi alvo de forte repercussão entre petistas, que criticam a falta de "humanidade" e a "covardia" das circunstâncias.
Segundo as investigações, em 2012, o então ministro Mantega atuou diretamente junto ao empresário Eike Batista, à época dono da empresa OSX que havia sido contratada pela Petrobras, para negociar o repasse de recursos para pagamentos de dívidas de campanha de partidos políticos aliados do governo relativas às eleições de 2010. Em depoimento, Eike declarou que recebeu pedido do ex-ministro para que fizesse um pagamento de R$ 5 milhões para o PT.
Mantega comandou o ministério entre 2006 e 2014, nos governos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Ele também foi presidente do Conselho de Administração da Petrobras. A prisão temporária é decretada em casos específicos e prorrogável por igual período caso comprovada sua necessidade
A nova fase, batizada de Arquivo X, cumpriu 33 mandados de busca e apreensão, oito de prisão temporária e oito de condução coercitiva (quando a pessoa é obrigada a ir prestar esclarecimentos) no Distrito Federal e em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia.
Inicialmente, a PF foi até a casa de Mantega no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, mas o ex-ministro não estava no local. Ele se encontrava no Hospital Albert Einstein, na zona sul da cidade, onde acompanhava a mulher e foi preso. Ela passaria por uma cirurgia.
"Nós só esperamos que não atrapalhem a cirurgia", afirmou José Roberto Batochio, advogado de Mantega, ao jornal "Folha de S.Paulo". Em entrevista coletiva, a força-tarefa da Lava Jato diz que foi "uma infeliz coincidência" o ex-ministro ter sido preso no mesmo dia em que sua mulher seria operada.
Segundo o procurador Carlos Fernando Lima, a prisão de Mantega tem "o objetivo de permitir que a força-tarefa e o Ministério Público analisem todos os elementos de prova colhidos na data de hoje e tomem o depoimento de todos os envolvidos para formar um juízo com mais evidência e prova em relação a um eventual pedido de prisão preventiva".
Lima disse que inicialmente foi solicitado à Justiça a prisão preventiva de Mantega, com base na "manutenção da ordem pública", já que há "valores bilionários desviados dos cofres públicos". No entanto, o juiz Sérgio Moro aceitou apenas o pedido "alternativo" da força-tarefa, isto é, o de prisão temporária.
Consórcio não tinha experiência
Além do ex-ministro, executivos das empresas Mendes Júnior e OSX são alvos desta fase. Segundo a PF, são investigados fatos relacionados à contratação por parte da Petrobras de empresas para a construção de duas plataformas (P-67 e P70) para a exploração de petróleo na camada do pré-sal.
De acordo com as investigações, o Consórcio Integra Offshore (formado pela Mendes Júnior e OSX) firmou com a Petrobras um contrato no valor de US$ 922 milhões (R$ 2,96 bilhões em valores atuais) muito embora não possuísse experiência, estrutura ou preparo para tanto.
Para conseguir isso, diz nota da PF, os seguintes expedientes foram utilizados: "fraude do processo licitatório, corrupção de agentes públicos e repasses de recursos a agentes e partidos políticos responsáveis pelas indicações de cargos importantes da estatal".
Eike diz que pagou propina ao PT
Em nota, o Ministério Público Federal do Paraná (MPF-PR) diz que Eike, ex-presidente do Conselho de Administração da OSX, prestou depoimento e declarou que, em 2012, recebeu pedido de Mantega para que fizesse um pagamento de R$ 5 milhões para o PT.
Para realizar o pagamento, Eike disse que firmou um contrato falso com uma empresa ligada ao ex-marqueteiro do PT João Santana e sua mulher, Mônica Moura, que foram presos pela Lava Jato em outra fase. "Após uma primeira tentativa frustrada de repasse em dezembro de 2012, em 19 de abril de 2013, foi realizada transferência de US$ 2,35 milhões, no exterior, entre contas de Eike Batista e dos publicitários."
De acordo com a PF, o nome Arquivo X é uma referência ao grupo empresarial de Eike Batista, que tem como marca a colocação e repetição do "X" nos nomes de suas companhias.
No começo do ano, um fundo de Abu Dhabi comprou parte das empresas de Eike, incluindo ações da OSX. O brasileiro, porém, manteve 11,77% das ações da companhia.
Outros pagamentos
Ainda segundo MPF-PR, cerca de R$ 7 milhões foram transferidos, entre fevereiro e dezembro de 2013, pela Mendes Júnior para a João Augusto Henriques, ex-funcionário da Petrobras e que seria operador financeiro ligado ao PMDB. "Há indicativos de que o operador atuava em benefício do PMDB na Petrobras", disse Lima.
Ainda de acordo com o MPF, também foi identificado repasse de mais de R$ 6 milhões pelo Consórcio Integra Offshore para a Tecna/Isolux utilizando um contrato falso. Para os investigadores, o beneficiário desses recursos era o ex-ministro chefe da Casa Civil José Dirceu, já preso pela Lava Jato.
Mantega na Zelotes
Mantega já havia sido alvo de um mandado de condução coercitiva da Polícia Federal em maio como parte da Operação Zelotes, que investiga suspeitas de manipulação de julgamentos no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), vinculado ao Ministério da Fazenda.
Antes de assumir a Fazenda, Mantega foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e ministro do Planejamento no governo Lula, de quem tinha sido assessor econômico no período anterior à chegada do PT no Palácio do Planalto.
Outro lado
À "Folha", Marcelo Leonardo, advogado da empresa Mendes Júnior, disse que "a empresa estava em negociação de acordo de leniência e delação premiada e foi surpreendida com a operação de hoje já que ela envolve fatos que fazem parte do escopo da colaboração".
Ele acusa os procuradores de terem usado informações fornecidas pela empresa sem o acordo estar fechado.
A reportagem entrou em contato com a firma de José Roberto Batochio, advogado de Guido Mantega, mas ele não estava no local. Às 9h, uma secretária do escritório, identificada como Liliane, anotou o telefone do UOL e disse que falaria com Batochio a respeito. Posteriormente, nenhum contato foi feito. A reportagem voltou a ligar às 9h40, e uma outra secretária, identificada como Raquel, informou que o advogado não estava disponível.
Questionadas se havia um outro número de telefone pelo qual a reportagem poderia falar diretamente com Batochio, as duas funcionárias responderam que não estavam autorizadas a informar.
Os responsáveis pela OSX, por sua vez, não foram localizados. O UOL tentou ligar por diversas vezes para o diretor financeiro e de relação com os investidores, Mauro Abreu, em número informado no site da empresa. Ninguém atendeu as chamadas.
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NO XILINDRÓ

Do UOL
O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega (PT) foi preso na manhã desta quinta-feira (22) pela PF (Polícia Federal) durante a 34ª fase da Operação Lava Jato. Ele é alvo de um mandado de prisão temporária com duração de cinco dias e será levado para Curitiba.
Segundo as investigações, em 2012, o então ministro Mantega atuou diretamente junto ao comando de uma das empresas contratadas pela Petrobras para negociar o repasse de recursos para pagamentos de dívidas de campanha de partidos políticos aliados do governo.
Mantega comandou o ministério entre 2006 e 2014, nos governos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.
A nova fase, batizada de Arquivo X, cumpre 33 mandados de busca e apreensão, oito de prisão temporária e oito de condução coercitiva (quando a pessoa é obrigada a ir prestar esclarecimentos) no Distrito Federal e em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia.
Inicialmente, a PF foi até a casa de Mantega no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, mas o ex-ministro não estava no local. Ele se encontrava no Hospital Albert Einstein, na zona sul da cidade, onde acompanhava a mulher e foi preso. Ela passaria por uma cirurgia, segundo o jornal "Folha de S.Paulo".
"Nós só esperamos que não atrapalhem a cirurgia", afirmou José Roberto Batochio, advogado de Mantega, à "Folha".
Além do ex-ministro, executivos das empresas Mendes Júnior e OSX (que era de Eike Batista) são alvos desta fase.
Segundo a PF, são investigados fatos relacionados à contratação por parte da Petrobras de empresas para a construção de duas plataformas (P-67 e P70) para a exploração de petróleo na camada do pré-sal.
De acordo com as investigações, o Consórcio Integra Offshore (formado pela Mendes Júnior e OSX) firmou com a Petrobras um contrato no valor de US$ 922 milhões (R$ 2,96 bilhões em valores atuais) muito embora não possuísse experiência, estrutura ou preparo para tanto.
Para conseguir isso, diz nota da PF, os seguintes expedientes foram utilizados: "fraude do processo licitatório, corrupção de agentes públicos e repasses de recursos a agentes e partidos  políticos responsáveis pelas indicações de cargos importantes da estatal".
Eike diz que pagou propina ao PT
Em nota, o Ministério Público Federal do Paraná (MPF-PR) diz que Eike, ex-presidente do Conselho de Administração da OSX, prestou depoimento e declarou que, em 2012, recebeu pedido de Mantega para que fizesse um pagamento de R$ 5 milhões para o PT.
Na época, o ex-ministro era presidente do Conselho de Administração da Petrobras.
Para realizar o pagamento, Eike disse que firmou um contrato falso com uma agência de publicidade para lavar o dinheiro. "Após uma primeira tentativa frustrada de repasse em dezembro de 2012, em 19 de abril de 2013, foi realizada transferência de US$ 2,35 milhões, no exterior, entre contas de Eike Batista e dos publicitários."
A nota, porém, não cita nem o ex-marqueteiro do PT João Santana nem sua mulher, Mônica Moura, que foram presos pela Lava Jato em outra fase.
Ainda segundo MPF-PR, cerca de R$ 7 milhões foram transferidos, entre fevereiro e dezembro de 2013, pela Mendes Júnior para um operador financeiro ligado ao PT e à Diretoria Internacional da Petrobras.
Ainda de acordo com o MPF, também foi identificado repasse de mais de R$ 6 milhões pelo Consórcio Integra Offshore para a Tecna/Isolux utilizando um contrato falso. Para os investigadores, o beneficiário desses recursos era o ex-ministro chefe da Casa Civil José Dirceu, já preso pela Lava Jato.
De acordo com a PF, o nome Arquivo X é uma referência ao grupo empresarial de Eike Batista, que tem como marca a colocação e repetição do "X" nos nomes de suas companhias.
No começo do ano, um fundo de Abu Dhabi comprou parte das empresas de Eike, incluindo ações da OSX. O brasileiro, porém, manteve 11,77% das ações da companhia.
Mantega na Zelotes
Mantega já havia sido alvo de um mandado de condução coercitiva da Polícia Federal em maio como parte da Operação Zelotes, que investiga suspeitas de manipulação de julgamentos no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), vinculado ao Ministério da Fazenda.
Antes de assumir a Fazenda, Mantega foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e ministro do Planejamento no governo Lula, de quem tinha sido assessor econômico no período anterior à chegada do PT no Palácio do Planalto.
Outro lado
À "Folha", Marcelo Leonardo, advogado da empresa Mendes Júnior, disse que  "a empresa estava em negociação de acordo de leniência e delação premiada e foi surpreendida com a operação de hoje já que ela envolve fatos que fazem parte do escopo da colaboração".
Ele acusa os procuradores de terem usado informações fornecidas pela empresa sem o acordo estar fechado.
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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

MOTIVOS NÃO FALTAM

Desenvolvemos nesse texto porque não votar nessa “renovação à direita”, milionária, sonegadora de impostos e louca pela retomada das privatizações, que o PSDB esta propondo para São Paulo.
1. O empresário da sonegação
O candidato que vangloria a meritocracia, é envolvido em um grande esquema de corrupção internacional com sonegação de impostos, chamado “Panamá Papers", através de uma empresa offshore, um tipo de empresa formada em paraísos fiscais, como Panamá, feita para sonegar impostos.
Assim Dória comprou um apartamento em Miami de US$ 231 mil, sem que a propriedade aparecesse em seu nome. Embora tenha declarado um patrimônio de R$ 179 milhões, o candidato do PSDB omitiu o apartamento de Miami e sua casa, em São Paulo, também foi declarada por um quarto do valor real, que é de R$ 45,9 milhões. O tucano acumulou sua riqueza, através de corrupção e sonegação de impostos, esse é o grande orgulho do “esforço individual” do candidato empresário.
2. Palácio particular
Na semana em que ocorre um grande incêndio em uma favela em Osasco, é interessante saber que o candidato do PSDB goza para si mesmo de uma casa de 3.304 metros quadrados construídos e 7.883 metros quadrados de terreno, com piscina e quadra de tênis, a área de lazer com campo de futebol gramado e iluminado. Estimada em R$51 milhões (valor de IPTU e não do mercado) em bairro nobre Jardim Europa, bairro este onde nunca ocorre incêndios. O valor real, sem sonegação de impostos deve ser várias vezes maior que o valor que ele declara no IPTU.
Logo no início da campanha denunciamos sua mansão nesse vídeo:
3. Aos sem teto promete repressão
Enquanto esbanja seus luxos, Dória promete à população sem teto e carente que “não terá nenhuma tolerância”: garantiu que movimentos de moradia que “invadem propriedade”, como o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), não terão tratamento de diálogo em sua gestão. Para o empresário moradia não é problema, mas para mais de 2 milhões de moradores de favelas segundo dados de 2010, os 15.905 moradores de rua em 2015 o tucano reserva-lhes a continuidade de uma vida precária, e com muita repressão a possíveis manifestações (como havia dito o ex-secretário de segurança pública, agora ministro da Justiça tucano, Alexandre de Moraes).
Essa é a igualdade de direitos que o PSBD: todo culto e defesa da grande propriedade particular, as custas da precariedade de vida de milhões de pessoas.
4. Quer que as pessoas trabalhem de graça
Mas não esqueçamos sua “genial” proposta para as periferias: “retomar os mutirões pelas periferias, juntando moradores para pintar paredes de escolas, capinar pracinhas. “O nome do programa vai ser Mutirões Mário Covas” – talvez uma homenagem ao tucano envolvido no esquema de fraude de licitações no metrô de SP. Sem resolver os principais problemas da população, Dória como bom empresário, propõe explorar o trabalho da população sem pagá-los para manter os prédios públicos, trabalho que deveria ser feito por funcionários pagos e com carteira assinada e todos os direitos.
5. Empresário, como de hábito, corrupto
Apesar do PSDB ter escolhido uma figura com pouca trajetória política, Doria já tem casos de corrupção no prontuário: foi acusado de receber um cheque de R$ 20 mil em dezembro de 2013 de uma empresa investigada pela Operação Lava Jato. O nome do tucano aparece uma vez em um extrato bancário da Link Projetos e Participações Ltda., sob suspeita do Ministério Público Federal de ser usada pela empreiteira Engevix para pagar propina ao almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, ex-presidente da Eletronuclear preso em 2015 pela Força-Tarefa.
6. “Sou um empresário” rico e explorador
João Dória é o candidato mais rico de toda a eleição. Na lista de bens estão cinco casas, nove empresas, dois Porsches, duas Pajeros, além de obras de arte e investimentos no Brasil e nos Estados Unidos, isso no que ele declara, imagina se contar o que está escondido na offshore da Panama Papers. Acionista de uma produtora de televisão, da empresa de comunicação Dória Associados e da Dória Associados Editora, que publica sete revistas de economia, negócios e estilo de vida. Entre suas empresas estão também um shopping center e um centro de convenções na cidade de Campos do Jordão, no interior paulista. Um verdadeiro magnata a la Donald Trump, que sem dúvida representará os ricos e milionários.
Dória ainda preside o LIDE (Grupo de Líderes Empresariais), que congrega mais de 700 das maiores empresas do Brasil e representam 44% do PIB privado do país. É acionista e presidente do conselho da Casa Cor, maior evento de arquitetura e decoração das Américas e o segundo maior do mundo. Ou seja, é evidente como Dória é o candidato da patronal, sustenta sua fortuna à custa de exploração dos trabalhadores. O candidato não quis se posicionar sobre a questão da reforma trabalhista e da previdência, “Não fujo às perguntas, mas estou aqui como candidato a prefeito. Vou responder os temas que estão vinculados à cidade”, para não se desgastar com os ataques do governo golpista, sendo membro do partido eminentemente golpista como o PSDB, base de Temer e maior entusiasta do fim dos direitos trabalhistas. Seu silêncio é a cara hipócrita daqueles que consentem e se beneficiam.
7.São Paulo globalizada tem que ter promoção, tem que ter “Black Friday”
Apesar de não querer se pronunciar sobre a politica nacional e o golpe institucional, suas propostas práticas mostram o acordo completo. Dória quer privatizar desde o sistema funerário, aos corredores de ônibus, parques e “o que mais estiver à frente”. Estão na sua lista também o complexo poliesportivo do Pacaembu, o parque de convenções do Anhembi e ainda a venda do autódromo de Interlagos. Prometeu até mesmo implantar um pedágio urbano na capital. Ligado a Alckmin, seguirá o projeto de venda de 25 áreas de pesquisa biológica em São Paulo, criticado pelo Programa Vale do Ribeira do Instituto Sócio Ambiental. Assim, a política deste edificante chefe de leilão é entregar a cidade a empresários como ele, que buscam lucrar em cima da exploração do trabalho. A privatização traz consigo a terceirização, os baixos salários e a retirada de direito dos trabalhadores.
8. Estado mínimo para a população, e muito para empresários
O candidato defende o Estado mínimo “a Prefeitura vai vender tudo aquilo que não for essencial para a gestão pública”. Para o mesmo a privatização é uma mostra de que o “Estado não pode e não deve estar onde ele não é necessário. Quem deve administrar estes locais é o setor privado”. Dória indica que vai ser o candidato “sério” para garantir os lucros das empresas. O “estado mínimo” encontra seu limite na repressão, que será “generosamente distribuída a todos” (que protestarem).
A idéia de estado mínimo está colocada na entrega de todos os bens ao setor privado e fortalecimento das forças repressivas, que vão ser utilizadas contra a juventude pobre, negra, moradores de rua, mas também contra as greves e lutas operarias e de juventude, que justamente colocam em questão os lucros para os quais o Dória pretende governar. Falando nisso...
9. Repressão em dobro
Doria propõe integrar as polícias Militar e Civil à GCM (Guarda Civil Metropolitana). Segundo a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, a Cetel e o Copom já estão operacionalmente integrados desde 2010. Ou seja, a proposta de Dória vai além da já repressiva GCM. Lembremo-nos desta na gestão Haddad (PT) retirando os cobertores e reprimindo os moradores de rua em pleno inverno. O tucano deixa implícito nessa “integração” a possibilidade da policia civil cumprir o mesmo papel da militar, uma das corporações mais assassinas do mundo.
Em entrevista a CBN o empresário classificou o comportamento da Polícia Militar nos protestos contra o impeachment de Dilma Rousseff como “adequado”, afirmando que o “trabalho da polícia é difícil e é preciso compreender que uma situação onde haja blackblocs a polícia tem que reagir”. Ele afirmou que “pretende usar como modelo o governo Geraldo Alckmin e não o entende como autoritário”. Ou seja, seguirá a mesma política de Alckmin, cuja polícia militar foi responsável por uma em cada quatro pessoas assassinadas na cidade de São Paulo em 2015, a maior taxa já registrada.
10. Mais dinheiro para... os empresários da saúde e do transporte
Assim como tudo para o tucano se responde com PRIVATIZAR, naquilo que já é privado, sempre pode se lucrar mais. A resposta às altas tarifas de ônibus, e para evitar desgastes com a juventude e os trabalhadores que sofrem com o transporte caro e lotado, Dória propõe aumentar o subsídio do estado às empresas do transporte, para “não elevar as tarifas”. Atualmente, a prefeitura paga quase R$ 2,5 bilhões às empresas. Nos últimos sete anos, os repasses subiram em ritmo cinco vezes maior do que a inflação. O objetivo: encher os bolsos das máfias do transporte, contra as quais batalhou a juventude em Junho de 2013.
Para saúde, que já esta semi-privatizada com a expansão das OSs, a proposta é fazer uma parceria com as empresas de saúde privada, para que a população use os hospitais a noite e na madrugada (sic). Assim, Dória encontra a chave para os empresários da saúde terem lucros também no período noturno, quando o fluxo é menor, e a população que encontre um jeito de ir aos hospitais pela madrugada, independente da falta de transporte e de segurança. Sem contar o óbvio, que sua proposta não dialoga com a precariedade do serviço público, com a população que espera meses para exames e cirurgias, mas no programa de Dória não existe uma linha que se proponha a investir nos serviços públicos. Claro, ele como Marta e outros candidatos não usam os serviços públicos, o que importa para eles?
Diana Assunção, Esquerda Diário
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O DERRETIMENTO DO MITO

Da VEJA
Em menos de quinze dias, a presidente da República sofreu um processo de impeachment, o parlamentar mais poderoso do Congresso teve o mandato cassado e o líder mais popular da história política recente começou a enfrentar o período mais dramático de sua carreira. Como aparece na capa desta edição de VEJA, em imagem inspirada em capa publicada pela revista Newsweek em outubro de 2011, o mito Lula pode estar começando a derreter.
Na semana passada, os procuradores da força-tarefa da Lava-Jato formalizaram denúncia de corrupção passiva e lavagem de dinheiro contra o ex-presidente. A isso se resume a denúncia, mas ela veio embalada numa retórica segundo a qual Lula era o “comandante máximo” da organização criminosa, o chefe da quadrilha que assaltou os cofres da Petrobras, o general que usava propinas para subornar parlamentares e comprar partidos, o fundador da “propinocracia”, o homem que aceitava dinheiro e pequenos luxos em troca de favores. Nisso tudo, a retórica tomou o lugar das provas.
No pedaço substantivo da denúncia, os investigadores acusam o ex-­presidente de receber vantagens indevidas de ao menos três contratos bilionários assinados entre a construtora OAS e a Petrobras. As propinas geradas por esses negócios somaram 87,6 milhões de reais. Desse total, 3,7 milhões de reais foram direcionados a Lula, “oriundos do caixa geral de propinas da OAS com o PT”. Para lavar esse dinheiro sujo, segundo os procuradores, a empreiteira bancou a reforma de um tríplex da família Lula da Silva, no Guarujá, no litoral paulista.
O ex-presidente se defende dizendo que o imóvel nunca foi dele, apesar de sua mulher, Marisa Letícia, também denunciada, ter escolhido os móveis, os pisos, as torneiras, os armários e a cor das paredes. Essa, talvez, se transforme em breve na prova mais forte de suborno contra Lula. Há duas semanas, VEJA mostrou o conteúdo da proposta de delação premiada de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS. Nela, o empreiteiro confirma que o tríplex pertence ao ex­-presidente e foi pago com dinheiro da Petrobras.
Na denúncia de 149 páginas, os procuradores apontam uma segunda evidência de corrupção do ex-presidente. Antes de deixar o Planalto, em 2010, Paulo Okamotto, amigo de Lula, pediu à empreiteira OAS que financiasse o transporte e o armazenamento dos objetos pessoais do ex-presidente. Para atender Lula, a empreiteira gastou 1,3 milhão de reais. Okamotto, que mais tarde passou a presidir o Instituto Lula e também foi denunciado pelos procuradores, confirma que pediu ajuda para pagar o aluguel de contêineres com o acervo do ex-presidente, mas não vê crime no seu pedido. “A OAS, para mim, deveria inclusive reivindicar a Lei Rouanet, porque está fazendo um pagamento para manter um bem cultural do povo brasileiro”, disse Okamotto.
As vantagens indevidas embolsadas por Lula extrapolam 3,7 milhões de reais, segundo estimativas dos investigadores. Entre 2011 e 2014, o Instituto Lula e a L.I.L.S. Palestras, Eventos e Publicações, empresa de palestras do ex-presidente, receberam mais de 55 milhões de reais, sendo mais de 30 milhões de reais de empreiteiras envolvidas no petrolão. Desse valor, mais de 7,5 milhões de reais foram transferidos para o ex-presidente, cujo patrimônio saltou de 1,9 milhão de reais, em 2010, para 8,8 milhões de reais, em 2015. Isso, no entanto, não consta da denúncia sob a forma de acusação, pois ainda está sob investigação.
Leia a reportagem na íntegra, na edição desta semana de VEJA que já está nas bancas.
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A CONVICÇÃO DAS PROVAS

Na tarde de quarta-feira, dia 14 de setembro, o Brasil parou para ver Deltan Dallagnol. Uma coletiva fora convocada dias antes pelos procuradores da Lava Jato em Curitiba. Quase ninguém sabia o que eles falariam, embora muitos desconfiassem. Todos sabiam apenas que seria algo grandioso; a Lava Jato não costuma chamar entrevistas coletivas com tanta antecedência. Numa sala repleta de jornalistas, procuradores e delegados, Dallagnol, o líder da força-tarefa da Lava Jato, subiu ao púlpito. Fez-se silêncio. Transmitia-se tudo ao vivo para o país inteiro. Ele foi claro e direto: “Hoje, o Ministério Público Federal acusa o senhor Luiz Inácio Lula da Silva como o comandante máximo do esquema de corrupção identificado na Lava Jato”. Eram palavras que anunciavam, a um só tempo, o auge do maior caso de corrupção da história do Brasil – e a queda do homem que ainda é o maior político vivo do país.
Dallagnol detalharia, nas horas seguintes, os fatos que conduziam a força-­tarefa à conclusão de que Lula era o chefe não somente do petrolão, mas da “propinocracia”, nas palavras dele, que tomou conta do governo federal há mais de uma década, com a ascensão do PT ao Planalto. O procurador estava lá para explicar, de modo pormenorizado, a denúncia oferecida ao juiz Sergio Moro, no mesmo dia, por ele e outros 12 colegas. Nela, Lula é acusado dos crimes de corrupção passiva e de lavagem de dinheiro. Recebeu, segundo as evidências colhidas pelos procuradores, propina da empreiteira OAS, por meio do famoso apartamento tríplex em Guarujá. Em troca, havia ajudado, ilegal e indiretamente, a OAS a obter contratos bilionários na Petrobras, graças aos diretores nomeados por ele na estatal, que conheciam a regra do jogo. O procurador foi duro, como de hábito. Qualificou Lula de general do esquema. De arquiteto da quadrilha. Usou um PowerPoint tosco – que logo viralizou e virou meme – para expor os fatos do caso. Se os slides eram rudimentares, as provas eram fortes. Durante meses, os procuradores reuniram centenas de evidências para acusar Lula. Há de tudo para alicerçar a acusação inicial: depoimentos de quem conviveu com Lula no governo, planilhas, contratos, auditorias, perícias, notas fiscais, impostos de renda, fotos, anotações apreendidas, trocas de mensagens.
Dallagnol, de 36 anos, não estava ao microfone por acaso. Estudioso e metódico, destacou-se muito cedo na carreira, já em Curitiba, pela precisão técnica que empregava nos casos de lavagem de dinheiro. Como outros integrantes da força-tarefa e do Ministério Público, que agora investigam país afora os crimes cometidos na era do PT no poder, Dallagnol aprendeu perdendo. Como os colegas, frustrou-se com o triunfo continuado da chicana e da nulidade – o triunfo da impunidade. Perdiam os casos não porque os acusados fossem inocentes. Perdiam porque o sistema – a lei e a interpretação de juízes sobre ela – era feito para que perdessem, desde que o suspeito tivesse poder e dinheiro. “Meu trabalho é marcado por cicatrizes dos casos que não deram em nada. É o trauma de todos os procuradores”, disse recentemente a amigos.
As   investigações, é claro, não são perfeitas. Longe disso. Reservadamente, Dallagnol e seus colegas avaliam que cometeram dois erros na coletiva. O primeiro, ao não serem claros sobre a necessidade técnica de apontar Lula como chefe da organização criminosa. Não se tratou de um capricho ou, muito menos, de perseguição política ao ex-presidente. Tratou-se de uma necessidade técnica diante do fato de que, segundo as evidências disponíveis, a OAS reformou e deu o tríplex a Lula como pagamento de propina. Essa propina ao ex-presidente somente existiu em virtude dos contratos fraudulentos obtidos pela empreiteira na Petrobras. É uma relação de troca. E, se Lula recebeu o apartamento como propina, é preciso demonstrar que ele favoreceu ilegalmente a OAS, ainda que indiretamente, a conseguir os contratos na Petrobras. Como o ex-presidente, por definição, não atuou diretamente no direcionamento desses contratos, fazia-se necessário demonstrar que ele detinha o comando da organização criminosa. Se não fizessem isso, na lógica dos procuradores, a denúncia seria inepta. Dito de outro modo, seria rejeitada por Moro, pois não haveria crime de Lula ao receber o tríplex. Seria somente um presente generoso e desinteressado de Léo Pinheiro ao ex-presidente – coisa que, definitivamente, ninguém acredita em Curitiba.
E por que os procuradores, então, não denunciaram Lula por associação criminosa, o novo nome para formação de quadrilha? Porque o ex-presidente já é investigado por esse crime perante o Supremo Tribunal Federal, no principal inquérito do petrolão naquela Corte. Caso denunciassem Lula por esse crime, o que faria mais sentido para a população, os advogados do ex-presidente certamente entrariam com um recurso no Supremo – e com grandes chances de derrubar todo o trabalho de Curitiba. Os procuradores cometeriam o que se conhece, no jargão jurídico, como “usurpação de competência”. “Seria suicídio”, diz um deles. É mais uma demonstração, por sinal, das dificuldades criadas pela existência do foro privilegiado para autoridades – e o consequente fatiamento de investigações que deveriam ser indivisíveis. Os processos podem até dar certo, mas o público fica com uma visão igualmente fatiada da realidade dos fatos.
O segundo erro cometido por Dallagnol, e admitido por ele a colegas, foi retórico. Ao recorrer a expressões duras para caracterizar a participação de Lula no esquema, como “general”, “arquiteto” e “comandante máximo”, o procurador criou no público a expectativa de que haveria provas irretorquíveis sobre o papel de chefe desempenhado pelo ex-presidente no esquema. Não havia. Não há – ainda e oficialmente. Presumiu-se que haveria novas evidências, nesse sentido, contra Lula. A ausência delas, em contraste às duras palavras usadas, frustrou parte da plateia, que talvez já esperasse demais da coletiva. Permitiu, também, que Lula recorresse à arte que domina à perfeição: vitimizar-se, dizendo-se perseguido politicamente pelos “meninos de Curitiba”.
A linguagem usada por Dallagnon contra Lula é comum na Lava Jato, assim como a convocação de uma coletiva – e o uso de PowerPoints – para explicar didaticamente o caso. Nos últimos dois anos e meio, o procurador e seus colegas, assim como delegados e auditores da Receita, usaram termos fortes para descrever pessoas e empresas investigadas na operação. Mas Lula, esqueceu Dallagnol e a força-tarefa, açula paixões como nenhum outro político no Brasil. Com Lula, o trabalho deles percorre o planeta. Recebe um escrutínio igualmente imenso: todos têm uma opinião, ou sentimento, sobre a figura do ex-presidente. No Brasil, são sentimentos, perfazendo o arco entre o amor e o ódio, que muitas vezes anulam qualquer análise racional sobre os fatos do caso. Aconteceu com a denúncia na quarta-feira. E aconteceu em março, quando o juiz Sergio Moro deferiu o pedido para que Lula fosse ouvido coercitivamente, em vez de preso. A mesma medida fora tomada com dezenas de investigados, para alívio de muitos deles – é muito melhor passar horas depondo do que cinco dias no xilindró. Só se tornou controversa quando envolveu Lula. Em retrospectiva, Moro e alguns dos procuradores acreditam que deveriam ter optado pela prisão temporária. Foram qualificados como severos quando, na verdade, foram mais brandos que a lei permitia.
O ambiente tenso e polarizado do país, coisa que Lula e seus aliados estimulam, em que há desprezo pelas verdades factuais, permitiu também que prosperasse rapidamente, nas redes sociais, uma frase falsa atribuída aos procuradores. “Não temos provas, temos convicções” virou meme. Nem Dallagnol nem os demais procuradores disseram algo perto disso. Mas não interessa. Sites petistas espalharam a frase como prova de que não havia evidências contra Lula. Falavam em “golpe continuado” contra o PT – uma conspiração das elites para derrubar Dilma, tirar Lula das eleições de 2018 e conspurcar o legado social dos governos petistas. O próprio Lula, no dia seguinte à denúncia, usou a frase inventada como se fosse verdadeira. Chorou, não rebateu o mérito das acusações e se disse perseguido, como era previsível. Tentou convencer quem não precisava: os que acreditam numa conspiração liderada pelos “meninos de Curitiba” não acreditam numa palavra, amparada ou não em fatos, que sai de Curitiba. E acreditam em qualquer uma que seja dita por Lula.
No contra-ataque à denúncia, Lula mostrou que continua bom de palanque. O problema dele é que esse caso, entre outros da Lava Jato, não será resolvido com votos, mas nos Tribunais. E não há João Santana que ludibrie  os meninos de Curitiba, o juiz Sergio Moro e as demais instâncias do Judiciário. Eles trabalham com fatos e lógica – não fazem política, ao contrário do que parece crer Lula. E os fatos depõem fortemente contra ele.
É na força desses fatos que se encontram os méritos da denúncia apresentada na quarta-feira. Não são alguns adjetivos inapropriados que definirão o futuro de Lula; serão as provas colhidas pela força-tarefa em contraposição à qualidade da defesa do ex-presidente. Apesar dos deslizes verbais, a denúncia oferecida pelos procuradores tem elementos suficientes de autoria e materialidade para os crimes imputados a Lula. Eles fizeram o que precisavam: demonstraram evidências de que o ex-presidente cometeu os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro ao receber o tríplex em Guarujá. Em poucos dias, Moro decidirá se acolhe ou rejeita a denúncia. Ele também pode acolher somente em relação a alguns dos crimes descritos. Caso Moro julgue que há elementos para abrir uma ação penal e começar um processo, Lula se tornará réu. Nesse cenário, terá certamente ampla oportunidade de se defender e contestar, tecnicamente, o trabalho dos procuradores. Nessa fase, igualmente, não pode ser preso, a não ser que obstrua a Justiça. A força-tarefa, por sua vez, terá oportunidade de buscar mais provas para sustentar um pedido final de condenação. Na Lava Jato, ações penais como essa têm duração média de seis meses. Se condenado, Lula pode ter de cumprir pena em regime fechado – prisão.
Lula já é réu num processo em Brasília, acusado de tentar comprar o silêncio de Nestor Cerveró, o ex-diretor da Petrobras condenado por corrupção na Lava Jato, que acabou conseguindo fechar uma delação premiada. É investigado também em Brasília por tráfico internacional de influência em favor da Odebrecht, junto a governos amigos do PT. É investigado no Supremo, pela suspeita de estar na quadrilha do petrolão. Em Curitiba, há outros dois inquéritos contra ele. Um investiga os R$ 30 milhões recebidos na empresa dele por empreiteiras do petrolão; outro, talvez o mais danoso, apura se o sítio em Atibaia, que Lula nega ser dele, apesar das fartas evidências em contrário, constituiu propina paga pela Odebrecht, pela OAS e pelo amigo dele, o operador José Carlos Bumlai. Há evidências fortes de que esse trio bancou a compra e reforma do sítio, escondendo, por meio de laranjas, a real propriedade do imóvel.
Está em curso, ainda, uma intensa produção de provas contra Lula. As delações de Léo Pinheiro; de Marcelo Odebrecht e dos demais executivos desse grupo; do ex-diretor da Petrobras Renato Duque, bancado pelo PT no cargo; e do marqueteiro João Santana, entre outras em negociação, podem resultar em mais evidências da participação do ex-presidente no petrolão. O trabalho dos procuradores de Curitiba tem sido diligente e obstinado e ajudará a esclarecer o país sobre qual, afinal, é a participação de Lula no escândalo que levou a Petrobras à lona.
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A RECEITA DE FHC

Débora Bergamasco, ISTOÉ

No momento em que o mundo, em especial o Brasil, é chacoalhado por turbulências políticas, econômicas, sociais e culturais, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso se impõe como um das raras vozes capazes de fazer uma leitura do cenário atual desprovida de paixão. E, aos 85 anos, ele não parece disposto a pendurar as chuteiras. É quando o sociólogo se encontra com o político. Não à toa, antes mesmo de o impeachment ser aprovado no Senado, o então vice Michel Temer procurou o ex-presidente tucano. Quis aconselhar-se com ele, saber o que pensava sobre o processo de deposição de Dilma e, obviamente, pedir-lhe apoio. Conversaram longamente. Temer e FHC se conheceram em São Paulo na década 80. Não é possível dizer que são íntimos ou companheiros de mesa e copo, mas, segundo colegas de ambos, nutrem admiração e respeito um pelo outro. Depois da posse, Temer e Fernando Henrique ainda não se encontraram pessoalmente. Mas o presidente planeja estar em breve com o tucano para uma prosa sobre esse período de transição pelo qual passa o País. A depender do que revelou em entrevista exclusiva à ISTOÉ, o peemedebista terá à disposição uma extensa lista de contribuições e aconselhamentos. Dez anos mais velho e do alto de seus dois mandatos à frente da Presidência do Brasil, quando precisou, assim como Temer, pavimentar uma travessia política e econômica, Fernando Henrique apóia e torce pelo novo governo, mas emite uma série de alertas.

Horizonte de esperança

À ISTOÉ, Fernando Henrique Cardoso falou dos desafios que o novo governo enfrentará. Apontou caminhos. “Aqui, nesse momento, estamos sentindo falta de mais explicações”, disse. Assim como fez em 1993 ao apresentar o Plano Real, o ex-presidente adverte para a necessidade de o governo Temer ser claro e falar mais com a população sobre a necessidade do ajuste fiscal e suas implicações. “É dizer por que tem que tomar essas medidas e o que vai acontecer depois. E então desenhar o horizonte de esperança.” Para ele, o governo precisa ser mais firme. Traçar um caminho, ter convicções, não titubear e mostrar aos brasileiros um rumo. Embora elogie a relação de Temer com o Congresso Nacional, o ex-presidente destaca que haverá obstáculos complicados a serem vencidos porque os parlamentares são mais sensíveis aos anseios da opinião pública. Por isso, para ele, é fundamental que a nova gestão seja transparente a fim de convencer a população a apoiar medidas impopulares, sem as quais o presidente não vai conseguir tirar o Brasil do atoleiro. Para o resgate da economia, além de disciplinar as contas, Temer, na avaliação de FHC, acerta quando propõe um pacote de novas concessões. O tucano destaca, no entanto, que aliado aos investimentos deve vir “a atenção às pessoas”. E, por isso, passam controle da inflação, mas também a baixa na taxa de juros, pois são sinais que, segundo ele, as pessoas conseguem sentir no seu dia a dia.

Líder da transição

FHC considera que o Brasil se ressente de uma voz. Em outubro de 1992, o então vice-presidente , Itamar Franco, assumiu o lugar do impeachado Fernando Collor de Mello. Três dias depois, Fernando Henrique foi nomeado ministro das Relações Exteriores e passou a auxiliar na conturbada missão da nova gestão de restituir a estabilidade política e econômica. O País vivia tempos de desesperança. Enfrentava uma crise moral, provocada pelos escândalos de corrupção, enquanto a renda dos trabalhadores era corroída pela hiperinflação, que chegou a mais de 2.700%. Naquele ano, depois de muitas tentativas frustradas, Itamar convocou seu chanceler para comandar a Fazenda. Sociólogo por formação, FHC chefiou a criação do Plano Real com a ajuda de uma equipe de economistas. No dia do lançamento do plano que reconduziria o País à estabilidade financeira, foi apresentada aos brasileiros a proposta de aumento das alíquotas em 5% de todos os impostos, um corte de US$ 22 bilhões no orçamento e a criação de um fundo de emergência, reservando 15% das tributações para pagar programas sociais. O porta-voz das aparentes “más notícias” foi FHC. Ele discursou: “Haverá um sacrifício, indiscutivelmente. De todos. O desânimo que se sente aqui e ali, não é um desânimo de quem não acredita no País. É um desânimo de quem está olhando para cima e não vê sinal. E estamos emitindo aqui alguns sinais”. Naquele momento, FHC entendeu o Zeitgeist, palavra alemã usada para designar o chamado espírito do tempo. Vinte e quatro anos depois, FHC volta a exercer esse papel, agora como observador e analista da cena política brasileira. Ele não olha só para o novo governo. Suas reflexões envolvem o próprio ninho, o PSDB, com quem também tem promovido conversas periódicas, principalmente com o presidente nacional da legenda, senador Aécio Neves (PSDB), e o PT. Para ele, tucanos e petistas precisam se modernizar. Na avaliação de FHC, o PT passou a amar o poder mais do que amava as pessoas. “Aí deu no que deu”, disse. Sobre o PSDB, ele reafirmou a intenção do partido de permanecer ao lado de Temer, desde que seja cumprido um programa de governo. “Se o Temer seguir essa direção, terá nosso apoio. Essa direção é dura, porque implica em medidas que são aparentemente não populares”, disse.

“ESCREVE AÍ QUE EU RI”

Menos por teimosia do que por vaidade e estratégia político-eleitoral, o sucessor de FHC, o petista Luiz Inácio Lula da Silva, sempre fez ouvidos moucos para os conselhos do tucano. Apesar de serem uma espécie de irmãos Karamazov da política, e já terem dividido o mesmo palanque, a relação entre eles nunca foi de fato azeitada. Não à toa, se estranham até hoje. Há duas semanas, o petista acusou FHC de falar “muita bobagem”. Na entrevista à ISTOÉ, o tucano respondeu em tom de ironia. “Escreve aí que eu ri”. Especificamente sobre a denúncia do MPF contra Lula por corrupção e lavagem de dinheiro, FHC foi lacônico. Disse preferir ficar de espectador e que lamentava profundamente o fato de alguém com a trajetória política do petista chegar a essa situação. “Sou uma pessoa cautelosa. Deixo o assunto para a Justiça”, afirmou.

Durante o primeiro mandato, a pupila de Lula, Dilma Rousseff, chegou a trocar gentilezas com o tucano. Almoçaram juntos uma vez. Mas não passou disso, certamente por influência de Lula. Em 2013, quando a população inundou as ruas em todo território nacional com aspirações difusas, porém transbordando uma sensação mal-estar, emissários de Lula e de Dilma procuraram Fernando Henrique para discutirem juntos caminhos para reagir e atender a essas surpreendentes manifestações. O tucano respondeu aos interlocutores que estaria disposto, mas desde que fosse demandado. Os petistas não levaram a idéia adiante e perderam a oportunidade de, talvez, evitar o desfecho traumático da deposição presidencial. A eloqüência intelectual de FHC se impõe novamente. A história mostra que é recomendável escutá-lo.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu a reportagem de ISTOÉ, na última semana, no Instituto FHC. Em duas horas de entrevista, fez uma avaliação da atual conjuntura política e apontou caminhos para o PSDB, o PT, o PMDB, e também para o País:

Quando essa sensação de instabilidade política e social vai passar?

Fui ministro do Exterior e da Fazenda do presidente Itamar Franco, que também foi um governo que ocorreu por causa de um impeachment. Recordo que naquela época, também foi muito difícil. Havia muita greve, muita coisa. Quando é que as coisas acalmaram? Quando foi possível enfrentar o principal problema da época, que era a inflação. Hoje a situação é diferente, mas tem esse ponto de similitude. O povo, hoje, está sentindo um mal-estar por causa de um desastre que a política anterior causou no Brasil, vindo de longe uma desorganização muito grande. Não só a questão do desemprego, mas também tem a situação angustiante de “e amanhã, o que é que eu vou fazer? Vai ter horizonte?”. Para acertar a questão fiscal, você vai tomar medidas que vão ser percebidas como mais duras. O objetivo maior, que é obter renda e emprego, não vem de imediato. É uma travessia. Dilma simbolizou a crise que levou a isso. O (presidente) Michel Temer não tem relação direta com a política que levou a isso. Mas o povo não faz essas distinções, só sente as conseqüências.

Como o novo governo pode ajudar a superar esse mal-estar mais rapidamente?

É preciso que o governo Temer tenha rumo e firmeza. Tem que oferecer ao país uma perspectiva. A minha função, quando fui ministro da Fazenda, foi principalmente falar, explicar. Aqui, nesse momento, estamos sentindo falta de mais explicações. Por que tem que tomar medidas e o que vai acontecer. E desenhar o horizonte de esperança.

Como essa comunicação poderia acontecer e por que, na sua opinião, ela não está sendo feita?

É preciso que alguém encarne esse projeto, preferentemente o presidente da República. Ou algum ministro. Tem que explicar permanentemente cada coisa. E a sociedade hoje é mais complicada do que há 20 anos. Hoje tem a internet, mais informação, a angústia vem mais depressa, é preciso dar muito mais atenção a este processo. Tem umas questões mais técnicas como o teto dos gastos, questões trabalhistas, mas como se traduz isso para o povo? Por exemplo, pega a Previdência. No Brasil, você tem uma cultura nacional que acha que quanto antes você se aposentar, melhor. Não é que as pessoas não queiram trabalhar. Elas querem se aposentar para continuar trabalhando. Então, você tem um problema que está ligado à profunda desigualdade brasileira. Por isso, não basta o argumento de que “ah, eu não vou ter dinheiro para pagar você”, o que é verdade. Tem que mostrar também como é desigual o sistema de aposentadoria hoje.

Mas é difícil a pessoa entender que, eventualmente, ela vai perder direitos…

O problema são as corporações, porque o Congresso Nacional vai enfrentá-las. Aí não tem jeito, vai ter que ter firmeza. Você tem que ter convicção do que vai fazer. A gente entende que esse governo é conseqüência de uma decisão constitucional. Quem votou no Michel Temer foi quem votou na Dilma. Quem está gritando “Fora Temer” foram os que votaram nele. Por outro lado, como vice-presidente do Brasil, ele não recebeu o voto direto. Não necessariamente o vice é um líder popular. Quem vai levar adiante essa transformação não tem o voto do povo, embora seja legal e legítimo.

Quais são outras medidas necessárias para recolocar o País nos trilhos?

O governo tem que ganhar mais confiança mostrando que tem rumo. O governo Temer não tem descuidado do contato com o Congresso, isso é importante. Agora, o grande problema que ele vai ter que enfrentar é que o Congresso reflete também o que se chama vagamente de opinião pública. A Dilma perdeu a opinião pública e o Congresso. O governo Temer tem o Congresso, mas a opinião pública é que está na dúvida. Então ele tem que dirigir-se muito mais à opinião pública. E como não é um governo derivado de um impulso do voto e as pessoas estão muito nervosas, o alvo continua sendo quem está no poder. A batalha é dizer: nós vamos dar os primeiros passos para o caminho novo, melhor. Mas aí tem que ter o crescimento da economia, obviamente. O que a população entende? É emprego, é renda, controle da inflação. Um problema dessa natureza não se esgota em dois anos.

É legítimo, se ele fizer um bom governo, querer se candidatar à Presidência?

Mas aí não precisa querer. Os outros é que vão querer. Não adianta você querer ser presidente da República. Os outros é que têm que querer que você seja. Mas se ele for muito bem e os outros quiserem, quiseram. Porque para o Brasil é bom que se tenha um resultado positivo. A briga se é esse ou outro é nossa, não é do povo. O povo vai votar em quem ele sentir confiança.

Qual é a importância da economia para esta transição?

A economia é crucial. É necessário dar sinais sensíveis de que a economia está indo na boa direção. Tem que apresentar novas boas. É possível e estão até tentando. Mas você também não pode cair na ilusão contrária de que basta o investimento. Tem que ter atenção às pessoas também. O óbvio ululante e que você não pode perder de vista é o slogan que acho que foi do Bill Clinton: “People First”, ou, primeiro as pessoas. O que as pessoas sentem? Quais são suas dificuldades? A educação, saúde, segurança, mobilidade. E agora tudo é questão de renda e trabalho. Mas o que falta mesmo? Falta “to take care” (cuidar). Atenção, cuidado, carinho.

O sr. acha que a população hoje, nesse contexto atual de mal-estar e angústia, tem ouvidos para escutar o que o presidente tem a falar?

A pessoa só escuta quando sente que quem fala tem força. Muita gente se queixa: “não tem liderança, falta liderança”. Porque nós vivemos em uma sociedade que é de massas, 200 milhões de pessoas, na qual a articulação social estava antigamente marcada por classes.

E como neste contexto alguém consegue se tornar um líder?

A mídia tem papel decisivo. E penso que ela nem tem muita consciência disso, nem ela faz por articulação, ou por conspiração. Mas quem aparece? Quem é bizarro, e aí você tem um número enorme de pessoas que vão bem na televisão ou no rádio e viram candidatos. Também quem é capaz de se expressar com clareza, ou quem tem uma sigla, ou uma seita religiosa ou mesmo esportiva. E está difícil no mundo todo. E aí surgem coisas bizarras, como o candidato à Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump.

O presidente Temer consegue demonstrar essa liderança?

Acho que até agora não. Até agora ele não teve condições para isso. Ele nunca foi naturalmente isso. O presidente Temer, quando foi candidato majoritário, foi como vice. Ele foi candidato proporcional, que é muito diferente. O que ele tem de vantagem? Uma enorme experiência de negociação com o Congresso. E uma formação cultural, professor de Direito e tal. E ainda presidente do PMDB por 15 anos. Agora, vamos ver se ele dá um salto. Está faltando no Brasil uma voz. A política precisa de palavra, quem fale. O verbo.

Além da crise econômica, temos outras crises, como a moral, por exemplo.

Tem a crise moral e a crise que a Lava Jato simboliza. Nunca houve nada de tamanha profundidade no Brasil porque nunca houve tamanha extensão de malfeitos com a bênção do governo. Aqui o Temer significa uma ruptura nisso. Na questão da corrupção, pela ordem é PT, PP e só depois o PMDB.

E o que o governante tem que fazer para resolver a crise moral?

Tem que mudar nossa cultura de permissividade. É preciso que os de cima deem exemplo. A presidente do Supremo, Cármen Lúcia, dirige seu próprio carro. É um sinal de que é uma pessoa simples. No Brasil houve um momento de embevecimento pelo poder. Precisa baixar um pouco essa temperatura e voltar à coisa mais republicana. Isso implica em redução de privilégios.

O presidente Temer disse que talvez não coloque os quadros dele nas repartições públicas, também não quis usar a faixa presidencial…

O Temer é uma pessoa simples. E eu acho que está certo. A faixa, em certas circunstâncias tem que por. O que ele está tentando dizer é: “Olha, sou mais simples”. Houve um pouco de exagero disso no Brasil.

Em que época houve exageros?

Houve exageros do Lula em diante. Essas coisas de muita pompa. E é patético porque o Lula vem de líder sindical. Isso choca mais. O sistema que foi criado é de abuso, de “eu posso tudo”. Não pode. Tem que ter uma coisa mais republicana. Política é palavra, é gesto.

Lula disse que o sr. fala muita bobagem. O que tem a dizer?

Escreve aí que eu ri.

Que papel o PSDB deverá exercer?

Eu li uma entrevista do Aécio (Neves, presidente do PSDB) dizendo que nós apoiamos um programa de governo e, se o presidente Temer seguir essa direção, terá nosso apoio. Essa direção é dura, porque implica em medidas que são aparentemente não populares. O PSDB está nessa posição. Mas é importante alertar: o PSDB sozinho não tem forças para mudar essas coisas.

A esquerda falhou?

Essa esquerda. O PT foi uma tentativa de renovação até certo ponto. O PT nasceu junto com o governo social e com a igreja. O que sobrou? O sindicalismo. O núcleo ficou sendo o sindical. Os católicos se afastaram. Mas onde foi que ele se complicou? Primeiro porque ele manteve a visão antiga da esquerda a idéia de hegemonia: eu sou o bom, logo o outro é mau. E o que eu faço? Liquido o outro. É uma parte não democrática. Embora ele venha de um partido que defende a democracia, a alma não é democrática. Eu li um artigo do Tarso Genro e estou de acordo com ele. O PT precisa se refundar. O partido foi um espaço de esperança, não precisava ter ido para os caminhos que foi, não precisava ter demonizado o PSDB. O PT passou a amar o poder mais do que amava as pessoas. Aí deu no que deu.

Como deve ser o tratamento do novo governo à questão da política atual?

Essa questão político-eleitoral é dramática. Eu acho que o governo não pode deixar de dar sinais claros de que nós vamos mudar esse sistema. Porque está esgotado.

Quanto seria um número razoável de partidos?

O número de partidos importa menos, mas sim o fato de eles representarem idéias. E o governo Temer tem tempo suficiente para mexer nisso. E se começar a mexer nisso, o povo gosta, desde que explique.

Hoje as pessoas sentem que a vida vai melhorar?

Não. E se conseguissem, era mais fácil. A mídia faz um esforço grande na área econômica para achar que vai melhorar, mas as pessoas não sentem ainda. Não sentem porque falta a voz, falta a palavra, a voz da esperança. Você não pode fazer uma nação sem esperança. Não se faz uma nação só no sofrimento. E mesmo quem está sofrendo quer imaginar que amanhã não vai sofrer tanto. Isso é política. Não é só tomar atos. Você tem que tornar aquilo simbólico e mostrar que você vai para o paraíso amanhã. Os jihadistas não se matam porque vão ter 70 virgens? E a política é um pouco religião. Mas na política você promete e tem que entregar em vida.

Como deve ser a relação do governo com o Congresso?

Eu tive o mesmo problema como presidente, porque precisava fazer reformas. Algumas eu consegui, outras não. Consegui quando a opinião pública se deslocou para o meu lado. Uma das grandes ilusões do nosso presidencialismo é imaginar que ele é imperial. Dá impressão que é, mas não é. O presidente que pensa que pode tudo está perdido.
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