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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

GARGALHADAS DEMONÍACAS E TIRÂNICAS

Roberto Romano, O Estado de S.Paulo
Uma foto possui a qualidade de falar aos olhos e à mente. Ela mostra o real sentido da palavra “evidência”: o que aparece de modo insofismável. No século 20 algumas fotografias mostraram ao mundo fatos graves e ridículos, terríveis e comoventes. Recordo algumas delas: a menina que foge do napalm, no Vietnã; o beijo dos enamorados após a 2.ª Guerra Mundial, nos EUA; o vestido de Marilyn Monroe que se ergue por virtude do vento; a figura de Trotsky cortada na foto por ordem de Stalin; o horror de corpos quase mortos nos campos nazistas. Tais imagens testemunham a brutalidade humana, mas também exibem instantes de frágil ternura, inteligência ou estupidez.
Em formas televisivas ou fílmicas, além da evidência existe a vantagem das figuras em movimento, inclusive e sobretudo no campo da face. Esta última tem sido um meio de estudos filosóficos, artísticos (especialmente no teatro), políticos importantes. Em momentos pouco felizes da ciência, como nas teses avançadas por Lombroso, a cara revelaria o caráter das pessoas, suas mazelas escondidas. Em outro sentido, Diderot, pai das Luzes democráticas, utilizou muito o livro de Le Brun sobre as paixões reveladas na face. Charles Darwin tem um contributo relevante para o tema. As tentativas de velar a linguagem do rosto, desde a mais remota vida em sociedade, encontram nas máscaras o seu grande instrumento. Um capítulo essencial do clássico Massa e Poder traz análises profundas de Elias Canetti sobre a maquiavélica dissimulação permitida ao poderoso mascarado.
Os bisonhos e incultos políticos brasileiros não controlam a técnica do mascaramento. A sua maioria exibe sem nenhum pudor o que lhe vai nas entranhas, confiante na impunidade trazida pelo indecente privilégio de foro.
No dia 23 de novembro último, O Estado de S. Paulo apresentou na primeira página uma foto estarrecedora. Deputados riem às escâncaras em companhia do então ministro Geddel Vieira Lima. Este proclamara que “não havia nada de imoral” em conversar sobre assuntos privados com um colega, em proveito próprio. O quadro exibido no jornal mostra explícito deboche das leis e do povo soberano. Temos nele uma visão completa das pessoas que dominam nossas instituições políticas. Segundo Milan Kundera, “o riso é o domínio do diabo”. Nem todo riso, no entanto. Existe, diz ainda o romancista, o riso dos anjos, movido pela admiração da bela ordem dada ao universo pelo ser divino. A gargalhada demoníaca mostra a quebra daquele ordenamento, o absurdo entronizado nas coisas mundanas (O Livro do Riso e do Esquecimento). A pândega dos deputados, a zombaria e o desprezo pelos cidadãos comuns, traz o selo do Coisa Ruim, do Não-sei-que-diga. Renan Calheiros piorou a dose ao reduzir o episódio a um caso de hermenêutica. Caolha como todas as demais por ele efetivadas, sobretudo no plano da ética pública.
Certa feita a imprensa trouxe notícias bem fundadas sobre o uso, na Câmara dos Deputados, de verbas para o bem-estar de prefeitos e hóspedes de parlamentares. Entre as comodidades e os serviços, a prostituição. Na semana em que a denúncia invadiu páginas de jornais e telas da TV, apareceu outra novidade: a Mesa da Câmara providenciava nova leva de cargos em comissão para servir aos parlamentares. Sem apurar o primeiro escândalo, veio o outro, urdido em silêncio. Um jornalista da TV Record entrevistou Inocêncio de Oliveira. Este negou, rindo muito, a existência de qualquer ato visando a criar cargos. Deu adeus aos brasileiros, virou as costas e seguiu adiante, rindo. Na tela, apareceu o documento oficial criando os cargos.
A mentira e o deboche suscitaram minha indignação. Escrevi um artigo intitulado, justamente, O prostíbulo risonho. Ele me valeu muito ódio dos chamados representantes do povo. Um deles me processou, com apoio de seus iguais. Na oitiva das testemunhas, um auxiliar do acusador assim falou ao jovem magistrado: “Gosto muito do professor Roberto Romano. Mas ele abusou da escrita. Imagine, Excelência, que o professor afirmou existir corrupção no Congresso Nacional!”. Nem o juiz pôde conter o riso, agora angélico.
As gargalhadas dos “nossos representantes” seriam apenas ridículas se não gerassem lágrimas de famílias brasileiras aos milhares A corrupção retira da economia, das políticas públicas, da vida nacional bilhões para lucro dos que deveriam zelar pelo bem comum. Desde a Grécia, o pensamento ético e jurídico ocidental define a prática de usar os bens coletivos em proveito próprio como tirania. O governante correto “guarda a piedade, a justiça, a fé. O outro não tem nem Deus, nem fé, nem lei. Um tudo faz para servir ao bem público e manutenção dos governados. Mas o outro tudo faz para seu lucro particular, vingança ou prazer. Um se esforça por enriquecer seus governados, o outro só eleva sua casa sobre a ruína dos dirigidos (…) um se alegra ao ser avisado em toda liberdade, e sabiamente corrigido, quando falha. O outro não suporta o homem grave, livre e virtuoso (…) um busca pessoas de bem para os cargos públicos. Mas o outro só emprega os piores ladrões para os utilizar como esponjas” (Jean Bodin, Os Seis Livros da República, capítulo IV).
Em A República, ao desenhar a tirania Platão afirma que o péssimo governante realiza uma purga invertida no corpo político: expulsa os cidadãos livres e bons e usa os salafrários como sua base política. Heinrich Heine, poeta lúcido, disse certa feita: “Quando penso na Alemanha, à noite, choro”.
Termino citando um baiano que merece respeito. Dada a desfaçatez exibida na política brasileira, Castro Alves retomaria seus versos candentes: “Mas é infâmia demais! (...) Da etérea plaga/ Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!/ Andrada! arranca esse pendão dos ares!/ Colombo! fecha a porta dos teus mares!”.
Autor de 'Razão de Estado e Outros Estados da Razão', Editora Perspectiva
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ENTRE A GLÓRIA E A VERGONHA

Do UOL
Livro de Mário Rosa
O UOL oferece o download gratuito de todos os capítulos do livro em PDF, para facilitar a leitura em dispositivos móveis como o kindle.
Uma das coisas que mais me irritam nesses livros de gestão e de carreiras é que ninguém fala do acaso. E digo isso não por acaso.
Trinta anos atrás, antes que eu e você imaginássemos nos encontrar por aqui, um evento casual foi determinante para construir tudo o que você vai ler daqui pra frente.
Tava zanzando pela Universidade de Brasília, onde estudei, e não sei por que cruzei com uma palestra do escritor peruano Mario (meu xará, meu Deus, percebo só agora) Vargas Llosa.
Jornalistas não são intelectuais. Raramente são. Não conheci nenhum. Escrevemos como escrevem os autores de verdade, esses caras iluminados que criam mundos na literatura. Mas a distância que separa um texto jornalístico, por melhor que seja, a começar pelo meu, de um texto literário é a mesma entre a de um cantor de boteco e o Pavarotti. Nada contra os cantores de boteco, aliás.
Mas, considerando que não sou nenhum intelectual, foi bastante por acaso que acabei naquela palestra, naquele dia. Não sei o que fiz antes, não consigo lembrar o que fiz depois, não lembro nem mesmo da palestra em si. Vai dizer que não existe destino?
Sei que Vargas Llosa estava lá promovendo um livro dele, “A Guerra do Fim do Mundo” (será coincidência?).  É um alentado volume sobre a Guerra de Canudos. Alguém na plateia, impressionado com a riqueza de detalhes da obra, perguntou ao escritor como ele havia guardado tantas minucias. Anotações? Gravações? O quê?
Ele respondeu que percorrera o itinerário todo, conversando com todo mundo sem anotar nada, sem registrar nada. E disse, eu me lembro (a rigor só me lembro disso):
- Achei que só ia guardar na memória o que fosse importante. O que eu esquecesse é porque não valia a pena guardar.
E aí é que tá o destino nisso tudo. Ouvi aquela coisa  e ela ficou guardada na minha cabeça, sem eu lembrar, esse tempo todo. Vivi a vida, fui em frente e somente quando fiquei grávido deste livro é que esse fragmento ressurgiu. Ele estava ali alojado para o dia em que eu pudesse compreendê-lo.
Este livro segue rigorosamente esse método aleatório que eu ouvi naquela palestra antiga. Foi aquela frasezinha, jogada ali no meio do nada, ouvida por mim e guardada por esse tempo todo, que ligou a ignição que me conduziu nesta narrativa.
Atenção, meninos e meninas, guardem o que este cara tem para lhes dizer: às vezes, um evento banal que você viveu pode ganhar sentido um dia.
O tempo é uma linha que precisamos viver para conectar os pontos.
Nossa! Nada mau para um cantor de boteco…
Se há uma coisa boa em ter vivido uma vida, sobretudo se no meio ela foi interessante, é chegar a um certo ponto e poder conectar várias coisas  dispersas. É um mosaico, cheio de  pedacinhos de coisas diferentes que se juntam num certo momento e formam um todo.
E aí, como na palestra que não sei por que vi, mas agora sei, esses fragmentos vão se juntando a outros e, no final,  você tem uma vida cheia de cacos de vidro de diversas cores, e a sua memória cola essas pecinhas todas naquilo que um dia descobre ser você. Ou ter sido você. Hoje tenho certeza de que eu fui eu. Pelo menos, até onde sei.
Existem diferenças entre memórias e biografia. Biografia é coisa pra gente grande. Memória pode ser de qualquer um. Não acho que você vá ler a minha história, nem a História, embora tenha uma porção de estória de gente famosa aí no meio.
Acho que isso lhe oferece acesso a uma vida um pouquinho fora do normal. Só isso. Tomara que goste.
Tava lá pelos 30 anos quando já tentava decifrar esse mistério das lembranças: por que a gente lembra de uma cena, de um momento qualquer da infância ou do passado, e não tem a menor ideia do que aconteceu antes ou depois?
Desenvolvi minha interpretação particular desse fenômeno. Sabe, naqueles filmes, quando há um naufrágio e o sobrevivente chega a uma ilha deserta e põe uma mensagem na garrafa e a arremessa ao mar? A garrafa vai indo, seguindo as correntes, até que, um dia, chega ao continente e alguém volta para salvar o náufrago.
Acho que as lembranças isoladas e pontuais são essas garrafinhas que mandamos pra nós mesmos, pra que um dia, quando sejamos “grandes”, voltemos até nós pra nos salvarmos. Você vai ver uma porção de garrafinhas minhas boiando por aqui. Quem sabe você se encontra por aí?
Uma das delícias deste livro para mim foi a forma como ele nasceu: ele simplesmente nasceu. Eu não o fiz. Só tive que aguardar a gestação. Alguém tinha de digitar os teclados. Meu corpo fez isso. Não escrevi. Fui, acho, o primeiro leitor.
Sempre tinha ouvido falar que muitos autores de primeira escrevem sem planejar nada. O livro vai surgindo e eles vão navegando. Morria de inveja quando ouvia isso. Tudo bem que falar da minha vida é infinitamente mais fácil do que fazer ficção, mas senti um pedacinho desse prazer de ir do nada para o lugar nenhum nesta escrita. Tudo caiu da árvore: ploft!
Uma das poucas coisas chatas de ter escrito livros era que, volta e meia, um ou outro perguntava: “Quando é que sai o próximo?”.
“Sair como, se ainda não entrou?”, perguntava eu de volta. Este livro se formou dentro de mim, sem eu saber, e saiu de parto natural, mas apressadamente. Eu o escrevi em duas semanas.
Lembrei de quando visitei um monumento de 500 colunas de concreto, cheias de ornamentos delicados, feitas pelo meu irmão e amigo, o pintor Siron Franco. Era uma obra para comemorar o quinto centenário do descobrimento. Uma coluna para cada ano. Perguntei como se sentia depois de realizar algo tão prodigioso. “Tá vendo todas essas toneladas aí? Isso é tudo loucura que tava dentro da minha cabeça. Agora não tá mais”, disse-me Siron. Ao escrever, aqui, finalmente senti o que ele quis dizer.
Uma coisa boa foi quando eu percebi qual deveria ser a “voz narrativa” que iria contar a história. Nossa! Jornalistas adoramos, de vez em quando, frases gongóricas. Voz narrativa é apenas uma forma de chamar o jeito de escrever. O narrador aqui é um cara que soltou um pouco a franga. Não queria adotar aquele tom de pinguim de geladeira que você já viu por aí.
Meus outros livros eram todos coisa de engenheiro: começavam estruturados, subdivididos, tudo previamente concebido, o que dizer em cada capítulo, quantos capítulos etc. Este aqui é coisa de arquiteto: surgiu uma forma e, depois, que se danem os calculistas para colocar tudo de pé.
Não tenho nada contra a literatura corporativa. Nos tempos em que a nobreza reinava dos castelos, saiu um Maquiavel. Agora que ela mora nos escritórios, é natural que surja um Warren Bufett. Cada um na sua. Mas quis quebrar um pouco o tom de certeza que existe nesses livros que se passam na pessoa jurídica. Espero ter conseguido, ao menos um pouco.
Não fui um personagem relevante e, muito menos, testemunha ocular da História, ao menos à altura desse título pomposo. Passei por uma porção de coisas simplesmente porque estava lá.
É por isso que me considero uma espécie de camareiro que vivia no Palácio de Versalhes.
(Vou explicar isso aqui um pouquinho mais. É porque jornalistas são obrigados a “contextualizar” coisas, partindo sempre do pressuposto de que o leitor é um imbecil. Se você não se acha assim, pule o próximo parágrafo).
Versalhes era a sede do poder real francês, símbolo do rei sol, Luís XIV. O mundo girava em torno da nobreza e, no centro dela, estava o rei.
Capitais, de alguma forma, são sempre Versalhes. Capital é uma cabeça cercada de gente por todos os lados. A capita, no caso, é o rei ou o nome que se dê a ele.
Vivi em nossa Versalhes cabocla a minha vida toda. Quando escrevo este livro, Brasília tem 56 anos, eu 52.
Expandindo o conceito de “capital” para o significado de “elite”, vivi profissionalmente no meio disso ou de parte disso, na minha idade adulta.
Sempre tive muito claro qual era o meu papel: eu era um lacaio. Nobres eram os que eu servia. Podia me vestir parecido; podia morar em aposentos patinados que a choldra considerasse cortesãos; podia comer as migalhas dos majestosos banquetes; podia até ser confundido e ir parar na guilhotina. Mas eu não era nobre. Era serviçal. E, como era um empregado doméstico e de confiança, pude circular por Versalhes inteira, com o meu disfarce de consultor de crises.
O meu é o relato de um camareiro.
Nota pé de prefácio de consultor de crises: sabe aquele trecho “jornalistas adoramos…” que aparece uns parágrafos ali atrás? Pois é perversidade pura. Uso a primeira pessoa do plural para me chamar de jornalista, você reparou? Mas os jornalistas acham que eles são eles e que caras como eu são caras como eu. Então, esse comentariozinho largado ali é uma ofensa grave para alguns. Rezam os bons costumes que não somos do mesmo ramo. Será? Mas o legal, para você, é ver como um pequeno caco invisível jogado num texto, meio sem querer, pode ser um contrabando mortal. Será que eu fui imparcial, neutro? Se me perguntarem, eu direi que fui, embora isso não tenha muita importância. Afinal, eu não sou jornalista.
Sunny Isles
Flórida
Junho de 2016
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A MULHER QUE VEIO COM A CHUVA

A festa hoje é para a guerreira que não foge à luta, Luiza Erundina, a mulher que veio com a chuva. Sinônimo de competência, coerência e luta pelos direitos humanos.  O trabalho parlamentar de Erundina é uma referência na política nacional. A honestidade e responsabilidade tem norteado a vida pública dessa paraibana que tem uma força e fé inabalável. Erundina nos enche de orgulho, é um ser humano fantástico.
Biografia – Luiza Erundina de Souza, nasceu no dia 30 de novembro de 1934 na cidade de Uiraúna, Paraíba. É a sétima de dez filhos de um artesão de selas e arreios de couro. Começa a trabalhar ainda na infância, vendendo bolos feitos pela mãe.
Repete a 5ª série duas vezes para não parar de estudar, uma vez que a cidade não tinha curso ginasial. Vai morar em Patos, com uma tia, em 1948, para cursar o ginásio. Forma-se em Serviço Social na Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa, em 1967, e segue para São Paulo em 1971 para fazer mestrado na Escola de Sociologia e Política. Luíza Erundina sonhava ser médica, contudo, por dificuldades de ordens diversas, viu-se obrigada a suspender os seus estudos durante nove anos. Mesmo assim, ajudaria a fundar, em Campina Grande, a Faculdade de Serviço Social.
Por vias da militância católica, ela assumiria, em 1958, o seu primeiro cargo público: aos 24 anos de idade, tornar-se-ia diretora de Educação e Cultura da Prefeitura Municipal de Campina Grande. E, em 1964, seria nomeada secretária de Educação e Cultura dessa cidade.
Erundina graduou-se como assistente social, em 1966, pela Universidade Federal da Paraíba; e, em 1970, concluiu o mestrado em Ciências Sociais, pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
Vale registrar que, em Campina Grande, na década de 1970, ela iniciava a sua atuação na esfera política, participando das Ligas Camponesas e fazendo oposição ao Golpe Militar. E que, naquela cidade e período histórico, a participação de mulheres nordestinas, na política, praticamente inexistia. Por essa razão, ela passaria a sofrer perseguições.
Foi em 1971 que Erundina decidiu se transferir para São Paulo em definitivo; e, ainda nesse ano, foi aprovada em um concurso público para assistente social da Prefeitura, indo trabalhar com os nordestinos migrantes nas favelas da periferia da cidade.
É aprovada em concurso para a Secretaria do Bem-Estar Social da prefeitura paulistana e logo depois passa a colaborar com movimentos de periferia que reivindicam moradia e ocupam terrenos públicos abandonados, muitas das vezes em associação com as Comunidades Eclesiais de Base. Em 1980, é convidada pelo então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva a ser uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores (PT), pelo qual se elege vereadora em 1982 e deputada estadual constituinte em 1986. Em 1985, é escolhida pelo partido para ser a vice-prefeita na chapa do candidato Eduardo Suplicy por ocasião das eleições municipais daquele ano. Suplicy fica em terceiro no pleito, vencido por Jânio Quadros (PTB), mas a expressiva votação recebida pelo PT (cerca de 19% dos votos) impulsiona o crescimento do partido na cidade. Em 1987, já como deputada estadual, é agredida pela Polícia Militar durante uma manifestação de funcionários públicos contra o governo do estado (à época comandado por Orestes Quércia) promovida pelo PT.
Integrante da ala considerada mais radical do PT, ligada ao trotskismo, Luiza Erundina candidata-se em 1988 às prévias do partido para a decisão do candidato à prefeitura de São Paulo nas eleições daquele ano. O outro candidato das prévias é o deputado federal constituinte Plínio de Arruda Sampaio, oriundo do setor majoritário e moderado da legenda e apoiado por suas maiores lideranças: Lula, José Genoíno e José Dirceu. Erundina vence Plínio na disputa interna e se lança, com efeito, à corrida municipal, concorrendo com o ex-prefeito e ex-governador Paulo Maluf (PDS), com o secretário estadual João Oswaldo Leiva (PMDB), apoiado pelo governador Orestes Quércia e pelo prefeito Jânio Quadros, com o deputado federal José Serra (PSDB), com o jornalista e secretário municipal de Jânio, João Mellão Neto (PL), e com o ex-secretário municipal e genro de Jânio Quadros, Marco Antônio Mastrobuono (PTB).
De início em terceiro nas pesquisas eleitorais (atrás de Maluf e Leiva), com uma campanha caracterizada pelos baixos recursos, pela militância pesada do partido nos bairros (sobretudo periféricos, que se converteriam nos grandes redutos eleitorais de Erundina naquele ano) e pelos eloquentes ataques, durante o Horário Eleitoral Gratuito, à administração de Jânio Quadros e aos demais candidatos, vistos todos como representantes dos setores mais conservadores e elitistas da sociedade, Luiza Erundina foi crescendo aos poucos na eleição, beneficiada pela insatisfação generalizada da sociedade com o poder público, pela, à época, diferenciada proposta representada pelo PT, pela alta rejeição a Maluf e pelo baixo cacife eleitoral de Leiva, tido por muitos como um candidato-fantoche. Durante o processo, Erundina ainda agregou o apoio de demais siglas de esquerda, como o PDT e o PCdoB, chegando, na penúltima semana do pleito (na época não havia segundo turno), em situação de empate técnico com Leiva e atrás de Maluf.
A greve na Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda, ocorrida nas proximidades da eleição e que terminou com a morte de três operários devido à truculenta ação do Exército, ajudou a opinião pública a se sensibilizar acerca das reivindicações do movimento sindicalista e a rejeitar ainda mais o poder constituído de então. Alguns analistas políticos consideram que a repercussão da greve ajudou na vitória de Erundina em 15 de novembro de 1988, com 33% dos votos válidos, ante 24% de Maluf e 14% de Leiva, desmentindo as pesquisas dos dias anteriores, que davam vitória a Maluf. O próprio candidato do PDS, quando informado da vitória da petista por um jornalista da Rádio Jovem Pan, chegou a declarar que contestaria o resultado da eleição junto ao TRE. Contudo, tal intenção não foi concretizada. Após a totalização dos votos, descobriu-se que a Rede Globo não divulgou uma pesquisa do Ibope, concluída na véspera do dia da votação, que já indicava a vitória de Erundina. As circunstâncias da eleição de Erundina para a prefeitura da maior cidade do país causaram grande impacto, sobretudo pelo alto grau de surpresa, pelo próprio perfil pessoal da nova prefeita (solteira, migrante nordestina e ativa militante de esquerda) e pela significativa mudança em relação ao sistema administrativo outrora constituído.
Trajetória política
Prefeitura de São Paulo
Luiza Erundina foi prefeita do município de São Paulo entre 1989 e 1993, eleita pelo PT.
Na sua gestão elaborou ações importantes nas áreas de educação (os responsáveis pela pasta eram os educadores Paulo Freire e, depois, Mário Sérgio Cortella, reconhecidos internacionalmente) e saúde, como o aumento do salário e da capacitação dos professores da rede municipal, a melhoria na distribuição e qualidade da merenda escolar, a criação dos MOVAs (Movimentos de Alfabetização, centros de alfabetização e instrução de adultos) e a implantação de serviços de fonoaudiologia e neurologia, entre outros, nos postos da cidade, além do desenvolvimento de políticas sociais mais voltadas para a periferia.
A gestão de Erundina colocou a problemática habitacional como prioridade ao apoiar a implantação habitação de interesse social por mutirão autogerido, o que ajudou a diminuir o déficit habitacional no município. A prática do mutirão foi descontinuada por seus sucessores, como Paulo Maluf, os quais priorizaram a construção de edifícios de apartamentos por métodos convencionais, visto que os mutirões proporcionavam um certo nível de organização política aos envolvidos, assim como possibilitavam sua mobilização com relação ao atendimento de suas demandas, o que não ocorria nos projetos habitacionais de Maluf e dos demais prefeitos.
No setor de esportes, junto a seu secretário Juarez Soares, conseguiu trazer de volta a Fórmula 1 para a cidade, abrigando-a no circuito de Interlagos. Na área da cultura (comandada pela filósofa Marilena Chauí) foi responsável pela construção do Sambódromo do Anhembi e pela restauração das grandes bibliotecas do centro da cidade, como a Biblioteca Mário de Andrade. Também sancionou a lei de incentivo fiscal à cultura do município, a Lei Mendonça. Nos transportes públicos investiu na modernização da frota da CMTC e incentivou as empresas particulares a fazerem o mesmo, principalmente através de subsídios governamentais às tarifas. No transporte individual, Erundina foi bastante criticada por não ter dado continuidade em algumas obras viárias de seu antecessor Jânio Quadros, como os túneis sob o Rio Pinheiros e o Lago do Parque do Ibirapuera, empreitadas que foram retomadas por Paulo Maluf.
O ponto mais polêmico de sua gestão foi a tentativa de mudança nas regras da cobrança do IPTU, naquilo que se chamou de "IPTU progressivo": pelo projeto, apresentado em 1992 (último ano de sua gestão), proprietários de imóveis de maior valor teriam um aumento no imposto (ao mesmo tempo em que outros imóveis, isentos da cobrança, voltariam a contribuir), ao passo que imóveis menores teriam os custos diminuídos até a isenção. Tal medida foi duramente rechaçada pela Câmara dos Vereadores (de maioria oposicionista) e por setores da imprensa, até ser derrubada pelo Supremo Tribunal Federal, que considerou a iniciativa da prefeitura inconstitucional. Pela campanha deflagrada contra a atitude da prefeita e pela mesma potencialmente também atingir alguns setores da classe média, a administração de Luiza Erundina sofreu uma sensível queda em sua popularidade.
Durante seu período na prefeitura foi considerada uma das principais lideranças de esquerda no país, mas não conseguiu constituir um sucessor. O candidato de seu partido, Eduardo Suplicy, perdeu as eleições de 1992 para Paulo Maluf. Em 1996, 2000 e 2004, Erundina candidatou-se novamente ao cargo de prefeita, sem obter sucesso em nenhuma delas (apesar de ter disputado o segundo turno em 1996).
Ministra da Administração Federal
Com o advento do impeachment do presidente Fernando Collor, em 1993, logo após dar posse a Paulo Maluf na prefeitura de São Paulo, Luiza Erundina seria convidada, pelo vice de Collor e seu sucessor Itamar Franco (1992-1994), a se tornar ministra-chefe da Secretaria da Administração Federal, dentro dos esforços de Itamar Franco em constituir um governo de coalizão política (coalizão à época chamada de "política de entendimento nacional"), abrigando no primeiro escalão políticos e lideranças de diferentes correntes. Por ter aceitado o cargo, contrariando a orientação do partido, o Diretório Nacional do PT decidiu suspender, por um ano, todos os seus direitos e deveres partidários. Na ocasião, segundo uma nota divulgada pelo PT, a deputada teria rompido com a disciplina partidária, ao não consultar a legenda sobre o assunto, e ao desrespeitar a decisão do partido de fazer oposição a Itamar. Dessa maneira, em 1997 (mesmo após se candidatar pelo partido à prefeitura de São Paulo no ano anterior e ao Senado Federal em 1994), depois de 17 anos de militância, ela sairia do PT, posto que o episódio constituiu um desgaste progressivo seu com as demais lideranças da legenda. Em maio de 1993 deixou a Secretaria da Administração Federal principalmente devido a divergências com o Ministro da Casa Civil, Henrique Hargreaves, sendo substituida pelo general-de-brigada Romildo Canhim.
Saída do PT e entrada no PSB
Em 1998, Erundina transfere-se para o Partido Socialista Brasileiro (PSB); nesse ano, se elege deputada federal para a legislatura 1999-2003. No ano 2000, ela se candidata novamente à Prefeitura de São Paulo, mas perde a eleição para Marta Suplicy (PT). Em contrapartida, é reeleita deputada federal em 2002, para a legislatura 2003-2007, apoiando a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República.
Deputada federal
Em 1994 foi candidata ao Senado ficando em 3º lugar com mais de 4 milhões de votos, sendo derrotada por José Serra (PSDB) e Romeu Tuma (PL). Perdeu a eleição municipal de 1996 no segundo turno para Celso Pitta e, após uma série de desentendimentos com o partido, deixou o PT para filiar-se ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), representando por esse partido, a partir de 1999, o estado de São Paulo no Congresso Nacional em Brasília, como deputada federal.
Em 2002 e em 2006 foi novamente eleita para o posto. Nessas últimas eleições conseguiu obter expressiva votação, ficando entre os quinze parlamentares mais bem votados do estado. Em 2006, quando se reelege, faz oposição ao governo Lula.
Ainda em 2006, Erundina protestou contra o aumento de 91% nos salários dos parlamentares.
Em 2008 foi convidada para ser a vice na chapa encabeçada por Marta Suplicy à prefeitura de São Paulo, o que era de seu interesse, mas não de seu atual partido. O vice da campanha de Marta acabou sendo Aldo Rebelo do PC do B, apesar de o PSB ter decidido apoiar Marta.
Nas eleições de 2010, discorda do apoio de seu partido ao empresário Paulo Skaf para a disputa do governo de São Paulo e consegue, mais uma vez, se eleger para o Congresso Nacional, conquistando assim o quarto mandato seguido como deputada federal, sendo a décima mais votada do estado com 214.144 (1%), à frente de políticos como Arlindo Chinaglia, Márcio França, José Aníbal.
Candidatura a vice-prefeita de São Paulo
Luiza Erundina em anuncio para ocupar o cargo de vice-prefeita na campanha de Fernando Haddad para prefeito de São Paulo.
Em junho de 2012, tornou-se pré-candidata a vice-prefeita de São Paulo na chapa de Fernando Haddad (PT), composição muito celebrada pelo próprio PT por considerar que o nome de Luiza Erundina impulsionaria a campanha, já que Haddad, apesar de ter sido Ministro da Educação de Lula e Dilma Rousseff por mais de 6 anos, ainda era um nome pouco conhecido pela população como um todo. Entretanto, após a aliança do PT com Paulo Maluf e seu Partido Progressista também para a candidatura Haddad, firmada até mesmo com uma visita do ex-presidente Lula à residência de Maluf (em um ato político amplamente divulgado pela imprensa), Erundina anuncia seu declínio à candidatura. É substituída por Nádia Campeão, do Partido Comunista do Brasil. Contudo, Luiza Erundina continua a apoiar o nome de Fernando Haddad nas eleições, que se converteria no vencedor do pleito.
RAiZ - Movimento Cidadanista[editar | editar código-fonte]
Em 22 de janeiro de 2016,a deputada lança em Porto Alegre no Fórum Social Temático, um novo partido, o RAiZ - Movimento Cidadanista. O RAiZ tem com base os princípios do ecossocialismo, ubuntu e teko porã, e se inspira nas novas experiências dos círculos cidadanistas e de partidos-movimentos como o espanhol Podemos (Espanha).
Saída do PSB e entrada no PSOL[editar | editar código-fonte]
Em março de 2016, após 19 anos Erundina deixa o Partido Socialista Brasileiro (PSB), por esse apoiar o impeachment da presidente Dilma Roussef, e transfere-se, no período da janela partidária sem perda de mandato, ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) numa filiação transitória, até que a RAiZ - Movimento Cidadanista obtenha registro definitivo.
Candidata do PSOL, a deputada Luiza Erundina (PSOL-SP) concorreu à presidencia da Câmara dos deputados do Brasil, na votação de 13 de julho de 2016, em substituição a Eduardo Cunha, que havia renunciado uma semana antes por conta das denúncias que lhe eram feitas acerca do escândalo da Lava Jato. Erundina afirmou que a eleição da Câmara é uma oportunidade de “renovação” e afirmou que é chegado o momento de uma mulher assumir o comando da Casa. A deputada foi a 9ª a registrar candidatura à presidência da Câmara após a renúncia do deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) do cargo de presidente. Ela também prometeu “radical mudança”, se assumir o posto, e criticou o processo de impeachment da então presidenta Dilma Rousseff. Erundina criticou os retrocessos do Governo Temer e as manobras de Eduardo Cunha. Há apenas 2 projetos em disputa: "a manutenção de uma Câmara desmoralizada, manobrada pelo fantasma de Eduardo Cunha, e do outro lado aqueles que lutaram pelo afastamento de Cunha"; em seu discurso, ela ressaltou que é necessário uma nova Câmara a um novo tempo e defendeu a eleição de uma mulher ao cargo: “essa eleição é uma oportunidade para a Câmara pagar uma dívida histórica com as mulheres. Nenhuma mulher ocupou a presidência desta Casa, e poucas foram eleitas para cargos de titular da Mesa Diretora. Isso se deve à sub-representação feminina dos espaços de poder, inclusive do Parlamento”, disse. A candidata disse que é preciso discutir questões que são de “real interesse do País”, como a reforma política, a reforma tributária, a regulamentação dos dispositivos constitucionais sobre comunicação social, a reforma agrária e urbana. Quanto ao andamento dos trabalhos, prometeu fortalecer o trabalho das comissões e a participação do Colégio de Líderes. Para além dos 6 representantes de seu partido na Câmara, Erundina recebeu 22 votos nominais. Deputada há 5 mandatos, Erundina é suplente da atual Mesa Diretora. No momento em que Erundina fazia seu pronunciamento de candidatura, a hashtag #ErundinaEntraCunhaSai foi o assunto mais comentado do Twitter, mundialmente.
Candidatura à Prefeitura de São Paulo em 2016
Em outubro de 2016 foi candidata pela quinta vez à Prefeitura de São Paulo, desta vez pelo PSOL, tendo Ivan Valente como candidato a vice-prefeito. O PSOL quis evitar as primárias fazendo a decisão da escolha por um consenso. As movimentações pré-campanha ocorrem num contexto de crise política envolvendo um pedido de impeachment do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, do PT.
Em 24 de julho, o PSOL oficializou a candidatura de Luiza Erundina ao cargo de prefeita de São Paulo, com Ivan Valente como vice. Durante o evento, foi revelada a primeira aliança da chapa: o PCB formando a coligação "Os Sonhos Podem Governar". Em 30 de julho, houve o anúncio da segunda aliança: o PPL.
Com informações da Wikypedia
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terça-feira, 29 de novembro de 2016

ERA UMA VEZ TRÊS MINISTROS

Da Veja
A queda do ministro Geddel Vieira Lima foi a quinta de um titular da Esplanada de Michel Temer em seis meses de mandato — uma média de uma a cada quarenta dias.
Mas a demissão de Geddel, que usou todo o peso de seu cargo para tentar liberar a construção de um prédio no qual tinha comprado um apartamento, está longe de representar o fim dos problemas do governo.
 A delação da Odebrecht e denúncias de tráfico de influência prometem novas turbulências para o governo Temer, como mostra a reportagem de capa de VEJA desta semana.
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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O SANTO DA PROPINA

Da Folha de S.Paulo
O personagem tratado pelo codinome "santo" em planilhas da Odebrecht que listam pagamento de propina é o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP), segundo a revista "Veja" que circula a partir deste sábado (26). A publicação diz ter confirmado essa informação com três fontes que participam do acordo de delação da Odebrecht, considerado o mais explosivo da Lava Jato.
A Folha revelou em março que o apelido "santo" aparecia associado a uma obra do governo Alckmin de 2002, a duplicação da rodovia Mogi-Dutra. Papéis apreendidos com o executivo da empreiteira Benedito Barbosa da Silva Jr. traziam as seguintes anotações: "valor da obra = 68.730.000 (95% do preço DER)". Logo a seguir aparecia: "custos c/ santo = 3.436.500". A palavra "apóstolo", que havia sido escrita originalmente na página, foi rasurada e trocada por "santo".
O codinome "santo" também é citado em e-mail de 2004, enviado por um executivo da Odebrecht que gerenciou a construção da linha 4 - Amarela do Metrô, chamado Marcio Pelegrino. Ele diz na mensagem que era preciso fazer um repasse de R$ 500 mil para a campanha "com vistas a nossos interesses locais". O executivo diz que o beneficiário do suposto suborno era o "santo".
Nenhum dos delatores da Odebrecht contou ter discutido repasse de propina diretamente com o governador, ainda segundo a revista.
A assessoria de Alckmin diz à Folha que a obra foi feita por outra empreiteira, a Queiroz Galvão, e que os delatores isentam o governador. Ainda segundo a nota, "apenas os tesoureiros das campanhas, todos oficiais, foram autorizados pelo governador Geraldo Alckmin a arrecadar fundos".
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UM PARTIDO FEMINISTA

Do UOL
Ao centro, o então presidente da República, marechal Hermes da Fonseca, com integrantes do Partido Republicano Feminino no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.
Empunhando um estandarte e usando insígnias ou broches presos às roupas, um grupo de mulheres caminha em direção ao Palácio do Governo. Em seus vestidos longos, elas fazem passeata pelas ruas do Rio de Janeiro, a então capital federal do Brasil. A foto acima, do começo do século 20, foi publicada no semanário "Revista da Semana", que repercutia fatos políticos e variedades.
São todas alunas da Escola Orsina da Fonseca, comandada pela professora Leolinda de Figueiredo Daltro, e integrantes do partido político fundado por ela em 1910 -- o PRF, ou Partido Republicano Feminino.
Ativista e mãe de quatro filhos, Daltro queria igualdade de direitos jurídicos e políticos para as mulheres. Há 106 anos, foi considerada por muitos um disparate, mas chegou a receber apoio dos que já aceitavam que as brasileiras deveriam poder votar.
"Ela defendia a educação das moças para o trabalho, mas não para trabalhar lavando o chão, mas para ser datilógrafa, o que na época era ultramoderno", diz a historiadora Teresa Cristina de Novaes Marques, professora da UnB (Universidade de Brasília).
Pesquisadora da biografia política de brasileiras, a professora explica que o PRF, apesar de ter a fundação e o estatuto registrados no "Diário Oficial da União", não podia receber votos porque era formado exclusivamente por mulheres.
A agremiação era, na verdade, um antipartido, que funcionava como uma ousada entidade de direito civil.
"Tinha um caráter formal por uma brecha na lei", diz Marques. "Com isso, a Leolinda solicitava audiências, fazia passeatas com as alunas. Ela copiava o gestual das 'suffragettes' [sufragistas] inglesas. As integrantes levavam um broche, marcas distintivas, uma faixa. É a coisa da identidade, do pertencimento ao grupo, à causa, ela gostou disso."
Treinamento militar
A grande reivindicação do PRF era que as mulheres fossem consideradas cidadãs, nem que para isso fosse preciso pegar em armas. Como a lei, na época, determinava que somente um cidadão pleno podia votar, elas queriam o direito de ser tão cidadãs quanto os homens.
"Você ser alfabetizado, ter interesse pelas coisas públicas e ser cidadão nato, isso fazia de você um eleitor. O que impedia as professoras de votar então? Elas eram responsáveis, inclusive, por educar os meninos que seriam eleitores futuros. E usavam muito desse argumento: 'Como é que a gente pode ensinar os valores cívicos aos nossos alunos se nós próprias não podemos votar?'", afirma a historiadora.
Outra exigência para ser considerado um cidadão era defender a coletividade, ter condições de ir à luta armada. Para contornar mais este obstáculo, o PRF convocava suas integrantes para atividades ao ar livre, em áreas de grande circulação.
"Quando chega a Primeira Guerra Mundial, a dona Leolinda chama as alunas para fazerem treinamento militar em plena praça pública. A imprensa caía matando, os meninos ficavam pendurados nas árvores da praça da República, bem no centro do Rio, fazendo chacota, e as meninas lá no chão treinando esgrima, em 1917..."
Poesia erótica e divórcio
Leolinda Daltro era publicamente a favor do divórcio, algo assustador para a época, e ia até a imprensa para escancarar suas opiniões.
Não se sabe exatamente, pelos documentos que restaram, quantas mulheres foram filiadas ao PRF, mas se estima que eram poucas dezenas regulares. Como forma de chamar a atenção para as mudanças que queria provocar, o partido também organizava abaixo-assinados.
"A filha da Leolinda era secretária do partido, a outra filha era tesoureira, e havia uma figura muito interessante que participava das atividades, que se chamava Gilka Machado", conta a pesquisadora. "Em determinada época da vida, ela resolveu escrever poesias eróticas. Até hoje, nas antologias de literatura brasileira, a Gilka Machado é considerada uma mestra na poesia erótica. Dona Leolinda conseguia reunir mulheres interessantes."
Uma das últimas ações registradas da ativista à frente do partido ocorreu quase dez anos após a sua criação, quando ela se candidatou, em 1919, mesmo sem poder receber votos, ao cargo de intendente do Distrito Federal (como era chamado o Rio de Janeiro).
Daltro morreu em 1935, vítima de um atropelamento, com cerca de 65 anos de idade. Já não era assunto frequente nos jornais, e o protagonismo na militância acabou ficando com outro grupo de mulheres. Comandada por Bertha Lutz, a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino surgiu em 1918 e teve destaque na causa feminista até 1937.
Só em 1932 veio o direito ao voto, com o Código Eleitoral.
Estatuto do PRF
O Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, guarda os registros oficiais da fundação do Partido Republicano Feminino, e a professora Marques também localizou documentos no acervo da Câmara dos Deputados, em Brasília.
Algumas das demandas do PRF estão citadas no livro "Dicionário das Mulheres do Brasil: De 1500 até a Atualidade", cuja pesquisa foi realizada em parceria da historiadora com a economista e também professora Hildete Pereira de Melo. Leia três exemplos abaixo:
Pugnar pela emancipação da mulher brasileira, despertando-lhe o sentimento de independência e de solidariedade patriótica, exalçando-a pela coragem, pelo talento e pelo trabalho, diante da civilização e do progresso do século;
Pugnar para que sejam consideradas extensivas à mulher as disposições constitucionais da República dos Estados Unidos do Brasil, desse modo incorporando-a na sociedade brasileira;
Combater, pela tribuna e pela imprensa, a bem do saneamento social procurando, no Brasil, extinguir toda e qualquer exploração relativa ao sexo.
Mais de um século depois da fundação desse partido, a historiadora opina que ainda é preciso "manter e ampliar o sistema de apoio à violência doméstica, conquistar direitos reprodutivos, participar da política e ocupar postos importantes".
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CAIU FORA

Acusado de ter pressionado o então ministro da Cultura para liberar a obra de um prédio onde comprou um apartamento, em Salvador, o ministro Geddel Vieira Lima (Secretaria do Governo) pediu demissão do cargo nesta sexta-feira (25). O pedido foi enviado por e-mail ao presidente Michel Temer. Geddel, que está na Bahia, é o sexto ministro a cair por conflitos éticos.
A exoneração, "a pedido", de Geddel foi publicada em uma edição extra do Diário Oficial da União na tarde de hoje. Até que o substituto dele seja escolhido, a pasta ficará sob o comando da secretária executiva Ivani dos Santos, que é servidora da Câmara e foi durante muito tempo chefe de gabinete da liderança do PMDB.
A demissão chega um dia após ser tornado público o depoimento do ex-ministro da Cultura Marcelo Calero à Polícia Federal em que ele acusa Temer e o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) de também o terem pressionado para interceder em favor da obra ligada a Geddel. As conversas foram gravadas por Calero, que negou que tenha pedido audiência com Temer apenas com essa intenção.
Em sua carta de demissão, Geddel afirma que tomou a decisão "diante da dimensão das interpretações dadas" ao episódio e do "sofrimento dos meus familiares", com a repercussão do caso.
O ministro diz ainda que sua decisão foi objeto de "profunda reflexão" e que continua como um "ardoroso torcedor" do governo Temer.
Segundo o jornal "Folha de S. Paulo", Temer decidiu deixar para a semana que vem o anúncio do substituto de Geddel. A pasta é responsável pela articulação política junto ao Congresso Nacional.
A crise no núcleo do governo Temer teve início com entrevista de Calero ao jornal "Folha de S.Paulo" na qual o ex-ministro revelou que um dos motivos de ter pedido demissão havia sido a pressão exercida por Geddel para que o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) autorizasse a obra de um prédio de 30 andares numa região histórica de Salvador, nas imediações de monumentos tombados.
O Iphan, órgão subordinado ao Ministério da Cultura, havia embargado a obra e exigido que a construção tivesse somente 13 andares.
Investigações do caso
Ao deixar o cargo, Geddel perde o direito ao foro privilegiado, que faz com que ministros de Estados só possam ser julgados criminalmente pelo STF (Supremo Tribunal Federal).
A Polícia Federal remeteu o depoimento de Calero ao STF. A Procuradoria-Geral da República estudava abrir um inquérito contra Geddel para investigar a suposta pressão sobre o Iphan.
A Comissão de Ética da Presidência da República também abriu uma investigação sobre o caso. O presidente da comissão, Mauro Menezes, afirmou hoje que o processo contra Geddel continua a tramitar mesmo após o pedido de demissão, pois ex-autoridades também podem ser punidas com a pena de censura.
Geddel e Temer negam pressão
Geddel confirmou ter conversado com Calero sobre o prédio em construção, mas negou ter exercido pressão para que o Iphan liberasse a obra.
Em nota, Temer confirmou ter tratado por duas vezes com Calero sobre a divergência com Geddel, mas negou ter pressionado o então ministro da Cultura a modificar decisão do Iphan.
O presidente disse que sugeriu ao ministro que o tema fosse submetido à avaliação jurídica da AGU (Advocacia-Geral da União), pois o órgão federal teria "competência legal para solucionar eventuais dúvidas entre órgãos da administração pública".
Também por meio de nota, Padilha afirmou que procurou Calero para "sugerir" que fosse buscada uma solução jurídica para o embargo do prédio pelo Iphan junto à AGU.
Padilha cita que a AGU tem o poder de resolver impasses jurídicos entre órgãos da administração federal. No caso do prédio na Bahia, departamento nacional do Iphan decidiu embargar a obra depois de a construção ter sido autorizada por um parecer da superintendência baiana do Iphan.
Do Estadão Conteúdo, via UOL
Leia a íntegra da carta de demissão de Geddel:
"Meu fraterno amigo presidente Michel Temer,
Avolumaram-se as críticas sobre mim. Em Salvador, vejo o sofrimento dos meus familiares. Quem me conhece sabe ser esse o limite da dor que suporto. É hora de sair.
Diante da dimensão das interpretações dadas, peço desculpas aos que estão sendo por elas alcançados, mas o Brasil é maior do que tudo isso.
Fiz minha mais profunda reflexão e fruto dela apresento aqui este meu pedido de exoneração do honroso cargo que com dedicação venho exercendo.
Retornando à Bahia, sigo como ardoroso torcedor do nosso governo, capitaneado por um presidente sério, ético e afável no trato com todos, rogando que, sob seus contínuos esforços, tenhamos a cada dia um país melhor.
Aos congressistas, o meu sincero agradecimento pelo apoio e colaboração que deram na aprovação de importantes medidas para o Brasil.
Um forte abraço, meu querido amigo.
Geddel Vieira Lima"
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CONDUÇÃO COERCITIVA

Do G1, TO
O governador do Tocantins Marcelo Miranda (PMDB), o ex-governador do estado Siqueira Campos e o secretário de infraestrutura Sérgio Leão são alvos de uma operação da Polícia Federal contra corrupção e lavagem de dinheiro no estado. O governador e o ex-governador Siqueira Campos foram conduzidos coercitivamente para prestar depoimento. Leão foi preso temporariamente e está na sede da PF em Palmas.
A operação, chamada Reis do Gado, foi deflagrada nesta segunda-feira (28), também cumpre mandados no DF, GO, PA e SP. O suposto esquema de fraudes em licitações públicas envolvia empresas de familiares e pessoas de confiança do governador e aconteceu entre 2005 e 2012, segundo a PF. Até o momento, foram identificados que R$ 200 milhões foram efetivamente lavados.
A Secretaria de Comunicação do Estado disse que  o governador Marcelo Miranda determinou livre acesso às dependências da sua casa e do Palácio Araguaia. "Até o momento, tanto a Procuradoria Geral do Estado (PGE), quanto o escritório de advocacia, que representa Marcelo Miranda, não tiveram acesso à decisão da Justiça", diz nota enviada.
A assessoria de comunicação de Siqueira disse que ele prestou depoimento nesse processo, no entanto, foi como testemunha e não como investigado. "O ex-governador Siqueira Campos não é investigado na operação Reis do Gado e reitera prosseguir à disposição da Justiça e da Polícia Federal para prestar qualquer esclarecimento sempre que for solicitado."
O G1 ainda tenta contato com secretário de infraestrutura.
Operação
Nesta manhã, policiais foram até a casa do governador Marcelo Miranda na quadra 404 Sul para cumprir o mandado de condução coercitiva, que é quando a pessoa é levada para depor. No entanto, ele não estava na residência. Um chaveiro foi chamado para abrir a porta. No local, a polícia faz buscas por documentos.
O governador estava em viagem para Araguaína e está sendo conduzido coercitivamente para a sede da Polícia Federal, em Palmas. A polícia também cumpre mandados na casa do pai e de irmãos de Miranda.
O secretário de infraestrutura, Sérgio Leão, contra quem há um mandado de prisão temporária, foi levado para sede da PF.
O ex-governador Siqueira Campos é alvo de um mandado de condução coercitiva e está na sede da PF. A assessoria de comunicação de Siqueira disse que ele está prestando um depoimento como testemunha em um outro processo.
Ao todo estão sendo cumpridos 108 mandados em Palmas e outras cidades.
São oito mandados de prisão temporária, 24 de condução coercitiva e 76 de busca e apreensão nas cidades de Palmas e Araguaína (TO), Goiânia (GO), Brasília (DF), Caraguatatuba (SP), e nos municípios de Canãa dos Carajás, Redenção, Santa Maria, São Felix do Xingu, no Pará. Segundo a PF, os mandados foram expedidos pelo STJ.
Seis dos oito mandados de prisão temporária já foram cumpridos. A PF não divulgou os nomes de todos os presos, mas confirmou que o irmão do governador, José Edimar de Brito Miranda Júnior, está entre os detidos.
Esquema
A PF informou que a investigação apontou um esquema de fraudes em contratos de licitações públicas com empresas de parentes e pessoas de confiança do governador. A ocultação do dinheiro desviado seria feita por meio de transações imobiliárias fraudulentas, contratos de gaveta e manobras fiscais ilegais, como a compra de fazenda e de gado. A polícia informou ainda que parte do valor foi destinado a formação de caixa dois para campanhas realizadas no estado.
Algumas transações financeiras chamou a atenção dos investigadores. A polícia informou que em um dos casos foi identificada um contrato de compra de gado cujo volume não caberia na propriedade onde deveria estar o rebanho. Essa técnica foi apelidada pelos investigadores como “Gados de Papel”.
Segundo a polícia, em outro caso, "um contrato de prestação de serviços entre o governo e uma empresa de transportes aéreos alcançou valores tão exorbitantes que, sendo dimensionadas em horas de voo, obrigariam os aviões a serem abastecidos no ar para que se pudesse suprir o valor integral do contrato".
Os suspeitos devem responder pelos crimes de lavagem de dinheiro, peculato, corrupção passiva e fraudes à licitação.
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POLÍTICA, CORRUPÇÃO E MORTE NO CORAÇÃO DO PT

O livro que revela detalhes sobre o assassinato de Celso Daniel.
Mito político-policial. Tabu entre as forças de investigação. Pauta jamais superada na imprensa. Permanente perturbação na cabeça de homens poderosos, de partido poderoso. Este mistério perfeito e digno da melhor literatura de suspense é, no entanto, uma trama real.
Nenhum crime brasileiro recente mobilizou mais o imaginário popular que o assassinato de Celso Daniel, prefeito petista da cidade de Santo André, em janeiro 2002 - mesmo ano em que Luiz Inácio Lula da Silva seria eleito presidente da República.
Quase quinze anos depois, Silvio Navarro reconstrói, em detalhes, a sofisticada máquina de desvio de recursos públicos e expõe as bases operacionais do que seriam, em escala nacional, mensalão e petróleo. Resultado de uma apuração de fôlego, Celso Daniel é uma reportagem em ritmo de thriller.
Um estandarte a mostrar a força do jornalismo que reúne fatos novos e esclarecedores para que encontremos a leitura, o caminho, a verdade.
Sinopse do livro de Silvio Navarro, via biblioteca da Folha de S.Paulo
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INSPIRADO EM OBAMA

Com uma bancada de 13 deputados federais, o PTN (Partido Trabalhista Nacional) mudará o nome para "Podemos" em dezembro.
A alteração foi amparada em estudos de consultorias e pesquisas que apontam para desgaste dos atuais partidos.
Apesar de ter o mesmo nome do Podemos, partido espanhol surgido em 2014 a partir de manifestações de rua, a novo PTN não terá nenhuma ligação com a legenda liderada pelo cientista político Pablo Iglesias.
O Podemos espanhol, com uma agenda de esquerda, tem a democracia direta como uma das suas bandeiras.
Presidente nacional do PTN, a deputada Renata Abreu (SP) afirma que o nome igual ao do partido espanhol é "apenas uma coincidência" e diz que se inspirou no slogan da campanha de Barack Obama em 2008, "yes, we can" (sim, podemos).
O Podemos não terá uma linha ideológica definida. Segundo Abreu, não será "nem de esquerda, nem de direita".
"Esta divisão está superada. As pessoas se movem em torno de causas, que mudam de tempos em tempos, e não em torno de uma ideologia estagnada", diz.
Já o deputado federal Bacelar, do PTN da Bahia, classifica a atual bancada do partido como de centro-direita, com deputados de perfil conservador. Mas diz que haverá espaço para parlamentares "mais à esquerda".
Com 300 mil filiados, o PTN foi o partido que teve o maior crescimento proporcional no número de prefeituras este ano, avanço de 158%. Elegeu 12 prefeitos nas eleições 2012 e, a partir do próximo ano, terá 31, incluindo cidades como Osasco (SP).
Fundado em 1945 a partir de uma dissidência do PTB, o PTN é um dos partidos mais antigos do país. Em 1960, elegeu o presidente da República Jânio Quadros. Foi extinto pela ditadura em 1965 e refundado em 1995.
Chegou a ter o então prefeito de São Paulo Celso Pitta. Desde a refundação, o partido é controlado pela família Abreu. Além de Renata, presidiram-no seu pai, José Masci de Abreu, e seu tio, Dorival de Abreu.
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domingo, 27 de novembro de 2016

QUE PAÍS É ESSE ?

Artigo de Fernando Gabeira
Gostaria de ter ido a Salvador para conhecer e mostrar a Igreja de Santo Antônio da Barra, o Forte de São Diogo e o Cemitério dos Ingleses. Na igreja, você assiste à missa e contempla a Baía de Todos os Santos. O Forte de São Diogo foi erguido para defender o flanco sul da cidade, no tempo em que Salvador era a capital do Brasil.
Só que os inimigos não chegaram pelo mar. Vieram de dentro de Salvador, capitaneados por Geddel Vieira Lima. Construiriam um prédio de 30 andares, que, segundo o Iphan, arquitetos e moradores, arruinaria a paisagem.
Felizmente, a paisagem foi salva. Geddel tentou pressionar o ministro da Cultura, mas acabou perdendo a batalha. Quase continuou no cargo. O governo Temer é feito de cumplicidades pretéritas com o objetivo de escapar da Lava-Jato. Ao tentar manter Geddel no cargo, Temer queria impedir que ele caísse nas mãos de Sérgio Moro. Ele é investigado pela Lava-Jato. O apartamento de Geddel no prédio La Vue custou R$ 2,5 milhões. Ou comprou ou ganhou. Em ambas as hipóteses, aumentaria a suspeição da Lava-Jato.
Lembro-me de Geddel ainda na década dos 1990. Antônio Carlos Magalhães divulgou um dossiê intitulado “Geddel vai às compras”. Os líderes políticos que, inutilmente, lhe deram apoio para evitar sua queda são uma espécie de Bessias, aquele mensageiro cuja missão era evitar que Lula caísse nas mãos de Moro. Não adiantaria muito tentar salvar Geddel, esconder-se nas barras das togas dos ministros do Supremo. A grande delação da Odebrecht vai colocar todo o mundo político na roda.
Existem fortes manobras para decretar uma autoanistia. Essas manobras são conduzidas por Renan Calheiros e Rodrigo Maia, mas têm o apoio de Temer. Eles acreditam que podem deter a Operação Lava-Jato através de um golpe parlamentar. Na verdade, podem aumentar a irritação popular com eles e transformar a delação da Odebrecht num genocídio da espécie.
Temer e a cúpula do PMDB, embora estejam trabalhando para estabilizar a economia, confirmam as piores suspeitas. Seu grande objetivo é desmontar a Lava-Jato. Considerei o impeachment um momento importante para atenuar a crise brasileira. Achei que era preciso dar um crédito inicial de confiança para que o desastre econômico fosse reparado. Pouco se avançou nesse campo. Mas eles andam rápido no projeto de autoblindagem.
O que não faz o medo? Se Temer, Moreira, Geddel e Padilha, o quarteto do Palácio, partem para essa luta com Renan Calheiros e Rodrigo Maia, o jovem ancião da política brasileira, eles abrem uma nova frente. Quais são seus motivos? Geddel, por exemplo, já aparece em algumas delações premiadas. Seu enriquecimento é visível. Moreira Franco, também citado cobrando propinas em obras de aeroporto, e Padilha, como Geddel, são velhos sobreviventes. ACM o chamava de Eliseu Quadrilha. O próprio Temer tem dois apelidos na delação da Odebrecht.
No momento em que abrem o jogo, não deixam outro caminho a não ser o de uma oposição implacável. Contam com um grande número de deputados e senadores, mas esses estão apenas cavando mais profundamente sua sepultura. Comandados por Renan Calheiros e o quarteto do Palácio, os políticos brasileiros temem encarar a sua batalha decisiva. Ou liberam a corrupção que sempre os alimentou ou vão para o inferno.
Na biografia de Renato Russo, há menções a Geddel Vieira Lima, que frequentava a mesma escola do cantor. Geddel chegava sempre num carro verde e dizia que seu sonho era ser político. Renato Russo o achava insuportável. O que diria hoje diante da bela paisagem que Geddel ameaçava em Salvador?
Não pude ir à Bahia porque a crise no Rio me levou aos presídios de Bangu. Agora que um ex-governador está lá dentro, vale a pena conhecer o que é aquilo. Passei uma noite em claro para documentar o esforço das famílias em visitar os presos. Existe uma visão geral de que as famílias também são culpadas e devem pagar um pouco pelos crimes de seus filhos, pais e maridos. É um equivoco. Com a prisão de Cabral, o sistema penitenciário tem dois caminhos: ou cria um regime de exceção para ele e sua família ou racionaliza a visita de todos os 26 mil presos no complexo. Parece mais fácil criar um regime de exceção. Mas com um bom aplicativo, o que leva horas de espera, pegar uma senha, poderia ser feito pelo telefone. Pelo menos, os problemas com Cabral em Bangu são mais fáceis de equacionar do que os da cúpula do PMDB.
Presos, ainda dão trabalho. Muito menos, no entanto, do que a Renan Calheiros e ao núcleo do Planalto, que mantêm o poder em Brasilia e trabalham, intensamente, numa blindagem de aço especial que consiga, simultaneamente, anular a Lava-Jato com suas evidências e a opinião pública com sua justificada fúria.
Que país é esse? Renato Russo dizia na letra da canção: “na morte eu descanso/ mas o sangue anda solto/ manchando papéis e documentos fiéis”. Como Cabral, Geddel foi às compras. Roubar uma paisagem de nada adianta, porque, na cadeia, o que se vê é o sol nascer quadrado.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 27/11/2016
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A DITADURA DA AGENDA

“Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade.” A frase de George Orwell parece não envelhecer nunca e deveria se tornar um mantra para os jornalistas culturais brasileiros. A escravidão da agenda cultural tomou conta de todos os grandes veículos de imprensa. Basta fazer uma ronda para se constatar não só matérias culturais muito semelhantes, como quase todas pautadas por algum press-release recebido das centenas de assessorias de imprensa existentes.
Tome-se como exemplo um jornal, uma revista e um grande portal visitados no mesmo dia. Na Folha, por exemplo, o destaque é um filme da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, seguido por uma resenha sobre uma peça inspirada em Tchékhov, duas críticas de outros filmes da Mostra, a coluna social e algumas notas de agenda. Nenhuma reportagem. Na Veja, três páginas para a nova temporada de Black Mirror, uma crítica para Nada Será como Antes (TV Globo), uma crítica para o novo filme de Ben Affleck e outro hollywoodiano de menor peso e a biografia de Rogéria. Nenhuma reportagem. No G1, os destaques eram os ingressos à venda do Rock in Rio, o novo membro da Academia Brasileira de Letras, a nova séria da Disney e o novo show do The Kooks. Nenhuma reportagem.
Lembro-me do colega Fabio Cypriano me dizer como foi criticado pela curadoria da 28ª Bienal de São Paulo por ter focado sua cobertura nos bastidores do evento, que à época eram mais notícia do que as obras. “O trabalho da Folha não foi por desmerecer o trabalho da curadoria, mas para exercer jornalismo. Se funcionários e artista não são pagos, isso é um fato jornalístico. A Fundação Bienal de São Paulo é uma instituição pública e muitos dos escândalos que envolveram são só conhecidos porque o jornalismo foi de fato exercido”, disse-me Cypriano.
A tecnologia atual oferece uma facilidade imensa de acesso a obras de arte do mundo inteiro, trechos de filmes do outro lado do planeta, histórico teatral do dramaturgo em cartaz ou todas as músicas do cantor que agora lança o novo disco. No entanto, uma parte dos novos jornalistas culturais acha que isso é o suficiente para exercer jornalismo cultural, acomodando-se dentro da redação, debaixo do ar condicionado, à mercê das centenas de sugestões de pautas recebidas por e-mail.
Coberturas fora da agenda das assessorias
Que fundamental seria lermos semanalmente assuntos que “alguém não quer que se publique”. Uma reportagem de fôlego sobre a produção de filmes e séries brasileiras para o Netflix e seu necessário processo de regulamentação, como ocorreu com a TV paga. Uma reportagem sobre a situação das casas de teatro fora das capitais e seus meios de subsistência. Uma reportagem sobre os novos artistas plásticos brasileiros e as estratégias dos marchands para internacionalizá-los. Uma reportagem sobre a necessidade de agenda cheia de shows após o fim da era dos CD’s. Uma reportagem sobre quanto se paga para seu livro ter o espaço nobre de uma livraria de shopping center. Enfim, apenas alguns exemplos de assuntos que fogem da agenda, que certamente incomodariam alguns agentes culturais ou assessorias, mas que, certamente, seriam um serviço jornalístico de maior qualidade para o leitor, sem falar na reflexão cultural que os mesmos proporcionam.
O problema é que reportagem custa caro. Exige carro, viagens (que não sejam jabás), tempo de execução etc. E com a crise financeira do jornalismo tradicional e a pressa de leitura do jornalismo online, fica mais cômodo ficar na agenda cultural recebida no conforto do e-mail. Pois ele também é serviço, e pode ser feito dignamente, mas que não seja a totalidade do jornalismo cultural disponível.
É preciso, portanto, termos leitores culturais mais exigentes. Por que os leitores esperam uma investigação jornalística de peso sobre o novo alvo da Lava Jato, ou detalhes aprofundados sobre o novo pacote de estímulos econômicos e se contenta com tão pouco quando o assunto é jornalismo cultural? Não percebem que estão consumindo jornalismo político, jornalismo econômico, mas, em vez de jornalismo cultural, consomem publicidade em forma de jornalismo de serviço?
Subir o nível das reflexões culturais nas páginas de jornais e revistas, bem como nos grandes portais, é tirar a cultura do mero utensílio de consumo para um agente intelectual transformador do dia a dia, elevando também, pouco a pouco, nossas exigências de consumo de arte e entretenimento. É preciso publicar o que não querem que publiquemos.
Franthiesco Ballerini é jornalista, autor dos livros ‘Diário de Bollywood’, ‘Cinema Brasileiro no Século 21’ e ‘Jornalismo Cultural no Século 21’.
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EXPEDIÇÕES EXPLORADORAS

Chico Alencar, Blog do Noblat
Operação Calicute: o nome da ação judicial-policial que levou o ex-governador Sérgio Cabral à cadeia estimulou o velho professor de História aqui. Lembrei da expansão marítima europeia nos séculos XV e XVI, que deu origem à sociedade de nativos surpresos e desterrados amedrontados – quase todos acorrentados - que hoje chamamos de Brasil.
As expedições ibéricas eram, quase sempre, empreendimentos público-privados, parceria dos estados absolutistas de então com os grandes mercadores. O ideal cruzadista, “dilatando a fé e o Império” (Camões), trazia a inspiração religiosa para as duas epopeias. Essa época de acumulação primitiva do capital era de ousadia, violência e brutalidade. De “heróis” violentos e milhares de vítimas. Tudo em nome de Deus... e da riqueza.
A conquista do poder político no Brasil republicano do século XXI não difere muito das expedições exploradoras - e não apenas por ter um Cabral no meio. É que, na democracia formal de eleições bienais e banais que temos, o esquema se assemelha: para a vitória, parceria público-privada; para convencer a “plebe ignara”, a imposição da fé (hoje pela espada sutil da demagogia, dos “chequinhos” e do populismo); para a glória dos conquistadores e a perpetuação no trono, o enriquecimento ilícito, o saque, o butim. Humilhados, espoliados e ofendidos continuam sendo “os de baixo”, os pobres, a massa de manobra e mão de obra. Nosso povo afrotupi, eurojudárabe. Brava e enganada gente brasileira!
Compreensível que a sede de vingança provoque regozijo e troça com os ex-todo-poderosos em situação vexatória e indesejável: ao invés da coluna social, a ficha como presidiário. Excessos de um momento agudo, em que caem “reis” de ouro, de espada, de copas superfaturadas, todos caras de pau. Outros, de alta plumagem, ainda virão. A tripulação da esquadra dos corruptos é grande.
Cabral Filho, com todo respeito pela dor de seus pais e filhos, simboliza o paradoxo do Rio de Janeiro. Chegou uma expedição que só deixou ruína e falência, exceto para os que estavam na cabine de comando. Alguns ainda estão, tentando impor saídas para o naufrágio. Deviam renunciar, envergonhados.
O Cabral de 1500 aportou na Bahia. Levou índios ao convés da Nau Capitânia para “ponderar” sobre a existência de ouro na terra nova. Lá ele também tem seus continuadores. O caso patético mais recente está sendo protagonizado por Geddel Vieira Lima, homem forte do governo Temer, que usa o cargo de Ministro da Secretaria de Governo para liberar a construção de andares interditados pelo Patrimônio Histórico. Com o que diz serem “ponderações” - tráfico de influência, indução à corrupção, abuso de poder,  Geddel revela bem a “cultura” do PMDB. Ainda bem que Marcelo Calero desceu para o escaler da vida comum e abandonou esse barco de réus, investigados, fisiológicos e privatistas. O porto nada seguro das “caras velhas” insensatas deve ser a cadeia.
Chico Alencar, é professor de História (UFRJ), escritor e deputado federal (PSOL/RJ).
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ROMANCE E REALIDADE

Artigo de Fernando Gabeira
A realidade e os românticos de Cuba 'libre'
A revolução cubana, Fidel Castro, Ernesto Che Guevara e Sierra Maestra sempre incendiaram o romantismo revolucionário no Brasil. O auge dessa paixão foi a tentativa de reproduzir a experiência cubana aqui. Ela nos chegou no livro de Regis Debray “Revolução na revolução’’. A experiência foi um fracasso, mas não se pode atribui-lo apenas às teses de Debray.
Muitos grupos revolucionários brasileiros passaram por Cuba, tentando aprender in loco os segredos daquele êxito. O romantismo revolucionário continuou sendo a lente preferencial para o enfoque da experiência cubana. O próprio Sartre olhou por essa lente em “Furacão sobre Cuba’’.
Os intelectuais europeus já tinham vivido experiência semelhante ao mitificar Stalin e demorar a reconhecer seus crimes. Talvez por isso, o romantismo revolucionário lá tenha sido mais brando. No Brasil, nos privou de ver em detalhes o que se passava em Cuba. “Antes que anoiteça’’, do poeta Reinaldo Arenas, nos deu uma ideia de como uma geração de intelectuais foi destruída pela repressão.
O papel histórico de Fidel era mais amplo do que o julgamento de intelectuais. A Revolução Cubana equacionou os problemas de saúde e educação de uma forma que impressionava os visitantes. Além disso, com sua resiliência à pressão americana, sobrevivente de centenas de tentativas de assassinato, vitorioso ao repelir a invasão da Baía dos Porcos, Fidel tornou-se um ator planetário ao trazer a Guerra Fria para poucas milhas dos Estados Unidos.
E disso me lembro também: a Crise dos Mísseis de 1962. Ali estava em jogo a História da Humanidade, uma possível terceira guerra mundial. A crise num pequeno país do Caribe poderia mandar para o espaço todo o planeta — momento em que o mundo esteva fixado em Cuba. Rússia e os EUA resolveram, mas a ilha foi o cenário de um quase apocalipse.
Fidel era um excelente orador. Falava horas e ouvi alguns dos seus discursos. No fundo da plateia, as pessoas dançavam e cantavam. Ele apresentava a conjuntura internacional, descrevia o estado do país, definia as tarefas prioritárias, combatia os Estados Unidos, fazia uma digressão histórica, enfim, dizia o que realizar e como resistir.
Tantas mortes, tanto exílio, tanta tortura, os fuzilamentos inaugurais da revolução, tudo isso valeu a pena? Olhando para o lado, para a Costa Rica, os românticos teriam um tema para refletir.
Artigo publicado no Jornal O Globo em 27/11/2016
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sábado, 26 de novembro de 2016

COM O PÉ NA PORTA

Tânia Fusco, Blog do Noblat
Desde que o Brasil é Brasil, nas periferias mais pobres e nas comunidades que, no século passado, eram chamadas de favelas, a polícia entra com o pé na porta, sem mandado. Prende primeiro e, na de porrada, prova (?) depois. Ou mata primeiro e pergunta depois.
Essa violência – sabida, fotografada, filmada e descrita – tem apoio, se não explícito, mas no silêncio, de grande parte população. A turma do “bandido bom é bandido morto” acha que, por lá, a polícia faz o que deve ser feito. Se não era bandido, convivia com a bandidagem. Crime inafiançável, sujeito a pena de morte, no entender desses.
Nos dias de hoje, o pé na porta chegou ao andar de cima da hierarquia social. Não vem fardado de PM, mas com os emblemáticos coletes pretos à prova de balas da PF. Não mete o pé (ainda). Nem chega na tal calada da noite habitual da PM. Vem cedinho, toca a campainha e, se não prontamente atendida, pula portão, entra pela janela. Porta mandados judiciais, leva sem porrada, mas não dispensa o estardalhaço.  Chega chegando e com muitos - policiais, viaturas e imprensa.
Com japonês de tornozeleira (por estripulias anteriores) ou hyspiter, o pé na porta, mais suave, da PF tem aprovação nada silenciosa e, se não majoritária, quase. Afinal, pega, leva e prende gente de uma das nobrezas brasileiras – news e olds lordes da classe política, hoje posta na categoria de demônio nacional.
Para eles, como para os vizinhos da bandidagem, vale o vale tudo em favor da purificação do Brasil. E tá lascado quem ousa dizer: não é bem assim, não pode ser assim. Lei tem que ser respeitada até para casos dos que concentram o ódio do momento. O tal, da vez, que encarna o criminoso chefe de feitos de alguma outra vez.
Tema esse “peraí”. Veja bem como fala, onde fala, com quem fala porque pode render execração pública. Denota rabo preso, petezice aguda, indignidade de quem ta defendendo o seu, foi - e é - conivente com toda essa lambança. Seguro, deve ser um desses parceiros dos corruptos desgraçados, que mais dia, menos dia terá – bem feito! e se Deus quiser! – a PF na sua porta, o xadrez como paisagem. De preferência, sem nem precisar de mandado e em cadeia nacional. É pé na porta mesmo!
Como tenho menos de 100 anos, é a primeira fez que sinto, vejo, ouço e leio o ódio nacional assim ululante e pululante, em turbas reais e virtuais, de punhos fechados, dentes cerrados, olhos injetados, bocas cuspindo fogo, a pedir e permitir tudo – e sem qualquer limite, particularmente os legais - contra os seus odiados.
Debaixo da minha insignificância e munida da minha assim não tão vasta leitura, temo o destemor desse ódio. “Médo” com os climas de Roma incendiada, de fogueiras para queimar bruxas, da guilhotinagem ampla, geral e irrestrita do período de terror da Revolução Francesa, de Hitler a caçar e assar judeus, ciganos e gays, de Stalin a prender e matar contrários – verdadeiros ou supostos. Sem tribunais. Ou com tribunais servis e obedientes.
Todos com apoio, aplausos - e até delírios – populares e a conivência do que hoje seria denominado meios de comunicação que, panfletários, ajudavam a incendiar as massas.
Com poucos onde ainda é possível, sem suspeição ou ameaça de linchamento, manifestar absoluta perplexidade com, por exemplo, chantagens explícitas de um Poder sobre o outro – até com forças-tarefas especialmente nomeadas para a pressão –, além do tradicional a que ponto chegamos, ousamos ainda indagar:como e onde geramos essa sociedade espetaculosa e odienta no vice e no versa?
Qual das nossas nobrezas, saberá puxar a turba para vencer o embate e exercer o comando? (Desde Cabral, uma das nossas nobrezas costuma comer e outra e por aqui ficar até virar rango de novo). Onde isso – de agora - vai parar?
PS 1:Como não se solidarizar com as famílias dos quatro PMs mortos na queda do helicóptero, durante ataque à Cidade de Deus, no Rio? Por que não se solidarizar também com as famílias dos (mais) sete jovens daquela comunidade executados, no mesmo evento?
PS 2: Aos parceiros na perplexidade e no medo com o volume e a qualidade dos acontecimentos deste 2016, recomendo a leitura dos editoriais de ontem, segunda, 21 de novembro, de O Globo e do Valor – “Supersalários” e “Momento exige humildade e serenidade dos Poderes”. Quem sabe nem tudo está assim tão perdido. Quem sabe cai a ficha.
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MORRE FIDEL CASTRO

Do UOL

O ex-presidente de Cuba Fidel Castro morreu aos 90 anos de idade, informou neste sábado (26) seu irmão, o atual mandatário do país, Raúl Castro, em um discurso transmitido pela televisão estatal.
O líder histórico da Revolução Cubana faleceu na noite de sexta-feira (25), às 22h29 (hora local), e seu corpo será cremado "atendendo sua vontade expressa", explicou Raúl Castro, visivelmente emocionado.
O presidente cubano afirmou que, nas próximas horas, será anunciado como acontecerá o funeral de Fidel Castro, que foi visto pela última vez no último dia 15, quando recebeu em sua residência o presidente do Vietnã, Tran Dai Quang.
90 anos de trajetória
Ao longo de seus 90 anos, Fidel Castro se transformou em indiscutível e controverso protagonista do último século. Em 2011, o líder da Revolução Cubana admitiu que nunca pensou que viveria "tantos anos" e em abril deste ano pareceu se despedir: "Em breve serei como todos os outros. A vez chega para todos".
Fidel tinha 32 anos quando entrou triunfante em Havana. Era 1959, usava barba e uniforme e vinha da derrota de um exército de 80.000 homens contra uma guerrilha que em seu pior momento contou com 12 homens e sete fuzis. Sem passado militar, Fidel Castro expulsou do poder o general e ditador Fulgêncio Batista, na luta que começou com o fracasso da tomada do quartel Moncada, em 1953.
Fidel aplicou uma "doutrina militar própria" e conseguiu "transformar uma guerrilha em um poder paralelo, formado por guerrilheiros, organizações clandestinas e populares", disse Alí Rodríguez, ex-guerrilheiro e atual embaixador venezuelano em Cuba.
O líder cubano derrotou conspirações apoiadas pelos EUA e enviou 386.000 concidadãos para lutar em Angola, Etiópia, Congo, Argélia e Síria. Ao longo de 40 anos (1958-2000) escapou de 634 tentativas de assassinato, escreveu Fabián Escalante, ex-chefe de inteligência cubano, segundo o veículo de informação alternativa Cubadebate.
Ao jornalista Ignacio Ramonet, Fidel confessou que quase sempre carregava uma pistola Browning de 15 tiros. "Oxalá todos morrêssemos de morte natural, não queremos que se adiante nem um segundo a hora da morte", declarou em 1991.
'Efeito Fidel'
"Fiquei tão impressionada! Não pude fazer mais que olhar no rosto dele e dizer: te amo". Mercedes González, uma cubana de 59 anos, só viu de perto por duas vezes o líder cubano, mas não resistiu ao "efeito" Fidel.
Seja pelo aspecto rude de guerrilheiro ou seus discursos quilométricos - a maioria espontâneos porque ele gostava do "nascimento das ideias", segundo Salomón Susi, autor do Dicionário de Pensamentos de Fidel Castro -, Fidel fascinava também as massas, as mulheres, os políticos e os artistas.
"Ele projeta uma imagem pública muito atraente", um dom que também "faz parte de sua lenda", diz Susi. Já longe do poder, Fidel publicou reflexões sobre diversos temas. Apesar disso, o grande sedutor mantém a portas fechadas sua vida privada (dois casamentos e sete filhos com três mulheres é a única coisa que se conhece).
"A vida privada, na minha opinião, não deve ser instrumento da publicidade, nem da política", sentenciou em 1992.
Amado e odiado
"É o homem dos 'E's: ególatra, egoísta e egocêntrico". Assim Fidel Castro é definido pela dissidente Martha Beatriz Roque, 71. Quem se opôs, acrescenta, enfrentou uma tripla resposta: "a prisão, os espancamentos e os protestos de repúdio".
Fidel desafiou dez presidentes dos Estados Unidos antes que seu irmão Raúl, que o sucedeu no poder, decidisse restabelecer relações diplomáticas com seu adversário da Guerra Fria no fim de 2014, o que Fidel nunca se opôs que acontecesse.
Fidel Castro governou com mão de ferro, e durante anos (1990 e 2002) a ilha foi condenada internacionalmente pela situação de direitos humanos a pedido da desaparecida Comissão de Direitos Humanos da ONU.
Em 1959, o governo de fidel condenou a 20 anos de prisão o comandante de Sierra Maestra, Huber Matos, por insurreição. Na "primavera negra" de 2003 mandou prender 75 dissidentes, incluindo Martha Beatriz Roque, e nesse mesmo ano foram fuzilados três cubanos que roubaram uma lancha para fugir dos Estados Unidos.
Fidel sempre negou os pedidos internacionais para uma abertura política e considerou os opositores "mercenários". "Eu vou lembrar dele como um ditador", diz Roque.
Homem que virou mito
Enquanto proclamava o triunfo da revolução em 1959, várias pombas voaram a seu redor e uma delas pousou docemente em seu ombro. As pessoas entenderam como um sinal sobrenatural. O mito marcou a vida de Fidel.
Em um país onde o cristianismo se mistura aos cultos africanos, os cubanos atribuíram a Fidel a proteção do orixá Obatalá, o deus pai, o mais poderoso. Viam-no como um homem inabalável, que tinha solução para tudo, era considerado quase imortal até adoecer em 2006.
A figura paternal do "comandante", tão respeitada como temida, é onipresente. Era visto tanto no meio de um furacão, quanto ensinando a preparar uma pizza. Se acreditou até que se protegia com um colete à prova de balas. "Tenho um colete moral, é forte. Esse tem me protegido sempre", disse aos jornalistas enquanto mostrava o peito durante uma viagem aos Estados Unidos em 1979.
Fidel dizia não apreciar o culto à personalidade. Não há estátuas, mas sua imagem se multiplica na ilha.
Líder contagiante
Em 2001 Fidel Castro prometeu que traria de volta seus cinco agentes presos pelos Estados Unidos três anos antes. "Quando Fidel disse 'voltarão', disse ao povo cubano: vocês os trarão", disse René González, um dos cinco cubanos libertados por Washington entre 2011 e 2014. González ilustra assim o poder do ex-mandatário de contagiar com suas ideias, por mais incríveis que parecessem.
Mas nem sempre o Quixote caribenho venceu. Após um esforço titânico, não conseguiu, como tinha proposto, produzir 10 milhões de toneladas de açúcar em 1970. Mas conseguiu que Cuba derrotasse o analfabetismo em apenas um ano (1961).
Também se propôs a fazer de Cuba uma "potência médica", quando tinha somente 3.000 médicos no país. Hoje tem cerca de 88.000 especialistas, um para cada 640 habitantes.
Na ilha, proliferaram os "planos Fidel", experimentos sem sucesso para criar búfalos, gansos ou transformar Cuba em produtora de queijos de qualidade, quando ainda tinha um déficit de vacas.
Também não conseguiu que os Estados Unidos devolvessem o território de Guantánamo, cedido há um século, mas conseguiu trazer de volta o menino Elián González, levado clandestinamente em uma embarcação por sua mãe, que morreu na tentativa de chegar a Miami e cuja custódia provocou uma queda de braço entre Havana e Washington.
Dez anos longe do poder
Em julho, Fidel Castro completou 10 anos afastado do poder. No dia 31 de julho de 2006, a emissora oficial cubana de televisão anunciou que o líder da Revolução delegava provisoriamente a chefia de Estado a seu irmão, Raúl Castro, após ter passado por uma complicada cirurgia.
Após dois anos de rumores e especulações nos quais a saúde de Fidel foi um segredo de governo, Raúl foi nomeado formalmente presidente do Conselho de Estado em fevereiro de 2008. Um mês depois de ter chegado ao poder, iniciou as primeiras reformas econômicas.
Foi uma substituição suave e sem traumas que terminou de se consolidar em 2011, com a escolha do menor dos Castro como primeiro-secretário do Partido Comunista. Ao longo dessa década, Cuba deu um giro substancial: sem perder seus ideais revolucionários e estrutura comunista, o país embarcou em uma série de reformas econômicas ambiciosas e se reconciliou com seu histórico inimigo, os Estados Unidos.
Raúl, o artífice da "atualização socialista", empreendeu uma série de ambiciosas reformas - lentas demais, para muitos -, como abertura de setores à iniciativa privada, maiores facilidades ao investimento estrangeiro e o fim de restrições que afetaram os cubanos por décadas, como as viagens ao exterior ou a compra e venda de carros e casas.
Na Cuba de hoje, cerca de 500 mil pessoas são "cuentapropistas", uma nova classe de empreendedores, microempresários e trabalhadores autônomos que mudaram o panorama econômico do país com milhares de pequenos negócios, como restaurantes, cafeterias, hotéis, ginásios e salões de beleza.
A vida do cubano no período experimentou uma importante mudança com a reforma migratória de 2013, que permitiu que milhares de moradores da ilha saíssem do país e, em muitos casos, reconstruíssem famílias até então fragmentadas durante anos pelo exílio.
A possibilidade de adquirir um carro, uma casa, entrar em hotéis que antes só admitiam estrangeiros ou conectar-se à internet - ainda proibido nas casas - também aliviou parte da pressão no dia a dia.
Contudo, devido aos baixos salários e às dificuldades vividas por muitas famílias, as reformas não frearam o êxodo de cubanos, especialmente em direção aos EUA, motivados pelos benefícios migratórios, como ficou em evidência com a crise provocada no ano passado pelos emigrantes cubanos que lotaram a América Central.
Sem deixar sua fidelidade às causas do mundo em desenvolvimento, à esquerda e aos parceiros "bolivarianos", Raúl Castro construiu uma política externa mais pragmática e aberta que o aproximou, entre outros, da União Europeia, bloco com o qual Cuba assinou no ano passado o primeiro acordo de diálogo político e cooperação.
No entanto, não há dúvida que a mudança mais radical na Cuba "raulista" foi o descongelamento das relações diplomáticas com os EUA depois de mais de cinco décadas de tensões e atritos.
No dia 17 de dezembro de 2014, os presidentes Raúl Castro e Barack Obama anunciaram que Cuba e EUA restabeleceriam as relações, um giro diplomático que surpreendeu tanto a comunidade internacional como os próprios cubanos, que receberam a notícia com otimismo e alegria, apesar de um pouco de cautela.
Desde a data fatídica, o povo cubano, que espera com ansiedade o fim do embargo que asfixia a econômica do país, viveu eventos impensáveis quando Fidel deixou o poder: a reabertura da embaixada americana em Havana e uma visita de um presidente do país inimigo à ilha em março, algo que não ocorria há 88 anos.
Atraídos por essa imagem de "ilha proibida", milhares de americanos visitaram Cuba, que em 2015 bateu o recorde de 3,5 milhões de turistas, um "boom" que está fortalecendo a economia com receitas vitais em moeda estrangeira, mas que também evidência a frágil infraestrutura do país.
Também chegaram a Cuba empresários e investidores de todo o mundo para explorar opções de negócios e se adiantar em relação a seus concorrentes americanos diante de um eventual fim do embargo, apesar de a entrada de capital estrangeiro na ilha ainda enfrentar obstáculos.
A "nova" Cuba foi, além disso, palco de eventos impensáveis na época de Fidel, como o histórico show do The Rolling Stones em março de 2016 ou o desfile da marca Chanel em uma avenida central de Havana dois meses depois.
Do UOL, com agências internacionais
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